
Fernando Meirelles é um diretor que sofre do que podemos definir como a “síndrome de Orson Welles”. Tal como o diretor de “Cidadão Kane”, o qual passou o resto da carreira tentando ratificar o talento promissor que demonstrava no início, mas sem o mesmo sucesso junto à crítica, o cineasta brasileiro vive à sombra do seu primeiro trabalho de destaque (antes havia dirigido apenas “O Menino Maluquinho 2”, de 1998, e “Domésticas”, em 2001), a obra-prima “Cidade de Deus”, longa-metragem considerado por muitos como um dos melhores do presente século XXI. Diante do impacto mundial gerado pelo filme, a cada novo trabalho seu espera-se algo espetacular, uma nova obra-prima que marcará a década ou algo que o valha. Isso certamente prejudica a avaliação dos trabalhos de Meirelles, os quais parecem estar sempre aquém do seu potencial, o que não é exatamente uma verdade. Embora inferiores ao mencionado “Cidade de Deus”, tanto “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005), quanto “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, 2008) são ótimos filmes, muito bem dirigidos e eficientes nas sus pretensões (o próprio Saramago aprovou a adaptação de Meirelles para o seu livro, portanto não sou eu que vou discordar). Entretanto, não se pode negar que esta sua nova película, “360”, representa o ponto mais baixo da sua carreira pós-Cidade de Deus.
Esta afirmação, por outro lado, não significa dizer que o filme é ruim. Não é. Possui vários personagens interessantes, atuações convincentes e a sempre precisa mão de Meirelles na direção, dando ritmo (com a ajuda da edição do competente Daniel Rezende) à narrativa e tornando a experiência quase sempre atrativa para o espectador. O grande problema da produção, em verdade, reside no roteiro cheio de pretensões de Peter Morgan e pretensões estas que não são alcançadas ao final da projeção. Em entrevistas, o próprio Meirelles chegou a afirmar que a película seriam mais um trabalho de Morgan do que dele próprio, o que parece fazer sentido. Inspirado em uma peça de Arthur Schnitzler que já foi algumas outras vezes adaptada para o cinema (vide La Ronde, dirigido por Max Olphüs em 1950), o roteiro tem aquela estrutura de narrativa múltipla, com vários tramas paralelas que vão se interligando, o que certamente traz um prazer extra para aqueles responsáveis pelo seu desenvolvimento. A presença de Meirelles no projeto parece ter sido uma escolha dos produtores que se baseou no seu notável talento para dirigir elencos numerosos, como é o caso aqui. Entretanto, um problema frequente neste tipo de roteiro se faz muito presente em “360”: algumas das tramas são concluídas de forma muito insatisfatória, sendo que vários dos personagens são praticamente esquecidos ao fim da projeção, a despeito do bom trabalho desenvolvido pela maior parte do elenco estelar que inclui nomes como Anthony Hopkins, perfeito e longe da preguiça dos últimos anos, no papel de um homem em busca da filha desaparecida; a brasileira Maria Flor, ótima como uma imigrante desiludida que resolve voltar para o Brasil; Jude Law, como um pai de família que está vivendo uma crise no seu casamento com Rose (Rachel Weiz); ou ainda as desconhecidas Lucia Siposová e Gabriela Marcinkova na pele de duas irmãs vindas do leste europeu. Uma delas, a mais velha, acaba se prostituindo para desgosto da caçula.

Apesar das suas conclusões frustrantes, os tipos apresentados estão muito bem estruturados. São figuras tridimensionais, cheios de imperfeições e atitudes equivocadas o que lhes confere uma humanidade sincera e este é realmente o grande trunfo da película. A verdade daquelas pessoas nos cativa e impressiona, por mais que, em vários momentos, reprovemos seus comportamentos. A concepção dos personagens ajuda muito na colocação daquela que pode ser vista como a temática central do longa: as consequências das escolhas que tomamos em nossas vidas, opções estas feitas de forma reflexiva ou impulsiva, mas que podem decidir toda a nossa trajetória. Desde a primeira cena nos deparamos com este conceito, ao vermos Mirka (Siposová) iniciando sua vida na prostituição e também concluímos com sua irmã tomando um atitude que alterará sua vida de forma irreversível. É justamente o arco dessas irmãs que é concluído de forma satisfatória para o espectador, apresentando um desfecho conceitual interessante, mesmo que em aberto.
Na verdade, talvez “360” seja um filme melhor do que uma visão rigorosa possa demonstrar. Afinal, vivemos esperando de Meirelles um novo “Cidade de Deus” o que acaba comprometendo uma melhor degustação dos seus filmes. Eu mesmo, confesso, assisti a “O Jardineiro Fiel” com essa expectativa e no caso de “Ensaio Sobre a Cegueira” ela era ainda maior, já que tenho uma grande admiração pela obra de Saramago (um dos melhores romances que já li na vida, sem dúvida). Quando do lançamento do recente “Para Roma, Com Amor”, novo trabalho de Woody Allen, mencionei este problema das expectativas, que mais uma vez se faz presente aqui. Acredito que, antes de tudo, cabe a nós nos livrarmos dessas “síndromes”, a esperar que a cada novo filme um grande cineasta nos entregue uma nova obra-prima. Ir ao cinema sem esperar demais é sempre recomendável e muito mais prazeroso.
Cotação:

Nota: 7,5















































