terça-feira, 18 de outubro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

O Homem Elefante
(The Elephant Man, 1980)


Nós somo
s o Homem Elefante


Talvez a mais perfeita síntese de “O Homem Elefante”, longa-metragem de 1980 dirigido por um ainda pouco conhecido David Lynch, tenha sido dada pelo próprio diretor ao comentar o personagem-título do seu trabalho: “uma bela alma aprisionada em um corpo horrível”. Esta é a perfeita tradução de quem realmente foi John Merrick, um homem portador de uma doença rara, a neurofribomatose múltipla e, dentre os pacientes da enfermidade, ele possivelmente foi aquele em que a mesma se apresentou com maior gravidade. Sim, essa história foi real, ocorrida no século XIX, durante a Inglaterra da Era Vitoriana e, depois de percorrer as pouco mais de duas horas de sua adaptação para o cinema, você perceberá que muitos dos “dissabores” pelos quais já passou na vida são uma mera contrariedade diante do que enfrentou este homem. Devido à sua doença, Merrick (no filme, com interpretação de John Hurt) apresentava um corpo totalmente deformado, com uma pele que lembrava a de um elefante (daí o seu “apelido”) e extremidades do corpo exageradamente desenvolvidas. Sua cabeça era tão desproporcional em relação ao corpo que o impedia de dormir como uma pessoa normal, não podendo deitar-se sob pena de morrer sufocado. Tinha uma vida miserável, sendo exibido como atração principal em um circo de horrores, onde era frequentemente espancado por seu “dono” , até ser encontrado pelo médico Frederick Treves (Anthony Hopkins na adaptação), o qual, possuidor de bom caráter, o leva para viver em um respeitado hospital em Londres, onde passa a receber cuidados constantes, mas ainda continua a ser alvo da curiosidade e reijeição alheia e tem dificuldades em se inserir socialmente.

A versão cinematográfica para história tão comovente era um antigo sonho do cineasta Mel Brooks, o qual lutou durante anos para conseguir viabilizar o projeto. Seu espírito de entrega foi tão grande que não consta seu nome como produtor nos créditos do filme. Famoso diretor de comédias, ele temia que o público não levasse a sério o que veria caso seu nome se fizesse presente na projeção. Ademais, Brooks teve outro grande mérito ao convidar o então pouco conhecido David Lynch para assumir a direção. Ele era apenas o diretor do esquisito “Eraserhead” (1977) quando aceitou o desafio de conduzir um drama que poderia descambar para o melodramático e o sentimentalismo barato como enorme facilidade. Mas, Lynch, claro, demonstrando todo seu talento, jamais cairia nessa armadilha. Ao contrário, usou de um rigor formal extremo, contando a história da forma mais objetiva possível, sem procurar induzir o espectador às emoções, já que estas brotariam naturalmente, sem qualquer esforço. Até mesmo sua tendência ao abstrato, algo tão comum em sua filmografia, foi deixada de lado em prol de uma narrativa direta e detentora de um profundo respeito pelo biografado. A rigidez da direção implica, inclusive, na quase ausência de trilha-sonora, uma decisão muito feliz, já que a sua inserção indevida, o que se daria provavelmente com temas catárticos, levaria de maneira fatal ao pieguismo.


Os únicos momentos em que Lynch deixa transparecer sua vertente mais abstrata são aqueles em que se vale da influência do expressionismo alemão para traduzir em imagens o que seriam pesadelos recorrentes de Merrick, sonhos onde sua mãe é atacada por uma manada de elefantes, podendo até ser identificada uma sugestão sexual nas sequências. Além disso, o princípio da narrativa é concebido como um suspense, uma vez que durante os primeiros 15 minutos, nos quais mostra-se a busca do Dr. Treves pelo misterioso homem que espanta aqueles que o veem, o personagem-título não é mostrado. Esse recurso, ao lado da fotografia em preto e branco, sugere ainda mais semelhanças com o citado movimento artístico. Um desavisado pode ate mesmo assistir ao longa sem acreditar que é uma produção estadunidense.

Por outro lado, os méritos de “O Homem Elefante” vão além dos puramente imagéticos. O roteiro, escrito por Christopher De Vore, Eric Bergren, além do próprio Lynch e baseado nos diários verídicos do Dr. Frederick Treves, é simplesmente magistral ao saber contrapor o exterior grotesco de John Merrick com seu interior inversamente proporcional. Merrick é um homem inteligente, culto, amável e cavalheiro, uma boa alma e ainda por cima dotada de grande sensibilidade artística. Em outras palavras: o oposto do que sua figura física transparece. E, na construção desse conflito entre imagem superficial e essencial, somos envolvidos em uma sucessão de cenas emocionantes. A sequência em que Merrick recita o Salmo 23 demonstrando a Treves e a seu superior no hospital que era algo além de um débil mental é uma das mais pungentes que já tive a oportunidade de ver em uma obra cinematográfica. Igualmente comovente é aquela em que Merrick afirma que é “um homem, não um animal”, após ser perseguido por curiosos em uma estação de trem. Ao mesmo tempo, Lynch, fugindo de facilidades, também não isenta totalmente o Dr. Treves de suas responsabilidades. É certo que ele tem ótimas intenções, mas sua conduta muitas vezes se assemelha ao do dono do circo onde vivia o paciente ao expô-lo à curiosidade alheia e alcançar fama e respeito de seus colegas cientistas ao exibir Merrick em congressos científicos.


Aliados aos méritos roteirísticos, estão os do elenco. Anthony Hopkins como o Dr. Treves está absolutamente excelente, em uma dos melhores trabalhos de sua carreira, fazendo-nos esquecer que um dia ele interpretou Hannibal Lecter. Por sua vez, Anne Bancroft (a Mrs. Robinson de “A Primeira Noite de Um Homem”), apesar de ter uma participação mais limitada, também está ótima como a Sra. Kendall, uma importante atriz da época que, com seu prestígio e carinho, confere alguma autoestima ao pobre protagonista Há, ainda, a boa presença de John Gielgud como o Dr. Carr Gomm, o austero, mas também sensível diretor do hospital. Contudo, obviamente, o maior show fica por conta de John Hurt na pele de Merrick. Mesmo que irreconhecível debaixo de tanta maquiagem (o ator chegou a passar 12 horas com maquiadores para poder entrar em cena), ele confere uma extrema humanidade ao personagem, sabendo transmitir, principalmente através do olhar e do tom de voz, o interior e as emoções daquele homem fustigado por um destino cruel. Uma pena que no Oscar ele tenha sofrido a concorrência do também brilhante Robert De Niro em "Touro Indomável" (Raging Bull, 1980). Os dois mereciam, na verdade.

Nas últimas linhas, afirmei que a interpretação do personagem de Merrick é dotada de muita humanidade. Pois bem, talvez o adjetivo “humano” seja o que melhor condiz com este trabalho de Lynch. Sem malabarismos, exageros ou pieguices, Lynch nos mostra, com grande refinamento, rigor e objetividade, que o homem elefante somos todos nós, seres humanos, sempre em busca de aceitação, compreensão, respeito e amor, mesmo que, como mencionado acima, dificilmente passemos por tantas agruras quanto ele. John Merrick é a representação extrema de nossas carências e também de nossas virtudes. Já tive a oportunidade de assistir três vezes a esta obra de arte irrepreensível e em todas elas nunca deixei de ficar tocado com a tormentosa existência de seu protagonista. E acredito que você também não ficará indiferente, afinal, todos nós já nos sentimos, pelo menos em algum momento de nossa existência, como o Homem Elefante.


Cotação e nota: Obra-prima.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Lola, A Flor Proibida
(Lola, 1961)


O début de Demy


Este foi o primeiro longa-metragem do cineasta Jacques Demy, um dos grandes diretores do cinema francês surgidos na esteira da Nouvelle Vague. Convém registrar que, a despeito de estar debutando na ocasião, Demy já demonstrava o talento e sensibilidade que seria a marca registrada de sua carreira. Possuidor de uma veia extremamente autoral, ele desenvolve com “Lola, A Flor Proibida”, uma espécie de ensaio sobre a sua visão do amor, este sentimento que muitas vezes nos faz sofrer, mas que ao mesmo tempo parece ser o único a dar sentido a nossas vidas. Demy, inclusive, demonstra um grande romantismo ao nos mostrar uma estória de amores que resistem ao tempo mesmo após anos de afastamento do ser amado, criando momentos realmente poéticos, tanto no aspectos textual quanto visual.

Uma da maiores influências de Demy veio de Max Olphüs, um dos grandes mestres na composição de dramas românticos – são de sua lavra filmes como “Na Teia do Destino” (The Reckless Moment, 1949) e “Carta de Uma Desconhecida” (Letter From An Unknown Woman, 1948), para citar exemplos do melhor da filmografia deste diretor alemão. Sendo assim, não é impunemente que Demy dedica, ainda nos créditos de abertura, esta sua obra a Oplhüs, inclusive retirando do título de um longa dele (“Lola Montés”, 1955) o nome de sua personagem central e que também intitula o seu próprio trabalho. É inspirado em Olphüs também que Demy constrói uma narrativa circular que lembra, em alguns momentos, a famosa “Quadrilha” do nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Afinal, o roteiro se desenvolve com vários personagens amando e não sendo amados, naquele estilo “João amava Maria que amava José...”, muito embora aqui, no fim das contas, todos os tipos masculinos vistos na tela acabem amando Lola (papel de Anouk Aimée no auge da beleza), o que a leva a se colocar como uma versão moderna de Penélope, a esposa de Ulisses, herói da mitologia greco-romana. Como se sabe, Penélope aguardou Ulisses durante anos, esperando que este regressasse da Guerra de Troia, resistindo aos cortejos dos diversos pretendentes que se apresentaram acreditando que o soberano de Ítaca havia morrido. Da mesma maneira, Lola resiste à perspectiva de ter uma nova vida com seus pretendentes em virtude do eterno amor por Michel, o pai do seu filho filho que a deixou sete anos antes prometendo voltar depois que conseguisse fortuna. Nas palavras do próprio cineasta, "me agradava muito a idéia de fazer algo sobre fidelidade, a fidelidade para lembrar e misturar ali minhas recordações de Nantes" (cidade natal de Jacques Demy).


Lola na realidade é o nome artístico de Cécile, uma sedutora dançarina de cabaré que, como falado nas linhas anteriores, está à espera do pai do seu menino Yvon. Depois de tanto tempo sem saber de notícias de Michel, entretanto, ela começa a fraquejar e mantém um caso com Frankie (Alan Scott), um marinheiro norte-americano que está sempre de passagem por Nantes, a cidade portuária onde ela vive. Sua aparência física e trato amável a fazem lembrar muito de Michel, além do marinheiro ter um comportamento bastante amável e atencioso com Yvon. Seus sentimentos ainda se entregam a maiores conflitos quando ela reencontra Roland Cassard (Marc Michel), um antigo amor de adolescência que já não via há muito tempo. Roland, por sua vez, é um jovem que está entediado com a vida, não vendo muito sentido em tudo que faz, nem mesmo no trabalho, sendo demitido pelo chefe depois de dizer a este uma frase que leu em um livro (que não ficamos sabendo qual é): “não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha 12 horas por dia sem saber por que ele trabalha”. E é justamente o reencontro com Cécile/Lola que lhe dará um novo sentido para a existência. Roland também trará uma nova perspectiva para a vida da Madame Desnoyers (Elina Labourdette), uma senhora abastada e solitária que, depois de encontrar com Cassard em uma biblioteca que ambos frequentam, passa a nutrir esperanças por ele. Ela é mãe da adolescente Cécile (Annie Duperoux), a qual faz Roland lembrar de Lola imediatamente, tanto pelo nome como pelos traços fisionômicos. A menina Cécile, por seu turno, acaba tendo sua primeira paixonite pelo marinheiro Frankie, o qual, como sabemos, é louco por Lola, que ama Michel, figura que é muito mencionada, mas que aparentemente ainda não entrou na estória... Ou seja, temos no roteiro (escrito pelo próprio diretor) uma estrutura circular em que todos os personagens acabam se ligando por nutrirem sentimentos uns pelos outros, sentimentos tratados com muita sensibilidade e poesia, é bom sublinhar. Vários são os momentos marcantes do longa, que nos brinda com frases memoráveis como “querer ser feliz já é também ser feliz”.


Mas não apenas os texto é notável. Demy imaginou o filme com um quase-musical em seus aspectos visual e cênico. Grande admirador dos musicais hollywoodianos, ele preenche a película com várias referências ao gênero, como o fato do marinheiro Frankie descer as escadas escorregando pelos corrimões. Uma das cenas mais marcantes do filme é justamente a que a protagonista dança e canta uma música - cuja letra é de autoria de Agnés Varda, também cineasta e esposa de Demy - em que se apresenta como “Lola”, numa cena típica de musicais e que ainda remete à performance de Marlene Dietrich como Lola Lola (mas como os cineastas gostam desse nome, não?) em “O Anjo Azul” (Der Blaue Engel, 1930). Acrescente-se a isso trilha sonora constante do excelente Michel Legrand (com inserções de Mozart e Beethoven em algumas passagens) e temos um resultado muito próximo do que se define como um longa musical. Não é à toa que Demy alcançaria grande sucesso mais tarde em verdadeiras incursões no gênero com os musicais “O Guarda-Chuvas do Amor” (Les Parapluies de Cherbourg, 1964) e “Duas Garotas Românticas” (Les Demoiselles de Rochefort, 1967), os quais parecem surgir como consequência natural de suas influências. É importante até mesmo frisar que alguns ramos da narrativa que podem até parecer deslocados, como o da adolescente Cécile, em verdade até enriquecem a obra, já que, neste caso, a garota representa a repetição da vida de Lola, constituindo uma interessante analogia.

Mas “Lola” é, antes de tudo, um filme sentimental e otimista onde conhecemos pessoas que são resgatadas da solidão pelo amor. Uma característica marcante de cada um dos personagens, mesmo o alegre Frankie e a sedutora Lola, é a sensação de que os mesmos são solitários, mesmo que tentem não deixar transparecer. E Demy sugere que só mesmo o amor pode transformar verdadeiramente suas vidas, retirando-os da inércia e encorajando-os a novas experiências. “Lola, A Flor Proibida” se coloca, com toda certeza, entre as melhores estreias de um diretor. Já neste début, Jacques Demy mostrava que viria a ser um dos nomes mais queridos da Nouvelle Vague. Se muitos consideram que cinema “autoral” costuma significar cinema “chato” é porque não viram esta obra simples, direta, mas ao mesmo tempo dotada de grande sensibilidade e que jamais irá lhe desagradar.


Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eu Quero Esse Pôster #16


"Sob O Domínio do Medo" é o título em português deste filme de Sam Peckinpah realizado em 1971 e protagonizado por Dustin Hoffman. Ainda não tive a oportunidade de vê-lo, mas sem dúvida a sua arte promocional é bastante interessante. Se o longa for no mesmo nível, imagino que seja mesmo uma bela obra!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Amizade Colorida



O caminho é mais importante que o destino


A comédia romântica é o subgênero cinematográfico que provavelmente mais foi castigado ao longo dos anos, principalmente devido ao seu inescusável final feliz. Afinal, se não fosse assim, a comédia não seria “romântica”. Então, costumamos assistir àquela velha historinha que pode ser resumida como “garoto encontra garota, se apaixonam, enfrentam algumas dificuldades, mas no fim são felizes para sempre”. Simples e batido desta forma mesmo, mas o público, principalmente o feminino, parece jamais se cansar de tal fórmula. Entretanto, mesmo dentro de um esquema tão limitado, é possível adicionar novos temperos para tornar a experiência interessante, por mais que possamos vislumbrar como tudo aquilo terminará.

É isso que teve em mente o pouco conhecido diretor Will Gluck ao realizar este “Amizade Colorida” (Friends With Benefits). Não existe grande novidade no fato de Dylan Harper (Justin Timberlake) e Jamie (Mila Kunis) se encontrarem, descobrirem que se sentem atraídos um pelo outro e terminarem juntinhos no desfecho da trama (opa, não dá pra se chatear e afirmar que a última frase é um spoiler, né?). O que há de novo é o trajeto até este fim. Antenado com os novos tempos, Gluck, que também é coautor do roteiro (ao lado de Keith Merryman, David A. Newman e Harley Peyton), soube atualizar o velho conto de fadas tendo em vista as mudanças comportamentais ocorridas nas últimas décadas. Afinal, a premissa do longa se baseia no conceito de que Jamie e Dylan se sentem atraídos, mas, devido a frustrados relacionamentos anteriores, acabam por ter uma relação sustentada apenas no sexo, mas sem compromissos afetivos a não ser a amizade. Ok, sei que há um outro filme recente protagonizado por Natalie Portman que trata do mesmo tema – o que desfaz um pouco a ideia novidadeira da produção. Contudo, é inegável que os responsáveis por “Amizade Colorida”* tratam o tema de forma adulta e, ao mesmo tempo, extremamente bem-humorada, resultando em uma comédia inteligente em que não fazemos qualquer esforço para rir.

Ao contrário do que normalmente sucede no gênero, os personagens são tridimensionais, possuindo não apenas o presente, mas também um passado que explica suas atitudes. Acompanhando a narrativa, vemos que Dylan teve problemas sérios em sua família que o levam a se sentir inseguro emocionalmente, enquanto Jamie é o exato reflexo do paradoxo de boa parte das mulheres de hoje: independentes profissionalmente, mas ainda à espera de um príncipe encantado. Ela é uma caça-talentos que vê em Dylan, até então apenas um blogueiro criativo, um grande potencial para a área de criação gráfica. Assim, a moça acaba convencendo o jovem a morar em Nova York (com direito a momento “Manhattan” na tela) e trabalhar em uma importante publicação, resultando daí o surgimento da tal amizade “colorida”. É importante frisar que o enredo é recheado de ótimos diálogos e, claro, muitas passagens realmente engraçadas que usam e abusam de um humor mais adulto, cheio de tiradas picantes. Interessante que, mesmo se valendo do sexo como matéria-prima do riso, nãos sentimos que o longa apela para a vulgaridade e poucos são os autores que alcançam tal proeza. Além disso, Gluck imprime um ótimo ritmo ao filme, o qual jamais cai na monotonia, mesmo quando surgem os inevitáveis artifícios para o casal ficar junto.


Para uma comédia ter sucesso, obviamente um dos principais aspectos é o elenco escalado e a escolha deste se mostrou aqui muito feliz. Mila Kunis está demonstrando cada vez mais o seu potencial como estrela, unindo talento e carisma (curioso que ela e Portman enveredaram pelos mesmos caminhos para operar o descarrego de “Cisne Negro”). Por seu turno, Justin Timberlake vem mesmo se colocando como uma ótima surpresa. Em seu primeiro papel como protagonista, ele confirma as boas impressões de atuações em papeis coadjuvantes (como em “A Rede Social”). Sua desenvoltura é notável e ele parece se sentir muito mais à vontade do que outros atores de carreira. O rapaz tem futuro na profissão, não se pode negar. Aliás, já fazia tempo não via um casal com uma química tão boa em cena. Para colocar a cereja no bolo, ainda temos Woody Harrelson como o impagável amigo gay de Dylan, sempre divertido em todas as suas aparições.

Apesar disso, o filme ainda sofre com algumas falhas sensíveis. Existem problemas de continuidade irritantes, como em uma sequência no aeroporto em que o pai de Dylan chega de cadeira de rodas e sai andando. Ademais, o Alzheimer do personagem fica mal caracterizado, muitas vezes não parecendo que ele é doente. Em outra vertente, o momento “Manhattan” citado mais acima soa deslocado, com as homenagens e citações a Nova York meio que introduzidas a fórceps na trama. Ressalte-se, inclusive, que algumas piadas acabam por ter um gosto muito forte de hambúrguer, aptas apenas a fazer rir o público norte-americano (ou pessoas bastante conhecedoras de sua cultura).

A despeito desses problemas, “Friends With Benefits” traz um resultado bastante satisfatório, bem acima da média das comédias românticas que costumam entrar em cartaz. A feliz comparação empreendida pelo filme ao usar o flashmob (aquelas aglomerações de pessoas que se reúnem para uma ação determinada e se dispersam tão rapidamente quanto se juntam) como metáfora para os relacionamentos modernos é bastante inteligente e, como já falado, não é sempre que vemos boas ideias neste subgênero. Esta experiência é o típico caso em que o trajeto da viagem e suas paisagens são mais importantes que o destino, já bastante conhecido por todos. Entretanto, sem dúvida é uma viagem que faz valer à pena o preço do ingresso, mesmo que ela não vá mudar sua vida.


Cotação:

Nota: 8,0


* O título em português é o mesmo de uma antiga série da Rede Globo, o que demonstra o quanto os americanos são conservadores e estão bastante atrasados na abordagem de alguns temas.

domingo, 2 de outubro de 2011

O espírito do rock se fez presente


Pausa no cinema.

É muito bom quando nós nos surpreendemos com algo inesperado. Sendo bem sincero, eu não estava dando muita bola para essa edição do Rock In Rio. Quando vi o line up do festival, notei a presença de uma quantidade muito grande de atrações que estavam bem mais pro pop do que pro rock, algumas de talento bastante duvidoso, é importante sublinhar (a escalação de Ke$ha me deu um embrulho no estômago).

Mas eis que as apresentações foram se seguindo, dia após dia, e fui me surpreendendo com o que estamos acompanhando. Esta quarta edição do festival vem contando com um público vibrante, empolgado e que sabe respeitar as diferenças entre aqueles que se apresentam. Claro que a organização também soube distribuir bem os dias das atrações, acabando com incoerências como colocar Carlinhos Brown para cantar no dia do Guns'n Roses (como em 2001) e evitando assim momentos constrangedores para os artistas. Mesmo que alguns shows acabem se mostrando de fato a mediocridade esperada, como o da citada Ke$ha (com sua voz ridícula, demonstrou que não tem mesmo condições de se apresentar em um festival como esse), outros tantos já se tornaram antológicos. São os casos de Stevie Wonder, que fez uma apresentação memorável com direito à galera cantando com ele “Garota de Ipanena”; Joss Stone, aquela menina talentosíssima (e bonita) e que fez um show incrível mesmo estando escalada para o palco Sunset (secundário), com o público gritando seu nome em coro ao fim da apresentação, além de Shakira, que arrebatou o público com um show empolgado (chegou a levar fãs pro palco para ensiná-las a dançar) e uma ótima participação de Ivete Sangalo em dueto cantando “País Tropical”. Outras apresentações memoráveis foram a do Capital Inicial, com um público vibrante e levantando poeira a cada música, e a homenagem à Legião Urbana, que teve participação da Orquestra Sinfônica Brasileira e dos dois integrantes remanescentes do grupo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, ocasião em que nem seriam necessários vocalistas, uma vez que o público cantava em uníssono todas as músicas.


O festival já seria ótimo com todos estes ótimos shows, mas este último sábado (e madrugada de domingo) resultou ainda mais especial. Todos as performances, de Frejat ao Coldplay, passando por Maná e Maroon 5, contaram com uma participação eletrizante do público. Em todas as apresentações, as pessoas entoavam as canções de início ao fim. Impressionante. O Skank fez um show definitivamente antológico. O próprio Samuel Rosa decidiu filmar o momento histórico. Como ele próprio disse “não é todo dia que se canta para 100 000 pessoas e todas elas estão interessadas na sua música”. O Maná cantou “Vivir Sin Aire” como se estivesse tocando no México, tamanha a empatia com a plateia e o coro que o acompanhava. O Maroon 5 foi na mesma balada. Acredito que os seus integrantes devem ter pensado “nossa, eles sabem todas as músicas”. E, por fim, veio o Coldplay com uma apresentação impecável, pirotécnica, fãs enlouquecidos e até com homenagem a Amy Winehouse (Chris Martin cantou “Rehab”). Eu quase chorei quando tocaram "Yellow"! Depois de ontem, creio que esta edição do Rock In Rio só rivaliza com a primeira, de 1985. Se eu já senti essa energia do sofá da sala, fico imaginando como seria estar lá. Espetacular!

Tudo isso só reforça uma opinião que sempre tive: não existe público como o brasileiro. Nós temos muitos defeitos, mas também é verdade que somos calorosos como nenhum outro povo é no mundo. Acredito que muitos dos artistas que se apresentaram nesta edição do festival vão querer lançar DVDs ou Blu-Rays com seus respectivos shows. Não é pra menos. O público do Brasil está demonstrando nesse festival o estado de espírito que o País está vivendo, encarando o presente de forma positiva e com mais otimismo ainda quando olha para o futuro. Alguns amuados podem dizer que essas coisas só servem para fazer o povo esquecer do que é realmente importante. Entendo a crítica, afinal o povo brasileiro não se reúne em multidões para protestar contra a corrupção, por exemplo. Mas, como diz uma antiga música de uma famosa banda nacional, nós também queremos “diversão e arte”. E hoje ainda tem o Guns'n Roses para terminar o festival. Provavelmente também vai arrepiar, neste festival que, mesmo com tantas estrelas “pop” convidadas, mostrou que o espírito do rock está presente mais do que nunca.

Abaixo, seguem alguns vídeos com momentos especiais desta quarta edição do Rock In Rio. Ah, e não, não estou escrevendo tudo isso para fazer marketig para Roberto Medina. Eu apenas gosto de música mesmo... :=)











quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Gilda
(Gilda, 1946)


Nunca houve um estigma como Gilda


Neste último domingo, eu estava acompanhando um certo programa esportivo apenas por um motivo: seria exibida uma matéria acerca do filme que está sendo produzido sobre a vida de Heleno de Freitas, jogador de futebol que fez fama nos anos 40 e início dos 50 atuando pelo Botafogo, meu clube do coração. Dentre o vários detalhes que foram exibidos sobre a vida do referido futebolista, comentou-se que lhe foi atribuído o apelido de “Gilda”, numa alusão à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de 1946. Nesse momento, lembrei de um detalhe importantíssimo: eu possuía este clássico na minha coleção pessoal, mas não havia assistido, e olha que tinha muita curiosidade de vê-lo há um bom tempo. Bem, então resolvi sanar este problema quase de imediato: vi o longa-metragem na tarde deste último domingo (antes do jogo do meu Botafogo, claro...).

Na verdade, eu tinha poucas referências sobre esta obra de Charles Vidor, mais um diretor de origem judia e europeia (no caso, húngara) que emigrou para os EUA na primeira metade do século XX. Sabia apenas que se tratava do filme mais lembrado da estrela Hayworth; já havia visto várias vezes na TV a cena em que ela dança enquanto retira as luvas dos braços e que a frase que sempre emoldurou o poster da produção é “nunca houve uma mulher como Gilda”. Ou seja, conhecimentos bastante superficiais. A película, entretanto, foi revelando várias surpresas ao longo de seus 110 minutos. A primeira, que na realidade não é tão surpresa assim, é a de que “Gilda” é um típico filme noir. Estão lá presentes todos os seus elementos. Um protagonista de caráter dúbio (interpretado por Glenn Ford), envolvido com outras pessoas de caráter mais reprovável ainda (criminosos, para ser mais exato), além da inevitável femme fatale, no caso a personagem que dá o título ao longa-metragem e as indefectíveis fumaças de cigarro que sobem durante quase todo o filme. Além disso, Rita Hayworth se mostra mesmo uma mulher muito bonita e dotada de uma sensualidade ainda provocante até para os padrões de hoje. E isso ainda ressalvando que sua atuação não se pauta na vulgaridade. Pelo contrário. Gilda por vezes instiga muito mais por seus olhares e frases de efeito do que por apelar a dotes físicos ou sexualidade verbal explícita. Contudo, o que mais pode surpreender o espectador é a presença de um esguio subtexto homoerótico, principalmente se lembrarmos que a produção é da década de 40.


A relação entre o personagem de Glenn Ford, de nome Johnny Farrell, um aventureiro perdido na Argentina durante os anos da Segunda Guerra, e o de George Macready, o dono de cassino Ballin Mundson, é mesmo cheia de situações e nuances nubladas. A começar pela forma como rapidamente Ballin “apadrinha” Johnny. Este último estava sendo vítima de um assalto quando Ballin o salva usando de suas habilidades no uso de uma bengala que esconde uma espécie de punhal em sua extremidade. Após esse encontro, Johnny passa a trabalhar para Ballin e, em pouco tempo, já se torna seu braço direito. Usando uma frase constante do longa, o qual possui uma narrativa em off do personagem de Johnny: “tudo ia muito bem, parecia que seria sempre apenas nós dois, quando Ballin viajou e retornou com algo inesperado”. Parece mesmo que há algo a mais entre os dois e os mistérios só crescem quando Johnny descobre que a tal surpresa de Ballin é Gilda, uma paixão do passado do protagonista, mas que Ballin ignora. Aliás, ele já está casado com a femme fatale e pede a Johnny que ele a vigie de perto para evitar que o traia. Interessante frisar que Johnny acaba não se importando se Gilda dá as sua saídas com estranhos, desde que Ballin não saiba e venha a ficar magoado. Esse roteiro cheio de meios-termos foi escrito por duas mulheres (algo incomum para a época), Jo Eisinger e Marion Parsonet (baseadas em romance de E. A. Ellington), além de contar com outra representante feminina na produção, Virginia Van Upp (então esposa do todo-poderoso da Columbia, Henry Cohn). É provável que este encontro de mulheres na criação tenha rendido uma brincadeira com os tipos masculinos, uma piada com a misoginia comum a muitos filmes noir. Destarte, não deixa de ser curioso observar essa dubiedade na produção de uma Hollywood extremamente conservadora - ainda o é até hoje, quem dirá nos idos de 40...


Entretanto, o que há de mais rico na narrativa são os diálogos afiadíssimos - responsáveis por frases memoráveis – além do desenvolvimento da personagem de Gilda. A princípio, podemos entendê-la como uma mulher dominadora, mas o transcorrer do enredo mostra exatamente o contrário. Ela se mostra muito frágil ao realizar todas as suas ações tendo como único norte a sua indisfarçável paixão por Johnny. Todas as suas atitudes buscam perturbá-lo de alguma forma, provocando ciúmes ou causando desentendimentos com o seu benfeitor. Ademais, um aspecto interessante da narrativa é que nunca ficamos sabendo o que separou Johnny e Gilda no passado, deixando a trama ainda mais intrigante. Por outro lado, a direção de Vidor deixa a desejar em alguns momentos, com uma montagem um tanto atropelada – principalmente quando próximo do desfecho - além da inexistência de cenas externas. O filme se passa em Buenos Aires, mas jamais vemos qualquer imagem da cidade. O único indício de que se trata de uma país latino são as falas em espanhol (meio tosco, diga-se de passagem) de alguns personagens. Tudo bem que a produção tivesse orçamento limitado, mas havia formas de driblar essa limitação, como usar imagens projetadas da localidade, artifício utilizado por Alfred Hitchcock em “Interlúdio” (Notorious), lançado também no mesmo ano.

Descontados os percalços, “Gilda” se sustenta como um bom filme noir, com algumas reviravoltas e diálogos, como já dito mais acima, bastante saborosos. Mas a verdade é que ele entrou mesmo para a história como o ápice da carreira da estrela Rita e também como sua maldição. Ao cantar “Put The Blame On Mame” na famosa cena do quase strip-tease com as luvas, Hayworth se transformou para sempre em Gilda, jamais conseguindo desligar sua imagem do papel que interpretou. A famosa frase da atriz, “os homens dormem com Gilda e acordam com Rita” é o exato reflexo dos sentimentos de uma mulher condenada a ser para sempre uma fantasia, uma ficção. Afinal, ao se falar em Rita Hayworth qual a primeira imagem que lhe vem à mente? Olhando por este ângulo, talvez nunca realmente tenha havido uma personagem como Gilda, um estigma que acompanhará sua intérprete enquanto existir cinema.


Cotação:

Nota: 8,5

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Vá e Veja
(Idi i Smotri, 1985)


Triste e verídico pesadelo


O cinema norte-americano, ao longo das últimas décadas, costumou impregnar nossas mentes com uma visão romântico-heroica da Segunda Guerra Mundial. Mesmo obras ditas realistas, como “A Lista de Schindler” (Shindler's List, 1993) e “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, 1998), ambas de Steven Spielberg (cineasta que, por sua origem judia, é sempre levado a sério nas suas abordagens sobre o tema), acabam enveredando por esse caminho ao focar personagens que terminam por abraçar sentimentos idealistas ou de sacrifício em prol do coletivo. Hollywood nunca deixa de ser uma fábrica de fantasias, mesmo ao tratar de temas extremamente sérios, o que acaba levando a nós, ocidentais embebedados em sua cultura, a vermos o conflito mais marcante da história da humanidade com um certo ar infantilmente “nostálgico”, como se viver nos anos 40 fosse experimentar um romance como o de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em “Casablanca” (sem querer desmerecer ou atacar esse lindo clássico do cinema) ou tomar atitudes hercúleas no campo de combate que garantissem ao sobrevivente as láureas quando do regresso ao lar. Dentro desta perspectiva, “Vá e Veja”, obra do cineasta bielo-russo Elem Klimov (1933 – 2003), pode ser posicionado como o filme de guerra mais anti-Hollywood já concebido. Nesta obra de extremo impacto para o espectador, realizada durante o declínio da antiga URSS, sobra verdade, realidade e brutalidade em cores e sons que jamais o cinema norte-americano poderia retratar.

Primeiramente, é importante ressaltar que este longa-metragem é uma espécie de sessão de análise do diretor Klimov, cuja infância foi marcada pelos horrores da invasão nazista no Leste Europeu durante o mencionado conflito. A guerra no lado oriental da Europa costuma ser, inclusive, bastante ignorada pela sua parcela ocidental, fato que se deve notoriamente a décadas de Guerra Fria. Lá morreram cerca de 20 milhões de russos, mais 5 milhões de ucranianos e mais alguns milhões de bielo-russos, um outro holocausto de proporções ainda mais aviltantes do que o ocorrido com os judeus. Assim, a visão apresentada do conflito é extremamente pessoal, sendo que o personagem que nos guia na narrativa, o adolescente Florya (o ator se chama Aleksei Kravchenko, responsável por uma interpretação meio que transcendental), funciona como o alter-ego do cineasta diante dos horrores que desfilam um após o outro.


Praticamente não há estória em “Vá e Veja”. O protagonista Florya se junta aos partisans, grupo de resistência aos invasores nazistas e, após ser deixado em uma floresta antes de uma batalha por ser muito novo para combater, acaba encontrando uma outra jovem, Glasha (Olga Mironova, também em uma atuação no mínimo impressionante). Os dois retornam à aldeia de Florya apenas para descobrir que ela foi destruída pelos nazistas e sua população, incluindo a família do rapaz, quase totalmente dizimada. A partir deste ponto o que vemos é uma sucessão de cenas tão realistas que beiram paradoxalmente o surreal, tamanho o horror com que nos deparamos.


É relevante destacar que o poder imagético de “Idi i Smotri' é um dos mais impressionantes já vistos, o que potencializa ainda mais a referida barbárie na tela. Com um fantástico uso da steadycam (aquela câmera sem solavancos que acompanha um personagem em uma cena), muitas vezes usada do ponto de vista do protagonista, a sensação que temos é de estar testemunhando in loco aquela violência. Talvez só Stanley Kubrick – em “O Iluminado” - tenha usado tão bem este recurso quanto tanto Klimov o faz aqui. Desta maneira, a concepção visual do longa nos rende imagens tão fortes quanto inesquecíveis, tais como a de Florya e Glasha tentando atravessar um pântano; a dos corpos empilhados na aldeia de Florya; a impressionante sequência em que o garoto tenta se proteger de uma rajada de balas atrás do corpo de uma vaca agonizante; ou ainda a de um homem quase inteiramente queimado pelos alemães. Aliás, difícil encontrar um fotograma neste filme que não seja melancolicamente memorável.


Mas não é apenas de imagens que vive o longa de Klimov. O som, sem qualquer exagero, é um dos mais incríveis da história da Sétima Arte, complementando a experiência de imersão do espectador pretendida pelo diretor. Em certa passagem, uma bomba cai próxima de Florya e o consequente zumbido, que o deixa quase surdo, toma conta da projeção, a qual se alonga por mais de meia hora desta forma. Ficamos, assim, quase surdos como o personagem, ouvindo o perturbador barulho e quase não escutando as vozes daqueles que se dirigem a ele. Há ainda sequências em que ouvimos o barulho constante de aviões alemães, transmitindo-os a sensação de angústia em estar exposto a um possível ataque. Fosse uma produção em língua inglesa, certamente teria levado os prêmios da Academia nas categorias de som e efeitos sonoros. Mas, como sabemos, o Oscar é um prêmio voltado para promover o cinema hollywoodiano... A montagem, como frequentemente ocorre no cinema russo (vale relembrar que Sergei Eisenstein praticamente criou a edição tal como a vemos nas produções contemporâneas), é outro capítulo à parte, sendo inclusive um aspecto que gerou uma das mais lembradas sequências deste longa-metragem. Nela, Florya atira contra um cartaz com a imagem de Adolf Hitler enquanto, em rápidos cortes, vemos também passagens documentais do conflito e da ascensão do nazismo na Alemanha, uma contraposição de ficção e realidade que influenciaria o citado Steven Spielberg nas suas mencionadas obras sobre a guerra. Ou melhor, se o espectador observar com ao menos um pouco de atenção a película, perceberá o quanto Spielberg bebeu dessa fonte para a concepção de seus filmes ("Império do Sol", de 1987, parece ser uma versão “light” deste filme depois de tê-lo visto).

O perfeccionismo de Klimov em retratar o horror foi tamanho que ele se valeu de um especialista para hipnotizar o jovem Kravchenko e assim extrair do ator o seu máximo interpretativo sem que este corresse o risco de ficar com traumas psicológicos. Até mesmo a maquiagem sobre o garoto nas últimas cenas nos dá a impressão de que ele envelheceu décadas em alguns dias. Obsessão? Exagero? É possível que muitos enxerguem desta forma, mas o resultado alcançado foi mesmo assombroso. Não foi por acaso que o título escolhido para a produção é um trecho do livro bíblico do Apocalipse. Nada mais adequado para sintetizar uma experiência ímpar que, indubitavelmente, se coloca entre os melhores filmes do gênero já realizados, mostrando em imagens que na guerra não há heróis, apenas sobreviventes. Um retrato de um pesadelo tristemente verídico.


Cotação e nota: obra-prima.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Brasil no Oscar e um Rei de volta ao topo


Como vocês já devem estar sabendo, "Tropa de Elite 2" foi escolhido para entrar na briga pelo melhor filme em língua não-inglesa no Oscar 2012. Olha, é justo. Os outros concorrentes não teriam qualquer chance, como "Assalto ao Banco Central" e "As Mães de Chico Xavier". Não há dúvidas que "Tropa 2" é o melhor filme e já teria merecido a indicação no ano passado no lugar de "Lula - O Filho do Brasil". Mas a verdade é: não vai levar. Filmes violentos costumam ser rejeitados nesse prêmio (lembram de "Cidade de Deus"?) e o longa possui um tom muito voltado para o nosso público. Não é coisa para "americano ver".


Outra notícia importante dos últimos dias é a de que a versão em 3D de "O Rei Leão" atingiu o topo das bilheterias ianques no último fim de semana e disso tiro 3 conclusões:

1) A criatividade do cinema hollywoodiano está mesmo chegando ao fundo do poço;

2) "O Rei Leão" é mesmo uma das obras-primas da Disney. Um filme que os pais estão fazendo questão de levar seus filhos para conferir no cinema (eu mesmo vou fazer questão de garantir o blu-ray em breve). Quem foi rei nunca perder a majestade;

3) Em um prazo muito, muito breve vamos nos deparar com a notícia do próximo "clássico da animação" a ser convertido para o 3D e relançado nos cinemas. Pode apostar, é bem mais fácil que acertar os números da Megasena.

domingo, 18 de setembro de 2011

Restaurando a Película




Amar Foi Minha Ruína
(Leave Her To Heaven, 1945)



As cores de um melodrama-noir


É comum associarmos o cinema noir à fotografia em preto e branco, algo perfeitamente natural, já que este gênero surgiu a partir da influência do expressionismo alemão e seus diretores que imigraram para os EUA fugindo do nazismo. Além disso, o noir era composto de produções de baixo orçamento, o que geralmente impossibilitava o uso do ainda caro technicolor, sendo este usado com mais frequência em grandes produções como “...E o Vento Levou” ou “O Mágico de Oz”. Assim, é com uma certa estranheza que ao vermos “Amar Foi Minha Ruína” nos deparamos com um resplandecente uso de cores, utilizadas não apenas como adorno fotográfico, mas também possuindo simbologias que enriquecem a adaptação para a tela grande do livro homônimo escrito por Ben Ames Williams. O impacto das cores se faz sentir ainda em uma das primeiras sequências, quando vemos a impressionante beleza de Gene Tierney, com o seu rosto que mais parece de um anjo moldado por algum escultor grego. Deve ter sido um enorme encanto, para o público de 1945, assistir a cenas com aqueles incríveis olhos azuis em uma tela de cinema, ainda mais se lembrarmos que seu maior sucesso havia sido no papel de Laura, personagem central do filme homônimo (de 1944 e um dos grandes clássicos do noir) produzido no ano anterior e rodado em p&b.

A escolha de Tierney para protagonista (que se deu depois da recusa de Rita Hayworth) foi mais do que feliz, uma vez que sua beleza contrasta, tais como as cores branca e preta, com o interior sinistro de Ellen Berent, sua personagem. O “preto e branco” existente na projeção ocorre nesta contraposição entre uma criatura tão bela exteriormente e tão horrível no seu íntimo. Palmas para o cineasta John M. Stahl, conhecido diretor de melodramas como “Imitação da Vida” (Imitation Of Life, 1934) e que aqui nos entrega o melhor trabalho de sua carreira, fugindo do tom sentimental da maior parte de sua obra para promover uma autêntica investigação sobre o lado mais pérfido que pode brotar de um ser humano.


O roteiro, construído com paciência e narrado em flashback, vai revelando lentamente o perfil da citada Ellen, uma mulher de família abastada que perdeu o pai recentemente. Somos apresentados a ela quando Richard Harland (Cornel Wilde), um escritor em férias, acaba se encontrando com a mesma em uma viagem de trem para o Novo México. A atração entre os dois surge quase imediatamente, principalmente da parte de Ellen, a qual vê muitas semelhanças entre Richard e seu falecido pai. Ela está noiva de um promotor de justiça, Russel Quinton (Vincent Price), mas não hesita em terminar rapidamente a relação com o mesmo e contrair um casamento relâmpago com Richard. Este, porém, vai percebendo gradualmente que Ellen tem um relacionamento difícil com as pessoas que a cercam, seja com a irmã Ruth (Jeanne Crain) ou a mãe (Mary Philips). E não tarda que a verdadeira personalidade de Ellen, possessiva e paranoica, comece a interferir no relacionamento do casal, já que a esposa repele a aproximação de qualquer outra pessoa que possa “se colocar” entre os dois, até mesmo de Danny, o irmão mais novo e paraplégico do marido.

Elaborado com inúmeras sutilezas, o enredo, por meio de diálogos muito bem escritos, evolui deixando pistas do que pode acontecer, como ao sugerir em alguns momentos a relação edipiana de Ellen com o seu genitor ou quando ela rejeita a sugestão de Richard de contratar uma empregada, já que seria a única pessoa que poderia lhe servir ou agradá-lo. Desta forma, ocorre um crescente dramático e mesmo de suspense que surpreende o espectador até chegarmos a cenas que se tornariam muitos imitadas posteriormente, [SPOILER] como aquela em que Ellen se atira escada abaixo para provocar um aborto ou ainda quando assiste impassível ao afogamento do jovem cunhado [FIM DE SPOILER]. Entretanto, nada disso funcionaria sem que a personagem central tivesse uma intérprete à altura. E Tierney, hoje uma atriz estranhamente pouco lembrada pelo grande público, se mostrou a escolha ideal não apenas pela sua supramencionada beleza, mas também por nos presentear aqui com aquela que pode ser considerada a melhor atuação de sua carreira, a qual acabou lhe rendendo uma indicação ao Oscar de melhor atriz (perdeu para Joan Crawford com “Alma Em Suplício”). Outro destaque entre as atuações fica com Jeanne Crain, na pele da irmã de Ellen, mostrando talento dramático, além de ser também muito bonita. Já Cornel Wilde deixa a desejar com uma interpretação apenas competente de seu Richard, sem maior brilho.


Como já destacado acima, em “Amar Foi Minha Ruína” a fotografia é um caso à parte, mas não apenas por destacar a beleza da atriz principal. Leon Shamroy, vencedor do Oscar por este trabalho, captou com extraordinária beleza as paisagens desérticas do Novo México, assim como os lagos e florestas do Maine. Algumas tomadas mais parecem verdadeiras pinturas de tão bonitas. Ademais, Shamroy soube destacar os figurinos usados por Ellen no decorrer da trama, pensados para surgirem de forma antagônica aos demais, pois que somente ela usa cores vivas como o vermelho, o azul e o verde, enquanto aos demais são reservadas cores neutras. Tão belas imagens são ainda sublinhadas pela ótima trilha de Alfred Newman, muito bem utilizada para marcar os momentos de tensão da narrativa. Alguns erros de continuidade, entretanto, se fazem notar, como em algumas sequências que se iniciam à noite e, em seguida, vemos o sol brilhando na imagem. Lapsos de Stahl que talvez tenham lhe custado o esquecimento por parte da Academia de Hollywood.

Forte e muito bem realizada, o excelente título original da produção, “Leave Her To Heaven”, possivelmente traduz o pensamento que perpassa a mente do espectador ao fim da experiência. A frase foi retirada do “Hamlet” de William Shakespeare e se refere à Rainha Gertrude, a qual se casou com o assassino do seu marido, podendo ser traduzida como “deixe-a para o céu julgar”. Nada mais adequado para uma mulher que transformou o amor que sentia em algo destrutivo não somente para ela, como também para o objeto do seu sentimento. Tendo envelhecido muito bem, é intrigante que este melodrama-noir, apesar de muito copiado, não seja muito lembrado pelos admiradores da Sétima Arte. Uma obra que merece ser mais conhecida.


Cotação:

Nota: 9,5

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Trilha Sonora #19


"Feitiço Havaiano" (Blue Hawaii, 1961) foi um dos filmes realizados logo após a volta do Rei do Rock, Elvis Presley, depois de prestar dois anos de serviço militar. Não é por acaso que seu personagem no filme também chega ao Havaí depois de dois anos no Exército. Obviamente, a trama do filme é daquelas típicas do cinema moldado para o astro: enredos bobinhos, com garotas bonitas, namoricos, alguma aventura e, claro, a música do Rei. E esta é de primeira qualidade, como demonstra "Can't Help Falling in Love", canção da trilha de "Feitiço Havaiano" que se transformou em enorme sucesso. Não seria para menos, já que a música é mesmo ótima. Som na caixa! Elvis não morreu!


terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Homem do Futuro



Para além da nostalgia


A música é uma forma de arte capaz de despertar reminiscências de momentos bastante específicos de nossas vidas. Uma determinada canção pode nos remeter ao primeiro encontro com uma namorada, a uma viagem, a uma festa, a fases mais tristes ou alegres da existência. Eu acreditava, entretanto, que só a música tinha esse poder de fazer com que nos lembremos até mesmo dos cheiros e iluminação de um ambiente onde ocorreu algo de significativo na história de cada um. Estava equivocado. Ao assistir a “O Homem do Futuro”, neste último fim de semana, percebi que o cinema, quando bem realizado, também pode ter esse dom.

Foi impressionante como este longa-metragem de Cláudio Torres (parece que o talento é mesmo genético em sua família) conseguiu me transportar para os tempos da faculdade, trazendo-me ótimas recordações das festas em que empunhava o microfone para cantar as músicas da Legião Urbana, tal como os dois personagens centrais da narrativa, João “Zero” (Wagner Moura) e Helena (Alinne Moraes), o fazem no evento crucial que trará todos os desdobramentos do interessante roteiro escrito pelo próprio diretor. É devido aos fatos que ali ocorreram que o físico João levou a tal alcunha de “Zero”. Agora, vinte anos depois do acontecido, ele está desenvolvendo uma pesquisa sobre uma nova forma revolucionária de energia, mas é também um homem muito amargurado, ressentido com o passado e que continua obsessivo por Helena. Em uma das experiências para provar que a forma de energia que pesquisa não causa riscos, João acaba sendo transportado para o passado, mais exatamente para o exato dia da festa que lhe trouxe tantos dissabores. Então, ele resolve tentar modificar o curso dos acontecimentos, o que levará a realidades alternativas também não muito felizes.

Este é o quarto trabalho de Torres como diretor e o terceiro bom filme que ele faz, demonstrando que além de ter talento para o ofício, também possui uma queda pelo fantástico/inusitado. Essa tendência se mostra tanto em “Redentor” (2004) quanto em “A Mulher Invisível” (2009) e aqui se solidifica ainda mais, especialmente por investir em um gênero pouco explorado no cinema nacional, como é o caso da ficção científica. Mesmo tendo de lidar com um roteiro naturalmente intrincado – como normalmente sucede com filmes que tratam de viagens temporais (e que comumente têm seus furos) – Torres jamais deixa a peteca cair, estabelecendo um ótimo ritmo para a narrativa e sem que ocorra confusão na mente do espectador em meio a tantas passagens de tempo. Além disso, mesmo diante de limitações orçamentárias, como fica claro na utilização de uma construção de Oscar Niemeyer para servir de residência para João em um dos futuros alternativos, os efeitos especiais empregados são muito convincentes e não apenas nos momentos em que o personagem central viaja no tempo, havendo outros mais sutis espalhados ao longo da projeção que sequer nos damos conta. No entanto, existem alguns descuidos de produção que se fazem notar, como denominar a máquina de João em um certo momento de “acelerador de partículas” e em outro como “conversor de partículas” o que, em termos físicos, faz uma baita diferença.


Não obstante estes pequenos problemas, a escolha do elenco foi de uma felicidade ímpar e isto se faz ainda mais importante se tivermos em vista o limitado número de personagens que compõem a trama. Alinne Moraes, além de sua beleza e sensualidade, e a despeito de algumas incongruências com sua Helena no inicio da narrativa, nos dá uma boa atuação, encaixando-se perfeitamente na figura da mulher que vira o objetivo de vida do protagonista. Já Fernando Ceylão, que faz Otávio, o melhor amigo de João, está ótimo com seu tipo engraçado e camarada, levando-nos a torcer para que seu personagem também tenha um bom desfecho. Maria Luísa Mendonça também sempre aparece bem como Sandra, amiga do protagonista e responsável pelo financiamento de suas pesquisas, assim como Gabriel Braga Nunes se encaixa bem no papel do playboy antipático. Mas é mesmo Wagner Moura que, em mais uma oportunidade, nos entrega um show particular ao interpretar o mesmo personagem em três fases distintas de sua vida. Ingênuo e tímido quando jovem, nervoso e amargurado já mais velho, além de finalmente equilibrado e seguro após aceitar e entender os eventos de sua história de vida, o ator consegue atribuir características distintas a cada um deles, mas sem que pareçam ser pessoas diferentes. Já vi comentários pela internet realizando comparações com “De Volta Para O Futuro” (Back To The Future, 1985), afirmando que ele consegue fazer Marty McFly, George McFly, Doc Brown e Biff todos ao mesmo tempo. E eu ainda acrescento: faz todos estes dentro do mesmo papel e jamais caindo no ridículo. Como já considerei em outras oportunidades (vide a resenha de “Tropa de Elite 2”), acredito que Wagner Moura é não apenas o melhor ator do Brasil no momento, mas está, e por que não, entre o melhores do mundo.

Não bastasse o sucesso do elenco, a trilha sonora pop incidental foi escolhida com rara felicidade. Torres já havia demonstrado ter perspicácia para tanto em “A Mulher Invisível” e aqui não foi diferente. A escolha de “Tempo Perdido”, da Legião Urbana (no filme interpretada por Wagner e Alinne), para sublinhar com força os principais momentos da projeção, é perfeita, assim como “Creep”, do Radiohead (com vocais também de Wagner juntamente com a banda Sua Mãe, da qual fez parte) e “It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”, do R.E.M, são inseridas de maneira sensacional, totalmente adequadas às cenas das quais fazem parte. O espectador acaba saindo da sala com as canções tocando na mente, com vontade de continuar ouvindo repetidas vezes.

Com tantos méritos, “O Homem do Futuro” não apenas é feliz em levar o público a uma viagem nostálgica (o que aconteceu comigo, como relatei acima). Ele é ótimo tanto como um entretenimento que nos fará dar várias risadas, como também em nos fazer compreender que os erros e fatos tristes do passado de cada um são importantes como aprendizado e amadurecimento. Não adianta querermos mudar o passado ou simplesmente esquecê-lo. O importante está em aceitá-lo e crescer com ele. Acima mencionei que a obra de Cláudio Torres tem um pendor para o fantástico. É verdade, mas também é verdade que em todos os seus filmes os personagens são obrigados a superar suas dores e aprender com elas. Na vida, evoluir é essencial.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 11 de setembro de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem



Macacos de todo o mundo: uni-vos!


Ao longo de meu período universitário, um dos trabalhos acadêmicos que mais me deixou recordações foi realizado dentro de disciplina de Ética, ainda no 3º período. Foi um seminário em que discutíamos se nós, seres humanos, temos o direito de impingir sofrimento ou mesmo matar outros seres vivos tidos como “irracionais”. Lembro-me que, um dos livros base para o trabalho, denominado “Ética Prática” (do polêmico filósofo Peter Singer), relatava uma experiência com macacos da espécie conhecida como bonobo, onde cientistas chegaram à conclusão que estes símios possuíam, na idade adulta, uma inteligência similar a uma criança de 6 anos, chegando a possuir consciência de si mesmos. Diante desta constatação, meu grupo defendeu a tese de que animais com tamanho desenvolvimento deveriam ter garantido seu direito à vida tal como nós, seres humanos, bem como não deveriam ser submetidos a tratamentos degradantes (como reclusão em jaulas ou experiências de caráter científico temerário). Mas por que estou relembrando esses fatos pessoais de minha vida estudantil nesta resenha? Bem, não é por mero saudosismo. A questão é que “Planeta dos Macacos: A Origem”, atualmente em exibição nos cinemas, tem como ponto central justamente o questionamento sobre os limites da postura da humanidade diante das outras espécies tidas como “irracionais”.


É a partir desta ideia, de que os animais devem se tratados com mais respeito pela humanidade, que os roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver desenvolvem um roteiro inteligente e que se conecta muito bem com o filme original de 1968, estrelado por Charlton Heston e dirigido por Franklin J,. Shaffner (grande diretor que deveria ser mais lembrado), longa-metragem que gerou várias sequências nos anos 70 e até série televisiva. A trama, que se passa em um futuro próximo, é amarrada a partir de uma pesquisa sobre o Mal de Alzheimer desenvolvida pelo cientista Will Rodman (James Franco, apenas competente). Símios de diversas espécies, de chimpanzés a orogotangos, são as cobaias usadas e alguns deles acabam desenvolvendo uma inteligência acima do comum. É o filhote de uma das fêmeas, Cesar (o fantástico Andy Serkis), que acaba sendo levado por Will para ser criado em casa, demonstrando, aos poucos, que tem uma compreensão sobre o mundo que o cerca semelhante a de um homem. Entretanto, Cesar vai aos poucos se sentindo inferiorizado por ser tratado como um bicho de estimação quando fora de casa, além de se sentir isolado em um mundo dominado por humanos, até que, como já subentendido pelo título do filme, alguns fatos que ocorrem que levarão não apenas Cesar, como também o grupo de símios por ele liderado, a uma revolta contra as condições degradantes em que vivem e pela liberdade.


Interessante perceber, ao longo da narrativa de um blockbuster concebido por Hollywood, a presença constante de concepções de cunho socialista, apresentando-se como um verdadeiro manifesto contra qualquer tipo de opressão, indo além da mera panfletagem ecológica. A cena em que Cesar dialoga com outro macaco mostrando que estes isolados são frágeis e que juntos podem ser fortes é puro marxismo. Só faltou surgir a frase “macacos de todo o mundo: uni-vos” para que pudéssemos sentir na tela a perfeita transposição do Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels. Não é exagero dizer que Sergei Eisenstein poderia, caso fosse vivo, ter assumido a direção do projeto.

Não obstante este caráter social-libertário, o filme apresenta méritos excepcionais enquanto obra cinematográfica. Os efeitos usados para conceber Cesar, com aquela captação de movimentos e expressões que se tornou famosa desde a trilogia “O Senhor dos Anéis” (motion capture), são simplesmente incríveis. Em vários momentos, parece que estamos diante de um macaco real, esquecendo que se trata apenas de um artifício da tecnologia. À parte os méritos da técnica, Andy Serkis, que já se especializou neste tipo de trabalho, nos entrega mais uma atuação excepcional. Talvez um dia a Academia reconheça o mérito de suas performances e o premie com um Oscar. Vale dizer que não apenas Cesar é convincente, mas todos os outros símios também o são, consagrando o longa como mais um marco na evolução dos efeitos visuais. Na outra vertente, a dos humanos, se o citado James Franco não enche os olhos com sua atuação, John Lithgow, que faz o pai de Will, portador do Mal de Alzheimer, é o único dos “humanos” a nos estregar uma ótima atuação, já que Freida Pinto, como a namorada de Will e veterinária que ajuda nos cuidados com Cesar, não tem muito o que fazer (mas está bonita como sempre). Destarte, é surpreendente ver com um diretor praticamente desconhecido como Rupert Wyatt pode nos entregar um longa tão bem conduzido, sabendo dosar a tensão e contar sem pressa a narrativa. Além disso, mostra-se um grande diretor de sequências de ação, onde entendemos perfeitamente tudo que está acontecendo na tela (viu Michael Bay?).

Apesar da estória acabar por recorrer a situações inverossímeis (como um grupo de macacos poderia resistir tão bem a um enorme contingente de polícia e exército armados?), “Planeta dos Macacos: A Origem” se mostra como um libelo contra toda forma de opressão, seja no que diz respeito a classes sociais, sexo, raça ou mesmo contra outras espécies de seres vivos, como fica mais explicitado no longa. Ademais, ainda toca no tema da responsabilidade com pesquisas científicas que possam eventualmente gerar situações que fujam do controle, colocando em risco a própria existência humana. Um blockbuster que, além de levar ótimo entretenimento ao espectador, consegue também fazê-lo refletir é sempre muito bem-vindo. O sucesso que este longa-metragem vem obtendo nas bilheterias é bastante merecido e talvez ele possa ser inserido dentro daquela nova revolução que parece estar acontecendo no cinema comercial: a dos grandes lançamentos que também fazem o público pensar (como no exemplo de “A Origem”). Um filme que faz justiça ao mencionado original de 1968.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quero Ver Novamente #14


Há poucos dias, revi "Magnólia" (1999) e pude constatar o quanto esse filme pode ser surpreendente, com seu roteiro inusitado e atuações excelentes. Todavia, à parte sua indubitável inteligência, o que mais encanta nesta obra de Paul Thomas Anderson é sua capacidade de emocionar, como nesta conhecida sequência em que todos os personagens cantam "Wise Up", uma das composições de Aimee Mann que serviram de inspiração para o filme (Anderson é amigo da cantora). Ah, e se você ainda não viu, resolva imediatamente este problema! Assista abaixo à referida cena.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tempo de Glória
(Glory, 1989)


Bom para o cinema, importantíssimo para a memória



É curioso que o cinema norte-americano aborde tão esporadicamente um evento de importância crucial na História dos Estados Unidos como o foi a famosa Guerra de Secessão. Mesmo o clássico absoluto “...E o Vento Levou”, primeiro filme que costuma vir à mente dos cinéfilos quando se menciona dita temática, coloca o conflito apenas como um pano de fundo e ambientação histórica para as desventuras de Scarlett O'Hara, sem levar a fundo uma investigação sobre as causas e consequências da guerra. Talvez esse descaso das produções estadunidenses ocorra porque o referido evento histórico mexe com feridas ainda não cicatrizadas da formação do país, tocando em aspectos como o ódio racial, direitos civis e também o desnível econômico hoje existente entre os estados do Norte e do Sul. Dentro desse contexto, um filme como “Tempo de Glória” (Glory) se faz muito bem vindo ao não apenas abordar diretamente o conflito, mas também ao remexer em algumas dessas sujeiras que os norte-americanos fazem questão de tentar esconder embaixo do tapete.

Este é, possivelmente, ao lado de “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, 2006), o melhor filme da irregular carreira do diretor Edward Zwick, o qual também foi responsável por bombas como “Lendas da Paixão” (Legends Of The Fall, 1994), uma espécie de novelão disfarçado de cinema. É possível que este seu sucesso em “Tempo de Glória” se deva à própria natureza grandiosa dos fatos que inspiraram sua realização, aptos a deixar correr solto o tom épico grandioso que parece ser uma autêntica mania de Zwick, mas sem que isso se torne cafona. Afinal, a narrativa trata do destino do 54º Regimento do Exército de Massachusetts, o primeiro a ser formado apenas por negros durante a secessão. Menosprezado por muitos, já que composto por voluntários que, em sua maioria, não tinham qualquer noção de combate (além do preconceito com a cor da pele, claro), o 54º acabou servindo como espelho de bravura e obstinação para os demais ao tentar tomar um forte sulista praticamente intransponível.

O roteiro, escrito por Kevin Jarre, foi baseado em livros de Lincoln Kirstein e Peter Buchard, os quais, por sua vez, inspiraram-se nas cartas de Robert Gould Shaw, jovem coronel pertencente a uma abastada família de Boston, mas de caráter bastante liberal (no filme interpretado por Matthew Broderick). Alguns apontam como crítica este desenvolvimento da trama a partir do ponto de vista de um branco, mas a realidade é que tal ótica não deixa de ser a mais fiel aos fatos históricos (hoje, as cartas encontram-se arquivadas na Universidade de Harvard). Destarte, de todos os personagens da trama apenas o Coronel é comprovadamente real. Todos os soldados negros são elaborações ficcionais. Entretanto, os tipos são bem construídos, desde o revoltado Trip (Denzel Washington, no papel que o levaria ao estrelato), passando pelo sensato sargento (e ex-coveiro) John Rawlins (Morgan Freeman), até o letrado Thomas Searles (Andre Braugher), todos apresentam facetas tridimensionais, sendo mostrados não apenas seu idealismo e bravura, mas também suas dúvidas, fraquezas e inseguranças. Neste aspecto, é importante salientar a qualidade das interpretações em tela. Morgan Freeman faz aquele seu tipo característico, mas com a competência de sempre; Braugher consegue demonstrar todo o conflito de um homem idealista, mas inteiramente desconfortável e fragilizado com o duro treinamento militar. Entretanto, o show fica mesmo por conta de Denzel Washington. A cena em que o ex-escravo Trip é chicoteado devido a uma suposta tentativa de deserção é realmente memorável e só ela já faria por merecer o Oscar de ator coadjuvante que o intérprete levou. Ademais, Matthew Broderick encontra aqui o seu melhor momento no cinema ao lado do seu antológico Ferris Bueller de “Curtindo A Vida Adoidado” (Ferris Bueller's Day Off, 1986).


Por outro lado, o roteiro também é feliz ao cutucar, por meio de interessantes diálogos, as feridas raciais norte-americanas. Em dado momento, Trip questiona o Coronel Shaw: “Se vencermos, Coronel, você voltará a Boston, para sua casa e sua família. E nós, o que ganharemos?”. Ou ainda, quando Trip zomba de uma tropa de soldados brancos que voltam derrotados de uma batalha e é criticado pelo Sargento Rawlins: “não seja idiota, eles estão lutando por nós. Já enterrei muitos soldados brancos, agora é hora de nós também fazermos a nossa parte”.

Mesmo que o texto, em alguns momentos, possua algumas doses acentuadas de fatalismo, os problemas da película se encontram mesmo na direção de Zwick, sempre no limite entre o bom gosto e o sentimentalismo barato, principalmente ao fazer a trilha sonora despertar acordes épicos e emocionais a cada três minutos, mesmo que, em termos puramente musicais, as composições de James Horner sejam belíssimas. A presença de alguns momentos piegas, todavia, não impede que existam cenas de real emoção, como naquela em que os soldados - em um momento que revela as origens da música norte-americana - cantam antes da batalha que pode significar as suas mortes. De qualquer forma, a beleza da fotografia de Freddie Francis (vencedora do Oscar) , bem como a impactante e violenta sequência da batalha final no forte (uma espécie de precursora do que seria feito mais tarde em “O Resgate do Soldado Ryan”) compensam os eventuais deslizes de Zwick.

Dono de um apuro técnico que nos faz duvidar que seja uma produção de 1989, “Tempo de Glória” se coloca, hoje, como uma espécie de remédio contra o cinismo e a indiferença do século XXI, narrando com eficácia uma história real deveras inspiradora. Por outro lado, não deixa de apontar o dedo para determinados problemas da sociedade americana que ainda perduram mesmo depois de tantos anos. Um filme que se faz importante não somente por suas qualidades cinematográficas, mas, principalmente, por ser um dos poucos longas a retratar com eficiência uma momento histórico pouco abordado na produção ianque. Bom para o cinema, mais importante ainda para a memória.


Cotação:

Nota: 8,5

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Eddie Murphy no Oscar 2012?


Como muitos de vocês já devem estar sabendo, Brett Ratner (diretor de "X-Men: O Confronto Final") será o responsável pela direção da festa do Oscar em 2012. Pois bem, agora ele convidou Eddie Murphy, que no passado já teve larga experiência como humorista stand-up, para apresentar a 84ª edição do evento. A escolha se torna curiosa pelo fato de Murphy já ter feito papel de ridículo quando de sua indicação ao prêmio de ator coadjuvante por "Dreamgirls" (quando perdeu, levantou-se e foi embora) e também não ser das figuras mais bem quistas em Hollywood. Sendo bem sincero, a verdade é que as cerimônias se tornariam bem melhores sem esses "apresentadores". Bastaria aquele(a) que vai anunciar cada prêmio entrar, relacionar os indicados e o vencedor e ponto final. Se a audiência do programa vai caindo com o passar das horas é justamente porque as pessoas perdem a paciência com tanta bobagem... A cerimônia do Oscar 2012 está prevista para o dia 26 de fevereiro.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


O Enigma de Kaspar Hauser
(Jeder für Sich und Gott Gegen Alle, 1974)


Intolerância



Antes de tudo, convém explicar quem foi Kaspar Hauser, personagem central desta obra do cineasta alemão Werner Herzog. Trata-se de um rapaz que foi encontrado, em 1828, em uma praça, apenas com uma carta na mão, na cidade alemã de Nuremberg. Ele não sabia ler, escrever, falar ou mesmo andar. Havia passado toda a sua vida trancado em uma espécie de masmorra, desprovido de qualquer contato com outras pessoas. Até mesmo sua comida era colocada no ambiente enquanto ele dormia. Algum tempo depois de sua libertação e convívio com a sociedade, o mesmo é misteriosamente assassinado com uma facada no peito. Jamais o mistério de sua origem foi desvendado, tendo surgido diversas teorias a respeito, entre estas a de que ele seria apenas um mendigo espertalhão (que “se fez de doido para melhor passar”, para usarmos uma expressão popular) e outra de que seria neto de Napoleão Bonaparte, escondido da sociedade por questões que envolveriam sucessão e bastardia.

O personagem histórico se constitui em uma ótima matéria-prima para o citado Herzog, um diretor bastante afeito a enfocar tipos deslocados da sociedade, vivendo em uma espécie de mundo próprio à parte dos demais, tendência que ainda manteve com o passar dos anos, basta lembrarmos de “Fitzcarraldo” (1982) e o documentário “O Homem Urso” (Grizzly Man, 2005). Ele é, ao lado de Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder, um dos grandes expoentes do chamado “Novo Cinema Alemão”, expressão cunhada para designar as produções capitaneadas por jovens diretores germânicos no final dos anos 60 e início dos 70, bastante influenciados pela Nouvelle Vague e também pelo Cinema Novo brasileiro. Destarte, ao contrário de Wim Wenders, por exemplo, o qual toca em questões existenciais com marcante sensibilidade, Herzog costuma caminhar em uma vertente mais cerebral, realizando análises das interações do indivíduo com a sociedade de uma maneira menos emocional, digamos assim. “O Enigma de Kaspar Hauser”* parece ser a epítome desta característica do cineasta alemão. Com um tema que poderia facilmente descambar para o sentimentalismo barato nas mãos de outros nomes, o diretor alemão traça um verdadeiro estudo não só das interações do indivíduo com um meio que lhe é hostil, mas também da própria ideia do que constitui a natureza humana.

Na narrativa de Herzog, Kaspar Hauser, depois de libertado, tem de se adaptar a um mundo que lhe é totalmente desconhecido, entrando em contato com regras e conceitos estranhos e que, para ele, são de difícil apreensão, já que havia passado toda sua vida tendo como único “companheiro” de confinamento um cavalinho de madeira e rodinhas. Entretanto, a despeito de seu anterior confinamento, Kaspar parece ser um homem inteiramente livre, despido dos grilhões colocados pelos condicionamentos culturais, entendendo o mundo de uma forma particular perfeitamente traduzida na frase que serve como prólogo ao longa-metragem: “vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?”. Ele parece enxergar o mundo como uma criança o faz, questionando toda e qualquer possível “verdade” que lhe é posta, sejam estes conceitos religiosos, culturais ou científicos (as cenas em que Kaspar dialoga com pastores e um professor de Lógica são particularmente interessantes).


Para interpretar um personagem tão peculiar, Herzog usou de uma escolha singular. O papel coube a Bruno S., na realidade um não-ator que passou a maior parte da vida internado em centros para alienados mentais. Ou seja, ele próprio tinha muito de Kaspar Hauser, o que redunda em uma atuação marcante, mesmo que você considere que ele estava interpretando a si mesmo (ele faria apenas mais um filme, "Stroszek", também de Herzog, que tinha um imenso trabalho para fazê-lo atuar). A verdade presente na interpretação do personagem central aliada a um clima onírico concebido pelo diretor , além de certa objetividade na narração dos acontecimentos - em boa parte da projeção há um escrivão reduzindo a termo todos os fatos que observa – dão ao filme um sabor único, causando estranheza mesmo se visto por um espectador mais habituado ao cinema dito “de arte”. Tal sensação de estranheza, bem como a veia cerebral do diretor, todavia, terminam por causar um certo distanciamento que se torna o calcanhar de Aquiles do filme, resultando, até certo ponto, em uma falta de identificação do público com o personagem. Não que tenhamos antipatia por Kaspar, mas quando comparado a “O Homem Elefante” (The Elephant Man, 1980), de David Lynch - para tomarmos um outro exemplo de protagonista que vivia isolado da sociedade e depois passa a ser integrado a ela - o personagem trabalhado por Herzog empalidece. O diretor parece esquecer de recompensar o espectador com um pouco de emoção – prova disso é a quase ausência de trilha sonora ao longo dos seus 110 minutos.

Destarte este pequeno equívoco, “O Enigma de Kaspar Hauser” (vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Cannes) é um libelo em defesa do livre pensamento, do espírito humano e um profundo questionamento sobre o que realmente somos. Quanto do que há em nós é propriamente nosso ou foi imposto e condicionado pelo meio em que vivemos? Será que somos realmente livres? Ou, ainda, quanto de humano pode existir em alguém que viveu completamente isolado de outros seres humanos? Herzog parece nos responder tornando Kaspar Hauser o mais humano de todos os personagens vistos na tela e sugerindo que [SPOILER] o seu assassinato foi resultado de seu espírito livre, gerando intolerância e desconforto na comunidade em que vivia. A sequência final, onde um grupo de médicos disseca o seu cérebro em busca de respostas para o seu comportamento “diferente” resume perfeitamente as limitações humanas diante daquilo que não consegue explicar, ou, simplesmente, aceitar.


Cotação:

Nota: 9,5


* O título original do longa, "Jeder für Sich und Gott Gegen Alle", foi retirado por Herzog de “Macunaíma”, obra do nosso Mário de Andrade, e significa “Cada Um Por Si e Deus Contra Todos”.

domingo, 28 de agosto de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Quanto Mais Quente Melhor
(Some Like It Hot, 1959)



Humor universal


Quando começo uma resenha sobre alguma comédia, costumo fazer a advertência de que humor é uma questão muito pessoal. Em inúmeras ocasiões podemos rir de uma determinada cena ou piada enquanto outras não verão nelas a menor graça. Tal característica possivelmente torna o gênero o mais difícil para qualquer artista, seja ele cineasta, escritor, ator ou qualquer outro. Entre os atores, já se tornou lugar-comum afirmar que é muito mais complicado fazer rir do que chorar. De qualquer forma, a frase resume a mais pura verdade. Sendo assim, só mesmo sendo genial para conseguir fazer qualquer um rir e um dos raros artistas a alcançar tal feito foi o diretor Billy Wilder e sua obra máxima da comédia “Quanto Mais Quente Melhor” (Some Like It Hot).

Este longa-metragem de 1959 é fruto de uma fase mais leve e divertida da carreira do famoso cineasta de origem austro-húngara (ele nasceu em 1906, quando o Império Austro-Húngaro ainda existia e a cidade onde nasceu hoje é território polonês). Sua fase anterior, onde predominaram dramas cáusticos, nos rendeu verdadeiras obras-primas do cinema, como “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace In The Hole, 1951) e “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), sendo que este último costuma até mesmo frequentar listas de melhores de todos os tempos (com inteira justiça, diga-se de passagem). A partir de 1954, com “Sabrina”, Wilder engendraria uma série de históricas comédias que legariam grandes momentos para a Sétima Arte, tais como “O Pecado Mora Ao Lado” (The Seven Year Itch, 1955) e “Se Meu Apartamento Falasse” (The Apartment, 1960). No entanto, Wilder jamais abandonou o seu lado crítico, continuando a espezinhar o cinismo e hipocrisias sociais e “Quanto Mais Quente Melhor” melhor se coloca como o perfeito ápice dessa fórmula que mistura consciência crítica e humor.


Tudo neste filme funciona. Desde o roteiro inspiradíssimo (curiosamente, até o início das filmagens, ele estava ainda pela metade), passando pelas atuações fabulosas e a direção magistral, não há nada que esteja fora de lugar, trazendo ao espectador duas horas memoráveis. Inspirado em um filme alemão de 1951, Fanfahren Der Liebe, em que dois músicos se fingem de mulher para integrar uma banda feminina, Wilder, auxiliado por I.A.L Diamond (seu frequente colaborador), elaborou um roteiro perfeito que consegue combinar diálogos afiados a gags sensacionais, além de puro pastelão, sem perder, como dito mais acima, a perene veia crítica que se tornou a marca registrada do diretor-roteirista. Aqui, Wilder ambienta a estória de travestismo nos EUA de 1929, tempo da depressão econômica e da Lei Seca, época em que o comércio de bebidas alcoólicas acabou se tornando tráfico devido à proibição oficial. É quando os dois amigos músicos Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) testemunham um massacre cometido por Spats Columbo (George Raft), chefão dos gangsteres de Chicago. Para salvar a pele, a única saída se torna acompanhar uma banda feminina de jazz que está de partida para apresentações em um hotel de Miami. É na viagem de trem que a dupla, que agora usa os nomes “Josephine” e “Daphne”, além de se exasperar para não ter o disfarce descoberto, ainda conhece Sugar Kane (a mítica Marilyn Monroe), cantora sensual, frágil e beberrona que desperta o imediato interesse dos dois. Para completar o salseiro, ao chegar a Miami “Daphne” passa a ser alvo dos cortejos incessantes do milionário Osgood Fielding (Joe E. Brown).


Para levar a cabo seus propósitos, Wilder teve que quebrar alguns tabus da indústria. Houve resistência do estúdio com a premissa do roteiro, que inseria comédia dentro de um contexto a princípio violento, um massacre. Ademais, o diretor lutou muito para que o longa permanecesse com suas duas horas, algo incomum para as comédias da época - na verdade, é uma duração pouco convencional até para as comédias de hoje. Mas o resultado final mostrou que ele estava certo. Até mesmo a utilização da fotografia em preto e branco se mostrou feliz, tanto para realçar o clima do período em que se passa a trama, como para atenuar o peso da maquiagem no rosto dos atores, a qual certamente pareceria muito exagerada caso fosse o utilizado o technicolor na produção.


Mas é claro que um roteiro brilhante exigiria intérpretes à altura da tarefa. Tony Curtis, que se sentia constrangido, de fato, em atuar travestido confere um ar de seriedade a sua “Josephine” que contrasta de maneira de maneira impagável com a atuação desinibida do sensacional Jack Lemmon, que transformou sua “Daphne” em uma das figuras mais hilárias da história do cinema. Esta foi a primeira colaboração de Lemmon com Wilder, parceria que renderia várias outros bons filmes na década seguinte. Além disso, temos a presença da lendária Marilyn, ícone atemporal de beleza e sensualidade, em um dos papéis pelos quais é mais lembrada, juntamente com o citado “O Pecado Mora Ao Lado” (que tem a cena famosa na qual sua saia sobe) e “Os Homens Preferem As Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, 1953, de Howard Hawks). Sua presença nos sets, porém, trouxe alguns problemas, já que ela estava em uma fase difícil emocionalmente, o que acentuava. ainda mais a sua já natural dificuldade em decorar diálogos. Foram necessários colocar papeis dentro de gavetas e em outras partes dos ambientes para que as filmagens tivessem sequência, o que acaba impacientando o restante do elenco (alguns afirmam que Curtis tinha especial impaciência com a situação). O se vê na tela, no entanto, é um elenco em grande sintonia, com um timing cômico perfeito não só entre as estrelas, mas também entre os coadjuvantes.

O desfecho antológico e inesperado parte inclusive de um desses coadjuvantes, Osgood, em uma cena concebida pelo co-roteirista Diamond na véspera de sua encenação, último tijolo na construção de uma comédia que se tornou realmente histórica. Não é por acaso que Wilder considerava este o seu melhor filme e o American Film Institute tenha elegido esta como a melhor comédia de todos os tempos. Uma obra que desafia a ideia que expressei mais acima de que o humor é algo muito pessoal, pois é quase impossível não rir com esta comédia fervilhante. Uma amostra de que, quando o talento fala mais alto, o humor pode ser universal.


Cotação e nota: Obra-prima.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

George e Scorsese


Essa foi uma das ótimas notícias que tivemos essa semana. "Gorge Harrison: Living In The Material World", o documentário de Martin Scorsese sobre o Beatle George Harrison ganhou um trailer bastante estimulante. Nossa, a vida de um beatle contada pelo cineasta mais musical do cinema vai ser de arrepiar! O documentário foi comprado pela HBO norte-maericana, que vai exibi-lo como um especial em duas partes, dias 5 e 6 de outubro. Além disso, o filme deve rodar festivais mundo afora, começando pelo de Nova York, que acontece de 30 de setembro a 16 de outubro. Aguardando! Veja o trailer abaixo!