
Alguém já disse que um cineasta sempre está fazendo o mesmo filme (não lembro bem ao certo quem é o autor da máxima, para ser sincero). Há uma certa verdade nessa frase e, no caso de Alexander Payne, diretor deste “Os Descendentes”, ela parece cair como uma luva. Afinal, ao longo de sua carreira, ele mostra ter uma especial predileção por protagonistas que precisam acertar contas com o passado, normalmente marcado por desentendimentos familiares e que a partir de algum fato relevante - uma espécie de “hégira” em suas existências - passam a ter uma perspectiva diferente sobre a vida. Foi assim com o personagem de Jack Nicholson em “As Confissões de Schmidt” (About Schmidt, 2002), onde ele interpreta um sexagenário recém-aposentado e que acaba de perder a esposa de maneira repentina, partindo então para uma viagem ao Nebraska para ajudar no casamento da filha. Procurando colar os retalhos do passado, passa então por uma jornada de autodescoberta.
É quase o mesmo que sucede com Matt King, o personagem vivido pelo astro “cool” George Clooney neste novo trabalho do diretor. No roteiro escrito pelo próprio Payne ao lado de Nat Faxon e Jim Rash (adaptado do livro de Kaui Hart Hemmings), ele também enfrenta situação semelhante ao ver sua esposa entrar em coma após um acidente no mar e posteriormente ser informado pelos médicos que seu estado é irreversível. Pai ausente durante anos, terá de se reinventar para se aproximar das filhas, a ainda criança Scottie (Amara Miller) e a adolescente Alexandra (Shailene Woodley), buscando unir a família para enfrentar este momento difícil. É quando ele descobre algo importante sobre a esposa que lhe trará enorme ressentimento. Além disso, Matt é o representante legal do espólio da realeza havaiana, da qual é um dos descendentes (daí o título da produção), sendo herdeiro, juntamente com uma grande quantidade de primos, de uma vasta porção de terras. Assim, mesmo que só através destas sinopses, vê-se que os dois longas-metragens possuem muito em comum. A diferença entre os dois reside no acabamento. Enquanto o longa de 2002 se mostra bastante oscilante em sua qualidade ao longo de seus 124 minutos, “Os Descendentes” é um filme coeso, mais sólido, que flui perfeitamente sem altos e baixos. O drama, que certamente possuiria um tom pesado e mãos erradas, assume com Payne um tom mais leve, sendo possível até mesmo classificá-lo como uma “dramédia”. Apesar dos momentos difíceis enfrentados por seus personagens, várias são a situações que nos fazem rir. Por sinal, assim como a vida, que não nos reserva situações exclusivas de drama ou comédia para cada uma de suas fases. O cineasta conduz a trama com tanta sutileza que em certos momentos chegamos àquela ótima sensação de esquecer que estamos vendo um filme, tanto por ele fazer questão de ser um diretor “ausente” da narrativa, sem firulas técnicas, quanto pelo envolvimento que o longa consegue obter.

Um dos fatores que contribuem sobremaneira para o apontado clima ameno da narrativa é o fato dela ser ambientada no Havaí, um estado norte-americano estranhamente pouco visto no cinema. Mesmo que logo no início a narração em off do protagonista nos alerte que os habitantes do arquipélago não vivam em eternas férias, como muita gente supõe, tendo os problemas do dia a dia como todo mundo (aliás, como o filme bem demonstra), não se pode negar que as imagens e o clima praiano da região, assim como os costumes de seus moradores, que usam camisas havaianas até em ambientes de trabalho, ajudam a tirar o peso das situações vistas na tela. Até mesmo a trilha sonora possui vibrações havaianas, como que para estabelecer o contraste entre o ambiente paradisíaco e o caos vivido por Matt e sua família. Opções felizes que ajudam bastante o filme a não cair no melodrama barato.
Outro fator que presta uma sensível ajuda para tornar “The Descendants” uma obra acima da média é o elenco afiado e afinado. A jovem Shailene Woodley se mostra como uma atriz extremamente promissora, tamanha a desenvoltura com que age na frente das câmeras. Só pela cena em que ela mergulha na piscina para chorar após saber do pai que sua mãe irá morrer ela já mereceria uma indicação ao Oscar, algo que infelizmente não aconteceu. E impressiona a química estabelecida entre ela e Clooney, os quais nos fazem esquecer de que não são pai e filha fora das telas. Este último, por seu turno, nos entrega aquela que pode ser considerada a melhor atuação de sua carreira, superando em muito o seu bom, mas não excepcional, trabalho em “Amor Sem Escalas” (Up In The Air, 2009), muito embora os dois papeis possuam semelhanças, pois que em ambos os casos seus personagens precisam ajustar contas familiares após uma vida de workaholic. A sequência em que Matt corre de sandálias pela vizinhança, destinada a se tornar clássica, já valeria ao menos uma indicação ao prêmio da Academia, e não será exagero se ele vier a de fato levar o Oscar.Anteriormente, mencionei que a diferença básica entre os filmes protagonizados por Nicholson e Clooney era o seu acabamento. Em parte, é verdade, pois ambos têm uma trama semelhante em vários aspectos, o que talvez leve o espetador a momentos “déjà vu” durante a projeção. Contudo, seria injusto dizer que “Os Descendentes” é um filme superior apenas por ser mais bem dirigido. Muito embora os dois longas possuam um desfecho impecável (o que já parece ser um especialidade de Payne), o filme de 2011 consegue ser mais abrangente, abordando praticamente todos os temas que constituem o cotidiano de qualquer indivíduo. Estão lá analisadas não apenas a relação entre marido e mulher ou entre pais e filhos, mas também sua relação com a família na qual nasceu, seus problemas profissionais e patrimoniais e até mesmo sua interação com a comunidade na qual está inserido. Uma crônica do dia a dia, repleta dos encontros, despedidas, sorrisos e lágrimas que a vida tem a oferecer.
Cotação:

Nota: 9,0













































