
sábado, 18 de agosto de 2012
Curtindo o Curta #5

domingo, 12 de agosto de 2012
Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Este era o filme mais aguardado do ano e o seu “hype” (para usar uma expressão da moda) tornou-se ironicamente ainda maior depois do evento sinistro ocorrido na cidade de Aurora, localizada no estado do Colorado, Estados Unidos. Ironia talvez mais forte seja a de que o ocorrido traduz muito da essência da trilogia do diretor Christopher Nolan. Não que os filmes de Nolan incentivem chacinas ou algo do tipo, longe disso. O que ocorre é que a trilogia de Batman, um reboot com tons opostos aos dos primeiros filmes engendrados pela Warner com o personagem (incluindo-se os longas de Tim Burton), tem como ponto crucial exatamente esta dualidade entre nossa figura pública/social e o que realmente somos. O atirador de Aurora, ao afirmar ser “o Coringa” quando da prática de seus atos homicidas, estava ali revelando sua verdadeira face, escondida debaixo de uma máscara de neurocientista em pós-graduação. Um recurso que todos usamos em maior ou menor grau, dependendo do quanto o nosso lado oculto pode ser mais ou menos aceito pelo círculo social em que vivemos.
No meu texto sobre o filme anterior da trilogia, “O Cavaleiro das Trevas”, eu discuti o quanto o Batman dos quadrinhos vinha sendo mal adaptado para a tela grande ao longo dos anos. O longa que teve a memorável atuação de Heath Ledger, que transformou o Coringa em um dos maiores vilões da história do cinema, finalmente retirou Batman deste calabouço qualitativo e o colocou onde sempre deveria estar: no topo das bilheterias, da atenção do público, da mídia e da crítica. E toda esta expectativa gerada em torno do lançamento de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” se deve muito mais ao segundo episódio da franquia, revolucionário em retirar as adaptações de HQs do gueto das “diversões para adolescentes”. Contudo, talvez seu maior mérito nem seja o de nos render uma interpretação inigualável de um já saudoso ator, mas o de nos entregar, com grande competência, um ensaio sobre esta dualidade humana entre o exposto e o oculto de nossa personalidade. A concepção do Coringa apresentada (bastante fiel àquela das HQs, por sinal) é a de um homem que desistiu dessas máscaras e que optou por viver apenas imerso no seu lado sombrio, uma vez que não acredita mais na natureza humana. Batman seria o seu oposto e simulacro inverso: um homem que precisa se disfarçar para que possa expor sua crença nesta última.

Nesta derradeira parte da trilogia, esse jogo de máscaras chega ao seu ponto culminante. A trama é pontuada por reviravoltas decorrentes dessa dualidade, tanto no que se refere ao protagonista, quanto aos seus opositores, sendo representada da forma emblemática na dúbia figura da Mulher-Gato (Anne Hathaway), a qual desempenha papel relevante na narrativa. O roteiro, embora não de forma óbvia, retira dos quadrinhos oitentistas de Frank Miller várias ideias do argumento (e não só o título “Cavaleiro das Trevas”). Afinal, foi Miller o primeiro a conceber um Batman “aposentado”, vivendo apenas seu “lado” Bruce Wayne e que sai dessa aposentadoria por não resistir à retomada de sua verdadeira faceta. Aqui sucede o mesmo. Há anos, desde os eventos narrados no segundo título da trilogia, Bruce Wayne (Christian Bale) não veste mais a máscara do morcego, levando apenas sua vida de milionário beneficente. Ocorre que Gotham City é invadida por Bane (Tom Hardy), líder de uma gangue que espalha o caos na cidade e que pretende destruí-la com uma bomba atômica caso qualquer um dos seus cidadãos ouse deixar o perímetro urbano. Ao mesmo tempo, Bruce vive uma aproximação com a empresária Miranda (Marion Cottilard, sempre uma ótima presença) e uma relação dúbia com Selina Kyle, a mencionada Mulher-Gato.
Não resta dúvidas que o longa rende ótimos momentos, com sequências de ação muito bem elaboradas e um clímax empolgante que deixa todos os espectadores grudados na poltrona. Contudo, em termos de resultados artísticos, este último episódio se coloca um degrau abaixo do anterior simplesmente por um único motivo: ele não tem o Coringa e a sensacional atuação de Heath Ledger. O Coringa é, provavelmente, o vilão mais bem elaborado das HQs, seja da DC ou Marvel ou ainda qualquer outra linha editorial. A riqueza de sua transposição para a tela promovida por Ledger tornou-se algo extremamente marcante e seria difícil para Tom Hardy conceber um antagonista à altura, até mesmo porque o seu Bane, um personagem gerado nos quadrinhos a partir de um golpe de marketing da DC Comics, é um vilão muito aquém das possibilidades interpretativas oferecidas pelo Coringa.

Contudo, isso não significa afirmar que o “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não seja um grande filme. Apesar de alguns momentos em que o roteiro (escrito pelo próprio Nolan com seu irmão Jonathan Nolan) me pareceu apressado – o que talvez tenha sido até uma necessidade, pois que o filme já tem uma metragem bem longa - a relação e construção dos personagens se mostra mais uma vez um dos méritos da direção do cineasta, mesmo diante da mencionada inferioridade de Bane quando comparado ao Coringa. Todo o elenco nos rende boas performances, deste o protagonista Christian Bale, passando pelos coadjuvantes Michael Caine como o querido Alfred, Morgan Freeman como Lucius Fox e até Anne Hathaway, sobre a qual sempre pairaram minhas dúvidas sobre suas possibilidades de encarnar a Mulher-Gato. Outro destaque relevante vai para Joseph Gordon-Levitt, interpretando um personagem extremamente relevante e que guarda uma surpresa para os fãs no final.
Aliás, surpresa para os fãs é o que não falta durante a projeção. Nolan, com esperteza e fluidez, joga várias cenas icônicas dos quadrinhos na tela, deixando aqueles que conhecem as obras originais com um sorriso nos lábios. Além disso, apresenta um terceiro episódio inteiramente conectado com os anteriores (talvez até mais com o primeiro do que com o segundo), o que revela a necessidade de vê-los ou revê-los para obter uma compreensão mais apurada. E vale destacar também: como uma aparente resposta aos críticos que apontavam a falta de emoção nos seus filmes, Nolan concebeu uma conclusão capaz de tocar mesmo aqueles que não são fãs de Batman ou HQs. Uma direção firme, mas que não esqueceu de jogar para a torcida.
Ao fim da projeção, depois de quase 2h45min, fiquei me perguntando quais seriam os novos rumos do homem-morcego nas telas. Acredito ser muito difícil ao menos igualar o trabalho que Nolan realizou com o personagem nesta trilogia., trabalho este que por vezes nos fazia esquecer que estávamos vendo um “filme de super-herói”. Fugindo dos clichês que marcaram Batman ao longo dos anos, o diretor conseguiu resgatar um personagem sepultado pelas adaptações infelizes do passado (principalmente as de Joel Schumacher) e conduzi-lo ao topo das atenções e das bilheterias. Uma pena que a franquia, devido aos fatos tristemente sinistros que lhe ficaram associados, dificilmente venha a ser agraciada com prêmios. Seria uma ótima chance de derrubar de vez o estereótipo que cerca os filmes baseados em HQs, mas não ocorrerá. Mas quem sabe o Batman não acaba mais uma vez derrotando seus inimigos e revertendo esse quadro? Ou vão querer que o “Coringa” vença no final?
Cotação:

Nota: 9,5
P.S. Devido a dias de muito trabalho e às Olimpíadas de Londres este blogueiro estava com pouco tempo para escrever resenhas ou mesmo comentar nos blogs amigos. Afinal, jogos olímpícos ocorrem apenas a cada 4 anos e sempre gosto de conferir o máximo possível. Só espero que daqui a mais 4 anos, no Rio de Janeiro, nosso desempenho seja melhor.
sábado, 28 de julho de 2012
Filmes Para Ver Antes de Morrer
Bryan Singer certamente não imaginava que estava criando uma nova era no cinema quando, em 2000, foi o responsável pela direção de “X-Men – O Filme”. Foi o êxito deste longa-metragem sobre os mutantes da Marvel Comics que fez surgir uma década dominada por grandes lançamentos cinematográficos baseados em HQs. Mesmo que Richard Donner já tivesse mostrado ao mundo, ainda nos anos 70, que era possível fazer um bom filme a partir de um personagem egresso dos quadrinhos, foi apenas com o longa de Singer, um sucesso tanto de público quanto de crítica, que surgiu uma onda de adaptações da Nona Arte, não restritas apenas a histórias de super-heróis, passando até mesmo por dramas de caráter político (como a animação “Persépolis”). Este ano, já tivemos “O Espetacular Homem-Aranha” invadindo as telas e, neste fim de semana, temos o desfecho da trilogia do homem morcego com “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Diante de tantas produções, o Cinema Com Pimenta lista aqui sete filmes essenciais para quem quer se aventurar nas adaptações de quadrinhos sem ter que encarar bombas como “Lanterna Verde” ou “O Justiceiro”. Vamos a eles!

7) Homem de Ferro (Iron Man, 2008) – A primeira experiência da Marvel enquanto estúdio de cinema resultou em uma ótima diversão e o resgate da carreira de Robert Downey Jr. após seu ostracismo devido à dependência de drogas, levando-o ao estrelato e transformando-o em uma figura extremamente pop. Com este longa, a Marvel ganhou confiança e iniciou uma série de lançamentos que culminariam com “Os Vingadores”, filme que reúne os heróis anteriormente apresentados em episódios solo. O personagem de Downey Jr, o empresário playboy Tony Stark, tornou-se referência como personagem “cool”. Mas é melhor ficar com este aqui, pois a continuação “Homem de Ferro 2” acabou ficando aquém do original;
6) Estrada Para Perdição (Road to Perdition, 2002) – O espectador eventual pode nem se dar conta, mas esta é uma adaptação de quadrinhos. Dirigido por Sam Mendes, vencedor do Oscar por “Beleza Americana” (Amaerican Beauty, 1999), e protagonizado por Tom Hanks, tendo ainda participação do lendário Paul Newman e Jude Law, além de um ainda desconhecido Daniel Craig. A trama, baseada na graphic novell escrita por Max Allan Collins e ilustrada por Richard Piers Rayne, narra a fuga do mafioso Michael Sullivan (Hanks) com seu filho (Tyler Hoechlin) após este último testemunhar uma execução e ter a vida ameaçada pelos gangsters. O ambiente é o dos anos 30, durante a grande depressão e vale à pena conferir não só pela bela e precisa reconstituição de época, mas também pela linda fotografia, ótimas atuações (Newman arrasa) e desfecho interessante e emocional sem cair em pieguismos. Um longa injustamente esquecido em premiações e que comprovou o talento de Mendes, uma diretor egresso do teatro que realizou uma obra completamente cinematográfica;
5) V de Vingança (V For Vendetta, 2006) – Adaptação de uma obra do genial Alan Moore, trata-se de um filme que merecia maior repercussão do que aquela que obteve. Isso se explica possivelmente devido ao boicote e crítica feroz que partiu de meios midiáticos conservadores (no melhor exemplo FOX News), pois que o filme tem seu foco em um subversivo conhecido por Codinome V (Hugo Weaving). A história se passa em 2020, em uma Grã-Bretanha dominada pelo governo fascista de Adam Sutler (John Hurt), onde a censura impera em todos os meios de comunicação. É quando o tal Codinome V, no dia 05 de novembro, aniversário da conspiração de 1605 em que Guy Fawkes tentou destruir o parlamento inglês e destituir o rei James I, convoca a população, em rede nacional de TV, a se rebelar contra esse estado de coisas. A verdade é que a figura de V acabou se tornando muito popular com o passar do anos, sendo que sua indefectível máscara se tornou símbolo de luta contra o sistema e é usada hoje por grupos de protesto como o Anonymous. Produzido e roteirizado pelo irmãos Warchowski, trata-se de uma obra inteligente e de impacto e que ainda guarda a memorável imagem de Natalie Portman de cabeça raspada. Sensacional!;

4) X-Men 2 (X2, 2003) – Continuação do referido “X-Men – O Filme”, este segundo episódio da franquia, também dirigido por Bryan Singer, é a mais perfeita tradução cinematográfica dos mutantes da Marvel. Sem as limitações orçamentárias impostas ao primeiro longa, Singer nos entrega um filme espetacular, onde tudo do primeiro é melhorado. Ainda lembro de ver esta sessão no cinema, encontrar uma antiga colega da faculdade (que não era nerd nem nada) ao ascender das luzes e vê-la comentando: “que filme bom, hein?”. Basicamente, a trama nos mostra os mutantes ainda mais perseguidos pela sociedade e pelo Estado após uma mal sucedida tentativa de assassinato do presidente dos EUA pelo mutante Noturno (Alan Cumming). Poucos filmes são fortes e claros na sua mensagem anti-preconceito (qualquer deles) quanto este. Um problema que nunca perde a atualidade, infelizmente;

3) Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, 2004) – O melhor filme da trilogia de Sam Raimi sobre o mais popular personagem da Marvel Comics, superando o já ótimo primeiro filme, realizado em 2002. O Aranha (Tobey Maguire com a melhor cara de bobo do cinema) é aquele herói cujas características o tornam o mais próximo dos espectadores: um nerd cheio de problemas, que tem que ralar para ganhar dinheiro; estudar; cuidar da tia idosa e viúva, além de enfrentar problemas de relacionamento com sua namorada e, no meio disso tudo, arranjar tempo para deixar de ser Peter Parker e salvar Nova York de supervilões. Enfim, é gente como a gente. Aqui, ele enfrenta o Dr. Octopus (Alfred Molina) e, mais uma vez, sua infinidade de problemas de rapaz comum. Repleto de sequências espetaculares, como a cena em que ele para um trem desgovernado à beira de um desastre, e contando com uma química perfeita entre os personagens, este é um daqueles que sempre vale uma olhadinha nas reprises que passam tanto na TV aberta quanto fechada. Poucos filmes foram tão eficazes em apreender e transmitir as essência de uma HQ quanto este aqui;

2) Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) – Filme revolucionário que fez com que todos, tanto público como a crítica, deixassem de ver os filmes de super-heróis apenas como uma diversão para adolescentes. O longa de Chritopher Nolan levou o verdadeiro Batman para a telona e ainda nos rendeu a mítica interpretação de Heath Ledger para o Coringa, colocando-o entre os vilões mais marcantes da história do cinema, ao lado de outros como Norman Bates e Hannibal Lecter. Pela primeira vez um filme baseado em HQs rendeu um oscar, no caso para o citado Heath Ledger (mesmo que póstumo). Hoje, vemos o lançamento retumbante de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e toda a expectativa gerada em torno deste se deveu principalmente ao segundo episódio da trilogia. O resto é história.

1) Superman – O Filme (Superman – The Movie, 1978) – Esse filme é tão mítico que inspirou até música de Gilberto Gil. É a adaptação de HQ mais cara à minha memória (tem até a minha idade), dada a minha empolgação quando eu o via ainda garoto. Tudo nele funciona (tudo bem, o Lex Luthor de Gene Hackman é meio chatinho), desde a trilha sonora icônica de John Williams até a interpretação clássica e inigualável que Christopher Reeve deu ao personagem. Mesmo a participação econômica de Marlon Brando, como Jor-El, é simplesmente memorável. Um filme ao mesmo tempo lúdico, inspirador e empolgante que nos deixa um sorriso no rosto após vê-lo, mesmo que seja pela 15ª vez. Palmas para Richard Donner!
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O problema não é o filme

Interessante, mas parece que está acontecendo o mesmo tipo de reação que o público teve aqui no Brasil em relação a "Clube da Luta", o filme de David Fincher que estava sendo exibido em uma sala de cinema em São Paulo, anos atrás, quando um estudante de medicina desequilibrado atirou a esmo fazendo várias vítimas. As pessoas parecem "com medo" de ver o filme, como se houvesse algo nele que fosse responsável pela violência, como se todos que assistissem à obra corressem um risco iminente de ser baleados. É provável que esta sensação seja ainda maior agora por se tratar do grande filme do ano, esperado impacientemente por uma multidão de fãs. Entretanto, é importantíssimo frisar: nenhuma obra artística pode ser responsabilizada por atitudes de doentes mentais. Nunca vi qualquer filme para sair com vontade de atirar ou espancar pessoas por aí. E uma atitude como esta, de adiar em meses um lançamento tão aguardado, só iria prejudicar mais ainda a carreira de um filme que, aparentemente, tem tudo para ser um dos destaques positivos do ano, não apenas pela sua arrecadação. Que as pessoas saibam separar alhos de bugalhos e que o estúdio não tome esta lamentável decisão. O cinema merece e nós espectadores também.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Cinema Com Pimenta: 4 anos!

Abaixo, segue uma sequência de "Cinema Paradiso" (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), o longa-metragem de Giuseppe Tornatore que acabou se tornando uma peça cara na memória de qualquer amante da 7ª Arte . Poucos (ou talvez nenhum outro) filmes traduzem tão bem a paixão pelo cinema quanto este e poucas cenas declaram de forma tão poética este sentimento quanto esta. O vídeo está sem legendas, mas não é necessário entender italiano para apreciar. Como diz o pequeno Totò: "Alfredo, é belíssimo!". Ah, e linda também a trilha de Ennio Morricone, não?
Um grande abraço a todos, muito obrigado e que venham mais 4 anos!
quinta-feira, 12 de julho de 2012
O Espetacular Homem-Aranha

Sempre fui contra o reboot da franquia “Homem-Aranha” nos cinemas. Apesar de algumas liberdades tomadas pelo diretor Sam Raimi na sua trilogia iniciada em 2002, como a criação da teia orgânica (no lugar dos famosos “lançadores”), considero os seus filmes como muito fiéis ao espírito das HQs, onde o nerd Peter Parker acaba picado por uma aranha radioativa e adquire poderes excepcionais, semelhantes aos de um aracnídeo. Sim, eu gosto de Tobey Maguire, com aquela cara meio de bobo, travado, uma vez que isso demonstra inteiramente como um rapaz tímido, impopular no colégio e isolado no seu conhecimento acadêmico acima da média se sente tendo de enfrentar a realidade de possuir grandes poderes e, com isso, surgirem “grandes responsabilidades”. Mesmo o terceiro filme da franquia, criticado por muitos, acabou me agradando (mesmo que seja, de fato, o ponto de menor qualidade na série). Para que, então, realizar um reboot de algo que foi sucesso de público e crítica (razões inteiramente opostas àquelas levadas a cabo pela Warner com o personagem de Batman)? Não podem ser outras razões senão as comerciais, o vil metal que é o objetivo primordial dos produtores de Hollywood. É importante, inclusive, frisar que o fim da participação de Raimi na franquia se deveu a divergências com os produtores, os quais queriam dar um norte para os episódios posteriores divergente do pretendido pelo diretor. O resultado abaixo do esperado da terceira parte da trilogia já denunciava essa falta de sincronia entre produção e direção. Ou seja, como para bom entendedor meia palavra basta, entre finalidades comerciais e artísticas.
Nessa queda de braço, normalmente quem leva a disputa é quem tem mais dinheiro e é claro que a Columbia (Sony), detentora dos direitos de adaptação das aventuras do teioso para o cinema, não saiu perdendo. Excluiu Raimi da direção (o que também levou à saída de Maguire) e resolveu reiniciar toda a franquia, partindo do zero como se nada houvesse ocorrido antes. Uma ideia pra lá de estranha, já que os filmes de Raimi são muito recentes e costumam ser reprisados à exaustão, tanto na TV aberta quanto na fechada. Contudo, não nego que as notícias que chegavam aos poucos pela net, como a escolha do bom ator Andrew Garfield para o papel de Peter Parker, bem como de Emma Stone para interpretar Gwen Stacy, acabaram por me deixar um pouco mais aliviado. Ambos são bons atores, o que já garantiria personagens convincentes. Um pouco mais desconfiado fiquei com a opção de Marc Webb para a direção, pois que até então ele havia dirigido apenas “(500) Dias Com Ela” (500 Days Of Summer, 2009), uma comédia romântica criativa e agradável, mas que está muito distante do gênero aventura/ação. No entanto, o que mais temia era o roteiro, que buscaria recontar a história da origem do Homem-Aranha de uma forma nova. E foi justamente o roteiro que me deixou estremecido na cadeira da sala de exibição.
O que mais irrita em toda esta nova adaptação é o fato de Pater Parker deixar de ser um CDF nerd para ser caracterizado como um rapaz até descolado, que anda de skate para se locomover nos corredores do colégio, usa um cabelo cool e não é exatamente um rejeitado pelas garotas. Antes de ser um garoto que se torna um herói por acaso, parece ser um herói por vocação, uma vez que na escola já se mete a defender os fracos dos valentões, mesmo que inevitavelmente acabe apanhando junto. Esta é uma mudança enorme que pode passar despercebida por boa parte da plateia, para os não leitores de HQs principalmente, mas que para os fãs do personagem (que são muitos, diga-se de passagem) soa como uma verdadeira heresia. Essa “atualização”, que tenta captar um novo público para o herói, é tão irritante quanto inserir na trama a busca pela origem dos pais de Peter, algo totalmente desnecessário e que, caso excluído, pouparia tempo na película para mostrar mais do cotidiano do rapaz e sua relação com os tios Ben e May Parker (Martin Sheen e Sally Field, respectivamente), os quais são e sempre serão suas verdadeiras figuras paternas. Ver o adolescente Peter logo no início da película envolvido em investigações para descobrir o paradeiro dos genitores é de franzir a testa, já que tira muito do caráter jovial do personagem.
Esse roteiro, escrito por James Vanderbilt e Alvin Sargent, mostra-se repleto de coincidências e situações forçadas para seguir adiante. Acreditar que a colegial Gwen Stacy pode ser uma competente estagiária dos laboratórios da Oscorp é algo bem duro de engolir, assim como aceitar que o Dr. Curt Connors pudesse criar um laboratório cheio de tecnologia nos esgotos de Nova York (logo em uma cidade repleta de paranoias com atentados terroristas) sem ninguém desconfiar. Além disso, a solução de fazer Peter Parker comprar os famosos lançadores de teia via internet (em um conhecido site de vendas on-line) chega a ser risível. Tropeços desta monta tornam a experiência frustrante e/ou irritante em várias passagens. É sempre desagradável quando a narrativa de um filme parece duvidar da inteligência do espectador e este é bem o caso.
Por outro lado, não se pode negar a química do casal central, ainda maior que a de Maguire e Kirsten Dunst na versão de Raimi. Contribui para tanto o fato de que eles estão namorando também fora das telas, mas seria leviano afirmar que este é o único motivo. Afinal, Webb teve como seu único trabalho anterior justamente uma comédia romântica que procura fugir dos clichês e que tem nas atuações um dos seus destaques e aqui ele demonstra mais uma vez sua competência em criar climas românticos na medida certa. Da mesma forma, a relação entre Peter e Tio Ben revela-se melhor desenvolvida do que no longa de Raimi (ainda mais quando lembramos da ótima atuação de Sheen). O que mais chama a atenção, entretanto, é que Webb demonstrou ser um ótimo diretor de cenas de ação, com certeza o ponto mais alto de todo a produção. Se neste aspecto os longas de Raimi já eram bons, este aqui faz jus ao seu título e se revela simplesmente espetacular. É realmente impactante ver o personagem que você acompanhou anos a fio nos quadrinhos ter a sua plástica imagética transposta de maneira tão precisa para a tela e ainda com o adendo daquelas velhas piadinhas do Aranha entre um salto e outro. A sequência final, com uma perfeita utilização do 3D (como é bom ver filmes que usam deste recurso de forma inteligente e não gratuita), é simplesmente de arrepiar. E tal afirmação vem de alguém que saiu verdadeiramente arrepiado da sala de projeção.
Tal sensação derradeira, contudo, não nos faz esquecer os tropeços inaugurais, levando-nos a novamente questionar: qual a finalidade deste reboot? Para responder à questão, vou parafrasear uma longeva banda do rock nacional: reboot para quem precisa; reboot para quem precisa de reboot. Bem, ao menos este escrevinhador não precisava de um reboot. Se a proposta era realizar uma adaptação mais fiel às origens nas HQs, o filme talvez fracasse ainda mais do que os longas de Raimi, que preservaram o espírito da fonte original, mesmo que tenha partido para algumas liberdades pontuais. Aqui, mesmo que em suas ações o filme lembre mais as histórias do aracnídeo, a essência destoa significativamente, o que talvez deixe a película menos envolvente e vibrante que aquelas da primeira trilogia. Um decréscimo decorrente da menor identificação do espectador com o personagem encarnado por Garfield, o qual se assemelha a Peter Parker, mas que não é exatamente aquele rapaz tímido que adquire poderes fantásticos e se vê compelido pelas circunstâncias a se tornar, por acaso, um herói.

terça-feira, 3 de julho de 2012
Para Roma, Com Amor

É comum a expectativa pela nova obra de um artista aumentar logo após um grande êxito em sua carreira. Não é assim apenas no cinema. Fico até imaginando o quanto a cantora Adele Adkins deve estar se sentindo pressionada a realizar um disco depois do estrondoso sucesso que foi o seu “21”, CD que arrebatou tanto o público quanto a crítica especializada. Afinal, não é fácil estar à altura do que as pessoas estão esperando, no caso, mais um disco cheio hits impactantes emoldurados por sua belíssima voz. Este excesso de expectativa, entretanto, pode, com frequência, gerar frustrações em quem espera uma nova obra-prima. É o mesmo que sucede com este “Para Roma, Com Amor”, o novo longa-metragem de um dos maiores cineastas vivos. Não bastasse já ocorrer uma certa ansiedade por se tratar de um filme de Woody Allen, o que por si só já causa burburinho no meio cinéfilo, ele ainda gerou mais questionamentos por se seguir a “Meia-Noite Em Paris”, um dos longas do diretor que, dentro da sua extensa filmografia, será no futuro lembrado como uma de suas obras mais destacadas.
Talvez alguns apontem “Para Roma Com Amor” como um fracasso de Allen exatamente devido a esta “expectativa”, mas designá-lo desta forma seria um tanto equivocado. É certo que esta sua nova produção está abaixo de “Meia-Noite Em Paris”, pois não possui a sua coesão, inspiração e inventividade. Nem mesmo usa Roma da maneira orgânica e apaixonada com que Woody usou Paris no seu sucesso recente, onde a Cidade Luz se apresenta também como um personagem da trama e não apenas uma paisagem turística que serve como um eventual pano de fundo para a narrativa e esta talvez seja, de fato, a maior desvantagem deste novo longa em relação ao último vencedor do Oscar de melhor roteiro original. Até mesmo porque a proposta de “To Rome With Love” seria de contar histórias que supostamente só poderiam se passar na Cidade Eterna, o que não condiz com o que é visto na tela. Na verdade, qualquer das várias tramas paralelas poderia se passar em vários outros lugares do mundo, o que acaba por se tornar possivelmente um demonstração de que Allen não conhece ou não tem uma afinidade tão grande com a cultura italiana como o tem com a francesa.

Tendo como referência o “Decamerão” (não é à toa que o primeiro título para a produção era “The Bop Decameron”), Woody nos apresenta quatro narrativas paralelas que não se comunicam, a não ser pelo fato de se passarem em Roma. Como é de se imaginar, elas se mostram oscilantes na sua qualidade (como normalmente acontece nesse tipo de filme), algumas despertando maior interesse, outras menos. A mais fraca delas é a protagonizada por Roberto Benigni, o qual interpreta um homem comum que de repente se vê caçado por jornalistas e paparazzi, numa óbvia alegoria a respeito das atuais celebridades instantâneas. Benigni até convence no papel, com bons momentos cômicos, mas a mencionada obviedade da estória soa mal diante do refinamento comum nos filmes de Allen. Do lado oposto, a trama que conta com Jesse Eisenberg, Ellen Page e Alec Baldwin é, sem dúvida, a melhor. Nela, vemos um arquiteto de meia-idade (Baldwin) encontrar um jovem estudante de arquitetura (Eisenberg) que está morando em Roma. Este acaba se apaixonando pela amiga (Page) de sua namorada que vai passar uns dias no apartamento onde o casal está morando, apesar dos alertas do recente amigo mais velho. Há algo na relação entre os dois que não irei revelar, pois aqueles que não viram o longa deixariam de ganhar com a surpresa. No entanto, este é o “conto” que mais transborda inteligência e reflexão, fazendo valer a ida ao cinema.

O mais cômico deles, entretanto, é o protagonizado pelo próprio Allen (voltando a atuar, já que desde “Scoop” ele não passava para a frente das câmeras), interpretando um produtor de óperas que, aposentado, jamais obteve sucesso junto à crítica. Em viagem para Roma, pois que sua filha noivou com um italiano esquerdista, ele conhece o pai do genro, um proprietário de funerária que possui uma autêntica voz de tenor. O problema é que ele canta bem apenas no chuveiro. É a deixa para o diretor investir no humor nonsense que também o caracterizou em obras anteriores, como no seu episódio de “Contos de Nova York” (New York Stories, 1989). A trama realmente traz cenas hilárias, aptas a agradar os mais diversos sensos de humor. Também apto a agradar o grande público é a narrativa do casal provinciano que está em Roma devido a uma oportunidade de trabalho do marido (Alessandro Tiberi). Uma vez no hotel, sua esposa (Alessandra Mastronardi) sai para procurar um salão de beleza, mas acaba se perdendo. É quando ocorre uma série de coincidências que levam o rapaz a fingir que a prostituta Anna (Penélope Cruz) é sua esposa, enquanto a mulher acaba se envolvendo com um galã italiano. Esta é a mais “apimentada” das narrativas e com maior destaque feminino (Mastronardi é uma atriz muito bonita e Cruz está sensualíssima, embora não tão brilhante como em "Vicky, Cristina, Barcelona") e possui aquele toque sofisticado com que Allen costuma tratar de sexo, longe de vulgaridades.
O espectador atento à carreira do diretor irá perceber os seus velhos temas mais uma vez abordados. Estão lá a sexualidade, as divergências políticas, o profissional frustrado que busca sucesso e realização pessoal, a crítica à cultura das celebridades (é bom lembrar que ele fez um filme apenas para tratar deste tema há alguns anos), as diferenças culturais, entre outros. Pena que desta vez o resultado não tenha sido tão primoroso, mesmo que trate as temáticas com leveza e nos faça rir em diversos momentos. Mas aí entramos de novo na tal questão das “expectativas”. Se você estiver esperando mais uma obra de excelência, certamente ficará frustrado(a). Contudo, se estiver esperando apenas rir de maneira inteligente, provavelmente sairá do cinema satisfeito(a). E, mesmo que aqui Roma tenha servido apenas como pano de fundo, dá uma baita vontade de visitar a Fontana de Trevi logo depois da sessão.
Cotação:

Nota: 8,0
domingo, 1 de julho de 2012
Quero Ver Novamente #18

Só um alerta: se você ainda não viu Blade Runner, talvez seja melhor ver o filme antes, já que a cena faz parte da conclusão da trama.
domingo, 24 de junho de 2012
Branca de Neve e o Caçador

E quase torcemos pela rainha má...
Eu queria fugir de proferir aqui uma frase de Twitter, mas acaba se tornando inevitável afirmar que “Branca de Neve E o Caçador” traz uma nova roupagem ao desgastado conto da tradição alemã eternizado pelos Irmãos Grimm no século XIX. Não há como fugir dessa obviedade, principalmente porque a imagem imediata que vem à mente ao ouvirmos o nome da personagem do título é aquela concebida por Walt Disney no clássico animado dos anos 30. Ou seja, a lembrança primordial do conto está ligada àquela inocência das produções da Casa do Mickey, o que pode ser uma falsa ideia e, no caso, realmente o é. Afinal, o mito de Branca de Neve tem sua base na disputa ciumenta e invejosa entre a mulher mais velha, com a beleza em declínio, e a mulher jovem, no ápice da formosura e sensualidade. No fundo, o que o tal espelho encantando pronuncia com sua famosa resposta de que “Branca de Neve é ainda mais linda” traduz-se na supremacia da mulher mais nova sobre a mais madura.
Curioso que as escolhas dos produtores para os papeis centrais desta versão mais “dark” de Branca de Neve resulte para o público em impressões opostas às pretendidas pelo conto-mito tal como como elaborado. Isso porque Charlize Theron, a nova Rainha Ravenna, é uma atriz de muito maior beleza, presença e talento do que a insossa Kristen Stewart, a mocinha da série “Crepúsculo”. O novato diretor Rupert Sanders, que veio do mercado publicitário e não é bobo nem nada, percebeu a situação e entregou as melhores sequências para que Charlize brilhasse sem dó nem piedade de Stewart, a qual se mantém o filme inteiro com aquela velha boca eternamente entreaberta (será resultado dos seus incisivos proeminentes?). Isso quase nos leva a torcer para que a malvada Ravenna triunfe, fato que só não acontece porque Sanders (juntamente com os roteiristas Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini) carrega tanto em algumas maldades da Rainha que fica impossível torcer por ela. Afinal, estamos falando de contos de fadas, maniqueístas por excelência, onde o bem e o mal estão sempre muito bem definidos.

À parte a presença de Charlize, realmente determinada na sua composição cênica, o longa chama a atenção pela concepção acentuadamente soturna empregada por Sanders, usando uma fotografia de tons frios para realçar o clima sombrio que propõe. Nada mais adequado, principalmente para demonstrar o período negro em que mergulha o reino após a morte do antigo monarca, pai de Branca de Neve, responsável por um período áureo na região , mas que se casa com Ravenna e é por ela assassinado. Ademais, os efeitos especiais são ótimos, além de uma maquiagem excepcional, a qual envelhece e rejuvenesce Charlize a cada cena (não será estranho se vier a ser indicada ao prêmio da Academia). Um nível de produção que lembra a saga de “O Senhor dos Anéis”, contando ainda com uma direção de arte primorosa em igual medida. Ou seja, “Branca de Neve E o Caçador” é um espetáculo visual de grande qualidade, mesmo que por vezes tais imagens se prestem a situações clichê, como a criação de um triângulo amoroso entre a princesa, um príncipe e o Caçador de título, sendo este interpretado por Chris “Thor” Hemsworth. Desde o ínicio, já percebemos que nessa versão moderna o “príncipe” de Branca de Neve não será exatamente um nobre com sangue real, mas o viril caçador que lhe transmite segurança e, sobretudo, um amor sincero. Ou seja, mesmo no clichê, Sanders procurou atualizar o mito, tornando-o adequado à visão que hoje as mulheres têm de um relacionamento (onde não mais focam na segurança social transmitida por um “bom partido”, mas na sua segurança emocional). Pena que Chris Hemsworth não contribua e apenas pareça repetir a encarnação do deus do trovão que realizou para os filmes da Marvel.

Até mesmo na caracterização da mocinha a estória ganha uma atualização. A princesa não se reduz a tão somente uma posição passiva, esperando que o seu príncipe encare os perigos para salvá-la. Então, ela mesma vai à luta, por assim dizer, vestindo trajes de guerra e empunhando a espada contra a maléfica Ravenna. Mas é justamente quando o longa se propõe a ser mais um duelo de capa e espada, rumando para uma ação mais escancarada, que ele acaba descambando para obviedades maiores e perdendo muito do seu interesse, pois que se torna mais previsível do que naturalmente já seria a adaptação de uma narrativa pra lá de conhecida. É bom até mesmo lembrar que há pouco tempo já tivemos “Espelho, Espelho Meu” (Mirror, Mirror - 2012), mais uma adaptação live action da estória da princesa que encontra sete anões em um bosque (e mais um sinal da maré de criatividade baixa em Hollywood nos últimos anos).
Falando em anões, a presença deles no longa de Sanders talvez resuma perfeitamente o resultado final do projeto: de início causam ótima impressão, depois quase nos esquecemos deles. Até porque, no fim, Charlize quase não aparece em cena e temos que encarar as caras e bocas de Kristen Stewart de forma impiedosa, dando até a sensação de que o mal triunfará e Hollywood premiará, no futuro, essa estrela fabricada com Oscar de melhor atriz. Se for assim, será melhor torcermos pelo retorno de Ravenna, para que essa finalmente barre o caminho de Branca de Neve e a tranque novamente na torre do castelo. E sem o Thor para salvá-la.
Cotação:

Nota: 7,0
sábado, 23 de junho de 2012
Trilha Sonora #23
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Prometheus

Ainda me recordo bem da primeira oportunidade em que assisti a “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979), filme de Ridley Scott que se tornou um dos precursores na mistura de ficção-científica, suspense e terror ao narrar a trama de um monstro extraterrestre que trucida todos os integrantes da tripulação da nave rebocadora Nostromo. A única que sobrevive é a tenente Ripley, papel mais marcante da carreira de Sigourney Weaver. A exibição foi na famigerada Rede Globo e lembro de vê-lo juntamente com meu pai, lá com os meus 11 ou 12 anos, e acredito que ele nem imaginava o quão sinistro e violento aquele filme iria se mostrar par um menino nessa idade. O clima sombrio e extremamente tenso da película me deixaram impressionado e lembro de ter morrido de medo na famosa sequência em que o Alien surge pela primeira vez, “nascendo” do abdome de um dos tripulantes. A verdade é que tanto eu quanto quanto meu pai adoramos o que vimos e acompanhamos todos os outros capítulos da franquia (passando também pelo fraco “Alien – A Ressurreição”, de 1997).
Naquela época, devido à minha reduzida idade, eu não percebi o que a película tentava transmitir através de suas entrelinhas. Quando analisada com atenção, toda a série “Alien” se revela uma metáfora para a luta feminina em um mundo dominado por homens. Afinal, o Alien do filme de Scott (e dos restantes dirigidos por James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet) é um invasor de corpos, em outras palavras, um estuprador, um ser que procura inseminar suas presas através da violência. Este subtexto de violência sexual é tão importante para a franquia assim como o é fisionomia macabra e assustadora do alienígena, oposta a dos extraterrestres amigáveis concebidos por Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T. - The Extra-Terrestrial, 1982) e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters Of The Third Kind, 1977). E essa conotação feminista é tão forte que Scott, retornando à franquia desde seu primeiro epísódio, não pôde fugir dela neste “Prometheus”, o prequel da série concebido agora em 2012. Aliás, é possível afirmar que o subtexto feminista talvez nunca tenha estado tão presente em toda a série como aqui, onde de maneira explícita (SPOILER) vemos uma mulher retirar do seu interior um feto indesejado. É sintomático que seja novamente uma mulher a única sobrevivente da carnificina e que até mesmo a concepção estética de suas roupas íntimas seja destituída de feminilidade, como que a denunciar que para sobreviver naquele ambiente hostil seja necessário assumir um comportamento masculinizado (FIM DE SPOILER).

Mas é claro que a franquia Alien é, antes de tudo, concebida como thrillers de suspense e este novo episódio não poderia fugir à regra. A tensão presente em Prometheus é constante, desde o primeiro até o último fotograma, apesar de suas ambiciosas pretensões filosóficas ao expor uma narrativa que tem como norte a origem da vida humana. É em busca dela que uma expedição é enviada a uma lua de um planeta de certo e longínquo sistema solar. A partir de uma descoberta arqueológica em uma caverna na Terra, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”) acredita que humanoides denominados como “Engenheiros” seriam os responsáveis pela criação da vida humana em nosso planeta e que eles teriam deixado uma espécie de “convite” para que a humanidade viajasse até essa longínqua galáxia e descobrisse suas verdadeiras origens. Como é de se imaginar, entretanto, a coisas não correm exatamente como o esperado, fugindo do controle e descobrindo-se que a missão não seria exatamente um passeio de encontros de pacíficos.
Com fez no primeiro longa da série, Scott soube muito bem trabalhar as relações e características dos personagens tripulantes da Prometheus, a nave que dá título à produção e que é responsável pela viagem em busca da origem da vida, item essencial para que haja uma empatia do público com a narrativa. E assim, além da citada Elizabeth Shaw, também conhecemos Meredith Vickers (Charlize Theron), executiva que representa a empresa financiadora da expedição, além do robô David (Michael Fassbender, o ator da moda), autômato no melhor estilo “Blade Runner” (outro filme de Scott), criado como imitando a imagem e semelhança dos humanos porque estes se sentem “melhor interagindo com outros seres da mesma espécie”. Por outro lado, essa estrutura muito semelhante àquela da película de 1979, gera uma sensação de filme repetido, fazendo-nos esperar por uma sucessão de eventos que levarão à inevitável dizimação da tripulação.

Todavia, como já ressaltado, a tensão engendrada é angustiante, fazendo jus ao longa pioneiro. Scott sabe, como poucos, entregar uma atmosfera sombria e sufocante, deixando o espectador sempre com sensação de que algo terrível vai acontecer a qualquer momento. A fotografia (de Darius Wolski) contribui para tanto, assim como a trilha sonora se mostra eficiente em carregar dita atmosfera. O elenco, por seu turno, é oscilante. Se Charlize Theron desta vez apenas contribui com sua beleza, Noomi Rapace tem ótimos momentos (principalmente na citada sequência da “cesariana”). Mas é mesmo Michael Fassbender quem rouba a cena (mais uma vez) com o seu robô David, o mais intrigante dentre todos os personagens.
Ao final, o que posso afirmar é que este novo Ridley Scott me fez sentir muito do gostinho daquela primeira e já distante experiência com a franquia (é, estou ficando velho). Não atinge o nível de brilhantismo do pioneiro, carecendo obviamente da originalidade nele presente, além de possuir um argumento um tantinho pretensioso. Contudo, é impossível não se deixar envolver por este suspense, apto a agradar aos fãs e não fãs da franquia, possivelmente a mais feminista do cinemão hollywoodiano, mesmo que muita gente nem se dê conta disso.
Cotação:

Nota: 9,0
Obs.: O 3D do filme é bem dispensável. Acabei me arrependendo de ter pago mais caro.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Filmes Para Ver Antes de Morrer

(Splendor In The Grass, 1961)
O brilhante diretor Elia Kazan é uma das personalidades mais controversas da história de Hollywood. De origem grega (filho de gregos, nasceu em Constantinopla, então capital do Império Turco-Otomano), iniciou sua carreira como diretor de teatro na Broadway, migrando posteriormente para o cinema e levando para a tela grande uma direção de atores baseada no famoso Método Strasberg, orientando os atores a usarem vivências pessoais para dar maior verdade à composição dos personagens. Foi dirigindo “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar Named Desire, 1951) que ele atingiu o respeito no mundo cinematográfico e alçou Marlon Brando ao estrelato, fantástico no papel de Stanley Kowalski. Entretanto, a despeito de seu talento na direção, Kazan se tornou uma das figuras mais odiadas do meio artístico por ter delatado antigos companheiros do Partido Comunista ao funesto Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas durante o Macartismo. Não por acaso, durante a cerimônia do Oscar que lhe concedeu um prêmio honorário, vários dos presentes, como Jim Carrey, Nick Nolte e Ian McKellen se recusaram a aplaudi-lo (Sean Penn chegou a encabeçar uma moção de repúdio à decisão da Academia).
Apesar do caráter duvidoso, é inegável que o talento de Kazan rendeu obras inesquecíveis. Além do citado “Uma Rua Chamada Pecado”, são dele “Sindicato de Ladrões” (On The Waterfront, 1954) – cujo drama hoje soa como uma defesa de sua posição de delação – e “Vidas Amargas” (East Of Eden, 1955), onde levou James Dean ao estrelato ao dirigi-lo numa trama de conflito de gerações. E uma outra de suas obras mais marcantes é exatamente este “Clamor do Sexo” (título em português infeliz para “Splendor In The Grass”), sua película de 1961, a qual parece reunir, a um só tempo, as temáticas dos citados “Vidas Amargas” e “Uma Rua Chamada Pecado”, aliando a abordagem do conflito de gerações e carência afetiva à repressão sexual imposta pelos condicionamentos socioculturais.

Desde a primeira sequência, onde Bud Stamper (Warren Beaty, em seu primeiro papel de destaque) e Deanie Loomis (Natalie Wood) são vistos se beijando em frente a uma cachoeira, a temática da repressão sexual é colocada em foco. Já percebemos assim que os personagens terão seus destinos inteiramente afetados pelo seu desejo reprimido, mas estaríamos sendo reducionistas se enxergássemos apenas este ponto na ampla crítica social oferecida por Kazan e o ótimo roteirista William Inge. Herdeiro de um rico produtor de petróleo (Pat Hingle), além da frustração sexual o jovem Bud tem de enfrentar a imposição de seu pai que deseja formá-lo em Yale, adiando sua vontade de casar-se com Deani e realizar-se profissionalmente como fazendeiro. Por seu turno, Deanie quase enlouquecerá ao ver-se dividida entre dois estereótipos possíveis em 1928, ano em que se passa a ação da película (um anos antes da grande depressão econômica, portanto): o da virgem discreta e “séria”, que não cede aos próprios desejos sexuais, senão apenas depois do casamento e para satisfazer a lascívia do marido (“isso é coisa de homens”, ensina-lhe sua mãe); ou o da moça leviana-promíscua, encarnada no filme na figura de Ginny (Barbara Loden, ótima), irmã de Bud. Todavia, os personagens não são tratados de maneira maniqueísta e mesmo a severa mãe de Deanie tem seus momentos de absolvição.
Mas nem só de crítica social vive “Splendor In The Grass”. A riqueza de seus personagens passa longe do lugar-comum, o que era mesmo de se esperar de um filme de Kazan. Eles surgem para o espectador, antes de tudo, como pessoas reais, cujas vidas acabam tomando rumos diversos do esperado. E este, possivelmente, é o aspecto mais encantador da película, já que se torna impossível não compartilhar do seu drama. Afinal, todos nós já sentimos que a vida tomou rumos divergentes do que pretendíamos. Não que isso tenha ocasionado necessariamente vivências negativas (por diversas vezes ocorre justamente o contrário), mas certamente você já se pegou refletindo sobre os caminhos que teria tomado ao fazer escolhas diferentes das que fez no passado. Essa perspectiva é forte no longa de Kazan, tanto que o título da produção foi retirado de uma poesia de William Wordsworth que reflete exatamente sobre tais circunstâncias, afirmando que é do que passou que retiramos nossa força.

Importante elucidar que Kazan utiliza de formas novidadeiras para narrar o drama, aliando o estilo narrativo da Nouvelle Vague a uma maneira de abordagem que seria precursora da Nova Hollywood. Talvez tenha sido esta experiência com Kazan, inclusive, que tenha levado o novato Warren Beaty a acreditar que o cinema norte-americano precisava de uma sacudida e o tenha feito lutar pela futura produção de "Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas" (Bonnie & Clyde, 1967). Aliás, neste "Clamor do Sexo" ele está muito bem para um principiante, muito embora tenha começado aaqui a pecha de galã que o acompanharia ao longo de vários anos e que levaria os chefões dos estúdios a colocá-lo apenas em papeis do genêro (pelo menos até a realização do citado "Bonnie & Clyde"). Mas é Natalie Wood que tem, efetivamente, a atuação mais destacada da película. Ela incorpora os tormentos de Deanie como muita garra, em um trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (o que invariavelmente acontecia com os dirigidos por Elia Kazan). Mas o diretor não era só bom com atores. Os inusitados e criativos ângulos de câmera mostram que ele sabia mexer com a ferramenta do cinema, estando seus longas longe de serem apenas uma espécie de "teatro filmado".
Ainda com uma trilha sonora belamente composta por David Amram, "Splendor In The Grass" é um daqueles filmes que vão crescendo em sua memória e que nos deixa enternecidos diante de seu desfecho, ao mesmo tempo belo, melancólico e verdadeiro (não à toa levou o Oscar de melhor roteiro original). A cada lembrança ele se torna melhor, mais relevante e memorável, lembrando-nos que muitas vezes podemos não gostar da pessoa de um artista, mas que isto não implica desconsiderar sua arte. Assim como o genial músico Richard Wagner tem uma obra de méritos artísticos inquestionáveis, mesmo diante do seu mau-caratismo, o mesmo deveria suceder com Elia Kazan, um homem de caráter deveras duvidoso, mas que possui uma filmografia de mestre.
Cotação:

Nota: 10,0
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Primeiro Trailer de "Django Livre"

De antemão, além da óbvia referência ao filme protagonizado por Franco Nero nos anos 60, já percebemos citações de "Rastros de Ódio" , de John Ford, e até da mitologia germânica, além do recorrente tema da vingança na filmografia de Tarantino. O longa estreia em 25 de dezembro nos EUA e em 18 de janeiro no Brasil.
Django Unchained - Trailer / Bande-Annonce [VOHD] por Lyricis
domingo, 3 de junho de 2012
Restaurando a Película

(Ulysses, 1954)
Nunca entendi realmente o porquê, mas o cinema norte-americano, tão afeito a narrativas fantásticas, produziu relativamente poucos filmes tendo por base a mitologia grega. Mitos incríveis como o de Hércules foram relegados normalmente a produções B, com baixo orçamento e elenco limitado, ao contrário do que ocorria com histórias de teor bíblico, comumente adaptadas como superproduções (vide “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. De Mille). Apenas recentemente os estúdios têm dedicado mais atenção a este universo, como em “Tróia” (Troy, 2004) e o remake de “Fúria de Titãs” (Clash Of The Titans, 2010). Na Itália dos anos 50, contudo, o quadro era outro. Além de longas de menor orçamento, os mitos greco-romanos também eram temas de grandes produções, como aquelas orquestradas por Dino De Laurentiis e Carlo Ponti. Este “Ulysses”, realizado em 1954, é um deles, destacando-se não só pelo apuro técnico, mas principalmente por seu elenco estelar, encabeçado por um Kirk Douglas inspirado.
É verdade que o roteiro condensa bastante o texto da “Odisseia” de Homero, obra basilar de toda a literatura e cultura ocidentais. Nela, como deve ser do conhecimento de muitos, é narrada a longa viagem de retorno do general Ulisses, após a guerra de Tróia, até o seu reino de Ítaca. Ao longo de 10 anos, Odisseu (nome grego para o herói) enfrenta inúmeras adversidades para voltar ao lar, enquanto sua esposa, Penélope (interpretada aqui por Silvana Mangano), obstinada em sua fidelidade, jamais sucumbe aos cortejos dos pretendentes. Entretanto, apesar da síntese, os trechos transpostos para a tela são adaptados com satisfatória eficácia. Mesmo que o espectador não conheça de antemão as passagens do relato homérico não terá dificuldades em compreender o enredo, desenvolvido em formato de flashback, quando Ulisses, desmemoriado, chega a um reino próximo de Ítaca e conhece a princesa Nausica (Rossana Podestà). Ele se esforça para relembrar seu passado e é então que somos apresentados a algumas de suas aventuras.

É certo que o mito de Odisseu estabelece vários dos paradigmas culturais de toda a humanidade. O herói representa a coragem e determinação esperadas do homem, enquanto Penélope se apresenta como encarnação da dedicação e fidelidade que se esperam de uma mulher, modelos de comportamento até hoje dominantes, mesmo diante das diversas mutações da sociedade contemporânea. O pouco conhecido diretor Mario Camerini (que também participou da confecção do roteiro, ao lado de outros seis nomes) soube destacar estas nuances e foi muito feliz em dar a mesma importância na trama tanto a Ulisses como a Penélope, mostrando que os dramas de cada um eram intensos em igual medida, fazendo a narrativa tornar-se interessante tanto para o público masculino quanto feminino. Também ganha destaque o drama de Telêmaco (no filme interpretado por Franco Interlenghi), filho de Ulisses que mal conheceu o pai, pois que este estava ausente do lar desde a sua infância.
Contudo, embora tais elementos sejam colocados de maneira correta, é importante ressaltar que este é um longa de aventura e o principal foco obviamente se coloca nas peripécias do penoso regresso. É provável que a mais marcante delas, ao menos para a época em que o filme foi lançado, seja o confronto com o ciclope* Polifemo, filho do deus Posseidon (ou Netuno, para os romanos). Para os recursos do seu tempo, o gigante é concebido de maneira eficiente, destacando-se seu tamanho através de criativos enquadramentos. Ademais, ainda temos a chegada de Ulisses na ilha da feiticeira Circe (também interpretada por Silva Mangano, exercendo papel duplo no filme), onde precisa fazer com que esta retire o feitiço que transformou seus companheiros de tripulação em porcos, além de sua passagem pelo mar das sereias, resistindo ao seu canto ao pedir que seja amarrado ao mastro do navio.

Entretanto, o longa perderia muito sem a presença marcante de Kirk Douglas, conferindo uma adequada aura forte e mítica ao personagem e dominando todas a cenas em que aparece. Pena que o restante do elenco não o acompanhe. Mesmo Anthony Quinn, que interpreta Antinoo, o principal pretende de Penélope, não tem muito a fazer, uma vez que seu personagem tem pouco tempo em tela. Todavia, quem mereceria um Framboesa de Ouro pela dupla atuação seria Silvana Mangano, duplamente inexpressiva (a despeito de sua beleza), seja na pele de Penélope ou na de Circe.
A despeito destes problemas e da direção de Camerini, a qual, embora correta, não deixa marcas autorais, “Ulysses” mantém o seu interesse devido à força de uma narrativa imortal, que supera os séculos e transcende culturas. Mesmo que você conheça pouco da temática, esta será uma boa e didática forma de se familiarizar com ela, apesar de que, obviamente, o melhor seja conferir a fonte direta de tais mitos, lendo a “Ilíada” e a “Odisseia, embora nos livros você não veja a marcante atuação de Kirk Douglas. Contudo, convenhamos, vale ressaltar que não é fácil adaptar mitologia para as telas. Talvez seja exatamente por isso que os por vezes preguiçosos produtores de Hollywood nunca foram afeitos ao tema: é muito complexo para a média de suas produções feijão com arroz, perdendo a oportunidade de realizar entretenimentos inteligentes como no caso em tela.
Cotação:

Nota: 7,5
* Ciclopes, na mitologia helênica, eram gigantes de um só olho.
domingo, 27 de maio de 2012
Cannes premia Haneke (de novo)

Palma de Ouro
“Amour”, de Michael Haneke (França)
(com menção aos atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva)
Grande Prêmio do Júri
“Reality”, de Matteo Garrone (Itália)
Melhor Atriz
Cosmina Stratan e Cristina Flutur, por “Dupã Dealuri”, de Cristian Mungiu (Romênia)
Melhor Ator
Mads Mikkelsen (o vilão Le Chiffre de "007 - Cassino Royale", lembram?) , por “Jagten” (A Caça), de Thomas Vinterberg (Dinamarca)
Melhor Diretor
Carlos Reygadas, por “Post Tenebras Lux” (México)
Melhor Roteiro
“Dupã Dealuri” (Além das Colinas), de Cristian Mungiu (Romênia)
Prêmio do Júri
“The Angel’s Share”, de Ken Loach (Reino Unido)
Caméra d’Or – melhor filme de diretor estreante
“Beasts of the Southern Wild”, de Behn Zeitlin (EUA)
Melhor curta-metragem
“Silêncio”, de L. Rezan Yesilbas (Turquia)
domingo, 20 de maio de 2012
Curtindo o Curta #4

segunda-feira, 14 de maio de 2012
Filmes Para Ver Antes de Morrer

(The Lion King, 1994)
Hamlet para os pequenos
Ainda me recordo com detalhes da primeira oportunidade em que assisti a “O Rei Leão” (The Lion King), produção dos estúdios Disney lançada no ano de 1994 (o do Tetra e lá se vão 18 anos!). Eu não havia assistido à animação nos cinemas, apesar do seu grande sucesso. Com 16 anos, eu estava naquela fase de esnobar animações porque eram “coisa de criança” e, tentando dar uma de “rapaz-cabeça”, também não gostava de valorizar filmes por seu apuro tecnológico. Quem insistiu para que eu visse o longa foi um grande amigo meu (abraço, Hendrick!), o qual sempre o elogiava muito. “Além de imagens muito bonitas, ele tem um estória emocionante”, dizia o meu camarada. Depois de muita insistência, ele me convenceu a assistir em VHS (ainda estávamos longe do DVD, minha gente!), com as imagens ampliadas e som amplificado por meio das parafernálias tecnológicas que o pai dele possuía, contribuindo para alcançar uma sensação próxima à da sala escura. A verdade é que, depois da sessão caseira, fiquei de fato impressionado com a beleza imagética da película e, mais que isso, gostei verdadeiramente da trama narrada, emocionante em vários momentos (“eu não disse que era massa?!”, falou o meu amigo).
Anos depois, já nos tempos de faculdade, tive a oportunidade de ler “Hamlet”, uma das obras-primas de William Shakespeare e de toda a humanidade. Percebi, então, que o filme dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff é uma versão para os pequenos do mencionado clássico (com algumas liberdades, claro). Afinal, o leão Mufasa (no original, com a voz marcante de James Earl Jones), rei da savana, é assassinado por seu irmão, Scar (voz inspirada de Jeremy Irons), morte esta presenciada pelo pequeno príncipe Simba (Jonathan Taylor Thomas quando criança e Matthew Broderick quando adulto), filho de Mufasa. Após anos de exílio, quando adota a filosofia de deixar os problemas de lado representada na expressão “Hakuna Matata”, a qual lhe é apresentada pelos novos amigos Timão (voz de Nathan Lane) e Pumba (por Ernie Sabella), Simba não consegue mais fugir de seu destino e retorna para vingar seu pai e retomar o trono que lhe pertence. Ou seja, em linhas gerais, trata-se da mesma trajetória do príncipe da Dinamarca, mesmo que simplificada. Mas esta simplificação não significa que a trama tenha sido idiotizada. Estão lá os elementos imanentes à obra do bardo inglês, como a força da família sobre o indivíduo; a necessidade de uma identidade própria que não o afaste de sua herança e passado; a força inescapável deste passado sobre o presente, entre outras questões que dão pano para manga de teses e mais teses de mestrado ou doutorado. Em contrapartida ao drama, alguns personagens coadjuvantes ganham relevo para atribuir um tom mais leve à narrativa. Além dos citados Timão e Pumba, temos ainda o pássaro Zazu (com impagável voz de Rowan Atkinson), a leoa Nala (Moira Kelly), responsável pelo inevitável romance com o protagonista, e as atrapalhadas hienas asseclas de Scar (uma delas com voz de Whoopi Goldberg).

Por outro lado, é claro que a Disney iria colocar o seu toque para tornar a animação algo inesquecível. E ela conseguiu seu intento, atingindo, inclusive, o público adulto. Afinal, é preciso ter um coração de pedra para não se comover diante da sequência da morte de Mufasa – a Disney, vale lembrar, adora explorar esse tipo de situação, vide a morte da mãe de Bambi no clássico de 1942. Também é praticamente impossível não restar impactado diante de sua fabulosa sequência de abertura, durante a qual somos apresentados tanto ao habitat cenário do enredo, quanto à família real que será o centro do mesmo, numa perfeita solução imagética capaz de situar e embevecer o espectador, preparando-o para o espetáculo que se seguirá. O estúdio utilizou, no caso, uma pioneira técnica de fusão de animação tradicional com recursos digitais que vinha aprimorando desde de “A Pequena Sereia” (The Little Mermaid, 1989) e teve continuidade com “A Bela e a Fera” (Beauty And The Beast, 1991), o primeiro longa de animação a ser indicado (com justiça, diga-se de passagem) ao Oscar de melhor filme. Um processo que ainda continuou com “Alladin” (1992) e que atingiu seu ápice com este “O Rei Leão”.
Com tais recursos, a Disney atingiu um patamar de autêntico deslumbre artístico e que ainda não foi igualado nem mesmo pela Pixar (talvez por esta se valer apenas de recursos digitais), que hoje, vale lembrar, é uma subsidiária do conglomerado da Casa do Mickey. Além do visual, é necessário dar um destaque especial à trilha sonora, cujas canções contaram com a contribuição de um Elton John deveras inspirado, com uma delas levando o prêmio da Academia de melhor canção (“Can You The Love Tonight” acabou por ser tornar um standard na carreira do músico). Frise-se, ademais, que este foi o último grande sucesso do estúdio dentro da sua antiga fórmula para animações, cheias de mensagens edificantes e números musicais entrecortando as ações. Suas tentativas posteriores, como “Pocahontas – O Encontro de Dois Mundos” (Pocahontas, 1995) e “Mulan” (1998) fracassaram diante da nova proposta, mais leve e menos formulaica, trazida pela citada Pixar com seu “Toy Story” (1995).

A despeito de tais fórmulas, “The Lion King” se coloca como um dos grandes momentos de uma das melhores fases dos estúdios Disney, detentor de uma estória de apelo atemporal. Revendo agora em blu-ray, percebi que o filme não chega a ser uma obra-prima, já que sua resolução me soou um tantinho apressada (a película tem apenas 88 minutos e uns 10 minutos a mais seriam bem-vindos) e alguns personagens terminam sendo pouco explorados e mal aproveitados (como a mãe de Simba). Todavia, tais problemas são pequenos diante da força emocional da narrativa e do impacto visual de suas cenas. Não por acaso, quando do relançamento em 3D nas salas dos Estados Unidos, o filme acabou atingindo uma surpreendente arrecadação, chegando mesmo a ocupar o topo das bilheterias. Uma manobra evidentemente comercial que serviria muito mais para divulgar o lançamento do blu-ray no mercado varejista, mas que com certeza deve ter feito muitos pais levarem seus filhos para conhecer essa animação tão cara à memória afetiva de toda uma geração. Sem dúvida, é certo que, diante de tal clássico instatâneo, vários destes pequenos tenham saído das salas de cinema tão empolgados como seus pais um dia saíram...
Cotação:

Nota: 10,0
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Eu Quero Esse Pôster #20


segunda-feira, 7 de maio de 2012
Quero Ver Novamente #17


