terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Homem Que Mudou o Jogo



Sobre um “perdedor”


Os Estados Unidos são um país muito peculiar no que diz respeito a esportes. Se o nosso futebol (que eles chamam de “soccer”) é a mais popular modalidade desportiva em 90% do planeta, lá a disputa de popularidade fica entre o futebol americano (football, para eles), o basquete e o beisebol. Excluindo-se o basquete, que também é um jogo bastante popular no Brasil, os demais muitas vezes funcionam como verdadeiros enigmas para nossas mentes acostumadas com o esporte bretão. Esta peculiaridade norte-americana faz com que filmes hollywoodianos que tenham como foco estes jogos “estranhos” terminem por ter uma sintomática rejeição do público brasileiro, o qual acaba “voando” quando o roteiro de tais longas adentram na linguagem específica de cada um deles. Um exemplo recente foi o de “Um Sonho Possível” (The Blind Side), filme que só teve mais apelo em nossas bilheterias devido à premiação da popular Sandra Bullock com o Oscar de melhor atriz. Entretanto, isso não significa que tais filmes sejam ruins. Vários deles são de boa qualidade, necessitando apenas de boa vontade para superar os eventuais obstáculos que surjam para a devida apreciação da trama.

Um filme que deve seguir o mesmo caminho de “Um Sonho Possível” por aqui é este “O Homem Que Mudou o Jogo”, dirigido por Bennett Miller e protagonizado pelo astro Brad Pitt (que também foi seu produtor). A indicação de Pitt ao Oscar de melhor ator por este trabalho é iminente e muitos consideram provável que chegou a sua vez de ser premiado (talvez agora eles estejam em dúvida, já que o ator perdeu o Globo de Ouro) E há ainda uma vantagem deste sobre o filme protagonizado por Bullock: é um longa superior em qualidade, apresentando um protagonista bem mais tridimensional e que, no fundo, termina se revelando o que mais os ianques detestam ser, ou seja, um “perdedor”, termo que lá possui uma acepção bastante pejorativa.

Roteirizado por Steve Zaillian e Aaron Sorkin (este foi o vencedor do Oscar em 2011 por “A Rede Social”), baseados no livro "Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game", de Michael Lewis, a trama nos mostra a história real de Billy Beane, o gerente do Oakland Athletics, time de beisebol que está mal das pernas. Além de ir mal na última temporada, o time acabou de perder seu melhor jogador, situação que deixa a diretoria do Oakland, principalmente Beane, contra a parede. É necessário fazer algo urgente para que não se tenha mais um ano de fracassos e as alternativas não são boas diante do escasso orçamento. Em visita a um clube rival para negociação de jogadores, Beane encontra um jovem economista (Jonah Hill, com ótima presença), recém-saído de Yale, que possui ideias inovadoras para a formação de um boa equipe. Através de dados estatísticos, ele defende que não é necessário formar um time com os atletas mais caros para ser campeão. É possível vencer contando apenas com jogadores tidos como medianos, os quais podem ter ótimo rendimento e foram deixados de lado devido a contusões ou idade já considerada avançada. É com este time “barato” que Beane tentará tirar o Oakland das últimas posições e levá-lo à disputa do campeonato.


Para os que acompanham esportes, qualquer deles, será um prato cheio observar como funcionam os seus bastidores. Estão lá as brigas internas, disputas de poder entre os dirigentes e entre estes e os técnicos, além de uma clara exposição de como é árduo o caminho para tentar mudar um sistema já arraigado. Beane tem de enfrentar a descrença dos colegas, da mídia (principalmente diante dos primeiros maus resultados) e a falta de profissionalismo de uma parte dos jogadores. Afinal, alguns deles estão escanteados pelo mercado porque não mantêm o foco na profissão ou são mesmo ruins tecnicamente. Destarte, o que torna “Moneyball” um filme além do meramente mediano é justamente ir além destas questões tão somente esportivas. O foco atribuído pelo diretor Bennet é o homem Billy Beane. Antes de ser gerente esportivo, ele é um ex-jogador frustrado por não ter obtido o sucesso esperado na carreira. Seu sentimento de derrota é ainda maior porque ele deixou de lado uma bolsa na universidade de Stanford para seguir como jogador profissional de imediato. Assim, sua investida no Oakland parece a última chance de obter algum sucesso na vida. Ademais, o longa é feliz em fugir de uma fácil armadilha e não atribuir a Billy um comportamento irretocável. Ansioso por vitórias, ele não hesita em demitir alguns atletas esforçados, mas que não vêm obtendo bom rendimento, mostrando uma faceta cruel do meio desportivo.


Alicerçando a força do personagem está a realmente ótima atuação de Brad Pitt, inegavelmente em um dos melhores momentos de sua carreira, fazendo jus ao menos a uma indicação ao Oscar. Contido e sem arroubos, seu Billy soa inteiramente humano, assim como Jonah Hill, simplesmente roubando a cena em algumas passagens. Não é à toa que ele também está cotadíssimo para uma indicação ao prêmio da Academia, já contando também com uma indicação para o Sindicato de Atores de Hollywood (assim como Pitt). Já Phillip Seymour Hoffman não tem muito a fazer como o técnico que desafia as determinações de Billy no comando do time. Outro aspecto que possui força é a trilha sonora (de Mychael Danna), mas é mesmo importante frisar como o diretor Miller jamais deixa o ritmo cair, sabendo envolver os espectador em uma trama que a princípio poderia parecer hermética e chata.

Mesmo que apele em certas passagens para situações clichê (como lançar a ideia de que Billy faz o que faz para não parecer um derrotado diante da filha), “Moneyball” se sustenta como um drama que vai além de um mero passatempo. A despeito de um teor que à primeira vista se mostra fortemente estadunidense, suas questões vão se mostrando, ao longo da projeção, como universais, possibilitando que qualquer espectador possa se identificar com as situações abordadas. “O Homem Que Mudou O Jogo” não irá mudar sua vida (com perdão do trocadilho), mas surge como uma obra lúcida sobre as superficialidades de uma sociedade que insiste em querer dividir seus integrantes entre “vencedores” e “perdedores”.


Cotação:

Nota: 8,5

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Globo de Ouro: O mais chapa branca de todos os prêmios


Não existe prêmio mais chapa branca que o Globo de Ouro. Os integrantes da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood parecem sempre querer agradar a todos, esforçando-se ao máximo para não deixar ninguém sair de mãos abanando da premiação. Isso ficou nítido ontem, na entrega de sua 69ª edição. Seguem os comentários em pílulas.

1) Eles deram o prêmio de melhor filme em drama para “Os Descendentes” e o de melhor filme em comédia/musical para “O Artista”. Por outro lado, deram a Martin Scorsese, por “A Invenção de Hugo Cabret”, o prêmio de melhor diretor e a Woody Allen, por “Meia-Noite em Paris”, o de melhor roteiro (Allen não foi receber, como de hábito). Ou seja, quiseram deixar todo mundo contente;

2) Dar a Scorsese o prêmio de diretor me pareceu uma saída bastante salomônica: ninguém iria contestar;


3) Também ninguém iria contestar o prêmio de roteiro para “Meia-Noite em Paris”;

4) Inventaram que Michelle Williams tinha trabalhado em uma comédia para poder premiá-la. O próprio Seth Rogen, que anunciou o prêmio, registrou que o filme não era exatamente isso;

5) Isso se deve ao fato de que o prêmio de melhor atriz em drama não poderia deixar de ir para Meryl Streep;



6) Falando em Seth Rogen, uma de suas piadas foi melhor do que todas as que Rick Gervais proferiu;

7) Os melhores momentos da noite ficaram por conta dos atores negros. Octavia Spencer foi muito aplaudida pelo Globo de melhor atriz coadjuvante. Mas o mais emocionante mesmo foi ver Sidney Poitieir, uma lenda viva, entregando o prêmio pela carreira a Morgan Freeman. Sensacional!

8) George Clooney é realmente um queridinho da Associação. Basta um filme tê-lo no elenco para concorrer a alguma coisa;

9) Falando nisso, eu achava que o Brad Pitt ia levar o prêmio de melhor ator em drama;


10) Jean Dujardin, vencedor como melhor ator em comédia por “O Artista”, tem um jeitão meio esquisito;

11) Os Weinstein promovem até bombas como o filme de Madonna;

12) O único prêmio relativo à televisão que me lembro é o de Kate Winslet como melhor atriz em filme ou minissérie para TV. Não me perguntem os outros;

Só terminando: ninguém iria contestar também um prêmio dado a um ator querido como Christopher Plummer (melhor ator coadjuvante). É ou não é um prêmio chapa branca? Segue abaixo a lista dos premiados.

Melhor filme - drama: "Os Descendentes"
Melhor filme - comédia ou musical: "The Artist"
Melhor diretor: Martin Scorsese, "A Invenção de Hugo Cabret"
Melhor ator - drama: George Clooney, "Os Descendentes"
Melhor atriz - drama: Meryl Streep, "A Dama de Ferro"
Melhor ator - comédia ou musical: Jean Dujardin, "The Artist"
Melhor atriz - comédia ou musical: Michelle Williams, "Sete Dias com Marilyn"
Melhor ator coadjuvante: Christopher Plummer, "Toda Forma de Amor"
Melhor atriz coadjuvante: Octavia Spencer, "Histórias Cruzadas"
Melhor roteiro: "Meia-Noite em Paris"
Melhor animação: "As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne"
Melhor canção original: "Masterpiece", de "W.E.- O Romance do Século"
Melhor trilha sonora: "The Artist"
Melhor filme em língua estrangeira: "A Separação" (Irã)

domingo, 15 de janeiro de 2012

A lista de Tarantino


Quentin Tarantino divulgou, por meio de seu site "Tarantino Archives", a sua lista com os melhores e piores de 2011. Pela seleção, já dá para dizer que seu voto no Oscar será para "Meia-Noite em Paris" como melhor filme. Não deixa de ser curioso ver as preferências e antipatias de um dos grandes diretores do cinema contemporâneo. Segue abaixo.

Os Melhores de 2011

1. Meia-Noite em Paris (Midnight In Paris)
2. Planeta dos Macacos: A Origem (Rise Of The Planet Of The Apes)
3. O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball)
4. A Pele Que Habito (La Piel Que Habito)
5. X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class)
6. Jovens Adultos (Young Adult)
7. Ataque ao Prédio (Attack The Block)
8. Red State
9. Warrior
10.The Artist / Nosso Irmão Sem Noção(Our Idiot Brother) - Empatados
11. Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers).

Outros filmes citados por Tarantino, sem ordem de preferência:

50%
Beginners
A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)
A Dama de Ferro (The Iron Lady)
Carnage
Besouro Verde (Green Hornet)
Lanterna Verde (Green Lantern)
Capitão América (Captain America)
Os Descendentes (The Descendants)
Sete Dias com Marilyn (My Week With Marilyn)
Velozes e Furiosos 5 (Fast Five)
A Árvore da Vida (The Tree Of Life)
Se Beber, Não Case - Parte II (The Hangover Part II)
Missão: Impossível 4 (Mission Impossible 4)
Um Novo Despertar (The Beaver)
Contágio (Contagion)
The Sitter
Cavalo de Guerra(War Horse)

Prêmio Valeu a Tentativa:

Drive
Hanna
Drive Angry
Gigantes de Aço (Real Steel)

Melhor Diretor

Pedro Almodovar
Bennett Miller
Woody Allen
Jason Reitman
Michel Hazanavicius

Melhor Roteiro Original

Meia-Noite em Paris
Jovens Adultos
Red State
Ataque ao Prédio
Nosso Irmão Sem Noção
Beginners

Melhor Roteiro Adaptado

O Homem que Mudou o Jogo
A Pele Que Habito
Carnage
Planeta dos Macacos: A Origem
Hugo Cabret
X-Men: Primeira Classe

Piores Filmes

Sucker Punch
Potiche (Esposa Troféu)
Miral
Sobrenatural (Insidious)
Rampart
Sob o Domínio do Mal (Straw Dogs)
Atividade Paranormal 3 (Paranormal Activity 3)
Meek’s Cutoff

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quero Ver Novamente #15


"Perfume de Mulher" (Scent of A Woman, 1992) não é um filme perfeito. Pra começar, trata-se de um remake de um longa italiano de 1974 protagonizado por Vitorio Gassman. Ele tem lá seus momentos piegas, principalmente em seu desfecho, quando o personagem de Frank Slade (Al Pacino) faz um discurso em defesa do estudante Charlie Simms (Chris O'Donnell, sumidaço!). Mas não se pode negar que Slade, um militar reformado e cego, é um dos grandes momentos da carreira de Al Pacino. Não foi por acaso que o personagem lhe rendeu o merecido e aguardado Oscar. É impossível não assistir à cena abaixo, quando ele dança "Por Una Cabeza" (música de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera) com uma mulher que acaba de conhecer em um restaurante e não sentir vontade de sair por aí tentando imitar seus passos. Uma cena que merece mesmo o adjetivo de antológica. Sempre um prazer rever.


Scent Of A Woman from Ando on Vimeo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Restaurando a Película




Neste Mundo e No Outro
(A Matter Of Life And Death, 1946)


De Wim Wenders ao Led Zeppelin


É possível que “Neste Mundo e No Outro” (A Matter Of Life And Death), filme da famosa dupla de cineastas Michael Powell e Emeric Pressburger, seja uma das mais excêntricas produções de todos os tempos. Tivesse sido realizado na década de 60, diria que era um fruto de viagens lisérgicas de seus mentores, pois que algumas de suas concepções visuais, como uma longa escadaria para o céu, parecem tão abstratas e, ao mesmo tempo, lúdicas e inteligentes que acabam guardando mais relação com uma animação como “Yellow Submarine”, dos Beatles, do que com a grande maioria das películas dos anos 40, ainda mais ao lembrarmos do seu poderoso Technicolor. Não acredito que seja por acaso que o Led Zeppelin tomou emprestado o título norte-americano do longa (1), “Stairway To Heaven”, para batizar uma de suas mais famosas canções.

Contudo, há um parentesco próximo entre a produção britânica e uma outra estadunidense, o clássico absoluto “A Felicidade Não Se Compra” (It's A Wonderful Life). Ambos tratam da nossa efemeridade terrena e de como devemos aproveitar da melhor forma o tempo em que estamos aqui, passeando por concepções do além-vida que atribuem a este interferência direta nas ações e realidades humanas. As semelhanças se tornam ainda mais assombrosas quando observamos que tanto o filme da dupla Powell/Pressburger quanto o do mestre Frank Capra foram lançados comercialmente no mesmo ano, 1946, sendo, portanto, possível afirmar que não houve influência de um sobre o outro. Por outro lado, se na estória do George Bailey de James Stewart o foco da narrativa se concentra na tradução de um otimismo que se fazia importante naquele momento de pós-guerra, em “Neste Mundo e No Outro” existe um subtexto político que acaba turvando o seu lado mais humano. Tal vertente se deve em boa parte ao fato de que o longa foi engendrado como uma espécie de peça de propaganda política em defesa das boas relações entre EUA e Inglaterra, as quais andaram meio estremecidas após o fim do conflito mundial. A verdade é que esse teor sociopolítico acaba por diminuir o apelo emotivo que a narrativa poderia apresentar e chega a tornar aborrecido o seu terço final.


Na trama, Peter Carter (David Niven) é um oficial da Força Aérea Britânica que tem o seu avião avariado e, antes de sua queda, estabelece contato via rádio com a controladora de voo June (Kim Hunter). Mesmo que tenham conversado pouco tempo, os dois acabam estabelecendo uma imediata e forte conexão. Peter, estranhamente, mesmo tendo saltado da aeronave sem paraquedas, acaba sobrevivendo e encontrando June. Os dois se apaixonam, mas, no Paraíso, descobre-se que a sua sobrevivência se deveu a um erro burocrático do Condutor 71 (Marius Goring), sendo este então incumbido de retificar a falha e levar Peter para o lugar onde deveria estar. Entretanto, diante de sua paixão, este se recusa terminantemente e apela para um tribunal celestial para que possa ter uma segunda chance e permanecer na Terra. É relevante frisar que, para o entendimento correto do enredo, faz-se necessário observar a frase que surge na tela logo após os créditos iniciais: “esta é a estória de dois mundos, um que conhecemos e outro que existe apenas na mente de um jovem aviador cuja vida e imaginação têm sido violentamente moldadas pela guerra.” Ou seja, ocorre a sugestão de que a trama celestial na tela é a representação que a imaginação de Peter faz do momento de vida ou morte pelo qual está passando, já que terá de se submeter a uma neurocirurgia para continuar vivendo.

As linhas divisórias entre fantasia e realidade, todavia, jamais ficam definidas e nós mesmos, ao longo da narrativa, sentimos dúvidas se o que está se passando é verídico ou imaginário. Um grande mérito do roteiro, em sua maior parte extremamente inventivo e bem escrito, embora o romance quase instantâneo dos casal protagonista pareça pouco verossímil, principalmente diante dos tempos cínicos de hoje. Não se pode negar, no entanto, que o filme funciona muito bem como uma comédia romântica atípica e também como uma fábula a respeito da impotência humana diante do acaso e da morte. A direção de Powell, ademais, é fabulosa, inovadora em diversos aspectos, tanto que, nos primeiros minutos, nem lembramos que estamos assistindo a um filme da década de 40, tamanhos o apuro da fotografia e direção de arte. Algumas de suas ideias, como o uso do Technicolor nas cenas do mundo terreno e do preto e branco para caracterizar o plano etéreo, seriam uma grande influência até para cineastas como Wim Wenders, na sua fotografia para “Asas do Desejo” (Der Himmel Über Berlin, 1987). O uso de imagens “congeladas” também dá um ar de frescor à película, surgindo aqui, curiosamente, como mais um ponto em comum com o supracitado longa-metragem de Frank Capra.


Mas é mesmo quando parte para o lado de “filme de tribunal” que a dupla de cineastas anglo-húngara perdeu a mão, querendo realizar uma espécie de ensaio sobre as velhas rusgas entre a colônia americana e a metrópole inglesa, algo que pode ter soado relevante para o seu o tempo, mas que hoje, como já frisado mais acima, possui um certo sabor anacrônico, tornando as sequências do julgamento um tanto cansativas. Alguns podem fazer a defesa de que temas como a xenofobia, ainda perfeitamente atuais, possuem seu espaço no texto. É verdade, mas a inclusão destes temas de forma tão verborrágica não foi uma ideia feliz dos diretores-roteiristas, pois que o recurso acaba tirando muito da força dramática do desfecho. Além disso, procurar criticar xenofobia apelando para estereótipos, como o do Condutor 71, mostrado como um francês afetado, é no mínimo um grande equívoco. Outro problema é o elenco. David Niven sempre foi um canastrão e Kim Hunter também nunca foi lá muito convincente como estrela de uma produção, o que acaba enfraquecendo o apelo do casal junto ao público (neste aspecto, termina perdendo feio para James Stewart e Donna Reed, brilhantes em “It,s A Wonderful Life”).

Destarte, apesar destes percalços, “Neste Mundo e No Outro” demonstra boa parte do talento de Powell & Pressburger (os quais estão entre os cineastas preferidos de Martin Scorsese, por exemplo), autores inovadores que ajudaram muito o cinema britânico a alcançar um lugar de destaque na produção mundial, já que até então este não possuía o apelo popular de Hollywood e nem tinha reconhecido o apuro artístico do cinema europeu continental (mormente o francês e o alemão). O longa foi bem-sucedido nas bilheterias e pavimentou caminho para sucessos ainda maiores que viriam em seguida, como “Os Sapatinhos Vermelhos” (The Red Shoes, 1948) e “Narciso Negro” (Black Narcissus, 1947). Mesmo não constituindo uma obra-prima como estes, “A Matter Of Life And Death” é uma película que merece ser conhecida pelos cinéfilos de hoje, tanto por ser uma fantasia peculiar, como por seus aspectos imagéticos inventivos e atemporais. O Led Zeppelin que o diga.


Cotação:

Nota: 8,5


(1) O filme ganhou esse título nos EUA por pressão dos executivos norte-americanos. Eles achavam que a palavra “death” do título original faria o filme naufragar nas bilheterias por lá.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Termômetros do Oscar


Esta semana, tivemos a divulgação dos indicados de dois prêmios que são importantíssimos termômetros para o Oscar. O Sindicato do Produtores de Hollywood (Producers Guild Of America) divulgou sua lista e, quase inevitavelmente, serão estes os indicados ao Oscar de melhor filme, documentário e animação. Embora seja possível, dificilmente haverá alguma alteração. Veja a lista abaixo. Os vencedores serão anunciados dia 21 deste mês.

Melhor filme

The Artist
Missão Madrinha de Casamento (hein????)
Os Descendentes
Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Histórias Cruzadas
Hugo
Tudo pelo Poder
Meia-Noite em Paris
Moneyball - O Homem que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra


Melhor longa animado

As Aventuras de Tintim
Carros 2
Kung Fu Panda 2
Gato de Botas
Rango

Melhor documentário

Beats, Rhymes & Life: The Travels of A Tribe Called Quest
Bill Cunningham New York
Project Nim
Senna (Que legal o "Senna" aqui!)
The Union


E também tivemos a lista de indicados para os prêmios de melhor roteiro (original e adaptado) pelo Sindicato dos Roteiristas (Writers Guild). Neste caso, talvez o termômetro não seja tão bom, pois há diferenças nos critérios do Sindicato e da Academia de Hollywood. Mas não deixa de ser um indicador importante. Observe que na categoria de roteiro original, há uma predominância de comédia (tomara que dê Woody Allen!). Veja a lista.

Melhor Roteiro Original

50% (de Will Reiser)
Missão Madrinha de Casamento (de Annie Mumolo e Kristen Wiig)
Meia Noite em Paris (de Woody Allen)
Ganhar ou Ganhar: A Vida é um Jogo (de Tom McCarthy e Joe Tiboni)
Jovens Adultos (de Diablo Cody)

Melhor Roteiro Adaptado

Os Descendentes (de Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash)
Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (de Steven Zaillian)
Histórias Cruzadas (de Tate Taylor)
A Invenção de Hugo Cabret (de John Logan)
O Homem que Mudou o Jogo (de Steven Zaillian e Aaron Sorkin).



Por último, gostaria de deixar registrada uma revolta da minha parte. Quem acompanha o blog há tempos, sabe do meu inconformismo com os exibidores de Natal, sempre propensos a deixar o lixo comercial tomar conta das salas. Pois bem, esta semana eles se superaram. "Cavalo de Guerra", um dos possíveis indicados ao Oscar, não terá sua estreia em Natal neste fim de semana. Às vezes, até dá para entender que um filme como "A Árvore da Vida" não tenha sido exibido por cá, mas o que dizer de um filme Steven Spielberg, o diretor mais famoso do mundo? Enquanto isso, "Alvin e Os Esquilos 3" está lá com suas salas reservadíssimas. Literalmente, essa foi dose pra cavalo...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Johnny Guitar
(Idem, 1954)


O Oeste das mulheres


Não se engane com o título deste longa-metragem de 1954 dirigido por Nicholas Ray, hoje um dos mais cultuados cineastas da Hollywood dos anos 50. O filme não tem como personagem central o pistoleiro-violonista interpretado por Sterling Hayden que chega a um lugarejo esquecido por Deus em que nem mesmo existe ainda uma estação de trem. O centro da narrativa encontra-se em Vienna (a estrela Joan Crawford), ex-namorada de Johnny e agora dona de um misto de saloon e cassino quase entregue às moscas, tendo a esperança de ver os negócios melhorarem com a possível chegada da ferrovia. Para se manter estabelecida na localidade, contudo, ela tem de enfrentar a oposição de Emma Small (Mercedes McCambridge), uma fazendeira manda-chuva cheia de ódio e ressentimento porque o homem que ama, Dancin' Kid (Scott Brady), não retribui seu sentimento e é, em verdade, apaixonado por Vienna. Enquanto esta é admirada e desejada pelos homens da cidade, Emma sente-se a rejeitada e nutre desejos de vingança. Vienna então contrata o antigo amor, Johnny “Guitar” Logan, para ajudá-la a enfrentar os obstáculos que surgirão para continuar com seu empreendimento.

Vê-se, já de antemão, que esta é uma obra bastante passional, em que as ações dos personagens são norteadas por amores e ciúmes, uma espécie de western-romance-tragédia singular e talvez nunca repetido na história da Sétima Arte. Não por acaso, era um dos filmes preferidos de François Truffaut e Ray foi um dos cineastas mais amados pelos nomes da Nouvelle Vague. E não impunemente. Afinal, uma das medidas do talento e da genialidade de um artista é a capacidade que tem a sua obra de manter-se atual mesmo depois de décadas de sua confecção. No caso, “Johnny Guitar” não somente se manteve atual como também esteve mesmo à frente do seu tempo, apresentando um modelo de comportamento feminino que só iria se tornar mais comum umas três décadas depois. Tanto Vienna quanto Emma são mulheres fortes e independentes ao redor das quais giram os tipos masculinos da narrativa, os quais parecem estar ali apenas para servi-las. A diferença entre as duas está no bom coração da primeira. Ou seja, o filme não envelheceu absolutamente nada. Pelo contrário, é até mais verossímil hoje do que quando do seu lançamento. Por outro lado, além desse seu lado “feminista”, digamos assim, há um subtexto político anti-Macarthismo presente na trama, mormente por meio do personagem de Turkey (Ben Cooper) que é obrigado à delação diante de uma verdadeira caça às bruxas promovida por Emma e asseclas. Situação similar foi vivida realmente pelo ator Hayden diante do malfadado comitê de atividades anti-americanas que aterrorizava artistas e intelectuais à época.


Outro aspecto marcante da película são os seus diálogos (aliás, uma constante nas obras de Ray), que atingem os personagens e os espetadores de maneira bem mais certeira que os tiros dos rifles e revólveres. Várias são as frases antológicas do longa, como a de que “um homem precisa apenas de um bom cigarro e um copo de café” ou “depois do incêndio costumam restar somente as cinzas” (proferida por Vienna ao se reportar ao seu antigo amor por Johnny). Escrito por Philip Yordan baseado no romance de Roy Chanslor - e com a participação não creditada de Ben Maddow, que fazia parte da lista negra do FBI (reforçando a perspectiva de crítica à perseguição dos comunistas) - o roteiro realmente é ímpar e capaz de levar os espectadores a passar horas apenas apreciando o brilhante jogo de palavras (como hoje muitos costumam fazer com os filmes de Quentin Tarantino). É claro que para o texto fluir de maneira eficiente é necessário um elenco competente e é isso que se vê na tela. Nem parece que ocorreram tantos atritos nos bastidores da filmagens, uma vez que Crawford e McCambridge também não se davam bem na vida real e tal circunstância fez com que elas se evitassem ao máximo nas gravações. Pensando bem, talvez seja até por essa antipatia mútua que tenha resultado uma rivalidade tão verossímil na projeção, com as duas atrizes entregando ótimas interpretações.


Outra vertente em que Ray subverte o gênero é na utilização das cores. Normalmente, o Western privilegia as paisagens como foco da fotografia, destacando a imensidão da natureza frente à insignificância dos homens como forma de acentuar ainda mais a coragem e persistência destes (John Ford foi um mestre nesse quesito). Aqui, entretanto, Ray, usando da tecnologia denominada Trucolor (que dava mais destaque ao colorido na captação das imagens), privilegiou as cores dos figurinos, geralmente fortes e contrastantes, os quais, em boa medida, traduzem os sentimentos dos personagens. Memorável a cena em que Emma e seu grupo, todos trajando preto, invadem o saloon como abutres procurando uma presa e encontram Vienna com um vestido inteiramente branco em contraste com a parede rochosa e vermelha ao fundo. Uma cena de acabamento barroco belíssima e memorável. Além disso, Ray privilegia aqui os cenários interiores, com longas sequências se passando em ambientes fechados – logo nos primeiros momentos, inclusive, temos uma bastante extensa (mas jamais cansativa) em que somos apresentados a todos os personagens e tomamos pé das situações, em um verdadeiro show de concisão e clareza de roteiro e edição.

Realizado com orçamento limitado pelos estúdios Republic (que iriam à falência 4 anos depois), “Johnny Guitar” revela-se um dos faroestes mais atípicos já filmados, tanto na forma como no conteúdo, estando bastante à frente do seu tempo, como já salientado, o que inevitavelmente já o coloca entre os melhores representantes do gênero. Seu resultado é tão belo quanto sua canção tema, composta por Victor Young e Peggy Lee (esta também intérprete), música que põe a cereja no bolo desta obra impecável do fantástico Nicholas Ray, um diretor que hoje costuma ser muito lembrado por seu trabalho em“Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1955). Eu, particularmente, considero este western não tão famoso até superior ao drama protagonizado pelo mítico James Dean, longa que hoje me parece um pouco datado. “Johnny Guitar”, inversamente, com suas mulheres fortes e homens apaixonados, parece ter sido feito ontem.


Cotação e nota: Obra-prima.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Missão Impossível - Protocolo Fantasma


Vale o ingresso e a pipoca


Esta produção marca a migração do diretor Brad Bird, de animações como “Os Incríveis” e “Ratatouille”, para o mundo live-action e a verdade é que acabou sendo bem-sucedida, muito embora inegavelmente ainda tenha vários aspectos a melhorar. Talvez o mais importante deles seja o cuidado com o desenvolvimento do roteiro (escrito por André Nemec e Josh Appelbaum) um tanto esfarrapado, com um vilão mal trabalhado e cheio de situações forçadas para gerar sequências de ação. E aqui apontamos o ponto mais positivo do longa-metragem: estas sequências aventureiras são realmente de tirar o fôlego do espectador, compensando em muito o preço do ingresso para a sala escura.

Na trama, Ethan Hunt (Tom Cruise, também produtor e parecendo que saiu de um tanque de formol) acaba de concluir uma missão onde esteve enclausurado em um presídio russo para já engatar uma outra aventura: roubar códigos de ativação de armas nucleares escondidos a sete chaves no Kremlin para evitar que os mesmos caiam nas mão de um terrorista que pretende causar uma hecatombe nuclear. Todavia, a empreitada acaba mal para os agentes da IMF (Impossible Missions Force), a qual acaba sendo vista pelo governo americano como responsável por uma enorme explosão em Moscou (uma das cenas mais marcantes do longa, diga-se de passagem). É então que é colocado em prática o tal “protocolo fantasma” do título, desativando a força especial e desautorizando todas as suas ações, fazendo com que Ethan e seus companheiros Benji (Simon Pegg, divertidíssimo), Jane (Paula Patton) e Brandt (Jeremy Renner) tenham de agir por conta própria e com poucos recursos para tentar salvar o mundo da guerra nuclear definitiva.

Talvez a maior inovação que Bird inseriu na franquia seja o leve tom cômico que estava ausente nos outros episódios. E isso sem exageros, sabendo brincar com as próprias nuances e características da série (como a mensagem que explode depois de alguns segundos), mas sem cair no ridículo. Além disso, pegou do terceiro título a humanização dos personagens, os quais têm uma vida que vai além da espionagem. Há uma ligação muito importante entre Ethan e Brandt que diz respeito à esposa do primeiro (interpretada no terceiro filme por Michelle Monaghan) e mais não digo para não revelar demais para quem ainda não assistiu. É bom salientar ainda, nessa linha, que Bird e os roteiristas evitaram o romance fácil que poderia surgir entre Ethan e Jane, fugindo assim de um dos grandes clichês dos filmes de ação. Não se pode negar, ademais, que a química estabelecida entre os quatro integrantes do grupo foi a melhor dentre todos os episódios e acredito até que ela será repetida em futuras edições, muito embora a performance dos atores seja oscilante, principalmente Paula Patton, bastante canastrona em diversos momentos, a despeito de sua beleza. Nesse aspecto, vale dizer que Cruise faz o Ethan de sempre (mas agora com menos sorrisos colgate) e é impressionante notar como ele se mantém jovem e atlético mesmo à beira dos 50 anos, dispensando dublês na maioria das cenas de ação. Jeremy Renner tem boa presença e atuação correta, mas quem rouba mesmo a cena é o britânico Simon Pegg com o seu Benji, sempre chamando a atenção com as melhores tiradas e frases quase sempre que aparece. Por outro lado, o vilão Hendricks (Michael Nyqvist) é mesmo o grande ponto fraco da trama, com uma caracterização pífia e motivações nada convincentes (um tique negativo da maioria dos filmes de James Bond, por sinal). Ademais, como já salientado mais acima, algumas situações se mostram cheias de furos e percebemos que elas estão ali apenas para gerar sequências agitadas.

Mas estas últimas são mesmo o grande ponto alto do longa. Variando por cenários que vão de Moscou a Dubai, passando de Bombaim a Budapeste, as cenas de ação são extremamente bem dirigidas e impactantes, com edição limpa que permite que entendamos tudo que se vê na tela (Michael Bay, quando você irá aprender essa lição?), valendo destaque para as que se passam em Dubai, principalmente a escalada do edifício Burj Khalifa (o mais alto do mundo) e a tempestade de areia nas ruas da cidade (o que não deve ajudar muito no turismo dela, é bom dizer). Fico imaginando como seria vê-las em uma sala IMAX,já que a tecnologia de filmagem foi apropriada para a exibição nas telas gigantes. Com certeza, resultarão ainda mais espetaculares. Some-se a isso uma trilha sonora competente (de Michael Giacchino) que soube aproveitar muito bem o clássico tema da franquia, além de colocar músicas com nuances apropriadas para cada localidade onde o grupo se encontra.

Embora não se possa considerar este o melhor filme da série (considero o primeiro, de Brian De Palma, ainda superior) e escorregue em alguns clichês do gênero (mesmo evitando outros), "Missão Impossível - Protocolo Fantasma" não deixa muito a desejar e tem tudo para alavancar a combalida carreira do astro Cruise, bastante errática desde que teve alguns “surtos” diante das câmeras de TV. Está indo muito bem de bilheteria, tanto nos EUA quanto internacionalmente, e deverá gerar um já quase inevitável 5º episódio. Também se mostrou muito proveitoso como estreia de Brad Bird na direção de atores, deixando o conforto em que se encontrava com suas ótimas animações. Mesmo que ainda precise evoluir (e é perfeitamente natural) ele já mostrou a que veio, entregando um longa que tem tudo pare agradar o público-pipoca dos fins de semana (eu mesmo consumi um bocado de pipoca durante a sessão). Dentro da atual crise de criatividade de Hollywood, com suas cada vez mais exaustivas continuações e remakes, levar o espectador a roer as unhas e jamais se cansar diante de 2h13min de projeção já é um feito e tanto.

Cotação:

Nota: 8,0

Obs: Este é o último post de 2011. Mais uma vez aproveito para desejar um feliz ano novo para todos! Que seja um ano de muitas realizações! Até 2012!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os 7 melhores filmes de 2011

Bem, chegamos à última semana de 2011 e o Cinema Com Pimenta apresenta a sua lista (como sempre de 7 itens) com os melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro no ano. Costumamos sempre dizer que o ano foi fraco, mas acredito que tais afirmações acabam sendo revisadas no futuro. Em outras décadas, tidas como "douradas", a impressão era a mesma. O tempo é o melhor juiz para a arte. Bem, vamos à lista:




Então, é isso. Listas são inúteis, mas não há como deixar de fazê-las. Um feliz 2012 para todos vocês! Grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Curtindo o Curta #2


O conto de Charles Dickens "A Christmas Carol" já foi adaptado para a tela várias vezes, como em "Os Fantasmas de Scrooge" (2009), animação em 3D dirigida por Robert Zemeckis. No entanto, a mais antiga lembrança que tenho desta bela estória natalina se deve ao curta de animação "Um Conto de Natal do Mickey" (Mickey's Christmas Carol), realizado pelos estúdios Disney em 1983 e sempre reprisado pela Rede Globo na época em que lembramos o nascimento de Cristo (ao menos no meu tempo de criança era uma atração certa na programação de fim de ano). Nele, Ebenezer Scrooge, o velho ranzinza e mesquinho que não compreende sentimentos como amor e solidariedade, está na pele do Tio Patinhas, enquanto o seu empregado oprimido e mal tratado é vivido por Mickey. Scrooge receberá a visita de três espíritos na noite de Natal que o procurarão mudar a sua visão de mundo. Abaixo, segue o curta (que foi inclusive indicado ao Oscar como melhor curta de animação) dividido em 3 videos (são 25 minutos ao todo). Esta é a forma do "Cinema Com Pimenta" desejar um feliz Natal para todos, repleto de paz e harmonia, mesmo para aqueles que eventualmente não acreditem em Jesus Cristo. Que Deus abençoe a todos!






quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


A Estrada da Vida
(La Strada, 1954)

A flor entre as rochas


É difícil falar de um filme como “A Estrada da Vida” (La Strada, 1954), uma das mais queridas obras de um do mais amados diretores do cinema, o genial Federico Fellini. A missão é espinhosa justamente porque muito já foi dito e escrito sobre esta película. O risco de cair no lugar-comum é enorme e creio que acabarei sendo levado a isso, mas não vou me furtar mais uma vez a tentar transmitir a grande admiração que tenho por este filme simples, direto, mas ao mesmo tempo extremamente emocionante. Afinal, é difícil não se sensibilizar com a estória de solidão de Gelsomina (Giulietta Masina, esposa de Fellini) e Zampanò (um soberbo Anthony Quinn), dois artistas mambembes que levam uma vida errante, marcada pela incompreensão mútua em uma relação onde ambos se colocam nos extremos entre a doçura e a brutalidade. O filme também dá início à transição de Fellini do neo-realismo, movimento no qual despontou como roteirista, para um estilo próprio e único que faria a sua reputação mundial.

Zampanò é um tipo de saltimbanco que sobrevive desempenhando um número banal onde quebra uma corrente com a força do seu tórax (ele foi inspirado em um açougueiro brutamontes de Rimini, cidade natal do cineasta). Precisando de uma ajudante, ele compra Gelsomina de uma família miserável, cuja mãe não tem mais de onde tirar o sustento para as filhas mais novas. Porém, Gelsomina ainda é uma criança em espírito e se submete à tal humilhação, mesmo depois que Zampano demonstra todo a sua brutalidade, tratando-a muitas vezes como uma verdadeira escrava ou um objeto. E os dois seguem pelas estradas da Itália, na sua paisagem miserável do pós-guerra, até se juntarem a um circo onde o equilibrista “Il Matto” (Richard Basehart, também ótimo), desperta a atenção de Gelsomina e faz nascer um mal disfarçado ciúme em Zampanò, incapaz de admitir ou mesmo compreender os seus sentimentos para com ela. “Il Matto”, dotado de grande conhecimento da vida por trás de sua faceta de gozador, ao mesmo tempo em que encanta Gelsomina, estimulado-a a ter uma vida livre, debocha o tempo inteiro do comportamento rude e bruto de Zampanò, o que acaba levando este a atitudes que culminarão em uma tragédia que afetará a vida de todos.

É certo que há em “La Strada” muito de road-movie, tanto no aspecto formal quanto substancial. Inteiramente filmado em locações (como era típico dos filmes neo-realistas), o cenário maior do filme, como já mencionado, é a Itália pobre que ainda busca se reerguer do pesadelo da guerra. Ou seja, o longa também pode ser visto como o retrato de um país que ressurge das cinzas, onde os indivíduos tentam sobreviver da forma que conseguem. Todos os personagens do filme parecem, antes de tudo, ser artistas da sobrevivência. Essa visão ganha ainda mais força ao lembrarmos como surgiu a ideia para a realização do longa-metragem, atribuída a Tullio Pinelli (co-escritor do roteiro ao lado de Ennio Flaiano e do próprio Fellini), o qual teria visto uma casal de mambembes empurrando uma espécie de carroça ao longo de uma viagem e pensou em um enredo baseado nessa cena. Mas é óbvio que Fellini não se resumiria tão somente a pintar um painel da Itália do seu tempo. Ele aproveita a oportunidade para questionar o que levam solitários a serem solitários ou se tal circunstância vai muito além do aspecto volitivo. A frágil e terna Gelsomina é uma solitária justamente devido à sua enorme doçura, incapaz de reagir com a dureza que a vida exige em alguns momentos. Sente-se uma inútil, acreditando que Zampanò não gosta dela porque não sabe cozinhar ou fazer algo que o agrade. Este último, por sua vez, reage com tanta brutalidade diante das dificuldades que se tornou incapaz de demonstrar afeto por alguém, acabando por espantar todos à sua volta. Ou seja, A solidão para Gelsomina é uma circunstância imposta pelo mundo e em que vive, enquanto para Zampanò acaba sendo muito mais consequência de sua atitudes.

Personagens tão ricos e complexos exigiriam intérpretes à altura e o que vemos na tela é impressionante. Giulietta Masina torna simplesmente inesquecível sua personagem, mostrando-nos toda a carência da mesma, assim como sua forma particular de entender o mundo. Inspirando-se em Chaplin, ela empresta de Carlitos a sua ternura e trejeitos (mas não a sua esperteza) e é certo que Masina tomou emprestado do cinema mudo a primorosa expressão facial e corporal, dispensando palavras para traduzir os sentimentos da personagem. Sua presença cênica é tão forte e sua incorporação tão profunda que acabou por afetar sua carreira daí em diante (algo como o Jack Torrance de “O Iluminado” para a carreira de Jack Nicholson, que parece ter ficado meio sequelado depois dele, levando seus tiques para outros personagens). Da mesma forma, Anthony Quinn nos brinda com um de seus papeis mais destacados. É muito raro interpretar um tipo como Zampanò sem cair na caricatura, mas ele consegue e, apesar de sua brutalidade, conseguimos sentir pena do mesmo na famosa e triste sequência final. Já Richard Basehart nos entrega uma equilibrista saborosamente maluco, provocador e, por que não, também cheio de sabedoria. A cena em que ele explica a Gelsomina que até uma mera pedrinha tem a sua importância é simplesmente emocionante e memorável, uma peça de arte em estado puro. E, claro, além de interpretações tão marcantes ainda temos a trilha inesquecível do mestre Nino Rotta, tocada ao longo do filme por Gelsomina com seu trompete, uma das mais inspiradas da longa parceria do compositor com o diretor.

Premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, foi com “A Estrada da Vida” que Fellini adquiriu respeito internacional e, principalmente, começou a operar sua magia, transformando a dura realidade em algo poético, mas sem jamais desdenhar do sofrimento dos seus personagens. Aliás, Federico foi um dos cineastas que mais respeitaram o ser humano, tendo consciência de que o mais rude dos homens também possui uma enorme capacidade de amar. Esta, inclusive, talvez seja a perfeita tradução da narrativa em “La Strada”, a de que o amor pode nascer mesmo nos ambientes mais áridos e dentro dos corações mais duros, como uma flor que nasce entre as rochas.


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Dica de Livro


Se você deseja presentear um cinéfilo neste Natal, uma ótima pedida é o livro "Tudo Sobre Cinema", que tem como organizador o crítico e historiador de cinema Philip Kemp. Embora trate em específico de uma quantidade menor de filmes que o famoso "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer", traz como diferencial uma análise sobre os diversos movimentos e estilos que nasceram ao longo de mais de 100 anos de história do cinema, com textos sobre a Nouvelle Vague, o Expressionismo Alemão, a Nova Hollywood, cinema soviético, entre outros. Além disso, os filmes analisados contam com quadros detalhados onde são resumidas as cenas mais marcantes, além de uma ampla gama de imagens que vão deixar qualquer aficcionado babando (tem foto até dos irmãos Lumiére). Agradável e didático, contando com a qualidade gráfica sempre impecável da Editora Sextante, "Tudo Sobre Cinema" já pode ser colocado como obrigatório na estante dos amantes da Sétima Arte. Ah, e vale também para o cinéfilo que deseja se auto-presentear. No meu caso, já fui presenteado pela minha noiva. :=) Boa leitura!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Kirk Douglas: 95 anos!


É isso aí! Hoje, um dos maiores astros do cinema em todos os tempos, Kirk Douglas, está completando 95 anos de uma vida repleta de grandes sucessos cinematográficos, prolífica (participou de 95 produções ao todo) e também, como todos nós, repleta de desafios, tendo superado um derrame cerebral e até escrito um livro sobre essa sua vivência. O pai de Michael Douglas sempre foi incansável, construindo uma das mais sólidas carreiras já vistas. Protagonizou obras como "Glória Feita de Sangue" (filme que levou Stanley Kubrick a ser reconhecido como um grande diretor), "Spartacus" (quando brigou com o mesmo Kubrick, mas é um filmaço!), "A Montanha dos Sete Abutres" (de Billy Wilder) e "Assim Estava Escrito" (de Vincent Minelli). Ainda precisaria de mais?

Parabéns, vovô Kirk, firme e forte no caminho dos 100 anos!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Anjo Exterminador
(El Ángel Exterminador, 1962)


Luís Buñuel e a invenção do Big Brother



Muitos atribuem ao livro “1984”, de George Orwell, a grande inspiração para a criação do famigerado programa televisivo “Big Brother”, amado por muitos e odiado por outros tantos, e é verdade que o nome da atração foi retirada da citada obra ficcional. Entretanto, o seu formato, colocando os participantes confinados em uma casa, obrigados a conviver com outras pessoas, por vezes bastante distintas em personalidade (muito embora todas tenham em comum o fato de gostar de se expor), remete com maior propriedade a “O Anjo Exterminador” (El Ángel Exterminador, 1962), filme que constitui uma das obras máximas do cineasta espanhol Luís Buñuel, certamente o maior nome do Surrealismo cinematográfico e um dos mais ferozes críticos da classe burguesa. Afinal, neste longa-metragem extremamente original, último fruto de sua fase mexicana (iniciada após a sua saída da Espanha, com a guerra civil nos anos 30), vemos um grupo de burgueses confinados em um casarão logo após um jantar de gala, realizado a convite do proprietário. O mais curioso é que não se sabe o porquê desta imobilidade. Não há sequer uma porta trancada no imóvel e o grupo simplesmente se resigna a passar horas, dias e semanas restritos àquele ambiente, situação que os leva à animalização do comportamento, caindo todas as máscaras condicionadas pela moral burguesa.

Na realidade, talvez o porquê da situação sui generis nem seja exatamente importante. O próprio Buñuel chegou a afirmar, em uma entrevista, que o filme seria uma espécie de estudo sobre a natureza da vontade, procurando analisar o que leva uma pessoa a realizar atividades prosaicas como andar, rir ou mexer um braço. No entanto, a síntese oferecida pelo diretor esconde sua intenção de dissecar os costumes e artificialidades burguesas. Em verdade, Buñuel desfere um tiro certeiro na apatia e futilidade de uma classe ociosa e distante da realidade. Não por acaso, no desenrolar do roteiro (escrito pelo próprio diretor), os empregados da mansão sentem um desejo irrefreável e inexplicado de deixá-la imediatamente, como se soubessem que algo de muito ruim estivesse para acontecer ali. O único dentre estes que permanece é o mordomo, justamente aquele mais adaptado e inserido no modo de vida da outra classe, um tipo de “bruto domesticado”. Da mesma maneira, os únicos presentes ao jantar que são poupados do “martírio” se resumem a um idoso que vê com olhos críticos o evento e um casal de apaixonados que, apesar de tudo, se colocam acima dos demais por terem a capacidade de nutrir amor. Ou seja, Buñuel reserva sua tortura psicológica apenas àqueles contaminados pela moral burguesa.


O longa se inicia com uma espécie de apresentação dos personagens, recurso semelhante aos usados em filmes de tragédias ou aeroportos, onde são mostrados os integrantes da fauna social que vivenciará a narrativa. É nessa primeira parte que percebemos a superficialidade daquelas pessoas, como na fala marcante da personagem que diz que ficou mais consternada ao ver um príncipe morto do que diante de uma tragédia onde viu várias pessoas esmagadas por um trem, alegando para tanto que “os pobres sentem menos dor”. A anfitriã, por seu turno, possui um urso de estimação, algo totalmente non sense, mas que certamente denota uma pontada nas excentricidades que costumam povoar o comportamento de classes mais abastadas, pois que carentes de objetivos maiores na vida. Outra personagem marcante é a de Valquíria (papel da famosa atriz mexicana Silvia Pinal, que já havia trabalhado com Buñuel em “Viridiana”), que todos afirmam ainda ser virgem, mas desconfiam da veracidade dessa condição. Descobrimos, também, que o adultério é uma constante no comportamento do grupo, assim como a inveja e a desfaçatez, vícios humanos que ficam cada vez mais expostos à medida que o tempo passa. Com a angústia crescente no ambiente, atitudes tipicamente humanas afloram, como procurar um culpado para a situação, o que acaba sobrando para o anfitrião, justa e ironicamente um dos mais lúcidos e bem intencionados do grupo. E eis que a situação dos “aprisionados” começa a despertar a atenção dos moradores da cidade, o que nos remete mais uma vez ao citado programa televisivo. Uma multidão se aglomera pelas redondezas e começa a tentar acompanhar e saber os passos dos convidados, mas em nenhum momento a polícia chega a invadir o local para “salvá-los”, aguardando passivamente que eles resolvam sair.


Todas essas circunstâncias narrativas são mostradas com o tradicional poderio imagético de Buñuel, neste aspecto, até por ser herdeiro da tradição surrealista, um dos cineastas mais criativos em todos os tempos. A cena em que os convidados quebram as paredes em busca das tubulações de água para matar a sede é de uma mistura de drama e comédia que só poderia ter partido de uma mente genial. Ademais, Buñuel mais uma vez pontua a narrativa com imagens surreais que representam os pesadelos dos confinados, quase todos já no limite entre lucidez e insanidade, algo que nos remete ao “Ensaio Sobre A Cegueira” de Saramgo/Meirelles, ou, mais ainda, a Franz Kafka com suas ideias de situações limítrofes e inexplicáveis. Embora não seja este o filme em que Buñuel mais acentua sua veia anticlerical – este posto cabe ao mencionado “Viridiana”, seu filme imediatamente anterior (1961) – ele reserva para o desfecho as suas ferroadas na Igreja, mas este ponto fica para você realizar sua própria apreciação quando tiver a oportunidade de ver o longa.

O cineasta repetiria um mote semelhante em “O Discreto Charme da Burguesia” (Le Charme Discret de La Bourgeoisie, 1972), filme posterior de sua fase francesa, mas este “O Anjo Exterminador” é, de certa forma, mais acessível aos não iniciados na sua filmografia e, certamente, mais original. Luís Buñuel se revela, mais do que nunca, um profundo conhecedor das limitações humanas, além de se mostrar algo profético ao conceber a situação de seres humanos confinados em um ambiente por vontade própria (ou falta dela). Se estivesse vivo para acompanhar o sucesso dos reallity shows, é provável que ele desse boas risadas e ficasse envaidecido ao constatar que ele possuía inteira razão nas conclusões que tirou a partir de seu exercício criativo. Hoje, o Big Brother é a tradução moderna e rasteira desta obra singular do mestre espanhol, mas, claro, sem a arte desta.


Cotação:

Nota: 10,0

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Curtindo o Curta #1


Há alguns dias, descobri um programa da Rede Brasil chamado “Curta TV”, dedicado à abordagem e exibição deste formato de cinema tão pouco visto hoje. O mais triste é que ele fica relegado ao esquecimento não apenas pelo grande público, mas até mesmo no meio cinéfilo, mostrando como o curta-metragem anda muito desprestigiado. Faço uma pergunta a você que acompanha este espaço: quantos curtas você viu este ano? Acredito que a resposta deverá resultar em um número que não passa dos dedos das mãos. Todavia, a verdade é que o curta-metragem representa, antes de tudo, o nascimento da Sétima Arte. Afinal, quando os irmãos Lumiére inventaram essa poderosa magia, eles obviamente não começaram produzindo filmes de 120 minutos. Foi pensando exatamente neste espaço escasso dado aos curtas, os quais, ademais, acabam sendo a escola de qualquer cineasta (seja um medíocre ou um gênio como Chaplin), que resolvi criar uma nova série aqui no “Cinema Com Pimenta”, a “Curtindo o Curta”, dedicada a exibir (claro que por meio destas ferramentas fantásticas que são o sites comoYoutube ou Dailymotion) relevantes curtas-metragens, sejam contemporâneos ou clássicos, como uma forma modesta de tentar suprir esta lacuna na bagagem cinéfila de muitos amantes do cinema (entre os quais eu me incluo).

O filme que escolhi para iniciar essa nova sessão do blog foi “Viagem à Lua” (Le Voyage Dans La Lune), uma obra de 1902 dirigida por um dos desbravadores da arte cinematográfica, Georges Méliès, um ex-ator e ilusionista que ousou fazer algo inteiramente distinto do que era realizado até então. A começar pela sua duração. Pode parecer curioso hoje, mas “Viagem À Lua”, com seus 14 minutos, foi um verdadeiro longa-metragem no seu tempo, pois que até então os filmes geralmente se limitavam a 2 ou 3 minutos de projeção. Entretanto, ainda mais inovadora foi a sua premissa. Ao adaptar o romance homônimo de Julio Verne para a tela, Méliès abriu as fronteiras da imaginação no alvorecer da arte cinematográfica, deixando de lado o cotidiano filmado que era a regra até então (ou seja, mini-documentários), para explorar um universo inteiramente ficcional, voltado única e exclusivamente ao entretenimento. Não é nem um pouco absurdo afirmar que Méliès foi o pai do gênero ficção-científica, estabelecendo as bases que seriam seguidas por praticamente todos os cineastas dali em diante, até mesmo por gênios como Stanley Kubrick, cuja obra máxima, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey), não deixa de ser uma variante filosófica do filme de Méliès.

O roteiro, também escrito pelo próprio diretor, começa com um cientista tentando convencer seus colegas, em uma espécie de congresso, de que é possível viajar ao satélite da Terra por meio de uma nave com estrutura semelhante a de um míssil. Um grupo, então, empreende a aventura, aterrissando de maneira pitoresca no “olho” da Lua, que é caraterizada de modo antropomórfico (por sinal, uma das cenas mais conhecidas do cinema até hoje). Lá eles descobrem que a Lua é habitada pelos selenitas, sendo aprisionados por estes até o momento em que descobrem que os estranhos habitantes viram fumaça quando golpeados com guarda-chuvas. Conseguindo escapar, os aventureiros voltam à Terra e caem no mar, sendo resgatados e recebidos com festa em Paris. Diante de narrativa tão fantasiosa, Méliès, utilizando de seus prévios conhecimentos de ilusionismo, acabou por engendrar o que hoje denominamos de efeitos especiais ou visuais, além de usar técnicas de superposição, fusão e edição de imagens que seriam fundamentais no desenvolvimento da Sétima Arte. Além disso, trata-se da primeira adaptação de uma obra literária para a película, o início de uma parceria entre cinema e literatura que renderia muitos grandes frutos ao longo de décadas. No mais, Méliès parece realizar uma grande zombaria com o cientificismo reinante na época, caricaturando a fé na ciência que por vezes se assemelha à fé religiosa, ocorrendo apenas uma substituição, ao mesmo tempo em que demonstra que a humanidade nunca terá pleno conhecimento sobre os mistérios da natureza e do universo.

Tremendo sucesso em sua época, ironicamente Méliès acabou indo à falência algum tempo depois, principalmente porque o filme foi distribuído nos EUA à revelia do seu autor, o qual não recebeu um centavo das bilheterias ianques. De qualquer forma, sua obra resultou precursora e muitos aspectos, o que acaba por transformá-la em obrigatória para qualquer pessoa que procure se aprofundar um pouco mais na arte da imagem em movimento. Bem, vamos deixar de falação e passarmos ao filme. A versão mais completa que encontrei na rede, e que segue abaixo, nos fornece 12 minutos de projeção, o que é praticamente o filme inteiro. Bom filme nesta primeira sessão do “Curtindo o Curta”.



Le Voyage dans la Lune (Uni Music) - 1902... por Krasny-Kofe

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Começou


E começou a temporada de prêmios pré-Oscar. O primeiro deles foi o da respeitável Associação de Críticos de Nova York, a qual concedeu o título de melhor filme do ano a "The Artist" (foto acima), um longa-metragem mudo e em p&b produzido pelos irmãos Weinstein e que trata da transição do cinema mudo para o falado em Hollywood e as repercussões da novidade tecnológica na vida dos atores. Ele também acabou levando o prêmio de melhor diretor para Michel Hazanavicious. O prêmio de melhor ator foi para Brad Pitt por "A Árvore da Vida" e "Moneyball", valendo destacar que os críticos de Nova York levam em conta o ano do artista e não apenas um trabalho específico. Pela mesma razão premiaram Jessica Chastain como atriz coadjuvante por "A Árvore da Vida", "The Help" e "Take Shelter". O melhor ator coadjuvante foi Albert Brooks, por "Drive". Já Meryl Streep parece ter mais uma indicação ao Oscar garantida com a interpretação de Margaret Thatcher em "The Iron Lady", já levando seu primeiro prêmio por esse trabalho. Aaron Sorkin (de "A Rede Social") levou mais uma vez na categoria melhor roteiro por "Moneyball", enquanto "A Árvore da Vida" confirmou seu favoritismo como a melhor fotografia. No mais, Werner Herzog volta à cena com a premiação pelo documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos".


Já temos um bom termômetro para a festa da Academia que acontecerá no dia 26 de fevereiro, mas nada de sair fazendo apostas tão cedo. É bom lembrar que no ano passado "A Rede Social" ganhou como melhor filme entre os críticos de Nova York e não levou a estatueta no Oscar. Muita água ainda vai rolar até lá...

sábado, 26 de novembro de 2011

Eu Quero Esse Pôster #17


Eu estava vagando pela net em busca de um pôster interessante quando encontrei este bastante peculiar de "Indiana Jones e A Última Cruzada", último episódio da trilogia original de um dos meus personagens favoritos das telas. Nunca tinha visto antes! Trata-se de um trabalho do designer Olly Moss, um dos "tampas de Crush" na área atualmente. Abaixo, seguem mais dois exemplos da capacidade desse artista, com seu material para "Sindicato de Ladrões" e "Robocop". Genial!


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Quase Deuses
(Something The Lord Made, 2004)


Quase lá...


Não nego que tenho um certo preconceito com filmes feitos para a televisão. Aliás, não só filmes. As atualmente tão enaltecidas séries de TV também não contam com a minha simpatia. Por razões comerciais, geradas pelo público médio que acompanha as produções televisivas, jamais veremos um produção feita para TV atingir o nível artístico de um filme de Fellini ou Antonioni, de um Bergman ou Kubrick. Sei que “jamais” talvez seja um termo muito forte e claro que muitos vão citar o “Decálogo” de Kieslowski como exemplo de que isso é possível, mas esta é uma rara exceção e as exceções confirmam a regra. E isso por um simples motivo: mesmo uma empresa como a HBO, famosa por supostamente ter produtos diferenciados, mais “refinados” ou “adultos”, tem de estar adstrita ao gosto do seu espectador, mormente o norte-americano, o que pode até terminar resultando em um entretenimento inteligente, mas nunca em uma autêntica obra de arte. Dito isto, resolvi assistir neste domingo a um filme que minha noiva me deu de presente há algum tempo, longa-metragem que ela havia gostado muito e que sempre me cobrava: “você ainda não viu aquele?” *. Trata-se de “Quase Deuses” (Something The Lord Made, 2004), filme produzido pela citada HBO e dirigido por Joseph Sargent. A verdade é que o longa representa o que talvez se possa fazer de melhor dentro da perspectiva comercial do meio televisivo, ou seja, uma obra correta, que prende a atenção do espectador, toca em assuntos sobremaneira relevantes, mas que não consegue alcançar patamares artísticos mais elevados, permanecendo na área do entretenimento inteligente ou mesmo comovente.

A trama, como normalmente sucede em produções para a televisão (e como isso me faz lembrar o Supercine, nossa...), trata da história real dos médicos Alfred Blalock (interpretado aqui por Alan Rickman) e Vivien Theodore Thomas (Mos Def), responsáveis por importantíssimos avanços na área de cirurgia cardíaca, precursores na técnica que leva à cura de bebês de aparência cianótica, os chamados “bebês azuis”. Blalock era um pesquisador ousado, realizando suas experiências com cachorros, embora também, como geralmente sucede com cientistas, um tanto arrogante e por vezes prepotente. Para cuidar do canil das cobaias, ele contrata o recém desempregado Vivien Thomas, um carpinteiro vítima da crise econômica mundial dos anos 30 que, além de ficar sem trabalho, perdera todas as economias que havia feito para cursar a faculdade de medicina, uma vez que o banco depositário faliu (qualquer semelhança com fatos recentes ou atuais do capitalismo globalizado mão é mera coincidência). Destarte, Blalock vai percebendo que Vivien tem uma enorme facilidade em aprender os conceitos médicos e, além disso, usa o instrumental cirúrgico com grande desenvoltura. A parceria entre os dois gera grandes frutos, mas há um detalhe muito relevante a ser apontado, além da ausência de formação acadêmica de Vivien: ele é negro, isso em uma época em que os afro-americanos sequer podiam sentar perto de um branco dentro de um ônibus. Ou seja, além das limitações impostas pela ausência de formação, ele ainda sofre extremo preconceito, principalmente quando ele e Blalock passam a trabalhar no conceituado hospital universitário Johns Hopkins, onde acaba vítima de ridículas discriminações, como receber o mesmo salário de uma faxineiro devido à cor da sua pele.


Em verdade, mesmo que seja um longa multifacetado em que vários temas são apresentados, acredito que o foco central de “Quase Deuses” é mesmo a questão racial. Afinal, muito mais do que sua condição social, é a circunstância racial que acaba se colocando como maior obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades de Thomas. Entretanto, o filme também se mostra ótimo ao delinear a amizade entre os dois, frequentemente colocada à prova diante dos obstáculos e, em igual medida, em razão dos ataques de vaidade e arrogância de Blalock, que em alguns momentos custa a admitir o quanto Thomas lhe é importante não apenas do ponto de vista profissional, como também emocional. Para tanto, a atuação dos atores é essencial e, se Alan Rickman se mostra competente na caracterização de Alfred (muito embora escorregue em alguns momentos com suas tradicionais caretas), Mos Def entrega uma grande atuação como Vivien, emprestando a força e carisma necessários ao personagem. Em outro sentido, o longa deve entusiasmar estudantes da áreas médicas ao detalhar os procedimentos cirúrgicos e as ideias que levaram ao sucesso das experiências, mostrando-se também como um libelo em defesa do progresso da ciência, mesmo que em diversas situações esta possa se apresentar fria e indiferente, mormente no que diz respeito à utilização de cobaias nos estudos (os apaixonados por cachorros poderão sentir especiais calafrios em algumas sequências).


Interessante como Sargent exibe uma direção segura, sem acelerar ou alongar a narrativa, que se estende através de enxutos 109 minutos sempre despertando o interesse do espectador, muito embora algumas cenas específicas, onde há um uso acentuado de termos técnicos, possam se tornar entediantes para o público leigo. A reconstituição de época também é muito bem feita, principalmente se pensarmos nos detalhes que uma produção assim exige, uma vez que apresentar instrumentos médicos antigos requer um enorme trabalho de pesquisa. Contudo, há algumas derrapadas típicas de um produto que procura, antes de tudo, agradar, como a utilização equivocada de uma trilha sonora que parece sempre querer dizer ao espectador quais os momentos emocionantes, como se este não tivesse inteligência suficiente para tanto. Ademais, sua conclusão é repleta de momentos catárticos, realizados de forma a enaltecer a mensagem de superação e dignidade que é o cerne do filme.

De qualquer forma, é importantíssimo destacar: funciona. À parte as limitações geradas por suas pretensões comerciais, “Quase Deuses” tem passagens realmente comoventes e a história da dupla de médicos, principalmente do prático Vivien Thomas, é indubitavelmente inspiradora. Há uma passagem, inclusive, em que o pai de Thomas, relembrando que seu avô era escravo e que o rapaz agora tinha a oportunidade de estudar em uma universidade, profere uma frase sábia ao afirmar que “as coisas mudam, devagar, mas mudam”. Hoje, ao vermos que um negro é presidente do Estados Unidos, percebe-se o quanto há de verdade em dita afirmação. Pois é, as coisas mudam, e quem sabe um dia a televisão deixa de lado os aspectos mercadológicos para se concentrar apenas no valor artístico que suas obras possam ter? Aqui, ela quase chegou lá.


Cotação:

Nota: 8,5

* Te amo, minha Linda :=)

sábado, 19 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



A Canção de Bernadette
(The Song Of Bernadette, 1943)


Para os que creem e os que não creem



É bastante complicado abordar uma temática religiosa em uma obra cinematográfica. A religião é terreno fértil para polêmicas e radicalismos, não apenas por parte daqueles que creem, como também por aqueles que não acreditam (digo até por experiência própria, pois que já vi ateus bastante radicais e mesmo intolerantes). Exemplo já clássico e recente desta afirmativa é o longa-metragem “ A Paixão de Cristo” (The Passion Of The Christ, 2004), a super-violenta visão de Mel Gibson acerca do martírio de Jesus Cristo, filme este que foi acusado de antisemitismo e muito criticado pelo excesso de sangue na tela. De qualquer forma, para Gibson, um católico fervoroso adepto de uma da vertentes mais radicais da Igreja, não foi difícil estabelecer um tom para a narrativa, já que ele realizou uma obra extremamente pessoal onde quis e teve o direito de extravasar toda a sua religiosidade, por mais que ela soe distorcida aos olhos da maioria. Já Martin Scorsese sofreu o pão que o diabo amassou devido à sua visão pouco ortodoxa da vida de Jesus em “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation Of Christ, 1988), obra que apresenta uma visão consideravelmente humana de um Salvador que se mostra o tempo inteiro suscetível aos desejos e falhas típicos dos homens. Contudo, para um cineasta que não deseje realizar um manifesto religioso ou questionar abertamente alguns dogmas, mas tão somente narrar um fato com significados místicos e sem cair em qualquer forma de proselitismo, encontrar o tom e forma corretos é um caminho deveras difícil.

Tal feito foi alcançado em boa parte com “A Canção de Bernadette” (The Song Of Bernadette) pelo diretor Henry King, cineasta de filmes como “Almas em Chamas” (Twelve O'Clock High, 1949) e o cultuado “Suplício de Uma Saudade” (Love Is A Many Splendored Thing, 1955), neste último dirigindo a mesma Jennifer Jones que alçou ao estrelato com esse trabalho de 1943. King não possui a mesma estatura de outros nomes da Hollywood clássica, como John Huston, Howard Hawks ou o genial John Ford, mas era um bom diretor que, neste caso, acertou em cheio na adaptação da história da aparição da Virgem Maria em Lourdes, cidade da França que até hoje é destino de peregrinação de católicos do mundo inteiro devido aos eventos lá ocorridos. Para tanto, ele utilizou de um tom refinado, sem cair em uma indesejável solenidade que acabaria por afastar emocionalmente o espectador e, ademais, na maior parte do filme, sem apelar para excessos melodramáticos, tentação fácil diante de um mote tão propício.


Talvez King tenha atingido esse resultado por focar a abordagem não nos fatos inusitados que levaram à crença nos milagres de Lourdes, mas nos personagens que vivenciaram a história. E, nesta aspecto, fez-se essencial encontrar em Jennifer Jones a atriz ideal para desempenhar o papel da jovem e frágil Bernadette Soubirous, uma menina de origem bastante humilde e com vários problemas de saúde que limitam, inclusive, o seu desenvolvimento escolar. Por outro lado, é uma pessoa de alma pura, pobre em espírito na melhor acepção da expressão e que, provavelmente devido a isso, é supostamente escolhida para servir como o canal de comunicação entre a Virgem e os moradores de Lourdes. Pertinente ressaltar que Bernadette em nenhum momento se considera santa ou pretende sê-lo. Pelo contrário, ambiciona apenas ter uma vida comum e simples como as moças de sua idade. Só que, obviamente, se nem Cristo agradou a todos não será ela que irá agradar, e a jovem passar a ser alvo não apenas das naturais dúvidas a respeito da veracidade de suas visões, como também da inveja e maledicência alheias, pois que muitos a julgam como uma aproveitadora que quer aparecer às custas da credulidade da comunidade.

Ao redor da protagonista, outros personagens são muito bem construídos, como o promotor Vital Dutour (Vincent Price), um dos líderes aristocratas da região que a princípio se sentem incomodados com a afluência de fiéis à gruta de Massabielle (local das aparições), mas que depois tentam auferir vantagens financeiras dos acontecimentos. Dutour, no entanto, parece ir além nas suas tentativas de desmascarar Bernadette, revelando uma faceta ateia ou agnóstica que não consegue admitir como milagres os fatos fora da normalidade que se verificam na pequena cidade. Ele é contraposto pelo deão da aldeia, o padre Peyramale (Charles Bickford), o qual, depois de sentir a veracidade nas palavras e ações de Bernadette, torna-se seu protetor e defensor. É em um dos diálogos entre o padre e os incrédulos que surge uma frase que se tornaria famosa: “para os que creem, nenhuma explicação é necessária; para os que não creem, nenhuma explicação servirá” - certamente retirada do livro de Franz Werfel no qual se baseou o roteiro de George Seaton.


Falando em bons personagens, não se pode deixar de lembrar algumas curiosidades que rodeiam a produção. O papel de Bernadette rendeu o Oscar a Jennifer Jones, realizando aqui sua primeira protagonista no cinema. Antes ela havia feito apenas algumas participações em filmes de menor orçamento ainda com seu nome verdadeiro, Phylis Isley (o nome com o qual se tornou famosa foi criado por David O. Selznick, produtor com que se casaria alguns anos mais tarde). Ela disputou a personagem com centenas de outras concorrentes, mas Henry King adorou o viés contido, doce e humilde que atribuiu a Bernadette. Todavia, se Jennifer aparece incontestável como protagonista, o mesmo não se deu com a seleção da atriz para encarnar a Virgem Maria. A escolha recaiu em Linda Darnell, atriz de péssima reputação (apesar de ironicamente costumar interpretar mulheres ingênuas nas telas) e que quase fazia o autor Werfel pedir a exclusão de seu nome nos créditos da película. Mas a verdade é que sua participação se limita quase que a pontas, pois que a Senhora (tratamento usado por Bernadette para a aparição) tem pouco tempo de cena.

Dono de uma fotografia excelente, que rendeu ainda o prêmio da Academia a Arthur Miller, além de uma bela trilha sonora do mestre Alfred Newman (que renderia a primeira versão em disco de uma trilha de filme a ser comercializada), “The Song Of Bernadette” apenas titubeia na sua conclusão, onde King acaba cedendo a alguns arroubos melodramáticos, além de parecer querer a chancela da Igreja ao incluir, sem mais nem menos, uma imagem da Basílica de São Pedro na última cena. Entretanto, são pequenos defeitos em uma obra ao mesmo tempo sóbria e comovente, certamente capaz até de sensibilizar mesmo os mais céticos. Afinal, para além da crença, Bernadette Soubirous foi um ser humano notável, um exemplo de humildade e plena convicção naquilo que acreditava. É de pessoas de coração puro como o dela que o mundo está carecendo, e nisso qualquer um há de concordar, seja ou não cristão, seja um fundamentalista como Mel Gibson ou um questionador como Scorsese, acreditando ou não em Deus.


Cotação:

Nota: 9,0