domingo, 18 de setembro de 2011

Restaurando a Película




Amar Foi Minha Ruína
(Leave Her To Heaven, 1945)



As cores de um melodrama-noir


É comum associarmos o cinema noir à fotografia em preto e branco, algo perfeitamente natural, já que este gênero surgiu a partir da influência do expressionismo alemão e seus diretores que imigraram para os EUA fugindo do nazismo. Além disso, o noir era composto de produções de baixo orçamento, o que geralmente impossibilitava o uso do ainda caro technicolor, sendo este usado com mais frequência em grandes produções como “...E o Vento Levou” ou “O Mágico de Oz”. Assim, é com uma certa estranheza que ao vermos “Amar Foi Minha Ruína” nos deparamos com um resplandecente uso de cores, utilizadas não apenas como adorno fotográfico, mas também possuindo simbologias que enriquecem a adaptação para a tela grande do livro homônimo escrito por Ben Ames Williams. O impacto das cores se faz sentir ainda em uma das primeiras sequências, quando vemos a impressionante beleza de Gene Tierney, com o seu rosto que mais parece de um anjo moldado por algum escultor grego. Deve ter sido um enorme encanto, para o público de 1945, assistir a cenas com aqueles incríveis olhos azuis em uma tela de cinema, ainda mais se lembrarmos que seu maior sucesso havia sido no papel de Laura, personagem central do filme homônimo (de 1944 e um dos grandes clássicos do noir) produzido no ano anterior e rodado em p&b.

A escolha de Tierney para protagonista (que se deu depois da recusa de Rita Hayworth) foi mais do que feliz, uma vez que sua beleza contrasta, tais como as cores branca e preta, com o interior sinistro de Ellen Berent, sua personagem. O “preto e branco” existente na projeção ocorre nesta contraposição entre uma criatura tão bela exteriormente e tão horrível no seu íntimo. Palmas para o cineasta John M. Stahl, conhecido diretor de melodramas como “Imitação da Vida” (Imitation Of Life, 1934) e que aqui nos entrega o melhor trabalho de sua carreira, fugindo do tom sentimental da maior parte de sua obra para promover uma autêntica investigação sobre o lado mais pérfido que pode brotar de um ser humano.


O roteiro, construído com paciência e narrado em flashback, vai revelando lentamente o perfil da citada Ellen, uma mulher de família abastada que perdeu o pai recentemente. Somos apresentados a ela quando Richard Harland (Cornel Wilde), um escritor em férias, acaba se encontrando com a mesma em uma viagem de trem para o Novo México. A atração entre os dois surge quase imediatamente, principalmente da parte de Ellen, a qual vê muitas semelhanças entre Richard e seu falecido pai. Ela está noiva de um promotor de justiça, Russel Quinton (Vincent Price), mas não hesita em terminar rapidamente a relação com o mesmo e contrair um casamento relâmpago com Richard. Este, porém, vai percebendo gradualmente que Ellen tem um relacionamento difícil com as pessoas que a cercam, seja com a irmã Ruth (Jeanne Crain) ou a mãe (Mary Philips). E não tarda que a verdadeira personalidade de Ellen, possessiva e paranoica, comece a interferir no relacionamento do casal, já que a esposa repele a aproximação de qualquer outra pessoa que possa “se colocar” entre os dois, até mesmo de Danny, o irmão mais novo e paraplégico do marido.

Elaborado com inúmeras sutilezas, o enredo, por meio de diálogos muito bem escritos, evolui deixando pistas do que pode acontecer, como ao sugerir em alguns momentos a relação edipiana de Ellen com o seu genitor ou quando ela rejeita a sugestão de Richard de contratar uma empregada, já que seria a única pessoa que poderia lhe servir ou agradá-lo. Desta forma, ocorre um crescente dramático e mesmo de suspense que surpreende o espectador até chegarmos a cenas que se tornariam muitos imitadas posteriormente, [SPOILER] como aquela em que Ellen se atira escada abaixo para provocar um aborto ou ainda quando assiste impassível ao afogamento do jovem cunhado [FIM DE SPOILER]. Entretanto, nada disso funcionaria sem que a personagem central tivesse uma intérprete à altura. E Tierney, hoje uma atriz estranhamente pouco lembrada pelo grande público, se mostrou a escolha ideal não apenas pela sua supramencionada beleza, mas também por nos presentear aqui com aquela que pode ser considerada a melhor atuação de sua carreira, a qual acabou lhe rendendo uma indicação ao Oscar de melhor atriz (perdeu para Joan Crawford com “Alma Em Suplício”). Outro destaque entre as atuações fica com Jeanne Crain, na pele da irmã de Ellen, mostrando talento dramático, além de ser também muito bonita. Já Cornel Wilde deixa a desejar com uma interpretação apenas competente de seu Richard, sem maior brilho.


Como já destacado acima, em “Amar Foi Minha Ruína” a fotografia é um caso à parte, mas não apenas por destacar a beleza da atriz principal. Leon Shamroy, vencedor do Oscar por este trabalho, captou com extraordinária beleza as paisagens desérticas do Novo México, assim como os lagos e florestas do Maine. Algumas tomadas mais parecem verdadeiras pinturas de tão bonitas. Ademais, Shamroy soube destacar os figurinos usados por Ellen no decorrer da trama, pensados para surgirem de forma antagônica aos demais, pois que somente ela usa cores vivas como o vermelho, o azul e o verde, enquanto aos demais são reservadas cores neutras. Tão belas imagens são ainda sublinhadas pela ótima trilha de Alfred Newman, muito bem utilizada para marcar os momentos de tensão da narrativa. Alguns erros de continuidade, entretanto, se fazem notar, como em algumas sequências que se iniciam à noite e, em seguida, vemos o sol brilhando na imagem. Lapsos de Stahl que talvez tenham lhe custado o esquecimento por parte da Academia de Hollywood.

Forte e muito bem realizada, o excelente título original da produção, “Leave Her To Heaven”, possivelmente traduz o pensamento que perpassa a mente do espectador ao fim da experiência. A frase foi retirada do “Hamlet” de William Shakespeare e se refere à Rainha Gertrude, a qual se casou com o assassino do seu marido, podendo ser traduzida como “deixe-a para o céu julgar”. Nada mais adequado para uma mulher que transformou o amor que sentia em algo destrutivo não somente para ela, como também para o objeto do seu sentimento. Tendo envelhecido muito bem, é intrigante que este melodrama-noir, apesar de muito copiado, não seja muito lembrado pelos admiradores da Sétima Arte. Uma obra que merece ser mais conhecida.


Cotação:

Nota: 9,5

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Trilha Sonora #19


"Feitiço Havaiano" (Blue Hawaii, 1961) foi um dos filmes realizados logo após a volta do Rei do Rock, Elvis Presley, depois de prestar dois anos de serviço militar. Não é por acaso que seu personagem no filme também chega ao Havaí depois de dois anos no Exército. Obviamente, a trama do filme é daquelas típicas do cinema moldado para o astro: enredos bobinhos, com garotas bonitas, namoricos, alguma aventura e, claro, a música do Rei. E esta é de primeira qualidade, como demonstra "Can't Help Falling in Love", canção da trilha de "Feitiço Havaiano" que se transformou em enorme sucesso. Não seria para menos, já que a música é mesmo ótima. Som na caixa! Elvis não morreu!


terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Homem do Futuro



Para além da nostalgia


A música é uma forma de arte capaz de despertar reminiscências de momentos bastante específicos de nossas vidas. Uma determinada canção pode nos remeter ao primeiro encontro com uma namorada, a uma viagem, a uma festa, a fases mais tristes ou alegres da existência. Eu acreditava, entretanto, que só a música tinha esse poder de fazer com que nos lembremos até mesmo dos cheiros e iluminação de um ambiente onde ocorreu algo de significativo na história de cada um. Estava equivocado. Ao assistir a “O Homem do Futuro”, neste último fim de semana, percebi que o cinema, quando bem realizado, também pode ter esse dom.

Foi impressionante como este longa-metragem de Cláudio Torres (parece que o talento é mesmo genético em sua família) conseguiu me transportar para os tempos da faculdade, trazendo-me ótimas recordações das festas em que empunhava o microfone para cantar as músicas da Legião Urbana, tal como os dois personagens centrais da narrativa, João “Zero” (Wagner Moura) e Helena (Alinne Moraes), o fazem no evento crucial que trará todos os desdobramentos do interessante roteiro escrito pelo próprio diretor. É devido aos fatos que ali ocorreram que o físico João levou a tal alcunha de “Zero”. Agora, vinte anos depois do acontecido, ele está desenvolvendo uma pesquisa sobre uma nova forma revolucionária de energia, mas é também um homem muito amargurado, ressentido com o passado e que continua obsessivo por Helena. Em uma das experiências para provar que a forma de energia que pesquisa não causa riscos, João acaba sendo transportado para o passado, mais exatamente para o exato dia da festa que lhe trouxe tantos dissabores. Então, ele resolve tentar modificar o curso dos acontecimentos, o que levará a realidades alternativas também não muito felizes.

Este é o quarto trabalho de Torres como diretor e o terceiro bom filme que ele faz, demonstrando que além de ter talento para o ofício, também possui uma queda pelo fantástico/inusitado. Essa tendência se mostra tanto em “Redentor” (2004) quanto em “A Mulher Invisível” (2009) e aqui se solidifica ainda mais, especialmente por investir em um gênero pouco explorado no cinema nacional, como é o caso da ficção científica. Mesmo tendo de lidar com um roteiro naturalmente intrincado – como normalmente sucede com filmes que tratam de viagens temporais (e que comumente têm seus furos) – Torres jamais deixa a peteca cair, estabelecendo um ótimo ritmo para a narrativa e sem que ocorra confusão na mente do espectador em meio a tantas passagens de tempo. Além disso, mesmo diante de limitações orçamentárias, como fica claro na utilização de uma construção de Oscar Niemeyer para servir de residência para João em um dos futuros alternativos, os efeitos especiais empregados são muito convincentes e não apenas nos momentos em que o personagem central viaja no tempo, havendo outros mais sutis espalhados ao longo da projeção que sequer nos damos conta. No entanto, existem alguns descuidos de produção que se fazem notar, como denominar a máquina de João em um certo momento de “acelerador de partículas” e em outro como “conversor de partículas” o que, em termos físicos, faz uma baita diferença.


Não obstante estes pequenos problemas, a escolha do elenco foi de uma felicidade ímpar e isto se faz ainda mais importante se tivermos em vista o limitado número de personagens que compõem a trama. Alinne Moraes, além de sua beleza e sensualidade, e a despeito de algumas incongruências com sua Helena no inicio da narrativa, nos dá uma boa atuação, encaixando-se perfeitamente na figura da mulher que vira o objetivo de vida do protagonista. Já Fernando Ceylão, que faz Otávio, o melhor amigo de João, está ótimo com seu tipo engraçado e camarada, levando-nos a torcer para que seu personagem também tenha um bom desfecho. Maria Luísa Mendonça também sempre aparece bem como Sandra, amiga do protagonista e responsável pelo financiamento de suas pesquisas, assim como Gabriel Braga Nunes se encaixa bem no papel do playboy antipático. Mas é mesmo Wagner Moura que, em mais uma oportunidade, nos entrega um show particular ao interpretar o mesmo personagem em três fases distintas de sua vida. Ingênuo e tímido quando jovem, nervoso e amargurado já mais velho, além de finalmente equilibrado e seguro após aceitar e entender os eventos de sua história de vida, o ator consegue atribuir características distintas a cada um deles, mas sem que pareçam ser pessoas diferentes. Já vi comentários pela internet realizando comparações com “De Volta Para O Futuro” (Back To The Future, 1985), afirmando que ele consegue fazer Marty McFly, George McFly, Doc Brown e Biff todos ao mesmo tempo. E eu ainda acrescento: faz todos estes dentro do mesmo papel e jamais caindo no ridículo. Como já considerei em outras oportunidades (vide a resenha de “Tropa de Elite 2”), acredito que Wagner Moura é não apenas o melhor ator do Brasil no momento, mas está, e por que não, entre o melhores do mundo.

Não bastasse o sucesso do elenco, a trilha sonora pop incidental foi escolhida com rara felicidade. Torres já havia demonstrado ter perspicácia para tanto em “A Mulher Invisível” e aqui não foi diferente. A escolha de “Tempo Perdido”, da Legião Urbana (no filme interpretada por Wagner e Alinne), para sublinhar com força os principais momentos da projeção, é perfeita, assim como “Creep”, do Radiohead (com vocais também de Wagner juntamente com a banda Sua Mãe, da qual fez parte) e “It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”, do R.E.M, são inseridas de maneira sensacional, totalmente adequadas às cenas das quais fazem parte. O espectador acaba saindo da sala com as canções tocando na mente, com vontade de continuar ouvindo repetidas vezes.

Com tantos méritos, “O Homem do Futuro” não apenas é feliz em levar o público a uma viagem nostálgica (o que aconteceu comigo, como relatei acima). Ele é ótimo tanto como um entretenimento que nos fará dar várias risadas, como também em nos fazer compreender que os erros e fatos tristes do passado de cada um são importantes como aprendizado e amadurecimento. Não adianta querermos mudar o passado ou simplesmente esquecê-lo. O importante está em aceitá-lo e crescer com ele. Acima mencionei que a obra de Cláudio Torres tem um pendor para o fantástico. É verdade, mas também é verdade que em todos os seus filmes os personagens são obrigados a superar suas dores e aprender com elas. Na vida, evoluir é essencial.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 11 de setembro de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem



Macacos de todo o mundo: uni-vos!


Ao longo de meu período universitário, um dos trabalhos acadêmicos que mais me deixou recordações foi realizado dentro de disciplina de Ética, ainda no 3º período. Foi um seminário em que discutíamos se nós, seres humanos, temos o direito de impingir sofrimento ou mesmo matar outros seres vivos tidos como “irracionais”. Lembro-me que, um dos livros base para o trabalho, denominado “Ética Prática” (do polêmico filósofo Peter Singer), relatava uma experiência com macacos da espécie conhecida como bonobo, onde cientistas chegaram à conclusão que estes símios possuíam, na idade adulta, uma inteligência similar a uma criança de 6 anos, chegando a possuir consciência de si mesmos. Diante desta constatação, meu grupo defendeu a tese de que animais com tamanho desenvolvimento deveriam ter garantido seu direito à vida tal como nós, seres humanos, bem como não deveriam ser submetidos a tratamentos degradantes (como reclusão em jaulas ou experiências de caráter científico temerário). Mas por que estou relembrando esses fatos pessoais de minha vida estudantil nesta resenha? Bem, não é por mero saudosismo. A questão é que “Planeta dos Macacos: A Origem”, atualmente em exibição nos cinemas, tem como ponto central justamente o questionamento sobre os limites da postura da humanidade diante das outras espécies tidas como “irracionais”.


É a partir desta ideia, de que os animais devem se tratados com mais respeito pela humanidade, que os roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver desenvolvem um roteiro inteligente e que se conecta muito bem com o filme original de 1968, estrelado por Charlton Heston e dirigido por Franklin J,. Shaffner (grande diretor que deveria ser mais lembrado), longa-metragem que gerou várias sequências nos anos 70 e até série televisiva. A trama, que se passa em um futuro próximo, é amarrada a partir de uma pesquisa sobre o Mal de Alzheimer desenvolvida pelo cientista Will Rodman (James Franco, apenas competente). Símios de diversas espécies, de chimpanzés a orogotangos, são as cobaias usadas e alguns deles acabam desenvolvendo uma inteligência acima do comum. É o filhote de uma das fêmeas, Cesar (o fantástico Andy Serkis), que acaba sendo levado por Will para ser criado em casa, demonstrando, aos poucos, que tem uma compreensão sobre o mundo que o cerca semelhante a de um homem. Entretanto, Cesar vai aos poucos se sentindo inferiorizado por ser tratado como um bicho de estimação quando fora de casa, além de se sentir isolado em um mundo dominado por humanos, até que, como já subentendido pelo título do filme, alguns fatos que ocorrem que levarão não apenas Cesar, como também o grupo de símios por ele liderado, a uma revolta contra as condições degradantes em que vivem e pela liberdade.


Interessante perceber, ao longo da narrativa de um blockbuster concebido por Hollywood, a presença constante de concepções de cunho socialista, apresentando-se como um verdadeiro manifesto contra qualquer tipo de opressão, indo além da mera panfletagem ecológica. A cena em que Cesar dialoga com outro macaco mostrando que estes isolados são frágeis e que juntos podem ser fortes é puro marxismo. Só faltou surgir a frase “macacos de todo o mundo: uni-vos” para que pudéssemos sentir na tela a perfeita transposição do Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels. Não é exagero dizer que Sergei Eisenstein poderia, caso fosse vivo, ter assumido a direção do projeto.

Não obstante este caráter social-libertário, o filme apresenta méritos excepcionais enquanto obra cinematográfica. Os efeitos usados para conceber Cesar, com aquela captação de movimentos e expressões que se tornou famosa desde a trilogia “O Senhor dos Anéis” (motion capture), são simplesmente incríveis. Em vários momentos, parece que estamos diante de um macaco real, esquecendo que se trata apenas de um artifício da tecnologia. À parte os méritos da técnica, Andy Serkis, que já se especializou neste tipo de trabalho, nos entrega mais uma atuação excepcional. Talvez um dia a Academia reconheça o mérito de suas performances e o premie com um Oscar. Vale dizer que não apenas Cesar é convincente, mas todos os outros símios também o são, consagrando o longa como mais um marco na evolução dos efeitos visuais. Na outra vertente, a dos humanos, se o citado James Franco não enche os olhos com sua atuação, John Lithgow, que faz o pai de Will, portador do Mal de Alzheimer, é o único dos “humanos” a nos estregar uma ótima atuação, já que Freida Pinto, como a namorada de Will e veterinária que ajuda nos cuidados com Cesar, não tem muito o que fazer (mas está bonita como sempre). Destarte, é surpreendente ver com um diretor praticamente desconhecido como Rupert Wyatt pode nos entregar um longa tão bem conduzido, sabendo dosar a tensão e contar sem pressa a narrativa. Além disso, mostra-se um grande diretor de sequências de ação, onde entendemos perfeitamente tudo que está acontecendo na tela (viu Michael Bay?).

Apesar da estória acabar por recorrer a situações inverossímeis (como um grupo de macacos poderia resistir tão bem a um enorme contingente de polícia e exército armados?), “Planeta dos Macacos: A Origem” se mostra como um libelo contra toda forma de opressão, seja no que diz respeito a classes sociais, sexo, raça ou mesmo contra outras espécies de seres vivos, como fica mais explicitado no longa. Ademais, ainda toca no tema da responsabilidade com pesquisas científicas que possam eventualmente gerar situações que fujam do controle, colocando em risco a própria existência humana. Um blockbuster que, além de levar ótimo entretenimento ao espectador, consegue também fazê-lo refletir é sempre muito bem-vindo. O sucesso que este longa-metragem vem obtendo nas bilheterias é bastante merecido e talvez ele possa ser inserido dentro daquela nova revolução que parece estar acontecendo no cinema comercial: a dos grandes lançamentos que também fazem o público pensar (como no exemplo de “A Origem”). Um filme que faz justiça ao mencionado original de 1968.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quero Ver Novamente #14


Há poucos dias, revi "Magnólia" (1999) e pude constatar o quanto esse filme pode ser surpreendente, com seu roteiro inusitado e atuações excelentes. Todavia, à parte sua indubitável inteligência, o que mais encanta nesta obra de Paul Thomas Anderson é sua capacidade de emocionar, como nesta conhecida sequência em que todos os personagens cantam "Wise Up", uma das composições de Aimee Mann que serviram de inspiração para o filme (Anderson é amigo da cantora). Ah, e se você ainda não viu, resolva imediatamente este problema! Assista abaixo à referida cena.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tempo de Glória
(Glory, 1989)


Bom para o cinema, importantíssimo para a memória



É curioso que o cinema norte-americano aborde tão esporadicamente um evento de importância crucial na História dos Estados Unidos como o foi a famosa Guerra de Secessão. Mesmo o clássico absoluto “...E o Vento Levou”, primeiro filme que costuma vir à mente dos cinéfilos quando se menciona dita temática, coloca o conflito apenas como um pano de fundo e ambientação histórica para as desventuras de Scarlett O'Hara, sem levar a fundo uma investigação sobre as causas e consequências da guerra. Talvez esse descaso das produções estadunidenses ocorra porque o referido evento histórico mexe com feridas ainda não cicatrizadas da formação do país, tocando em aspectos como o ódio racial, direitos civis e também o desnível econômico hoje existente entre os estados do Norte e do Sul. Dentro desse contexto, um filme como “Tempo de Glória” (Glory) se faz muito bem vindo ao não apenas abordar diretamente o conflito, mas também ao remexer em algumas dessas sujeiras que os norte-americanos fazem questão de tentar esconder embaixo do tapete.

Este é, possivelmente, ao lado de “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, 2006), o melhor filme da irregular carreira do diretor Edward Zwick, o qual também foi responsável por bombas como “Lendas da Paixão” (Legends Of The Fall, 1994), uma espécie de novelão disfarçado de cinema. É possível que este seu sucesso em “Tempo de Glória” se deva à própria natureza grandiosa dos fatos que inspiraram sua realização, aptos a deixar correr solto o tom épico grandioso que parece ser uma autêntica mania de Zwick, mas sem que isso se torne cafona. Afinal, a narrativa trata do destino do 54º Regimento do Exército de Massachusetts, o primeiro a ser formado apenas por negros durante a secessão. Menosprezado por muitos, já que composto por voluntários que, em sua maioria, não tinham qualquer noção de combate (além do preconceito com a cor da pele, claro), o 54º acabou servindo como espelho de bravura e obstinação para os demais ao tentar tomar um forte sulista praticamente intransponível.

O roteiro, escrito por Kevin Jarre, foi baseado em livros de Lincoln Kirstein e Peter Buchard, os quais, por sua vez, inspiraram-se nas cartas de Robert Gould Shaw, jovem coronel pertencente a uma abastada família de Boston, mas de caráter bastante liberal (no filme interpretado por Matthew Broderick). Alguns apontam como crítica este desenvolvimento da trama a partir do ponto de vista de um branco, mas a realidade é que tal ótica não deixa de ser a mais fiel aos fatos históricos (hoje, as cartas encontram-se arquivadas na Universidade de Harvard). Destarte, de todos os personagens da trama apenas o Coronel é comprovadamente real. Todos os soldados negros são elaborações ficcionais. Entretanto, os tipos são bem construídos, desde o revoltado Trip (Denzel Washington, no papel que o levaria ao estrelato), passando pelo sensato sargento (e ex-coveiro) John Rawlins (Morgan Freeman), até o letrado Thomas Searles (Andre Braugher), todos apresentam facetas tridimensionais, sendo mostrados não apenas seu idealismo e bravura, mas também suas dúvidas, fraquezas e inseguranças. Neste aspecto, é importante salientar a qualidade das interpretações em tela. Morgan Freeman faz aquele seu tipo característico, mas com a competência de sempre; Braugher consegue demonstrar todo o conflito de um homem idealista, mas inteiramente desconfortável e fragilizado com o duro treinamento militar. Entretanto, o show fica mesmo por conta de Denzel Washington. A cena em que o ex-escravo Trip é chicoteado devido a uma suposta tentativa de deserção é realmente memorável e só ela já faria por merecer o Oscar de ator coadjuvante que o intérprete levou. Ademais, Matthew Broderick encontra aqui o seu melhor momento no cinema ao lado do seu antológico Ferris Bueller de “Curtindo A Vida Adoidado” (Ferris Bueller's Day Off, 1986).


Por outro lado, o roteiro também é feliz ao cutucar, por meio de interessantes diálogos, as feridas raciais norte-americanas. Em dado momento, Trip questiona o Coronel Shaw: “Se vencermos, Coronel, você voltará a Boston, para sua casa e sua família. E nós, o que ganharemos?”. Ou ainda, quando Trip zomba de uma tropa de soldados brancos que voltam derrotados de uma batalha e é criticado pelo Sargento Rawlins: “não seja idiota, eles estão lutando por nós. Já enterrei muitos soldados brancos, agora é hora de nós também fazermos a nossa parte”.

Mesmo que o texto, em alguns momentos, possua algumas doses acentuadas de fatalismo, os problemas da película se encontram mesmo na direção de Zwick, sempre no limite entre o bom gosto e o sentimentalismo barato, principalmente ao fazer a trilha sonora despertar acordes épicos e emocionais a cada três minutos, mesmo que, em termos puramente musicais, as composições de James Horner sejam belíssimas. A presença de alguns momentos piegas, todavia, não impede que existam cenas de real emoção, como naquela em que os soldados - em um momento que revela as origens da música norte-americana - cantam antes da batalha que pode significar as suas mortes. De qualquer forma, a beleza da fotografia de Freddie Francis (vencedora do Oscar) , bem como a impactante e violenta sequência da batalha final no forte (uma espécie de precursora do que seria feito mais tarde em “O Resgate do Soldado Ryan”) compensam os eventuais deslizes de Zwick.

Dono de um apuro técnico que nos faz duvidar que seja uma produção de 1989, “Tempo de Glória” se coloca, hoje, como uma espécie de remédio contra o cinismo e a indiferença do século XXI, narrando com eficácia uma história real deveras inspiradora. Por outro lado, não deixa de apontar o dedo para determinados problemas da sociedade americana que ainda perduram mesmo depois de tantos anos. Um filme que se faz importante não somente por suas qualidades cinematográficas, mas, principalmente, por ser um dos poucos longas a retratar com eficiência uma momento histórico pouco abordado na produção ianque. Bom para o cinema, mais importante ainda para a memória.


Cotação:

Nota: 8,5

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Eddie Murphy no Oscar 2012?


Como muitos de vocês já devem estar sabendo, Brett Ratner (diretor de "X-Men: O Confronto Final") será o responsável pela direção da festa do Oscar em 2012. Pois bem, agora ele convidou Eddie Murphy, que no passado já teve larga experiência como humorista stand-up, para apresentar a 84ª edição do evento. A escolha se torna curiosa pelo fato de Murphy já ter feito papel de ridículo quando de sua indicação ao prêmio de ator coadjuvante por "Dreamgirls" (quando perdeu, levantou-se e foi embora) e também não ser das figuras mais bem quistas em Hollywood. Sendo bem sincero, a verdade é que as cerimônias se tornariam bem melhores sem esses "apresentadores". Bastaria aquele(a) que vai anunciar cada prêmio entrar, relacionar os indicados e o vencedor e ponto final. Se a audiência do programa vai caindo com o passar das horas é justamente porque as pessoas perdem a paciência com tanta bobagem... A cerimônia do Oscar 2012 está prevista para o dia 26 de fevereiro.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


O Enigma de Kaspar Hauser
(Jeder für Sich und Gott Gegen Alle, 1974)


Intolerância



Antes de tudo, convém explicar quem foi Kaspar Hauser, personagem central desta obra do cineasta alemão Werner Herzog. Trata-se de um rapaz que foi encontrado, em 1828, em uma praça, apenas com uma carta na mão, na cidade alemã de Nuremberg. Ele não sabia ler, escrever, falar ou mesmo andar. Havia passado toda a sua vida trancado em uma espécie de masmorra, desprovido de qualquer contato com outras pessoas. Até mesmo sua comida era colocada no ambiente enquanto ele dormia. Algum tempo depois de sua libertação e convívio com a sociedade, o mesmo é misteriosamente assassinado com uma facada no peito. Jamais o mistério de sua origem foi desvendado, tendo surgido diversas teorias a respeito, entre estas a de que ele seria apenas um mendigo espertalhão (que “se fez de doido para melhor passar”, para usarmos uma expressão popular) e outra de que seria neto de Napoleão Bonaparte, escondido da sociedade por questões que envolveriam sucessão e bastardia.

O personagem histórico se constitui em uma ótima matéria-prima para o citado Herzog, um diretor bastante afeito a enfocar tipos deslocados da sociedade, vivendo em uma espécie de mundo próprio à parte dos demais, tendência que ainda manteve com o passar dos anos, basta lembrarmos de “Fitzcarraldo” (1982) e o documentário “O Homem Urso” (Grizzly Man, 2005). Ele é, ao lado de Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder, um dos grandes expoentes do chamado “Novo Cinema Alemão”, expressão cunhada para designar as produções capitaneadas por jovens diretores germânicos no final dos anos 60 e início dos 70, bastante influenciados pela Nouvelle Vague e também pelo Cinema Novo brasileiro. Destarte, ao contrário de Wim Wenders, por exemplo, o qual toca em questões existenciais com marcante sensibilidade, Herzog costuma caminhar em uma vertente mais cerebral, realizando análises das interações do indivíduo com a sociedade de uma maneira menos emocional, digamos assim. “O Enigma de Kaspar Hauser”* parece ser a epítome desta característica do cineasta alemão. Com um tema que poderia facilmente descambar para o sentimentalismo barato nas mãos de outros nomes, o diretor alemão traça um verdadeiro estudo não só das interações do indivíduo com um meio que lhe é hostil, mas também da própria ideia do que constitui a natureza humana.

Na narrativa de Herzog, Kaspar Hauser, depois de libertado, tem de se adaptar a um mundo que lhe é totalmente desconhecido, entrando em contato com regras e conceitos estranhos e que, para ele, são de difícil apreensão, já que havia passado toda sua vida tendo como único “companheiro” de confinamento um cavalinho de madeira e rodinhas. Entretanto, a despeito de seu anterior confinamento, Kaspar parece ser um homem inteiramente livre, despido dos grilhões colocados pelos condicionamentos culturais, entendendo o mundo de uma forma particular perfeitamente traduzida na frase que serve como prólogo ao longa-metragem: “vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?”. Ele parece enxergar o mundo como uma criança o faz, questionando toda e qualquer possível “verdade” que lhe é posta, sejam estes conceitos religiosos, culturais ou científicos (as cenas em que Kaspar dialoga com pastores e um professor de Lógica são particularmente interessantes).


Para interpretar um personagem tão peculiar, Herzog usou de uma escolha singular. O papel coube a Bruno S., na realidade um não-ator que passou a maior parte da vida internado em centros para alienados mentais. Ou seja, ele próprio tinha muito de Kaspar Hauser, o que redunda em uma atuação marcante, mesmo que você considere que ele estava interpretando a si mesmo (ele faria apenas mais um filme, "Stroszek", também de Herzog, que tinha um imenso trabalho para fazê-lo atuar). A verdade presente na interpretação do personagem central aliada a um clima onírico concebido pelo diretor , além de certa objetividade na narração dos acontecimentos - em boa parte da projeção há um escrivão reduzindo a termo todos os fatos que observa – dão ao filme um sabor único, causando estranheza mesmo se visto por um espectador mais habituado ao cinema dito “de arte”. Tal sensação de estranheza, bem como a veia cerebral do diretor, todavia, terminam por causar um certo distanciamento que se torna o calcanhar de Aquiles do filme, resultando, até certo ponto, em uma falta de identificação do público com o personagem. Não que tenhamos antipatia por Kaspar, mas quando comparado a “O Homem Elefante” (The Elephant Man, 1980), de David Lynch - para tomarmos um outro exemplo de protagonista que vivia isolado da sociedade e depois passa a ser integrado a ela - o personagem trabalhado por Herzog empalidece. O diretor parece esquecer de recompensar o espectador com um pouco de emoção – prova disso é a quase ausência de trilha sonora ao longo dos seus 110 minutos.

Destarte este pequeno equívoco, “O Enigma de Kaspar Hauser” (vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Cannes) é um libelo em defesa do livre pensamento, do espírito humano e um profundo questionamento sobre o que realmente somos. Quanto do que há em nós é propriamente nosso ou foi imposto e condicionado pelo meio em que vivemos? Será que somos realmente livres? Ou, ainda, quanto de humano pode existir em alguém que viveu completamente isolado de outros seres humanos? Herzog parece nos responder tornando Kaspar Hauser o mais humano de todos os personagens vistos na tela e sugerindo que [SPOILER] o seu assassinato foi resultado de seu espírito livre, gerando intolerância e desconforto na comunidade em que vivia. A sequência final, onde um grupo de médicos disseca o seu cérebro em busca de respostas para o seu comportamento “diferente” resume perfeitamente as limitações humanas diante daquilo que não consegue explicar, ou, simplesmente, aceitar.


Cotação:

Nota: 9,5


* O título original do longa, "Jeder für Sich und Gott Gegen Alle", foi retirado por Herzog de “Macunaíma”, obra do nosso Mário de Andrade, e significa “Cada Um Por Si e Deus Contra Todos”.

domingo, 28 de agosto de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Quanto Mais Quente Melhor
(Some Like It Hot, 1959)



Humor universal


Quando começo uma resenha sobre alguma comédia, costumo fazer a advertência de que humor é uma questão muito pessoal. Em inúmeras ocasiões podemos rir de uma determinada cena ou piada enquanto outras não verão nelas a menor graça. Tal característica possivelmente torna o gênero o mais difícil para qualquer artista, seja ele cineasta, escritor, ator ou qualquer outro. Entre os atores, já se tornou lugar-comum afirmar que é muito mais complicado fazer rir do que chorar. De qualquer forma, a frase resume a mais pura verdade. Sendo assim, só mesmo sendo genial para conseguir fazer qualquer um rir e um dos raros artistas a alcançar tal feito foi o diretor Billy Wilder e sua obra máxima da comédia “Quanto Mais Quente Melhor” (Some Like It Hot).

Este longa-metragem de 1959 é fruto de uma fase mais leve e divertida da carreira do famoso cineasta de origem austro-húngara (ele nasceu em 1906, quando o Império Austro-Húngaro ainda existia e a cidade onde nasceu hoje é território polonês). Sua fase anterior, onde predominaram dramas cáusticos, nos rendeu verdadeiras obras-primas do cinema, como “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace In The Hole, 1951) e “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), sendo que este último costuma até mesmo frequentar listas de melhores de todos os tempos (com inteira justiça, diga-se de passagem). A partir de 1954, com “Sabrina”, Wilder engendraria uma série de históricas comédias que legariam grandes momentos para a Sétima Arte, tais como “O Pecado Mora Ao Lado” (The Seven Year Itch, 1955) e “Se Meu Apartamento Falasse” (The Apartment, 1960). No entanto, Wilder jamais abandonou o seu lado crítico, continuando a espezinhar o cinismo e hipocrisias sociais e “Quanto Mais Quente Melhor” melhor se coloca como o perfeito ápice dessa fórmula que mistura consciência crítica e humor.


Tudo neste filme funciona. Desde o roteiro inspiradíssimo (curiosamente, até o início das filmagens, ele estava ainda pela metade), passando pelas atuações fabulosas e a direção magistral, não há nada que esteja fora de lugar, trazendo ao espectador duas horas memoráveis. Inspirado em um filme alemão de 1951, Fanfahren Der Liebe, em que dois músicos se fingem de mulher para integrar uma banda feminina, Wilder, auxiliado por I.A.L Diamond (seu frequente colaborador), elaborou um roteiro perfeito que consegue combinar diálogos afiados a gags sensacionais, além de puro pastelão, sem perder, como dito mais acima, a perene veia crítica que se tornou a marca registrada do diretor-roteirista. Aqui, Wilder ambienta a estória de travestismo nos EUA de 1929, tempo da depressão econômica e da Lei Seca, época em que o comércio de bebidas alcoólicas acabou se tornando tráfico devido à proibição oficial. É quando os dois amigos músicos Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) testemunham um massacre cometido por Spats Columbo (George Raft), chefão dos gangsteres de Chicago. Para salvar a pele, a única saída se torna acompanhar uma banda feminina de jazz que está de partida para apresentações em um hotel de Miami. É na viagem de trem que a dupla, que agora usa os nomes “Josephine” e “Daphne”, além de se exasperar para não ter o disfarce descoberto, ainda conhece Sugar Kane (a mítica Marilyn Monroe), cantora sensual, frágil e beberrona que desperta o imediato interesse dos dois. Para completar o salseiro, ao chegar a Miami “Daphne” passa a ser alvo dos cortejos incessantes do milionário Osgood Fielding (Joe E. Brown).


Para levar a cabo seus propósitos, Wilder teve que quebrar alguns tabus da indústria. Houve resistência do estúdio com a premissa do roteiro, que inseria comédia dentro de um contexto a princípio violento, um massacre. Ademais, o diretor lutou muito para que o longa permanecesse com suas duas horas, algo incomum para as comédias da época - na verdade, é uma duração pouco convencional até para as comédias de hoje. Mas o resultado final mostrou que ele estava certo. Até mesmo a utilização da fotografia em preto e branco se mostrou feliz, tanto para realçar o clima do período em que se passa a trama, como para atenuar o peso da maquiagem no rosto dos atores, a qual certamente pareceria muito exagerada caso fosse o utilizado o technicolor na produção.


Mas é claro que um roteiro brilhante exigiria intérpretes à altura da tarefa. Tony Curtis, que se sentia constrangido, de fato, em atuar travestido confere um ar de seriedade a sua “Josephine” que contrasta de maneira de maneira impagável com a atuação desinibida do sensacional Jack Lemmon, que transformou sua “Daphne” em uma das figuras mais hilárias da história do cinema. Esta foi a primeira colaboração de Lemmon com Wilder, parceria que renderia várias outros bons filmes na década seguinte. Além disso, temos a presença da lendária Marilyn, ícone atemporal de beleza e sensualidade, em um dos papéis pelos quais é mais lembrada, juntamente com o citado “O Pecado Mora Ao Lado” (que tem a cena famosa na qual sua saia sobe) e “Os Homens Preferem As Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, 1953, de Howard Hawks). Sua presença nos sets, porém, trouxe alguns problemas, já que ela estava em uma fase difícil emocionalmente, o que acentuava. ainda mais a sua já natural dificuldade em decorar diálogos. Foram necessários colocar papeis dentro de gavetas e em outras partes dos ambientes para que as filmagens tivessem sequência, o que acaba impacientando o restante do elenco (alguns afirmam que Curtis tinha especial impaciência com a situação). O se vê na tela, no entanto, é um elenco em grande sintonia, com um timing cômico perfeito não só entre as estrelas, mas também entre os coadjuvantes.

O desfecho antológico e inesperado parte inclusive de um desses coadjuvantes, Osgood, em uma cena concebida pelo co-roteirista Diamond na véspera de sua encenação, último tijolo na construção de uma comédia que se tornou realmente histórica. Não é por acaso que Wilder considerava este o seu melhor filme e o American Film Institute tenha elegido esta como a melhor comédia de todos os tempos. Uma obra que desafia a ideia que expressei mais acima de que o humor é algo muito pessoal, pois é quase impossível não rir com esta comédia fervilhante. Uma amostra de que, quando o talento fala mais alto, o humor pode ser universal.


Cotação e nota: Obra-prima.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

George e Scorsese


Essa foi uma das ótimas notícias que tivemos essa semana. "Gorge Harrison: Living In The Material World", o documentário de Martin Scorsese sobre o Beatle George Harrison ganhou um trailer bastante estimulante. Nossa, a vida de um beatle contada pelo cineasta mais musical do cinema vai ser de arrepiar! O documentário foi comprado pela HBO norte-maericana, que vai exibi-lo como um especial em duas partes, dias 5 e 6 de outubro. Além disso, o filme deve rodar festivais mundo afora, começando pelo de Nova York, que acontece de 30 de setembro a 16 de outubro. Aguardando! Veja o trailer abaixo!


domingo, 21 de agosto de 2011

Super 8



Muito obrigado!


Talvez seja resultado da temática abordada, mas a sensação que tive ao término da sessão de “Super 8” foi a de que o filme é muito mais do produtor Steven Spielberg do que do diretor J.J. Abrams. Afinal, o gênero da aventura infanto-juvenil foi praticamente inventado por Spielberg a partir de “E.T. - O Extraterrestre” (1982), o qual acabou gerando, ao longo dos anos 80, uma profusão de filmes voltados para este público, como “Os Goonies” (1985) e “Conta Comigo” (Stand By Me, 1986). Quem foi garoto(a) nos anos 80 deve guardar com carinho na memória a lembrança destas produções que dialogavam com imensa eficácia com o seu imaginário, fazendo despertar emoções e até mesmo ajudando na construção de uma personalidade e, claro, também constituindo uma grande diversão. “Super 8” é exatamente uma homenagem a este tipo de cinema tão caro a muitos adultos de hoje. Mas não só isso. É também uma declaração de amor à própria arte cinematográfica.

O próprio título do longa-metragem já se constitui uma referência a uma das formas de se fazer cinema. Super 8 era uma tipo de câmera muito comum até o início nos anos 80 e frequentemente usada por cineastas amadores para realizar suas produções caseiras. Ela utilizava o barato filme de 8mm (daí o nome do dispositivo) e não possuía negativo, não permitindo, desta forma, mais de uma revelação. Sendo assim, a única maneira de se fazer a edição, era, literalmente, cortando e emendando pedaços de filme. Tais dificuldades, entretanto, jamais inibiram os diretores e atores aspirantes, havendo até mesmo concursos de curtas no formato, o que era um grande estímulo para a garotada. Basta lembrar que o próprio Steven Spielberg começou assim, filmando em super 8 com os amigos da vizinhança. E é exatamente na realização de um curta neste formato que os protagonistas da produção estão envolvidos.

A narrativa nos apresenta Joe Lamb (Joel Courtney), um garoto que acabou de perder a mãe em circunstâncias trágicas. Além da escola, seus dias se passam em auxiliar o amigo e “diretor” Charles (Riley Griffiths) na realização de curtas sobre zumbis (o que dá ensejo a várias homenagens, ao longo da projeção, a George Romero, o mestre do gênero terror-zumbi), ao lado de outros companheiros. É quando eles resolvem filmar uma cena de amor em uma estação de trem da pequena cidade de Lillian, Ohio, que acontece um evento estranho e que acaba acidentalmente sendo capturado pela câmera, tornando-os alvos da perseguição do Exército, o qual ocupa a localidade logo após a ocorrência do citado evento. Com um roteiro tão simples e direto, sobra espaço para que sejam explorados os sentimentos e conflitos típicos desta fase da vida. Com personagens muito bem construídos e carismáticos, vamos acompanhando o nascimento e construção das amizades, o surgimento do primeiro amor, além da necessidade de começar a enfrentar aspectos mais duros da vida, como a perda de pessoas próximas. Esta última, vale dizer, se configura em algo caro à filmografia spielberguiana, comumente pontuada por lares esfacelados, seja pela perda, seja pela separação de pais. Não é mera coincidência o fato de Joe lembrar muito o Michael, personagem central de “E.T.”


Contando com um elenco quase inteiro de atores novatos, é impressionante o resultado interpretativo que o diretor Abrams conseguiu arrancar da garotada. Todos entregam boas atuações e encontram-se em perfeita sintonia, valendo um destaque especial para Elle Fanning (irmã de Dakota Fanning), como Alice, a menina e interesse romântico do grupo, e Joel Courtney, como o protagonista Joe (como eles choram bem!). Com tanto carisma, torna-se impossível não se identificar e se empolgar com suas aventura e desventuras. Falando em aventuras, Abrams dá um show de direção ao criar cenas espetaculares. A cena do descarrilamento do trem, por exemplo, já se coloca como uma das mais memoráveis dos últimos anos. Simplesmente sensacional! Como é bom ver quando efeitos especiais são usados a favor da narrativa e não esta em prol da tecnologia (viu, Michael Bay?). Da mesma forma, a recriação do clima dos anos 80, fazendo os personagens usarem aparelhos hoje estranhos aos mais novos, como walk-talkies e walkmans, é precisa e aponta para uma nostalgia que se espraia em todos os aspectos da produção. Além disso, cada cinéfilo sai presenteado com uma série de referências ao próprio cinema. Desde os citados filmes de zumbi de George Romero a Alfred Hitchock, passando pela própria cinematografia de Spielberg, há muita coisa a ser observada por olhares mais atentos.

Entretanto, se o cinema oitentista é perfeitamente revitalizado em seu clima leve e aventureiro, por outro lado o pecado de “Super 8” termina por ser exceder-se nessa fonte, assumindo também os seus clichês. Assim, a partir de certo ponto, o roteiro (escrito pelo próprio J.J. Abrams) acusa uma demasiada previsibilidade, deixando entrever uma conclusão que soará familiar a muitos dos que estiverem na sala de projeção. Ademais, algumas circunstâncias restam mal resolvidas, deixando a sensação de pressa em chegar à conclusão ou mesmo de falta de ideias que explicassem melhor alguns pontos nebulosos.

À parte tais problemas, “Super 8” é, desde já, o melhor filme de J.J. Abrams no cinema (bem superior a “Star Trek” e “Missão Impossível 3”), mesmo com a evidente mão de Spielberg pesando sobre o resultado final do longa-metragem. Muito se esperava dele devido ao seu grande sucesso nas séries de TV (como na famosa “Lost”), mas TV e cinema são duas mídias com características bem distintas, e a exigência do meio cinematográfico é bem maior do que o televisivo. É importante sublinhar, ainda, que o cinema costuma gerar verdadeiras pérolas quando faz uso inteligente da metalinguagem (“Cinema Paradiso” está aí provando tal afirmação) e aqui parece ser o caso. Este é um longa que já nasceu predestinado a se transformar em um autêntico cult. Impossível não se emocionar com um filme que remonta a tantas boas lembranças e fazendo também um novo público entrar em contato com uma forma de se fazer cinema já quase em desuso. Impossível, ademais, não se emocionar com uma declaração tão grande de amor à arte como vemos na tela, declaração esta sintetizada na linda, criativa e divertida sequência final de créditos, a qual fez todo o público da sala em que assisti ao longa esperar até o fim (mesmo aqueles que já estavam em pé acabaram por acompanhar os letreiros). Diante de uma homenagem tão especial à sétima arte, só resta a nós, cinéfilos, dizermos um muito obrigado aos realizadores.


Cotação:

Nota: 9,0

sábado, 20 de agosto de 2011

Eu Quero Esse Pôster #15

Muitos não gostam de "A Fonte da Vida" (The Fountain), de Darren Aronofsky (parece que qualquer coisa que obriga as pessoas a pensarem acaba desagradando), mas não se pode negar que a arte do pôster acima é simplesmente linda. Os traços me lembram as gravuras do artista francês Gustave Doré, famoso por suas ilustrações para grandes clássicos da literatura. Show!

domingo, 14 de agosto de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas
(Bonnie & Clyde, 1967)


Violento, ro
mântico e precursor de uma era


Reza a lenda que Warren Beatty chegou a se ajoelhar aos pés de Jack Warner, o então todo-poderoso da Warner Bros., implorando para que ele aprovasse a produção de “Bonnie & Clyde”. Não se sabe se o relato é verdadeiro (o ator até hoje nega que o seja), mas ele se traduz em uma ótima maneira de ilustrar a odisseia enfrentada por Beatty para realizar esta obra seminal, em verdade muito mais sua do que de Arthur Penn, responsável pela direção. Beatty era ainda um jovem intérprete que vivia muito mais da imagem de astro conquistador-mulherengo do que efetivamente do seu talento. Despontando como sensação em “Clamor do Sexo” (Splendor In The Grass, 1961), de Elia Kazan, Beatty nunca mais havia feito nada de realmente relevante em sua carreira e a ideia corrente de que seria apenas mais um galã sem real talento vinha lhe incomodando bastante (já o citado Jack Warner achava que ele estava desperdiçando a carreira com “filmes de arte”). Ele estava ansioso por mostrar que era subestimado e que possuía uma visão inovadora para o cinema norte-americano, muitos mais alinhada com o frescor do então pujante cinema europeu, vivendo o auge com a Nouvelle Vague francesa e a melhor fase da produção italiana.

Não por acaso, François Truffaut foi o primeiro diretor a assumir o projeto, mesmo que por pouco tempo, chegando a desenvolver o roteiro originalmente concebido por David Newman e Robert Benton. Foi a partir de Truffaut, por sinal, que Beatty tomou contato com o projeto. O famoso diretor francês acreditava que o jovem ator seria perfeito para o papel de Clyde Barrow, famoso assaltante de bancos durante a depressão econômica dos anos 30, e ele não havia se enganado. Entretanto, Truffaut abandonou o projeto para se dedicar a “Farenheit 451”, deixando o longa dos famosos gangsteres do meio-oeste americano sem diretor. Foi aí que Beatty recorreu a Arthur Penn, um cineasta que, como o ator, ambicionava por maior reconhecimento. Ele vinha dos fracassos “Um de Nós Morrerá” (1956) e “Mickey One” (1965) e estava relutante em aceitar o encargo. Mas Beatty sempre foi um sujeito persistente e não admitiu a negativa de Penn.

(ATENÇÃO: o parágrafo abaixo contém spoilers!)

Mesmo com a saída de Truffaut o filme não perdeu a influência da Nouvelle Vague, alternando momentos de grande apelo dramático, com outros de tom claramente cômico. Estabelece, inclusive, uma forte ironia ao pontuar sequências de violência com uma trilha caraterizada pela presença do banjo, instrumento típico da cultura norte-americana e normalmente usado em músicas festivas. No mesmo sentido, torna-se interessante observar que “Bonnie & Clyde” possui um início e um final abruptos, sem prólogo ou epílogo. A narrativa se inicia a partir do momento em que os dois se conhecem, sem sabermos absolutamente nada dos seus respectivos passados, e tem seu término com o fim da dupla, secamente, sem que seja mostrada qualquer repercussão de suas mortes. Ou seja, trata-se de um recorte específico do relacionamento do casal, constituindo-se, antes de ser um filme sobre gangsteres, em um longa-metragem acerca de um romance entre dois fora-da-lei. Um romance pontuado por muita violência, claro. E a violência jamais havia sido exibida em cores tão vibrantes quanto aqui. Muitos críticos torceram o nariz para o filme, quando de seu lançamento, justamente devido a este aspecto, acusando-o de banalizar a violência e glamorizar o crime. A verdade é que, com a exposição dos “tiros e suas consequências” de forma bastante gráfica, algo que em geral ficava escondido nas produções até ali realizadas, a violência adquiriu novos contornos no cinema, causando um impacto bem mais significativo no espectador. E isso não é exatamente ruim, já que, gerando choque, é mais fácil que o assistente se oponha a métodos violentos para alcançar objetivos, levando-o a entender que o fins não justificam os meios.


Em contrapartida, é indubitável que “Bonnie & Clyde” promove uma certa glamorização do crime. Em determinada cena, Clyde Barrow (papel de Beaty) apresenta a ele e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima e esbanjando talento) falando “nós assaltamos bancos”. Momentos como este aliados ao fato de que o filme se coloca como anti-establishment, principalmente diante de uma geração de jovens ansiosos por quebrar regras, com uma nova visão de mundo e que se colocava de maneira cada vez mais veemente em oposição à Guerra do Vietnã, levaram o longa-metragem a se tornar, mesmo que lentamente (já que seu início foi desastroso, principalmente em razão da má vontade de Jack Warner com a distribuição), um grande sucesso comercial e mesmo comportamental (a boina da personagem de Faye se tornou moda entre as garotas). A película se coloca, portanto, como um dos precursores de uma novidadeira forma de se fazer cinema, agora antenada com um mundo que já estava longe de ser aquele que existia no auge da chamada Velha Hollywood. Estava surgindo um cinema disposto a quebrar paradigmas, abandonando o antigo código que estabelecia as regras da produção cinematográfica (o denominado Código Hays) e estabelecendo como limite apenas a criatividade de cada cineasta, de cada artista.

Mas “Bonnie & Clyde” não é apenas um filme que quebrou barreiras. Ele é, em si mesmo, uma ótima película em seus aspectos técnicos e artísticos. O roteiro, além de narrar com constante interesse a história dos dois criminosos e seu bando, possui diálogos memoráveis, além de inserir, com perfeita naturalidade, elementos inovadores sem parecer forçado. Benton e Newman (com a contribuição não creditada de Robert Towne), à parte inserirem vários elementos que destoaram da história verídica, fizeram de Clyde um impotente sexual, surgindo esta característica como possível fator a explicar sua vida bandida. Ademais, chega a ser brilhante a maneira como os escritores fizeram Bonnie se apaixonar por Clyde. Ao colocarem o criminoso falando para a então garçonete que ela merecia ser muito mais do que aquilo e que, aos seus olhos, ela era uma estrela de cinema, resta claro porque ela embarca numa estrada de delitos e jamais abandona o seu amado. Por outro lado, só roteiristas, com grande perspicácia fazem os protagonistas se relacionarem com as respectivas famílias, demonstrando como as relações familiares acabam irremediavelmente por afetar os relacionamentos amorosos.


Em outra vertente, percebemos da mesma forma uma sensacional riqueza nas interpretações, não só de Beatty e Dunaway (nascidos para seus respectivos papéis), como também de Michael J. Pollard na pele de C.W. Moss e o então quase desconhecido Gene Hackman como Buck, o irmão de Clyde. Mas quem acaba roubando a cena entre os coadjuvantes é Estelle Parsons, intérprete de Blanche Barrow, a cunhada de Clyde, alvo do desafeto de Bonnie devido à sua constante histeria - e também o jeitão caipira, que aparentemente fazia Bonnie se lembrar de suas origens. Não à toa, Parsons acabou levando o Oscar de atriz coadjuvante, juntamente com Burnett Guffey, responsável pela fotografia (e estes seriam os dois únicos prêmios das 10 indicações que a produção recebeu).

Embora não tenha sido um sucesso imediato principalmente entre a crítica, “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”*, acabou por ser reconhecido como um marco da sétima arte, um dos filmes responsáveis pelo invenção do cinema contemporâneo. Não por acaso, a famosa Pauline Kael considerou o longa um marco cultural através de sua famosa crítica de mais de 9.000 palavras na revista “The New Yorker” (muitos atribuem a essa sua crítica a “virada” que o longa daria nas bilheterias dali em diante). Sua influência pode ser notada em toda a geração de cineastas que surgiu no fim dos 60 e início dos 70 (os integrantes da “Nova Hollywood”), e mesmo nomes como Quentin Tarantino ainda reverberam hoje os seus ecos. Um filme que talvez não seja precisamente uma obra-prima, mas sem dúvida foi precursor de uma nova era.


Cotação:

Nota: 10,0

* Os brasileiros adoram colocar subtítulos, muitas vezes desnecessários, mas nesse caso ficou ótimo!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Quero Ver Novamente #13


Estou com a maior vontade de ver "A Árvore da Vida" (The Tree Of Life), o novo filme do gênio Terrence Malick. O problema é que, pra variar, filmes deste quilate não têm estreia no circuito natalense juntamente com o circuito nacional - e olha que nesse caso Brad Pitt e Sean Penn estão no elenco (a estreia de "Meia-Noite Em Paris" por aqui foi uma rara exceção). Para saciar ao menos um pouco o desejo, resta rever um outro longa de Malick, "Além da Linha Vermelha" (The Thin Red Line), filme de 1998 que mostra em todas as imagens e diálogos o que é cinema de verdade (como ele pode ter perdido o Oscar para "Shakespeare Apaixonado"?). Nada menos do que excelente! Veja o trailer abaixo! Ah, e se ainda não viu, trate de compensar essa falha gravíssima o mais rápido possível!


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Capitão América - O Primeiro Vingador


Com um certo atraso, segue a resenha do mais novo filme da Marvel.


Patriotismo sem patriotadas



Eu era bem garoto quando li a primeira HQ do Capitão América. Tinha uns 8 ou 9 anos e aquelas aventuras de um herói sem superpoderes me entusiasmaram bastante, algo irônico para quem me conhece hoje, já que costumo ser um severo crítico do imperialismo ianque (apesar de amar o seu cinema, mas cada um tem suas contradições...). Talvez também tenha influenciado o fato do personagem ser de um tipo franzino (como eu, à época) e, por meio de uma experiência com um soro denominado de “supersoldado”, transforma-se em um homem forte que leva ao limite todas as potencialidades físicas de um ser humano. Ademais, seu caráter sempre correto (neste ponto com um jeitão de Super-Homem) era um exemplo para um garoto em formação (mais tarde, na adolescência, eu iria preferir Wolverine, mas isso já é uma outra história...). Sendo assim, foi com grande carinho que acompanhei este “Capitão América – O Primeiro Vingador” na sala escura.

Contudo, vou procurar não me deixar levar por aspectos passionais. Em uma análise fria, acredito que o filme pode ser divido em duas partes, sendo a primeira bastante superior à segunda. São nos primeiros 60 minutos de projeção que acompanhamos a transformação de Steve Rogers, de um mero rapaz magrelo que deseja ardorosamente servir ao exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, a um herói usado como peça de propaganda do governo americano para conseguir contribuições para o esforço de guerra. Fiquei admirado com a perfeita percepção do diretor Joe Johnston acerca do personagem. Steve pode ser patriota, mas nunca parece ser um idiota. Ele é um homem que deseja ardorosamente lutar por aquilo em que acredita e, no caso, não há nada de errado nisso. Afinal, o inimigo em questão era o nazismo, uma das mais abjetas ideologias já surgidas na história da humanidade. Tal circunstância acaba servindo como uma maneira de amenizar o tom possivelmente americanizado que poderia assumir o longa. Esta, inclusive, era uma das grandes preocupações da Marvel diante do forte sentimento anti-americano que se espalhou pelo mundo nos últimos anos e qualquer estúdio sabe o quanto é importante, hoje em dia, a bilheteria obtida fora dos Estados Unidos para fechar suas contas. Mas tudo fica muito equilibrado, chegando a surgir até mesmo algumas críticas abertas ao modo de ser dos estadunidenses. Um patriotismo sem patriotadas.

Ao falar sobre a boa caracterização do personagem de Steve Rogers, não podemos esquecer da competência da atuação de Chris Evans (quem diria...), que soube muito bem achar o tom correto. Ademais, os efeitos especiais que transmudaram o corpulento ator em um rapaz franzino são simplesmente excelentes (técnica similar foi usada em “O Curioso Caso de Benjamim Button”). Diante de olhos desavisados, pode-se pensar que se tratam de dois atores diferentes. Mas não é apenas Evans que está bem. Todo o restante do elenco alcança bons resultados, principalmente Tommy Lee Jones como o general Chester Phillips, responsável pelas frases mais espirituosas do longa, e Hayley Atwell como Peggy Carter, a militar que é o interesse romântico do herói. A relação entre os dois, por sinal, é bem desenvolvida, sem pressa e soando perfeitamente natural (neste ponto, o oposto a “Thor”, com seu namoro quase instantâneo).


Entretanto, é na segunda metade que o filme acaba caindo em qualidade. Muito focada na ação, ironicamente (pois que se trata de um filme de super-herói) se torna arrastada, já que Johnston não demonstra criatividade em cenas de aventura. Há alguns bons momentos, mas a sensação reinante acaba sendo de enfado, até mesmo porque o vilão Caveira Vermelha, chefe de uma organização à parte do nazismo, a Hidra, não se mostra especialmente interessante, mesmo com o esforço do seu intérprete Hugo Weaving. Esta “segunda parte” da película só não se torna totalmente dispensável devido à sua sensível conclusão - muito embora já haja nela o gancho para o futuro filme dos Vingadores, o qual parece estar sendo tratado pela Marvel Studio como a cereja do bolo que é toda essa enxurrada de filmes com seus heróis.

De qualquer forma, em que pesem os defeitos apontados, a produção inegavelmente caprichou nos detalhes. A direção de arte recuperou muito bem a estética das HQs dos anos 40, sendo que os créditos finais resultaram em verdadeira peça retrô, com os traços característicos da época (sequência bastante charmosa). Outro ponto alto é a trilha sonora do veterano Alan Silvestri, inspirada e perfeitamente adequada ao personagem. E isso sem falar nos já mencionados efeitos especiais, ótimos não apenas para deixar Chris Evans magrinho, como também em praticamente todas as cenas onde eles são exigidos. Nos aspectos técnicos, só o que deixa a desejar é o 3D (convertido, diga-se de passagem), completamente desnecessário *.

Não posso negar, contudo, que considerei interessante a experiência de ver o “bandeiroso” na telona (foi gratificante, como antigo leitor, me deparar com personagens como Dum Dum Dugan) e acredito que possa se tornar também um entretenimento cativante para os não iniciados, mesmo que tenha deixado aquele gosto de preparação para o filme-evento “Os Vingadores”. Falando nisso, não aguento mais esse sensacionalismo todo com o filme do supergrupo. Já ficou chato ver em todo fim de longa-metragem da Marvel essas referências e ganchos para o que está por vir. Tomara que consiga fazer jus a tanta expectativa criada.


Cotação:

Nota: 7,5

* Acabei vendo em 3D por ser a sessão com o horário mais conveniente.

sábado, 6 de agosto de 2011

Cinemúsica



Os Reis do Iê Iê Iê
( A Hard Day's Night, 1964)


O registro documental e surreal de uma revolução


Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.

Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.

É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.


O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.

Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.


Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!

* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.

** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.

Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O novo terror de Coppola


A imagem acima é de "Twixt", o novo terror de Francis Ford Coppola. A narrativa tratará de um autor de uma série de livros envolvendo bruxaria que, em meio a uma turnê no interior dos Estados Unidos para divulgar sua última obra, se depara com a história de um assassino serial que pode lhe render um novo trabalho.O elenco contará com Val Killmer ressurgindo-das-cinzas (e com bem mais peso também, como dá pra perceber). Interessante que Coppola declarou que teve a ideia do roteiro a partir de um pesadelo. Ele também afirmou que o filme presta homenagem a Edgar Allan Poe, um dos seus autores favoritos. Aguardando desde já! Veja o trailer abaixo.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Restaurando a Película



Suspiria
(Suspiria, 1977)


Sofisticado filme B



Muitos afirmam que o cineasta italiano Dario Argento está para os filmes de terror na mesma dimensão que Segio Leone está para o gênero western. Se este ressuscitou o mais conhecido gênero tipicamente hollywoodiano do ostracismo, chegando a alcançar patamares verdadeiramente artísticos, Dario Argento quase promoveu o mesmo com o terror. Digo “quase” porque acredito que a obra de Argento sempre esteve a um passo de descambar para o trash, mantendo-se em uma corda bamba entre o gosto apurado e o duvidoso. “Suspiria”, seu filme lançado em 1977 (e certamente o longa mais lembrado de sua carreira), talvez seja o exemplo mais claro desta afirmação.

A comparação com Leone não é gratuita ou meramente ilustrativa. Argento trabalhou como co-roteirista na obra-prima “Era Uma Vez No Oeste”, seguramente um dos melhores filmes da história do cinema e parece que aproveitou muito as verdadeiras aulas que o mestre Leone deve ter ministrado nos sets de filmagem. Como se sabe, este último foi o responsável por levar os paradigmas do western ao seu limite, procurando sintetizar em suas projeções tudo aquilo que o gênero poderia oferecer. Seus filmes são obras barrocas, onde se verifica um cuidado extremo com cada tomada e a trilha sonora tem um papel fundamental. O requinte traz um resultado até mesmo operístico. E parece que foi inspirado no método primoroso de Leone que Argento passou a conceber os seus filme de horror.

Destarte, Argento não é um mero imitador do estilo de Leone. Vale frisar, inclusive, que outro mentor fundamental em sua carreira foi Mario Bava, o grande mestre do horror italiano, responsável por inovações estilísticas que iriam influenciar gerações, como o seu travelling constante, recurso utilizado até hoje por nomes como Martin Scorsese. Ademais, é importante recordar que Argento foi (e ainda é) um dos expoentes do giallo, termo este usado para designar o gênero dos thrillers policiais italianos, com origens em meados dos anos 60 e obtendo grande sucesso popular nos 70. O giallo, com suas tramas geralmente centradas em assassinos seriais e estética crua, acabou influenciando o nascimento de um novo tipo de terror que predominaria no cinema americano durante os anos 80, os chamados slasher movies (a série “Sexta-feira 13” é referência bastante conhecida deste gênero). Assim, o terror na obra de Argento surge como o fruto de uma mistura de estilos, reunindo o apuro técnico e imagético a uma estética de gosto, por vezes, duvidoso, advinda do giallo.

Ao acompanharmos o desenrolar da narrativa de “Suspiria” podemos perceber em diversos momentos a presença de ditos elementos. O filme leva a extremos a iconografia do horror. Desde os seus créditos, já sublinhados pela sinistra trilha sonora composta pelo grupo de rock progressivo Goblin, o longa se mostra macabro. Parece não haver qualquer cena durante a exibição que não tenha sido pensada para trazer um calafrio ao espectador. A primeira sequência, mostrando a protagonista Susie Bannyon (Jessica Harper) chegando ao aeroporto de uma cidade alemã, se passa debaixo de uma tempestade com raios e trovões, denotando uma atmosfera tenebrosa que só irá crescer ao longo da narrativa. Susie está na Alemanha para estudar balé em uma conceituada escola de dança quando um série de assassinatos surreais começa a acontecer envolvendo integrantes da academia. Aparentemente cometidos por um serial killer, logo se percebe que as coisas não são bem assim. A tal escola na realidade é um antro de bruxas e fatos sobrenaturais começam a pipocar no enredo. Com essa trama simples e direta, sobra espaço para que Argento empregue seu virtuosismo técnico em cenas de grande impacto para a plateia. O primeiro dos assassinatos é um horror em todos os aspectos. E é exatamente do seu exagero gráfico que surge a impressão de que estamos diante de uma obra na corda bamba entre o requinte e o mau gosto. Haja estômago para acompanhar tanta sangria e temperos de crueldade. Mas não se pode negar que o conjunto soa original e, em várias passagens, perturbador.


E perturbador não apenas pela violência atordoante que pontua o longa-metragem em diversas sequências. Argento sabe explorar o poder imagético do horror até mesmo na utilização das cores, sempre fortes e vívidas durante toda a projeção. Poucas vezes o vermelho foi tão bem explorado para causar medo, assim como o verde, entre outras cores bastante vivas. E aqui se sente especialmente a citada influência de Mario Bava, um pioneiro na utilização do technicolor como forma de potencializar climas macabros. Ademais, Argento sabe se valer de referências a obras predecessoras, em um método que provavelmente influenciou Quentin Tarantino. É possível distinguir homenagens a filmes como “O Bebê de Rosemary” (de Roman Polansky) ou “Carrie, A Estranha” (de Brian De Palma). Além disso, a referida trilha composta pela banda Goblin cria uma textura sonora ímpar, minimalista e impressionante em igual medida (assim como as trilhas de Ennio Morricone tornavam as obras de Sergio Leone ainda mais belas e vívidas).

Embora tropece no roteiro em alguns pontos, como personagens que entram e somem sem maiores razões narrativas - talvez devido à grande preocupação do diretor com o lado virtuoso e imagético da produção - “Suspiria” não deixa de ser uma experiência realmente diferenciada, mesmo para a parcela do público acostumada com filmes de terror. Inegavelmente, tornou-se uma referência neste gênero, influenciando fortemente diretores como John Carpenter, o qual chegou a declarar que “assistir Suspiria é como estar preso em um pesadelo”. Enfim, um sofisticado filme B. Uma película para nervos fortes, mas necessária.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 24 de julho de 2011

Assalto ao Banco Central



Transtorno de personalidade


O cinema brasileiro tem uma antiga tradição de filmar a criminalidade. “O Bandido da Luz Vermelha”, passando por “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”, até os mais recentes “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são exemplos do apreço tanto do público quanto dos realizadores pela temática do marginal, daqueles que estão fora da ordem estabelecida. Talvez só o cinema norte-americano possua também uma afinidade tão grande com os fora-da-lei (não à toa, lá surgiu o gênero do “filme de gângster”). Contudo, é óbvio que, diante da quantidade, a qualidade de tais produtos acaba oscilando na mesma proporção. Se o mencionado “Cidade de Deus” se mostra como exemplo primoroso da tendência, causando impacto não apenas no âmbito nacional, mas também internacional, “Salve Geral”, filme que chegou a ser escolhido para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro representando o Brasil, se mostra como um claro fracasso recente.

Eis que surge agora este “Assalto ao Banco Central”, longa baseado no fato verídico do assalto ao banco do título em Fortaleza - CE, um dos mais espetaculares crimes não só da história do Brasil, mas também do mundo. Os R$ 164,7 milhões levados pelos bandidos foram alcançados de forma incrível, através de um túnel que desembocava no único ponto cego existente dentro do cofre repleto de câmeras de segurança. Além disso, a maior parte dos seus autores não foi presa até hoje, assim como a maior parcela do montante furtado não foi recuperada – busca até mesmo dificultada por se tratar de notas antigas que haviam sido recolhidas pelo BC junto à rede bancária. Ou seja, o fato por si só já é praticamente um filme pronto. E com um forte aliado por se tratar de uma história verídica, pois que, sendo assim, já supera a necessidade da “suspensão de descrença” tão arduamente buscada por produções semelhantes, mas apoiadas exclusivamente em elementos ficcionais.

A adaptação de tais fatos para telona, porém, caiu em mãos inexperientes, as do global Marcos Paulo, conhecido ator e diretor de telenovelas, mas assumindo aqui sua primeira empreitada cinematográfica. Talvez devido a essa inexperiência com o cinema, o diretor acabou por utilizar tiques característicos dos trabalhos globais, já que novelas costumam apresentar acentuadas oscilações de tons, ora pendendo para o drama, ora para a comédia, como maneira de agradar a uma massa que anseia por mera distração durante a noite. Só que o cinema é um veículo bem mais exigente e certos tropeços de roteiro e direção até mesmo ignorados pelo público da televisão não são relevados pelos espectadores da sala escura – e muito menos pela crítica especializada. A impressão que fica aqui é de que o filme sofre de algum transtorno de personalidade, já que em nenhum momento se sabe ao certo o que ele pretender ser.

Possivelmente o maior sintoma de tal afirmação foi a declaração do próprio Marcos Paulo durante a coletiva no último festival de Paulínia (que foi encerrado com a exibição do longa em comento). Ele mencionou que apenas na fase de edição percebeu o acentuado lado cômico que certas sequências possuíam, o que o levou a selecioná-las para a versão final da produção. Ou seja, aparentemente nem o próprio Marcos Paulo sabia o que queria do seu filme, sendo provavelmente levado a deixar algumas passagens cômicas na montagem na ânsia de agradar ao público médio brasileiro. Além disso, também é clara no filme a sua vontade de se tornar o próximo “Tropa de Elite”, obra que gerou bordões populares como o famoso “pede pra sair”. Contudo, se o filme de José Padilha sabe equilibrar perfeitamente sua pesada trama com alívios cômicos, “Assalto ao Banco Central” transforma esse pretenso equilíbrio em verdadeira bipolaridade. Ficamos sem saber se estamos assistindo a um filme policial ou a uma comédia.


Mas seria injusto deixar o fardo do insucesso exclusivamente nas costas do diretor. O roteiro, escrito por Renê Belmonte, também não é dos mais felizes. Mostra-se como um mistura de “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, e “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Sodebergh. Do primeiro, retira sua estrutura não linear, exibindo momentos da elaboração e execução do crime intercalados por outros onde o mesmo já é investigado pela Polícia Federal. Do segundo, procura trazer a estrutura de apresentação dos personagens, com a busca dos parceiros de empreitada por um líder que é o cérebro das ações. Entretanto, nenhuma das duas ideias funciona a contento nesta produção nacional. O vai-e-vem temporal deixa a narrativa por vezes confusa e a apresentação de tipos não funciona exatamente porque os personagens, em sua maioria, são mal caracterizados. Além disso, as falas em diversas passagens são repletas de clichês, com um nível quase amador, o que acaba se tornando uma forma de humor bastante involuntária. Certos recursos, ademais, como colocar o líder do bando jogando xadrez para, assim, denotar sua inteligência, se mostram primários, como que duvidando da inteligência do espectador.

A pobreza dos diálogos só não se faz tão assustadora devido à competência do elenco escalado. Milhem Cortaz está ótimo como Barão, o líder do grupo, assim como Giulia Gam como a policial federal (lésbica) que investiga o assalto. Outro destaque é Tonico Pereira como o comunista que participa da ação como engenheiro, alegando que posteriormente irá dividir o produto com os trabalhadores. Mas quem rouba mesmo a cena é Lima Duarte. Seu delegado Amorim é o personagem mais tridimensional da narrativa e ele parece estar inteiramente à vontade no papel. A verdade é que o elenco acaba se mostrando o principal motivo do fato de que o longa, apesar dos seus flagrantes defeitos, não se torna chato de assistir. Vale ressaltar que há realmente boas sequências, principalmente aquelas com o referido tom cômico (e as risadas frequentes durantes a sessão me fizeram perceber que elas realmente agradaram). Ademais, o diretor soube fugir das composições imagéticas da televisão e utilizar uma linguagem realmente cinematográfica no que diz respeito a enquadramentos (não há aquele excesso de closes característicos da TV) e ritmo da narração.

“Assalto ao Banco Central” não é um desastre, mas o que fica deveras perceptível é que o seu resultado poderia ser muito superior caso tivesse sido levado adiante por mãos mais experientes, principalmente se considerarmos o material quase pronto e acabado que lhe deu origem. Talvez na sua próxima experiência, Marcos Paulo se lembre que filmes necessitam de uma unidade, nunca deixando o público na dúvida de estar assistindo a uma comédia ou a um filme policial. Afinal, filme não é novela, é bom sempre lembrar.


Cotação:

Nota: 6,5