segunda-feira, 29 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall

O velho e o moço


Pois é, já são 50 anos de James Bond nas telas de cinema. Ao logo dessas décadas, o agente 007 – os dois zeros antes do 7 significam que ele tem “permissão para matar” - tornou-se um ícone pop como poucos, um símbolo de masculinidade que foi se adaptando às mudanças dos costumes sociais e da própria profissão de espião, mas que continua povoando o imaginário popular e rendendo sempre ótimas bilheterias. Nos últimos anos, a franquia mais longeva do cinema vem passando por uma especial renovação, não apenas no que diz respeito ao ator que encarna o protagonista. Desde o reboot “Cassino Royale” (2006), o tom mais sisudo e realista, aliado a um estilo de ação influenciado pela trilogia Bourne, deu uma sacudida na série que agradou em cheio tanto o público quanto a crítica. Aliado a isso, veio o novo intérprete Daniel Craig, certamente o melhor James Bond desde o lendário Sean Connery. Eu mesmo me atrevo a dizer que Craig é tão bom quanto Connery, cada um fazendo o melhor pelo personagem em seus respectivos momentos históricos.

Para comemorar as bodas de ouro da franquia não haveria melhor opção do que mais um episódio com alto nível de qualidade. E, confesso, depois da experiência somente razoável de “Quantum Of Solace” (2008), dirigido por Marc Forster, temi pela escolha de Sam Mendes para assumir a direção. Gosto de Mendes, um grande diretor de filmes como “Beleza America” (American Beauty, 1999) e “Estrada Para Perdição” (Road To Perdition, 2002), mas ele não tinha experiência no comando de filmes de ação blockbuster como este. Contudo, ainda bem que minhas apreensões não se confirmaram. O que se vê em “007- Operação Skyfall” é realmente um dos melhores episódios da cinesérie, chegando próximo ao patamar do citado “Cassino Royale” e de clássicos como “007 Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964). E mais, o filme possui elementos da filmografia de Mendes que o tornam não apenas mais um longa em sua carreira, mas como verdadeiramente integrante de seu perfil autoral. Mendes desenvolveu com este “Skyfall” uma ótima metáfora do eterno conflito entre o novo e o antigo, entre as tradições e a vanguarda, um tema recorrente em suas obras que se encaixa à perfeição com o próprio momento da série do agente britânico, a qual, nos últimos episódios, vem justamente buscando um novo tom mais sintonizado com o mundo contemporâneo.


A trama desta nova película é uma das mais engenhosas concebidas para o espião. Nela, vemos Bond ser dado como morto logo no início da projeção, em consequência de uma atitude equivocada de M (Judi Dench)* no comando da missão. Diante de seus últimos insucessos e seguidas perdas de agentes em campo, o trabalho de M à frente da divisão de espionagem do Serviço de Inteligência britânico, o MI-6, começa a ser questionado por seus superiores, entre eles Gareth Mallory (Ralph Fiennes), que ameaça aposentá-la compulsoriamente. Para completar o quadro, a própria sede e sistema de dados do MI-6 são atacados por uma quadrilha de hackers comandada por Silva (Javier Bardem, sensacional!) um ex-agente que sentiu traído por M no passado, buscando vingança a qualquer custo. É nesse quadro que se coloca um especial desenvolvimento na relação entre Bond e sua superiora, em uma abordagem inédita na franquia. A partir desta linha principal, o longa é pontuado por vários momentos que emanam a questão da finitude. Uma das sequências, em que Bond se encontra com Q (agora interpretado pelo jovem Ben Whishaw) revela em poucas palavras e imagens o mote de toda a narrativa ao focar em uma pintura que retrata um velho navio de guerra prestes a naufragar. A própria relação de Bond com Q, o inventor das traquitanas tecnológicas que usa, reflete esse conflito entre “o velho e moço” (para citar uma música do Los Hermanos) que jamais cessará.


Mas não é só de papo-cabeça que vive “Operação Skyfall”. A ação está lá, quase desenfreada com sequências espetaculares muito bem dirigidas por Mendes (como é bom assistir a um filme de ação sem tremedeira na câmera!) e com um vilão certamente dos mais memoráveis da cinesérie, com motivações mais sinceras do que ideias mirabolantes de conquista e destruição do mundo. Impressionante como Javier Bardem não consegue atuar mal e rouba a cena em todas as circunstâncias. E olha que seu personagem, o tal Silva, só aparece lá para a metade da projeção. Outras boas atuações também são a de Judi Dench, finalmente com um espaço maior para desenvolver a sua M, e, claro, o próprio Daniel Craig, encarnando Bond de uma forma que hoje fica difícil imaginar o herói sem a sua imagem.

“Operação Skyfall”, entretanto, peca por uma certa previsibilidade a partir da metade da narrativa e suas duas bondgirls, tanto Naomie Harris como a francesa Bérénice Marlohe, não dizem muito a que vieram, neste ponto ficando a muitos quilômetros de distância da presença central e marcante da bondgirl de Eva Green em “Cassino Royale”. Mas é bom ressaltar que estes são problemas menores que, se contribuem para deixá-lo um pouco abaixo do nível obtido por Martin Campbell no longa de 2006, não chegam a realmente interferir em ótimos 146 minutos (que não se sentem) de apreciação. Sam Mendes, tal como Christopher Nolan com a franquia de Batman, mostra aqui que é possível, sim, colocar um viés artístico próprio mesmo em blockbusters feitos para levar milhões às salas. E, de quebra, ainda temos música de Adele ao longo dos ótimos créditos iniciais do longa-metragem. Tem coisa melhor do que comer pipoca com classe e inteligência? E que venha o próximo 007, como bem anunciado antes dos créditos finais.



Cotação:



Nota: 9,0



*Nota com SPOILER: corre a notícia de que o fim da personagem de M na franquia se deve a uma doença degenerativa nos olhos de Judi Dench que pode deixá-la cega.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na Estrada

Viagem cansativa


De antemão, vou avisando que nunca li “On The Road”, a obra literária de Jack Kerouac agora adaptada pelo nosso Walter Salles para o cinema. Imagino que seja um bom livro, afinal nada nessa vida é impune e seu sucesso e respeito ao longo de décadas deve ter os seus méritos. Vamos falar aqui, portanto, apenas da obra cinematográfica, o filme enquanto filme, abstraindo o fato de ser uma adaptação. Sob esta ótica, posso dizer que o resultado final é, no mínimo, bastante discutível.

É verdade que Francis Ford Copolla, detentor dos direitos de adaptação para o cinema desde os anos 70, esperou todo esse tempo para por em prática o seu projeto porque nunca havia encontrado o diretor ideal (o que nos levar a imaginar que ele próprio se achava incapaz para a tarefa) até assistir a “Diários de Motocicleta” (2004), o road movie (ótimo, é bom lembrar) dirigido por Walter Salles que narra as viagens feitas por Ernesto Guevara de La Serna em sua juventude, ou seja, antes de ser mundialmente conhecido como “Che” Guevara. De fato, Salles mostrou-se um grande diretor de filmes de estrada não apenas por este trabalho, mas também por “Central do Brasil”, longa que tornou seu nome famoso ao receber duas indicações para o prêmio da Academia de Hollywood – melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro). Além disso, sempre foi um artista de grande sensibilidade, demonstrada ainda em outras obra como “Abril Despedaçado” (2001) e “Linha de Passe” (2008, juntamente com Daniela Thomas). Ao lado de Salles, outros nomes que figuram nos créditos de “Diários de Motocicleta” foram levados para o projeto, entre eles o roteirista Jose Rivera e o diretor de fotografia Eric Gautier. Adicione-se que o longa ainda conta com um baita elenco, salpicado por vários nomes famosos e competentes que fariam a alegria de qualquer diretor. Com tanta gente boa junta, este poderia ser considerado um projeto que não tinha como dar errado. Infelizmente, as coisas não correram tão bem assim. 


Não se pode negar que a fotografia de Gautier é muito bonita e que existe toda uma contextualização da vida daqueles jovens, integrantes da famosa geração “Beatnik,” que deve ser observada. Eles cresceram durante a Segunda Guerra Mundial e acabaram por desenvolver um visão de mundo existencialista bastante influenciada por nomes como Jean-Paul Sartre e Albert Camus. É nítido que suas viagens são a busca de um sentido para a vida, ou a crença na falta de tal sentido para a mesma. As drogas e o sexo transgressor, portanto, não são gratuitos na tela, assim como o fato de Sal Paradise (Sam Riley), alter-ego de Jack Kerouac, enxergar no inconsequente Dean Moriarty (Garrett Hedlund) um exemplo libertário soa, até certo ponto, natural. O problema é que, mesmo entendendo perfeitamente o contexto, o filme de Salles se mostra quase tedioso, uma sucessão sem fim de bebedeiras, viagens alucinógenas e orgias que não nos levam a qualquer empatia com os personagens.


A sensação de tédio pode ser realçada pelo caráter episódico da narrativa, a qual relata as viagens de Sal ao lado de Dean e a maluquete Marylou (Kristen Stewart, estranhamente bem no papel), numa relação que às vezes parece remeter a “Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois” (Jules et Jim, 1962), uma das grandes obras de François Truffaut. Vamos de viagem em viagem, de lá para cá, do Leste para o Oeste e vice-versa e acabamos com a impressão de que estamos vendo as mesmas cenas, principalmente diante dos injustificáveis 137 minutos de projeção. Sal, o protagonista, muitas vezes parece um maria-vai-com-as-outras, sempre seguindo Dean nas suas aventuras. Entretanto, não se pode negar que diante de tantas loucuras, surgem algumas sequências bem divertidas e alguns dos tipos que vão aparecendo são inegavelmente interessantes, como Old Bull Lee (que na realidade seria o escritor William S. Burroughs), interpretado com boa presença por Vigo Mortensen, ou Camille (Kirsten Dunst, ótima), que acaba se tornando esposa de Dean Moriarty. Da mesma forma, o desfecho se revela bem elaborado (imagino que bem adaptado), colocando em evidência as decepções de Sal com o seu amigo “libertário”, mas que no fundo vai se mostrando tão somente um irresponsável compulsivo, incapaz de levar qualquer relacionamento de forma madura, sendo levado a tomar toda e qualquer atitude tendo como único referencial o próprio ego.

Entretanto, suas virtudes acabam se mostrando poucas para um filme baseado em uma obra tão aclamada. Talvez a culpa seja do próprio livro, que muitos consideravam como inadaptável. Na película, são visíveis os esforços de todos os envolvidos no projeto para captar a essência, o espírito da obra de Jack Kerouac, mas tais esforços de mostraram aparentemente frustrados. Aparentemente, trata-se da primeira vez em que Walter Salles realmente errou a mão. Ou será que o livro adaptado é chatinho mesmo? Com a palavra, aqueles que já tiveram a oportunidade de ler suas páginas.



Cotação:
  


Nota: 6,5

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva



   

O Segredo da Porta Fechada

(Secret Beyond The Door, 1947)


A “má fase” de Fritz Lang


A carreira do genial cineasta austríaco Friedrich Anton Christian Lang, mais conhecido pelo nome artístico Fritz Lang, é mais lembrada hoje pela sua fase europeia e expressionista, quando concebeu obras-primas como “Metropolis” (1927) e “M – O Vampiro de Dusseldorf” (M - Eine Stadt sucht einen Mörder, 1931) do que pela sua fase nos Estados Unidos, país para o qual emigrou fugindo do nazismo. Muitos o acusaram de ter se vendido a Hollywood, realizando películas de viés comercial e pouca relevância artística. Trata-se, contudo, de uma visão apressada e injusta, já que, em Hollywood, Lang ajudou a criar o que hoje se convencionou chamar “cinema noir”, o tipo de filme que dominou a produção média estadunidense durante os anos 40, onde heróis de caráter nem sempre exemplar se envolviam com mulheres fatais e tramas policiais ou misteriosas. Há ainda uma vertente mais feminina do noir, que alguns denominam de “gótico feminino”, onde normalmente mulheres apaixonadas se veem diante de situações misteriosas ou possuem comportamento obsessivo. É o caso de clássicos como “Amar Foi Minha Ruína” (Leave Her To Heaven, 1945), de John M. Stahl; e “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), de Alfred Hitchcock. “O Segredo da Porta Fechada”* (Secret Beyond The Door) é um dos filmes de Lang que se encaixam nessa definição de “noir feminino” e demonstram que seu talento estava longe de algo que se possa adjetivar como “em baixa”.

Esta foi a segunda e última produção da Diana Productions, empresa criada por Lang, o produtor Walter Wanger, sua então esposa e estrela Joan Bennett (Diana era o nome da filha do primeiro casamento de Bennett) e Dudley Nichols. Devido ao fracasso comercial do longa, a produtora acabou falindo, mas é difícil entender os motivos de seu insucesso. Afinal, trata-se de uma obra com um roteiro elaboradíssimo e uma direção que constrói um clima extremamente tenso que nos deixa vidrados na tela e grudados na poltrona. Inspirado pelo citado “Rebecca”, Lang acabou gerando um suspense que não fica nada a dever aos do mestre Hitchcock. Com seu tom onírico e subtexto freudiano, “O Segredo da Porta Fechada” antecipou ainda em décadas os suspenses psicológicos que teriam em Roman Polanski um dos seus maiores expoentes em filmes como “O Bebê de Romary” (Rosemary's Baby, 1968). Ou seja, mais uma obra dentre tantas que sofreu da incompreensão tanto do público quanto da crítica, mas que merecia um destino melhor.


Na trama, Joan Bennett – bela e com atuação convincente - vive Celia, uma rica, mas insegura mulher muito protegida por seu irmão mais velho. O falecimento deste lhe deixa sem um porto seguro e ela acaba se apaixonando e casando rapidamente com Mark Lamphere (Michael Redgrave), um milionário charmoso, mas que aos poucos vai se demonstrando misterioso em igual medida. Ele possui a estranha mania de colecionar quartos de mulheres vítimas de assassinato, todos devidamente alocados na sua enorme mansão. Só que um deste quartos, o sétimo, encontra-se permanentemente trancado e Mark se recusa a revelar o que há no seu interior. O mais interessante é que Celia, ao contrário do que se poderia banalmente supor, não se move a tentar descobrir o que há por trás da tal porta apenas por uma mera curiosidade ou o temor de estar diante de um psicopata ou algo do tipo. Seu motor é o amor que sente por Mark e o desejo de ajudá-lo a superar possíveis traumas que o levariam a ter esse comportamento estranho. Tal contexto traz um ótimo diferencial para a personagem de Bennett, sendo ainda mais reforçado pela narração em off da própria Celia, demonstrando que várias de suas atitudes, que poderiam parecer bobas à primeira vista, são tomadas depois de muita reflexão e angústia. Ademais, o recurso faz com que mergulhemos na subjetividade da protagonista, envolvendo-nos com suas dúvidas cada vez mais inquietantes.

A narrativa também se mostra ideal para que Lang ponha em prática suas teorias sobre a essência do ser humano. Para ele, todo homem é um criminoso em potencial. Dizem que ele chegava mesmo a perguntar às pessoas se elas já não tinham desejado matar alguém e ficava frustrado diante de respostas negativas, acreditando serem mentirosas. O personagem de Mark é justamente a representação dessas ideias. Será ele um criminoso de fato ou somente no plano imaginativo? Para Celia, a melhor resposta não seria nenhuma das duas, claro, mas, com o desenrolar dos acontecimentos, a segunda opção aparece como relativamente confortável.


Vale dizer que o suspense psicológico não seria tão eficiente sem a interação com a fotografia e a trilha sonora. Stanley Cortez, o mesmo diretor de fotografia de obras-primas como “O Mensageiro do Diabo” (The Night Of The Hunter, 1955), apresenta aqui mais um trabalho brilhante em p&b. A sequência em que Celia está prestes a desvendar o tal segredo atrás da porta é uma verdadeira aula de enquadramento e utilização do contraste entre luz e sombras. Da mesma forma, a inspirada trilha de Miklós Rózsa garante o tom certo para cada sequência, principalmente as mais tensas. As atuações também não deixam a desejar, principalmente a da ótima Joan Bennett, perfeita como uma heroína romântica, mas ao mesmo tempo inteligente, proativa e angustiada.

É verdade que o filme deixa de atingir o status de obra-prima devido ao seu desfecho meio apressado e até certo ponto insatisfatório. Entretanto, isso não significa dizer que é uma obra menor dentro da filmografia de um referencial da Sétima Arte. Trata-se de um belíssimo representante de um quase gênero (sim, pois o noir é mesmo um gênero?) dos mais cultuados e estudados da história do cinema e do qual Fritz Lang foi um dos criadores. Trazendo da Europa seus conceitos expressionistas, ele misturou suas origens com o formato hollywoodiano para criar um novo jeito de fazer cinema que ainda encanta mesmo décadas depois. Pois é, esta é a “má fase” (para usar uma expressão consagrada no futebol) de Fritz Lang. Mais uma prova de que os críticos erram, e muito, em suas avaliações imediatistas.


Cotação:



Nota: 9,5

*O filme possui outras duas versões em português para o seu título. São elas “O Segredo Atrás da Porta” e “O Segredo da Porta Cerrada”. Preferimos adotar no texto a tradução usada na recente edição lançada em DVD no mercado brasileiro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Looper - Assassinos do Futuro


A primeira impressão é a que fica

Se fosse utilizar apenas um adjetivo para definir este “Looper – Assassinos do Futuro” com certeza seria “estranho”. Foi o que comentei com minha esposa aos sairmos da sessão no cinema, ainda meio atordoados por uma trama que mistura viagens no tempo com mutações genéticas que lembram os filmes dos X-Men e até mesmo “Akira”, a animação japonesa cult de Katsuhiro Otomo. No entanto, o adjetivo “estranho” merece ser visto aqui não como um demérito, mas antes como uma virtude do longa dirigido pelo pouco conhecido Rian Johnson. Tal como filmes como “Star Wars” ou “Matrix”, “Looper” tem o mérito de propor um universo ficcional com regras e nuances próprias, mesmo que, ao analisarmos mais detidamente, elas se mostrem como uma mistura de ideias já vistas em outros produtos pop.

A trama, meio confusa como normalmente sucede com longas sobre viagens no tempo, narra a vida de Joe (Joseph Gordon-Levitt), um “looper”, uma espécie de matador de aluguel encarregado de eliminar vítimas enviadas do futuro, devendo também se livrar dos seus corpos (tarefa fácil, já que o corpo é de alguém que nem existe no tempo em que se passa a narrativa). Os problemas começam quando o alvo enviado do futuro para execução é o próprio Joe algumas décadas mais velho (interpretado por Bruce Willis), o que irá gerar uma série de descontinuidades temporais bem ao estilo “De Volta Para o Futuro” (Back To The Future, 1985). Para tentar evitar o assassinato da sua esposa, o Joe “velho” vai tentar eliminar o futuro líder da máfia em questão, o qual parece ser um garoto com poderes mutantes telecinéticos descontrolados (acredito que semelhanças com “O Exterminador do Futuro” também não são mera coincidência).

O problema deste tipo de enredo é que, inevitavelmente, surgirão várias pontas soltas e seu final em aberto, denotando a intenção de construir uma franquia a partir deste, deixa a situação ainda pior. Mas não se pode negar que Johnson sabe conduzir seu material e o espectador, a partir de metade da projeção, já está totalmente envolvido pelo universo proposto, por mais estranho e absurdo que ele possa parecer (o que em geral acaba invariavelmente sucedendo com este subgênero de ficção científica). Jonhson consegue atribuir uma personalidade inesperada a um filme que poderia fracassar de maneira retumbante em mãos erradas ou apresentar apenas mais do mesmo. Além disso, o roteiro, escrito pelo próprio Rian Johnson, apresenta conotações sociais ao insistir constantemente na assertiva de que o caráter de um indivíduo em boa medida é moldado pelo meio onde ele vive. O próprio Joe se apresenta como vítima das circunstâncias, revelando um passado turbulento, comentado pelo mesmo ao longo da narrativa. Há ainda um clima de máfia japonesa no ar (mais uma referência), dadas a violência e crueldade com que agem os integrantes da máfia em questão.

Para a credibilidade do protagonista, por outro lado, contribui muito a participação decisiva de um ator de qualidade como Gordon-Levitt. Com mais uma boa atuação, Levitt chegou a usar próteses e uma competente maquiagem para ficar mais parecido com Bruce Willis, uma vez que ambos interpretam o mesmo personagem. Até as canasctrices de Willis são bem captadas por ele, numa perfeita simbiose que nos faz ter a sensação de realmente estarmos diante do mesmo personagem. Emily Blunt como Sara, mãe do garoto que passa a ser ponto central dos acontecimentos, também aparece com boa presença. Em outra vertente, a fotografia, com tons escuros, e a trilha sonora são outros fatores que ajudam a criar a tensão e o suspense, principalmente a partir da segunda metade da projeção.

Contudo, o que realmente compensa em “Looper”, a despeito de seu bom aparato técnico-artístico, é a sensação de estarmos vendo algo novo, mesmo que este “novo” aponte fortes referências de obras predecessoras. Ele não é baseado em livros ou HQs, não continuação, remake, prequel ou qualquer coisa que o valha. Trata-se de um filme em que um cineasta resolveu contar uma história que simplesmente lhe passou na cabeça e isso, diante da pouca inspiração do cinemão pipoca dos últimos anos, é um grande trunfo que nos faz olhar para ele com uma primeira impressão de simpatia. Dizem por aí que “a primeira impressão é a que fica”. E, ao menos com este que vos escreve, a primeira impressão de estar diante de uma agradável estranheza foi a que ficou.


Cotação:
Nota: 8,0

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinebiografias: 7 filmes essenciais

Normalmente costumamos considerar as adaptações da vida de personalidades levadas às telas do cinema como inseridas no gênero “drama”, o que, em sua maior parte, não deixa de se colocar como um definição correta. Entretanto, tal como ocorre na literatura, acredito que as biografias no cinema formam um subgênero e que vem sendo muito explorado nos últimos anos. Basta lembrar que em breve teremos dois novos e aguardados filmes com figuras famosas: “Lincoln”, dirigido por Steven Spielberg e com Daniel Day-Lewis no papel do presidente norte-americano, e “Hitchcock”, com Anthony Hopkins no papel título. É bom até destacar que se trata de um subgênero adorado pelos atores, já que suas interpretações de papeis de personagens históricos costuma render prêmios e elogios da crítica e do público. Abaixo, o Cinema Com Pimenta listou 7 produções que têm como tema a vida de personalidades reais adaptadas para o cinema com competência e méritos artísticos, algo por vezes difícil, dada a complexidade da alma humana. Afinal, é fácil cair no erro de mostrar o biografado como “bonzinho” ou “malvado”. Bem, vamos aos filmes.


7) “2 Filhos de Francisco” (2005) – Quando vi pela primeira vez o poster deste filme, eu desdenhei completamente de seu potencial. “Um filme sobre a vida de Zezé di Camargo e Luciano? Deve ser péssimo...”. Mas que engano! O diretor Breno Silveira conseguiu a proeza de realizar um filme bastante popular sem apelar para o melodrama barato, com uma narração muito bem amarrada e ainda contando com ótimas atuações, desde os atores mirins até a excelente presença de Ângelo Antônio como o pai da dupla sertaneja, um homem de muita perseverança e com um otimismo que beira a maluquice. A verdade é que o filme é tão bom que passei até a simpatizar com os cantores depois dele. Agora, espero sempre um algo a mais dos longas de Silveira, o qual em breve estará com “Gonzaga – De Pai Para Filho” no circuito comercial;



6) O Aviador (The Aviator, 2004) – Muitos criticaram esta biografia do milionário Howard Hughes porque seu diretor, Martin Scorsese, teria fugido de suas características autorais para, com isso, conquistar os membros da Academia de Hollywood e levar o Oscar de melhor diretor para casa (naquela ocasião, ele ainda não havia sido premiado com o careca dourado). Considero esta visão bastante equivocada. Aqui, mais uma vez Scorsese aborda um personagem socialmente deslocado, como já havia feito em “Touro Indomável” (Raging Bull, 1980) e “Taxi Driver” (1976), solitário na sua visão de mundo e que busca ardorosamente uma aceitação. Em “O Aviador” a ironia se torna ainda maior por se tratar de um homem bem-sucedido, invejado e idolatrado por muitos, mas que vai aos poucos perdendo a sanidade devido à ausência de compreensão dos seus contemporâneos. Vale dizer que Leonardo DiCaprio está simplesmente ótimo no papel do biografado e que a produção é impecável na sua reconstituição de época, fotografia e edição (de Telma Schoomaker, colaboradora habitual de Scorsese). A cena final, com Hughes pronunciando obsessivamente a frase “o caminho do futuro”, é memorável e genial;


5) Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007) – Já tive a oportunidade de resenhar este filme anteriormente e a verdade é que ele vai ficando melhor com o passar do tempo. Muito lembrado pela atuação espírita de Marion Cottilard (poucas vezes o Oscar foi tão inquestionável quanto aqui), o longa, entretanto, vai muito além de ser apenas um “filme de ator” (no caso, atriz). Extremamente bem dirigido por Olivier Dahan, ele impacta o espectador com a força da poderosa história de Edith Piaf, a voz mais famosa da França, a qual teve uma vida conturbada e cheia de lances tristes que mais pareceriam sair de um novela não fossem verdadeiros. Alguns apontaram que certas partes pouco honrosas de sua trajetória foram amenizadas no filme, o que provavelmente é verdade, mas, por outro lado, não se pode negar que o resultado final é capaz de emocionar o mais duro dos corações;


4) Amadeus (1984) – Auge da carreira de Milos Forman, que já havia mostrado sua excelência em “Um Estranho No Ninho” (One Flew Over The Cuckoo's Nest, 1975). A biografia de Wolfgang Amadeus Mozart ganhou contornos de pura arte que fizeram jus ao patamar artístico do músico. Claro que toda a história envolvendo Salieri (no filme interpretado por F. Murray Abraham), posto aqui como o estranho que assombrava Mozart no fim de sua vida, é pura suposição e romanceamento, mas,em termos artísticos, o resultado é simplesmente sensacional. Os oito Oscars levados pela produção foram muito merecidos e as gargalhadas histriônicas do Mozart de Tom Hulce são inesquecíveis;


3) Touro Indomável (Raging Bull, 1980) – Segundo filme de Scorsese na lista (sim, eu adoro Scorsese) e, talvez, o seu melhor trabalho. O longa mostra a vida do boxeador Jake La Motta, um homem bruto e incapaz de construir relacionamentos duradouros, ferindo até aqueles que mais ama. A interpretação de Robert De Niro, que lhe rendeu o prêmio da Academia de Hollywood como melhor ator, tornou-se lendária e muita gente que nem viu o filme sabe que ele engordou dezenas de quilos para interpretar o personagem na maturidade. Sua sequência inicial de créditos, ao som da "Cavalleria Rusticana", é algo sublime, assim como suas cenas de luta, com socos em close, tornaram-se uma verdadeira referência pop. Filme para ser visto e revisto;


2) O Homem-Elefante – (The Elephant Man, 1980) – Também já tratei deste filme em outra oportunidade. Uma obra pungente sobre a melancólica vida de John Merrick (no filme, interpretado por John Hurt, que perdeu o Oscar para Robert De Niro por “Touro Indomável), o tal “Homem Elefante” do título, um infeliz portador de uma doença rara que o deixa com uma aparência terrível. “Uma bela alma aprisionada em um corpo horrível”, nas palavras do seu diretor, o então pouco conhecido David Lynch. Às vezes é até difícil acreditar que tamanho sofrimento possa ter ocorrido de verdade. Contudo, Lynch jamais deixa-se levar pelo sentimentalismo barato, compondo uma película com tons expressionistas, mas ao mesmo tempo extremamente humanos. Filme a que todo ser humano deveria assistir pelo menos uma vez na vida;


1) Lawrence da Arábia (Lawrence Of Arabia, 1962) – Talvez seja esta a obra máxima de um mestre entre os mestres: David Lean (eu também amo “Dr. Jivago”, por isso o “talvez”). Megalomaníaca e genial ao mesmo tempo, a história do oficial britânico T. E. Lawrence, adaptada para o cinema a partir de seu livro “Os Sete Pilares da Sabedoria”, arrebata o espectador com sua grandiosidade, atuações perfeitas (Peter O'Toole merecia o Oscar) de um elenco estelar (ainda temos Anthony Quinn, Omar Sharif, Alec Guinness e até Claude Rains), fotografia soberba e qualquer outro adjetivo hiperbólico que você queira atribuir. Acredito até que David Lean vem sendo pouco valorizado pelas novas gerações de diretores, críticos e cinéfilos, algo que pode estar ocorrendo devido ao tempo diferente de suas obras, inadequadas ao ritmo veloz dos nossos dias, quando estamos cada vez mais impacientes. Um erro que precisa ser corrigido.

sábado, 29 de setembro de 2012

Eu Quero Esse Pôster #21

Há filmes que, antes mesmo de sua estreia no circuito, sabemos de antemão que serão candidatos a prêmios. Alguém tem dúvida que Sir Anthony Hopkins será indicado ao Oscar de melhor ator pela sua interpretação do mestre do suspense em "Hitchcock"? Não? Nem eu. O filme, dirigido por Sacha Gervasi, narra a produção de "Psicose" e tem estreia prevista para 23 de novembro nos EUA. Além de Hopkins, o longa ainda conta com nomes como Helen Mirren (no papel da esposa de Hitchcock) e Scarlett Johansson (fazendo Janet Leigh). Ah, e o poster acima já se tornou icônico!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Jogos Vorazes 
(The Hunger Games, 2012)



Ação cabeça


Exercício interessante poder avaliar um sucesso de bilheteria algum tempo depois do seu lançamento. É possível que, ao escrever sobre um filme logo quando da sua estreia nas salas de exibição, acabemos por nos deixar influenciar pelo “oba-oba”, seja por parte dos críticos ou mesmo do público. Claro que vendo o filme em video, podemos perder o impacto que uma obra pode causar na tela grande, ambiente mais adequado para uma apreciação cinematográfica, mas vê-lo longe de influências de opiniões na internet ou de amigos pode ser tão produtivo quanto. É o que aconteceu comigo ao assistir, após 6 meses de seu lançamento, este “Jogos Vorazes”, sucesso com Jennifer Lawrence, uma das novas queridinhas de Hollywood (merecidamente, é bom frisar).

Trata-se de mais uma franquia inaugurada no cinema, baseando-se na trilogia juvenil da escritora Suzanne Collins (que continua com os volumes “Em Chamas” e “A Esperança”) e que busca, obviamente, arrebatar mais um horda de fãs que sustentem suas prováveis continuações com muito lucro. Mas é importante destacar logo que “The Hunger Games” está longe de ser uma obra anencéfala, muito embora suas premissas não sejam exatamente originais. Alguns anos atrás, o conceito de jovens gladiadores que lutam entre si até a morte em um futuro próximo já havia sido sucesso no Japão com “Batalha Real”, livro de Koshun Takami posteriormente adaptado para mangá e cinema. Há ainda um certa pitada de “O Sobrevivente” (The Running Man ,1987), filme com Arnoldão então no auge de sua popularidade oitentista. É possível ainda apontar semelhanças com “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, escrito por Aldous Huxley. Entretanto, embora traga uma nítida influência destas obras predecessoras, é possível afirmar que “Jogos Vorazes” possui uma identidade própria que o distingue de livros e produções com temáticas semelhantes.

Nesta distopia dirigida por Gary Ross (um outro filme dele é “Seabiscuit – Alma de Herói”), temos uma América do Norte dividida em treze“regiões”, sendo elas a Capital e 12 distritos. Devido a uma revolução mal sucedida no passado, os doze distritos são obrigados anualmente a enviar dois jovens entre 12 e 18 anos (um homem e uma mulher) à Capital para a disputa de um reallity show macabro onde eles deverão se digladiar até restar apenas um vencedor. Katniss Everdeen (Lawrence), protagonista da trama, é a representante feminina do distrito 12. Ela se coloca como voluntária para livrar suas irmã menor do fardo, já que esta havia sido sorteada para a participação. Com ela irá também Peeta Mellark (Josh Hutcherson), um rapaz que parece nutrir por ela uma especial afeição, muito embora sua postura se apresente constantemente ambígua.

Talvez o ponto que mais salte aos olhos quando do início da narrativa é a semelhança que a personagem de Lawrence tem com seu outro papel em “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010). Em ambos o casos, ela interpreta uma jovem forte que age de maneira corajosa a fim de proteger sua família. Uma heroína na defesa da mais forte e longeva das instituições sociais, portanto. Porém, se a abordagem de “Inverno da Alma” é mais intimista, aqui a história de Katniss serve como mote para reflexões acerca de controle social e espetáculo midiático, mormente a forma como este último serve à manutença do primeiro, agindo como um dos elementos importantes da ideologia que nos faz enxergar a realidade por meio de um “filtro” que nos deixe domesticados. É justamente esse status quo que será posto em xeque a partir das atitudes de Katniss, as quais acabam por levar os responsáveis pelos jogos a mudar suas regras. É inegável que o longa induz o espectador a vários questionamentos, principalmente ao aproveitar situações recorrentes nos reality shows do dia a dia, como as conhecidas associações momentâneas entre os concorrentes visando eliminar outros tantos oponentes.


Além de sua vertente questionadora, a película também impressiona por trazer a brutal violência entre adolescentes. Mesmo que não seja uma ideia exatamente original, como dito mais acima, ela não deixa de ser incômoda e o diretor Gary Ross se sai muito bem ao mostrar as agressões de maneira menos gráfica, mas sem que ela perca seu impacto. Para tanto, utilizou-se de uma edição elíptica que em outros filmes poderia ser vista como defeito, mas aqui se transforma em virtude. Ross também empreende à narrativa um ótimo ritmo, jamais tornando-se cansativa e que conta ainda com um elenco de peso. A escolha de Jennifer Lawrence para o papel foi perfeita. Ela é uma das jovens atrizes mais promissoras do cinema norte-americano atual, aliando à sua beleza um talento indiscutível. Impressionante como ela consegue nos fazer torcer por seu destino desde o início do filme. Josh Hutcherson também entrega boa atuação como o dúbio Peeta, emprestando veracidade a um personagem que nunca sabemos quais são suas verdadeiras intenções. Juntando-se a eles, ainda temos nomes como Woody Harrelson, Donald Shuterland e Stanley Tucci, todos com boa presença. O ponto fraco fica para presença de Lenny Kravitz como o figurinista Cinna, um do mentores de Katniss, personagem que merecia um intérprete melhor. Outros pontos negativos infelizmente ainda podem ser apontados. O desenrolar do roteiro (escrito pelo diretor Ross e Billy Ray juntamente com a própria autora dos livros ) por vezes se mostra previsível demais, sendo possível antecipar várias das suas ações. São muitas pistas que são deixadas e o espectador termina por antever muito do que está por vir. A película também possui uma trilha sonora esquecível, que nada contribui para o clima de tensão (mais marcante nos seus silêncios), além de uma caracterização um tanto infeliz para os moradores da Capital, normalmente com um visual bastante afetado., em alguns casos beirando o ridículo.

Por outro lado, é inegável que “Jogos Vorazes” é um filme que instiga e estimula o espectador à reflexão, tanto que mal sentimos seus 137 minutos passarem. Lembrando que o seu público é principalmente o jovem, uma franquia como esta se mostra muito bem-vinda, uma vez que possui um inegável viés político e contestador. Uma aventura cabeça que por vezes nos leva à impressão de ser na verdade uma crítica com verniz de filme de ação do que um longa de ação com nuances contestadoras. A diferença entre os dois casos não é pequena, como pode parecer, e ver que uma produção com tais conotações alcançou um grande êxito nas bilheterias é revigorante. Que venham logo os próximos episódios.


Cotação:
 Nota: 8,5

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Será que dessa vez temos chances?


Foi com alegria e satisfação que li a notícia, agora à tarde, que "O Palhaço" foi escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Além dos inegáveis méritos do filme, uma pérola recente do nosso cinema, "O Palhaço" é detentor de características propícias a se tornar um dos 5 indicados na noite do Oscar 2013, ao contrário do nosso concorrente anterior. "Tropa de Elite 2" também é um longa excelente, mas muito violento e com uma temática muito voltada para o nosso público. Já o filme de Selton Mello é uma obra lírica, de inspiração felliniana e com potencial para agradar a todos os públicos, das mais diversas nacionalidades (além dos velhinhos da Academia). Confesso que sou fã de "O Palhaço" e desejo toda a sorte a nosso representante nessa corrida. Caso vença, o careca dourado estará em ótimas mãos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Último Tango em Paris
(Ultimo Tango a Parigi/Le Dernier Tango à Paris, 1972)


Um filme no museu de arte


A sequência mais famosa de “Último Tango em Paris”, conhecida mundialmente como “cena da manteiga”, poderá deixar aqueles que virem a obra de Bernardo Bertolucci pela primeira vez um tanto decepcionados. Sim, pois se estiverem esperando uma cena de alta voltagem erótica, como muito se alardeia por aí, não será exatamente isso que verão. Ao assistir dita sequência a sensação que me veio foi a de estar presenciando um ato de violência sexual, passando até longe de nuances verdadeiramente sensuais que estimulem o espectador a desejos eróticos ou algo que o valha. Ou seja, muito mais do que sexo, o que vemos é uma agressão. E é possível que somente nos tempos de hoje, onde sexualidade e erotismo estão cada vez mais explícitos até mesmo na televisão, tenhamos uma compreensão melhor, mais apurada, deste longa de 1972 que se tornou um dos mais influentes do cinema ao longo das últimas décadas.

Quando foi lançado, vendo com os olhos contemporâneos, observo que “Ultimo Tango a Parigi” chamou a atenção mais pela superfície do que pela sua essência. Afinal, as cenas de nudez e sexo, banais para os padrões atuais, eram fortes para os anos 70. Pelo menos no cinema mainstream, contando com um astro do porte de Marlon Brando, jamais havia sido visto algo tão voluptuoso e escancarado, tanto que lhe rendeu proibição em vários países, entre eles o Brasil, onde só foi liberado pela censura em 1979, sete anos após seu lançamento na Europa. Mesmo em países como Itália e EUA, sua vida não foi fácil, sendo frequentemente exibido apenas depois de passar por uma severa tesourada. Esse “auê” todo teve como resultado a impressão de que o filme de Bertolucci é sobre sexo, mas não é. É antes de tudo um ensaio sobre solidão, vazio existencial e a violência que permeia as relações humanas.


O filme também representa um guinada na carreira de Bertolucci, até então com a imagem muito associada a cinema político em decorrência de obras como “Antes da Revolução” (Prima Della Rivoluzione, 1964) e “O Conformista” (Il Conformista, 1970). Aqui, ele expande seus horizontes para abordagens mais intimistas, pessoais, muito embora não se possa deixar de vislumbrar em “Último Tango em Paris” um manifesto da contracultura e da revolução sexual iniciada nos anos 60. Bertolucci consegue, ademais, aprimorar a sua mise-en-scène, a qual resulta em uma espécie de barroco modernista, principalmente quando lembramos da fotografia de Vittorio Storaro. Colaborador habitual de Bertolucci (foram parceiros em 8 longas), Storaro realizou uma fotografia declaradamente inspirada na arte do britânico Francis Bacon (algumas de suas obras, inclusive, são exibidas durante os créditos iniciais), atribuindo à imagens uma saturação em tons de sépia que influenciaria ao longo dos anos a imagética do chamado “cinema de arte” europeu. Aliás, a própria ideia de “cinema de arte” existente atualmente foi em boa parte criada a partir deste filme. Não é por acaso que uma parcela significativa do cinema dessa vertente no velho continente invista tanto no erotismo (obtendo maior ou menor sucesso) como forma de investigar as relações humanas (o ápice dessa tendência ocorreu no fim dos anos 80/início dos 90). Outro elemento memorável é a música da Gato Barbieri, responsável pelos tangos que dão o título ao longa-metragem. A associação bem acabada de imagem e sons é mesmo um dos seus trunfos e também influenciaria toda uma geração posterior de diretores.

O roteiro, concebido pelo próprio Bertolucci, teve colaborações do escritor Alberto Moravia e da também cineasta Agnès Varda, apresentando-se de antemão como inovador por narrar um história que se passa em Paris sem quase mostrar nada da Cidade Luz. Pelo contrário. Sua ambientação é claustrofóbica, com a maior parcela das ações transcorrendo em interiores, principalmente o apartamento onde os personagens de Brando e Maria Schneider se encontram. Ele interpreta Paul, um norte-americano de meia idade que acaba de se tornar viúvo devido ao suicídio de sua esposa. Casualmente ele conhece Jeanne (Schneider), uma jovem atriz que se encontra noiva de um diretor de cinema (Jean-Pierre Léaud, o alter-ego de François Truffaut e uma das figuras mais queridas da Nouvelle Vague) e procura um apartamento. Sem resistirem à atração mútua, eles passam a se encontrar regularmente em um apartamento sombrio onde, sem jamais dizerem os próprios nomes, mantêm relações sexuais como forma de preencher seu vazio e de expurgar suas culpas e medos.

Como é possível perceber, Bertolucci empreende uma jornada de confronto entre Eros e Tânatos, entre a morte e a força pulsante da vida traduzida na forma do sexo. Mas esta é somente um das possíveis leituras dentre as várias possibilidades oferecidas por esta obra de múltiplas camadas, onde cada sequência se mostra como essencial à sua compreensão. Nada nele é gratuito. Até mesmo a frequente nudez de Maria Schneider não surge como uma maneira barata de atrair a atenção do espectador, pois que o seu contraste com um Brando quase sempre vestido parece sugerir que Jeanne está muito mais aberta, exposta e desejosa de novas vivências do que Paul, um homem que se encontra na permanente fuga de uma vida permeada por traumas, alguns explícitos (o suicídio da esposa) e outros apenas sugeridos (teria sido vítima de abuso sexual no passado?). Vale dizer aqui que, para a composição de personagens tão densos a presença de atores de peso seria fundamental e a escolha de Brando não poderia ser mais perfeita. Só mesmo ele, com sua famosa postura de ator-autor, para alcançar tanta entrega a um personagem responsável por algumas da cenas mais densas da história do cinema, tais como o famoso monólogo que realiza diante do corpo de sua falecida esposa. Uma sequência que chega a ser constrangedora para o público, tamanha a carga de sentimentos jogados ao ar, como se estivéssemos diante de uma confissão íntima a que, na verdade, não deveríamos estar assistindo. Schneider também está ótima com a sua aura juvenil, responsável pelo lado “eros” do casal, em contraposição ao “tânatos” de Paul. É uma pena que, de certa forma, sua carreira tenha sido excessivamente marcada por este papel, permanecendo ao longo das décadas posteriores quase apenas lembrada por ter realizado a tal “cena da manteiga”.

Alguns afirmam que Bertolucci teria usado até mesmo teorias de Georges Bataille e outros estudiosos para a elaboração dos diálogos e personagens. Verdade ou não, é impossível negar um fato: ele conseguiu criar um película que realmente atinge o status de “arte”, um longa perturbador, mas fundamental na mesma medida. Jean-Luc Godard já dizia que “cultura é a regra, a arte é a exceção”, sendo que “Último Tango em Paris” indubitavelmente figura entre tais “exceções”. Uma obra cinematográfica que nos atinge tal como uma pintura, afetando o nosso inconsciente, mesmo que no plano consciente possamos eventualmente rejeitar a sua forma. Em outras palavras: um filme digno de ser exposto no museu de arte moderna., ao lado de obras de outros grandes artistas.


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 16 de setembro de 2012

Quero Ver Novamente #19


No último post do blog, ao resenhar a ótima película "Splendor", dirigida por Ettore Scola, mencionei que um dos filmes referenciados ao longo de sua narrativa é "Morangos Silvestres" (Smultronstället, 1957), do genial Ingmar Bergman. Na realidade, considero este não apenas como o melhor filme de Bergman (dentre suas várias obras-primas), mas também como um dos melhores filmes da história do cinema. É difícil lembrar de outro filme tão simples e poderosamente humano quanto este, um conto sobre as reminiscências de um professor aposentado durante um viagem de carro para receber uma homenagem pela sua carreira. A sequência que você pode assistir logo abaixo, entre o professor Isak Borg (Victor Sjöström) e sua nora (Bibi Anderson), constitui-se em um dos diálogos mais perfeitos já roteirizados. São apenas 5 minutos que valem mais do que a filomgrafia completa de vários cineastas por aí. E, se você ainda não viu "Morangos Silvestres", que ela sirva de estímulo para que conheça o quanto antes esta obra de arte inesquecível.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Restaurando a Película



Splendor
(1989)


Cada cidade tem o seu Splendor


Quando se fala em injustiça no cinema costumamos logo associar a palavra às malfadadas premiações anuais (entre elas o nosso querido Oscar), que vez ou outra entregam os louros para obras que deixam aquela dúvida sobre os seu reais méritos em detrimento de outras de valor artístico incontestável. No entanto, existem outras formas de injustiça, talvez até mais graves, como quando uma película de grande qualidade acaba simplesmente esquecida da memória tanto dos críticos quanto dos admiradores da Sétima Arte, tornando-se uma obra pouco vista, sendo esquecida até mesmo pelas distribuidoras no mercado de home video. Este é o caso de “Splendor”, filme italiano lançado em 1989 e dirigido pelo grande Ettore Scola e que conta ainda com os atores Marcelo Mastroiani e Massimo Troisi (o carteiro de “O Carteiro e o Poeta”, lembram-se?) no elenco. Ou seja, o longa-metragem tinha tudo para alcançar uma ótima repercussão, mas não foi o que sucedeu devido a um golpe do destino, já que em 1989 o também excelente “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso), de Giuseppe Tornatore, ganhou o mundo com uma temática bastante semelhante, caindo nas graças do público e arrebatando diversos prêmios internacionais, entre eles o Oscar de melhor filme estrangeiro. Enfim, “Splendor” acabou ofuscado pelo trabalho de Tornattore, fazendo com que hoje quase ninguém se lembre dele.

É uma pena tal situação, pois “Splendor” é um filme lindo, belamente tocante em sua declaração de amor ao cinema e que, tal como “Cinema Paradiso”, consegue transcender a mera cinefilia e alcançar o feito de emocionar qualquer espectador, seja ou não um aficionado. Ao narrar a trajetória do cinema “Splendor”, no seu auge frequentado por autoridades e figuras de destaque até a sua decadência, apelando para espetáculos eróticos para se manter em atividade, Scola realiza um apurado retrato não só da experiência cinematográfica óbvia, que é a de ver um filme e ser tocado por ele, mas também de como as vidas das pessoas que estão em volta da sala de exibição acabam inevitavelmente afetadas por ela, a começar pelo seu protagonista, Jordan, personagem de Mastroianni. Ele teve a infância marcada pelo cinema, pois que seu pai corria a Itália como um saltimbanco da Sétima Arte, exibindo filmes em praças e outros locais públicos e, mais tarde, seria o responsável pela fundação do Splendor. Para Jordan, desta forma, o cinema não é tão somente uma paixão, mas a própria representação de seus laços familiares, de sua herança genealógica. Por outro lado, temos também Luigi (Troisi), o projetista que aqui traduz a paixão dos cinéfilos, com suas citações e mania de relacionar situações do dia a dia a frases ou sequências famosas nas telas. Um verdadeiro obcecado que teve sua vida transformada ao passar a trabalhar na sala de exibição. De outra ponta, ainda temos Marina Vlady como Chantal Duvivier, uma ex-dançarina de cabaré que foi retirada “da vida” por Jordan para trabalhar no Splendor.


E assim vamos acompanhando as alegrias e dissabores de tais personagens, que têm suas vidas norteadas pelo cinema, com a sensibilidade típica de Scola. Discípulo de Vittorio de Sica, Scola parece ter herdado dele com maior intensidade não a sua veia neorrealista, mas principalmente a sua sensibilidade característica. Scola realizou aqui uma obra tão sensível quanto “Um Dia Muito Especial” (Una Giornata Particolare, 1977), onde mostrou de forma simplesmente sublime um dia na vida de um homem e uma mulher (no caso Sophia Loren e mais uma vez Mastroianni) durante o regime fascista. Outra influência nítida em Scola, e que aqui se fez presente, é a de Federico Fellini, com seu viés imaginativo que nos leva ao fantástico e lúdico. Ademais, o seu roteiro, que não segue uma ordem cronológica (na verdade, Scola é mais roteirista que diretor, tendo começado sua carreira no cinema nesta função), com constantes flashbacks, foge de obviedades e consegue colocar sempre ótimos diálogos que remetem à trajetória da própria arte cinematográfica. Neste ponto, é um deleite para o espectador cinéfilo observar as referências a inúmeros filmes, que vão desde “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, a “Touro Indomável” de Martin Scorsese. É possível, inclusive, fazer uma lista dos filmes citados que já vimos ou não, todos ótimas pedidas e com importância artística.

Acrescente-se a este belo roteiro, a fotografia especial de Luciano Tovoli, principalmente nas passagens em preto e branco usadas para mostrar os acontecimentos passados e a marcante trilha sonora de Armando Trovajoli, melódica e bastante adequada ao tom da narrativa. Por seu turno, talvez seja redundante afirmar que Mastroianni mais uma vez nos entrega uma grande interpretação, muito embora a figura pela qual acabemos por nutrir mais empatia seja o Luigi de Troisi. Além do carisma habitual do ator, a apaixonite que Luigi sente pelo cinema, chegando até a trabalhar sem receber – quando do ocaso do Splendor - faz com que logo nos identifiquemos com ele, principalmente nós, cinéfilos e blogueiros que dedicamos parte da nossa vida a essa paixão sem receber nada em troca.


Com um final belíssimo e emocional sem ser piegas, “Splendor” retrata de maneira sublime a ascensão e queda pelas quais passam praticamente todas as salas de cinema, principalmente as de rua, hoje em rápido processo de extinção no Brasil. Saí da sessão do cineclube (ressalte-se, mais uma vez, que não existe distribuição deste filme em DVD no mercado nacional, lamentavelmente) não apenas enternecido com a bela obra de Ettore Scola, mas também saudoso e revoltado com o fato de que os cinemas de rua de Natal não existem mais, sendo substituídos por lojas ou mesmo igrejas evangélicas. Nada contra os evangélicos, tenho respeito por todas as crenças, mas durante anos eu nutria o sonho de ganhar um bolada na loteria e comprar o falido Cine Rio Grande, onde pude assistir a muitos filmes durante a minha infância, desde os longas dos “Trapalhões” até os da franquia “Superman”. Recordo que foi lá onde assisti a “E.T. - O Extraterrestre” (com uns 5 anos mais ou menos), filme que considero como responsável pelo nascimento do meu amor pela Sétima Arte. É...Infelizmente, cada cidade deve ter o seu (ou seus) “Splendor”, eis a triste realidade.


Cotação:

Nota: 10,0

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cinemúsica


Amor, Sublime Amor
(West Side Story, 1961)


O avô de “Beat It”



Não sei se alguém já havia tocado neste ponto antes, mas vendo por esses dias o clipe de “Beat It”, um dos grandes sucessos do álbum “Thriller” do lendário Michael Jackson, acabei observando que ele traz uma síntese de boa parte da trama de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), clássico musical dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins em 1961 e um dos precursores em abordar a temática das gangues de jovens que hoje estão meio que fora de moda – no Brasil parecem ter sido substituídas pelas torcidas organizadas de clubes e nos EUA pelos lunáticos que atiram a esmo em escolas e cinemas (seria mais um sintoma do individualismo exacerbado?). Tanto no videoclipe como no longa-metragem vemos jovens desocupados que empregam seu tempo em promover rixas e atos de vandalismo ao som de músicas pop e dançando com ótimas coreografias. Não estou querendo dizer que Jackson copiou um dos baluartes do fim da era de ouro dos musicais, mas me pareceu evidente a sua influência, principalmente na sequência que vemos em ambos de líderes duelando com canivetes, o que talvez seja sintoma de que os videoclipes não existiriam sem os musicais.

Aliás, a própria narrativa de “Amor, Sublime Amor” é um bom exemplo de que no mundo pop a reciclagem de ideias é um recurso já bem antigo, não sendo exclusivo da Hollywood contemporânea, pois que o longa nada mais é do que uma atualização de “Romeu e Julieta”, peça de William Shakespeare conhecida por todos, para o ambiente da Nova York do fim dos anos 50/início dos 60. Saem as famílias dos Capuletos e Montecchios da narração shakespeariana e entram as gangues dos Jets e dos Sharks, os primeiros integrados por norte-americanos nativos, anglo-saxões, e os segundos formados por imigrantes porto-riquenhos. É no meio desse conflito de conotações xenófobas que surgirá o amor entre Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood), ele primo de Riff (Russ Tamblym), líder dos Jets, e ela irmã de Bernardo (George Chakiris), líder dos Sharks. Cabe destacar, ainda, que o filme já é uma adaptação de um espetáculo musical da Broadway, de autoria de Arthur Laurents e encenado pelo próprio Jerome Robbins, o qual assinou aqui a codireção com Wise. Ou seja: a versão cinematográfica de “West Side Story” se constitui na adaptação da adaptação. E ainda dizem por aí (eu me incluo nesse coro) que o cinema dos anos 2000 está “carecendo de criatividade”.


Afirmar que o citado longa é “a adaptação da adaptação” não significa afirmar, entretanto, que ele é um filme ruim. Pelo contrário. “West Side Story” é uma obra poderosamente imagética, aliando a esta característica a música e a dança com muita competência. Desde a longa sequência de abertura, sem diálogos, percebemos que estamos diante de uma película diferenciada, com um padrão artístico elevado. Realmente, são várias as suas virtudes, como a criatividade das coreografias – dirigidas por Robbins, pois que para Wise ficavam as cenas com diálogos tradicionais – além de canções inspiradas como “Maria”, “Tonight” e “America” (algumas delas transcenderam o filme e passaram para a categoria de standards norte-americanos). E, mais relevante ainda, o roteiro (de Ernest Lehman) consegue tocar em muitos pontos relevantes e que nunca perdem a sua atualidade, como a citada xenofobia, a ilusão da imigração como panaceia para aqueles que buscam oportunidades, além da ausência da família na formação dos jovens, que acabam por traçar caminhos sem rumo e procuram preencher seu vazio com a violência. Um quadro que, em linhas gerais, não se apresenta muito destoante de hoje. Adicione-se a tais elementos uma produção impecável que fugiu do cenários de estúdio e realizou as filmagens em uma área abandonada de Nova York que estava prestes a sumir do mapa para posterior recuperação (a demolição da zona foi adiada a pedido da produção do filme).

Pena que nem tudo são flores, principalmente no que diz respeito à atuação do elenco, que se apresenta irregular, mormente o protagonista Tony. Richard Beymer é um ator fraco, quase inexpressivo (em entrevistas posteriores, o próprio Wise admitiria o erro na escolha), o que nos faz lamentar o fato de Elvis Presley não ter aceitado o papel, o que já de antemão ao menos conferiria maior presença ao personagem, além do que cantaria com sua própria voz, diferentemente de Beymer, o qual foi dublado na pós-produção. Além disso, colocar os porto-riquenhos falando inglês com sotaque até em conversas entre eles (não seria mais fácil falar em espanhol?) soa muito caricatural. Este recurso da dublagem, ademais, algo que era comum na Hollywood de então, soa meio que tosco para o público atual, acostumado a ver atores até dispensando dublês para cenas de risco, que dirá ter aulas de canto. Natalie Wood também foi vítima do procedimento e suas cenas cantadas resultaram com um forte gosto de artificialidade (ela foi dublada por Marni Nixon nas canções). Todavia, se Beymer foi um fracasso interpretativo, Natalie mais uma vez nos entregou uma performance apaixonada, como era do seu feitio. No mesmo nível desta estão as presenças de George Chakiris, no papel de Bernardo, e Rita Moreno como Anita, namorada de Bernardo e amiga de Maria. Não por acaso ambos foram agraciados com as premiações para atores coadjuvantes no Oscar, que me pareceram bastante merecidas.


Cheio de nuances trágicas - afinal, não custa lembrar que se trata de uma adaptação de Shakespeare - “Amor, Sublime Amor” surge como precursor mais distante de uma linguagem que une o visual ao musical voltada para o público jovem (um precursor mais imediato seria “ A Hard Day's Night”, com os Beatles), linguagem esta que acabaria por redundar nos videoclipes como os de Michael Jackson. Vencedor de 10 prêmios da Academia de Hollywood (além dos já mencionados pelas atuações, levou também de melhor filme, direção, figurino, direção de arte, fotografia, som, edição e, obviamente, trilha sonora), o longa permanece como uma referência pop relevante e um dos grandes representantes (mesmo diante de suas imperfeições) de uma era em que os musicais levavam um grande público às salas de exibição. Pouco tempo depois, musicais como este dariam espaço para os talentos da Nova Hollywood, onde os próprios jovens seriam responsáveis por externar suas dores e pensamentos.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 2 de setembro de 2012

Trilha Sonora #24


É incontestável que "Meu Primeiro Amor" (My Girl) é um filme cativante e tocante. Lançado em 1991, fez meio mundo chorar com a história da menina Vada (Anna Chlumsky), filha de um agente funerário (Dan Akroyd) que ficou órfã de mãe desde o parto. Seu melhor amigo é Thomas (Macauley Culkin, naquela que talvez seja a melhor atuação de sua carreira), um garoto muito alérgico e impopular e é com ele que Vada irá descobrir as primeiras experiências da pré-adolescência. Esta é a única película de expressão do diretor Howard Zieff e foi com ela que decobri a linda música "My Girl", um sucesso do grupo "The Temptations" no já distante ano de 1964. Ouça abaixo e relembre essa pequena pérola cinematográfica dos anos 90. Sobe o som! Ah, e fuja da insípida continuação de 1994.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Belíssima
(Bellissima, 1951)


Ilusão x Realidade



Interessante como, ao longo da projeção de uma obra cinematográfica, podemos nutrir diferentes apreciações sobre o que estamos vendo, até chegarmos a uma, de caráter mais definitivo, quando do seu final. Foi o que aconteceu comigo enquanto estava assistindo a “Belíssima”, o terceiro e último filme da fase neorrealista de Luchino Visconti. O longa se inicia com uma bela sequência de créditos onde vemos uma orquestra executando uma ária de ópera (mais precisamente “Elisir D'amore”, de Donizetti), algo já bastante incomum para o cinema naqueles tempos, onde normalmente os créditos eram exibidos em fundos neutros ou com imagens estáticas. Em se tratando de cinema neorrealista italiano, então, configura-se uma monumental exceção. Prosseguindo, encaramos um bom tempo de projeção com um monte de personagens falando muito e alto, principalmente a Maddalena de Anna Magnani, uma das grandes atrizes da história do cinema, a qual virou estrela mundial a partir de “Roma – Cidade Aberta” (Roma, città aperta, 1945), algo que torna a experiência cansativa e meio sonolenta até certo ponto. Contudo, a sonolência é sacudida por cenas simplesmente sublimes, dignas do cinema magistral de Visconti, sendo uma delas provavelmente uma das mais marcantes de todos os tempos, dada a sua grande carga emocional.

A trama em si já se predispõe a lances de emoção. É certo que 90% das pessoas irão se sensibilizar com a história de uma mãe que busca, por meio do glamour do cinema, tirar sua filha da vida sem perspectivas em que estão imersas. A trama, concebida por Cesare Zavattini e com colaboração de ninguém menos que Suso Cechi D'Amico e do próprio diretor Visconti, mostra as desventuras de Maddalena Cecconi, moradora de um apartamento que fica em frente a um drive-in, nutrindo há anos o sonho de uma vida com muito mais luxo, charme e requinte que lhe é alimentado pela mágica do cinema, sempre pronta a vender ilusões (principalmente o hollywoodiano). É nessa esperança, de sair de uma existência que vê como medíocre, casada com um operário que lhe agride fisicamente (embora a violência não seja mostrada, isso é deixado latente pelos diálogos), que ela inscreve sua filha Maria no concurso da “menina mais linda de Roma”, que renderá à vencedora um contrato para participar de um filme a ser rodado na Cinecittà. Entretanto, ocorre que Maria não é exatamente uma criança tão especial aos olhos daqueles que fazem o cinema quanto o é aos olhos de sua mãe. Na verdade, Maria é uma daquelas crianças tímidas, choronas, sem desenvoltura para uma vida artística infantil.


Uma temática notavelmente atual é encarada por Visconti como uma autocrítica. A figura do diretor, encarnada por Alessandro Blasseti interpretando ele mesmo (sim, ele era diretor de cinema na vida real), é a do próprio Visconti, que se vê justamente como um mercador de ilusões, alguém que sobrevive de vender falsas ideias de glamour e beleza. Ele próprio teria dito a Blasseti, quando da revolta deste por se vislumbrar meio que ridicularizado na tela: “‘somos nós que pomos ilusões na cabeça das mães e das moças. Pegamos pessoas na rua e estamos errados. Vendemos um elixir do amor que não é elixir”. Infelizmente, essa realidade do mundo do show business (não apenas do cinema) como uma fonte de falsas esperanças perdura até hoje, ou melhor, poderíamos dizer que hoje está ainda mais acentuada, basta dar uma olhada na montanha de programas em que vemos crianças competindo por 15 minutos de fama, comumente como uma forma de realizar as frustrações de seus pais. “Belíssima”, então, pode ser visto como uma perfeita crônica do nosso tempo, mesmo realizado 61 anos atrás.

Para o bem ou para o mal, por outro lado, o filme não seria o mesmo sem a presença poderosa de Anna Magnani. Sim, ela domina a tela o tempo inteiro, mas em alguns momentos é justamente a liberdade que lhe foi dada nas filmagens que faz com que sua Maddalena derrape em alguns excessos. Segundo se noticia, Visconti permitiu que a atriz improvisasse a todo instante, o que talvez tenha resultado em tantas cenas “gritadas” e com tantas falas ininterruptas, que acabam inevitavelmente cansando o espectador. Mas as sequências mais marcantes de “Belíssima” também não seriam as mesmas sem sua presença. Aquela em que é cortejada por um do empregados do estúdio é simplesmente linda, tamanha a carga de sentimentos que ela consegue transmitir apenas com expressões faciais, algo que também se repete na mencionada sequência “das mais marcantes do cinema”, mas que vou me abster de dar detalhes para que o leitor que não viu o longa não perca o impacto.


Depois dos altos e baixos dos seus 108 minutos, o gosto e memória que permanecem é justamente a de um filme sensível e impressionantemente atual. Vai ser difícil ver agora algum dos programas de calouros infantis e não me lembrar deste filme peculiar, que pode até não ser o melhor de Luchino Visconti, mas que não deixa de se constituir em mais uma prova de sua grande capacidade de entender o mundo das classes desfavorecidas, mesmo sendo ele próprio oriundo de uma família aristocrática. Ademais, aqui ele também promove uma espécie de tapa na cara do Neorrealismo ao deixar entrever que o cinema deve ser feito por profissionais talhados para este ofício, e não por amadores recrutados nas ruas, como era hábito entre os cineastas da famosa escola cinematográfica. A cena final, onde Maddalena solta a frase “que rapaz simpático esse Burt Lancaster, não?”aparece como a síntese do pensamento de Visconti, vislumbrando que o cinema possui um lado mágico que não pode ser alcançado apenas mostrando a realidade de maneira direta e crua. Toda a sua cinematografia posterior coloca-se precisamente como uma busca incessante pelo equilíbrio entre a realidade que precisa ser fotografada e denunciada e a magia que só o cinema pode provocar. Talvez não seja coincidência, então, o fato de Burt Lancaster ter estrelado anos mais tarde “O Leopardo”, justamente a visão desse grande cineasta acerca de uma nobreza envelhecida e decadente.


Cotação:

Nota: 8,5