terça-feira, 12 de junho de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Clamor do Sexo
(Splendor In The Grass, 1961)


Caráter controverso, talento indiscutível


O brilhante diretor Elia Kazan é uma das personalidades mais controversas da história de Hollywood. De origem grega (filho de gregos, nasceu em Constantinopla, então capital do Império Turco-Otomano), iniciou sua carreira como diretor de teatro na Broadway, migrando posteriormente para o cinema e levando para a tela grande uma direção de atores baseada no famoso Método Strasberg, orientando os atores a usarem vivências pessoais para dar maior verdade à composição dos personagens. Foi dirigindo “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar Named Desire, 1951) que ele atingiu o respeito no mundo cinematográfico e alçou Marlon Brando ao estrelato, fantástico no papel de Stanley Kowalski. Entretanto, a despeito de seu talento na direção, Kazan se tornou uma das figuras mais odiadas do meio artístico por ter delatado antigos companheiros do Partido Comunista ao funesto Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas durante o Macartismo. Não por acaso, durante a cerimônia do Oscar que lhe concedeu um prêmio honorário, vários dos presentes, como Jim Carrey, Nick Nolte e Ian McKellen se recusaram a aplaudi-lo (Sean Penn chegou a encabeçar uma moção de repúdio à decisão da Academia).

Apesar do caráter duvidoso, é inegável que o talento de Kazan rendeu obras inesquecíveis. Além do citado “Uma Rua Chamada Pecado”, são dele “Sindicato de Ladrões” (On The Waterfront, 1954) – cujo drama hoje soa como uma defesa de sua posição de delação – e “Vidas Amargas” (East Of Eden, 1955), onde levou James Dean ao estrelato ao dirigi-lo numa trama de conflito de gerações. E uma outra de suas obras mais marcantes é exatamente este “Clamor do Sexo” (título em português infeliz para “Splendor In The Grass”), sua película de 1961, a qual parece reunir, a um só tempo, as temáticas dos citados “Vidas Amargas” e “Uma Rua Chamada Pecado”, aliando a abordagem do conflito de gerações e carência afetiva à repressão sexual imposta pelos condicionamentos socioculturais.


Desde a primeira sequência, onde Bud Stamper (Warren Beaty, em seu primeiro papel de destaque) e Deanie Loomis (Natalie Wood) são vistos se beijando em frente a uma cachoeira, a temática da repressão sexual é colocada em foco. Já percebemos assim que os personagens terão seus destinos inteiramente afetados pelo seu desejo reprimido, mas estaríamos sendo reducionistas se enxergássemos apenas este ponto na ampla crítica social oferecida por Kazan e o ótimo roteirista William Inge. Herdeiro de um rico produtor de petróleo (Pat Hingle), além da frustração sexual o jovem Bud tem de enfrentar a imposição de seu pai que deseja formá-lo em Yale, adiando sua vontade de casar-se com Deani e realizar-se profissionalmente como fazendeiro. Por seu turno, Deanie quase enlouquecerá ao ver-se dividida entre dois estereótipos possíveis em 1928, ano em que se passa a ação da película (um anos antes da grande depressão econômica, portanto): o da virgem discreta e “séria”, que não cede aos próprios desejos sexuais, senão apenas depois do casamento e para satisfazer a lascívia do marido (“isso é coisa de homens”, ensina-lhe sua mãe); ou o da moça leviana-promíscua, encarnada no filme na figura de Ginny (Barbara Loden, ótima), irmã de Bud. Todavia, os personagens não são tratados de maneira maniqueísta e mesmo a severa mãe de Deanie tem seus momentos de absolvição.

Mas nem só de crítica social vive “Splendor In The Grass”. A riqueza de seus personagens passa longe do lugar-comum, o que era mesmo de se esperar de um filme de Kazan. Eles surgem para o espectador, antes de tudo, como pessoas reais, cujas vidas acabam tomando rumos diversos do esperado. E este, possivelmente, é o aspecto mais encantador da película, já que se torna impossível não compartilhar do seu drama. Afinal, todos nós já sentimos que a vida tomou rumos divergentes do que pretendíamos. Não que isso tenha ocasionado necessariamente vivências negativas (por diversas vezes ocorre justamente o contrário), mas certamente você já se pegou refletindo sobre os caminhos que teria tomado ao fazer escolhas diferentes das que fez no passado. Essa perspectiva é forte no longa de Kazan, tanto que o título da produção foi retirado de uma poesia de William Wordsworth que reflete exatamente sobre tais circunstâncias, afirmando que é do que passou que retiramos nossa força.


Importante elucidar que Kazan utiliza de formas novidadeiras para narrar o drama, aliando o estilo narrativo da Nouvelle Vague a uma maneira de abordagem que seria precursora da Nova Hollywood. Talvez tenha sido esta experiência com Kazan, inclusive, que tenha levado o novato Warren Beaty a acreditar que o cinema norte-americano precisava de uma sacudida e o tenha feito lutar pela futura produção de "Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas" (Bonnie & Clyde, 1967). Aliás, neste "Clamor do Sexo" ele está muito bem para um principiante, muito embora tenha começado aaqui a pecha de galã que o acompanharia ao longo de vários anos e que levaria os chefões dos estúdios a colocá-lo apenas em papeis do genêro (pelo menos até a realização do citado "Bonnie & Clyde"). Mas é Natalie Wood que tem, efetivamente, a atuação mais destacada da película. Ela incorpora os tormentos de Deanie como muita garra, em um trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (o que invariavelmente acontecia com os dirigidos por Elia Kazan). Mas o diretor não era só bom com atores. Os inusitados e criativos ângulos de câmera mostram que ele sabia mexer com a ferramenta do cinema, estando seus longas longe de serem apenas uma espécie de "teatro filmado".

Ainda com uma trilha sonora belamente composta por David Amram, "Splendor In The Grass" é um daqueles filmes que vão crescendo em sua memória e que nos deixa enternecidos diante de seu desfecho, ao mesmo tempo belo, melancólico e verdadeiro (não à toa levou o Oscar de melhor roteiro original). A cada lembrança ele se torna melhor, mais relevante e memorável, lembrando-nos que muitas vezes podemos não gostar da pessoa de um artista, mas que isto não implica desconsiderar sua arte. Assim como o genial músico Richard Wagner tem uma obra de méritos artísticos inquestionáveis, mesmo diante do seu mau-caratismo, o mesmo deveria suceder com Elia Kazan, um homem de caráter deveras duvidoso, mas que possui uma filmografia de mestre.


Cotação:

Nota: 10,0

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Primeiro Trailer de "Django Livre"


Em primeira mão, segue abaixo o primeiro trailer de "Django Livre" (Django Unchained), o novo longa-metragem de Quentin Tarantino. Na trama, ambientada no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra de Secessão, Django (Jamie Foxx) é um escravo cujo histórico brutal com seus ex-senhores o deixa frente a frente com um caçador de recompensas alemão, King Schultz (Christoph Waltz, repetindo a parceria que lhe trouxe notoriedade). Os dois passam a caçar criminosos pelo sul dos Estados Unidos e buscam resgatar Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django raptada pelo tráfico de escravos . A procura acaba levando-os até Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o proprietário de "Candyland", uma fazenda onde os escravos lutam entre si por esporte.

De antemão, além da óbvia referência ao filme protagonizado por Franco Nero nos anos 60, já percebemos citações de "Rastros de Ódio" , de John Ford, e até da mitologia germânica, além do recorrente tema da vingança na filmografia de Tarantino. O longa estreia em 25 de dezembro nos EUA e em 18 de janeiro no Brasil.



Django Unchained - Trailer / Bande-Annonce [VOHD] por Lyricis

domingo, 3 de junho de 2012

Restaurando a Película


Ulysses
(Ulysses, 1954)


Entretenimento com inteligência


Nunca entendi realmente o porquê, mas o cinema norte-americano, tão afeito a narrativas fantásticas, produziu relativamente poucos filmes tendo por base a mitologia grega. Mitos incríveis como o de Hércules foram relegados normalmente a produções B, com baixo orçamento e elenco limitado, ao contrário do que ocorria com histórias de teor bíblico, comumente adaptadas como superproduções (vide “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. De Mille). Apenas recentemente os estúdios têm dedicado mais atenção a este universo, como em “Tróia” (Troy, 2004) e o remake de “Fúria de Titãs” (Clash Of The Titans, 2010). Na Itália dos anos 50, contudo, o quadro era outro. Além de longas de menor orçamento, os mitos greco-romanos também eram temas de grandes produções, como aquelas orquestradas por Dino De Laurentiis e Carlo Ponti. Este “Ulysses”, realizado em 1954, é um deles, destacando-se não só pelo apuro técnico, mas principalmente por seu elenco estelar, encabeçado por um Kirk Douglas inspirado.

É verdade que o roteiro condensa bastante o texto da “Odisseia” de Homero, obra basilar de toda a literatura e cultura ocidentais. Nela, como deve ser do conhecimento de muitos, é narrada a longa viagem de retorno do general Ulisses, após a guerra de Tróia, até o seu reino de Ítaca. Ao longo de 10 anos, Odisseu (nome grego para o herói) enfrenta inúmeras adversidades para voltar ao lar, enquanto sua esposa, Penélope (interpretada aqui por Silvana Mangano), obstinada em sua fidelidade, jamais sucumbe aos cortejos dos pretendentes. Entretanto, apesar da síntese, os trechos transpostos para a tela são adaptados com satisfatória eficácia. Mesmo que o espectador não conheça de antemão as passagens do relato homérico não terá dificuldades em compreender o enredo, desenvolvido em formato de flashback, quando Ulisses, desmemoriado, chega a um reino próximo de Ítaca e conhece a princesa Nausica (Rossana Podestà). Ele se esforça para relembrar seu passado e é então que somos apresentados a algumas de suas aventuras.


É certo que o mito de Odisseu estabelece vários dos paradigmas culturais de toda a humanidade. O herói representa a coragem e determinação esperadas do homem, enquanto Penélope se apresenta como encarnação da dedicação e fidelidade que se esperam de uma mulher, modelos de comportamento até hoje dominantes, mesmo diante das diversas mutações da sociedade contemporânea. O pouco conhecido diretor Mario Camerini (que também participou da confecção do roteiro, ao lado de outros seis nomes) soube destacar estas nuances e foi muito feliz em dar a mesma importância na trama tanto a Ulisses como a Penélope, mostrando que os dramas de cada um eram intensos em igual medida, fazendo a narrativa tornar-se interessante tanto para o público masculino quanto feminino. Também ganha destaque o drama de Telêmaco (no filme interpretado por Franco Interlenghi), filho de Ulisses que mal conheceu o pai, pois que este estava ausente do lar desde a sua infância.

Contudo, embora tais elementos sejam colocados de maneira correta, é importante ressaltar que este é um longa de aventura e o principal foco obviamente se coloca nas peripécias do penoso regresso. É provável que a mais marcante delas, ao menos para a época em que o filme foi lançado, seja o confronto com o ciclope* Polifemo, filho do deus Posseidon (ou Netuno, para os romanos). Para os recursos do seu tempo, o gigante é concebido de maneira eficiente, destacando-se seu tamanho através de criativos enquadramentos. Ademais, ainda temos a chegada de Ulisses na ilha da feiticeira Circe (também interpretada por Silva Mangano, exercendo papel duplo no filme), onde precisa fazer com que esta retire o feitiço que transformou seus companheiros de tripulação em porcos, além de sua passagem pelo mar das sereias, resistindo ao seu canto ao pedir que seja amarrado ao mastro do navio.


Entretanto, o longa perderia muito sem a presença marcante de Kirk Douglas, conferindo uma adequada aura forte e mítica ao personagem e dominando todas a cenas em que aparece. Pena que o restante do elenco não o acompanhe. Mesmo Anthony Quinn, que interpreta Antinoo, o principal pretende de Penélope, não tem muito a fazer, uma vez que seu personagem tem pouco tempo em tela. Todavia, quem mereceria um Framboesa de Ouro pela dupla atuação seria Silvana Mangano, duplamente inexpressiva (a despeito de sua beleza), seja na pele de Penélope ou na de Circe.

A despeito destes problemas e da direção de Camerini, a qual, embora correta, não deixa marcas autorais, “Ulysses” mantém o seu interesse devido à força de uma narrativa imortal, que supera os séculos e transcende culturas. Mesmo que você conheça pouco da temática, esta será uma boa e didática forma de se familiarizar com ela, apesar de que, obviamente, o melhor seja conferir a fonte direta de tais mitos, lendo a “Ilíada” e a “Odisseia, embora nos livros você não veja a marcante atuação de Kirk Douglas. Contudo, convenhamos, vale ressaltar que não é fácil adaptar mitologia para as telas. Talvez seja exatamente por isso que os por vezes preguiçosos produtores de Hollywood nunca foram afeitos ao tema: é muito complexo para a média de suas produções feijão com arroz, perdendo a oportunidade de realizar entretenimentos inteligentes como no caso em tela.

Cotação:

Nota: 7,5

* Ciclopes, na mitologia helênica, eram gigantes de um só olho.

domingo, 27 de maio de 2012

Cannes premia Haneke (de novo)


Já está virando barbada apostar em Michael Haneke para levar a Palma de Ouro no festival de Cannes. Três anos depois de levar o prêmio por a "A Fita Branca", ele agora foi novamente agraciado por "Amour", seu mais recente trabalho, o qual teve a premiére durante o festival de 2012. O longa narra a vida de um casal de idosos onde o marido tem de cuidar da esposa depois que esta sofre um derrame. Aparentemente, este foge um pouco do estilo Haneke de filmar, já que ele é muito dado a umas violências. Mas, como disse, só posso falar pela aparência, já que não tive o prazer de vê-lo na sala Lumiére. Pena que " Na Estrada", a co-prudução França-Brasil ditigida por Walter Salles não tenha levado nada. Segue abaixo a lista de premiados do júri presidido por Nanni Moretti.


Palma de Ouro

“Amour”, de Michael Haneke (França)

(com menção aos atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva)

Grande Prêmio do Júri

“Reality”, de Matteo Garrone (Itália)

Melhor Atriz

Cosmina Stratan e Cristina Flutur, por “Dupã Dealuri”, de Cristian Mungiu (Romênia)

Melhor Ator

Mads Mikkelsen (o vilão Le Chiffre de "007 - Cassino Royale", lembram?) , por “Jagten” (A Caça), de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

Melhor Diretor

Carlos Reygadas, por “Post Tenebras Lux” (México)

Melhor Roteiro

“Dupã Dealuri” (Além das Colinas), de Cristian Mungiu (Romênia)

Prêmio do Júri

“The Angel’s Share”, de Ken Loach (Reino Unido)

Caméra d’Or – melhor filme de diretor estreante

“Beasts of the Southern Wild”, de Behn Zeitlin (EUA)

Melhor curta-metragem

“Silêncio”, de L. Rezan Yesilbas (Turquia)


domingo, 20 de maio de 2012

Curtindo o Curta #4


O mundo dos curtas de animação vai bem além daqueles produzidos pela Pixar e exibidos juntamente com seus longas. Um belo exemplo é este "A Casa de Pequenos Cubinhos" (Tsumiki no ie, 2008), do diretor japonês Kunio Kato, o qual destronou o referido estúdio estadunidense no Oscar de 2009, levando o prêmio na respectiva categoria (a Pixar concorria com o também ótimo "Presto"). É difícil condensar emoções em pouco tempo, mas Kato conseguiu a proeza de fazer refletir e comover em apenas 12 minutos neste filme que mostra um homem idoso que mora em uma cidade praiana. Ao longo do tempo, o nível da água vai aumentando e, desta forma, ele tem que erguer ainda mais sua moradia, levantada tijolo por tijolo. Certo dia, ao realizar a mudança dos seus móveis para a parte acima do nível da água, seu cachimbo favorito cai da boca e vai parar no fundo do mar. A partir daí, decidido a recuperar o querido cachimbo, o idoso compra uma roupa de mergulho e vai de encontro às lembranças de sua vida, que se apresentam lenta e nostalgicamente nos níveis inferiores e submersos de sua casa. O curta é de uma sensibilidade ímpar e, além de tecer um bela metáfora sobre a vida e a passagem do tempo, de quebra ainda deixa um comentário sobre os efeitos das alterações climáticas em nosso planeta. Veja abaixo. Garanto que " A Casa de Pequenos Cubinhos" ficará na sua memória.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer



O Rei Leão
(The Lion King, 1994)


Hamlet para os pequenos



Ainda me recordo com detalhes da primeira oportunidade em que assisti a “O Rei Leão” (The Lion King), produção dos estúdios Disney lançada no ano de 1994 (o do Tetra e lá se vão 18 anos!). Eu não havia assistido à animação nos cinemas, apesar do seu grande sucesso. Com 16 anos, eu estava naquela fase de esnobar animações porque eram “coisa de criança” e, tentando dar uma de “rapaz-cabeça”, também não gostava de valorizar filmes por seu apuro tecnológico. Quem insistiu para que eu visse o longa foi um grande amigo meu (abraço, Hendrick!), o qual sempre o elogiava muito. “Além de imagens muito bonitas, ele tem um estória emocionante”, dizia o meu camarada. Depois de muita insistência, ele me convenceu a assistir em VHS (ainda estávamos longe do DVD, minha gente!), com as imagens ampliadas e som amplificado por meio das parafernálias tecnológicas que o pai dele possuía, contribuindo para alcançar uma sensação próxima à da sala escura. A verdade é que, depois da sessão caseira, fiquei de fato impressionado com a beleza imagética da película e, mais que isso, gostei verdadeiramente da trama narrada, emocionante em vários momentos (“eu não disse que era massa?!”, falou o meu amigo).

Anos depois, já nos tempos de faculdade, tive a oportunidade de ler “Hamlet”, uma das obras-primas de William Shakespeare e de toda a humanidade. Percebi, então, que o filme dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff é uma versão para os pequenos do mencionado clássico (com algumas liberdades, claro). Afinal, o leão Mufasa (no original, com a voz marcante de James Earl Jones), rei da savana, é assassinado por seu irmão, Scar (voz inspirada de Jeremy Irons), morte esta presenciada pelo pequeno príncipe Simba (Jonathan Taylor Thomas quando criança e Matthew Broderick quando adulto), filho de Mufasa. Após anos de exílio, quando adota a filosofia de deixar os problemas de lado representada na expressão “Hakuna Matata”, a qual lhe é apresentada pelos novos amigos Timão (voz de Nathan Lane) e Pumba (por Ernie Sabella), Simba não consegue mais fugir de seu destino e retorna para vingar seu pai e retomar o trono que lhe pertence. Ou seja, em linhas gerais, trata-se da mesma trajetória do príncipe da Dinamarca, mesmo que simplificada. Mas esta simplificação não significa que a trama tenha sido idiotizada. Estão lá os elementos imanentes à obra do bardo inglês, como a força da família sobre o indivíduo; a necessidade de uma identidade própria que não o afaste de sua herança e passado; a força inescapável deste passado sobre o presente, entre outras questões que dão pano para manga de teses e mais teses de mestrado ou doutorado. Em contrapartida ao drama, alguns personagens coadjuvantes ganham relevo para atribuir um tom mais leve à narrativa. Além dos citados Timão e Pumba, temos ainda o pássaro Zazu (com impagável voz de Rowan Atkinson), a leoa Nala (Moira Kelly), responsável pelo inevitável romance com o protagonista, e as atrapalhadas hienas asseclas de Scar (uma delas com voz de Whoopi Goldberg).


Por outro lado, é claro que a Disney iria colocar o seu toque para tornar a animação algo inesquecível. E ela conseguiu seu intento, atingindo, inclusive, o público adulto. Afinal, é preciso ter um coração de pedra para não se comover diante da sequência da morte de Mufasa – a Disney, vale lembrar, adora explorar esse tipo de situação, vide a morte da mãe de Bambi no clássico de 1942. Também é praticamente impossível não restar impactado diante de sua fabulosa sequência de abertura, durante a qual somos apresentados tanto ao habitat cenário do enredo, quanto à família real que será o centro do mesmo, numa perfeita solução imagética capaz de situar e embevecer o espectador, preparando-o para o espetáculo que se seguirá. O estúdio utilizou, no caso, uma pioneira técnica de fusão de animação tradicional com recursos digitais que vinha aprimorando desde de “A Pequena Sereia” (The Little Mermaid, 1989) e teve continuidade com “A Bela e a Fera” (Beauty And The Beast, 1991), o primeiro longa de animação a ser indicado (com justiça, diga-se de passagem) ao Oscar de melhor filme. Um processo que ainda continuou com “Alladin” (1992) e que atingiu seu ápice com este “O Rei Leão”.

Com tais recursos, a Disney atingiu um patamar de autêntico deslumbre artístico e que ainda não foi igualado nem mesmo pela Pixar (talvez por esta se valer apenas de recursos digitais), que hoje, vale lembrar, é uma subsidiária do conglomerado da Casa do Mickey. Além do visual, é necessário dar um destaque especial à trilha sonora, cujas canções contaram com a contribuição de um Elton John deveras inspirado, com uma delas levando o prêmio da Academia de melhor canção (“Can You The Love Tonight” acabou por ser tornar um standard na carreira do músico). Frise-se, ademais, que este foi o último grande sucesso do estúdio dentro da sua antiga fórmula para animações, cheias de mensagens edificantes e números musicais entrecortando as ações. Suas tentativas posteriores, como “Pocahontas – O Encontro de Dois Mundos” (Pocahontas, 1995) e “Mulan” (1998) fracassaram diante da nova proposta, mais leve e menos formulaica, trazida pela citada Pixar com seu “Toy Story” (1995).


A despeito de tais fórmulas, “The Lion King” se coloca como um dos grandes momentos de uma das melhores fases dos estúdios Disney, detentor de uma estória de apelo atemporal. Revendo agora em blu-ray, percebi que o filme não chega a ser uma obra-prima, já que sua resolução me soou um tantinho apressada (a película tem apenas 88 minutos e uns 10 minutos a mais seriam bem-vindos) e alguns personagens terminam sendo pouco explorados e mal aproveitados (como a mãe de Simba). Todavia, tais problemas são pequenos diante da força emocional da narrativa e do impacto visual de suas cenas. Não por acaso, quando do relançamento em 3D nas salas dos Estados Unidos, o filme acabou atingindo uma surpreendente arrecadação, chegando mesmo a ocupar o topo das bilheterias. Uma manobra evidentemente comercial que serviria muito mais para divulgar o lançamento do blu-ray no mercado varejista, mas que com certeza deve ter feito muitos pais levarem seus filhos para conhecer essa animação tão cara à memória afetiva de toda uma geração. Sem dúvida, é certo que, diante de tal clássico instatâneo, vários destes pequenos tenham saído das salas de cinema tão empolgados como seus pais um dia saíram...


Cotação:

Nota: 10,0

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Eu Quero Esse Pôster #20

Simplesmente sensacionais os trabalhos do artista sueco Victor Hertz, dono de um estilo minimalista bastante peculiar. Incrível como ele consegue sintetizar toda a memória de um filme com uma economia de traços tão grande. Vejam abaixo.


Se quiser conhecer melhor o trabalho do artista, visite sua página no Flickr.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Quero Ver Novamente #17


Ontem, tivemos a notícia de que "Os Vingadores" (The Avengers) superou todos os recordes em estreias, alcançando a marca de US$ 200 milhões arrecadados nos EUA em apenas três dias (de sexta a domingo). É um bom filme, mas ainda acho que fica a dever no quesito emoção. Talvez isso se deva ao fato de que quase não vemos pessoas "normais" no filme, aqueles cidadãos comuns que precisam ser salvos pelos heróis diante das ameaças. Este, sem dúvida, é um dos fatores que até hoje tornam encantador o "Superman" de Richard Donner. Nele, vemos a reação das pessoas comuns diantes das façanhas do herói, o que traz uma enorme identificação com os espectadores do filme. Sentimo-nos como um daqueles meros fugurantes a aplaudir entusiasmados o atos de bravura do Super-Homem. Além disso, não resta dúvida que este é o mais inspirador de todos os super-heróis. Não por acaso, sua origem lembra muito a de Jesus Cristo, já que Kal-El (o nome verdadeiro do Super-Homem) é enviado à Terra porque seu pai, Jor-El (no filme interpertado por Marlon Brando, que recebeu um cachê milionário por poucos minutos em cena), acredita que ele pode ajudar a humanidade, pois esta última "tem um grande potencial para o bem". Em outras palavras, o mito do Super-Homem é o mito do "salvador". Também ajuda a tornar o filme inesquecível a presença de Christopher Reeve, na minha opinião inigualável na corporificação do personagem, e a fantástica trilha sonora de John Williams, uma das mais inesquecíveis da história do cinema. A sequência abaixo serve para sintetizar todas essas nuances comentadas. Dá vontade de pendurar um lençol vermelho no pescoço e sair por aí "voando" como nos tempos de moleque...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os Vingadores


Festa nerd



Faço parte da turma que esperava ver há muitos, muitos anos uma aventura dos Vingadores transposta para a tela grande, pois que, desde garoto, acompanhei os quadrinhos do supergrupo da Marvel Comics, formado pelos heróis mais famosos e poderosos do seu time. Por outro lado, a estratégia que os estúdios Marvel vinham utilizando como gancho e divulgação para o projeto já vinha me incomodando desde “Homem de Ferro 2” (Iron Man 2, 2010), pois que todos os seus longas de super-heróis, passando por “Thor” e “Capitão América”, possuíam cenas pós-créditos com “deixas” para a tão falada produção. Algo que no início pareceu interessante, mas que depois resultou apenas aborrecido. Eu sempre pensava com os meus botões: “esse filme terá que ser muito bom para compensar tanta expectativa”. Bem, chegamos a 2012 e, antes que o mundo acabasse, a Marvel lançou, no último dia 27 de abril no circuito internacional (curiosamente antes do mercado estadunidense), com muito estardalhaço, pompa e circunstância em um número gigantesco de salas, “Os Vingadores” (The Avengers). Ao menos aqui em Natal, onde resido, o público presente no primeiro fim de semana foi digno das ambições dos executivos. A sessão a que eu e minha esposa pretendíamos assistir já estava esgotada quando chegamos, nos forçando a esperar mais uma hora para pegar outra que terminou igualmente lotada.

Valeu à pena a espera? A verdade é que, mesmo não sendo um filme perfeito, “O Vingadores” é um ótimo filme de ação, muito bem acabadinho não só para o público nerd (que deverá sair bem satisfeito das salas), como também para aqueles que estejam à procura de um filme-pipoca no fim de semana. Embora pouco experiente em produções voltadas para o cinema, o diretor Joss Whedon soube trabalhar muito bem todos os arcos dramáticos, atribuindo destaque a todos os personagens em igual medida – ao contrário do que se temia, pois que muitos imaginavam que, devido à sua popularidade, o Homem de Ferro acabasse roubando a cena e o espaço dos demais. Na realidade, a larga experiência de Whedon na TV, em séries como “Buffy – A Caça-Vampiros” e “Angel”, contribuiu e muito para o sucesso em mostrar tantos personagens com equilíbrio e sem confundir o espectador, já que na televisão é essencial trabalhar desta forma. Mesmo diante de um tempo bem mais escasso, reduzido a 140 minutos, Whedon é feliz no intento, muito embora o roteiro se mostre arrastado em seu princípio, demorando a engatar e em alguns momentos se perdendo em diálogos dispensáveis explicativos da pseudo-ciência comumente presente nas HQs da Marvel.


Na trama, o irmão adotivo de Thor, Loki (Tom Hiddleston, muito à vontade), planeja uma invasão à Terra juntamente com a raça alienígena dos Chitauri. Para tanto, eles usarão um cubo energético denominado Tesseract (o “MacGuffin” do enredo), capaz de abrir um portal entre partes remotas do universo que possibilite a invasão. Para tentar impedir os intentos do deus da trapaça, Nick Fury (Samuel L. Jackson, hoje em dia uma espécie de coadjuvante de luxo em filmes de ação), diretor da agência de espionagem SHIELD, irá recrutar, com a ajuda do agente Coulson (Clark Gregg, sendo este um tipo criado especialmente para o cinema), um grupo de super-humanos que incluirá além do Homem de Ferro (Robert Downey Jr, na sua caracterização costumeiramente impagável), também o poderoso Thor (Chris Hemsworth, que considerei melhor no filme solo do deus do trovão), o Capitão América (Chris Evans, hoje muito mais “Capitão” do que “Tocha Humana”) e o Dr. Bruce Banner/Hulk (o sempre ótimo Mark Ruffalo, aqui atribuindo uma aura bem simpática ao perturbado cientista). À parte estes heróis, que já haviam sido apresentados ao público em seus próprios longas solo, somos apresentados à Viúva Negra (Scarlett Johansson, cada vez mais bonita) e ao Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), muito embora este tenha participado de uma ponta em “Thor” (2011).

O roteiro, escrito pelo próprio Whedon juntamente com Zak Penn, desenvolve-se daquela forma previsível em que um grupo enfrenta conflitos de egos e personalidades até que seus integrantes resolvem deixar as diferenças de lado em prol de um objetivo maior. Como já frisado mais acima, a primeira metade da produção transcorre um tanto arrastada, por vez até mesmo aborrecida, sendo compensada por diálogos inteligentes e boa dose de humor - principalmente quando Tony Stark e Bruce Banner estão em cena - além da boa e equilibrada abordagem de cada um dos superseres anteriormente mencionada . Entretanto, a previsibilidade e lentidão iniciais são compensadas, ao final, com um clímax estupendo, onde Whedon nos dá um show de direção em sequências de ação, sabendo mostrar várias tomadas paralelas sem confundir o espectador (viu, Michael Bay?) e fazendo com que torçamos pelos super-heróis como em nenhum outro filme da Marvel Studios. Algumas cenas realmente já se tornaram clássicas, como a que Hulk “esmaga” Loki (na sala em que assistimos, o público veio abaixo em gargalhadas, eu incluso) ou a que o Capitão América dá ordens aos policiais na ruas de uma Nova York destruída (nem a verdadeira destruição da cidade no 11 de setembro fez com que os norte-americanos passassem a poupar a Big Apple nas telas). Todavia, quem rouba mesmo a cena é o Hulk. O gigante verde, que havia deixado a desejar em suas aventuras solo, aqui não apenas diverte com tiradas espirituosas como empolga com sua força descomunal. Pena que o roteiro peque justamente na abordagem do seu comportamento, ora totalmente descontrolado, ora dirigido ao confronto contra os adversários certos, o que fez surgir teorias na internet que na verdade apenas ratificam a falha dos escritores em deixar claro o porquê de suas motivações.

Mesmo não chegando ao nível de um “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008), com sua abordagem adulta e cunho autoral imprimidos por Christopher Nolan, “Os Vingadores” cumpre muito bem seu papel de filme de aventura para as massas e eu, como leitor antigo das HQs, me senti respeitado e mesmo homenageado na figura do nerd agente Coulson. Diante da bilheteria arrasadora que a produção vem obtendo (teve a maior renda de estreia no Brasil em todos os tempos, só para citar um exemplo), não é preciso ser adivinho para prever que teremos logo, logo uma continuação e a Disney (que comprou a Marvel) deve estar festejando os números depois do recente fracasso de “John Carter”. Uma festa nerd que ainda renderá próximos capítulos, sem dúvida.


Cotação:
Nota: 8,5

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer

 

Bem, leitores, este é o primeiro texto do "Cinema Com Pimenta" após o seu recesso. É possível que ainda não seja um retorno definitivo, mas aos poucos vamos tentando retomar o ritmo. Também não sei se este é realmente um bom texto, mas é o que o blogueiro conseguiu produzir em meio aos dias cheios que está levando. De qualquer forma, uma coisa é certa: é muito bom estar de volta! Grande abraço a todos os que acompanham este espaço e obrigado, muito obrigado pelos comentários de felicitações e incentivos postados nos últimos dias. Li todos eles e fiquei feliz e motivado com todos. Agora, segue a resenha de um filme pra lá de bom que vi alguns dias antes do recesso. Até o próximo post!

A Primeira Noite de Tranquilidade 

(La Prima Notte di Quiete, 1972)


Existencialismo cinematográfico

É possível que nenhum outro cineasta tenha tratado de questões existenciais de uma forma tão própria quanto o diretor italiano Valerio Zurlini (opa, Ingmar Bergman também alcançou o mesmo nível neste quesito, mas são estilos bem distintos). E talvez nenhum dos seus filmes resuma de maneira tão abrangente o seu cinema quanto “A Primeira Noite de Tranquilidade”, o seu penúltimo longa-metragem, realizado em 1972. Anteriormente, quando tratamos, aqui no “Cinema Com Pimenta”, de “A Moça com a Valise” (La Ragazza Con La Valigia), sua obra de 1961, sublinhamos o quanto o seu diretor foi subestimado em seu tempo, passando por um processo de revalorização apenas recentemente, já na primeira década dos anos 2000. Ao terminar de assistir a “A Primeira Noite de Tranquilidade” é possível que você fique estupefato(a) por dois motivos: o primeiro é a constatação de que esta é uma obra impecável, um verdadeiro conto existencialista que até mesmo Jean-Paul Sartre ou Albert Camus invejariam; o segundo motivo é tentar compreender o porquê de um filme tão belo encontrar-se quase relegado ao esquecimento, sendo que até mesmo entre os cinéfilos normalmente não é fácil encontrar alguém que já o tenha visto.

Para tornar a questão ainda mais difícil, é importante frisar que o filme tem como seu protagonista ninguém menos que Alain Delon, simplesmente um dos grandes astros da história do cinema e que encontra aqui uma de suas maiores performances (alguns afirmam que este é seu melhor trabalho, mas aí podemos acabar irritando o fãs de Jean-Pierre Melville para quem Delon fez, entre outros, “O Samurai”). Delon encarna o professor Danielle Dominici, um homem que já parece desenganado com a vida, mas que, no fundo, ainda almeja encontrar algo ou alguém que o faça se sentir vivo. Chegando à cidade italiana de Rimini (a cidade natal de Fellini retratada em “Amacord”, lembram?) ele passa a ensinar no liceu local onde conhece a estudante Vanina Abati (encarnada pela lindíssima atriz Sonia Petrova), uma garota ao mesmo tempo instigante e misteriosa que, a despeito de sua beleza e juventude, exala infelicidade em sua face. Aliás, como bem define uma das personagens a certa altura, trata-se de uma mulher de “muito passado, pouco presente e nenhum futuro”. Ela é a namorada do homem mais rico da cidade, um playboy que a trata como um troféu para enfeitar a prateleira, mas pouco interessado na sua alma. Um de seus amigos é Giorgio Mosca, conhecido pelos mais próximos como “Spider” (papel de Giancarlo Giannini), o qual por sua vez percebe que Dominici é um homem que talvez mereça ter o seu passado investigado.

A “apuração” promovida por Spider revela uma das melhores facetas de Zurlini. Em suas obras, vamos descobrindo os personagens aos poucos, tal como conhecemos alguém na vida real, conferindo uma quase inigualável tridimensionalidade aos tipos que elabora. Desta forma, o misterioso Dominici, uma espécie de homem-lugar-nenhum que surge na tela logo na primeira cena, caminhando em um promontório a lado da arrebentação das ondas em uma Rimini invernal, vai sendo revelado em cada novo fotograma, como quando descobrimos que ele é casado com uma mulher adúltera (Lea Massari, a mulher que desaparece em “A Aventura”, de Michelangelo Antonioni), vivendo um matrimônio que só se mantém devido às constantes ameaças de suicídio proferidas pela esposa, até sabermos o que o professor define como “a primeira noite de tranquilidade” do título. Da mesma maneira, vamos descobrindo porque Vanina é uma mulher “de muito passado”. Tudo isso levado a cabo por meio de um roteiro brilhante, com ares verdadeiramente literários (várias são as frases memoráveis ditas ao logo da projeção), o qual vai assumindo contornos deveras trágicos à medida em que Dominici se envolve de forma cada vez mais irremediável com Vanina.

Por outro lado, mais uma vez a mise-en-scéne de Zurlini é algo fascinante. A cena da boate, na qual percebe-se que Dominici encontra-se perdidamente enfeitiçado pela jovem aluna é um autêntico espetáculo imagético. Vale dizer, inclusive, que ela lembra muito uma outra sequência filmada pelo diretor no citado a “A Moça Com A Valise”, onde Jacques Perrin, tomado de ciúmes, observa Claudia Clardinale dançando com um homem endinheirado e estúpido. Antes que se avente que o diretor incorreu em repetição, é importante frisar que o personagem de Delon no longa de 1972 parece uma versão madura do adolescente interpretado por Perrin no filme de 1961. É como se o primeiro fosse a representação desiludida deste último, depois de anos de decepções e dissabores. Nesta ótica, seria até leviano afirmar que Zurlini se repetiu ou aventar uma suposta falta de criatividade do diretor. Vista isoladamente, a mencionada sequência é um deslumbre e, quando colocada diante da cena semelhante vista no longa sessentista, ela cresce ainda mais.


Além das imagens marcantes, o elenco também é outro fator que contribui sobremaneira para transformar “A Primeira Noite de Tranquilidade” em uma obra que vai muito além de meras duas horas de frente para uma tela. Sonia Petrova, como Vanina (o nome foi pinçado por Zurlini a partir de um livro de Stendhal), além da já mencionada beleza incomum, demonstra talento em várias passagens dramáticas e é até estranho que ela não tenha realizado uma carreira com maior destaque (ela também trabalhou com outros diretores famosos, como Luchino Visconti, mas misteriosamente nunca despontou como grande estrela). Já Giancarlo Giannini chega a roubar cenas na pele de “Spider”, principalmente durante alguns diálogos memoráveis com Dominici, conseguindo fazer do seu personagem algo além de um mero coadjuvante. Contudo, é mesmo Alain Delon o monstro em tela que que acaba por catalisar as atenções. É como se ele tivesse nascido para o papel e note-se que este foi o seu único trabalho com o cineasta em questão (ao contrário de sua parceria constante com o citado Melville). Delon foi (e ainda é) um homem muito bonito e, talvez até por isso, sempre procurou papéis que retirassem da sua figura um possível estigma de galã. Aqui ele se encontra com a barba por fazer, vestindo um sobretudo surrado e externando, a cada gesto e olhar, a agustiada alma de um homem que ainda busca a felicidade mesmo contra todas as evidências de insucesso.

Alguns afirmam que para gostar dos filmes de Zurlini, especialmente deste, é necessário estar triste. Nada mais superficial. Caso tomássemos tal frase como verdadeira teríamos que afirmar que para gostar dos filmes de um Woody Allen, por exemplo, é necessário estar com vontade de rir. A obra de Valerio Zurlini vai muito além de simplificações e hoje considero um dever de cada cinéfilo conhecer e fazer com que outros conheçam sua filmografia. Afinal, uma obra-prima como "La Prima Notte di Quiete", a qual resume sua carreira de uma forma magnífica, merece ser conhecida e admirada. Assista e descubra o quanto antes qual é a primeira noite de tranquilidade na visão deste mestre da Sétima Arte.


Cotação e nota: Obra-prima.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cinema Com Pimenta em recesso!

(A cadeira está vazia, mas volto logo!)


Amigos do Cinema Com Pimenta,

Como é possível perceber, o número de postagens no blog caiu muito. Neste mês de abril, havia ocorrido apenas uma até a presente data (e olha que já estamos no dia 11 do mês). A verdade é que este blogueiro encontra-se em um momento pessoal em que o tempo está muito escasso. Sendo bem sincero: quase não estou vendo filmes, quem dirá conseguir escrever algo que se aproveite sobre eles. Bem, isso se deve a um fator bastante relavante: na próxima quinta-feira dia 19/04 eu irei me casar e, como devem imaginar, encontro-me em uma grande correria para dar conta dos preparativos do casório. É tanta coisa para resolver que não está sobrando tempo nem para um cineminha, nas salas ou em casa.

Diante desta circunstância, o "Cinema Com Pimenta" fará seu primeiro recesso desde sua criação, em julho de 2008. De qualquer forma, claro que não conseguirei passar muito tempo longe. Espero no fim do mês já estar de volta com toda a paixão pelo cinema que, acredito, é a marca característica deste espaço. Um grande abraço a todos os(as) leitores(as) que acompanham o "Cinema Com Pimenta". Eu só tenho a agradecer a todos vocês! Até breve!

Obs: Talvez ainda saia uma postagem antes do fim do mês, sobre um filme que vi no último domingo. Apesar de ter começado a escrever o texto, ele anda um tanto "empacado", razão pela qual já resolvi deixar o aviso de recesso. Vamos ver se consigo terminar. ;=)


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Os Falsários
(Die Fälscher, 2007)


Entre a cruz e a espada


Desde que Steven Spielberg filmou, em 1993, a sua obra-prima “A Lista de Schindler” (Schindler's List), longa-metragem que estabeleceu um perfeito equilíbrio entre a brutalidade nazista e a emoção que se pode extrair de uma drama dessas proporções, o cinema se viu invadido por uma série de filmes tendo como tema central o holocausto cometido durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, praticamente todos os anos chegam às telas obras com este foco, seja em formato ficcional ou documental. Claro que, diante de tantas produções, inevitavelmente surgirão aquelas de maior e outras de menor qualidade, sendo necessário filtrá-las, afinal não basta que um filme tenha o massacre dos judeus como tema para que se possa afirmar que é bom cinema. Para cada “O Pianista” (The Pianist, 2002), uma das obras-primas de Roman Polanski, temos outros exemplares de qualidade duvidosa, como é o caso do nacional “Olga” (2004), de Jayme Monjardim, o qual, mesmo que não tenha o holocausto como tema central, mergulha em um sensacionalismo desnecessário, dado o caráter já naturalmente emocional da temática. A Academia de Hollywood, por seu turno, parece jamais se cansar de prestigiar longas que abordam o horror nazista e com certeza esse foi um dos principais fatores que levaram o longa-metragem austro-alemão “Os Falsários” a levar o Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2008. Entretanto, e felizmente, este não foi o único fator.

Poucos são os filmes que apresentam dilemas éticos e morais com tanta propriedade quanto “Os Falsários”. Na sua estrutura narrativa, as soluções, longe de fáceis ou maniqueístas, parecem, pelo contrário, sempre levar os protagonistas a um novo labirinto de interrogações e cada nova decisão tomada parece ser inevitavelmente insatisfatória, pois que destituída do poder de retirá-los do beco sem saída em que estão vivendo. Homens que não sabem se é honroso ou vergonhoso sobreviver quando lançados em uma situação em que suas vidas são pautadas pela ajuda que prestam a uma máquina de extermínio. Você, que está lendo, ajudaria o nazismo, mesmo que de uma forma indireta, em troca de ver mantida sua própria vida?


A problemática nos é apresentada através da história real conhecida como “Operação Bernhard”, hoje considerada como responsável pelo maior derrame de moedas falsas já realizado. Em condições difíceis nos campos de batalha e com os cofres cada vez mais escassos, os nazistas partiram para a falsificação de dinheiro como uma forma tanto de “criar” recursos para custear a guerra, como também de abalar a economia do países vítimas da contrafação, no caso Inglaterra e Estados Unidos. Para perpetrar tal intento, os alemães se valeram de judeus prisioneiros em campos de concentração com talentos adequados à falsificação de cédulas. Baseado no livro “The Devil's Wokshop”, de Adolf Burger (ele próprio um dos personagens na tela), a narrativa nos mostra que um destes especialistas judeus é Salomon Sorowitsch (no filme, o papel é de Karl Markovics), ou “Sally” para o mais próximos, um falsário de enorme talentos artísticos, mas que prefere levar a vida “fazendo” o dinheiro do que suando para ganhá-lo. É ele que será o líder dos falsários e contará com a especial confiança do comandante do campo (Devid Striesow) - que por sinal foi o policial que o prendeu - o qual reserva para o grupo uma tratamento diferenciado. No entanto, a posição de Salomon de salvar a vida a qualquer custo é confrontada por Burger (interpretado por August Diehl), que não admite servir aos propósitos dos próprios algozes.


Temas como esse poderiam cair facilmente no sentimentalismo, mas o diretor Stefan Ruzowitzky soube fugir dos lugares-comuns e manteve a narrativa, em sua maior parte, distante das facilidades. Desenvolvida em estilo flashback, já sabemos de antemão que Salomon escapou da morte no campo, evitando assim que o espectador pudesse focar em um suspense desnecessário acerca do destino do protagonista, o que desviaria sua atenção do drama ético proposto. A contraposição da vida de Salomon antes e depois da guerra, regada a mulheres e boemia, com o período em que ele passa enclausurado também se mostra muito útil para entendemos sua personalidade e sua facilidade em obter benefícios dos militares da SS. A edição primorosa mostra-se, ademais, fundamental para esse intento e até mesmo a trilha sonora escolhida, repleta de tangos, contribui para lembrarmos que Salomon é, antes de tudo, um bon-vivant que sabe, mais do que qualquer outro, arranjar maneiras de obter regalias. O roteiro, também escrito pelo próprio diretor Ruzowitzky, é enxuto, fazendo com que o filme não dure mais do que 1h e 40min. Mas isso não significa dizer que o mesmo é superficial. Pelo contrário, aborda as temáticas apontadas com objetividade e profundidade. Mas tais características cairiam por terra se o elenco não correspondesse, atribuindo verossimilhança aos personagens retratados, e aqui cabe destacar a ótima atuação de Karl Markovics ao imprimir ao mesmo tempo verdade e um tom misterioso a Salomon, fazendo deste um tipo memorável.

Ver-se entre a cruz e a espada é o que resulta da experiência de assistirmos a “Os Falsários”, levando o público antes de tudo à reflexão e não tão somente a um mero derramamento de lágrimas como acontece em tantos filmes que têm a Segunda Guerra (mormente o holocausto) como tema. Nesse trabalho de separar “o joio do trigo” entre tais dramas de guerra, o longa de Ruzowitzky merece destaque e sua premiação no Oscar (ele foi o primeiro a ganhar um Oscar de filme estrangeiro pela Áustria) não foi injusta. Embora não se possa afirmar que esteja à altura dos citados trabalhos de Roman Polanski e Steven Spielberg, ou ainda de outras produções europeias, como a obra-prima “Vá e Veja” (Idi i Smotri, 1985), de Elem Klimov, “Die Fälscher” com certeza é um trabalho que foge das obviedades de um gênero já bastante maltratado e aparentemente esgotado.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 30 de março de 2012

Trilha Sonora #22



Sessão dupla da série "Trilha Sonora".

Bem, no próximo dia 21 de abril, Paul McCartney, o maior músico pop vivo do mundo, irá se apresentar em Recife. Eu e minha noiva já estamos de ingressos e passagens compradas e já estamos entrando no clima do evento. Como ando ouvindo muito Beatles nos últimos dias (aliás, não só nos últimos dias, mas em toda a minha vida) comecei a rememorar filmes com canções dos Fab Four. Um bastante conhecido é "Uma Lição de Amor" (título nacional meloso para "I am Sam"), fime protagonizado por Sean Penn em que ele interpreta um pai com deficiências mentais que luta para ter a guarda da filha Lucy (Dakota Fanning). Sam é fanático pelos Beatles e todo o longa metragem é povoado de músicas do quarteto. Uma delas, a linda "Blackbird", você pode ouvir clicando logo abaixo, com interpretação original.






Outro filme recente que lembro imediatamente é o longa "Across The Universe", musical inteiramente baseado nas músicas dos quatro rapazes de Liverpool. Uma das versões mais marcantes apresentadas é a de "I Want To Hold Your Hand", com um andamento mais lento, uma voz feminina e com uma conotação jamais vista antes. Veja o mais rápido possível logo a seguir.



É impressionante como às vezes eu ainda me pego impactado por essas músicas. Elas vão fundo na alma. Os Beatles mudaram o mundo? Talvez. Talvez pouco ou talvez quase nada. Mas não é porque eles mudaram o mundo que nós gostamos deles. Nós costumamos gostar dos Beatles principalmente por conta de suas lindas canções. É por causa delas que ele foram e sempre serão a maior banda de todos os tempos!

domingo, 25 de março de 2012

Restaurando a Película


O Fio da Navalha
(The Razor's Edge, 1946)


Um bom clássico com “Tirone Pouer”



Diante da quantidade gigantesca de filmes que se tem a explorar, é inevitável que mesmo um cinéfilo acabe deixando de lado a filmografia de algum cineasta ou astros renomados. São os “pecados” que muitas vezes não gostamos de admitir nem para nós mesmos, mas aqui vou assumir publicamente um deles. Este clássico “O Fio da Navalha” (The Razor's Edge) é o primeiro longa-metragem a que assisti com o famoso ator Tyrone Power, um dos astros da Hollywood dos anos 30 e 40 e que, infelizmente, faleceu muito cedo, com apenas 44 anos, vítima de um infarto fulminante (o mal era de família, pois que seu pai morreu da mesma forma). Curioso que a primeira vez que vi alguma referência ao nome do ator foi ainda bem moleque, na HQ “Batman – O Cavaleiro da Trevas”, mais precisamente em um trecho em que Bruce Wayne recordava o assassinato dos seus pais logo após uma sessão de “A Marca do Zorro”, filme estrelado por ele, Tyrone Power, o qual para mim, com os meus parcos conhecimentos de inglês àquela altura, era o “Tirone Pouer”. Os anos passaram, eu me tornei um cinéfilo-que-escreve, mas ainda não havia apreciado qualquer atuação do astro e isso já vinha se tornando um verdadeiro fantasma assombrando minha vida de amante do cinema. De toda forma, sempre podemos ao menos tentar recuperar o tempo perdido e eis que me inicio nos trabalhos de Power com o longa-metragem de 1946 dirigido pelo inglês Edmund Goulding.*

Goulding foi, tal como Douglas Sirk, um grande diretor de melodramas, o que importa dizer que sua linguagem e ritmo cinematográficos possuem uma fácil comunicação com o público – linguagem esta que depois seria piorada e utilizada à exaustão pelas telenovelas. É comum se deixar envolver por suas narrativas, normalmente em termos maniqueístas, ondem mocinhos e mocinhas enfrentam megeras e indivíduos sem caráter. Alguns melodramas, entretanto, se colocam acima da média justamente por fugirem a esses lugares-comuns. Ao levar para as telas a adaptação da obra de Somerset Maugham, Goulding foi além de meras situações que fariam o público torcer pela moça desamparada. À exceção do protagonista Larry Darrell (encarnado por Tyrone Power), praticamente todos os outros personagens possuem um caráter imperfeito, aproximando-se, desta maneira, das tintas do cinema noir. Entretanto, mesmo Larry é um tipo incomum para o cinema de então. Afinal, ele nos é apresentado como um homem que não compartilha dos valores da sociedade capitalista, atenta apenas ao possuir e ao trabalho como uma forma de auferir maiores riquezas (e não como maneira de realização pessoal). Ex-combatente da 1ª Guerra Mundial, ele não se enxerga mais como um homem que se realize como empresário, advogado ou qualquer outra carreira tradicional. Entediado e deslocado diante dos valores da vida burguesa, Larry parte para a Europa em uma jornada de autoconhecimento que, posteriormente, o levará ainda até a Índia. Mas é claro que suas escolhas também importarão em perdas (afinal, assim é a vida). A mais significativa delas é a noiva Isabel Bradley, interpretada pela belíssima Gene Tierney, uma estrela em seu tempo, mas que hoje anda pouco lembrada. Filha de família abastada, ela não consegue compreender a angústia de Larry e muito menos concebe viver com recursos limitados. É uma mulher do seu tempo, que espera do marido todos os esforços para que tenham uma vida confortável. Entretanto, não conseguimos enxergá-la como uma pessoa exatamente ruim, mas tão somente limitada diante dos conceitos socioculturais dominantes.


É exatamente esta riqueza dos personagens o maior trunfo de “O Fio da Navalha”, característica que não se restringe ao mencionado casal central. Ao redor deles gravitam vários tipos interessantes e marcantes. Clifton Webb (que já havia trabalhado ao lado de Tierney no clássico do noir “Laura”, de 1944) interpreta Elliott Templeton, tio de Isabel, um aristocrata esnobe que tenta esconder sua própria decadência. Outro que marca boa presença é John Payne como o bom caráter Gray Maturin, além de Herbert Marshall encarnando o próprio escritor Somerset Mugham, em um recurso de metalinguagem do longa. Entetanto quem acaba mesmo roubando a cena é Anne Baxter (que mais tarde seria “A Malvada” do filme estrelado por Bette Davis) como a sofrida Sophie McDonald, uma mulher intensamente feliz até perder o marido e o filho em um trágico acidente, fato que a leva ao alcoolismo e a um estado de semiprostituição. A entrega de Baxter ao papel lhe rendeu um merecido Oscar de atriz coadjuvante (Clifton Webb também foi indicado como ator coadjuvante).


Por outro lado, além da ótima direção de atores, Goulding consegue estabelecer um ritmo que prende o espectador e faz com que este nem sinta os 145 minutos do longa. Isso se deve muito também à fluidez do roteiro, uma boa adaptação levada a cabo por Lamar Trotti, muito embora fosse possível explicar melhor os traumas vividos por Larry no conflito mundial, que são apenas referidos em um diálogo entre ele e Isabel. Também é possível afirmar que o filme carece de uma maior força imagética, fragilidade possivelmente decorrente das preferências de Goulding, que não gostava de filmar em locações, mania talvez proveniente de suas origens teatrais. A trilha sonora de Alfred Newman, mesmo que muito bonita, por vezes soa com um certo sensacionalismo, com tons meio exagerados. No entanto, há bons momentos com canções incidentais, as quais lançam um bem-vindo teor naturalista às sequências.

E Tyrone Power? Merece mesmo o adjetivo de “grande astro” do cinema? Bem, embora ele não tenha me parecido exatamente um Marlon Brando, não se pode negar que tinha muito carisma. Era um bom ator, cujo tipo físico lembrava o de James Stewart, mas que parecia sempre precisar de um bom diretor de atores para realizar um trabalho mais marcante, como foi o caso aqui. Contudo, talvez até melhor do que finalmente conhecer o “Tirone Pouer”, foi descobrir que “O Fio da Navalha” é uma obra bastante interessante e que anda por aí injustamente relegada ao esquecimento. Até poucos dias, eu nunca nem sequer tinha ouvido falar desta película (que até foi indicada ao Oscar de melhor filme também) e agora eu já trago boas memórias dele. Clássicos: é por essas e outras que é essencial vê-los!


Cotação:

Nota: 8,5


* O filme foi uma sugestão da colega blogueira Suzane Weck. No seu espaço você poderá conferir a, como sempre, ótima interpretação dela para "Mam'selle", uma das canções ouvidas no longa! Não deixe de acessar!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Obrigado, Chico!


Pausa no cinema.

Hoje, 23 de março de 2012, faleceu um dos maiores gênios do humor não só do Brasil, mas do mundo. Francisco Anysio de Paula Filho deixou uma herança humorística praticamente inigualável, com uma enorme quantidade de tipos memoráveis como Pantaleão, Alberto Roberto, Qualhada e vários outros. Entre os meus preferidos estavam Jovem, com seu comportamento sempre  "anti-careta"  e Justo Veríssimo, uma crítica afiada e sempre atual à nossa corrupta classe política. O humor de Chico era assim, sempre muito inteligente. Seguem abaixo dois videos com os personagens destacados. Obrigado, Chico. Descanse na bênção de Deus!






domingo, 18 de março de 2012

Curtindo o Curta #3


"La Jetée" (em francês, "o cais" ou "o pier") é, com certeza, um dos melhores curtas-metragens de todos os tempos. Impressionante que, em apenas 28 minutos, ele consiga ser mais complexo e marcante do que muitos filmes com até 3 horas de duração. Dirigido em 1962 pelo francês Chris Marker, um documentarista que realizou aqui uma de suas poucas ficções, o curta é uma ficção-científica pós-apocalipse nuclear onde a humanidade vive agora nos subsolos, já que a superfície se tornou inabitável. Para tentar evitar que a tragédia ocorra, um homem é escalado por cientistas para fazer uma viagem ao passado e mudar a sucessão de fatos que levariam à dita hecatombe nuclear. Ele, no entanto, apaixona-se por uma mulher que, desde a infância, lembrava-se de ter visto no aeroporto de Orly e, a cada viagem no tempo, passa a viver mais intensamente esse amor. Apenas através desta breve sinopse, já é possível perceber que o filme de Marker teve grande influência em vários exemplares do gênero que vieram posteriormente, como "O Exterminador do Futuro" ( The Terminator, 1984) e "Os 12 Macacos" (Twelve Monkeys, 1995), longa de Terry Gilliam que se constitui em uma adaptação expandida de "La Jetée". Mas a obra não é apenas influente, é também (e principalmente) uma experiência única, pois que ele é construído como uma fotomontagem. Em apenas uma das sequências do filme as imagens possuem movimento. Você descobrirá qual delas, assistindo o mais rápido possível clicando no video legendado abaixo. Melhor do que ficarmos aqui de blá-blá-blá é ver este filme ao qual você não ficará indiferente. Boa sessão!


quarta-feira, 14 de março de 2012

John Carter - Entre Dois Mundos


O tempo não ajudou


A cultura de massas tem como efeito colateral banalizar certos tipos de estruturas narrativas que, de tão mastigadas, vêm causando muito mais enfado e impaciência nas plateias do que algum tipo de entusiasmo. Não que isso seja um fenômeno exatamente novo. Afinal, “Dom Quixote De La Mancha”, a obra-prima de Miguel de Cervantes, já se constituía, nos idos do século XVII, em uma crítica aos exageros e mesmice dos então populares romances de cavalaria. Entretanto, também tem razão quem diz que todas as histórias já foram contadas, só o que muda é a forma de contá-las e é nessa ideia que os produtores, em tempos de uma maré criativa tão baixa como a atual, parecem se apoiar para realizar os seus mais pesados investimentos, sempre apegados a uma noção de cinema voltado para o público adolescente-masculino. E põe pesados nisso. Com “John Carter: Entre Dois Mundos”, a Disney-Pixar investiu nada menos que 250 milhões de dólares, colocando o longa-metragem entre os 10 mais caros da história.

Não deixa de ser corajosa a atitude do estúdio em investir tanto dinheiro em um personagem pouco conhecido, criado por Edgar Rice Burroughs (o autor de Tarzan) 100 anos atrás, em 1912, na ficção “Uma Princesa de Marte”, fugindo da zona de conforto de adaptar apenas figuras com um prévio grande apelo pop (como é o caso dos heróis das HQs de hoje, como Homem-Aranha ou os X-Men). Claro que tanto investimento também faz parte de seus planos mercadológicos de emplacar uma nova franquia - algo que já havia tentado, sem o sucesso esperado, com “O Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo” (Prince of Persia: The Sands of Time, 2010) - para substituir a série “Piratas do Caribe”, que já demonstra sinais de cansaço. Mas é saudável que, pelo menos a princípio, saia da acomodação e explore um novo universo,apto a trazer algum sabor de novidade ao mercado de blockbusters.

O maior problema desta adaptação é justamente a sensação de que ela não soa tão original quanto deveria ser. A ideia de adaptar o livro de Burroughs era bastante antiga, remontando aos anos 30. Todavia, acabou ficando de lado e outros livros e filmes acabaram bebendo da fonte criada por Burroughs - como é o caso de George Lucas, cuja série “Star Wars” tem no planeta Tatooine, com seu visual desértico, uma nítida demonstração da influência da obra do primeiro. Sendo assim, ao longo da projeção, é inevitável que o espectador se lembre de tramas semelhantes (a maioria recordará de “Avatar”), onde um homem acaba tendo de superar as barreiras culturais impostas pelo contato com um nova civilização para, posteriormente, unir-se a elas e vencer inimigos e adversidades. No caso de John Carter (interpretado pelo desconhecido Taylor Kitsch), ele é um ex-combatente da Guerra de Secessão, cheio de vários traumas oriundos do conflito. Ao descobrir, por acaso, uma mina de ouro, Carter encontra nela um estranho artefato que o transportará em um piscar de olhos ao planeta Marte, o qual é denominado pelos nativos de Barsoom. Lá, terá de reaprender até mesmo a andar, já que os dois planetas possuem gravidades diversas. Também lidará com três povos diferentes, todos em conflito e conhecerá a princesa de um deles, Dejah Thoris (a também pouco conhecida Lynn Collins), por quem obviamente se apaixonará.



Dirigido por Andrew Stanton, estreante no cinema live-action (ele é o diretor das excelentes animações “Wall-E” e “Procurando Nemo”), a trama se desenrola redonda, sem atropelos, contando direitinho a estória (sabendo usar bem o recurso dos flashbacks para mostrar o passado de Carter) e estabelecendo um bom ritmo para a ação, em alguns momentos realmente vibrante, contando com ótimos efeitos especiais e uma bela fotografia dos “desertos de Marte” - na realidade, os desertos do estado de Utah, famosos no cinema pelos westerns do mestre John Ford. Há ainda uma boa sacada metalinguística do roteiro em colocar o próprio Edgar Rice Burroghs como o sobrinho de John Carter, exercendo papel importante na forma como a narrativa se desenvolve. E os atores-protagonistas, desconhecidos do grande público (o que talvez seja uma ideia acertada para começar uma franquia, vide o trabalho de Lucas no “Star Wars” original), até que não comprometem, com Taylor Kitsch, mesmo oscilante, rendendo bons momentos.

No entanto, como quase tudo que vemos no circuito comercial hoje, a sensação de que já vimos todo aquele enredo em algum lugar é constante. Todos os passos são previsíveis. A chegada e estranhamento de Carter no no novo mundo; sua aproximação dos nativos; a sua consagração como herói... Mais uma versão moderna e pop de “Pocahontas”, enfim, com aquele subtexto de respeito aos povos e suas culturas que agora já aparece como clichê (muito embora nunca perca sua relevância). Uma pena que as ideias originais de Burroughs tenham caído na banalidade neste longo lapso temporal que separou seus escritos da adaptação para a tela grande. E é fazendo justiça ao autor que podemos elogiar seu poder criativo, mesmo que hoje a aventura não cause o impacto que deveria, resultando a sessão em apenas um bom divertimento.


Cotação:

Nota: 7,5

segunda-feira, 12 de março de 2012

Eu Quero Esse Pôster #19

A seguir, dois trabalhos do artista gráfico Ken taylor, dono de um estilo que remete à estética dos quadrinhos. O primeiro é do já clássico terror "Poltergeist".


E abaixo, o trabalho do artista para o badalado "Drive".

quinta-feira, 8 de março de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer


A Moça Com A Valise
(La Ragazza Con La Valigia, 1961)


Uma diva, um adolescente e um grande cineasta



Você conhece a obra do diretor italiano Valerio Zurlini? Bem, se a resposta for negativa, não se sinta culpado (a). Zurlini foi um diretor talentosíssimo, mas que teve ao mesmo tempo a sorte e o azar de participar de um momento importantíssimo de efervescência do cinema italiano, disputando espaço com outros nomes como Federico Fellini, Luchino Visconti ou Michelangelo Antonioni. Ou seja, diante da concorrência destes popstars da direção, a filmografia de Zurlini acabou meio que passando despercebida, mesmo que tivesse, tal como a dos nomes citados, uma qualidade diferenciada. Outro fator que certamente contribuiu para o relativo esquecimento de sua obra foi seu temperamento difícil e rigoroso, o que fazia com que ele não tivesse muito trânsito no meio, redundando em dificuldades para realizar seus projetos. Um exemplo disso foi o aclamado “O Jardim dos Finzi-Contini” (Il Giardino dei Finzi-Contini, 1970), um projeto inicialmente de Zurlini, mas que ele acabou passando para Vittorio De Sica, exatamente porque o primeiro não estava encontrando meios de filmá-lo. Tal circunstância também se deveu, consideravelmente, à crítica italiana, a qual não recebia com os devidos méritos os trabalhos de diretor, talvez por estar influenciada excessivamente pela Nouvelle Vague e seus conceitos de ruptura, algo que não era a proposta do cinema de Zurlini. Essa baixa recepção da crítica fazia com que os produtores italianos não se interessassem pelos seus projetos e a verdade é que nos seis últimos anos de vida ele não conseguiu rodar um filme sequer. Mas há um aspecto na obra deste cineasta que talvez tenha passado desapercebido dos críticos de então e que era sua principal comunhão com a Nouvelle Vague. Zurlini foi, antes de tudo, um autor. Seus longas estão impregnados de marcas pessoais, detentores inclusive de passagens de teor autobiográfico, como é o caso de “A Moça Com A Valise” (La Ragazza Con La Valigia), seu longa de 1961 protagonizado por uma Claudia Cardinale no auge da beleza, além do jovem Jacques Perrin.

Vendo hoje esta obra peculiar, é inevitável perceber o quanto os críticos podem ser dotados de uma acentuada miopia. “La Ragazza Con La Valigia” é um filme de extrema sensibilidade e sutilezas, com uma construção apurada dos personagens que temos o prazer de ir descobrindo ao longo de suas duas horas de projeção. Na trama, conhecemos, logo na primeira sequência, a cantora de restaurantes e cabarés Aída Zepponi (Cardinale), uma mulher extremamente bela mas, até certo ponto, ingênua, sendo engada pelo playboy Marcelo Fainardi que a abandona em uma oficina de beira de estrada. Contudo, o local é próximo da cidade onde vivem os Fainardi e Aída consegue chegar à mansão destes. Lá, ela conhece Lorenzo (Perrin), um adolescente de 16 anos que irá enxergar nela sua primeira paixão. A tentativa de viver esse sentimento será para ele um rito de passagem, já que com o amor virão as inevitáveis desilusões e o consequente amadurecimento.


Esta temática da chegada da maturidade já havia sido abordada por Zurlini em seu longa anterior, “Verão Violento” (Estate Violenta, 1959), onde um jovem também se apaixona por uma mulher mais velha, mas é aqui que ele encontra a forma perfeita de externar as inquietudes, aspirações e intensidade desta fase da vida. Ademais, a construção da persona de Aída é algo que chega mesmo ao brilhantismo. Apesar de, em alguns momentos, podermos perceber que ela pode estar usando o jovem Lorenzo em benefício próprio, o diretor jamais induz o espectador a julgamentos fáceis, pois que também é perceptível que Aída é, antes de tudo, uma sobrevivente, uma mulher que não consegue escapar de uma prostituição velada diante das imposições e submissões de uma sociedade machista. Um comentário de caráter social bem de acordo com as posições políticas do diretor, membro do Partido Comunista italiano (como era, em geral, a maioria dos diretores da Itália). É interessante observar que todos os homens da narrativa enxergam em Aída apenas um corpo, uma fonte de prazer. Lorenzo é o único que escapa desta visão e que consegue enxergar na cantora um ser humano, uma mulher com seus sonhos, personalidade, necessidades e fraquezas. Ela percebe que Lorenzo é diferente dos outros e por isso não consegue se desligar dele, muito embora seu sentimento pelo garoto seja ambíguo, não exatamente carnal. Trata-se de um quase platonismo recíproco.

Realçando a profundidade e beleza da narrativa, temos uma força imagética peculiar. Zurlini filmava como poucos, sabendo encontrar sempre o melhor ângulo para cada sequência, valorizando tanto a beleza da atriz como a expressividade de Perrin. Algumas de suas composições cênicas são mesmo primorosas, como a memorável cena em que Aída desce a escadaria da sala dos Fainardi ao som da ópera homônima colocada na radiola por Lorenzo, resultando em um momento visual simplesmente inesquecível. Aliás, a utilização de uma trilha sonora que vai da ópera à música pop italiana é um dos pontos altos do trabalho de Zurlini, sabendo adequar à perfeição canção e imagem, como na sequência linda e também memorável em que Lorenzo, corroído de ciúmes, assiste a Aída dançar com um indivíduo boçal enquanto ele fica de lado. Este tipo de associação entre música e imagem seria mais tarde usado por muitos diretores, de Martin Scorsese a Quentin Tarantino. Adicione-se a isso a belíssima fotografia em preto e branco de Tino Santoni e temos um filme que se coloca como uma coleção de imagens realmente difícil de ser imitada.


Valorizando ainda mais o longa, temos a ótima atuação de Jacques Perrin e a grande presença da diva Claudia Cardinale. Ela ainda não havia se firmado como uma estrela na época e foi por força do produtor (que depois seria também seu marido) Franco Cristaldi que ela acabou ganhando o papel no filme. O problema de Claudia até então, o que possivelmente contribuía para ela não se firmar, era a sua voz um tanto rouca, fazendo com que ela fosse dublada (uma estratégia meio cretina dos estúdios naqueles tempos) e aqui não foi diferente (o primeiro filme em que se usou a sua verdadeira voz foi o “8 ½” de Fellini). Destarte, a despeito deste problema, sua presença em cena é fantástica, não apenas pela beleza, mas também pelo ar ao mesmo tempo sedutor e desprotegido que consegue atribuir a Aída. Personagem e intérprete, inclusive, tinham algo importante em comum, [SPOILER] já que Cardinale, tal como Aída, era realmente uma mãe solteira, fato que escondeu durante anos com medo da reação do público e da Igreja Católica. Em aparições públicas, seu filho era tomado como “irmão mais novo”, sendo que somente quando ele já tinha 19 anos o segredo foi revelado (o que não causou maiores comoções) [FIM DE SPOILER].

“La Ragazza Con La Valigia” se constitui, desta forma, em uma ótima iniciação na obra deste brilhante cineasta chamado Valerio Zurlini, um nome digno do auge do cinema italiano, quando os longas de Visconti, Fellini ou Antonioni lotavam os cinemas, inclusive os brasileiros (sim, esse tempo já existiu). Se Lorenzo tem na película a sua iniciação amorosa, o espectador pode ter nela o princípio de um caso de amor com a obra de um diretor que pode ser colocado entre os grandes mestres do cinema da Itália. Um artista singular que filmou pouco (além de suas dificuldades para realizar projetos, Zurlini morreu cedo, com 56 anos), mas foi o suficiente para ser definido como o “poeta da melancolia”.


Cotação:

Nota: 10,0

sexta-feira, 2 de março de 2012

Heleno - Trailer


Como bom torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas, eu não poderia deixar passar desapercebida a estreia que se aproxima do filme sobre um dos grandes jogadores da história do clube. Heleno de Freitas, além de um Craque (assim mesmo, com "C" maiúsculo), foi uma das personalidades mais marcantes do Rio de Janeiro dos anos 40. Ele foi um dos primeiros jogadores a se tonar um popstar, não apenas por seu talento futebolístico, mas também pelo lado sedutor e temperamental que lhe valeu o apelido de "Gilda", em alusão à famosa personagem encarnada pela diva Rita Hayworth nas telas no filme homônimo. Na adaptação dirigida por José Henrique Fonseca, o craque-problema será interpretado por Rodrigo Santoro e o elenco conta ainda com Alline Moraes, Othon Bastos e Herson Capri. Veja o trailer abaixo. Obviamente, não vou deixar de conferir a estreia no próximo dia 30 de março.