terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Quase Deuses
(Something The Lord Made, 2004)


Quase lá...


Não nego que tenho um certo preconceito com filmes feitos para a televisão. Aliás, não só filmes. As atualmente tão enaltecidas séries de TV também não contam com a minha simpatia. Por razões comerciais, geradas pelo público médio que acompanha as produções televisivas, jamais veremos um produção feita para TV atingir o nível artístico de um filme de Fellini ou Antonioni, de um Bergman ou Kubrick. Sei que “jamais” talvez seja um termo muito forte e claro que muitos vão citar o “Decálogo” de Kieslowski como exemplo de que isso é possível, mas esta é uma rara exceção e as exceções confirmam a regra. E isso por um simples motivo: mesmo uma empresa como a HBO, famosa por supostamente ter produtos diferenciados, mais “refinados” ou “adultos”, tem de estar adstrita ao gosto do seu espectador, mormente o norte-americano, o que pode até terminar resultando em um entretenimento inteligente, mas nunca em uma autêntica obra de arte. Dito isto, resolvi assistir neste domingo a um filme que minha noiva me deu de presente há algum tempo, longa-metragem que ela havia gostado muito e que sempre me cobrava: “você ainda não viu aquele?” *. Trata-se de “Quase Deuses” (Something The Lord Made, 2004), filme produzido pela citada HBO e dirigido por Joseph Sargent. A verdade é que o longa representa o que talvez se possa fazer de melhor dentro da perspectiva comercial do meio televisivo, ou seja, uma obra correta, que prende a atenção do espectador, toca em assuntos sobremaneira relevantes, mas que não consegue alcançar patamares artísticos mais elevados, permanecendo na área do entretenimento inteligente ou mesmo comovente.

A trama, como normalmente sucede em produções para a televisão (e como isso me faz lembrar o Supercine, nossa...), trata da história real dos médicos Alfred Blalock (interpretado aqui por Alan Rickman) e Vivien Theodore Thomas (Mos Def), responsáveis por importantíssimos avanços na área de cirurgia cardíaca, precursores na técnica que leva à cura de bebês de aparência cianótica, os chamados “bebês azuis”. Blalock era um pesquisador ousado, realizando suas experiências com cachorros, embora também, como geralmente sucede com cientistas, um tanto arrogante e por vezes prepotente. Para cuidar do canil das cobaias, ele contrata o recém desempregado Vivien Thomas, um carpinteiro vítima da crise econômica mundial dos anos 30 que, além de ficar sem trabalho, perdera todas as economias que havia feito para cursar a faculdade de medicina, uma vez que o banco depositário faliu (qualquer semelhança com fatos recentes ou atuais do capitalismo globalizado mão é mera coincidência). Destarte, Blalock vai percebendo que Vivien tem uma enorme facilidade em aprender os conceitos médicos e, além disso, usa o instrumental cirúrgico com grande desenvoltura. A parceria entre os dois gera grandes frutos, mas há um detalhe muito relevante a ser apontado, além da ausência de formação acadêmica de Vivien: ele é negro, isso em uma época em que os afro-americanos sequer podiam sentar perto de um branco dentro de um ônibus. Ou seja, além das limitações impostas pela ausência de formação, ele ainda sofre extremo preconceito, principalmente quando ele e Blalock passam a trabalhar no conceituado hospital universitário Johns Hopkins, onde acaba vítima de ridículas discriminações, como receber o mesmo salário de uma faxineiro devido à cor da sua pele.


Em verdade, mesmo que seja um longa multifacetado em que vários temas são apresentados, acredito que o foco central de “Quase Deuses” é mesmo a questão racial. Afinal, muito mais do que sua condição social, é a circunstância racial que acaba se colocando como maior obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades de Thomas. Entretanto, o filme também se mostra ótimo ao delinear a amizade entre os dois, frequentemente colocada à prova diante dos obstáculos e, em igual medida, em razão dos ataques de vaidade e arrogância de Blalock, que em alguns momentos custa a admitir o quanto Thomas lhe é importante não apenas do ponto de vista profissional, como também emocional. Para tanto, a atuação dos atores é essencial e, se Alan Rickman se mostra competente na caracterização de Alfred (muito embora escorregue em alguns momentos com suas tradicionais caretas), Mos Def entrega uma grande atuação como Vivien, emprestando a força e carisma necessários ao personagem. Em outro sentido, o longa deve entusiasmar estudantes da áreas médicas ao detalhar os procedimentos cirúrgicos e as ideias que levaram ao sucesso das experiências, mostrando-se também como um libelo em defesa do progresso da ciência, mesmo que em diversas situações esta possa se apresentar fria e indiferente, mormente no que diz respeito à utilização de cobaias nos estudos (os apaixonados por cachorros poderão sentir especiais calafrios em algumas sequências).


Interessante como Sargent exibe uma direção segura, sem acelerar ou alongar a narrativa, que se estende através de enxutos 109 minutos sempre despertando o interesse do espectador, muito embora algumas cenas específicas, onde há um uso acentuado de termos técnicos, possam se tornar entediantes para o público leigo. A reconstituição de época também é muito bem feita, principalmente se pensarmos nos detalhes que uma produção assim exige, uma vez que apresentar instrumentos médicos antigos requer um enorme trabalho de pesquisa. Contudo, há algumas derrapadas típicas de um produto que procura, antes de tudo, agradar, como a utilização equivocada de uma trilha sonora que parece sempre querer dizer ao espectador quais os momentos emocionantes, como se este não tivesse inteligência suficiente para tanto. Ademais, sua conclusão é repleta de momentos catárticos, realizados de forma a enaltecer a mensagem de superação e dignidade que é o cerne do filme.

De qualquer forma, é importantíssimo destacar: funciona. À parte as limitações geradas por suas pretensões comerciais, “Quase Deuses” tem passagens realmente comoventes e a história da dupla de médicos, principalmente do prático Vivien Thomas, é indubitavelmente inspiradora. Há uma passagem, inclusive, em que o pai de Thomas, relembrando que seu avô era escravo e que o rapaz agora tinha a oportunidade de estudar em uma universidade, profere uma frase sábia ao afirmar que “as coisas mudam, devagar, mas mudam”. Hoje, ao vermos que um negro é presidente do Estados Unidos, percebe-se o quanto há de verdade em dita afirmação. Pois é, as coisas mudam, e quem sabe um dia a televisão deixa de lado os aspectos mercadológicos para se concentrar apenas no valor artístico que suas obras possam ter? Aqui, ela quase chegou lá.


Cotação:

Nota: 8,5

* Te amo, minha Linda :=)

sábado, 19 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



A Canção de Bernadette
(The Song Of Bernadette, 1943)


Para os que creem e os que não creem



É bastante complicado abordar uma temática religiosa em uma obra cinematográfica. A religião é terreno fértil para polêmicas e radicalismos, não apenas por parte daqueles que creem, como também por aqueles que não acreditam (digo até por experiência própria, pois que já vi ateus bastante radicais e mesmo intolerantes). Exemplo já clássico e recente desta afirmativa é o longa-metragem “ A Paixão de Cristo” (The Passion Of The Christ, 2004), a super-violenta visão de Mel Gibson acerca do martírio de Jesus Cristo, filme este que foi acusado de antisemitismo e muito criticado pelo excesso de sangue na tela. De qualquer forma, para Gibson, um católico fervoroso adepto de uma da vertentes mais radicais da Igreja, não foi difícil estabelecer um tom para a narrativa, já que ele realizou uma obra extremamente pessoal onde quis e teve o direito de extravasar toda a sua religiosidade, por mais que ela soe distorcida aos olhos da maioria. Já Martin Scorsese sofreu o pão que o diabo amassou devido à sua visão pouco ortodoxa da vida de Jesus em “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation Of Christ, 1988), obra que apresenta uma visão consideravelmente humana de um Salvador que se mostra o tempo inteiro suscetível aos desejos e falhas típicos dos homens. Contudo, para um cineasta que não deseje realizar um manifesto religioso ou questionar abertamente alguns dogmas, mas tão somente narrar um fato com significados místicos e sem cair em qualquer forma de proselitismo, encontrar o tom e forma corretos é um caminho deveras difícil.

Tal feito foi alcançado em boa parte com “A Canção de Bernadette” (The Song Of Bernadette) pelo diretor Henry King, cineasta de filmes como “Almas em Chamas” (Twelve O'Clock High, 1949) e o cultuado “Suplício de Uma Saudade” (Love Is A Many Splendored Thing, 1955), neste último dirigindo a mesma Jennifer Jones que alçou ao estrelato com esse trabalho de 1943. King não possui a mesma estatura de outros nomes da Hollywood clássica, como John Huston, Howard Hawks ou o genial John Ford, mas era um bom diretor que, neste caso, acertou em cheio na adaptação da história da aparição da Virgem Maria em Lourdes, cidade da França que até hoje é destino de peregrinação de católicos do mundo inteiro devido aos eventos lá ocorridos. Para tanto, ele utilizou de um tom refinado, sem cair em uma indesejável solenidade que acabaria por afastar emocionalmente o espectador e, ademais, na maior parte do filme, sem apelar para excessos melodramáticos, tentação fácil diante de um mote tão propício.


Talvez King tenha atingido esse resultado por focar a abordagem não nos fatos inusitados que levaram à crença nos milagres de Lourdes, mas nos personagens que vivenciaram a história. E, nesta aspecto, fez-se essencial encontrar em Jennifer Jones a atriz ideal para desempenhar o papel da jovem e frágil Bernadette Soubirous, uma menina de origem bastante humilde e com vários problemas de saúde que limitam, inclusive, o seu desenvolvimento escolar. Por outro lado, é uma pessoa de alma pura, pobre em espírito na melhor acepção da expressão e que, provavelmente devido a isso, é supostamente escolhida para servir como o canal de comunicação entre a Virgem e os moradores de Lourdes. Pertinente ressaltar que Bernadette em nenhum momento se considera santa ou pretende sê-lo. Pelo contrário, ambiciona apenas ter uma vida comum e simples como as moças de sua idade. Só que, obviamente, se nem Cristo agradou a todos não será ela que irá agradar, e a jovem passar a ser alvo não apenas das naturais dúvidas a respeito da veracidade de suas visões, como também da inveja e maledicência alheias, pois que muitos a julgam como uma aproveitadora que quer aparecer às custas da credulidade da comunidade.

Ao redor da protagonista, outros personagens são muito bem construídos, como o promotor Vital Dutour (Vincent Price), um dos líderes aristocratas da região que a princípio se sentem incomodados com a afluência de fiéis à gruta de Massabielle (local das aparições), mas que depois tentam auferir vantagens financeiras dos acontecimentos. Dutour, no entanto, parece ir além nas suas tentativas de desmascarar Bernadette, revelando uma faceta ateia ou agnóstica que não consegue admitir como milagres os fatos fora da normalidade que se verificam na pequena cidade. Ele é contraposto pelo deão da aldeia, o padre Peyramale (Charles Bickford), o qual, depois de sentir a veracidade nas palavras e ações de Bernadette, torna-se seu protetor e defensor. É em um dos diálogos entre o padre e os incrédulos que surge uma frase que se tornaria famosa: “para os que creem, nenhuma explicação é necessária; para os que não creem, nenhuma explicação servirá” - certamente retirada do livro de Franz Werfel no qual se baseou o roteiro de George Seaton.


Falando em bons personagens, não se pode deixar de lembrar algumas curiosidades que rodeiam a produção. O papel de Bernadette rendeu o Oscar a Jennifer Jones, realizando aqui sua primeira protagonista no cinema. Antes ela havia feito apenas algumas participações em filmes de menor orçamento ainda com seu nome verdadeiro, Phylis Isley (o nome com o qual se tornou famosa foi criado por David O. Selznick, produtor com que se casaria alguns anos mais tarde). Ela disputou a personagem com centenas de outras concorrentes, mas Henry King adorou o viés contido, doce e humilde que atribuiu a Bernadette. Todavia, se Jennifer aparece incontestável como protagonista, o mesmo não se deu com a seleção da atriz para encarnar a Virgem Maria. A escolha recaiu em Linda Darnell, atriz de péssima reputação (apesar de ironicamente costumar interpretar mulheres ingênuas nas telas) e que quase fazia o autor Werfel pedir a exclusão de seu nome nos créditos da película. Mas a verdade é que sua participação se limita quase que a pontas, pois que a Senhora (tratamento usado por Bernadette para a aparição) tem pouco tempo de cena.

Dono de uma fotografia excelente, que rendeu ainda o prêmio da Academia a Arthur Miller, além de uma bela trilha sonora do mestre Alfred Newman (que renderia a primeira versão em disco de uma trilha de filme a ser comercializada), “The Song Of Bernadette” apenas titubeia na sua conclusão, onde King acaba cedendo a alguns arroubos melodramáticos, além de parecer querer a chancela da Igreja ao incluir, sem mais nem menos, uma imagem da Basílica de São Pedro na última cena. Entretanto, são pequenos defeitos em uma obra ao mesmo tempo sóbria e comovente, certamente capaz até de sensibilizar mesmo os mais céticos. Afinal, para além da crença, Bernadette Soubirous foi um ser humano notável, um exemplo de humildade e plena convicção naquilo que acreditava. É de pessoas de coração puro como o dela que o mundo está carecendo, e nisso qualquer um há de concordar, seja ou não cristão, seja um fundamentalista como Mel Gibson ou um questionador como Scorsese, acreditando ou não em Deus.


Cotação:

Nota: 9,0

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Mensageiro do Diabo
(The Night Of The Hunter, 1955)


O Bem, o Mal e o Bicho-papão


“O Mensageiro do Diabo” (The Night Of The Hunter), o único filme dirigido pelo respeitado ator Charles Laughton, é uma daquelas obras que fazem parte de um rol especial: as que não foram reconhecidas no seu tempo, ganhando respeitabilidade e sendo descobertas anos depois de seus lançamentos. Isso acontece com uma certa frequência no mundo artístico – não apenas no cinema – bastando lembrar de casos como o do gênio da pintura Vincent Van Gogh ou da obra literária de Franz Kafka. E é uma pena que, tal como estes famosos exemplos, Laughton não tenha vivido o suficiente para ver sua obra alcançar os elogios que sempre mereceu. Contrariamente, viu sua carreira como diretor ser interrompida devido ao fracasso financeiro da produção, não conseguindo mais levar adiante nenhum projeto. Levado à depressão, transformou-se em coadjuvante de luxo dali em diante, em papeis que não lhe exigiam grande esforço. Uma tremenda injustiça histórica com este longa-metragem impressionante, uma espécie de fábula que transmuda para a tela os mais assustadores pesadelos infantis e que nos apresenta um dos mais inesquecíveis vilões da história da Sétima Arte, interpretado por um Robert Mitchum no melhor momento de sua carreira.

Estruturado como uma alegórica batalha entre o Bem e o Mal, o roteiro se baseia em um romance de Davis Grubb adaptado para as telas por James Agee, responsável pelo script de “Uma Aventura Na África” (The African Queen, 1951) e então no auge da fama e respeito em Hollywood. A trama se concentra na figura do falso pastor Harry Powell (Mitchum), um psicótico que já havia matado diversas viúvas que julgava pervertidas, em uma missão que considerava que lhe havia sido atribuída por Deus. Uma vez preso por outro delito de menor importância, conhece durante os dias na prisão o condenado à morte Ben Harper (Peter Graves), o qual acaba revelando ao primeiro que havia deixado escondida com sua família uma grande quantia em dinheiro fruto de um assalto a banco. Quando libertado, Powelll sai em busca do dinheiro e, para alcançá-lo, aproveita-se da fragilidade emocional da viúva de Harper, Willa (Shelley Winters), casando-se com ela e buscando ganhar a confiança dos dois filhos, o primogênito John (Ben Chapin) e a garotinha Pearl (Sally Jane). O menino, contudo, percebe as intenções nefastas do padrasto, recusando-se a colaborar e tornando os irmãos alvos da ira do falso pregador.


Um dos grandes trunfos engendrados pelo roteiro e a direção de Laughton é justamente a sensação de total desproteção enfrentada pelo personagem de John, um verdadeiro terror infantil ainda mais acentuado para o espectador porque muitos dos fatos são vistos segundo a perspectiva das crianças. John é o único que percebe o lado malévolo de Harry Powell, sofrendo a angústia de ser desacreditado pelos adultos à sua volta, a começar pela sua mãe, e não poder contar nem com a própria irmã, já que ela, menor e mais inocente, é facilmente enganada pelo “reverendo” psicopata. Nesta linha, Powell se coloca como a verdadeira encarnação da “velha-debaixo-da-cama”, do “bicho-papão” ou qualquer outro ser imaginário e nefasto que tanto perturbam a imaginação infantil. Algumas sequências, inclusive, possuem um forte tom onírico que reforçam o caráter de fábula da narrativa, tal como a belíssima e estranha sequência dos garotos fugindo pelo rio Ohio ou a aparição de Powell montado em um cavalo visto à distância por John, o que leva este a se perguntar: “ele nunca dorme?”. Como contraponto à força do Mal representada pelo personagem de Mitchum, surge a Sra. Rachel (a lendária Lilian Gish, famosa pelas atuações nos filmes de D. W. Griffith), uma mulher que acolhe crianças órfãs em sua espaçosa propriedade. É ela que protege os irmãos e irá enfrentar diretamente Harry Powell em uma sequência memorável em que impede a entrada do psicopata enquanto este ronda a residência tal como uma raposa espreita um galinheiro.

Aliás, cenas marcantes em “O Mensageiro do Diabo” são mesmo uma constante, dado o brilhantismo da fotografia do veterano Stanley Cortez (que já havia trabalhado, por exemplo, com Orson Welles em “Soberba”) e seus enquadramentos inusitados que remontam ao Expressionismo alemão, por sinal uma das influências assumidas de Laughton, resultando em uma experiência imagética inesquecível. Laughton, inclusive, estabeleceu uma iconografia inimitável na concepção de Powell com suas roupas pretas e brancas, além do uso de tatuagens com as palavras “Amor” e “Ódio” nos dedos das mãos. A queda de braço realizada pelo personagem em uma cena em que explica o embate atemporal entre o Bem e o Mal, cena esta em que as duas mãos com as referidas palavras se abraçam, é simplesmente memorável e brilhante. Uma maneira simples, direta e inteligentíssima de resumir toda a temática do longa. Vale destacar, também, o ritmo de suspense com leves pitadas de humor, onde Laughton parece revelar influências de Hitchcock.


Outro ponto altíssimo é o elenco. Todos os atores entregam grandes performances, incluindo o elenco infantil. Curioso que havia um mito de que Laughton não gostava de trabalhar com crianças e que teria sido Mitchum o responsável por orientá-las nas filmagens. Essa teoria caiu por terra depois que foram descobertos negativos escondidos na velha casa de Laughton nos quais há imagens do mesmo orientando o elenco e que, ao contrário do que se falava, ele dedicava especial atenção aos pequenos. Talvez o maior trabalho para Laughton tenha se dado com Shelley Winters, pois que a mesma teve dificuldades em incorporar o necessário sotaque sulista de Willa Harper e também de encontrar o tom certo para a sua fragilidade. Lilian Gish, como era de se esperar, está perfeita como a citada Sra. Rachel, personagem muito carismática e que, como dito mais acima, representa a grande antagonista de Harry Powell. Um belo retorno após alguns anos de afastamento das câmeras. Entretanto, é mesmo Robert Mitchum, um dos atores mais injustiçados de Hollywood, quem domina as atenções. Em uma composição impecável, ele empresta um ar a só tempo misterioso, ameaçador e sedutor a Powell, criando um vilão perturbador e único. Ademais, jamais sabemos o quanto ele acredita ou não nas palavras religiosas que profere, nunca ficando exposto o quanto há de hipocrisia em seu comportamento. Laurence Olivier havia sido convidado para o papel, mas a escolha final por Mitchum não poderia ser mais acertada.

Contando com várias citações bíblicas que só enriquecem as metáforas e analogias propostas ao longo de sua projeção (é bom lembrar que Laughton era famoso por suas declamações das Escrituras), “The Night Of The Hunter” é uma experiência singular que com certeza se coloca entre aquelas que você tem de ver antes de morrer. Um filme que não parece com nada que você já viu, talvez até porque ele tenha ficado esquecido por vários anos e Charles Laughton não tenha tido oportunidade de continuar como cineasta. Uma pena. De qualquer forma, você cinéfilo tem a obrigação de reparar este erro histórico e fazer com que este longa-metragem recupere cada vez mais o status que lhe é próprio dentro da Sétima Arte, qual seja, o de autêntica obra-prima.


Cotação e nota: Obra-prima.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A volta de Billy Crystal


Pois é. Depois de Brett Ratner ter sido convidado a se demitir - mais ou menos como os ministros envolvidos em casos de corrupção em Brasília - da função de produtor do Oscar 2012 depois de comentários homofóbicos, dando lugar a Brian Grazer (produtor de filmes como "Uma Mente Brilhante" e "O Código da Vinci"), a academia agora convida Billy Crystal para retomar o posto que nunca deveria ter deixado: o de apresentador da festa anual de entrega do prêmio mais famoso do mundo. Com a saída de Ratner, Eddie Murphy também abandonou o barco e o mais coerente seria mesmo trocar o incerto pelo certo. Até a tuitada de Crystal comentando sua volta ao Oscar já demonstra que a escolha foi certeira: "vou fazer novamente o Oscar para que a moça da farmácia pare de perguntar 'qual é meu nome mesmo?' quando vou pegar remédios". Ainda acho que o Oscar seria bem melhor se apenas se preocupasse em entregar as estatuetas sem gracinhas ou embromações (como opinei em outra ocasião), mas, já que é para ter piadas, que pelo menos possam contar com o sempre acertado Billy. Ainda bem que Deus iluminou a cabeça desses executivos que já estavam até pensando em colocar os Muppets como apresentadores...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Contágio



Thriller hipocondríaco televisivo



Em “Traffic” (2000), Steven Soderbergh usou do recurso das narrativas paralelas que apresentam pontos de interseção para tentar dissecar o porquê da quase impossibilidade de erradicação do tráfico de drogas internacional. Contando com elenco estelar e competente, o qual incluiu Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones, Benício Del Toro e Don Cheadle, “Traffic” impressionou não apenas por mostrar os meandros da máfia das drogas, como também por conseguir construir sólidos dramas através de personagens muito bem desenvolvidos mesmo dentro de um mosaico de narrativas. A experiência foi tão bem sucedida que rendeu a Sodebergh o Oscar de melhor diretor naquele ano e, diga-se de passagem, com bastante justiça.

Aparentemente, foi procurando repetir o êxito do citado longa-metragem que Soderbergh concebeu este “Contágio” (Contagion), usando dos mesmos recursos de narrativas paralelas que se interligam e elenco de astros tarimbados para situações de forte apelo dramático – além de capazes de levar o público às salas apenas por sua presença na tela. Estão lá Matt Damon, Jude Law, Laurence Fishburne, além das oscarizadas Kate Winslet, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow, cuja morte da respectiva personagem revelada ainda no trailer chegou a causar uma certa polêmica. Afinal, como um material promocional poderia trazer um spoiler dessa magnitude? A verdade é que não se tratou de um spoiler, uma vez que a personagem de Gwyneth, Beth Emhoff, morre logo no início da trama, vítima de um vírus misterioso e altamente contagioso que poderá levar à morte milhões de pessoas ao redor do planeta. Já se percebe, desta forma, que Gwyneth não tem muito tempo em cena, sendo sua participação quase que reduzida a pontas.

Talvez o maior problema de “Contágio” seja o fato de que não apenas a personagem da esposa de Chris Martin tenha um tempo reduzido na tela, mas que praticamente todos os papeis quase se limitam a isso. Tantos são os personagens e ações distintas que não há tempo na projeção nem profundidade no roteiro para que o espectador nutra interesse ou empatia por alguns ou mesmo apenas um deles. Isso acaba resultando, inclusive, em atuações apagadas de todos os envolvidos e acredito que não por culpa dos mesmos, mas, como dito, do roteiro (escrito por Scott Z. Burns, que já havia trabalhado com Soderbergh em “O Desinformante”) excessivamente fragmentado e dispersivo, induzindo o próprio público à dispersão. Tamanho é o emaranhado engendrado que algumas pontas da narrativa ficam simplesmente sem desfecho, como no caso da personagem de Cottilard, a qual some a certa altura da película e depois resta simplesmente esquecida. Sucede que apenas um personagem tem começo, meio e fim, o marido da citada Beth, Mitch Emhoff, mas mesmo este, interpretado por um Matt Damon no piloto automático, é caracterizado com incoerências graves. Ele é aparentemente imune ao novo e letal vírus, mas mesmo assim ninguém se preocupa em estudar seu DNA ou qualquer coisa que o valha. Entretanto, vale dizer que nele se concentra o único núcleo que traz algum interesse dramático, possuindo uma filha adolescente que não pode se relacionar com os rapazes de sua idade devido ao perigo de transmissão da doença. Um outro que ainda aparece com um certo destaque é Jude Law ao interpretar um blogueiro que desafia as autoridades - personagem este que lembra Julian Assange e o seu Wikileaks. Aliás, se ainda sentimos alguma empatia pelos tipos na tela é porque já conhecemos seus intérpretes de longa data, o que facilita bastante uma maior aproximação com o público.


Por outro lado, em um aspecto o filme se mostra bastante eficiente: o de gerar a paranoia na plateia. Com closes em mãos e rostos, além de um roteiro que faz questão de ser didático em esclarecer as formas de transmissão de doenças viróticas, “Contágio” se coloca como um verdadeiro thriller da hipocondria, fazendo cada um da sair da sala de cinema com medo até de passar as mãos no rosto ou apertar a mão de um conhecido (principalmente diante do desfecho que realça à enésima potência a nossa fragilidade). Neste ponto termina lembrando bastante “Epidemia” (Outbreak), longa de Wolfgang Petersen lançado em 1995 (que também contou com astros como Dustin Hoffman e Morgan Freeman) realizado na esteira do pânico gerado pelo Ebola, um outro vírus letal e ainda mais agressivo que o H1N1 que inspirou o trabalho de Soderbergh, não sendo por acaso que o vírus do enredo é denominado MEV-1. Ou seja, parece que essas epidemias cíclicas e inevitáveis acabam gerando sempre algum correspondente cinematográfico disposto a explorar a neurose mundial que sempre vem com elas.

E é também na análise das consequências de uma pandemia desenfreada que reside um dos trunfos do longa, sendo Soderbergh muito feliz em mostrar que certos vícios da sociedade, como o egoísmo e a corrupção, são ainda mais acentuados em situações limite como as apresentadas. E que, mesmo diante do caos, ainda há aqueles que conseguem manter a sanidade e doar seus esforços para a coletividade. Claro, está longe da profundidade de um “Ensaio Sobre a Cegueira” (principalmente da obra literária de José Saramago), mas não se pode negar que há interesse nos conflitos e ideias presentes na narrativa, mesmo que às vezes um tanto rarefeitas.

Muitos afirmam hoje que Steven Soderbergh é um diretor superestimado e que esse seu novo trabalho seria mais um exemplo disso. Não chego a tanto. É inegável que Soderbergh é realmente um ótimo cineasta (seu passado que o diga). Porém, talvez devido ao seu caráter prolífico, acaba por denotar uma visível irregularidade e este “Contágio” faz parte de um dos pontos baixos do eletrocardiograma que se tornou sua carreira. Um produto com uma premissa que poderia render bem mais que o resultado mediano que se vê na tela, o qual, mesmo que não chegue a ser chato, por vezes faz lembrar um filme produzido para a TV. E, sim, tal afirmação significa que não precisa pagar caro para vê-lo no cinema, a menos que você faça o gênero hipocondríaco que sinta prazer em ver suas neuras radiografadas na telona.


Cotação:

Nota: 7,0

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Trilha Sonora #20


Não gostei muito da adaptação de "Watchmen" para o cinema, pois a considero bastante inferior à HQ que lhe deu origem. Todavia, não posso negar o brilhantismo de sua sequência inicial de créditos, uma da melhores que já vi. Talvez porque Zack Snyder seja oriundo dos videoclipes, ele soube casar à perfeição as imagens com a famosa música de Bob Dylan "The Times They Are A-Changin' ". Acompanhe no video abaixo a canção e as imagens (o que acaba tornando este post uma mescla com a série "Quero Ver Novamente"). De arrepiar!


The Times They Are A-Changin Watchmen Intro 2009 from Simon Morgenstern on Vimeo.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Palhaço



Risos e intimismo


Há poucos dias, em uma entrevista na TV, Selton Mello disse que há 30 anos nutre a dúvida de realmente ter feito a escolha certa ao seguir a carreira de ator, sentimento que até já o levou a momentos de depressão. Tendo conhecimento dessa circunstância podemos perceber que “O Palhaço”, o seu segundo filme na direção (o primeiro foi “Feliz Natal”, em 2008), possui linhas extremamente autorais. Afinal, Benjamim/Pangaré, o palhaço sem carteira de identidade e CPF que o ator e diretor interpreta no longa que teve sua estreia nacional na última sexta-feira, é um artista circense que se vê desmotivado com a vida que escolheu. Ou, pior ainda, que talvez não tenha escolhido, mas apenas herdado, dado que seu pai Valdemar (Paulo José), o dono do circo Esperança, também encarna o palhaço Puro Sangue, fazendo dupla com o filho no picadeiro. Destarte, tal sentimento de “destino imposto” é apenas mais um dos que fazem Benjamim oscilar. As limitações financeiras da vida mambembe, que chegam a transformar a compra de um mero ventilador em um “sonho de consumo”, também lhe fazem desejar seguir outro rumo, assim como a sensação de que o circo também prejudica muito a sua vida afetiva, impedindo-o de constituir laços sólidos com uma mulher.

Desta forma, vê-se que Selton soube levar o drama de Benjamim para além de uma questão unidimensional, assim como o são realmente as nossas escolhas e indecisões. O próprio fato de não possuir uma carteira de identidade serve como metáfora direta de que o referido palhaço ainda não sabe exatamente quem é e que quer ser. Da mesma maneira, o diretor teve a sabedoria de não transformar o enredo (com roteiro escrito pelo próprio Selton em parceria com Marcelo Vindicato) em um dramalhão acentuado, algo que poderia facilmente acontecer em mãos menos talentosas. Pelo contrário. A despeito do tom circunspecto que imprimiu a Pangaré, o longa, na maior parte do tempo, leva o espectador ao riso, sempre contrapondo o drama do protagonista a situações inusitadas e engraçadas, o que, por vezes, realça ainda mais o sentimento de solidão do mesmo. Dar ao riso efeitos intimistas é coisa para poucas obras e esta se destaca justamente por conseguir tal resultado.


Interessante observar que boa parte da narrativa se desenvolve de forma bastante visual. As inquietações de Benjamim são principalmente percebidas através de imagens, como, para citar um exemplo, os constantes olhares deste para os ventiladores, denotando o seu enorme desejo de possuir o aparelho. Além disso, as próprias apresentações circenses da trupe do Esperança funcionam como um elemento narrativo importante, servindo para contar a estória ao mesmo tempo que se colocam como marcos na psique do protagonista e ainda como revelação de conflitos latentes entre os personagens, como a insatisfação de Benjamim a respeito do relacionamento de seu pai com uma mulher bem mais jovem e atraente (Giselle Motta), mas de caráter bastante duvidoso. Interessante que os conflitos praticamente não são verbalizados, mas acabam percebidos pelo público sem que seja empreendido muito esforço, mais uma vez demonstrando que acreditar na inteligência do espectador é sempre uma atitude extremamente bem-vinda em uma obra cinematográfica.

Para contar uma narrativa de maneira tão visual e eficiente, a fotografia de Adrian Teijido dá uma enorme contribuição, sempre captando à perfeição as expressões dos personagens, com enquadramentos inteligentes e inusitados e sabendo utilizar muito bem os close-ups – algo raro no cinema brasileiro, que costuma exagerar nesse quesito por influência da televisão. A fotografia e a edição (do próprio Selton em parceria com Marília Moraes), ademais, nos dão por diversas vezes a sensação de estarmos realmente em um circo, uma impressão interessantíssima que me fez relembrar imediatamente as oportunidades em que de fato estive sob uma lona de picadeiro, fazendo-me rir como um garoto ao ver as palhaçadas de Pangaré e Puro Sangue. Aliada às ótimas montagem e fotografia está a trilha sonora, belíssima e sem cair em qualquer pieguice, culminando com a inserção de uma canção famosa na voz de Moacyr Franco, cantor hoje um tanto esquecido e que por sinal faz uma breve, embora bastante marcante e divertida, participação no longa.


E Moacyr não é o único artista esquecido a ser resgatado por Selton na produção. Revelando aqui as influências de Quentin Tarantino (cineasta que declaradamente é uma de suas maiores referências), Selton convidou figuras queridas e pouco lembradas como Ferrugem e Jorge Loredo (o Zé Bonitinho, lembram?) para também fazerem curtas e bem-humoradas pontas, ideia que deu ainda mais brilho ao competente elenco, mesmo que formado essencialmente por atores pouco conhecidos do grande público (uma das poucas exceções é a do seu irmão Danton). O show, entretanto, fica mesmo por conta da dupla Selton e Paulo José. Curioso que o diretor não pensava para si mesmo o papel de Benjamim/Pangaré, tendo primeiramente convidado Wagner Moura e Rodrigo Santoro para assumi-lo. Contudo, como ambos estavam já envolvidos em outros projetos que coincidiam com os prazos de “O Palhaço”, impossibilitando suas participações, sugeriram que o próprio diretor interpretasse o papel central. E este demonstra mais uma vez ser um dos melhores atores de sua geração, mesmo que esteja hoje querendo se dedicar mais à direção. Já Paulo José (amigo pessoal de Selton), além de sua ótima e contida atuação, nos entrega um verdadeiro exemplo de superação e amor à arte tendo em vista as dificuldades que hoje passa devido à doença de Parkinson que o acomete há anos e que o levou a implantar um eletrodo no cérebro para voltar a controlar os movimentos, muito embora ainda apresente hoje acentuada dificuldade na fala (não percebida na projeção).

Claro que, diante do tema circense, sempre somos levados às lembranças da obra do gênio Federico Fellini e, inevitavelmente, suas influências também se fazem sentir - alguns momentos me remeteram imediatamente a “A Estrada da Vida” (La Strada, 1954), inclusive a sua cena inicial, e a crise pela qual passa Benjamim relembra o Guido de “8 1/2”. Tal circunstância, entretanto, acaba sendo mais um elogio a esta obra de Selton, o qual se qualifica como um dos melhores diretores em atividade no Brasil já no seu segundo trabalho por trás das câmeras. Aliás, se pensarem este filme para uma possível campanha para o Oscar 2013 (já que para 2012 o nosso concorrente será “Tropa de Elite 2”) acredito que ele terá ótimas chances, pois mesmo o cinema mundial está carente de obras tão sensíveis e intimistas, filmes que fazem o público ser tocado ao mesmo tempo em que dá boas risadas na sala de exibição. Poucos autores atingiram este feito (Charles Chaplin, outro produtor-diretor-roteirista-ator, é o primeiro que me vem à mente) e Selton Mello conseguiu, qualificando-se, desta forma, como um autor de primeira linha e que parece ter um futuro brilhante pela frente.


Cotação:

Nota: 10,0

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

7 robôs marcantes do cinema

Com a estreia de “Gigantes de Aço”, longa onde robôs ocupam o lugar dos humanos nos ringues, o Cinema Com Pimenta publica uma lista (mais uma delas) destes seres artificiais responsáveis por momentos marcantes na Sétima Arte. Como sempre, a lista segue com 7 itens. Confira abaixo, sem ordem de preferência.


HAL 9000 – Sem dúvida, o personagem mais marcante de “2001 – Uma Odisseia No Espaço”. Kubrick foi um dos pioneiros na abordagem da inteligência artificial no cinema e HAL se consagrou como o ícone máximo do embate homem-máquina, mostrando que não apenas possuía inteligência, mas também sentimentos! (???). Paranoico que só ele, HAL ameaça a tripulação da nave Discovery após descobrir que será desativado. Inesquecível a sequência em que ele implora a Dave para não ser desligado, tentando se fazer de inocente e apelando para a compaixão do astronauta. Momento genial de um filme que é inteiramente genial.


R2-D2 – O robozinho querido de todo fã da série “Guerra nas Estrelas”, em contraposição ao chatíssimo C3PO. Por sinal, o que seria de Luke Skywalker sem ele?


Wall -E – Outro robô diminuto, mas inesquecível. Wall – E, habitante de um planeta Terra transformado em lixão, é mais humano que a maioria dos seres humanos. Um robô com alma de artista, protagonista do filme que leva seu nome. A Pixar atinge aqui um dos seus melhores momentos!



Rachael – A replicante interpretada por Sean Young em “Blade Runner – O Caçador de Androides” encanta Deckard (personagem de Harrison Ford) e o público com sua sensibilidade e a angústia de descobrir que é um ser artificial e não uma humana. Filosofia pura naquele que talvez seja o melhor filme de Ridley Scott! Bom, “Alien – O Oitavo Passageiro” também fica no páreo, mas “Blade Runner” é obra-prima.



David – Protagonista de “A.I. - Inteligência Artificial”, um garoto robô (papel de Haley Joel Osment) que deseja ser um menino normal e pede à Fada Azul que realize o seu sonho. O filme seria perfeito se terminasse justamente com David pedindo à Fada que o transformasse em um menino de verdade. Mas Spielberg, com sua tendência ao sentimentalismo, tratou de nos oferecer aquele final com jeito de comercial de amaciante Fofo. Uma quase obra-prima com um deslize grande no fim;



T-800 – Arnold Schwarzenegger já havia despontado para os holofotes em “Conan, o Bárbaro”, mas foi como o androide caçador de John Connors em “O Exterminador do Futuro” que ele se transformou em um grande astro. O filme teve mais três continuações, com outros robôs com a missão de destruir o futuro líder da resistência dos humanos contra as máquinas, mas nenhum foi tão carismático quanto o personificado por Arnoldão!



Maria – A precursora de todos os robôs do cinema é a imagem mais marcante e icônica de “Metrópolis”, o clássico da ficção-científica dirigido por Fritz Lang em 1927. Na verdade, a robô Maria é a contraparte malévola da personagem de mesmo nome que funciona como uma líder dos trabalhadores oprimidos pelo Mestre na cidade onde se passa a trama. Filme para ser visto e revisto e que eu estou precisando rever!

Bem, imagino que você deva ter os seus preferidos. Fique à vontade para discordar ou concordar aí nos comentários. Afinal, listas só servem para isso mesmo...

domingo, 23 de outubro de 2011

Gigantes de Aço




Agradável déjà vu


Sabe aquela sensação de já ter vivido ou visto alguma coisa antes, também conhecida como déjà vu? Os cientistas costumam explicá-la como um momento em que o cérebro ativa a região responsável pela memória logo após um fato ter sido visto ou vivenciado. No caso da arte, entretanto, principalmente do cinema norte-americano e sua atual crise de criatividade, não se trata exatamente de um fenômeno psíquico. Pelo contrário, o mais comum é realmente termos visto aquela estória narrada na tela em algum outro filme pretérito, normalmente uma produção que teve boa aceitação por parte do público no passado, mas que já não está tão fresca na mente das novas gerações, possibilitando que talvez elas aceitem a proposta como possuindo algo de original.

Essa sensação de déjà vu percorre toda a duração de “Gigantes de Aço” (Real Steel), longa que vem ocupando o topo das bilheterias norte-americanas e que teve sua estreia no Brasil na última sexta-feira. Falando sério (não confunda com a música de Roberto Carlos): seu roteiro parece uma colagem de “Rocky, Um Lutador” (Rocky, 1976), “O Campeão” (The Champ, 1979) e ainda outro com Sylvester Stallone, “Falcão - O Campeão dos Campeões” (Over The Top, 1987). Deste último, até o caminhão do personagem central está presente na trama, a qual apresenta como fio de originalidade a ideia de um futuro próximo em que as lutas esportivas entre seres humanos, como o boxe e o MMA, foram substituídas por lutas entre robôs, aptas a deixar extravasar toda a violência desejada pelas plateias. É nesse contexto que Charlie Kenton (Hugh Jackman), um ex-boxeador que chegou a ser o número 2 do mundo, tenta hoje sobreviver – sempre ajudado por Bailey Tallet (Evangeline Lilly), seu interesse romântico e filha do dono da academia onde treinava - comprando robôs de segunda mão para participar de lutas em ringues de apostas ilegais, sonhando em um dia chegar ao circuito profissional, o chamado WRB. Depois da perda de mais um robô e sem dinheiro para reconstruí-lo ou comprar um outro, Kenton recebe a notícia de que a mãe de seu filho Max (Dakota Goyo) faleceu, forçando-o a uma necessária aproximação com o garoto. Este, por sua vez, é fã das lutas de robôs, sabendo até mais do que o pai todos os detalhes do circuito profissional. Em certa oportunidade, os dois acabam encontrando em um lixão um antigo robô que servia apenas como sparring de outros lutadores e o menino, apesar da relutância do pai, cisma em transformá-lo em um campeão.


A partir desta sinopse, já dá pra perceber os caminhos que o enredo irá trilhar. Estão lá o velho drama de reaproximação de pai e filho, os quais inevitavelmente acabarão se entendendo. Também vemos a antiga história de superação de um Davi enfrentando um Golias, no melhor estilo do citado “Rocky”. Ou seja, o roteiro (escrito por John Gatins, Michael Caton-Jones e Sheldon Turner e baseado em um conto de Richard Matheson) é salpicado de clichês já previamente estabelecidos, com várias citações a clássicos do subgênero que na realidade beiram o plágio descarado. Estas circunstâncias tinham tudo para transformar “Gigantes de Aço” em um desastre, mas não é o que acontece devido à direção de Shaw Levy (responsável pelos dois “Uma Noite No Museu”) que, mesmo diante da previsibilidade da narrativa, consegue imprimir a ela um ótimo ritmo, além de nos brindar com sequências muito bem realizadas e envolventes, tanto naquelas que mostram a relação de pai e filho - onde percebemos nitidamente o dedo sentimental de Steven Spielberg, produtor executivo do longa - quanto nas fantásticas cenas de luta, coreografadas com excelência (contaram com a orientação do lendário campeão Sugar Ray Leonard) e que nos brindam com incríveis efeitos especiais que nos fazem acreditar que estamos diante de robôs de verdade, neste ponto só comparáveis aos da série “Transformers”. Desta forma, apesar de seu caráter previsível, o filme nunca se torna chato ou entendiante, mesmo que em certos momentos inevitavelmente busque emoções fáceis como ao inserir uma trilha sonora piegas e redundante.

Também para o seu sucesso colabora o elenco competente, mesmo que não excepcional. Hugh “Wolverine” Jackman pode não ser um ator excepcional, mas conta sempre com seu inegável carisma, além de possuir um físico perfeitamente adequado para encarnar um ex-lutador boxe. Já o garoto Dakota Goyo, apesar de aparentar um certa artificialidade em algumas cenas, compensa estas com outras onde demonstra que pode ter grande futuro, principalmente nas sequências finais da projeção. Por outro lado, a rapidez com que Charlie e Max resolvem seus conflitos acaba incomodando. Afinal, o garoto foi esquecido pelo pai ao longo de anos e a proximidade e cumplicidade que os dois adquirem em curto espaço de tempo terminam soando inverossímeis. Igualmente inverossímil é a capacidade de Max em consertar e rearranjar a engenharia dos robôs, algo complexo demais para um menino de 11 anos.

Destarte, é bom ter em mente o público para o qual o longa é voltado. Trata-se de um entretenimento basicamente destinado a garotos que estão justamente na faixa etária entre 10 e 13 anos e que certamente deixarão as salas bastante satisfeitos com o que viram. Se estivesse nessa idade com certeza sairia do cinema vibrando com o filme e veria diversas reprises. Todavia, como já passei dessa fase e já vi os filmes que o inspiraram, saí apenas com a sensação de ter vivido um déjà vu, ainda que muito agradável e atualizado para um público do século XXI com pouca memória cinematográfica.


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 22 de outubro de 2011

Aguardando por Tintim


Eu já estou em grande expectativa pela estreia de "As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne". O ótimo personagem saído das HQs de Hergé terá sua adaptação, como muitos já devem estar sabendo, dirigida por Steven Spielberg e produzida por Peter Jackson. Já estão previstas mais duas sequências. No próximo filme, as posições serão invertidas, com Jackson assumindo a direção. Para o terceiro, existe a possibilidade de que James Cameron fique com a batuta. Os trailers do primeiro episódio, um dos quais você pode ver abaixo, são bem estimulantes, onde percebemos que Spielberg está no seu terreno mais caro ao abordar uma aventura à moda antiga (no melhor estilo Indiana Jones). Só uma coisa me incomoda: as animações realizadas em motion capture aparentemente ainda não conseguiram resolver o problema da expressão dos olhos, que à vezes parecem de bonecos, algo que não acontece nos filmes em live action, como prova o mais recente "Planeta dos Macacos". Por que será?


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

O Homem Elefante
(The Elephant Man, 1980)


Nós somo
s o Homem Elefante


Talvez a mais perfeita síntese de “O Homem Elefante”, longa-metragem de 1980 dirigido por um ainda pouco conhecido David Lynch, tenha sido dada pelo próprio diretor ao comentar o personagem-título do seu trabalho: “uma bela alma aprisionada em um corpo horrível”. Esta é a perfeita tradução de quem realmente foi John Merrick, um homem portador de uma doença rara, a neurofribomatose múltipla e, dentre os pacientes da enfermidade, ele possivelmente foi aquele em que a mesma se apresentou com maior gravidade. Sim, essa história foi real, ocorrida no século XIX, durante a Inglaterra da Era Vitoriana e, depois de percorrer as pouco mais de duas horas de sua adaptação para o cinema, você perceberá que muitos dos “dissabores” pelos quais já passou na vida são uma mera contrariedade diante do que enfrentou este homem. Devido à sua doença, Merrick (no filme, com interpretação de John Hurt) apresentava um corpo totalmente deformado, com uma pele que lembrava a de um elefante (daí o seu “apelido”) e extremidades do corpo exageradamente desenvolvidas. Sua cabeça era tão desproporcional em relação ao corpo que o impedia de dormir como uma pessoa normal, não podendo deitar-se sob pena de morrer sufocado. Tinha uma vida miserável, sendo exibido como atração principal em um circo de horrores, onde era frequentemente espancado por seu “dono” , até ser encontrado pelo médico Frederick Treves (Anthony Hopkins na adaptação), o qual, possuidor de bom caráter, o leva para viver em um respeitado hospital em Londres, onde passa a receber cuidados constantes, mas ainda continua a ser alvo da curiosidade e reijeição alheia e tem dificuldades em se inserir socialmente.

A versão cinematográfica para história tão comovente era um antigo sonho do cineasta Mel Brooks, o qual lutou durante anos para conseguir viabilizar o projeto. Seu espírito de entrega foi tão grande que não consta seu nome como produtor nos créditos do filme. Famoso diretor de comédias, ele temia que o público não levasse a sério o que veria caso seu nome se fizesse presente na projeção. Ademais, Brooks teve outro grande mérito ao convidar o então pouco conhecido David Lynch para assumir a direção. Ele era apenas o diretor do esquisito “Eraserhead” (1977) quando aceitou o desafio de conduzir um drama que poderia descambar para o melodramático e o sentimentalismo barato como enorme facilidade. Mas, Lynch, claro, demonstrando todo seu talento, jamais cairia nessa armadilha. Ao contrário, usou de um rigor formal extremo, contando a história da forma mais objetiva possível, sem procurar induzir o espectador às emoções, já que estas brotariam naturalmente, sem qualquer esforço. Até mesmo sua tendência ao abstrato, algo tão comum em sua filmografia, foi deixada de lado em prol de uma narrativa direta e detentora de um profundo respeito pelo biografado. A rigidez da direção implica, inclusive, na quase ausência de trilha-sonora, uma decisão muito feliz, já que a sua inserção indevida, o que se daria provavelmente com temas catárticos, levaria de maneira fatal ao pieguismo.


Os únicos momentos em que Lynch deixa transparecer sua vertente mais abstrata são aqueles em que se vale da influência do expressionismo alemão para traduzir em imagens o que seriam pesadelos recorrentes de Merrick, sonhos onde sua mãe é atacada por uma manada de elefantes, podendo até ser identificada uma sugestão sexual nas sequências. Além disso, o princípio da narrativa é concebido como um suspense, uma vez que durante os primeiros 15 minutos, nos quais mostra-se a busca do Dr. Treves pelo misterioso homem que espanta aqueles que o veem, o personagem-título não é mostrado. Esse recurso, ao lado da fotografia em preto e branco, sugere ainda mais semelhanças com o citado movimento artístico. Um desavisado pode ate mesmo assistir ao longa sem acreditar que é uma produção estadunidense.

Por outro lado, os méritos de “O Homem Elefante” vão além dos puramente imagéticos. O roteiro, escrito por Christopher De Vore, Eric Bergren, além do próprio Lynch e baseado nos diários verídicos do Dr. Frederick Treves, é simplesmente magistral ao saber contrapor o exterior grotesco de John Merrick com seu interior inversamente proporcional. Merrick é um homem inteligente, culto, amável e cavalheiro, uma boa alma e ainda por cima dotada de grande sensibilidade artística. Em outras palavras: o oposto do que sua figura física transparece. E, na construção desse conflito entre imagem superficial e essencial, somos envolvidos em uma sucessão de cenas emocionantes. A sequência em que Merrick recita o Salmo 23 demonstrando a Treves e a seu superior no hospital que era algo além de um débil mental é uma das mais pungentes que já tive a oportunidade de ver em uma obra cinematográfica. Igualmente comovente é aquela em que Merrick afirma que é “um homem, não um animal”, após ser perseguido por curiosos em uma estação de trem. Ao mesmo tempo, Lynch, fugindo de facilidades, também não isenta totalmente o Dr. Treves de suas responsabilidades. É certo que ele tem ótimas intenções, mas sua conduta muitas vezes se assemelha ao do dono do circo onde vivia o paciente ao expô-lo à curiosidade alheia e alcançar fama e respeito de seus colegas cientistas ao exibir Merrick em congressos científicos.


Aliados aos méritos roteirísticos, estão os do elenco. Anthony Hopkins como o Dr. Treves está absolutamente excelente, em uma dos melhores trabalhos de sua carreira, fazendo-nos esquecer que um dia ele interpretou Hannibal Lecter. Por sua vez, Anne Bancroft (a Mrs. Robinson de “A Primeira Noite de Um Homem”), apesar de ter uma participação mais limitada, também está ótima como a Sra. Kendall, uma importante atriz da época que, com seu prestígio e carinho, confere alguma autoestima ao pobre protagonista Há, ainda, a boa presença de John Gielgud como o Dr. Carr Gomm, o austero, mas também sensível diretor do hospital. Contudo, obviamente, o maior show fica por conta de John Hurt na pele de Merrick. Mesmo que irreconhecível debaixo de tanta maquiagem (o ator chegou a passar 12 horas com maquiadores para poder entrar em cena), ele confere uma extrema humanidade ao personagem, sabendo transmitir, principalmente através do olhar e do tom de voz, o interior e as emoções daquele homem fustigado por um destino cruel. Uma pena que no Oscar ele tenha sofrido a concorrência do também brilhante Robert De Niro em "Touro Indomável" (Raging Bull, 1980). Os dois mereciam, na verdade.

Nas últimas linhas, afirmei que a interpretação do personagem de Merrick é dotada de muita humanidade. Pois bem, talvez o adjetivo “humano” seja o que melhor condiz com este trabalho de Lynch. Sem malabarismos, exageros ou pieguices, Lynch nos mostra, com grande refinamento, rigor e objetividade, que o homem elefante somos todos nós, seres humanos, sempre em busca de aceitação, compreensão, respeito e amor, mesmo que, como mencionado acima, dificilmente passemos por tantas agruras quanto ele. John Merrick é a representação extrema de nossas carências e também de nossas virtudes. Já tive a oportunidade de assistir três vezes a esta obra de arte irrepreensível e em todas elas nunca deixei de ficar tocado com a tormentosa existência de seu protagonista. E acredito que você também não ficará indiferente, afinal, todos nós já nos sentimos, pelo menos em algum momento de nossa existência, como o Homem Elefante.


Cotação e nota: Obra-prima.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Lola, A Flor Proibida
(Lola, 1961)


O début de Demy


Este foi o primeiro longa-metragem do cineasta Jacques Demy, um dos grandes diretores do cinema francês surgidos na esteira da Nouvelle Vague. Convém registrar que, a despeito de estar debutando na ocasião, Demy já demonstrava o talento e sensibilidade que seria a marca registrada de sua carreira. Possuidor de uma veia extremamente autoral, ele desenvolve com “Lola, A Flor Proibida”, uma espécie de ensaio sobre a sua visão do amor, este sentimento que muitas vezes nos faz sofrer, mas que ao mesmo tempo parece ser o único a dar sentido a nossas vidas. Demy, inclusive, demonstra um grande romantismo ao nos mostrar uma estória de amores que resistem ao tempo mesmo após anos de afastamento do ser amado, criando momentos realmente poéticos, tanto no aspectos textual quanto visual.

Uma da maiores influências de Demy veio de Max Olphüs, um dos grandes mestres na composição de dramas românticos – são de sua lavra filmes como “Na Teia do Destino” (The Reckless Moment, 1949) e “Carta de Uma Desconhecida” (Letter From An Unknown Woman, 1948), para citar exemplos do melhor da filmografia deste diretor alemão. Sendo assim, não é impunemente que Demy dedica, ainda nos créditos de abertura, esta sua obra a Oplhüs, inclusive retirando do título de um longa dele (“Lola Montés”, 1955) o nome de sua personagem central e que também intitula o seu próprio trabalho. É inspirado em Olphüs também que Demy constrói uma narrativa circular que lembra, em alguns momentos, a famosa “Quadrilha” do nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Afinal, o roteiro se desenvolve com vários personagens amando e não sendo amados, naquele estilo “João amava Maria que amava José...”, muito embora aqui, no fim das contas, todos os tipos masculinos vistos na tela acabem amando Lola (papel de Anouk Aimée no auge da beleza), o que a leva a se colocar como uma versão moderna de Penélope, a esposa de Ulisses, herói da mitologia greco-romana. Como se sabe, Penélope aguardou Ulisses durante anos, esperando que este regressasse da Guerra de Troia, resistindo aos cortejos dos diversos pretendentes que se apresentaram acreditando que o soberano de Ítaca havia morrido. Da mesma maneira, Lola resiste à perspectiva de ter uma nova vida com seus pretendentes em virtude do eterno amor por Michel, o pai do seu filho filho que a deixou sete anos antes prometendo voltar depois que conseguisse fortuna. Nas palavras do próprio cineasta, "me agradava muito a idéia de fazer algo sobre fidelidade, a fidelidade para lembrar e misturar ali minhas recordações de Nantes" (cidade natal de Jacques Demy).


Lola na realidade é o nome artístico de Cécile, uma sedutora dançarina de cabaré que, como falado nas linhas anteriores, está à espera do pai do seu menino Yvon. Depois de tanto tempo sem saber de notícias de Michel, entretanto, ela começa a fraquejar e mantém um caso com Frankie (Alan Scott), um marinheiro norte-americano que está sempre de passagem por Nantes, a cidade portuária onde ela vive. Sua aparência física e trato amável a fazem lembrar muito de Michel, além do marinheiro ter um comportamento bastante amável e atencioso com Yvon. Seus sentimentos ainda se entregam a maiores conflitos quando ela reencontra Roland Cassard (Marc Michel), um antigo amor de adolescência que já não via há muito tempo. Roland, por sua vez, é um jovem que está entediado com a vida, não vendo muito sentido em tudo que faz, nem mesmo no trabalho, sendo demitido pelo chefe depois de dizer a este uma frase que leu em um livro (que não ficamos sabendo qual é): “não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha 12 horas por dia sem saber por que ele trabalha”. E é justamente o reencontro com Cécile/Lola que lhe dará um novo sentido para a existência. Roland também trará uma nova perspectiva para a vida da Madame Desnoyers (Elina Labourdette), uma senhora abastada e solitária que, depois de encontrar com Cassard em uma biblioteca que ambos frequentam, passa a nutrir esperanças por ele. Ela é mãe da adolescente Cécile (Annie Duperoux), a qual faz Roland lembrar de Lola imediatamente, tanto pelo nome como pelos traços fisionômicos. A menina Cécile, por seu turno, acaba tendo sua primeira paixonite pelo marinheiro Frankie, o qual, como sabemos, é louco por Lola, que ama Michel, figura que é muito mencionada, mas que aparentemente ainda não entrou na estória... Ou seja, temos no roteiro (escrito pelo próprio diretor) uma estrutura circular em que todos os personagens acabam se ligando por nutrirem sentimentos uns pelos outros, sentimentos tratados com muita sensibilidade e poesia, é bom sublinhar. Vários são os momentos marcantes do longa, que nos brinda com frases memoráveis como “querer ser feliz já é também ser feliz”.


Mas não apenas os texto é notável. Demy imaginou o filme com um quase-musical em seus aspectos visual e cênico. Grande admirador dos musicais hollywoodianos, ele preenche a película com várias referências ao gênero, como o fato do marinheiro Frankie descer as escadas escorregando pelos corrimões. Uma das cenas mais marcantes do filme é justamente a que a protagonista dança e canta uma música - cuja letra é de autoria de Agnés Varda, também cineasta e esposa de Demy - em que se apresenta como “Lola”, numa cena típica de musicais e que ainda remete à performance de Marlene Dietrich como Lola Lola (mas como os cineastas gostam desse nome, não?) em “O Anjo Azul” (Der Blaue Engel, 1930). Acrescente-se a isso trilha sonora constante do excelente Michel Legrand (com inserções de Mozart e Beethoven em algumas passagens) e temos um resultado muito próximo do que se define como um longa musical. Não é à toa que Demy alcançaria grande sucesso mais tarde em verdadeiras incursões no gênero com os musicais “O Guarda-Chuvas do Amor” (Les Parapluies de Cherbourg, 1964) e “Duas Garotas Românticas” (Les Demoiselles de Rochefort, 1967), os quais parecem surgir como consequência natural de suas influências. É importante até mesmo frisar que alguns ramos da narrativa que podem até parecer deslocados, como o da adolescente Cécile, em verdade até enriquecem a obra, já que, neste caso, a garota representa a repetição da vida de Lola, constituindo uma interessante analogia.

Mas “Lola” é, antes de tudo, um filme sentimental e otimista onde conhecemos pessoas que são resgatadas da solidão pelo amor. Uma característica marcante de cada um dos personagens, mesmo o alegre Frankie e a sedutora Lola, é a sensação de que os mesmos são solitários, mesmo que tentem não deixar transparecer. E Demy sugere que só mesmo o amor pode transformar verdadeiramente suas vidas, retirando-os da inércia e encorajando-os a novas experiências. “Lola, A Flor Proibida” se coloca, com toda certeza, entre as melhores estreias de um diretor. Já neste début, Jacques Demy mostrava que viria a ser um dos nomes mais queridos da Nouvelle Vague. Se muitos consideram que cinema “autoral” costuma significar cinema “chato” é porque não viram esta obra simples, direta, mas ao mesmo tempo dotada de grande sensibilidade e que jamais irá lhe desagradar.


Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eu Quero Esse Pôster #16


"Sob O Domínio do Medo" é o título em português deste filme de Sam Peckinpah realizado em 1971 e protagonizado por Dustin Hoffman. Ainda não tive a oportunidade de vê-lo, mas sem dúvida a sua arte promocional é bastante interessante. Se o longa for no mesmo nível, imagino que seja mesmo uma bela obra!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Amizade Colorida



O caminho é mais importante que o destino


A comédia romântica é o subgênero cinematográfico que provavelmente mais foi castigado ao longo dos anos, principalmente devido ao seu inescusável final feliz. Afinal, se não fosse assim, a comédia não seria “romântica”. Então, costumamos assistir àquela velha historinha que pode ser resumida como “garoto encontra garota, se apaixonam, enfrentam algumas dificuldades, mas no fim são felizes para sempre”. Simples e batido desta forma mesmo, mas o público, principalmente o feminino, parece jamais se cansar de tal fórmula. Entretanto, mesmo dentro de um esquema tão limitado, é possível adicionar novos temperos para tornar a experiência interessante, por mais que possamos vislumbrar como tudo aquilo terminará.

É isso que teve em mente o pouco conhecido diretor Will Gluck ao realizar este “Amizade Colorida” (Friends With Benefits). Não existe grande novidade no fato de Dylan Harper (Justin Timberlake) e Jamie (Mila Kunis) se encontrarem, descobrirem que se sentem atraídos um pelo outro e terminarem juntinhos no desfecho da trama (opa, não dá pra se chatear e afirmar que a última frase é um spoiler, né?). O que há de novo é o trajeto até este fim. Antenado com os novos tempos, Gluck, que também é coautor do roteiro (ao lado de Keith Merryman, David A. Newman e Harley Peyton), soube atualizar o velho conto de fadas tendo em vista as mudanças comportamentais ocorridas nas últimas décadas. Afinal, a premissa do longa se baseia no conceito de que Jamie e Dylan se sentem atraídos, mas, devido a frustrados relacionamentos anteriores, acabam por ter uma relação sustentada apenas no sexo, mas sem compromissos afetivos a não ser a amizade. Ok, sei que há um outro filme recente protagonizado por Natalie Portman que trata do mesmo tema – o que desfaz um pouco a ideia novidadeira da produção. Contudo, é inegável que os responsáveis por “Amizade Colorida”* tratam o tema de forma adulta e, ao mesmo tempo, extremamente bem-humorada, resultando em uma comédia inteligente em que não fazemos qualquer esforço para rir.

Ao contrário do que normalmente sucede no gênero, os personagens são tridimensionais, possuindo não apenas o presente, mas também um passado que explica suas atitudes. Acompanhando a narrativa, vemos que Dylan teve problemas sérios em sua família que o levam a se sentir inseguro emocionalmente, enquanto Jamie é o exato reflexo do paradoxo de boa parte das mulheres de hoje: independentes profissionalmente, mas ainda à espera de um príncipe encantado. Ela é uma caça-talentos que vê em Dylan, até então apenas um blogueiro criativo, um grande potencial para a área de criação gráfica. Assim, a moça acaba convencendo o jovem a morar em Nova York (com direito a momento “Manhattan” na tela) e trabalhar em uma importante publicação, resultando daí o surgimento da tal amizade “colorida”. É importante frisar que o enredo é recheado de ótimos diálogos e, claro, muitas passagens realmente engraçadas que usam e abusam de um humor mais adulto, cheio de tiradas picantes. Interessante que, mesmo se valendo do sexo como matéria-prima do riso, nãos sentimos que o longa apela para a vulgaridade e poucos são os autores que alcançam tal proeza. Além disso, Gluck imprime um ótimo ritmo ao filme, o qual jamais cai na monotonia, mesmo quando surgem os inevitáveis artifícios para o casal ficar junto.


Para uma comédia ter sucesso, obviamente um dos principais aspectos é o elenco escalado e a escolha deste se mostrou aqui muito feliz. Mila Kunis está demonstrando cada vez mais o seu potencial como estrela, unindo talento e carisma (curioso que ela e Portman enveredaram pelos mesmos caminhos para operar o descarrego de “Cisne Negro”). Por seu turno, Justin Timberlake vem mesmo se colocando como uma ótima surpresa. Em seu primeiro papel como protagonista, ele confirma as boas impressões de atuações em papeis coadjuvantes (como em “A Rede Social”). Sua desenvoltura é notável e ele parece se sentir muito mais à vontade do que outros atores de carreira. O rapaz tem futuro na profissão, não se pode negar. Aliás, já fazia tempo não via um casal com uma química tão boa em cena. Para colocar a cereja no bolo, ainda temos Woody Harrelson como o impagável amigo gay de Dylan, sempre divertido em todas as suas aparições.

Apesar disso, o filme ainda sofre com algumas falhas sensíveis. Existem problemas de continuidade irritantes, como em uma sequência no aeroporto em que o pai de Dylan chega de cadeira de rodas e sai andando. Ademais, o Alzheimer do personagem fica mal caracterizado, muitas vezes não parecendo que ele é doente. Em outra vertente, o momento “Manhattan” citado mais acima soa deslocado, com as homenagens e citações a Nova York meio que introduzidas a fórceps na trama. Ressalte-se, inclusive, que algumas piadas acabam por ter um gosto muito forte de hambúrguer, aptas apenas a fazer rir o público norte-americano (ou pessoas bastante conhecedoras de sua cultura).

A despeito desses problemas, “Friends With Benefits” traz um resultado bastante satisfatório, bem acima da média das comédias românticas que costumam entrar em cartaz. A feliz comparação empreendida pelo filme ao usar o flashmob (aquelas aglomerações de pessoas que se reúnem para uma ação determinada e se dispersam tão rapidamente quanto se juntam) como metáfora para os relacionamentos modernos é bastante inteligente e, como já falado, não é sempre que vemos boas ideias neste subgênero. Esta experiência é o típico caso em que o trajeto da viagem e suas paisagens são mais importantes que o destino, já bastante conhecido por todos. Entretanto, sem dúvida é uma viagem que faz valer à pena o preço do ingresso, mesmo que ela não vá mudar sua vida.


Cotação:

Nota: 8,0


* O título em português é o mesmo de uma antiga série da Rede Globo, o que demonstra o quanto os americanos são conservadores e estão bastante atrasados na abordagem de alguns temas.

domingo, 2 de outubro de 2011

O espírito do rock se fez presente


Pausa no cinema.

É muito bom quando nós nos surpreendemos com algo inesperado. Sendo bem sincero, eu não estava dando muita bola para essa edição do Rock In Rio. Quando vi o line up do festival, notei a presença de uma quantidade muito grande de atrações que estavam bem mais pro pop do que pro rock, algumas de talento bastante duvidoso, é importante sublinhar (a escalação de Ke$ha me deu um embrulho no estômago).

Mas eis que as apresentações foram se seguindo, dia após dia, e fui me surpreendendo com o que estamos acompanhando. Esta quarta edição do festival vem contando com um público vibrante, empolgado e que sabe respeitar as diferenças entre aqueles que se apresentam. Claro que a organização também soube distribuir bem os dias das atrações, acabando com incoerências como colocar Carlinhos Brown para cantar no dia do Guns'n Roses (como em 2001) e evitando assim momentos constrangedores para os artistas. Mesmo que alguns shows acabem se mostrando de fato a mediocridade esperada, como o da citada Ke$ha (com sua voz ridícula, demonstrou que não tem mesmo condições de se apresentar em um festival como esse), outros tantos já se tornaram antológicos. São os casos de Stevie Wonder, que fez uma apresentação memorável com direito à galera cantando com ele “Garota de Ipanena”; Joss Stone, aquela menina talentosíssima (e bonita) e que fez um show incrível mesmo estando escalada para o palco Sunset (secundário), com o público gritando seu nome em coro ao fim da apresentação, além de Shakira, que arrebatou o público com um show empolgado (chegou a levar fãs pro palco para ensiná-las a dançar) e uma ótima participação de Ivete Sangalo em dueto cantando “País Tropical”. Outras apresentações memoráveis foram a do Capital Inicial, com um público vibrante e levantando poeira a cada música, e a homenagem à Legião Urbana, que teve participação da Orquestra Sinfônica Brasileira e dos dois integrantes remanescentes do grupo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, ocasião em que nem seriam necessários vocalistas, uma vez que o público cantava em uníssono todas as músicas.


O festival já seria ótimo com todos estes ótimos shows, mas este último sábado (e madrugada de domingo) resultou ainda mais especial. Todos as performances, de Frejat ao Coldplay, passando por Maná e Maroon 5, contaram com uma participação eletrizante do público. Em todas as apresentações, as pessoas entoavam as canções de início ao fim. Impressionante. O Skank fez um show definitivamente antológico. O próprio Samuel Rosa decidiu filmar o momento histórico. Como ele próprio disse “não é todo dia que se canta para 100 000 pessoas e todas elas estão interessadas na sua música”. O Maná cantou “Vivir Sin Aire” como se estivesse tocando no México, tamanha a empatia com a plateia e o coro que o acompanhava. O Maroon 5 foi na mesma balada. Acredito que os seus integrantes devem ter pensado “nossa, eles sabem todas as músicas”. E, por fim, veio o Coldplay com uma apresentação impecável, pirotécnica, fãs enlouquecidos e até com homenagem a Amy Winehouse (Chris Martin cantou “Rehab”). Eu quase chorei quando tocaram "Yellow"! Depois de ontem, creio que esta edição do Rock In Rio só rivaliza com a primeira, de 1985. Se eu já senti essa energia do sofá da sala, fico imaginando como seria estar lá. Espetacular!

Tudo isso só reforça uma opinião que sempre tive: não existe público como o brasileiro. Nós temos muitos defeitos, mas também é verdade que somos calorosos como nenhum outro povo é no mundo. Acredito que muitos dos artistas que se apresentaram nesta edição do festival vão querer lançar DVDs ou Blu-Rays com seus respectivos shows. Não é pra menos. O público do Brasil está demonstrando nesse festival o estado de espírito que o País está vivendo, encarando o presente de forma positiva e com mais otimismo ainda quando olha para o futuro. Alguns amuados podem dizer que essas coisas só servem para fazer o povo esquecer do que é realmente importante. Entendo a crítica, afinal o povo brasileiro não se reúne em multidões para protestar contra a corrupção, por exemplo. Mas, como diz uma antiga música de uma famosa banda nacional, nós também queremos “diversão e arte”. E hoje ainda tem o Guns'n Roses para terminar o festival. Provavelmente também vai arrepiar, neste festival que, mesmo com tantas estrelas “pop” convidadas, mostrou que o espírito do rock está presente mais do que nunca.

Abaixo, seguem alguns vídeos com momentos especiais desta quarta edição do Rock In Rio. Ah, e não, não estou escrevendo tudo isso para fazer marketig para Roberto Medina. Eu apenas gosto de música mesmo... :=)











quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Gilda
(Gilda, 1946)


Nunca houve um estigma como Gilda


Neste último domingo, eu estava acompanhando um certo programa esportivo apenas por um motivo: seria exibida uma matéria acerca do filme que está sendo produzido sobre a vida de Heleno de Freitas, jogador de futebol que fez fama nos anos 40 e início dos 50 atuando pelo Botafogo, meu clube do coração. Dentre o vários detalhes que foram exibidos sobre a vida do referido futebolista, comentou-se que lhe foi atribuído o apelido de “Gilda”, numa alusão à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de 1946. Nesse momento, lembrei de um detalhe importantíssimo: eu possuía este clássico na minha coleção pessoal, mas não havia assistido, e olha que tinha muita curiosidade de vê-lo há um bom tempo. Bem, então resolvi sanar este problema quase de imediato: vi o longa-metragem na tarde deste último domingo (antes do jogo do meu Botafogo, claro...).

Na verdade, eu tinha poucas referências sobre esta obra de Charles Vidor, mais um diretor de origem judia e europeia (no caso, húngara) que emigrou para os EUA na primeira metade do século XX. Sabia apenas que se tratava do filme mais lembrado da estrela Hayworth; já havia visto várias vezes na TV a cena em que ela dança enquanto retira as luvas dos braços e que a frase que sempre emoldurou o poster da produção é “nunca houve uma mulher como Gilda”. Ou seja, conhecimentos bastante superficiais. A película, entretanto, foi revelando várias surpresas ao longo de seus 110 minutos. A primeira, que na realidade não é tão surpresa assim, é a de que “Gilda” é um típico filme noir. Estão lá presentes todos os seus elementos. Um protagonista de caráter dúbio (interpretado por Glenn Ford), envolvido com outras pessoas de caráter mais reprovável ainda (criminosos, para ser mais exato), além da inevitável femme fatale, no caso a personagem que dá o título ao longa-metragem e as indefectíveis fumaças de cigarro que sobem durante quase todo o filme. Além disso, Rita Hayworth se mostra mesmo uma mulher muito bonita e dotada de uma sensualidade ainda provocante até para os padrões de hoje. E isso ainda ressalvando que sua atuação não se pauta na vulgaridade. Pelo contrário. Gilda por vezes instiga muito mais por seus olhares e frases de efeito do que por apelar a dotes físicos ou sexualidade verbal explícita. Contudo, o que mais pode surpreender o espectador é a presença de um esguio subtexto homoerótico, principalmente se lembrarmos que a produção é da década de 40.


A relação entre o personagem de Glenn Ford, de nome Johnny Farrell, um aventureiro perdido na Argentina durante os anos da Segunda Guerra, e o de George Macready, o dono de cassino Ballin Mundson, é mesmo cheia de situações e nuances nubladas. A começar pela forma como rapidamente Ballin “apadrinha” Johnny. Este último estava sendo vítima de um assalto quando Ballin o salva usando de suas habilidades no uso de uma bengala que esconde uma espécie de punhal em sua extremidade. Após esse encontro, Johnny passa a trabalhar para Ballin e, em pouco tempo, já se torna seu braço direito. Usando uma frase constante do longa, o qual possui uma narrativa em off do personagem de Johnny: “tudo ia muito bem, parecia que seria sempre apenas nós dois, quando Ballin viajou e retornou com algo inesperado”. Parece mesmo que há algo a mais entre os dois e os mistérios só crescem quando Johnny descobre que a tal surpresa de Ballin é Gilda, uma paixão do passado do protagonista, mas que Ballin ignora. Aliás, ele já está casado com a femme fatale e pede a Johnny que ele a vigie de perto para evitar que o traia. Interessante frisar que Johnny acaba não se importando se Gilda dá as sua saídas com estranhos, desde que Ballin não saiba e venha a ficar magoado. Esse roteiro cheio de meios-termos foi escrito por duas mulheres (algo incomum para a época), Jo Eisinger e Marion Parsonet (baseadas em romance de E. A. Ellington), além de contar com outra representante feminina na produção, Virginia Van Upp (então esposa do todo-poderoso da Columbia, Henry Cohn). É provável que este encontro de mulheres na criação tenha rendido uma brincadeira com os tipos masculinos, uma piada com a misoginia comum a muitos filmes noir. Destarte, não deixa de ser curioso observar essa dubiedade na produção de uma Hollywood extremamente conservadora - ainda o é até hoje, quem dirá nos idos de 40...


Entretanto, o que há de mais rico na narrativa são os diálogos afiadíssimos - responsáveis por frases memoráveis – além do desenvolvimento da personagem de Gilda. A princípio, podemos entendê-la como uma mulher dominadora, mas o transcorrer do enredo mostra exatamente o contrário. Ela se mostra muito frágil ao realizar todas as suas ações tendo como único norte a sua indisfarçável paixão por Johnny. Todas as suas atitudes buscam perturbá-lo de alguma forma, provocando ciúmes ou causando desentendimentos com o seu benfeitor. Ademais, um aspecto interessante da narrativa é que nunca ficamos sabendo o que separou Johnny e Gilda no passado, deixando a trama ainda mais intrigante. Por outro lado, a direção de Vidor deixa a desejar em alguns momentos, com uma montagem um tanto atropelada – principalmente quando próximo do desfecho - além da inexistência de cenas externas. O filme se passa em Buenos Aires, mas jamais vemos qualquer imagem da cidade. O único indício de que se trata de uma país latino são as falas em espanhol (meio tosco, diga-se de passagem) de alguns personagens. Tudo bem que a produção tivesse orçamento limitado, mas havia formas de driblar essa limitação, como usar imagens projetadas da localidade, artifício utilizado por Alfred Hitchcock em “Interlúdio” (Notorious), lançado também no mesmo ano.

Descontados os percalços, “Gilda” se sustenta como um bom filme noir, com algumas reviravoltas e diálogos, como já dito mais acima, bastante saborosos. Mas a verdade é que ele entrou mesmo para a história como o ápice da carreira da estrela Rita e também como sua maldição. Ao cantar “Put The Blame On Mame” na famosa cena do quase strip-tease com as luvas, Hayworth se transformou para sempre em Gilda, jamais conseguindo desligar sua imagem do papel que interpretou. A famosa frase da atriz, “os homens dormem com Gilda e acordam com Rita” é o exato reflexo dos sentimentos de uma mulher condenada a ser para sempre uma fantasia, uma ficção. Afinal, ao se falar em Rita Hayworth qual a primeira imagem que lhe vem à mente? Olhando por este ângulo, talvez nunca realmente tenha havido uma personagem como Gilda, um estigma que acompanhará sua intérprete enquanto existir cinema.


Cotação:

Nota: 8,5