
domingo, 16 de setembro de 2012
Quero Ver Novamente #19

quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Restaurando a Película

Splendor
(1989)
Cada cidade tem o seu Splendor
É uma pena tal situação, pois “Splendor” é um filme lindo, belamente tocante em sua declaração de amor ao cinema e que, tal como “Cinema Paradiso”, consegue transcender a mera cinefilia e alcançar o feito de emocionar qualquer espectador, seja ou não um aficionado. Ao narrar a trajetória do cinema “Splendor”, no seu auge frequentado por autoridades e figuras de destaque até a sua decadência, apelando para espetáculos eróticos para se manter em atividade, Scola realiza um apurado retrato não só da experiência cinematográfica óbvia, que é a de ver um filme e ser tocado por ele, mas também de como as vidas das pessoas que estão em volta da sala de exibição acabam inevitavelmente afetadas por ela, a começar pelo seu protagonista, Jordan, personagem de Mastroianni. Ele teve a infância marcada pelo cinema, pois que seu pai corria a Itália como um saltimbanco da Sétima Arte, exibindo filmes em praças e outros locais públicos e, mais tarde, seria o responsável pela fundação do Splendor. Para Jordan, desta forma, o cinema não é tão somente uma paixão, mas a própria representação de seus laços familiares, de sua herança genealógica. Por outro lado, temos também Luigi (Troisi), o projetista que aqui traduz a paixão dos cinéfilos, com suas citações e mania de relacionar situações do dia a dia a frases ou sequências famosas nas telas. Um verdadeiro obcecado que teve sua vida transformada ao passar a trabalhar na sala de exibição. De outra ponta, ainda temos Marina Vlady como Chantal Duvivier, uma ex-dançarina de cabaré que foi retirada “da vida” por Jordan para trabalhar no Splendor.

E assim vamos acompanhando as alegrias e dissabores de tais personagens, que têm suas vidas norteadas pelo cinema, com a sensibilidade típica de Scola. Discípulo de Vittorio de Sica, Scola parece ter herdado dele com maior intensidade não a sua veia neorrealista, mas principalmente a sua sensibilidade característica. Scola realizou aqui uma obra tão sensível quanto “Um Dia Muito Especial” (Una Giornata Particolare, 1977), onde mostrou de forma simplesmente sublime um dia na vida de um homem e uma mulher (no caso Sophia Loren e mais uma vez Mastroianni) durante o regime fascista. Outra influência nítida em Scola, e que aqui se fez presente, é a de Federico Fellini, com seu viés imaginativo que nos leva ao fantástico e lúdico. Ademais, o seu roteiro, que não segue uma ordem cronológica (na verdade, Scola é mais roteirista que diretor, tendo começado sua carreira no cinema nesta função), com constantes flashbacks, foge de obviedades e consegue colocar sempre ótimos diálogos que remetem à trajetória da própria arte cinematográfica. Neste ponto, é um deleite para o espectador cinéfilo observar as referências a inúmeros filmes, que vão desde “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, a “Touro Indomável” de Martin Scorsese. É possível, inclusive, fazer uma lista dos filmes citados que já vimos ou não, todos ótimas pedidas e com importância artística.
Acrescente-se a este belo roteiro, a fotografia especial de Luciano Tovoli, principalmente nas passagens em preto e branco usadas para mostrar os acontecimentos passados e a marcante trilha sonora de Armando Trovajoli, melódica e bastante adequada ao tom da narrativa. Por seu turno, talvez seja redundante afirmar que Mastroianni mais uma vez nos entrega uma grande interpretação, muito embora a figura pela qual acabemos por nutrir mais empatia seja o Luigi de Troisi. Além do carisma habitual do ator, a apaixonite que Luigi sente pelo cinema, chegando até a trabalhar sem receber – quando do ocaso do Splendor - faz com que logo nos identifiquemos com ele, principalmente nós, cinéfilos e blogueiros que dedicamos parte da nossa vida a essa paixão sem receber nada em troca.

Com um final belíssimo e emocional sem ser piegas, “Splendor” retrata de maneira sublime a ascensão e queda pelas quais passam praticamente todas as salas de cinema, principalmente as de rua, hoje em rápido processo de extinção no Brasil. Saí da sessão do cineclube (ressalte-se, mais uma vez, que não existe distribuição deste filme em DVD no mercado nacional, lamentavelmente) não apenas enternecido com a bela obra de Ettore Scola, mas também saudoso e revoltado com o fato de que os cinemas de rua de Natal não existem mais, sendo substituídos por lojas ou mesmo igrejas evangélicas. Nada contra os evangélicos, tenho respeito por todas as crenças, mas durante anos eu nutria o sonho de ganhar um bolada na loteria e comprar o falido Cine Rio Grande, onde pude assistir a muitos filmes durante a minha infância, desde os longas dos “Trapalhões” até os da franquia “Superman”. Recordo que foi lá onde assisti a “E.T. - O Extraterrestre” (com uns 5 anos mais ou menos), filme que considero como responsável pelo nascimento do meu amor pela Sétima Arte. É...Infelizmente, cada cidade deve ter o seu (ou seus) “Splendor”, eis a triste realidade.
Cotação:

Nota: 10,0
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Cinemúsica

O avô de “Beat It”
Não sei se alguém já havia tocado neste ponto antes, mas vendo por esses dias o clipe de “Beat It”, um dos grandes sucessos do álbum “Thriller” do lendário Michael Jackson, acabei observando que ele traz uma síntese de boa parte da trama de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), clássico musical dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins em 1961 e um dos precursores em abordar a temática das gangues de jovens que hoje estão meio que fora de moda – no Brasil parecem ter sido substituídas pelas torcidas organizadas de clubes e nos EUA pelos lunáticos que atiram a esmo em escolas e cinemas (seria mais um sintoma do individualismo exacerbado?). Tanto no videoclipe como no longa-metragem vemos jovens desocupados que empregam seu tempo em promover rixas e atos de vandalismo ao som de músicas pop e dançando com ótimas coreografias. Não estou querendo dizer que Jackson copiou um dos baluartes do fim da era de ouro dos musicais, mas me pareceu evidente a sua influência, principalmente na sequência que vemos em ambos de líderes duelando com canivetes, o que talvez seja sintoma de que os videoclipes não existiriam sem os musicais.
Aliás, a própria narrativa de “Amor, Sublime Amor” é um bom exemplo de que no mundo pop a reciclagem de ideias é um recurso já bem antigo, não sendo exclusivo da Hollywood contemporânea, pois que o longa nada mais é do que uma atualização de “Romeu e Julieta”, peça de William Shakespeare conhecida por todos, para o ambiente da Nova York do fim dos anos 50/início dos 60. Saem as famílias dos Capuletos e Montecchios da narração shakespeariana e entram as gangues dos Jets e dos Sharks, os primeiros integrados por norte-americanos nativos, anglo-saxões, e os segundos formados por imigrantes porto-riquenhos. É no meio desse conflito de conotações xenófobas que surgirá o amor entre Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood), ele primo de Riff (Russ Tamblym), líder dos Jets, e ela irmã de Bernardo (George Chakiris), líder dos Sharks. Cabe destacar, ainda, que o filme já é uma adaptação de um espetáculo musical da Broadway, de autoria de Arthur Laurents e encenado pelo próprio Jerome Robbins, o qual assinou aqui a codireção com Wise. Ou seja: a versão cinematográfica de “West Side Story” se constitui na adaptação da adaptação. E ainda dizem por aí (eu me incluo nesse coro) que o cinema dos anos 2000 está “carecendo de criatividade”.

Afirmar que o citado longa é “a adaptação da adaptação” não significa afirmar, entretanto, que ele é um filme ruim. Pelo contrário. “West Side Story” é uma obra poderosamente imagética, aliando a esta característica a música e a dança com muita competência. Desde a longa sequência de abertura, sem diálogos, percebemos que estamos diante de uma película diferenciada, com um padrão artístico elevado. Realmente, são várias as suas virtudes, como a criatividade das coreografias – dirigidas por Robbins, pois que para Wise ficavam as cenas com diálogos tradicionais – além de canções inspiradas como “Maria”, “Tonight” e “America” (algumas delas transcenderam o filme e passaram para a categoria de standards norte-americanos). E, mais relevante ainda, o roteiro (de Ernest Lehman) consegue tocar em muitos pontos relevantes e que nunca perdem a sua atualidade, como a citada xenofobia, a ilusão da imigração como panaceia para aqueles que buscam oportunidades, além da ausência da família na formação dos jovens, que acabam por traçar caminhos sem rumo e procuram preencher seu vazio com a violência. Um quadro que, em linhas gerais, não se apresenta muito destoante de hoje. Adicione-se a tais elementos uma produção impecável que fugiu do cenários de estúdio e realizou as filmagens em uma área abandonada de Nova York que estava prestes a sumir do mapa para posterior recuperação (a demolição da zona foi adiada a pedido da produção do filme).
Pena que nem tudo são flores, principalmente no que diz respeito à atuação do elenco, que se apresenta irregular, mormente o protagonista Tony. Richard Beymer é um ator fraco, quase inexpressivo (em entrevistas posteriores, o próprio Wise admitiria o erro na escolha), o que nos faz lamentar o fato de Elvis Presley não ter aceitado o papel, o que já de antemão ao menos conferiria maior presença ao personagem, além do que cantaria com sua própria voz, diferentemente de Beymer, o qual foi dublado na pós-produção. Além disso, colocar os porto-riquenhos falando inglês com sotaque até em conversas entre eles (não seria mais fácil falar em espanhol?) soa muito caricatural. Este recurso da dublagem, ademais, algo que era comum na Hollywood de então, soa meio que tosco para o público atual, acostumado a ver atores até dispensando dublês para cenas de risco, que dirá ter aulas de canto. Natalie Wood também foi vítima do procedimento e suas cenas cantadas resultaram com um forte gosto de artificialidade (ela foi dublada por Marni Nixon nas canções). Todavia, se Beymer foi um fracasso interpretativo, Natalie mais uma vez nos entregou uma performance apaixonada, como era do seu feitio. No mesmo nível desta estão as presenças de George Chakiris, no papel de Bernardo, e Rita Moreno como Anita, namorada de Bernardo e amiga de Maria. Não por acaso ambos foram agraciados com as premiações para atores coadjuvantes no Oscar, que me pareceram bastante merecidas.

Cheio de nuances trágicas - afinal, não custa lembrar que se trata de uma adaptação de Shakespeare - “Amor, Sublime Amor” surge como precursor mais distante de uma linguagem que une o visual ao musical voltada para o público jovem (um precursor mais imediato seria “ A Hard Day's Night”, com os Beatles), linguagem esta que acabaria por redundar nos videoclipes como os de Michael Jackson. Vencedor de 10 prêmios da Academia de Hollywood (além dos já mencionados pelas atuações, levou também de melhor filme, direção, figurino, direção de arte, fotografia, som, edição e, obviamente, trilha sonora), o longa permanece como uma referência pop relevante e um dos grandes representantes (mesmo diante de suas imperfeições) de uma era em que os musicais levavam um grande público às salas de exibição. Pouco tempo depois, musicais como este dariam espaço para os talentos da Nova Hollywood, onde os próprios jovens seriam responsáveis por externar suas dores e pensamentos.
Cotação:

Nota: 9,0
domingo, 2 de setembro de 2012
Trilha Sonora #24

terça-feira, 28 de agosto de 2012
Para Ver Em Um Dia de Chuva
(Bellissima, 1951)
Ilusão x Realidade
Interessante como, ao longo da projeção de uma obra cinematográfica, podemos nutrir diferentes apreciações sobre o que estamos vendo, até chegarmos a uma, de caráter mais definitivo, quando do seu final. Foi o que aconteceu comigo enquanto estava assistindo a “Belíssima”, o terceiro e último filme da fase neorrealista de Luchino Visconti. O longa se inicia com uma bela sequência de créditos onde vemos uma orquestra executando uma ária de ópera (mais precisamente “Elisir D'amore”, de Donizetti), algo já bastante incomum para o cinema naqueles tempos, onde normalmente os créditos eram exibidos em fundos neutros ou com imagens estáticas. Em se tratando de cinema neorrealista italiano, então, configura-se uma monumental exceção. Prosseguindo, encaramos um bom tempo de projeção com um monte de personagens falando muito e alto, principalmente a Maddalena de Anna Magnani, uma das grandes atrizes da história do cinema, a qual virou estrela mundial a partir de “Roma – Cidade Aberta” (Roma, città aperta, 1945), algo que torna a experiência cansativa e meio sonolenta até certo ponto. Contudo, a sonolência é sacudida por cenas simplesmente sublimes, dignas do cinema magistral de Visconti, sendo uma delas provavelmente uma das mais marcantes de todos os tempos, dada a sua grande carga emocional.
A trama em si já se predispõe a lances de emoção. É certo que 90% das pessoas irão se sensibilizar com a história de uma mãe que busca, por meio do glamour do cinema, tirar sua filha da vida sem perspectivas em que estão imersas. A trama, concebida por Cesare Zavattini e com colaboração de ninguém menos que Suso Cechi D'Amico e do próprio diretor Visconti, mostra as desventuras de Maddalena Cecconi, moradora de um apartamento que fica em frente a um drive-in, nutrindo há anos o sonho de uma vida com muito mais luxo, charme e requinte que lhe é alimentado pela mágica do cinema, sempre pronta a vender ilusões (principalmente o hollywoodiano). É nessa esperança, de sair de uma existência que vê como medíocre, casada com um operário que lhe agride fisicamente (embora a violência não seja mostrada, isso é deixado latente pelos diálogos), que ela inscreve sua filha Maria no concurso da “menina mais linda de Roma”, que renderá à vencedora um contrato para participar de um filme a ser rodado na Cinecittà. Entretanto, ocorre que Maria não é exatamente uma criança tão especial aos olhos daqueles que fazem o cinema quanto o é aos olhos de sua mãe. Na verdade, Maria é uma daquelas crianças tímidas, choronas, sem desenvoltura para uma vida artística infantil.

Uma temática notavelmente atual é encarada por Visconti como uma autocrítica. A figura do diretor, encarnada por Alessandro Blasseti interpretando ele mesmo (sim, ele era diretor de cinema na vida real), é a do próprio Visconti, que se vê justamente como um mercador de ilusões, alguém que sobrevive de vender falsas ideias de glamour e beleza. Ele próprio teria dito a Blasseti, quando da revolta deste por se vislumbrar meio que ridicularizado na tela: “‘somos nós que pomos ilusões na cabeça das mães e das moças. Pegamos pessoas na rua e estamos errados. Vendemos um elixir do amor que não é elixir”. Infelizmente, essa realidade do mundo do show business (não apenas do cinema) como uma fonte de falsas esperanças perdura até hoje, ou melhor, poderíamos dizer que hoje está ainda mais acentuada, basta dar uma olhada na montanha de programas em que vemos crianças competindo por 15 minutos de fama, comumente como uma forma de realizar as frustrações de seus pais. “Belíssima”, então, pode ser visto como uma perfeita crônica do nosso tempo, mesmo realizado 61 anos atrás.
Para o bem ou para o mal, por outro lado, o filme não seria o mesmo sem a presença poderosa de Anna Magnani. Sim, ela domina a tela o tempo inteiro, mas em alguns momentos é justamente a liberdade que lhe foi dada nas filmagens que faz com que sua Maddalena derrape em alguns excessos. Segundo se noticia, Visconti permitiu que a atriz improvisasse a todo instante, o que talvez tenha resultado em tantas cenas “gritadas” e com tantas falas ininterruptas, que acabam inevitavelmente cansando o espectador. Mas as sequências mais marcantes de “Belíssima” também não seriam as mesmas sem sua presença. Aquela em que é cortejada por um do empregados do estúdio é simplesmente linda, tamanha a carga de sentimentos que ela consegue transmitir apenas com expressões faciais, algo que também se repete na mencionada sequência “das mais marcantes do cinema”, mas que vou me abster de dar detalhes para que o leitor que não viu o longa não perca o impacto.
Depois dos altos e baixos dos seus 108 minutos, o gosto e memória que permanecem é justamente a de um filme sensível e impressionantemente atual. Vai ser difícil ver agora algum dos programas de calouros infantis e não me lembrar deste filme peculiar, que pode até não ser o melhor de Luchino Visconti, mas que não deixa de se constituir em mais uma prova de sua grande capacidade de entender o mundo das classes desfavorecidas, mesmo sendo ele próprio oriundo de uma família aristocrática. Ademais, aqui ele também promove uma espécie de tapa na cara do Neorrealismo ao deixar entrever que o cinema deve ser feito por profissionais talhados para este ofício, e não por amadores recrutados nas ruas, como era hábito entre os cineastas da famosa escola cinematográfica. A cena final, onde Maddalena solta a frase “que rapaz simpático esse Burt Lancaster, não?”aparece como a síntese do pensamento de Visconti, vislumbrando que o cinema possui um lado mágico que não pode ser alcançado apenas mostrando a realidade de maneira direta e crua. Toda a sua cinematografia posterior coloca-se precisamente como uma busca incessante pelo equilíbrio entre a realidade que precisa ser fotografada e denunciada e a magia que só o cinema pode provocar. Talvez não seja coincidência, então, o fato de Burt Lancaster ter estrelado anos mais tarde “O Leopardo”, justamente a visão desse grande cineasta acerca de uma nobreza envelhecida e decadente.
Cotação:

Nota: 8,5
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
360

Fernando Meirelles é um diretor que sofre do que podemos definir como a “síndrome de Orson Welles”. Tal como o diretor de “Cidadão Kane”, o qual passou o resto da carreira tentando ratificar o talento promissor que demonstrava no início, mas sem o mesmo sucesso junto à crítica, o cineasta brasileiro vive à sombra do seu primeiro trabalho de destaque (antes havia dirigido apenas “O Menino Maluquinho 2”, de 1998, e “Domésticas”, em 2001), a obra-prima “Cidade de Deus”, longa-metragem considerado por muitos como um dos melhores do presente século XXI. Diante do impacto mundial gerado pelo filme, a cada novo trabalho seu espera-se algo espetacular, uma nova obra-prima que marcará a década ou algo que o valha. Isso certamente prejudica a avaliação dos trabalhos de Meirelles, os quais parecem estar sempre aquém do seu potencial, o que não é exatamente uma verdade. Embora inferiores ao mencionado “Cidade de Deus”, tanto “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005), quanto “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, 2008) são ótimos filmes, muito bem dirigidos e eficientes nas sus pretensões (o próprio Saramago aprovou a adaptação de Meirelles para o seu livro, portanto não sou eu que vou discordar). Entretanto, não se pode negar que esta sua nova película, “360”, representa o ponto mais baixo da sua carreira pós-Cidade de Deus.
Esta afirmação, por outro lado, não significa dizer que o filme é ruim. Não é. Possui vários personagens interessantes, atuações convincentes e a sempre precisa mão de Meirelles na direção, dando ritmo (com a ajuda da edição do competente Daniel Rezende) à narrativa e tornando a experiência quase sempre atrativa para o espectador. O grande problema da produção, em verdade, reside no roteiro cheio de pretensões de Peter Morgan e pretensões estas que não são alcançadas ao final da projeção. Em entrevistas, o próprio Meirelles chegou a afirmar que a película seriam mais um trabalho de Morgan do que dele próprio, o que parece fazer sentido. Inspirado em uma peça de Arthur Schnitzler que já foi algumas outras vezes adaptada para o cinema (vide La Ronde, dirigido por Max Olphüs em 1950), o roteiro tem aquela estrutura de narrativa múltipla, com vários tramas paralelas que vão se interligando, o que certamente traz um prazer extra para aqueles responsáveis pelo seu desenvolvimento. A presença de Meirelles no projeto parece ter sido uma escolha dos produtores que se baseou no seu notável talento para dirigir elencos numerosos, como é o caso aqui. Entretanto, um problema frequente neste tipo de roteiro se faz muito presente em “360”: algumas das tramas são concluídas de forma muito insatisfatória, sendo que vários dos personagens são praticamente esquecidos ao fim da projeção, a despeito do bom trabalho desenvolvido pela maior parte do elenco estelar que inclui nomes como Anthony Hopkins, perfeito e longe da preguiça dos últimos anos, no papel de um homem em busca da filha desaparecida; a brasileira Maria Flor, ótima como uma imigrante desiludida que resolve voltar para o Brasil; Jude Law, como um pai de família que está vivendo uma crise no seu casamento com Rose (Rachel Weiz); ou ainda as desconhecidas Lucia Siposová e Gabriela Marcinkova na pele de duas irmãs vindas do leste europeu. Uma delas, a mais velha, acaba se prostituindo para desgosto da caçula.

Apesar das suas conclusões frustrantes, os tipos apresentados estão muito bem estruturados. São figuras tridimensionais, cheios de imperfeições e atitudes equivocadas o que lhes confere uma humanidade sincera e este é realmente o grande trunfo da película. A verdade daquelas pessoas nos cativa e impressiona, por mais que, em vários momentos, reprovemos seus comportamentos. A concepção dos personagens ajuda muito na colocação daquela que pode ser vista como a temática central do longa: as consequências das escolhas que tomamos em nossas vidas, opções estas feitas de forma reflexiva ou impulsiva, mas que podem decidir toda a nossa trajetória. Desde a primeira cena nos deparamos com este conceito, ao vermos Mirka (Siposová) iniciando sua vida na prostituição e também concluímos com sua irmã tomando um atitude que alterará sua vida de forma irreversível. É justamente o arco dessas irmãs que é concluído de forma satisfatória para o espectador, apresentando um desfecho conceitual interessante, mesmo que em aberto.
Na verdade, talvez “360” seja um filme melhor do que uma visão rigorosa possa demonstrar. Afinal, vivemos esperando de Meirelles um novo “Cidade de Deus” o que acaba comprometendo uma melhor degustação dos seus filmes. Eu mesmo, confesso, assisti a “O Jardineiro Fiel” com essa expectativa e no caso de “Ensaio Sobre a Cegueira” ela era ainda maior, já que tenho uma grande admiração pela obra de Saramago (um dos melhores romances que já li na vida, sem dúvida). Quando do lançamento do recente “Para Roma, Com Amor”, novo trabalho de Woody Allen, mencionei este problema das expectativas, que mais uma vez se faz presente aqui. Acredito que, antes de tudo, cabe a nós nos livrarmos dessas “síndromes”, a esperar que a cada novo filme um grande cineasta nos entregue uma nova obra-prima. Ir ao cinema sem esperar demais é sempre recomendável e muito mais prazeroso.
Cotação:

Nota: 7,5
sábado, 18 de agosto de 2012
Curtindo o Curta #5

domingo, 12 de agosto de 2012
Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Este era o filme mais aguardado do ano e o seu “hype” (para usar uma expressão da moda) tornou-se ironicamente ainda maior depois do evento sinistro ocorrido na cidade de Aurora, localizada no estado do Colorado, Estados Unidos. Ironia talvez mais forte seja a de que o ocorrido traduz muito da essência da trilogia do diretor Christopher Nolan. Não que os filmes de Nolan incentivem chacinas ou algo do tipo, longe disso. O que ocorre é que a trilogia de Batman, um reboot com tons opostos aos dos primeiros filmes engendrados pela Warner com o personagem (incluindo-se os longas de Tim Burton), tem como ponto crucial exatamente esta dualidade entre nossa figura pública/social e o que realmente somos. O atirador de Aurora, ao afirmar ser “o Coringa” quando da prática de seus atos homicidas, estava ali revelando sua verdadeira face, escondida debaixo de uma máscara de neurocientista em pós-graduação. Um recurso que todos usamos em maior ou menor grau, dependendo do quanto o nosso lado oculto pode ser mais ou menos aceito pelo círculo social em que vivemos.
No meu texto sobre o filme anterior da trilogia, “O Cavaleiro das Trevas”, eu discuti o quanto o Batman dos quadrinhos vinha sendo mal adaptado para a tela grande ao longo dos anos. O longa que teve a memorável atuação de Heath Ledger, que transformou o Coringa em um dos maiores vilões da história do cinema, finalmente retirou Batman deste calabouço qualitativo e o colocou onde sempre deveria estar: no topo das bilheterias, da atenção do público, da mídia e da crítica. E toda esta expectativa gerada em torno do lançamento de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” se deve muito mais ao segundo episódio da franquia, revolucionário em retirar as adaptações de HQs do gueto das “diversões para adolescentes”. Contudo, talvez seu maior mérito nem seja o de nos render uma interpretação inigualável de um já saudoso ator, mas o de nos entregar, com grande competência, um ensaio sobre esta dualidade humana entre o exposto e o oculto de nossa personalidade. A concepção do Coringa apresentada (bastante fiel àquela das HQs, por sinal) é a de um homem que desistiu dessas máscaras e que optou por viver apenas imerso no seu lado sombrio, uma vez que não acredita mais na natureza humana. Batman seria o seu oposto e simulacro inverso: um homem que precisa se disfarçar para que possa expor sua crença nesta última.

Nesta derradeira parte da trilogia, esse jogo de máscaras chega ao seu ponto culminante. A trama é pontuada por reviravoltas decorrentes dessa dualidade, tanto no que se refere ao protagonista, quanto aos seus opositores, sendo representada da forma emblemática na dúbia figura da Mulher-Gato (Anne Hathaway), a qual desempenha papel relevante na narrativa. O roteiro, embora não de forma óbvia, retira dos quadrinhos oitentistas de Frank Miller várias ideias do argumento (e não só o título “Cavaleiro das Trevas”). Afinal, foi Miller o primeiro a conceber um Batman “aposentado”, vivendo apenas seu “lado” Bruce Wayne e que sai dessa aposentadoria por não resistir à retomada de sua verdadeira faceta. Aqui sucede o mesmo. Há anos, desde os eventos narrados no segundo título da trilogia, Bruce Wayne (Christian Bale) não veste mais a máscara do morcego, levando apenas sua vida de milionário beneficente. Ocorre que Gotham City é invadida por Bane (Tom Hardy), líder de uma gangue que espalha o caos na cidade e que pretende destruí-la com uma bomba atômica caso qualquer um dos seus cidadãos ouse deixar o perímetro urbano. Ao mesmo tempo, Bruce vive uma aproximação com a empresária Miranda (Marion Cottilard, sempre uma ótima presença) e uma relação dúbia com Selina Kyle, a mencionada Mulher-Gato.
Não resta dúvidas que o longa rende ótimos momentos, com sequências de ação muito bem elaboradas e um clímax empolgante que deixa todos os espectadores grudados na poltrona. Contudo, em termos de resultados artísticos, este último episódio se coloca um degrau abaixo do anterior simplesmente por um único motivo: ele não tem o Coringa e a sensacional atuação de Heath Ledger. O Coringa é, provavelmente, o vilão mais bem elaborado das HQs, seja da DC ou Marvel ou ainda qualquer outra linha editorial. A riqueza de sua transposição para a tela promovida por Ledger tornou-se algo extremamente marcante e seria difícil para Tom Hardy conceber um antagonista à altura, até mesmo porque o seu Bane, um personagem gerado nos quadrinhos a partir de um golpe de marketing da DC Comics, é um vilão muito aquém das possibilidades interpretativas oferecidas pelo Coringa.

Contudo, isso não significa afirmar que o “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não seja um grande filme. Apesar de alguns momentos em que o roteiro (escrito pelo próprio Nolan com seu irmão Jonathan Nolan) me pareceu apressado – o que talvez tenha sido até uma necessidade, pois que o filme já tem uma metragem bem longa - a relação e construção dos personagens se mostra mais uma vez um dos méritos da direção do cineasta, mesmo diante da mencionada inferioridade de Bane quando comparado ao Coringa. Todo o elenco nos rende boas performances, deste o protagonista Christian Bale, passando pelos coadjuvantes Michael Caine como o querido Alfred, Morgan Freeman como Lucius Fox e até Anne Hathaway, sobre a qual sempre pairaram minhas dúvidas sobre suas possibilidades de encarnar a Mulher-Gato. Outro destaque relevante vai para Joseph Gordon-Levitt, interpretando um personagem extremamente relevante e que guarda uma surpresa para os fãs no final.
Aliás, surpresa para os fãs é o que não falta durante a projeção. Nolan, com esperteza e fluidez, joga várias cenas icônicas dos quadrinhos na tela, deixando aqueles que conhecem as obras originais com um sorriso nos lábios. Além disso, apresenta um terceiro episódio inteiramente conectado com os anteriores (talvez até mais com o primeiro do que com o segundo), o que revela a necessidade de vê-los ou revê-los para obter uma compreensão mais apurada. E vale destacar também: como uma aparente resposta aos críticos que apontavam a falta de emoção nos seus filmes, Nolan concebeu uma conclusão capaz de tocar mesmo aqueles que não são fãs de Batman ou HQs. Uma direção firme, mas que não esqueceu de jogar para a torcida.
Ao fim da projeção, depois de quase 2h45min, fiquei me perguntando quais seriam os novos rumos do homem-morcego nas telas. Acredito ser muito difícil ao menos igualar o trabalho que Nolan realizou com o personagem nesta trilogia., trabalho este que por vezes nos fazia esquecer que estávamos vendo um “filme de super-herói”. Fugindo dos clichês que marcaram Batman ao longo dos anos, o diretor conseguiu resgatar um personagem sepultado pelas adaptações infelizes do passado (principalmente as de Joel Schumacher) e conduzi-lo ao topo das atenções e das bilheterias. Uma pena que a franquia, devido aos fatos tristemente sinistros que lhe ficaram associados, dificilmente venha a ser agraciada com prêmios. Seria uma ótima chance de derrubar de vez o estereótipo que cerca os filmes baseados em HQs, mas não ocorrerá. Mas quem sabe o Batman não acaba mais uma vez derrotando seus inimigos e revertendo esse quadro? Ou vão querer que o “Coringa” vença no final?
Cotação:

Nota: 9,5
P.S. Devido a dias de muito trabalho e às Olimpíadas de Londres este blogueiro estava com pouco tempo para escrever resenhas ou mesmo comentar nos blogs amigos. Afinal, jogos olímpícos ocorrem apenas a cada 4 anos e sempre gosto de conferir o máximo possível. Só espero que daqui a mais 4 anos, no Rio de Janeiro, nosso desempenho seja melhor.
sábado, 28 de julho de 2012
Filmes Para Ver Antes de Morrer
Bryan Singer certamente não imaginava que estava criando uma nova era no cinema quando, em 2000, foi o responsável pela direção de “X-Men – O Filme”. Foi o êxito deste longa-metragem sobre os mutantes da Marvel Comics que fez surgir uma década dominada por grandes lançamentos cinematográficos baseados em HQs. Mesmo que Richard Donner já tivesse mostrado ao mundo, ainda nos anos 70, que era possível fazer um bom filme a partir de um personagem egresso dos quadrinhos, foi apenas com o longa de Singer, um sucesso tanto de público quanto de crítica, que surgiu uma onda de adaptações da Nona Arte, não restritas apenas a histórias de super-heróis, passando até mesmo por dramas de caráter político (como a animação “Persépolis”). Este ano, já tivemos “O Espetacular Homem-Aranha” invadindo as telas e, neste fim de semana, temos o desfecho da trilogia do homem morcego com “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Diante de tantas produções, o Cinema Com Pimenta lista aqui sete filmes essenciais para quem quer se aventurar nas adaptações de quadrinhos sem ter que encarar bombas como “Lanterna Verde” ou “O Justiceiro”. Vamos a eles!

7) Homem de Ferro (Iron Man, 2008) – A primeira experiência da Marvel enquanto estúdio de cinema resultou em uma ótima diversão e o resgate da carreira de Robert Downey Jr. após seu ostracismo devido à dependência de drogas, levando-o ao estrelato e transformando-o em uma figura extremamente pop. Com este longa, a Marvel ganhou confiança e iniciou uma série de lançamentos que culminariam com “Os Vingadores”, filme que reúne os heróis anteriormente apresentados em episódios solo. O personagem de Downey Jr, o empresário playboy Tony Stark, tornou-se referência como personagem “cool”. Mas é melhor ficar com este aqui, pois a continuação “Homem de Ferro 2” acabou ficando aquém do original;
6) Estrada Para Perdição (Road to Perdition, 2002) – O espectador eventual pode nem se dar conta, mas esta é uma adaptação de quadrinhos. Dirigido por Sam Mendes, vencedor do Oscar por “Beleza Americana” (Amaerican Beauty, 1999), e protagonizado por Tom Hanks, tendo ainda participação do lendário Paul Newman e Jude Law, além de um ainda desconhecido Daniel Craig. A trama, baseada na graphic novell escrita por Max Allan Collins e ilustrada por Richard Piers Rayne, narra a fuga do mafioso Michael Sullivan (Hanks) com seu filho (Tyler Hoechlin) após este último testemunhar uma execução e ter a vida ameaçada pelos gangsters. O ambiente é o dos anos 30, durante a grande depressão e vale à pena conferir não só pela bela e precisa reconstituição de época, mas também pela linda fotografia, ótimas atuações (Newman arrasa) e desfecho interessante e emocional sem cair em pieguismos. Um longa injustamente esquecido em premiações e que comprovou o talento de Mendes, uma diretor egresso do teatro que realizou uma obra completamente cinematográfica;
5) V de Vingança (V For Vendetta, 2006) – Adaptação de uma obra do genial Alan Moore, trata-se de um filme que merecia maior repercussão do que aquela que obteve. Isso se explica possivelmente devido ao boicote e crítica feroz que partiu de meios midiáticos conservadores (no melhor exemplo FOX News), pois que o filme tem seu foco em um subversivo conhecido por Codinome V (Hugo Weaving). A história se passa em 2020, em uma Grã-Bretanha dominada pelo governo fascista de Adam Sutler (John Hurt), onde a censura impera em todos os meios de comunicação. É quando o tal Codinome V, no dia 05 de novembro, aniversário da conspiração de 1605 em que Guy Fawkes tentou destruir o parlamento inglês e destituir o rei James I, convoca a população, em rede nacional de TV, a se rebelar contra esse estado de coisas. A verdade é que a figura de V acabou se tornando muito popular com o passar do anos, sendo que sua indefectível máscara se tornou símbolo de luta contra o sistema e é usada hoje por grupos de protesto como o Anonymous. Produzido e roteirizado pelo irmãos Warchowski, trata-se de uma obra inteligente e de impacto e que ainda guarda a memorável imagem de Natalie Portman de cabeça raspada. Sensacional!;

4) X-Men 2 (X2, 2003) – Continuação do referido “X-Men – O Filme”, este segundo episódio da franquia, também dirigido por Bryan Singer, é a mais perfeita tradução cinematográfica dos mutantes da Marvel. Sem as limitações orçamentárias impostas ao primeiro longa, Singer nos entrega um filme espetacular, onde tudo do primeiro é melhorado. Ainda lembro de ver esta sessão no cinema, encontrar uma antiga colega da faculdade (que não era nerd nem nada) ao ascender das luzes e vê-la comentando: “que filme bom, hein?”. Basicamente, a trama nos mostra os mutantes ainda mais perseguidos pela sociedade e pelo Estado após uma mal sucedida tentativa de assassinato do presidente dos EUA pelo mutante Noturno (Alan Cumming). Poucos filmes são fortes e claros na sua mensagem anti-preconceito (qualquer deles) quanto este. Um problema que nunca perde a atualidade, infelizmente;

3) Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, 2004) – O melhor filme da trilogia de Sam Raimi sobre o mais popular personagem da Marvel Comics, superando o já ótimo primeiro filme, realizado em 2002. O Aranha (Tobey Maguire com a melhor cara de bobo do cinema) é aquele herói cujas características o tornam o mais próximo dos espectadores: um nerd cheio de problemas, que tem que ralar para ganhar dinheiro; estudar; cuidar da tia idosa e viúva, além de enfrentar problemas de relacionamento com sua namorada e, no meio disso tudo, arranjar tempo para deixar de ser Peter Parker e salvar Nova York de supervilões. Enfim, é gente como a gente. Aqui, ele enfrenta o Dr. Octopus (Alfred Molina) e, mais uma vez, sua infinidade de problemas de rapaz comum. Repleto de sequências espetaculares, como a cena em que ele para um trem desgovernado à beira de um desastre, e contando com uma química perfeita entre os personagens, este é um daqueles que sempre vale uma olhadinha nas reprises que passam tanto na TV aberta quanto fechada. Poucos filmes foram tão eficazes em apreender e transmitir as essência de uma HQ quanto este aqui;

2) Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) – Filme revolucionário que fez com que todos, tanto público como a crítica, deixassem de ver os filmes de super-heróis apenas como uma diversão para adolescentes. O longa de Chritopher Nolan levou o verdadeiro Batman para a telona e ainda nos rendeu a mítica interpretação de Heath Ledger para o Coringa, colocando-o entre os vilões mais marcantes da história do cinema, ao lado de outros como Norman Bates e Hannibal Lecter. Pela primeira vez um filme baseado em HQs rendeu um oscar, no caso para o citado Heath Ledger (mesmo que póstumo). Hoje, vemos o lançamento retumbante de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e toda a expectativa gerada em torno deste se deveu principalmente ao segundo episódio da trilogia. O resto é história.

1) Superman – O Filme (Superman – The Movie, 1978) – Esse filme é tão mítico que inspirou até música de Gilberto Gil. É a adaptação de HQ mais cara à minha memória (tem até a minha idade), dada a minha empolgação quando eu o via ainda garoto. Tudo nele funciona (tudo bem, o Lex Luthor de Gene Hackman é meio chatinho), desde a trilha sonora icônica de John Williams até a interpretação clássica e inigualável que Christopher Reeve deu ao personagem. Mesmo a participação econômica de Marlon Brando, como Jor-El, é simplesmente memorável. Um filme ao mesmo tempo lúdico, inspirador e empolgante que nos deixa um sorriso no rosto após vê-lo, mesmo que seja pela 15ª vez. Palmas para Richard Donner!
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O problema não é o filme

Interessante, mas parece que está acontecendo o mesmo tipo de reação que o público teve aqui no Brasil em relação a "Clube da Luta", o filme de David Fincher que estava sendo exibido em uma sala de cinema em São Paulo, anos atrás, quando um estudante de medicina desequilibrado atirou a esmo fazendo várias vítimas. As pessoas parecem "com medo" de ver o filme, como se houvesse algo nele que fosse responsável pela violência, como se todos que assistissem à obra corressem um risco iminente de ser baleados. É provável que esta sensação seja ainda maior agora por se tratar do grande filme do ano, esperado impacientemente por uma multidão de fãs. Entretanto, é importantíssimo frisar: nenhuma obra artística pode ser responsabilizada por atitudes de doentes mentais. Nunca vi qualquer filme para sair com vontade de atirar ou espancar pessoas por aí. E uma atitude como esta, de adiar em meses um lançamento tão aguardado, só iria prejudicar mais ainda a carreira de um filme que, aparentemente, tem tudo para ser um dos destaques positivos do ano, não apenas pela sua arrecadação. Que as pessoas saibam separar alhos de bugalhos e que o estúdio não tome esta lamentável decisão. O cinema merece e nós espectadores também.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Cinema Com Pimenta: 4 anos!

Abaixo, segue uma sequência de "Cinema Paradiso" (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), o longa-metragem de Giuseppe Tornatore que acabou se tornando uma peça cara na memória de qualquer amante da 7ª Arte . Poucos (ou talvez nenhum outro) filmes traduzem tão bem a paixão pelo cinema quanto este e poucas cenas declaram de forma tão poética este sentimento quanto esta. O vídeo está sem legendas, mas não é necessário entender italiano para apreciar. Como diz o pequeno Totò: "Alfredo, é belíssimo!". Ah, e linda também a trilha de Ennio Morricone, não?
Um grande abraço a todos, muito obrigado e que venham mais 4 anos!
quinta-feira, 12 de julho de 2012
O Espetacular Homem-Aranha

Sempre fui contra o reboot da franquia “Homem-Aranha” nos cinemas. Apesar de algumas liberdades tomadas pelo diretor Sam Raimi na sua trilogia iniciada em 2002, como a criação da teia orgânica (no lugar dos famosos “lançadores”), considero os seus filmes como muito fiéis ao espírito das HQs, onde o nerd Peter Parker acaba picado por uma aranha radioativa e adquire poderes excepcionais, semelhantes aos de um aracnídeo. Sim, eu gosto de Tobey Maguire, com aquela cara meio de bobo, travado, uma vez que isso demonstra inteiramente como um rapaz tímido, impopular no colégio e isolado no seu conhecimento acadêmico acima da média se sente tendo de enfrentar a realidade de possuir grandes poderes e, com isso, surgirem “grandes responsabilidades”. Mesmo o terceiro filme da franquia, criticado por muitos, acabou me agradando (mesmo que seja, de fato, o ponto de menor qualidade na série). Para que, então, realizar um reboot de algo que foi sucesso de público e crítica (razões inteiramente opostas àquelas levadas a cabo pela Warner com o personagem de Batman)? Não podem ser outras razões senão as comerciais, o vil metal que é o objetivo primordial dos produtores de Hollywood. É importante, inclusive, frisar que o fim da participação de Raimi na franquia se deveu a divergências com os produtores, os quais queriam dar um norte para os episódios posteriores divergente do pretendido pelo diretor. O resultado abaixo do esperado da terceira parte da trilogia já denunciava essa falta de sincronia entre produção e direção. Ou seja, como para bom entendedor meia palavra basta, entre finalidades comerciais e artísticas.
Nessa queda de braço, normalmente quem leva a disputa é quem tem mais dinheiro e é claro que a Columbia (Sony), detentora dos direitos de adaptação das aventuras do teioso para o cinema, não saiu perdendo. Excluiu Raimi da direção (o que também levou à saída de Maguire) e resolveu reiniciar toda a franquia, partindo do zero como se nada houvesse ocorrido antes. Uma ideia pra lá de estranha, já que os filmes de Raimi são muito recentes e costumam ser reprisados à exaustão, tanto na TV aberta quanto na fechada. Contudo, não nego que as notícias que chegavam aos poucos pela net, como a escolha do bom ator Andrew Garfield para o papel de Peter Parker, bem como de Emma Stone para interpretar Gwen Stacy, acabaram por me deixar um pouco mais aliviado. Ambos são bons atores, o que já garantiria personagens convincentes. Um pouco mais desconfiado fiquei com a opção de Marc Webb para a direção, pois que até então ele havia dirigido apenas “(500) Dias Com Ela” (500 Days Of Summer, 2009), uma comédia romântica criativa e agradável, mas que está muito distante do gênero aventura/ação. No entanto, o que mais temia era o roteiro, que buscaria recontar a história da origem do Homem-Aranha de uma forma nova. E foi justamente o roteiro que me deixou estremecido na cadeira da sala de exibição.
O que mais irrita em toda esta nova adaptação é o fato de Pater Parker deixar de ser um CDF nerd para ser caracterizado como um rapaz até descolado, que anda de skate para se locomover nos corredores do colégio, usa um cabelo cool e não é exatamente um rejeitado pelas garotas. Antes de ser um garoto que se torna um herói por acaso, parece ser um herói por vocação, uma vez que na escola já se mete a defender os fracos dos valentões, mesmo que inevitavelmente acabe apanhando junto. Esta é uma mudança enorme que pode passar despercebida por boa parte da plateia, para os não leitores de HQs principalmente, mas que para os fãs do personagem (que são muitos, diga-se de passagem) soa como uma verdadeira heresia. Essa “atualização”, que tenta captar um novo público para o herói, é tão irritante quanto inserir na trama a busca pela origem dos pais de Peter, algo totalmente desnecessário e que, caso excluído, pouparia tempo na película para mostrar mais do cotidiano do rapaz e sua relação com os tios Ben e May Parker (Martin Sheen e Sally Field, respectivamente), os quais são e sempre serão suas verdadeiras figuras paternas. Ver o adolescente Peter logo no início da película envolvido em investigações para descobrir o paradeiro dos genitores é de franzir a testa, já que tira muito do caráter jovial do personagem.
Esse roteiro, escrito por James Vanderbilt e Alvin Sargent, mostra-se repleto de coincidências e situações forçadas para seguir adiante. Acreditar que a colegial Gwen Stacy pode ser uma competente estagiária dos laboratórios da Oscorp é algo bem duro de engolir, assim como aceitar que o Dr. Curt Connors pudesse criar um laboratório cheio de tecnologia nos esgotos de Nova York (logo em uma cidade repleta de paranoias com atentados terroristas) sem ninguém desconfiar. Além disso, a solução de fazer Peter Parker comprar os famosos lançadores de teia via internet (em um conhecido site de vendas on-line) chega a ser risível. Tropeços desta monta tornam a experiência frustrante e/ou irritante em várias passagens. É sempre desagradável quando a narrativa de um filme parece duvidar da inteligência do espectador e este é bem o caso.
Por outro lado, não se pode negar a química do casal central, ainda maior que a de Maguire e Kirsten Dunst na versão de Raimi. Contribui para tanto o fato de que eles estão namorando também fora das telas, mas seria leviano afirmar que este é o único motivo. Afinal, Webb teve como seu único trabalho anterior justamente uma comédia romântica que procura fugir dos clichês e que tem nas atuações um dos seus destaques e aqui ele demonstra mais uma vez sua competência em criar climas românticos na medida certa. Da mesma forma, a relação entre Peter e Tio Ben revela-se melhor desenvolvida do que no longa de Raimi (ainda mais quando lembramos da ótima atuação de Sheen). O que mais chama a atenção, entretanto, é que Webb demonstrou ser um ótimo diretor de cenas de ação, com certeza o ponto mais alto de todo a produção. Se neste aspecto os longas de Raimi já eram bons, este aqui faz jus ao seu título e se revela simplesmente espetacular. É realmente impactante ver o personagem que você acompanhou anos a fio nos quadrinhos ter a sua plástica imagética transposta de maneira tão precisa para a tela e ainda com o adendo daquelas velhas piadinhas do Aranha entre um salto e outro. A sequência final, com uma perfeita utilização do 3D (como é bom ver filmes que usam deste recurso de forma inteligente e não gratuita), é simplesmente de arrepiar. E tal afirmação vem de alguém que saiu verdadeiramente arrepiado da sala de projeção.
Tal sensação derradeira, contudo, não nos faz esquecer os tropeços inaugurais, levando-nos a novamente questionar: qual a finalidade deste reboot? Para responder à questão, vou parafrasear uma longeva banda do rock nacional: reboot para quem precisa; reboot para quem precisa de reboot. Bem, ao menos este escrevinhador não precisava de um reboot. Se a proposta era realizar uma adaptação mais fiel às origens nas HQs, o filme talvez fracasse ainda mais do que os longas de Raimi, que preservaram o espírito da fonte original, mesmo que tenha partido para algumas liberdades pontuais. Aqui, mesmo que em suas ações o filme lembre mais as histórias do aracnídeo, a essência destoa significativamente, o que talvez deixe a película menos envolvente e vibrante que aquelas da primeira trilogia. Um decréscimo decorrente da menor identificação do espectador com o personagem encarnado por Garfield, o qual se assemelha a Peter Parker, mas que não é exatamente aquele rapaz tímido que adquire poderes fantásticos e se vê compelido pelas circunstâncias a se tornar, por acaso, um herói.

terça-feira, 3 de julho de 2012
Para Roma, Com Amor

É comum a expectativa pela nova obra de um artista aumentar logo após um grande êxito em sua carreira. Não é assim apenas no cinema. Fico até imaginando o quanto a cantora Adele Adkins deve estar se sentindo pressionada a realizar um disco depois do estrondoso sucesso que foi o seu “21”, CD que arrebatou tanto o público quanto a crítica especializada. Afinal, não é fácil estar à altura do que as pessoas estão esperando, no caso, mais um disco cheio hits impactantes emoldurados por sua belíssima voz. Este excesso de expectativa, entretanto, pode, com frequência, gerar frustrações em quem espera uma nova obra-prima. É o mesmo que sucede com este “Para Roma, Com Amor”, o novo longa-metragem de um dos maiores cineastas vivos. Não bastasse já ocorrer uma certa ansiedade por se tratar de um filme de Woody Allen, o que por si só já causa burburinho no meio cinéfilo, ele ainda gerou mais questionamentos por se seguir a “Meia-Noite Em Paris”, um dos longas do diretor que, dentro da sua extensa filmografia, será no futuro lembrado como uma de suas obras mais destacadas.
Talvez alguns apontem “Para Roma Com Amor” como um fracasso de Allen exatamente devido a esta “expectativa”, mas designá-lo desta forma seria um tanto equivocado. É certo que esta sua nova produção está abaixo de “Meia-Noite Em Paris”, pois não possui a sua coesão, inspiração e inventividade. Nem mesmo usa Roma da maneira orgânica e apaixonada com que Woody usou Paris no seu sucesso recente, onde a Cidade Luz se apresenta também como um personagem da trama e não apenas uma paisagem turística que serve como um eventual pano de fundo para a narrativa e esta talvez seja, de fato, a maior desvantagem deste novo longa em relação ao último vencedor do Oscar de melhor roteiro original. Até mesmo porque a proposta de “To Rome With Love” seria de contar histórias que supostamente só poderiam se passar na Cidade Eterna, o que não condiz com o que é visto na tela. Na verdade, qualquer das várias tramas paralelas poderia se passar em vários outros lugares do mundo, o que acaba por se tornar possivelmente um demonstração de que Allen não conhece ou não tem uma afinidade tão grande com a cultura italiana como o tem com a francesa.

Tendo como referência o “Decamerão” (não é à toa que o primeiro título para a produção era “The Bop Decameron”), Woody nos apresenta quatro narrativas paralelas que não se comunicam, a não ser pelo fato de se passarem em Roma. Como é de se imaginar, elas se mostram oscilantes na sua qualidade (como normalmente acontece nesse tipo de filme), algumas despertando maior interesse, outras menos. A mais fraca delas é a protagonizada por Roberto Benigni, o qual interpreta um homem comum que de repente se vê caçado por jornalistas e paparazzi, numa óbvia alegoria a respeito das atuais celebridades instantâneas. Benigni até convence no papel, com bons momentos cômicos, mas a mencionada obviedade da estória soa mal diante do refinamento comum nos filmes de Allen. Do lado oposto, a trama que conta com Jesse Eisenberg, Ellen Page e Alec Baldwin é, sem dúvida, a melhor. Nela, vemos um arquiteto de meia-idade (Baldwin) encontrar um jovem estudante de arquitetura (Eisenberg) que está morando em Roma. Este acaba se apaixonando pela amiga (Page) de sua namorada que vai passar uns dias no apartamento onde o casal está morando, apesar dos alertas do recente amigo mais velho. Há algo na relação entre os dois que não irei revelar, pois aqueles que não viram o longa deixariam de ganhar com a surpresa. No entanto, este é o “conto” que mais transborda inteligência e reflexão, fazendo valer a ida ao cinema.

O mais cômico deles, entretanto, é o protagonizado pelo próprio Allen (voltando a atuar, já que desde “Scoop” ele não passava para a frente das câmeras), interpretando um produtor de óperas que, aposentado, jamais obteve sucesso junto à crítica. Em viagem para Roma, pois que sua filha noivou com um italiano esquerdista, ele conhece o pai do genro, um proprietário de funerária que possui uma autêntica voz de tenor. O problema é que ele canta bem apenas no chuveiro. É a deixa para o diretor investir no humor nonsense que também o caracterizou em obras anteriores, como no seu episódio de “Contos de Nova York” (New York Stories, 1989). A trama realmente traz cenas hilárias, aptas a agradar os mais diversos sensos de humor. Também apto a agradar o grande público é a narrativa do casal provinciano que está em Roma devido a uma oportunidade de trabalho do marido (Alessandro Tiberi). Uma vez no hotel, sua esposa (Alessandra Mastronardi) sai para procurar um salão de beleza, mas acaba se perdendo. É quando ocorre uma série de coincidências que levam o rapaz a fingir que a prostituta Anna (Penélope Cruz) é sua esposa, enquanto a mulher acaba se envolvendo com um galã italiano. Esta é a mais “apimentada” das narrativas e com maior destaque feminino (Mastronardi é uma atriz muito bonita e Cruz está sensualíssima, embora não tão brilhante como em "Vicky, Cristina, Barcelona") e possui aquele toque sofisticado com que Allen costuma tratar de sexo, longe de vulgaridades.
O espectador atento à carreira do diretor irá perceber os seus velhos temas mais uma vez abordados. Estão lá a sexualidade, as divergências políticas, o profissional frustrado que busca sucesso e realização pessoal, a crítica à cultura das celebridades (é bom lembrar que ele fez um filme apenas para tratar deste tema há alguns anos), as diferenças culturais, entre outros. Pena que desta vez o resultado não tenha sido tão primoroso, mesmo que trate as temáticas com leveza e nos faça rir em diversos momentos. Mas aí entramos de novo na tal questão das “expectativas”. Se você estiver esperando mais uma obra de excelência, certamente ficará frustrado(a). Contudo, se estiver esperando apenas rir de maneira inteligente, provavelmente sairá do cinema satisfeito(a). E, mesmo que aqui Roma tenha servido apenas como pano de fundo, dá uma baita vontade de visitar a Fontana de Trevi logo depois da sessão.
Cotação:

Nota: 8,0
domingo, 1 de julho de 2012
Quero Ver Novamente #18

Só um alerta: se você ainda não viu Blade Runner, talvez seja melhor ver o filme antes, já que a cena faz parte da conclusão da trama.
domingo, 24 de junho de 2012
Branca de Neve e o Caçador

E quase torcemos pela rainha má...
Eu queria fugir de proferir aqui uma frase de Twitter, mas acaba se tornando inevitável afirmar que “Branca de Neve E o Caçador” traz uma nova roupagem ao desgastado conto da tradição alemã eternizado pelos Irmãos Grimm no século XIX. Não há como fugir dessa obviedade, principalmente porque a imagem imediata que vem à mente ao ouvirmos o nome da personagem do título é aquela concebida por Walt Disney no clássico animado dos anos 30. Ou seja, a lembrança primordial do conto está ligada àquela inocência das produções da Casa do Mickey, o que pode ser uma falsa ideia e, no caso, realmente o é. Afinal, o mito de Branca de Neve tem sua base na disputa ciumenta e invejosa entre a mulher mais velha, com a beleza em declínio, e a mulher jovem, no ápice da formosura e sensualidade. No fundo, o que o tal espelho encantando pronuncia com sua famosa resposta de que “Branca de Neve é ainda mais linda” traduz-se na supremacia da mulher mais nova sobre a mais madura.
Curioso que as escolhas dos produtores para os papeis centrais desta versão mais “dark” de Branca de Neve resulte para o público em impressões opostas às pretendidas pelo conto-mito tal como como elaborado. Isso porque Charlize Theron, a nova Rainha Ravenna, é uma atriz de muito maior beleza, presença e talento do que a insossa Kristen Stewart, a mocinha da série “Crepúsculo”. O novato diretor Rupert Sanders, que veio do mercado publicitário e não é bobo nem nada, percebeu a situação e entregou as melhores sequências para que Charlize brilhasse sem dó nem piedade de Stewart, a qual se mantém o filme inteiro com aquela velha boca eternamente entreaberta (será resultado dos seus incisivos proeminentes?). Isso quase nos leva a torcer para que a malvada Ravenna triunfe, fato que só não acontece porque Sanders (juntamente com os roteiristas Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini) carrega tanto em algumas maldades da Rainha que fica impossível torcer por ela. Afinal, estamos falando de contos de fadas, maniqueístas por excelência, onde o bem e o mal estão sempre muito bem definidos.

À parte a presença de Charlize, realmente determinada na sua composição cênica, o longa chama a atenção pela concepção acentuadamente soturna empregada por Sanders, usando uma fotografia de tons frios para realçar o clima sombrio que propõe. Nada mais adequado, principalmente para demonstrar o período negro em que mergulha o reino após a morte do antigo monarca, pai de Branca de Neve, responsável por um período áureo na região , mas que se casa com Ravenna e é por ela assassinado. Ademais, os efeitos especiais são ótimos, além de uma maquiagem excepcional, a qual envelhece e rejuvenesce Charlize a cada cena (não será estranho se vier a ser indicada ao prêmio da Academia). Um nível de produção que lembra a saga de “O Senhor dos Anéis”, contando ainda com uma direção de arte primorosa em igual medida. Ou seja, “Branca de Neve E o Caçador” é um espetáculo visual de grande qualidade, mesmo que por vezes tais imagens se prestem a situações clichê, como a criação de um triângulo amoroso entre a princesa, um príncipe e o Caçador de título, sendo este interpretado por Chris “Thor” Hemsworth. Desde o ínicio, já percebemos que nessa versão moderna o “príncipe” de Branca de Neve não será exatamente um nobre com sangue real, mas o viril caçador que lhe transmite segurança e, sobretudo, um amor sincero. Ou seja, mesmo no clichê, Sanders procurou atualizar o mito, tornando-o adequado à visão que hoje as mulheres têm de um relacionamento (onde não mais focam na segurança social transmitida por um “bom partido”, mas na sua segurança emocional). Pena que Chris Hemsworth não contribua e apenas pareça repetir a encarnação do deus do trovão que realizou para os filmes da Marvel.

Até mesmo na caracterização da mocinha a estória ganha uma atualização. A princesa não se reduz a tão somente uma posição passiva, esperando que o seu príncipe encare os perigos para salvá-la. Então, ela mesma vai à luta, por assim dizer, vestindo trajes de guerra e empunhando a espada contra a maléfica Ravenna. Mas é justamente quando o longa se propõe a ser mais um duelo de capa e espada, rumando para uma ação mais escancarada, que ele acaba descambando para obviedades maiores e perdendo muito do seu interesse, pois que se torna mais previsível do que naturalmente já seria a adaptação de uma narrativa pra lá de conhecida. É bom até mesmo lembrar que há pouco tempo já tivemos “Espelho, Espelho Meu” (Mirror, Mirror - 2012), mais uma adaptação live action da estória da princesa que encontra sete anões em um bosque (e mais um sinal da maré de criatividade baixa em Hollywood nos últimos anos).
Falando em anões, a presença deles no longa de Sanders talvez resuma perfeitamente o resultado final do projeto: de início causam ótima impressão, depois quase nos esquecemos deles. Até porque, no fim, Charlize quase não aparece em cena e temos que encarar as caras e bocas de Kristen Stewart de forma impiedosa, dando até a sensação de que o mal triunfará e Hollywood premiará, no futuro, essa estrela fabricada com Oscar de melhor atriz. Se for assim, será melhor torcermos pelo retorno de Ravenna, para que essa finalmente barre o caminho de Branca de Neve e a tranque novamente na torre do castelo. E sem o Thor para salvá-la.
Cotação:

Nota: 7,0
sábado, 23 de junho de 2012
Trilha Sonora #23
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Prometheus

Ainda me recordo bem da primeira oportunidade em que assisti a “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979), filme de Ridley Scott que se tornou um dos precursores na mistura de ficção-científica, suspense e terror ao narrar a trama de um monstro extraterrestre que trucida todos os integrantes da tripulação da nave rebocadora Nostromo. A única que sobrevive é a tenente Ripley, papel mais marcante da carreira de Sigourney Weaver. A exibição foi na famigerada Rede Globo e lembro de vê-lo juntamente com meu pai, lá com os meus 11 ou 12 anos, e acredito que ele nem imaginava o quão sinistro e violento aquele filme iria se mostrar par um menino nessa idade. O clima sombrio e extremamente tenso da película me deixaram impressionado e lembro de ter morrido de medo na famosa sequência em que o Alien surge pela primeira vez, “nascendo” do abdome de um dos tripulantes. A verdade é que tanto eu quanto quanto meu pai adoramos o que vimos e acompanhamos todos os outros capítulos da franquia (passando também pelo fraco “Alien – A Ressurreição”, de 1997).
Naquela época, devido à minha reduzida idade, eu não percebi o que a película tentava transmitir através de suas entrelinhas. Quando analisada com atenção, toda a série “Alien” se revela uma metáfora para a luta feminina em um mundo dominado por homens. Afinal, o Alien do filme de Scott (e dos restantes dirigidos por James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet) é um invasor de corpos, em outras palavras, um estuprador, um ser que procura inseminar suas presas através da violência. Este subtexto de violência sexual é tão importante para a franquia assim como o é fisionomia macabra e assustadora do alienígena, oposta a dos extraterrestres amigáveis concebidos por Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T. - The Extra-Terrestrial, 1982) e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters Of The Third Kind, 1977). E essa conotação feminista é tão forte que Scott, retornando à franquia desde seu primeiro epísódio, não pôde fugir dela neste “Prometheus”, o prequel da série concebido agora em 2012. Aliás, é possível afirmar que o subtexto feminista talvez nunca tenha estado tão presente em toda a série como aqui, onde de maneira explícita (SPOILER) vemos uma mulher retirar do seu interior um feto indesejado. É sintomático que seja novamente uma mulher a única sobrevivente da carnificina e que até mesmo a concepção estética de suas roupas íntimas seja destituída de feminilidade, como que a denunciar que para sobreviver naquele ambiente hostil seja necessário assumir um comportamento masculinizado (FIM DE SPOILER).

Mas é claro que a franquia Alien é, antes de tudo, concebida como thrillers de suspense e este novo episódio não poderia fugir à regra. A tensão presente em Prometheus é constante, desde o primeiro até o último fotograma, apesar de suas ambiciosas pretensões filosóficas ao expor uma narrativa que tem como norte a origem da vida humana. É em busca dela que uma expedição é enviada a uma lua de um planeta de certo e longínquo sistema solar. A partir de uma descoberta arqueológica em uma caverna na Terra, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”) acredita que humanoides denominados como “Engenheiros” seriam os responsáveis pela criação da vida humana em nosso planeta e que eles teriam deixado uma espécie de “convite” para que a humanidade viajasse até essa longínqua galáxia e descobrisse suas verdadeiras origens. Como é de se imaginar, entretanto, a coisas não correm exatamente como o esperado, fugindo do controle e descobrindo-se que a missão não seria exatamente um passeio de encontros de pacíficos.
Com fez no primeiro longa da série, Scott soube muito bem trabalhar as relações e características dos personagens tripulantes da Prometheus, a nave que dá título à produção e que é responsável pela viagem em busca da origem da vida, item essencial para que haja uma empatia do público com a narrativa. E assim, além da citada Elizabeth Shaw, também conhecemos Meredith Vickers (Charlize Theron), executiva que representa a empresa financiadora da expedição, além do robô David (Michael Fassbender, o ator da moda), autômato no melhor estilo “Blade Runner” (outro filme de Scott), criado como imitando a imagem e semelhança dos humanos porque estes se sentem “melhor interagindo com outros seres da mesma espécie”. Por outro lado, essa estrutura muito semelhante àquela da película de 1979, gera uma sensação de filme repetido, fazendo-nos esperar por uma sucessão de eventos que levarão à inevitável dizimação da tripulação.

Todavia, como já ressaltado, a tensão engendrada é angustiante, fazendo jus ao longa pioneiro. Scott sabe, como poucos, entregar uma atmosfera sombria e sufocante, deixando o espectador sempre com sensação de que algo terrível vai acontecer a qualquer momento. A fotografia (de Darius Wolski) contribui para tanto, assim como a trilha sonora se mostra eficiente em carregar dita atmosfera. O elenco, por seu turno, é oscilante. Se Charlize Theron desta vez apenas contribui com sua beleza, Noomi Rapace tem ótimos momentos (principalmente na citada sequência da “cesariana”). Mas é mesmo Michael Fassbender quem rouba a cena (mais uma vez) com o seu robô David, o mais intrigante dentre todos os personagens.
Ao final, o que posso afirmar é que este novo Ridley Scott me fez sentir muito do gostinho daquela primeira e já distante experiência com a franquia (é, estou ficando velho). Não atinge o nível de brilhantismo do pioneiro, carecendo obviamente da originalidade nele presente, além de possuir um argumento um tantinho pretensioso. Contudo, é impossível não se deixar envolver por este suspense, apto a agradar aos fãs e não fãs da franquia, possivelmente a mais feminista do cinemão hollywoodiano, mesmo que muita gente nem se dê conta disso.
Cotação:

Nota: 9,0
Obs.: O 3D do filme é bem dispensável. Acabei me arrependendo de ter pago mais caro.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Filmes Para Ver Antes de Morrer

(Splendor In The Grass, 1961)
O brilhante diretor Elia Kazan é uma das personalidades mais controversas da história de Hollywood. De origem grega (filho de gregos, nasceu em Constantinopla, então capital do Império Turco-Otomano), iniciou sua carreira como diretor de teatro na Broadway, migrando posteriormente para o cinema e levando para a tela grande uma direção de atores baseada no famoso Método Strasberg, orientando os atores a usarem vivências pessoais para dar maior verdade à composição dos personagens. Foi dirigindo “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar Named Desire, 1951) que ele atingiu o respeito no mundo cinematográfico e alçou Marlon Brando ao estrelato, fantástico no papel de Stanley Kowalski. Entretanto, a despeito de seu talento na direção, Kazan se tornou uma das figuras mais odiadas do meio artístico por ter delatado antigos companheiros do Partido Comunista ao funesto Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas durante o Macartismo. Não por acaso, durante a cerimônia do Oscar que lhe concedeu um prêmio honorário, vários dos presentes, como Jim Carrey, Nick Nolte e Ian McKellen se recusaram a aplaudi-lo (Sean Penn chegou a encabeçar uma moção de repúdio à decisão da Academia).
Apesar do caráter duvidoso, é inegável que o talento de Kazan rendeu obras inesquecíveis. Além do citado “Uma Rua Chamada Pecado”, são dele “Sindicato de Ladrões” (On The Waterfront, 1954) – cujo drama hoje soa como uma defesa de sua posição de delação – e “Vidas Amargas” (East Of Eden, 1955), onde levou James Dean ao estrelato ao dirigi-lo numa trama de conflito de gerações. E uma outra de suas obras mais marcantes é exatamente este “Clamor do Sexo” (título em português infeliz para “Splendor In The Grass”), sua película de 1961, a qual parece reunir, a um só tempo, as temáticas dos citados “Vidas Amargas” e “Uma Rua Chamada Pecado”, aliando a abordagem do conflito de gerações e carência afetiva à repressão sexual imposta pelos condicionamentos socioculturais.

Desde a primeira sequência, onde Bud Stamper (Warren Beaty, em seu primeiro papel de destaque) e Deanie Loomis (Natalie Wood) são vistos se beijando em frente a uma cachoeira, a temática da repressão sexual é colocada em foco. Já percebemos assim que os personagens terão seus destinos inteiramente afetados pelo seu desejo reprimido, mas estaríamos sendo reducionistas se enxergássemos apenas este ponto na ampla crítica social oferecida por Kazan e o ótimo roteirista William Inge. Herdeiro de um rico produtor de petróleo (Pat Hingle), além da frustração sexual o jovem Bud tem de enfrentar a imposição de seu pai que deseja formá-lo em Yale, adiando sua vontade de casar-se com Deani e realizar-se profissionalmente como fazendeiro. Por seu turno, Deanie quase enlouquecerá ao ver-se dividida entre dois estereótipos possíveis em 1928, ano em que se passa a ação da película (um anos antes da grande depressão econômica, portanto): o da virgem discreta e “séria”, que não cede aos próprios desejos sexuais, senão apenas depois do casamento e para satisfazer a lascívia do marido (“isso é coisa de homens”, ensina-lhe sua mãe); ou o da moça leviana-promíscua, encarnada no filme na figura de Ginny (Barbara Loden, ótima), irmã de Bud. Todavia, os personagens não são tratados de maneira maniqueísta e mesmo a severa mãe de Deanie tem seus momentos de absolvição.
Mas nem só de crítica social vive “Splendor In The Grass”. A riqueza de seus personagens passa longe do lugar-comum, o que era mesmo de se esperar de um filme de Kazan. Eles surgem para o espectador, antes de tudo, como pessoas reais, cujas vidas acabam tomando rumos diversos do esperado. E este, possivelmente, é o aspecto mais encantador da película, já que se torna impossível não compartilhar do seu drama. Afinal, todos nós já sentimos que a vida tomou rumos divergentes do que pretendíamos. Não que isso tenha ocasionado necessariamente vivências negativas (por diversas vezes ocorre justamente o contrário), mas certamente você já se pegou refletindo sobre os caminhos que teria tomado ao fazer escolhas diferentes das que fez no passado. Essa perspectiva é forte no longa de Kazan, tanto que o título da produção foi retirado de uma poesia de William Wordsworth que reflete exatamente sobre tais circunstâncias, afirmando que é do que passou que retiramos nossa força.

Importante elucidar que Kazan utiliza de formas novidadeiras para narrar o drama, aliando o estilo narrativo da Nouvelle Vague a uma maneira de abordagem que seria precursora da Nova Hollywood. Talvez tenha sido esta experiência com Kazan, inclusive, que tenha levado o novato Warren Beaty a acreditar que o cinema norte-americano precisava de uma sacudida e o tenha feito lutar pela futura produção de "Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas" (Bonnie & Clyde, 1967). Aliás, neste "Clamor do Sexo" ele está muito bem para um principiante, muito embora tenha começado aaqui a pecha de galã que o acompanharia ao longo de vários anos e que levaria os chefões dos estúdios a colocá-lo apenas em papeis do genêro (pelo menos até a realização do citado "Bonnie & Clyde"). Mas é Natalie Wood que tem, efetivamente, a atuação mais destacada da película. Ela incorpora os tormentos de Deanie como muita garra, em um trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (o que invariavelmente acontecia com os dirigidos por Elia Kazan). Mas o diretor não era só bom com atores. Os inusitados e criativos ângulos de câmera mostram que ele sabia mexer com a ferramenta do cinema, estando seus longas longe de serem apenas uma espécie de "teatro filmado".
Ainda com uma trilha sonora belamente composta por David Amram, "Splendor In The Grass" é um daqueles filmes que vão crescendo em sua memória e que nos deixa enternecidos diante de seu desfecho, ao mesmo tempo belo, melancólico e verdadeiro (não à toa levou o Oscar de melhor roteiro original). A cada lembrança ele se torna melhor, mais relevante e memorável, lembrando-nos que muitas vezes podemos não gostar da pessoa de um artista, mas que isto não implica desconsiderar sua arte. Assim como o genial músico Richard Wagner tem uma obra de méritos artísticos inquestionáveis, mesmo diante do seu mau-caratismo, o mesmo deveria suceder com Elia Kazan, um homem de caráter deveras duvidoso, mas que possui uma filmografia de mestre.
Cotação:

Nota: 10,0

