
Sempre fui contra o reboot da franquia “Homem-Aranha” nos cinemas. Apesar de algumas liberdades tomadas pelo diretor Sam Raimi na sua trilogia iniciada em 2002, como a criação da teia orgânica (no lugar dos famosos “lançadores”), considero os seus filmes como muito fiéis ao espírito das HQs, onde o nerd Peter Parker acaba picado por uma aranha radioativa e adquire poderes excepcionais, semelhantes aos de um aracnídeo. Sim, eu gosto de Tobey Maguire, com aquela cara meio de bobo, travado, uma vez que isso demonstra inteiramente como um rapaz tímido, impopular no colégio e isolado no seu conhecimento acadêmico acima da média se sente tendo de enfrentar a realidade de possuir grandes poderes e, com isso, surgirem “grandes responsabilidades”. Mesmo o terceiro filme da franquia, criticado por muitos, acabou me agradando (mesmo que seja, de fato, o ponto de menor qualidade na série). Para que, então, realizar um reboot de algo que foi sucesso de público e crítica (razões inteiramente opostas àquelas levadas a cabo pela Warner com o personagem de Batman)? Não podem ser outras razões senão as comerciais, o vil metal que é o objetivo primordial dos produtores de Hollywood. É importante, inclusive, frisar que o fim da participação de Raimi na franquia se deveu a divergências com os produtores, os quais queriam dar um norte para os episódios posteriores divergente do pretendido pelo diretor. O resultado abaixo do esperado da terceira parte da trilogia já denunciava essa falta de sincronia entre produção e direção. Ou seja, como para bom entendedor meia palavra basta, entre finalidades comerciais e artísticas.
Nessa queda de braço, normalmente quem leva a disputa é quem tem mais dinheiro e é claro que a Columbia (Sony), detentora dos direitos de adaptação das aventuras do teioso para o cinema, não saiu perdendo. Excluiu Raimi da direção (o que também levou à saída de Maguire) e resolveu reiniciar toda a franquia, partindo do zero como se nada houvesse ocorrido antes. Uma ideia pra lá de estranha, já que os filmes de Raimi são muito recentes e costumam ser reprisados à exaustão, tanto na TV aberta quanto na fechada. Contudo, não nego que as notícias que chegavam aos poucos pela net, como a escolha do bom ator Andrew Garfield para o papel de Peter Parker, bem como de Emma Stone para interpretar Gwen Stacy, acabaram por me deixar um pouco mais aliviado. Ambos são bons atores, o que já garantiria personagens convincentes. Um pouco mais desconfiado fiquei com a opção de Marc Webb para a direção, pois que até então ele havia dirigido apenas “(500) Dias Com Ela” (500 Days Of Summer, 2009), uma comédia romântica criativa e agradável, mas que está muito distante do gênero aventura/ação. No entanto, o que mais temia era o roteiro, que buscaria recontar a história da origem do Homem-Aranha de uma forma nova. E foi justamente o roteiro que me deixou estremecido na cadeira da sala de exibição.
O que mais irrita em toda esta nova adaptação é o fato de Pater Parker deixar de ser um CDF nerd para ser caracterizado como um rapaz até descolado, que anda de skate para se locomover nos corredores do colégio, usa um cabelo cool e não é exatamente um rejeitado pelas garotas. Antes de ser um garoto que se torna um herói por acaso, parece ser um herói por vocação, uma vez que na escola já se mete a defender os fracos dos valentões, mesmo que inevitavelmente acabe apanhando junto. Esta é uma mudança enorme que pode passar despercebida por boa parte da plateia, para os não leitores de HQs principalmente, mas que para os fãs do personagem (que são muitos, diga-se de passagem) soa como uma verdadeira heresia. Essa “atualização”, que tenta captar um novo público para o herói, é tão irritante quanto inserir na trama a busca pela origem dos pais de Peter, algo totalmente desnecessário e que, caso excluído, pouparia tempo na película para mostrar mais do cotidiano do rapaz e sua relação com os tios Ben e May Parker (Martin Sheen e Sally Field, respectivamente), os quais são e sempre serão suas verdadeiras figuras paternas. Ver o adolescente Peter logo no início da película envolvido em investigações para descobrir o paradeiro dos genitores é de franzir a testa, já que tira muito do caráter jovial do personagem.
Esse roteiro, escrito por James Vanderbilt e Alvin Sargent, mostra-se repleto de coincidências e situações forçadas para seguir adiante. Acreditar que a colegial Gwen Stacy pode ser uma competente estagiária dos laboratórios da Oscorp é algo bem duro de engolir, assim como aceitar que o Dr. Curt Connors pudesse criar um laboratório cheio de tecnologia nos esgotos de Nova York (logo em uma cidade repleta de paranoias com atentados terroristas) sem ninguém desconfiar. Além disso, a solução de fazer Peter Parker comprar os famosos lançadores de teia via internet (em um conhecido site de vendas on-line) chega a ser risível. Tropeços desta monta tornam a experiência frustrante e/ou irritante em várias passagens. É sempre desagradável quando a narrativa de um filme parece duvidar da inteligência do espectador e este é bem o caso.
Por outro lado, não se pode negar a química do casal central, ainda maior que a de Maguire e Kirsten Dunst na versão de Raimi. Contribui para tanto o fato de que eles estão namorando também fora das telas, mas seria leviano afirmar que este é o único motivo. Afinal, Webb teve como seu único trabalho anterior justamente uma comédia romântica que procura fugir dos clichês e que tem nas atuações um dos seus destaques e aqui ele demonstra mais uma vez sua competência em criar climas românticos na medida certa. Da mesma forma, a relação entre Peter e Tio Ben revela-se melhor desenvolvida do que no longa de Raimi (ainda mais quando lembramos da ótima atuação de Sheen). O que mais chama a atenção, entretanto, é que Webb demonstrou ser um ótimo diretor de cenas de ação, com certeza o ponto mais alto de todo a produção. Se neste aspecto os longas de Raimi já eram bons, este aqui faz jus ao seu título e se revela simplesmente espetacular. É realmente impactante ver o personagem que você acompanhou anos a fio nos quadrinhos ter a sua plástica imagética transposta de maneira tão precisa para a tela e ainda com o adendo daquelas velhas piadinhas do Aranha entre um salto e outro. A sequência final, com uma perfeita utilização do 3D (como é bom ver filmes que usam deste recurso de forma inteligente e não gratuita), é simplesmente de arrepiar. E tal afirmação vem de alguém que saiu verdadeiramente arrepiado da sala de projeção.
Tal sensação derradeira, contudo, não nos faz esquecer os tropeços inaugurais, levando-nos a novamente questionar: qual a finalidade deste reboot? Para responder à questão, vou parafrasear uma longeva banda do rock nacional: reboot para quem precisa; reboot para quem precisa de reboot. Bem, ao menos este escrevinhador não precisava de um reboot. Se a proposta era realizar uma adaptação mais fiel às origens nas HQs, o filme talvez fracasse ainda mais do que os longas de Raimi, que preservaram o espírito da fonte original, mesmo que tenha partido para algumas liberdades pontuais. Aqui, mesmo que em suas ações o filme lembre mais as histórias do aracnídeo, a essência destoa significativamente, o que talvez deixe a película menos envolvente e vibrante que aquelas da primeira trilogia. Um decréscimo decorrente da menor identificação do espectador com o personagem encarnado por Garfield, o qual se assemelha a Peter Parker, mas que não é exatamente aquele rapaz tímido que adquire poderes fantásticos e se vê compelido pelas circunstâncias a se tornar, por acaso, um herói.
















































