Muitos não gostam de "A Fonte da Vida" (The Fountain), de Darren Aronofsky (parece que qualquer coisa que obriga as pessoas a pensarem acaba desagradando), mas não se pode negar que a arte do pôster acima é simplesmente linda. Os traços me lembram as gravuras do artista francês Gustave Doré, famoso por suas ilustrações para grandes clássicos da literatura. Show!
sábado, 20 de agosto de 2011
Eu Quero Esse Pôster #15
Muitos não gostam de "A Fonte da Vida" (The Fountain), de Darren Aronofsky (parece que qualquer coisa que obriga as pessoas a pensarem acaba desagradando), mas não se pode negar que a arte do pôster acima é simplesmente linda. Os traços me lembram as gravuras do artista francês Gustave Doré, famoso por suas ilustrações para grandes clássicos da literatura. Show!
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domingo, 14 de agosto de 2011
Filmes Para Ver Antes de Morrer
Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas
(Bonnie & Clyde, 1967)
Violento, romântico e precursor de uma era
Reza a lenda que Warren Beatty chegou a se ajoelhar aos pés de Jack Warner, o então todo-poderoso da Warner Bros., implorando para que ele aprovasse a produção de “Bonnie & Clyde”. Não se sabe se o relato é verdadeiro (o ator até hoje nega que o seja), mas ele se traduz em uma ótima maneira de ilustrar a odisseia enfrentada por Beatty para realizar esta obra seminal, em verdade muito mais sua do que de Arthur Penn, responsável pela direção. Beatty era ainda um jovem intérprete que vivia muito mais da imagem de astro conquistador-mulherengo do que efetivamente do seu talento. Despontando como sensação em “Clamor do Sexo” (Splendor In The Grass, 1961), de Elia Kazan, Beatty nunca mais havia feito nada de realmente relevante em sua carreira e a ideia corrente de que seria apenas mais um galã sem real talento vinha lhe incomodando bastante (já o citado Jack Warner achava que ele estava desperdiçando a carreira com “filmes de arte”). Ele estava ansioso por mostrar que era subestimado e que possuía uma visão inovadora para o cinema norte-americano, muitos mais alinhada com o frescor do então pujante cinema europeu, vivendo o auge com a Nouvelle Vague francesa e a melhor fase da produção italiana.
Não por acaso, François Truffaut foi o primeiro diretor a assumir o projeto, mesmo que por pouco tempo, chegando a desenvolver o roteiro originalmente concebido por David Newman e Robert Benton. Foi a partir de Truffaut, por sinal, que Beatty tomou contato com o projeto. O famoso diretor francês acreditava que o jovem ator seria perfeito para o papel de Clyde Barrow, famoso assaltante de bancos durante a depressão econômica dos anos 30, e ele não havia se enganado. Entretanto, Truffaut abandonou o projeto para se dedicar a “Farenheit 451”, deixando o longa dos famosos gangsteres do meio-oeste americano sem diretor. Foi aí que Beatty recorreu a Arthur Penn, um cineasta que, como o ator, ambicionava por maior reconhecimento. Ele vinha dos fracassos “Um de Nós Morrerá” (1956) e “Mickey One” (1965) e estava relutante em aceitar o encargo. Mas Beatty sempre foi um sujeito persistente e não admitiu a negativa de Penn.
(ATENÇÃO: o parágrafo abaixo contém spoilers!)
Mesmo com a saída de Truffaut o filme não perdeu a influência da Nouvelle Vague, alternando momentos de grande apelo dramático, com outros de tom claramente cômico. Estabelece, inclusive, uma forte ironia ao pontuar sequências de violência com uma trilha caraterizada pela presença do banjo, instrumento típico da cultura norte-americana e normalmente usado em músicas festivas. No mesmo sentido, torna-se interessante observar que “Bonnie & Clyde” possui um início e um final abruptos, sem prólogo ou epílogo. A narrativa se inicia a partir do momento em que os dois se conhecem, sem sabermos absolutamente nada dos seus respectivos passados, e tem seu término com o fim da dupla, secamente, sem que seja mostrada qualquer repercussão de suas mortes. Ou seja, trata-se de um recorte específico do relacionamento do casal, constituindo-se, antes de ser um filme sobre gangsteres, em um longa-metragem acerca de um romance entre dois fora-da-lei. Um romance pontuado por muita violência, claro. E a violência jamais havia sido exibida em cores tão vibrantes quanto aqui. Muitos críticos torceram o nariz para o filme, quando de seu lançamento, justamente devido a este aspecto, acusando-o de banalizar a violência e glamorizar o crime. A verdade é que, com a exposição dos “tiros e suas consequências” de forma bastante gráfica, algo que em geral ficava escondido nas produções até ali realizadas, a violência adquiriu novos contornos no cinema, causando um impacto bem mais significativo no espectador. E isso não é exatamente ruim, já que, gerando choque, é mais fácil que o assistente se oponha a métodos violentos para alcançar objetivos, levando-o a entender que o fins não justificam os meios.
Em contrapartida, é indubitável que “Bonnie & Clyde” promove uma certa glamorização do crime. Em determinada cena, Clyde Barrow (papel de Beaty) apresenta a ele e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima e esbanjando talento) falando “nós assaltamos bancos”. Momentos como este aliados ao fato de que o filme se coloca como anti-establishment, principalmente diante de uma geração de jovens ansiosos por quebrar regras, com uma nova visão de mundo e que se colocava de maneira cada vez mais veemente em oposição à Guerra do Vietnã, levaram o longa-metragem a se tornar, mesmo que lentamente (já que seu início foi desastroso, principalmente em razão da má vontade de Jack Warner com a distribuição), um grande sucesso comercial e mesmo comportamental (a boina da personagem de Faye se tornou moda entre as garotas). A película se coloca, portanto, como um dos precursores de uma novidadeira forma de se fazer cinema, agora antenada com um mundo que já estava longe de ser aquele que existia no auge da chamada Velha Hollywood. Estava surgindo um cinema disposto a quebrar paradigmas, abandonando o antigo código que estabelecia as regras da produção cinematográfica (o denominado Código Hays) e estabelecendo como limite apenas a criatividade de cada cineasta, de cada artista.
Mas “Bonnie & Clyde” não é apenas um filme que quebrou barreiras. Ele é, em si mesmo, uma ótima película em seus aspectos técnicos e artísticos. O roteiro, além de narrar com constante interesse a história dos dois criminosos e seu bando, possui diálogos memoráveis, além de inserir, com perfeita naturalidade, elementos inovadores sem parecer forçado. Benton e Newman (com a contribuição não creditada de Robert Towne), à parte inserirem vários elementos que destoaram da história verídica, fizeram de Clyde um impotente sexual, surgindo esta característica como possível fator a explicar sua vida bandida. Ademais, chega a ser brilhante a maneira como os escritores fizeram Bonnie se apaixonar por Clyde. Ao colocarem o criminoso falando para a então garçonete que ela merecia ser muito mais do que aquilo e que, aos seus olhos, ela era uma estrela de cinema, resta claro porque ela embarca numa estrada de delitos e jamais abandona o seu amado. Por outro lado, só roteiristas, com grande perspicácia fazem os protagonistas se relacionarem com as respectivas famílias, demonstrando como as relações familiares acabam irremediavelmente por afetar os relacionamentos amorosos.
Em outra vertente, percebemos da mesma forma uma sensacional riqueza nas interpretações, não só de Beatty e Dunaway (nascidos para seus respectivos papéis), como também de Michael J. Pollard na pele de C.W. Moss e o então quase desconhecido Gene Hackman como Buck, o irmão de Clyde. Mas quem acaba roubando a cena entre os coadjuvantes é Estelle Parsons, intérprete de Blanche Barrow, a cunhada de Clyde, alvo do desafeto de Bonnie devido à sua constante histeria - e também o jeitão caipira, que aparentemente fazia Bonnie se lembrar de suas origens. Não à toa, Parsons acabou levando o Oscar de atriz coadjuvante, juntamente com Burnett Guffey, responsável pela fotografia (e estes seriam os dois únicos prêmios das 10 indicações que a produção recebeu).
Embora não tenha sido um sucesso imediato principalmente entre a crítica, “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”*, acabou por ser reconhecido como um marco da sétima arte, um dos filmes responsáveis pelo invenção do cinema contemporâneo. Não por acaso, a famosa Pauline Kael considerou o longa um marco cultural através de sua famosa crítica de mais de 9.000 palavras na revista “The New Yorker” (muitos atribuem a essa sua crítica a “virada” que o longa daria nas bilheterias dali em diante). Sua influência pode ser notada em toda a geração de cineastas que surgiu no fim dos 60 e início dos 70 (os integrantes da “Nova Hollywood”), e mesmo nomes como Quentin Tarantino ainda reverberam hoje os seus ecos. Um filme que talvez não seja precisamente uma obra-prima, mas sem dúvida foi precursor de uma nova era.
Cotação:
Nota: 10,0
* Os brasileiros adoram colocar subtítulos, muitas vezes desnecessários, mas nesse caso ficou ótimo!
(Bonnie & Clyde, 1967)
Violento, romântico e precursor de uma era
Reza a lenda que Warren Beatty chegou a se ajoelhar aos pés de Jack Warner, o então todo-poderoso da Warner Bros., implorando para que ele aprovasse a produção de “Bonnie & Clyde”. Não se sabe se o relato é verdadeiro (o ator até hoje nega que o seja), mas ele se traduz em uma ótima maneira de ilustrar a odisseia enfrentada por Beatty para realizar esta obra seminal, em verdade muito mais sua do que de Arthur Penn, responsável pela direção. Beatty era ainda um jovem intérprete que vivia muito mais da imagem de astro conquistador-mulherengo do que efetivamente do seu talento. Despontando como sensação em “Clamor do Sexo” (Splendor In The Grass, 1961), de Elia Kazan, Beatty nunca mais havia feito nada de realmente relevante em sua carreira e a ideia corrente de que seria apenas mais um galã sem real talento vinha lhe incomodando bastante (já o citado Jack Warner achava que ele estava desperdiçando a carreira com “filmes de arte”). Ele estava ansioso por mostrar que era subestimado e que possuía uma visão inovadora para o cinema norte-americano, muitos mais alinhada com o frescor do então pujante cinema europeu, vivendo o auge com a Nouvelle Vague francesa e a melhor fase da produção italiana.
Não por acaso, François Truffaut foi o primeiro diretor a assumir o projeto, mesmo que por pouco tempo, chegando a desenvolver o roteiro originalmente concebido por David Newman e Robert Benton. Foi a partir de Truffaut, por sinal, que Beatty tomou contato com o projeto. O famoso diretor francês acreditava que o jovem ator seria perfeito para o papel de Clyde Barrow, famoso assaltante de bancos durante a depressão econômica dos anos 30, e ele não havia se enganado. Entretanto, Truffaut abandonou o projeto para se dedicar a “Farenheit 451”, deixando o longa dos famosos gangsteres do meio-oeste americano sem diretor. Foi aí que Beatty recorreu a Arthur Penn, um cineasta que, como o ator, ambicionava por maior reconhecimento. Ele vinha dos fracassos “Um de Nós Morrerá” (1956) e “Mickey One” (1965) e estava relutante em aceitar o encargo. Mas Beatty sempre foi um sujeito persistente e não admitiu a negativa de Penn.
(ATENÇÃO: o parágrafo abaixo contém spoilers!)
Mesmo com a saída de Truffaut o filme não perdeu a influência da Nouvelle Vague, alternando momentos de grande apelo dramático, com outros de tom claramente cômico. Estabelece, inclusive, uma forte ironia ao pontuar sequências de violência com uma trilha caraterizada pela presença do banjo, instrumento típico da cultura norte-americana e normalmente usado em músicas festivas. No mesmo sentido, torna-se interessante observar que “Bonnie & Clyde” possui um início e um final abruptos, sem prólogo ou epílogo. A narrativa se inicia a partir do momento em que os dois se conhecem, sem sabermos absolutamente nada dos seus respectivos passados, e tem seu término com o fim da dupla, secamente, sem que seja mostrada qualquer repercussão de suas mortes. Ou seja, trata-se de um recorte específico do relacionamento do casal, constituindo-se, antes de ser um filme sobre gangsteres, em um longa-metragem acerca de um romance entre dois fora-da-lei. Um romance pontuado por muita violência, claro. E a violência jamais havia sido exibida em cores tão vibrantes quanto aqui. Muitos críticos torceram o nariz para o filme, quando de seu lançamento, justamente devido a este aspecto, acusando-o de banalizar a violência e glamorizar o crime. A verdade é que, com a exposição dos “tiros e suas consequências” de forma bastante gráfica, algo que em geral ficava escondido nas produções até ali realizadas, a violência adquiriu novos contornos no cinema, causando um impacto bem mais significativo no espectador. E isso não é exatamente ruim, já que, gerando choque, é mais fácil que o assistente se oponha a métodos violentos para alcançar objetivos, levando-o a entender que o fins não justificam os meios.
Em contrapartida, é indubitável que “Bonnie & Clyde” promove uma certa glamorização do crime. Em determinada cena, Clyde Barrow (papel de Beaty) apresenta a ele e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima e esbanjando talento) falando “nós assaltamos bancos”. Momentos como este aliados ao fato de que o filme se coloca como anti-establishment, principalmente diante de uma geração de jovens ansiosos por quebrar regras, com uma nova visão de mundo e que se colocava de maneira cada vez mais veemente em oposição à Guerra do Vietnã, levaram o longa-metragem a se tornar, mesmo que lentamente (já que seu início foi desastroso, principalmente em razão da má vontade de Jack Warner com a distribuição), um grande sucesso comercial e mesmo comportamental (a boina da personagem de Faye se tornou moda entre as garotas). A película se coloca, portanto, como um dos precursores de uma novidadeira forma de se fazer cinema, agora antenada com um mundo que já estava longe de ser aquele que existia no auge da chamada Velha Hollywood. Estava surgindo um cinema disposto a quebrar paradigmas, abandonando o antigo código que estabelecia as regras da produção cinematográfica (o denominado Código Hays) e estabelecendo como limite apenas a criatividade de cada cineasta, de cada artista.
Mas “Bonnie & Clyde” não é apenas um filme que quebrou barreiras. Ele é, em si mesmo, uma ótima película em seus aspectos técnicos e artísticos. O roteiro, além de narrar com constante interesse a história dos dois criminosos e seu bando, possui diálogos memoráveis, além de inserir, com perfeita naturalidade, elementos inovadores sem parecer forçado. Benton e Newman (com a contribuição não creditada de Robert Towne), à parte inserirem vários elementos que destoaram da história verídica, fizeram de Clyde um impotente sexual, surgindo esta característica como possível fator a explicar sua vida bandida. Ademais, chega a ser brilhante a maneira como os escritores fizeram Bonnie se apaixonar por Clyde. Ao colocarem o criminoso falando para a então garçonete que ela merecia ser muito mais do que aquilo e que, aos seus olhos, ela era uma estrela de cinema, resta claro porque ela embarca numa estrada de delitos e jamais abandona o seu amado. Por outro lado, só roteiristas, com grande perspicácia fazem os protagonistas se relacionarem com as respectivas famílias, demonstrando como as relações familiares acabam irremediavelmente por afetar os relacionamentos amorosos.
Em outra vertente, percebemos da mesma forma uma sensacional riqueza nas interpretações, não só de Beatty e Dunaway (nascidos para seus respectivos papéis), como também de Michael J. Pollard na pele de C.W. Moss e o então quase desconhecido Gene Hackman como Buck, o irmão de Clyde. Mas quem acaba roubando a cena entre os coadjuvantes é Estelle Parsons, intérprete de Blanche Barrow, a cunhada de Clyde, alvo do desafeto de Bonnie devido à sua constante histeria - e também o jeitão caipira, que aparentemente fazia Bonnie se lembrar de suas origens. Não à toa, Parsons acabou levando o Oscar de atriz coadjuvante, juntamente com Burnett Guffey, responsável pela fotografia (e estes seriam os dois únicos prêmios das 10 indicações que a produção recebeu).
Embora não tenha sido um sucesso imediato principalmente entre a crítica, “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”*, acabou por ser reconhecido como um marco da sétima arte, um dos filmes responsáveis pelo invenção do cinema contemporâneo. Não por acaso, a famosa Pauline Kael considerou o longa um marco cultural através de sua famosa crítica de mais de 9.000 palavras na revista “The New Yorker” (muitos atribuem a essa sua crítica a “virada” que o longa daria nas bilheterias dali em diante). Sua influência pode ser notada em toda a geração de cineastas que surgiu no fim dos 60 e início dos 70 (os integrantes da “Nova Hollywood”), e mesmo nomes como Quentin Tarantino ainda reverberam hoje os seus ecos. Um filme que talvez não seja precisamente uma obra-prima, mas sem dúvida foi precursor de uma nova era.
Cotação:
Nota: 10,0
* Os brasileiros adoram colocar subtítulos, muitas vezes desnecessários, mas nesse caso ficou ótimo!
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Quero Ver Novamente #13
Estou com a maior vontade de ver "A Árvore da Vida" (The Tree Of Life), o novo filme do gênio Terrence Malick. O problema é que, pra variar, filmes deste quilate não têm estreia no circuito natalense juntamente com o circuito nacional - e olha que nesse caso Brad Pitt e Sean Penn estão no elenco (a estreia de "Meia-Noite Em Paris" por aqui foi uma rara exceção). Para saciar ao menos um pouco o desejo, resta rever um outro longa de Malick, "Além da Linha Vermelha" (The Thin Red Line), filme de 1998 que mostra em todas as imagens e diálogos o que é cinema de verdade (como ele pode ter perdido o Oscar para "Shakespeare Apaixonado"?). Nada menos do que excelente! Veja o trailer abaixo! Ah, e se ainda não viu, trate de compensar essa falha gravíssima o mais rápido possível!
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Capitão América - O Primeiro Vingador

Com um certo atraso, segue a resenha do mais novo filme da Marvel.
Patriotismo sem patriotadas
Eu era bem garoto quando li a primeira HQ do Capitão América. Tinha uns 8 ou 9 anos e aquelas aventuras de um herói sem superpoderes me entusiasmaram bastante, algo irônico para quem me conhece hoje, já que costumo ser um severo crítico do imperialismo ianque (apesar de amar o seu cinema, mas cada um tem suas contradições...). Talvez também tenha influenciado o fato do personagem ser de um tipo franzino (como eu, à época) e, por meio de uma experiência com um soro denominado de “supersoldado”, transforma-se em um homem forte que leva ao limite todas as potencialidades físicas de um ser humano. Ademais, seu caráter sempre correto (neste ponto com um jeitão de Super-Homem) era um exemplo para um garoto em formação (mais tarde, na adolescência, eu iria preferir Wolverine, mas isso já é uma outra história...). Sendo assim, foi com grande carinho que acompanhei este “Capitão América – O Primeiro Vingador” na sala escura.
Contudo, vou procurar não me deixar levar por aspectos passionais. Em uma análise fria, acredito que o filme pode ser divido em duas partes, sendo a primeira bastante superior à segunda. São nos primeiros 60 minutos de projeção que acompanhamos a transformação de Steve Rogers, de um mero rapaz magrelo que deseja ardorosamente servir ao exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, a um herói usado como peça de propaganda do governo americano para conseguir contribuições para o esforço de guerra. Fiquei admirado com a perfeita percepção do diretor Joe Johnston acerca do personagem. Steve pode ser patriota, mas nunca parece ser um idiota. Ele é um homem que deseja ardorosamente lutar por aquilo em que acredita e, no caso, não há nada de errado nisso. Afinal, o inimigo em questão era o nazismo, uma das mais abjetas ideologias já surgidas na história da humanidade. Tal circunstância acaba servindo como uma maneira de amenizar o tom possivelmente americanizado que poderia assumir o longa. Esta, inclusive, era uma das grandes preocupações da Marvel diante do forte sentimento anti-americano que se espalhou pelo mundo nos últimos anos e qualquer estúdio sabe o quanto é importante, hoje em dia, a bilheteria obtida fora dos Estados Unidos para fechar suas contas. Mas tudo fica muito equilibrado, chegando a surgir até mesmo algumas críticas abertas ao modo de ser dos estadunidenses. Um patriotismo sem patriotadas.
Ao falar sobre a boa caracterização do personagem de Steve Rogers, não podemos esquecer da competência da atuação de Chris Evans (quem diria...), que soube muito bem achar o tom correto. Ademais, os efeitos especiais que transmudaram o corpulento ator em um rapaz franzino são simplesmente excelentes (técnica similar foi usada em “O Curioso Caso de Benjamim Button”). Diante de olhos desavisados, pode-se pensar que se tratam de dois atores diferentes. Mas não é apenas Evans que está bem. Todo o restante do elenco alcança bons resultados, principalmente Tommy Lee Jones como o general Chester Phillips, responsável pelas frases mais espirituosas do longa, e Hayley Atwell como Peggy Carter, a militar que é o interesse romântico do herói. A relação entre os dois, por sinal, é bem desenvolvida, sem pressa e soando perfeitamente natural (neste ponto, o oposto a “Thor”, com seu namoro quase instantâneo).

Entretanto, é na segunda metade que o filme acaba caindo em qualidade. Muito focada na ação, ironicamente (pois que se trata de um filme de super-herói) se torna arrastada, já que Johnston não demonstra criatividade em cenas de aventura. Há alguns bons momentos, mas a sensação reinante acaba sendo de enfado, até mesmo porque o vilão Caveira Vermelha, chefe de uma organização à parte do nazismo, a Hidra, não se mostra especialmente interessante, mesmo com o esforço do seu intérprete Hugo Weaving. Esta “segunda parte” da película só não se torna totalmente dispensável devido à sua sensível conclusão - muito embora já haja nela o gancho para o futuro filme dos Vingadores, o qual parece estar sendo tratado pela Marvel Studio como a cereja do bolo que é toda essa enxurrada de filmes com seus heróis.
De qualquer forma, em que pesem os defeitos apontados, a produção inegavelmente caprichou nos detalhes. A direção de arte recuperou muito bem a estética das HQs dos anos 40, sendo que os créditos finais resultaram em verdadeira peça retrô, com os traços característicos da época (sequência bastante charmosa). Outro ponto alto é a trilha sonora do veterano Alan Silvestri, inspirada e perfeitamente adequada ao personagem. E isso sem falar nos já mencionados efeitos especiais, ótimos não apenas para deixar Chris Evans magrinho, como também em praticamente todas as cenas onde eles são exigidos. Nos aspectos técnicos, só o que deixa a desejar é o 3D (convertido, diga-se de passagem), completamente desnecessário *.
Não posso negar, contudo, que considerei interessante a experiência de ver o “bandeiroso” na telona (foi gratificante, como antigo leitor, me deparar com personagens como Dum Dum Dugan) e acredito que possa se tornar também um entretenimento cativante para os não iniciados, mesmo que tenha deixado aquele gosto de preparação para o filme-evento “Os Vingadores”. Falando nisso, não aguento mais esse sensacionalismo todo com o filme do supergrupo. Já ficou chato ver em todo fim de longa-metragem da Marvel essas referências e ganchos para o que está por vir. Tomara que consiga fazer jus a tanta expectativa criada.
Cotação:

Nota: 7,5
* Acabei vendo em 3D por ser a sessão com o horário mais conveniente.
sábado, 6 de agosto de 2011
Cinemúsica

Os Reis do Iê Iê Iê
( A Hard Day's Night, 1964)
O registro documental e surreal de uma revolução
Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.
Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.
É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um
dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.

O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.
Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.
Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!
* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.
** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.
Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!
( A Hard Day's Night, 1964)
O registro documental e surreal de uma revolução
Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.
Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.
É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um
dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.
O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.
Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.
Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!
* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.
** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.
Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011
O novo terror de Coppola

A imagem acima é de "Twixt", o novo terror de Francis Ford Coppola. A narrativa tratará de um autor de uma série de livros envolvendo bruxaria que, em meio a uma turnê no interior dos Estados Unidos para divulgar sua última obra, se depara com a história de um assassino serial que pode lhe render um novo trabalho.O elenco contará com Val Killmer ressurgindo-das-cinzas (e com bem mais peso também, como dá pra perceber). Interessante que Coppola declarou que teve a ideia do roteiro a partir de um pesadelo. Ele também afirmou que o filme presta homenagem a Edgar Allan Poe, um dos seus autores favoritos. Aguardando desde já! Veja o trailer abaixo.
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quinta-feira, 28 de julho de 2011
Restaurando a Película

Suspiria
(Suspiria, 1977)
Sofisticado filme B
Muitos afirmam que o cineasta italiano Dario Argento está para os filmes de terror na mesma dimensão que Segio Leone está para o gênero western. Se este ressuscitou o mais conhecido gênero tipicamente hollywoodiano do ostracismo, chegando a alcançar patamares verdadeiramente artísticos, Dario Argento quase promoveu o mesmo com o terror. Digo “quase” porque acredito que a obra de Argento sempre esteve a um passo de descambar para o trash, mantendo-se em uma corda bamba entre o gosto apurado e o duvidoso. “Suspiria”, seu filme lançado em 1977 (e certamente o longa mais lembrado de sua carreira), talvez seja o exemplo mais claro desta afirmação.
A comparação com Leone não é gratuita ou meramente ilustrativa. Argento trabalhou como co-roteirista na obra-prima “Era Uma Vez No Oeste”, seguramente um dos melhores filmes da história do cinema e parece que aproveitou muito as verdadeiras aulas que o mestre Leone deve ter ministrado nos sets de filmagem. Como se sabe, este último foi o responsável por levar os paradigmas do western ao seu limite, procurando sintetizar em suas projeções tudo aquilo que o gênero poderia oferecer. Seus filmes são obras barrocas, onde se verifica um cuidado extremo com cada tomada e a trilha sonora tem um papel fundamental. O requinte traz um resultado até mesmo operístico. E parece que foi inspirado no método primoroso de Leone que Argento passou a conceber os seus filme de horror.
Destarte, Argento não é um mero imitador do estilo de Leone. Vale frisar, inclusive, que outro mentor fundamental em sua carreira foi Mario Bava, o grande mestre do horror italiano, responsável por inovações estilísticas que iriam influenciar gerações, como o seu travelling constante, recurso utilizado até hoje por nomes como Martin Scorsese. Ademais, é importante recordar que Argento foi (e ainda é) um dos expoentes do giallo, termo este usado para designar o gênero dos thrillers policiais italianos, com origens em meados dos anos 60 e obtendo grande sucesso popular nos 70. O giallo, com suas tramas geralmente centradas em assassinos seriais e estética crua, acabou influenciando o nascimento de um novo tipo de terror que predominaria no cinema americano durante os anos 80, os chamados slasher movies (a série “Sexta-feira 13” é referência bastante conhecida deste gênero). Assim, o terror na obra de Argento surge como o fruto de uma mistura de estilos, reunindo o apuro técnico e imagético a uma estética de gosto, por vezes, duvidoso, advinda do giallo.
Ao acompanharmos o desenrolar da narrativa de “Suspiria” podemos perceber em diversos momentos a presença de ditos elementos. O filme leva a extremos a iconografia do horror. Desde os seus créditos, já sublinhados pela sinistra trilha sonora composta pelo grupo de rock progressivo Goblin, o longa se mostra macabro. Parece não haver qualquer cena durante a exibição que não tenha sido pensada para trazer um calafrio ao espectador. A primeira sequência, mostrando a protagonista Susie Bannyon (Jessica Harper) chegando ao aeroporto de uma cidade alemã, se passa debaixo de uma tempestade com raios e trovões, denotando uma atmosfera tenebrosa que só irá crescer ao longo da narrativa. Susie está na Alemanha para estudar balé em uma conceituada escola de dança quando um série de assassinatos surreais começa a acontecer envolvendo integrantes da academia. Aparentemente cometidos por um serial killer, logo se percebe que as coisas não são bem assim. A tal escola na realidade é um antro de bruxas e fatos sobrenaturais começam a pipocar no enredo. Com essa trama simples e direta, sobra espaço para que Argento empregue seu virtuosismo técnico em cenas de grande impacto para a plateia. O primeiro dos assassinatos é um horror em todos os aspectos. E é exatamente do seu exagero gráfico que surge a impressão de que estamos diante de uma obra na corda bamba entre o requinte e o mau gosto. Haja estômago para acompanhar tanta sangria e temperos de crueldade. Mas não se pode negar que o conjunto soa original e, em várias passagens, perturbador.

E perturbador não apenas pela violência atordoante que pontua o longa-metragem em diversas sequências. Argento sabe explorar o poder imagético do horror até mesmo na utilização das cores, sempre fortes e vívidas durante toda a projeção. Poucas vezes o vermelho foi tão bem explorado para causar medo, assim como o verde, entre outras cores bastante vivas. E aqui se sente especialmente a citada influência de Mario Bava, um pioneiro na utilização do technicolor como forma de potencializar climas macabros. Ademais, Argento sabe se valer de referências a obras predecessoras, em um método que provavelmente influenciou Quentin Tarantino. É possível distinguir homenagens a filmes como “O Bebê de Rosemary” (de Roman Polansky) ou “Carrie, A Estranha” (de Brian De Palma). Além disso, a referida trilha composta pela banda Goblin cria uma textura sonora ímpar, minimalista e impressionante em igual medida (assim como as trilhas de Ennio Morricone tornavam as obras de Sergio Leone ainda mais belas e vívidas).
Embora tropece no roteiro em alguns pontos, como personagens que entram e somem sem maiores razões narrativas - talvez devido à grande preocupação do diretor com o lado virtuoso e imagético da produção - “Suspiria” não deixa de ser uma experiência realmente diferenciada, mesmo para a parcela do público acostumada com filmes de terror. Inegavelmente, tornou-se uma referência neste gênero, influenciando fortemente diretores como John Carpenter, o qual chegou a declarar que “assistir Suspiria é como estar preso em um pesadelo”. Enfim, um sofisticado filme B. Uma película para nervos fortes, mas necessária.
Cotação:

Nota: 9,0
(Suspiria, 1977)
Sofisticado filme B
Muitos afirmam que o cineasta italiano Dario Argento está para os filmes de terror na mesma dimensão que Segio Leone está para o gênero western. Se este ressuscitou o mais conhecido gênero tipicamente hollywoodiano do ostracismo, chegando a alcançar patamares verdadeiramente artísticos, Dario Argento quase promoveu o mesmo com o terror. Digo “quase” porque acredito que a obra de Argento sempre esteve a um passo de descambar para o trash, mantendo-se em uma corda bamba entre o gosto apurado e o duvidoso. “Suspiria”, seu filme lançado em 1977 (e certamente o longa mais lembrado de sua carreira), talvez seja o exemplo mais claro desta afirmação.
A comparação com Leone não é gratuita ou meramente ilustrativa. Argento trabalhou como co-roteirista na obra-prima “Era Uma Vez No Oeste”, seguramente um dos melhores filmes da história do cinema e parece que aproveitou muito as verdadeiras aulas que o mestre Leone deve ter ministrado nos sets de filmagem. Como se sabe, este último foi o responsável por levar os paradigmas do western ao seu limite, procurando sintetizar em suas projeções tudo aquilo que o gênero poderia oferecer. Seus filmes são obras barrocas, onde se verifica um cuidado extremo com cada tomada e a trilha sonora tem um papel fundamental. O requinte traz um resultado até mesmo operístico. E parece que foi inspirado no método primoroso de Leone que Argento passou a conceber os seus filme de horror.
Destarte, Argento não é um mero imitador do estilo de Leone. Vale frisar, inclusive, que outro mentor fundamental em sua carreira foi Mario Bava, o grande mestre do horror italiano, responsável por inovações estilísticas que iriam influenciar gerações, como o seu travelling constante, recurso utilizado até hoje por nomes como Martin Scorsese. Ademais, é importante recordar que Argento foi (e ainda é) um dos expoentes do giallo, termo este usado para designar o gênero dos thrillers policiais italianos, com origens em meados dos anos 60 e obtendo grande sucesso popular nos 70. O giallo, com suas tramas geralmente centradas em assassinos seriais e estética crua, acabou influenciando o nascimento de um novo tipo de terror que predominaria no cinema americano durante os anos 80, os chamados slasher movies (a série “Sexta-feira 13” é referência bastante conhecida deste gênero). Assim, o terror na obra de Argento surge como o fruto de uma mistura de estilos, reunindo o apuro técnico e imagético a uma estética de gosto, por vezes, duvidoso, advinda do giallo.
Ao acompanharmos o desenrolar da narrativa de “Suspiria” podemos perceber em diversos momentos a presença de ditos elementos. O filme leva a extremos a iconografia do horror. Desde os seus créditos, já sublinhados pela sinistra trilha sonora composta pelo grupo de rock progressivo Goblin, o longa se mostra macabro. Parece não haver qualquer cena durante a exibição que não tenha sido pensada para trazer um calafrio ao espectador. A primeira sequência, mostrando a protagonista Susie Bannyon (Jessica Harper) chegando ao aeroporto de uma cidade alemã, se passa debaixo de uma tempestade com raios e trovões, denotando uma atmosfera tenebrosa que só irá crescer ao longo da narrativa. Susie está na Alemanha para estudar balé em uma conceituada escola de dança quando um série de assassinatos surreais começa a acontecer envolvendo integrantes da academia. Aparentemente cometidos por um serial killer, logo se percebe que as coisas não são bem assim. A tal escola na realidade é um antro de bruxas e fatos sobrenaturais começam a pipocar no enredo. Com essa trama simples e direta, sobra espaço para que Argento empregue seu virtuosismo técnico em cenas de grande impacto para a plateia. O primeiro dos assassinatos é um horror em todos os aspectos. E é exatamente do seu exagero gráfico que surge a impressão de que estamos diante de uma obra na corda bamba entre o requinte e o mau gosto. Haja estômago para acompanhar tanta sangria e temperos de crueldade. Mas não se pode negar que o conjunto soa original e, em várias passagens, perturbador.

E perturbador não apenas pela violência atordoante que pontua o longa-metragem em diversas sequências. Argento sabe explorar o poder imagético do horror até mesmo na utilização das cores, sempre fortes e vívidas durante toda a projeção. Poucas vezes o vermelho foi tão bem explorado para causar medo, assim como o verde, entre outras cores bastante vivas. E aqui se sente especialmente a citada influência de Mario Bava, um pioneiro na utilização do technicolor como forma de potencializar climas macabros. Ademais, Argento sabe se valer de referências a obras predecessoras, em um método que provavelmente influenciou Quentin Tarantino. É possível distinguir homenagens a filmes como “O Bebê de Rosemary” (de Roman Polansky) ou “Carrie, A Estranha” (de Brian De Palma). Além disso, a referida trilha composta pela banda Goblin cria uma textura sonora ímpar, minimalista e impressionante em igual medida (assim como as trilhas de Ennio Morricone tornavam as obras de Sergio Leone ainda mais belas e vívidas).
Embora tropece no roteiro em alguns pontos, como personagens que entram e somem sem maiores razões narrativas - talvez devido à grande preocupação do diretor com o lado virtuoso e imagético da produção - “Suspiria” não deixa de ser uma experiência realmente diferenciada, mesmo para a parcela do público acostumada com filmes de terror. Inegavelmente, tornou-se uma referência neste gênero, influenciando fortemente diretores como John Carpenter, o qual chegou a declarar que “assistir Suspiria é como estar preso em um pesadelo”. Enfim, um sofisticado filme B. Uma película para nervos fortes, mas necessária.
Cotação:

Nota: 9,0
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domingo, 24 de julho de 2011
Assalto ao Banco Central

Transtorno de personalidade
O cinema brasileiro tem uma antiga tradição de filmar a criminalidade. “O Bandido da Luz Vermelha”, passando por “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”, até os mais recentes “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são exemplos do apreço tanto do público quanto dos realizadores pela temática do marginal, daqueles que estão fora da ordem estabelecida. Talvez só o cinema norte-americano possua também uma afinidade tão grande com os fora-da-lei (não à toa, lá surgiu o gênero do “filme de gângster”). Contudo, é óbvio que, diante da quantidade, a qualidade de tais produtos acaba oscilando na mesma proporção. Se o mencionado “Cidade de Deus” se mostra como exemplo primoroso da tendência, causando impacto não apenas no âmbito nacional, mas também internacional, “Salve Geral”, filme que chegou a ser escolhido para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro representando o Brasil, se mostra como um claro fracasso recente.
Eis que surge agora este “Assalto ao Banco Central”, longa baseado no fato verídico do assalto ao banco do título em Fortaleza - CE, um dos mais espetaculares crimes não só da história do Brasil, mas também do mundo. Os R$ 164,7 milhões levados pelos bandidos foram alcançados de forma incrível, através de um túnel que desembocava no único ponto cego existente dentro do cofre repleto de câmeras de segurança. Além disso, a maior parte dos seus autores não foi presa até hoje, assim como a maior parcela do montante furtado não foi recuperada – busca até mesmo dificultada por se tratar de notas antigas que haviam sido recolhidas pelo BC junto à rede bancária. Ou seja, o fato por si só já é praticamente um filme pronto. E com um forte aliado por se tratar de uma história verídica, pois que, sendo assim, já supera a necessidade da “suspensão de descrença” tão arduamente buscada por produções semelhantes, mas apoiadas exclusivamente em elementos ficcionais.
A adaptação de tais fatos para telona, porém, caiu em mãos inexperientes, as do global Marcos Paulo, conhecido ator e diretor de telenovelas, mas assumindo aqui sua primeira empreitada cinematográfica. Talvez devido a essa inexperiência com o cinema, o diretor acabou por utilizar tiques característicos dos trabalhos globais, já que novelas costumam apresentar acentuadas oscilações de tons, ora pendendo para o drama, ora para a comédia, como maneira de agradar a uma massa que anseia por mera distração durante a noite. Só que o cinema é um veículo bem mais exigente e certos tropeços de roteiro e direção até mesmo ignorados pelo público da televisão não são relevados pelos espectadores da sala escura – e muito menos pela crítica especializada. A impressão que fica aqui é de que o filme sofre de algum transtorno de personalidade, já que em nenhum momento se sabe ao certo o que ele pretender ser.
Possivelmente o maior sintoma de tal afirmação foi a declaração do próprio Marcos Paulo durante a coletiva no último festival de Paulínia (que foi encerrado com a exibição do longa em comento). Ele mencionou que apenas na fase de edição percebeu o acentuado lado cômico que certas sequências possuíam, o que o levou a selecioná-las para a versão final da produção. Ou seja, aparentemente nem o próprio Marcos Paulo sabia o que queria do seu filme, sendo provavelmente levado a deixar algumas passagens cômicas na montagem na ânsia de agradar ao público médio brasileiro. Além disso, também é clara no filme a sua vontade de se tornar o próximo “Tropa de Elite”, obra que gerou bordões populares como o famoso “pede pra sair”. Contudo, se o filme de José Padilha sabe equilibrar perfeitamente sua pesada trama com alívios cômicos, “Assalto ao Banco Central” transforma esse pretenso equilíbrio em verdadeira bipolaridade. Ficamos sem saber se estamos assistindo a um filme policial ou a uma comédia.

Mas seria injusto deixar o fardo do insucesso exclusivamente nas costas do diretor. O roteiro, escrito por Renê Belmonte, também não é dos mais felizes. Mostra-se como um mistura de “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, e “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Sodebergh. Do primeiro, retira sua estrutura não linear, exibindo momentos da elaboração e execução do crime intercalados por outros onde o mesmo já é investigado pela Polícia Federal. Do segundo, procura trazer a estrutura de apresentação dos personagens, com a busca dos parceiros de empreitada por um líder que é o cérebro das ações. Entretanto, nenhuma das duas ideias funciona a contento nesta produção nacional. O vai-e-vem temporal deixa a narrativa por vezes confusa e a apresentação de tipos não funciona exatamente porque os personagens, em sua maioria, são mal caracterizados. Além disso, as falas em diversas passagens são repletas de clichês, com um nível quase amador, o que acaba se tornando uma forma de humor bastante involuntária. Certos recursos, ademais, como colocar o líder do bando jogando xadrez para, assim, denotar sua inteligência, se mostram primários, como que duvidando da inteligência do espectador.
A pobreza dos diálogos só não se faz tão assustadora devido à competência do elenco escalado. Milhem Cortaz está ótimo como Barão, o líder do grupo, assim como Giulia Gam como a policial federal (lésbica) que investiga o assalto. Outro destaque é Tonico Pereira como o comunista que participa da ação como engenheiro, alegando que posteriormente irá dividir o produto com os trabalhadores. Mas quem rouba mesmo a cena é Lima Duarte. Seu delegado Amorim é o personagem mais tridimensional da narrativa e ele parece estar inteiramente à vontade no papel. A verdade é que o elenco acaba se mostrando o principal motivo do fato de que o longa, apesar dos seus flagrantes defeitos, não se torna chato de assistir. Vale ressaltar que há realmente boas sequências, principalmente aquelas com o referido tom cômico (e as risadas frequentes durantes a sessão me fizeram perceber que elas realmente agradaram). Ademais, o diretor soube fugir das composições imagéticas da televisão e utilizar uma linguagem realmente cinematográfica no que diz respeito a enquadramentos (não há aquele excesso de closes característicos da TV) e ritmo da narração.
“Assalto ao Banco Central” não é um desastre, mas o que fica deveras perceptível é que o seu resultado poderia ser muito superior caso tivesse sido levado adiante por mãos mais experientes, principalmente se considerarmos o material quase pronto e acabado que lhe deu origem. Talvez na sua próxima experiência, Marcos Paulo se lembre que filmes necessitam de uma unidade, nunca deixando o público na dúvida de estar assistindo a uma comédia ou a um filme policial. Afinal, filme não é novela, é bom sempre lembrar.
Cotação:

Nota: 6,5
O cinema brasileiro tem uma antiga tradição de filmar a criminalidade. “O Bandido da Luz Vermelha”, passando por “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”, até os mais recentes “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são exemplos do apreço tanto do público quanto dos realizadores pela temática do marginal, daqueles que estão fora da ordem estabelecida. Talvez só o cinema norte-americano possua também uma afinidade tão grande com os fora-da-lei (não à toa, lá surgiu o gênero do “filme de gângster”). Contudo, é óbvio que, diante da quantidade, a qualidade de tais produtos acaba oscilando na mesma proporção. Se o mencionado “Cidade de Deus” se mostra como exemplo primoroso da tendência, causando impacto não apenas no âmbito nacional, mas também internacional, “Salve Geral”, filme que chegou a ser escolhido para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro representando o Brasil, se mostra como um claro fracasso recente.
Eis que surge agora este “Assalto ao Banco Central”, longa baseado no fato verídico do assalto ao banco do título em Fortaleza - CE, um dos mais espetaculares crimes não só da história do Brasil, mas também do mundo. Os R$ 164,7 milhões levados pelos bandidos foram alcançados de forma incrível, através de um túnel que desembocava no único ponto cego existente dentro do cofre repleto de câmeras de segurança. Além disso, a maior parte dos seus autores não foi presa até hoje, assim como a maior parcela do montante furtado não foi recuperada – busca até mesmo dificultada por se tratar de notas antigas que haviam sido recolhidas pelo BC junto à rede bancária. Ou seja, o fato por si só já é praticamente um filme pronto. E com um forte aliado por se tratar de uma história verídica, pois que, sendo assim, já supera a necessidade da “suspensão de descrença” tão arduamente buscada por produções semelhantes, mas apoiadas exclusivamente em elementos ficcionais.
A adaptação de tais fatos para telona, porém, caiu em mãos inexperientes, as do global Marcos Paulo, conhecido ator e diretor de telenovelas, mas assumindo aqui sua primeira empreitada cinematográfica. Talvez devido a essa inexperiência com o cinema, o diretor acabou por utilizar tiques característicos dos trabalhos globais, já que novelas costumam apresentar acentuadas oscilações de tons, ora pendendo para o drama, ora para a comédia, como maneira de agradar a uma massa que anseia por mera distração durante a noite. Só que o cinema é um veículo bem mais exigente e certos tropeços de roteiro e direção até mesmo ignorados pelo público da televisão não são relevados pelos espectadores da sala escura – e muito menos pela crítica especializada. A impressão que fica aqui é de que o filme sofre de algum transtorno de personalidade, já que em nenhum momento se sabe ao certo o que ele pretender ser.
Possivelmente o maior sintoma de tal afirmação foi a declaração do próprio Marcos Paulo durante a coletiva no último festival de Paulínia (que foi encerrado com a exibição do longa em comento). Ele mencionou que apenas na fase de edição percebeu o acentuado lado cômico que certas sequências possuíam, o que o levou a selecioná-las para a versão final da produção. Ou seja, aparentemente nem o próprio Marcos Paulo sabia o que queria do seu filme, sendo provavelmente levado a deixar algumas passagens cômicas na montagem na ânsia de agradar ao público médio brasileiro. Além disso, também é clara no filme a sua vontade de se tornar o próximo “Tropa de Elite”, obra que gerou bordões populares como o famoso “pede pra sair”. Contudo, se o filme de José Padilha sabe equilibrar perfeitamente sua pesada trama com alívios cômicos, “Assalto ao Banco Central” transforma esse pretenso equilíbrio em verdadeira bipolaridade. Ficamos sem saber se estamos assistindo a um filme policial ou a uma comédia.

Mas seria injusto deixar o fardo do insucesso exclusivamente nas costas do diretor. O roteiro, escrito por Renê Belmonte, também não é dos mais felizes. Mostra-se como um mistura de “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, e “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Sodebergh. Do primeiro, retira sua estrutura não linear, exibindo momentos da elaboração e execução do crime intercalados por outros onde o mesmo já é investigado pela Polícia Federal. Do segundo, procura trazer a estrutura de apresentação dos personagens, com a busca dos parceiros de empreitada por um líder que é o cérebro das ações. Entretanto, nenhuma das duas ideias funciona a contento nesta produção nacional. O vai-e-vem temporal deixa a narrativa por vezes confusa e a apresentação de tipos não funciona exatamente porque os personagens, em sua maioria, são mal caracterizados. Além disso, as falas em diversas passagens são repletas de clichês, com um nível quase amador, o que acaba se tornando uma forma de humor bastante involuntária. Certos recursos, ademais, como colocar o líder do bando jogando xadrez para, assim, denotar sua inteligência, se mostram primários, como que duvidando da inteligência do espectador.
A pobreza dos diálogos só não se faz tão assustadora devido à competência do elenco escalado. Milhem Cortaz está ótimo como Barão, o líder do grupo, assim como Giulia Gam como a policial federal (lésbica) que investiga o assalto. Outro destaque é Tonico Pereira como o comunista que participa da ação como engenheiro, alegando que posteriormente irá dividir o produto com os trabalhadores. Mas quem rouba mesmo a cena é Lima Duarte. Seu delegado Amorim é o personagem mais tridimensional da narrativa e ele parece estar inteiramente à vontade no papel. A verdade é que o elenco acaba se mostrando o principal motivo do fato de que o longa, apesar dos seus flagrantes defeitos, não se torna chato de assistir. Vale ressaltar que há realmente boas sequências, principalmente aquelas com o referido tom cômico (e as risadas frequentes durantes a sessão me fizeram perceber que elas realmente agradaram). Ademais, o diretor soube fugir das composições imagéticas da televisão e utilizar uma linguagem realmente cinematográfica no que diz respeito a enquadramentos (não há aquele excesso de closes característicos da TV) e ritmo da narração.
“Assalto ao Banco Central” não é um desastre, mas o que fica deveras perceptível é que o seu resultado poderia ser muito superior caso tivesse sido levado adiante por mãos mais experientes, principalmente se considerarmos o material quase pronto e acabado que lhe deu origem. Talvez na sua próxima experiência, Marcos Paulo se lembre que filmes necessitam de uma unidade, nunca deixando o público na dúvida de estar assistindo a uma comédia ou a um filme policial. Afinal, filme não é novela, é bom sempre lembrar.
Cotação:

Nota: 6,5
sábado, 23 de julho de 2011
27 anos...

Pausa no cinema.
Como todos já devem estar sabendo, faleceu hoje a talentosíssima cantora Amy Winehouse, mais uma vítima das drogas. Uma tragédia anunciada, diga-se de passagem. Já havia um bom tempo que ela era uma forte candidata a Janis e a candidatura acabou se confirmando. Ambas perderam a vida aos 27 anos, assim como dois outros ídolos da música: Jim Morrison e Jimi Hendrix. Todos vítimas do mesmo mal, é bom lembrar. Acredito que está na hora de acabar, de uma vez por todas, com a idiota glamurização das drogas. E ainda tem gente por aí que, por pura conveniência (usando um eufemismo) ou para posar de "moderno" , "mente aberta" ou qualquer outra babaquice pseudo-inteligente , defende a legalização destas. Tomara que a morte da cantora sirva ao menos para refletirem sobre esse tipo de sandice.
Descanse em paz, Amy!
Como todos já devem estar sabendo, faleceu hoje a talentosíssima cantora Amy Winehouse, mais uma vítima das drogas. Uma tragédia anunciada, diga-se de passagem. Já havia um bom tempo que ela era uma forte candidata a Janis e a candidatura acabou se confirmando. Ambas perderam a vida aos 27 anos, assim como dois outros ídolos da música: Jim Morrison e Jimi Hendrix. Todos vítimas do mesmo mal, é bom lembrar. Acredito que está na hora de acabar, de uma vez por todas, com a idiota glamurização das drogas. E ainda tem gente por aí que, por pura conveniência (usando um eufemismo) ou para posar de "moderno" , "mente aberta" ou qualquer outra babaquice pseudo-inteligente , defende a legalização destas. Tomara que a morte da cantora sirva ao menos para refletirem sobre esse tipo de sandice.
Descanse em paz, Amy!
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Trilha Sonora #18

Eu assisti a "O Sol da Meia-Noite" (White Nights, 1985) há muitos anos e não lembro muito dele. Recordo da presença do famoso bailarino Mikhail Baryshnikov, o qual interpreta um personagem com tons semelhantes aos da sua própria biografia, já que ambos fogem da antiga União Soviética e se naturalizam norte-americanos. Mas, principalmente, nem eu e nem niguém esquece da canção vencedora do Oscar "Say You, Say Me", de Lionel Ritchie (por onde ele anda?). Quem viveu os anos 80 deve sentir saudade dessa!
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domingo, 17 de julho de 2011
Para Ver Em Um Dia de Chuva

Interlúdio
(Notorious - 1946)
Suspense e romance em harmonia
Entre as mais conhecidas obras de Alfred Hitchcock, esta é uma das últimas a que me faltavam assistir. Não gosto de me valer dos subterfúgio de baixar filmes pela internet, mas a verdade é que cansei de esperar uma edição oficial e decente em DVD no Brasil, estando disponível no mercado nacional apenas as cópias da perigosa (co)Continental, caras e pouco confiáveis (já pensou pagar cerca de 40 reais por um disco e ele travar na metade?). Bem, a verdade é que realizei o download e a acabei assistindo a esta peculiar película do mestre do suspense na chuvosa tarde do último sábado. O termo peculiar cabe de forma ainda mais especial para nós, brasileiros. Isso porque a maior parte de sua trama se passa no Rio de Janeiro e vemos lá algumas cenas interessantes do Rio antigo. Vale frisar que, contudo, o par central da narrativa, formado pelos antológicos astros Cary Grant e Ingrid Bergman, jamais esteve em solo carioca, uma vez que foram usados dublês e imagens projetadas durante as filmagens. De qualquer forma, o detalhe passa quase despercebido diante da bela fotografia em preto e branco e, também, do ótimo resultado alcançado pelo diretor com esse longa.
Esse resultado feliz provavelmente foi obtido devido à quase ausência de interferência do produtor David O. Selznick, um dos poderosos chefões da velha Hollywood – ou talvez o maior deles (ele produziu “...E o Vento Levou”, lembra-se?). Este era o terceiro trabalho que Hitchcock fazia pra ele, depois de “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (que lhe rendeu o único Oscar de melhor filme em toda sua carreira) e “Spellbound – Quando Fala o Coração”, este uma experiência com contribuições surrealistas do gênio artístico Salvador Dalí (e também a primeira oportunidade em que trabalhou com Ingrid Bergman). A ingerência de Selznick em “Spellbound” foi tão grande que várias das criações do pintor espanhol foram rejeitadas para conter custos, o que levou Dalí a acreditar que a razão do convite era apenas a sua assinatura nos créditos. A verdade é que em “Interlúdio” Selznick praticamente permitiu que Hitchock produzisse a si mesmo – e muitos afirmam que, se fosse diferente, o projeto teria terminado em um desastre.
O sucesso da empreitada se deu, inclusive, a despeito da premissa inverossímil do roteiro (escrito por Ben Hecht) . Afinal, mesmo levando em consideração a costumeira desinformação do público norte-americano, é difícil imaginar que este não conhecesse seus aliados e inimigos durante a Segunda Guerra Mundial (valendo à pena dizer que a produção é de 1946, logo após o término do conflito, portanto). E a trama parte justamente da ideia de que cientistas alemães viveriam em tranquilidade (?!) no Brasil durante o fim deste evento histórico. Cary Grant interpreta o agente Devlin, um encarregado de monitorar as atividades destes cientistas por estas bandas. No entanto, como forma de facilitar e aprofundar o trabalho, ele procura a bela Alicia Huberman (Ingrid), filha de um norte-americano condenado por traição exatamente devido à sua ligação com o grupo de nazistas que está sendo espionado. No entanto, Devlin, ao mesmo tempo em que usa Alicia para atingir os objetivos do Estado, acaba realmente se apaixonando por ela. As coisas complicam ainda mais quando seus superiores sugerem que Alicia case com o alemão Alexander Sebastian (Claude Rains, o policial Renault de “Casablanca”) e ela passa a viver sobre o fio da navalha na bela mansão deste, principalmente devido à desconfiança e comportamento maquiavélico da sogra. (Leopoldine Konstantin).

Como nenhum outro cineasta, Hitchcock realiza uma perfeita mistura de gêneros, equilibrando romance e suspense em uma trama de espionagem. O filme pode ser visto tanto como um suspense com pitadas românticas ou como um romance com um pano de fundo de espionagem. O olhar de cada espectador é que determinará o teor do longa. Este equilíbrio, ademais, até mesmo por ser observado através das suas duas mais lembradas sequências. Da mesma forma em que há a presença de uma longa cena de beijo entre Devlin e Alicia (que foi considerada a mais longa do cinema até então, tendo inclusive problemas com a censura), também encontramos uma sequência sensacional de suspense que só poderia mesmo ter sido concebida por Hitchcock. Afinal, só ele mesmo para conseguir tensão através de coisas banais como a busca de garrafas de vinho e champanhe em uma adega. Acredito que esta simbiose de gêneros só voltaria a ser tão bem executada pelo mestre nas obras-primas “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) e “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958). Por outro lado, o diretor nos faz nutrir sentimentos oscilantes pelos personagens, já que Sebastian nos é mostrado não como um típico “vilão”, mas como, antes de tudo, um homem apaixonado por Alicia. A sequência final na escadaria, frise-se, se coloca como a perfeita síntese dessa ambiguidade.
Contando com atuações inspiradas – principalmente de Bergman (linda como de costume) e do sempre excelente Rains (que acabou sendo indicado ao prêmio de coadjuvante da Academia de Hollywood) – alguns podem se queixar que “Notorious” possui uma conclusão exageradamente aberta, o que acaba por frustrar uma parcela do público mais acostumada com desfechos mastigados. Entretanto, creio que este final que estimula a mente do espectador talvez seja até um mérito da película, deixando entrever o que acontecerá com cada um dos personagens. Ressalte-se, ainda, que este é um recurso característico das obras do velho Hitch - o final de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) é exemplo clássico desse aspecto. Mesmo que não seja um filme perfeito como o citado “Janela Indiscreta”, não se pode negar que “Interlúdio”, a despeito dos mencionados aspectos pouco verossímeis, se constitui em um ótimo exemplar da filmografia do mestre e, repito, é bom ver cenas de um Rio de Janeiro ainda distante do clima um tanto caótico de hoje. Valeu à pena fazer o download!
Curiosidade: Hitchock não sabia que o urânio, elemento químico presente no desenrolar da narrativa, era utilizado para a confecção da bomba atômica. A presença de tal elemento na trama fez com que o diretor fosse investigado durante anos pelo FBI...
Cotação:

Nota: 9,0
(Notorious - 1946)
Suspense e romance em harmonia
Entre as mais conhecidas obras de Alfred Hitchcock, esta é uma das últimas a que me faltavam assistir. Não gosto de me valer dos subterfúgio de baixar filmes pela internet, mas a verdade é que cansei de esperar uma edição oficial e decente em DVD no Brasil, estando disponível no mercado nacional apenas as cópias da perigosa (co)Continental, caras e pouco confiáveis (já pensou pagar cerca de 40 reais por um disco e ele travar na metade?). Bem, a verdade é que realizei o download e a acabei assistindo a esta peculiar película do mestre do suspense na chuvosa tarde do último sábado. O termo peculiar cabe de forma ainda mais especial para nós, brasileiros. Isso porque a maior parte de sua trama se passa no Rio de Janeiro e vemos lá algumas cenas interessantes do Rio antigo. Vale frisar que, contudo, o par central da narrativa, formado pelos antológicos astros Cary Grant e Ingrid Bergman, jamais esteve em solo carioca, uma vez que foram usados dublês e imagens projetadas durante as filmagens. De qualquer forma, o detalhe passa quase despercebido diante da bela fotografia em preto e branco e, também, do ótimo resultado alcançado pelo diretor com esse longa.
Esse resultado feliz provavelmente foi obtido devido à quase ausência de interferência do produtor David O. Selznick, um dos poderosos chefões da velha Hollywood – ou talvez o maior deles (ele produziu “...E o Vento Levou”, lembra-se?). Este era o terceiro trabalho que Hitchcock fazia pra ele, depois de “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (que lhe rendeu o único Oscar de melhor filme em toda sua carreira) e “Spellbound – Quando Fala o Coração”, este uma experiência com contribuições surrealistas do gênio artístico Salvador Dalí (e também a primeira oportunidade em que trabalhou com Ingrid Bergman). A ingerência de Selznick em “Spellbound” foi tão grande que várias das criações do pintor espanhol foram rejeitadas para conter custos, o que levou Dalí a acreditar que a razão do convite era apenas a sua assinatura nos créditos. A verdade é que em “Interlúdio” Selznick praticamente permitiu que Hitchock produzisse a si mesmo – e muitos afirmam que, se fosse diferente, o projeto teria terminado em um desastre.
O sucesso da empreitada se deu, inclusive, a despeito da premissa inverossímil do roteiro (escrito por Ben Hecht) . Afinal, mesmo levando em consideração a costumeira desinformação do público norte-americano, é difícil imaginar que este não conhecesse seus aliados e inimigos durante a Segunda Guerra Mundial (valendo à pena dizer que a produção é de 1946, logo após o término do conflito, portanto). E a trama parte justamente da ideia de que cientistas alemães viveriam em tranquilidade (?!) no Brasil durante o fim deste evento histórico. Cary Grant interpreta o agente Devlin, um encarregado de monitorar as atividades destes cientistas por estas bandas. No entanto, como forma de facilitar e aprofundar o trabalho, ele procura a bela Alicia Huberman (Ingrid), filha de um norte-americano condenado por traição exatamente devido à sua ligação com o grupo de nazistas que está sendo espionado. No entanto, Devlin, ao mesmo tempo em que usa Alicia para atingir os objetivos do Estado, acaba realmente se apaixonando por ela. As coisas complicam ainda mais quando seus superiores sugerem que Alicia case com o alemão Alexander Sebastian (Claude Rains, o policial Renault de “Casablanca”) e ela passa a viver sobre o fio da navalha na bela mansão deste, principalmente devido à desconfiança e comportamento maquiavélico da sogra. (Leopoldine Konstantin).

Como nenhum outro cineasta, Hitchcock realiza uma perfeita mistura de gêneros, equilibrando romance e suspense em uma trama de espionagem. O filme pode ser visto tanto como um suspense com pitadas românticas ou como um romance com um pano de fundo de espionagem. O olhar de cada espectador é que determinará o teor do longa. Este equilíbrio, ademais, até mesmo por ser observado através das suas duas mais lembradas sequências. Da mesma forma em que há a presença de uma longa cena de beijo entre Devlin e Alicia (que foi considerada a mais longa do cinema até então, tendo inclusive problemas com a censura), também encontramos uma sequência sensacional de suspense que só poderia mesmo ter sido concebida por Hitchcock. Afinal, só ele mesmo para conseguir tensão através de coisas banais como a busca de garrafas de vinho e champanhe em uma adega. Acredito que esta simbiose de gêneros só voltaria a ser tão bem executada pelo mestre nas obras-primas “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) e “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958). Por outro lado, o diretor nos faz nutrir sentimentos oscilantes pelos personagens, já que Sebastian nos é mostrado não como um típico “vilão”, mas como, antes de tudo, um homem apaixonado por Alicia. A sequência final na escadaria, frise-se, se coloca como a perfeita síntese dessa ambiguidade.
Contando com atuações inspiradas – principalmente de Bergman (linda como de costume) e do sempre excelente Rains (que acabou sendo indicado ao prêmio de coadjuvante da Academia de Hollywood) – alguns podem se queixar que “Notorious” possui uma conclusão exageradamente aberta, o que acaba por frustrar uma parcela do público mais acostumada com desfechos mastigados. Entretanto, creio que este final que estimula a mente do espectador talvez seja até um mérito da película, deixando entrever o que acontecerá com cada um dos personagens. Ressalte-se, ainda, que este é um recurso característico das obras do velho Hitch - o final de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) é exemplo clássico desse aspecto. Mesmo que não seja um filme perfeito como o citado “Janela Indiscreta”, não se pode negar que “Interlúdio”, a despeito dos mencionados aspectos pouco verossímeis, se constitui em um ótimo exemplar da filmografia do mestre e, repito, é bom ver cenas de um Rio de Janeiro ainda distante do clima um tanto caótico de hoje. Valeu à pena fazer o download!
Curiosidade: Hitchock não sabia que o urânio, elemento químico presente no desenrolar da narrativa, era utilizado para a confecção da bomba atômica. A presença de tal elemento na trama fez com que o diretor fosse investigado durante anos pelo FBI...
Cotação:

Nota: 9,0
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Dica de Livro

Em 1995, o British Film Institute convidou ninguém menos que Martin Scorsese para realizar um documentário para a TV em comemoração aos 100 anos da Sétima Arte. Pois bem, o livro que aqui indico é justamente o roteiro dessa produção. Como sugere o título, "Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano" faz um passeio ao longo de várias décadas do cinema estadunidense, onde Scorsese, com maestria, nos mostra a influência e importância fundamental dos diretores que lhe precederam. Gostoso de ler, vamos descobrindo sem qualquer enfado como funcionava o studio system - a velha forma de produção que reinou durante muitos anos em Hollywood - além de conhecer os pioneiros na contestação desse status quo e, claro (e esta é a parte mais saborosa), descobrir vários e vários filmes dos quais muitas vezes sequer ouvimos falar, mas que Scorsese resgata do esquecimento para lustrar e fazer reluzir o seu devido brilho. Há ainda vários comentários de outros diretores e atores famosos, trechos de diálogos interessantes de diversas produções e também belas fotos que ilustram as páginas. Não é à toa que Scorsese é conhecido, mesmo no seu meio, como um verdadeiro professor da arte em que também brilha. Obrigatório para qualquer cinéfilo!
Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano - Martin Scorsese e Michael Henry Wilson - Cosac & Naify - 223 páginas.
Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano - Martin Scorsese e Michael Henry Wilson - Cosac & Naify - 223 páginas.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Cinema Com Pimenta - 3 anos!

É isso aí. Há exatos três anos, no dia 11 de julho de 2008, com a postagem da resenha sobre “Wall-E”, surgia o “Cinema Com Pimenta” como uma forma de publicar os textos que eu escrevia sobre os filmes, que via em enviava por e-mail para alguns amigos. Alguns destes davam a sugestão de criar um blog enquanto outros perguntavam porque eu não publicava em jornais. A ideia de publicar em periódicos nunca me agradou, já que iriam podar meus textos para caber no formato e limitações editoriais. Ademais, escrevo minhas linhas por paixão e não por vontades ou necessidades financeiras. A alternativa do blog se tornou, desta forma, a melhor, já que eu poderia escrever livremente e de acordo com o meu tempo disponível.
Mas é claro que os desafios se apresentaram de maneiras diversas. Como esta não é a minha atividade profissional, é frequente ter que driblar a falta de tempo para manter este espaço atualizado. E também, por vezes, é preciso superar a ausência de inspiração. Há filmes que terminamos de ver e já sabemos tudo que iremos escrever, enquanto em outros casos as palavras parecem sair a fórceps. Todavia, apesar dos obstáculos, a cada comentário postado pelos leitores me sinto recompensado por todo o esforço. Muito melhor do que qualquer possível retribuição financeira, que eu poderia receber em outros meios, é a força dada por aqueles que também vivem o cinema. Dia desses, li que Rubens Ewald Filho valoriza muito o trabalho dos blogueiros. “Eles escrevem com paixão”, disse o crítico. Acredito que cada cinéfilo blogueiro sabe o quanto de verdade existe nessa frase.
Bem, como forma de lembrar o aniversário, coloco abaixo uma sequência famosa e marcante de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Durante muito tempo considerei este o melhor filme de todos os tempos. Talvez hoje ele não ocupe o posto no meu ranking (nem sei exatamente que filme eu definiria, neste momento, como o melhor já realizado), mas, com certeza, ele tem e sempre terá lugar cativo no meu top 10. Cheio de pretensões, mas brilhante em igual medida, “2001” é uma experiência que sempre perderá se transformada em palavras. E isso me faz dispensá-las agora. Se você ainda não teve a felicidade de apreciar esta verdadeira pérola de genialidade gerada por Stanley Kubrick, um dos raros filmes que nos atingem da mesma forma que uma música ou uma pintura, aí segue um aperitivo. Mas o melhor mesmo é assistir à obra por completo.
Por fim, fica aqui o meu muito obrigado para todos aqueles que acompanham o Cinema Com Pimenta. Um grande abraço e que Deus abençoe a todos!
Mas é claro que os desafios se apresentaram de maneiras diversas. Como esta não é a minha atividade profissional, é frequente ter que driblar a falta de tempo para manter este espaço atualizado. E também, por vezes, é preciso superar a ausência de inspiração. Há filmes que terminamos de ver e já sabemos tudo que iremos escrever, enquanto em outros casos as palavras parecem sair a fórceps. Todavia, apesar dos obstáculos, a cada comentário postado pelos leitores me sinto recompensado por todo o esforço. Muito melhor do que qualquer possível retribuição financeira, que eu poderia receber em outros meios, é a força dada por aqueles que também vivem o cinema. Dia desses, li que Rubens Ewald Filho valoriza muito o trabalho dos blogueiros. “Eles escrevem com paixão”, disse o crítico. Acredito que cada cinéfilo blogueiro sabe o quanto de verdade existe nessa frase.
Bem, como forma de lembrar o aniversário, coloco abaixo uma sequência famosa e marcante de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Durante muito tempo considerei este o melhor filme de todos os tempos. Talvez hoje ele não ocupe o posto no meu ranking (nem sei exatamente que filme eu definiria, neste momento, como o melhor já realizado), mas, com certeza, ele tem e sempre terá lugar cativo no meu top 10. Cheio de pretensões, mas brilhante em igual medida, “2001” é uma experiência que sempre perderá se transformada em palavras. E isso me faz dispensá-las agora. Se você ainda não teve a felicidade de apreciar esta verdadeira pérola de genialidade gerada por Stanley Kubrick, um dos raros filmes que nos atingem da mesma forma que uma música ou uma pintura, aí segue um aperitivo. Mas o melhor mesmo é assistir à obra por completo.
Por fim, fica aqui o meu muito obrigado para todos aqueles que acompanham o Cinema Com Pimenta. Um grande abraço e que Deus abençoe a todos!
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sábado, 9 de julho de 2011
O cinema e a reciclagem de ideias - Parte II
Continuando as linhas sobres o reaproveitamento de ideias na atual crise de criatividade presente nas realizaçãoes cinematográficas (principalmente as made in Hollywood), vamos agora falar sobre outras espécies destas reciclagens. Se na primeira parte tecemos comentários sobre as duas fórmulas mais comumente usadas, quais sejam, o remake e a sequência, agora partiremos para uma apreciação de outras nem tão “badaladas”. São elas o prequel, o midquel, o interquel e o reboot. Nada muito catedrático, como podem perceber, mas acreditamos contribuir para o esclarecimento dos conceitos. Vamos a eles.

Prequel – Em terras brasileiras, não foi ainda utilizado um termo em português para traduzir esse neologismo surgido nos anos 1970. Em Portugal, utiliza-se a palavra “prequela”, o que constitui uma boa tradução, já que o termo em inglês se origina da junção de pre (antes, anterior) e sequel (sequência, sequela). Prequel é uma obra cuja trama ocorre em momento anterior à outra já lançada previamente, comumente esclarecendo a origem de personagens ou fatos que não foram totalmente desvendados durante a narrativa original. Embora o termo só tenha surgido nos anos 70, como mencionado, a origem deste tipo de obra é bem mais remota. O livro bíblico de “Rute”, que narra histórias de antepassados do rei Davi, por exemplo, é uma prequela de outros livros que tratam deste soberano hebreu. Em outra exemplificação, o genial músico Richard Wagner utilizou-se deste recurso na sua tetralogia “O Anel dos Nibelungos”, já que a ópera “Das Rheingold” é uma prequel da anterior “Siegfried”. Em termos cinematográficos, é essencial frisar que os fatos constantes da nova narrativa devem ser cronologicamente anteriores aos presentes no primeiro longa-metragem, pois que, se posteriores, não será uma prequela, mas uma sequência.
Apesar de não tão comuns quanto as sequências, podemos citar exemplos bem famosos e interessantes de prequels. Mais uma vez vamos recordar aqui o caso da saga “Star Wars”. Uma das precursoras nas sequências, ela também é referência entre as prequelas. Como é bastante conhecido, toda a série “Guerra nas Estrelas” foi concebida originariamente por George Lucas em seis episódios, mas ele resolveu filmar primeiramente o episódio IV, denominado “Uma Nova Esperança”. Décadas depois do término da trilogia que compreende este episódio e mais o V e o VI (o acima mencionado “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”, respectivamente), Lucas retomou seu universo para levar às telas os três primeiros episódios que contam como Anakin Skywalker se tornou o temido Darth Vader. Ou seja, toda a segunda trilogia de “Star Wars” é uma extensa prequel do episódio IV, uma vez que suas narrativas tratam de fatos cronologicamente anteriores ao longa de 1977.
Ainda podemos elencar outras prequelas bastante conhecidas do grande público. “O Exorcista – O Início” (Exorcist: The Beginning, 2004) é prequel do clássico “O Exorcista” (The Exorcist) dirigido por William Friedkin em 1973 (e, por extensão, de toda a franquia, que inclui ainda os episódios II e III), mostrando a viagem que o Padre Merrin realiza para a África Oriental, deparando-se pela primeira vez com o demônio Pazuzu. Já “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, 2009) antecede cronologicamente a trilogia dos X-Men iniciada em 2001 e revela o surgimento do popular herói Wolverine com a implantação do metal adamantium em seu esqueleto. Por sinal, ainda está em exibição nas salas de cinema, o segundo prequel da série do mutantes, o ótimo “X-Men Primeira Classe” (X-Men: First Class - 2011). Por outro lado, uma prequela já se tornou lendária entre os cinéfilos. Trata-se de “O Hobbit”, adaptação do livro de J.R.R. Tolkien que antecipa os acontecimentos de “O Senhor dos Anéis”. Há anos os fãs aguardam ansiosamente pelo filme, o qual, depois de anos de entraves jurídicos relativos aos direitos de adaptação da obra, finalmente entrou em fase de produção, tendo inclusive algumas imagens já liberadas na internet.
Interquel e Midquel – São duas formas de abordagem pouco utilizadas e, por isso mesmo, menos importantes, sendo mais comum na televisão e principalmente na expansão de uma obra para outras mídias. No interquel, temos uma narrativa que se passa entre duas outras já realizadas anteriormente, desenrolando fatos que o público não tinha tomado conhecimento. Um bom exemplo deste recurso é a animação “Star Wars: The Clone Wars” (2008), longa que serviu de introdução para a série de animação televisiva com o mesmo nome. Já no midquel o roteiro é desenvolvido a partir de uma elipse ocorrida no contexto de uma obra prévia. O conceito ficará mais claro recordando “Bambi II”, animação dos estúdios Disney elaborada para o mercado de home vídeo. Nele, a narrativa se desenvolve durante o período de tempo que se passa entre a morte da mãe de Bambi e sua idade adulta, o qual não é mostrado no famoso longa de animação que leva o nome do seu personagem central. Resta claro, portanto, que interquel e midquel são formas bastante mercadológicas de se explorar personagens com grande potencial e retorno financeiro. Não é à toa que fizemos mais uma menção à série “Guerra nas Estrelas”, já que Gorge Lucas se tornou o rei deste tipo de exploração mercantilista.
Reboot (ou reinício) – Talvez seja sinal dos tempos, mas é curioso que um termo da informática seja adotado para designar um conceito de obra midiática. Para conceituar reboot vamos nos valer da definição de Thomas R. Willits: “reboot significa reiniciar um universo de entretenimento que já foi estabelecido previamente, começando uma nova história e/ou cronologia que desconsidera a história ou acontecimentos do original, tornando-o obsoleto”. Neste ponto, é fundamental frisar que o reboot não é o mesmo que um remake. Como demonstrado em linhas anteriores, a refilmagem funciona como uma adequação ou nova visão de uma obra para uma determinada plateia, seja por necessidades comerciais ou artísticas, sendo que a obra, em linhas gerais, continua a mesma, com igual trama e personagens. No reinício novos paradigmas são estabelecidos para um universo ficcional que normalmente já teve sequências, sendo que tudo que foi feito ulteriormente é ignorado na noviça produção. Assim, um outro cânone é instituído, inovando e consagrando novos parâmetros a serem seguidos.

O exemplo mais imediato que podemos utilizar para exemplificar a ideia de reboot é o longa-metragem “Batman Begins” (2005), responsável por devolver ao famoso personagem dos quadrinhos o respeito perdido com os desastrosos filmes dirigidos por Joel Schumacher (principalmente “Batman & Robin”, de 1997, assombrosamente ruim). A solução encontrada pela Warner Bros., estúdio detentor dos direitos de adaptação, foi a de “zerar” a série cinematográfica, ignorando inclusive os filmes dirigidos por Tim Burton, que também nunca foram unanimidade de crítica e público. A intenção era a de contar uma nova origem para o herói e o diretor escalado, Christopher Nolan, obteve grande sucesso na empreitada, a qual inclusive gerou uma sequência, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008), que acabou se tornando um marco nas adaptações de HQ para a tela grande, rendendo, inclusive, um Oscar de ator coadjuvante ao saudoso Heath Ledger. Outro reinício que se mostrou bastante feliz foi o da longa série “007”, que, a partir de “Cassino Royale” (2006), de Martin Campbell, assumiu novos e surpreendentes ares, com o ator Daniel Craig encarnando o agente James Bond com uma força e competência que não se via desde os anos 60 com Sean Connery. Recentemente, tivemos ainda o reboot da saga “Star Trek” (2009), apresentando-a para uma nova geração de possíveis fãs. Vale assinalar, porém, que nem sempre os reboots são necessários. A nova adaptação do Homem-Aranha, dirigida por Marc Webb e contando com Andrew Garfield no papel de Peter Parker (tem estreia prevista para 2012), é um típico caso de desnecessidade, tendo em vista a qualidade da trilogia dirigida por Sam Raimi e protagonizada por Tobey Maguire, ainda viva na memória do público e dona de uma legião de fãs. E que fique claro mais uma vez: reinício não é refilmagem, mas uma nova maneira de abordar um universo ficcional, não estando em absoluto atrelado a uma obra lançada anteriormente.
Embora não se possa negar que essas diversas formas de abordar um universo ficcional tenham sido engendradas, em sua maioria, por motivações eminentemente comerciais, como já frisado em diversas passagens nas linhas precedentes, também não se pode olvidar, por outro lado, que em várias outras ocasiões são obtidos resultados artisticamente relevantes. Mesmo os remakes, que talvez representem melhor esta vertente de mercado, uma vez que é a menos criativa das opções de retomada de um universo ficcional, podem adquirir um valor cinematográfico relevante quando bem realizados. Concluindo, o Cinema Com Pimenta espera ter jogado um pouco de luz, mesmo que de forma tênue, sobre a zona nublada que encobre as variadas espécies de reciclagem criativa que permeiam o cinema contemporâneo. Na verdade, espera mais ainda que as mentes que fazem o cinema, sejam cineastas ou executivos, consigam deixar para trás esse marasmo criativo e consigam fazer de tais reciclagens uma exceção e não a regra, já que está última vem reinando nos últimos anos.

Prequel – Em terras brasileiras, não foi ainda utilizado um termo em português para traduzir esse neologismo surgido nos anos 1970. Em Portugal, utiliza-se a palavra “prequela”, o que constitui uma boa tradução, já que o termo em inglês se origina da junção de pre (antes, anterior) e sequel (sequência, sequela). Prequel é uma obra cuja trama ocorre em momento anterior à outra já lançada previamente, comumente esclarecendo a origem de personagens ou fatos que não foram totalmente desvendados durante a narrativa original. Embora o termo só tenha surgido nos anos 70, como mencionado, a origem deste tipo de obra é bem mais remota. O livro bíblico de “Rute”, que narra histórias de antepassados do rei Davi, por exemplo, é uma prequela de outros livros que tratam deste soberano hebreu. Em outra exemplificação, o genial músico Richard Wagner utilizou-se deste recurso na sua tetralogia “O Anel dos Nibelungos”, já que a ópera “Das Rheingold” é uma prequel da anterior “Siegfried”. Em termos cinematográficos, é essencial frisar que os fatos constantes da nova narrativa devem ser cronologicamente anteriores aos presentes no primeiro longa-metragem, pois que, se posteriores, não será uma prequela, mas uma sequência.
Apesar de não tão comuns quanto as sequências, podemos citar exemplos bem famosos e interessantes de prequels. Mais uma vez vamos recordar aqui o caso da saga “Star Wars”. Uma das precursoras nas sequências, ela também é referência entre as prequelas. Como é bastante conhecido, toda a série “Guerra nas Estrelas” foi concebida originariamente por George Lucas em seis episódios, mas ele resolveu filmar primeiramente o episódio IV, denominado “Uma Nova Esperança”. Décadas depois do término da trilogia que compreende este episódio e mais o V e o VI (o acima mencionado “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”, respectivamente), Lucas retomou seu universo para levar às telas os três primeiros episódios que contam como Anakin Skywalker se tornou o temido Darth Vader. Ou seja, toda a segunda trilogia de “Star Wars” é uma extensa prequel do episódio IV, uma vez que suas narrativas tratam de fatos cronologicamente anteriores ao longa de 1977.
Ainda podemos elencar outras prequelas bastante conhecidas do grande público. “O Exorcista – O Início” (Exorcist: The Beginning, 2004) é prequel do clássico “O Exorcista” (The Exorcist) dirigido por William Friedkin em 1973 (e, por extensão, de toda a franquia, que inclui ainda os episódios II e III), mostrando a viagem que o Padre Merrin realiza para a África Oriental, deparando-se pela primeira vez com o demônio Pazuzu. Já “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, 2009) antecede cronologicamente a trilogia dos X-Men iniciada em 2001 e revela o surgimento do popular herói Wolverine com a implantação do metal adamantium em seu esqueleto. Por sinal, ainda está em exibição nas salas de cinema, o segundo prequel da série do mutantes, o ótimo “X-Men Primeira Classe” (X-Men: First Class - 2011). Por outro lado, uma prequela já se tornou lendária entre os cinéfilos. Trata-se de “O Hobbit”, adaptação do livro de J.R.R. Tolkien que antecipa os acontecimentos de “O Senhor dos Anéis”. Há anos os fãs aguardam ansiosamente pelo filme, o qual, depois de anos de entraves jurídicos relativos aos direitos de adaptação da obra, finalmente entrou em fase de produção, tendo inclusive algumas imagens já liberadas na internet.
Interquel e Midquel – São duas formas de abordagem pouco utilizadas e, por isso mesmo, menos importantes, sendo mais comum na televisão e principalmente na expansão de uma obra para outras mídias. No interquel, temos uma narrativa que se passa entre duas outras já realizadas anteriormente, desenrolando fatos que o público não tinha tomado conhecimento. Um bom exemplo deste recurso é a animação “Star Wars: The Clone Wars” (2008), longa que serviu de introdução para a série de animação televisiva com o mesmo nome. Já no midquel o roteiro é desenvolvido a partir de uma elipse ocorrida no contexto de uma obra prévia. O conceito ficará mais claro recordando “Bambi II”, animação dos estúdios Disney elaborada para o mercado de home vídeo. Nele, a narrativa se desenvolve durante o período de tempo que se passa entre a morte da mãe de Bambi e sua idade adulta, o qual não é mostrado no famoso longa de animação que leva o nome do seu personagem central. Resta claro, portanto, que interquel e midquel são formas bastante mercadológicas de se explorar personagens com grande potencial e retorno financeiro. Não é à toa que fizemos mais uma menção à série “Guerra nas Estrelas”, já que Gorge Lucas se tornou o rei deste tipo de exploração mercantilista.
Reboot (ou reinício) – Talvez seja sinal dos tempos, mas é curioso que um termo da informática seja adotado para designar um conceito de obra midiática. Para conceituar reboot vamos nos valer da definição de Thomas R. Willits: “reboot significa reiniciar um universo de entretenimento que já foi estabelecido previamente, começando uma nova história e/ou cronologia que desconsidera a história ou acontecimentos do original, tornando-o obsoleto”. Neste ponto, é fundamental frisar que o reboot não é o mesmo que um remake. Como demonstrado em linhas anteriores, a refilmagem funciona como uma adequação ou nova visão de uma obra para uma determinada plateia, seja por necessidades comerciais ou artísticas, sendo que a obra, em linhas gerais, continua a mesma, com igual trama e personagens. No reinício novos paradigmas são estabelecidos para um universo ficcional que normalmente já teve sequências, sendo que tudo que foi feito ulteriormente é ignorado na noviça produção. Assim, um outro cânone é instituído, inovando e consagrando novos parâmetros a serem seguidos.

O exemplo mais imediato que podemos utilizar para exemplificar a ideia de reboot é o longa-metragem “Batman Begins” (2005), responsável por devolver ao famoso personagem dos quadrinhos o respeito perdido com os desastrosos filmes dirigidos por Joel Schumacher (principalmente “Batman & Robin”, de 1997, assombrosamente ruim). A solução encontrada pela Warner Bros., estúdio detentor dos direitos de adaptação, foi a de “zerar” a série cinematográfica, ignorando inclusive os filmes dirigidos por Tim Burton, que também nunca foram unanimidade de crítica e público. A intenção era a de contar uma nova origem para o herói e o diretor escalado, Christopher Nolan, obteve grande sucesso na empreitada, a qual inclusive gerou uma sequência, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008), que acabou se tornando um marco nas adaptações de HQ para a tela grande, rendendo, inclusive, um Oscar de ator coadjuvante ao saudoso Heath Ledger. Outro reinício que se mostrou bastante feliz foi o da longa série “007”, que, a partir de “Cassino Royale” (2006), de Martin Campbell, assumiu novos e surpreendentes ares, com o ator Daniel Craig encarnando o agente James Bond com uma força e competência que não se via desde os anos 60 com Sean Connery. Recentemente, tivemos ainda o reboot da saga “Star Trek” (2009), apresentando-a para uma nova geração de possíveis fãs. Vale assinalar, porém, que nem sempre os reboots são necessários. A nova adaptação do Homem-Aranha, dirigida por Marc Webb e contando com Andrew Garfield no papel de Peter Parker (tem estreia prevista para 2012), é um típico caso de desnecessidade, tendo em vista a qualidade da trilogia dirigida por Sam Raimi e protagonizada por Tobey Maguire, ainda viva na memória do público e dona de uma legião de fãs. E que fique claro mais uma vez: reinício não é refilmagem, mas uma nova maneira de abordar um universo ficcional, não estando em absoluto atrelado a uma obra lançada anteriormente.
Embora não se possa negar que essas diversas formas de abordar um universo ficcional tenham sido engendradas, em sua maioria, por motivações eminentemente comerciais, como já frisado em diversas passagens nas linhas precedentes, também não se pode olvidar, por outro lado, que em várias outras ocasiões são obtidos resultados artisticamente relevantes. Mesmo os remakes, que talvez representem melhor esta vertente de mercado, uma vez que é a menos criativa das opções de retomada de um universo ficcional, podem adquirir um valor cinematográfico relevante quando bem realizados. Concluindo, o Cinema Com Pimenta espera ter jogado um pouco de luz, mesmo que de forma tênue, sobre a zona nublada que encobre as variadas espécies de reciclagem criativa que permeiam o cinema contemporâneo. Na verdade, espera mais ainda que as mentes que fazem o cinema, sejam cineastas ou executivos, consigam deixar para trás esse marasmo criativo e consigam fazer de tais reciclagens uma exceção e não a regra, já que está última vem reinando nos últimos anos.
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quarta-feira, 6 de julho de 2011
O cinema e a reciclagem de ideias - Parte I

Na atual crise de criatividade que assola a indústria do cinema, mormente a hollywoodiana, estão cada vez mais comuns as reciclagens de ideias, aproveitadas por meios distintos de abordar um universo ficcional. Neste sentido, surgiram termos como “remake”, “reboot”, “prequel”, entre outros, para designar os longas-metragens que promovem tal reaproveitamento de material criativo. Contudo, percebe-se que muitas vezes ocorre confusão por parte tanto da mídia quanto dos espectadores acerca do conceito de cada uma destas maneiras de reutilização de uma trama ou conjunto de personagens já pré-estabelecidos em produções ulteriores. É comum que seja empregado o termo “reboot” quando, em verdade, se trata de um “prequel”, por exemplo. A mais comum destas fórmulas, vale dizer, é o remake, mas, frise-se, ele é tão somente um dos meios de se explorar um universo ficcional já pré-estabelecido. Outros caminhos de abordagem também são muito usados, principalmente nesses tempos de escassez de ideias. É possível utilizar-se de um mesmo conjunto de personagens para desenvolver uma nova trama em um longa-metragem posterior, ou simplesmente continuar a narrativa desenvolvida no filme original, oferecendo um desenvolvimento maior dos acontecimentos e personagens ou mesmo esclarecendo pontos que permaneceram obscuros anteriormente. Existe ainda a possibilidade de recriar o universo estabelecido em longas anteriores, reiniciando a saga dos personagens, desconsiderando o que foi feito previamente. Ou, ainda, retomar o universo de um primeiro longa-metragem mostrando fatos que, cronologicamente, antecedem aqueles exibidos na película original. Para cada uma destas possibilidades existe uma designação específica e é importante, para aquela que pretende conhecer um pouco mais da sétima arte, conseguir diferenciá-las. Mas vale uma ressalva: se, na maioria dos casos, tais filmes representam uma carência de ideias novas no meio cinematográfico, em outras eles podem significar uma necessidade artística, trazendo-nos obras relevantes e mesmo artisticamente superiores, como tentaremos explanar a seguir. Passemos então a uma análise mais atenta e em tópicos das diversas vertentes de aproveitamento de um mesmo universo ficcional. Pra tornar a leitura menos cansativa, o Cinema Com Pimenta opta por dividi-la em duas partes. Na primeira, falaremos sobre o remake e a sequência. Na seguinte, abordaremos o prequel, o reboot e mais o midquel e o interquel. Vamos a eles.
Remake (ou refilmagem) – A mais comum das formas de reciclagem de ideias no cinema. Seu conceito é de fácil apreensão, já que consiste em tomar o mesmo material de um filme original e vertê-lo novamente para a tela, com a mesma trama e os mesmos personagens (1). Ultimamente, o remake vem sendo rotineiramente utilizado para verter longas estrangeiros para o mercado norte-americano, dada a aversão dos estadunidenses à leitura de legendas, além de tornar o material original mais palatável ao sabor de um público moldado para as facilidades do cinema comercial. Um exemplo bastante conhecido é o de “O Chamado” (The Ring, 2002), de Gore Verbinski, refilmagem do japonês “Ringu” (1998), cujo sucesso acabou gerando uma onda de remakes de filmes nipônicos de horror. Embora normalmente a confecção de uma refilmagem seja resultado de necessidades comerciais, é possível que ela ocorra também por motivações artísticas, como no recente “Bravura Indômita” (True Grit, 2010) realizado pelos irmãos Joel e Ethan Coen, uma nova versão para o filme homônimo protagonizado em 1969 pelo ícone John Wayne (muito embora os Coen recusem o rótulo de “remake”, alegando que realizaram uma nova adaptação do livro de Charles Portis e não uma releitura do filme de Henry Hathaway). A nova roupagem imprimida pelos irmãos diretores acabou, inclusive, agradando ao público mais jovem, resultando em um grande sucesso de bilheteria.
Remake (ou refilmagem) – A mais comum das formas de reciclagem de ideias no cinema. Seu conceito é de fácil apreensão, já que consiste em tomar o mesmo material de um filme original e vertê-lo novamente para a tela, com a mesma trama e os mesmos personagens (1). Ultimamente, o remake vem sendo rotineiramente utilizado para verter longas estrangeiros para o mercado norte-americano, dada a aversão dos estadunidenses à leitura de legendas, além de tornar o material original mais palatável ao sabor de um público moldado para as facilidades do cinema comercial. Um exemplo bastante conhecido é o de “O Chamado” (The Ring, 2002), de Gore Verbinski, refilmagem do japonês “Ringu” (1998), cujo sucesso acabou gerando uma onda de remakes de filmes nipônicos de horror. Embora normalmente a confecção de uma refilmagem seja resultado de necessidades comerciais, é possível que ela ocorra também por motivações artísticas, como no recente “Bravura Indômita” (True Grit, 2010) realizado pelos irmãos Joel e Ethan Coen, uma nova versão para o filme homônimo protagonizado em 1969 pelo ícone John Wayne (muito embora os Coen recusem o rótulo de “remake”, alegando que realizaram uma nova adaptação do livro de Charles Portis e não uma releitura do filme de Henry Hathaway). A nova roupagem imprimida pelos irmãos diretores acabou, inclusive, agradando ao público mais jovem, resultando em um grande sucesso de bilheteria.
John Wayne e Jeff Bridges no papel de Rooster Gogburn nas duas versões de "Bravura Indômita"
É bom destacar que esta “atualização” para uma nova geração de espectadores também caracteriza uma das motivações recorrentes dos remakes. Outro caso bastante conhecido de refilmagem é a de “O Homem Que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1956), de Alfred Hitchcock, que soube aliar interesses comerciais e artísticos na sua direção, já que ele nunca havia ficado plenamente satisfeito com a versão inglesa da obra (de 1934). A nova cria resultou mais exuberante e imageticamente poderosa, com algumas da melhores sequências da carreira do genial diretor, como a conclusão repleta de suspense no Albert Hall londrino. É bom, ademais, relembrar projetos de releituras totalmente dispensáveis, tanto do ponto de vista comercial quanto artístico, como no emblemático exemplo do “Psicose” (Psycho, 1998) do diretor norte-americano Gus Van Sant, uma refilmagem quadro a quadro do clássico absoluto de Hitchcock (lançado em 1960), o qual jamais perdeu sua força, carecendo de qualquer atualização para um público mais jovem. Destaque-se, por último, que o remake é um recurso usado não apenas no mundo do cinema. A televisão também costuma realizar remakes de séries e novelas constantemente. Afinal, todos os veículos procuram um porto seguro quando as ideias escasseiam.
Sequência (ou sequel) – Praticamente tão comum quanto o remake, a sequência consiste em retomar um universo definido em um longa-metragem anterior, continuando e desenvolvendo sua trama normalmente do ponto onde foi interrompida. Portanto, não se trata de mostrar mais uma vez a mesma estória, como acontece na refilmagem, mas de desenvolver uma nova narrativa com o mesmo conjunto de personagens e tendo por base os fatos já ocorridos no filme predecessor. Normalmente produzidas por questões mercadológicas, são muito frequentes as sequências de grandes campeões de bilheteria, os denominados blockbusters, já que estas superproduções costumam arrebanhar uma horda de fãs que acabam por tornar seguro o investimento em uma continuação, com um retorno quase garantido. O exemplar mais emblemático de uma sequência encontra-se em “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back, 1980), segundo episódio a ser lançado da famosa saga “Star Wars”, concebida por George Lucas. A trilogia original de “Guerra nas Estrelas”, inclusive, pode ser apontada como a matriz de toda a invasão de sequels que encontramos hoje nas salas de exibição. Com seu enorme sucesso, tornou-se o exemplo a ser seguido, nem tanto pelos cineastas, mas principalmente pelos executivos, que veem lucros fabulosos surgirem a partir de licenciamentos para uma variação de produtos que vão desde bonecos a toalhas de banho (e não apenas das bilheterias). Ou seja, as sequências tornaram-se a fonte maior de recursos para a manutenção do sistema de produção vigente em Hollywood, alicerçado em altos custos. Muitos filmes, vale ressaltar, já são concebidos para gerar sequels, apresentando conclusões em aberto ou pontos mal explicados que possibilitem o desenvolvimento de um segundo episódio. Em outras oportunidades, já são pensadas como obras divididas em capítulos, como no caso da própria franquia “Star Wars”, escrita por George Lucas em seis partes (e tendo levado às telas primeiramente o capítulo IV) ou a adaptação para o cinema da obra literária “O Senhor dos Anéis” (TheLord Of The Rings), cujas três partes foram filmadas de uma só vez pelo diretor Peter Jackson.
Sequência (ou sequel) – Praticamente tão comum quanto o remake, a sequência consiste em retomar um universo definido em um longa-metragem anterior, continuando e desenvolvendo sua trama normalmente do ponto onde foi interrompida. Portanto, não se trata de mostrar mais uma vez a mesma estória, como acontece na refilmagem, mas de desenvolver uma nova narrativa com o mesmo conjunto de personagens e tendo por base os fatos já ocorridos no filme predecessor. Normalmente produzidas por questões mercadológicas, são muito frequentes as sequências de grandes campeões de bilheteria, os denominados blockbusters, já que estas superproduções costumam arrebanhar uma horda de fãs que acabam por tornar seguro o investimento em uma continuação, com um retorno quase garantido. O exemplar mais emblemático de uma sequência encontra-se em “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back, 1980), segundo episódio a ser lançado da famosa saga “Star Wars”, concebida por George Lucas. A trilogia original de “Guerra nas Estrelas”, inclusive, pode ser apontada como a matriz de toda a invasão de sequels que encontramos hoje nas salas de exibição. Com seu enorme sucesso, tornou-se o exemplo a ser seguido, nem tanto pelos cineastas, mas principalmente pelos executivos, que veem lucros fabulosos surgirem a partir de licenciamentos para uma variação de produtos que vão desde bonecos a toalhas de banho (e não apenas das bilheterias). Ou seja, as sequências tornaram-se a fonte maior de recursos para a manutenção do sistema de produção vigente em Hollywood, alicerçado em altos custos. Muitos filmes, vale ressaltar, já são concebidos para gerar sequels, apresentando conclusões em aberto ou pontos mal explicados que possibilitem o desenvolvimento de um segundo episódio. Em outras oportunidades, já são pensadas como obras divididas em capítulos, como no caso da própria franquia “Star Wars”, escrita por George Lucas em seis partes (e tendo levado às telas primeiramente o capítulo IV) ou a adaptação para o cinema da obra literária “O Senhor dos Anéis” (TheLord Of The Rings), cujas três partes foram filmadas de uma só vez pelo diretor Peter Jackson.
Entretanto, nem só de mercado vivem as sequências. É salutar recordar que um dos pioneiros neste recurso fílmico – antes mesmo da referida série de George Lucas - foi a trilogia “O Poderoso Chefão”, que foi desenvolvida por Francis Ford Coppola muito mais por motivações artísticas que financeiras. Claro que a Paramount viu na oportunidade uma chance de aumentar seus ganhos, tendo em vista o grande sucesso da obra-prima que deu origem à trilogia. Contudo, é importante observar que, para uma parcela da crítica, “O Poderoso Chefão 2” até mesmo supera seu predecessor enquanto obra de arte, demonstrando a substância de um projeto magnífico. Um bom exemplo, ademais, de que nem sempre está com a razão o senso comum, que nos leva a considerar sequências como inferiores ao longa original. Neste sentindo, no Brasil podemos destacar o recente “Tropa de Elite 2” (2010), de José Padilha, uma brilhante continuação para o seu já ótimo primogênito.
Bem, se teve paciência de chegar até aqui, o Cinema Com Pimenta publicará a segunda parte destas observações em breve. Até lá!
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(1) É possível que ocorra a inserção de algum personagem diferente ou exclusão de outro que consta no original, sem que tal expediente descaracterize a natureza de remake.
Bem, se teve paciência de chegar até aqui, o Cinema Com Pimenta publicará a segunda parte destas observações em breve. Até lá!
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(1) É possível que ocorra a inserção de algum personagem diferente ou exclusão de outro que consta no original, sem que tal expediente descaracterize a natureza de remake.
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quarta-feira, 29 de junho de 2011
"Brave": poster e teaser trailer

Enquanto o primeiro grande fiasco da Pixar está em exibição nos cinemas (preciso dizer que se trata de "Carros 2"?), foram divulgados o primeiro poster e o primeiro trailer de sua próxima produção, "Brave". Aparentemente, o filme promete honrar o nome do estúdio de John Lasseter e fazer o público esquecer desse tropeço de 2011. A trama do novo longa se passará nas místicas montanhas da Escócia, onde Merida é a princesa do reino governado pelo Rei Fergus e a Rainha Elinor. Filha rebelde e ótima arqueira, Merida acaba por fazer escolhas erradas que colocam o reino e os seus pais em perigo. Ela vai ter que lutar contra as forças da natureza, magia e uma antiga maldição, tudo para poder salvar o seu reino. O poster você já viu acima e o trailer você pode conferir logo abaixo. Aguardando!
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domingo, 26 de junho de 2011
Restaurando a Película

Meus Vizinhos São Um Terror
(The 'Burbs)
Do tempo em que Tom Hanks fazia rir
Quem é cinéfilo deve se lembrar do início da carreira de Tom Hanks. Antes de ser uma astro do primeiro escalão de Hollywood, ele atuava em comédias de orçamento mediano. Ficou famosa sua parceria com Meg Ryan em “Sintonia de Amor” (Sleepless In Seatle), uma das melhores comédias românticas a que já tive oportunidade de assistir. Sua identificação com a comédia era tão forte que, quando ele foi indicado para o Oscar de melhor ator por um drama pesado, “Fildélfia”, encarei a notícia com profunda estranheza na época. “Aquele ator de 'Meus Vizinhos São Um Terror' vai levar um Oscar?! Nossa!”... Você não conhece “Meus Vizinhos São Um Terror”? Trata-se de uma comédia-suspense protagonizada por Hanks em 1989. Passou repetidas vezes na “Sessão da Tarde” e eu o considerava um barato. Ri muitas vezes com aquela trama curiosa dos vizinhos que, desde a mudança de novos moradores para uma casa mal cuidada do bairro, passam a bisbilhotar a vida destes. E, vendo hoje, com um olhar mais adulto e crítico, percebi que o filme resistiu muito bem ao tempo e pude verificar, ademais, as fortes referências ao mestre Alfred Hitchcock que possui tanto no roteiro quanto nos aspectos técnicos.
A começar pelo protagonista. Interpretado por Tom Hanks, Ray Peterson está de férias, sem dinheiro para viajar e cansado de ir à sua casa de campo em uma localidade próxima. Logo, passa os dias bisbilhotando a vida dos vizinhos (é bom lembrar que na época não havia internet) e, especialmente, começa a perceber que os novos moradores da casa ao lado, os Koplek, são estranhos além da conta. Passam os dias trancados em casa e cavam buracos no quintal durante a noite. Ajudado por seus vizinhos, e depois do sumiço de um deles, Ray resolve investigar o comportamento dos estranhos e descobrir se eles estão envolvidos com o desaparecimento. Como se percebe; a relaação com o personagem L. B. Jeffries de James Stewart em “Janela Indiscreta” é, desta forma, óbvia. Mas a recauchutagem promovida pelo diretor Joe Dante (seu trabalho mais famoso é “Gremlins”) é que torna a experiência divertida. Ele eleva o suspense, tanto por meio de recursos como closes e slowmotion ou levando a trilha sonora ao último volume, ao nível da caricatura, arrancando inevitavelmente o riso do espectador. Dante soube, ademais, utilizar muito bem o potencial imagético da trama. Claro que não chega à maestria de Hitchcock, mas o diretor mostra competência na utilização da câmera. Ademais, os tais Koplek também são caricaturados, o que acentua ainda mais o tom cômico daquilo que primordialmente deveria ser um suspense. Muito embora o roteiro (escrito por Dana Olsen, que participa em cena como um policial) tenha lá suas falhas, ele se desenvolve a contento e mantendo sempre o interesse do público no seu desenrolar.

Por outro lado, os personagens também são bem caracterizados e não deixa de ser um barato observar seus intérpretes com o olhar de hoje. Estão lá, além de Hanks, Carrie Fisher, a eterna pincesa Leia da saga Star Wars (não deu para fugir do chavão), como a esposa de Ray, além de Corey Feldman, ator adolescente quase que onipresente nas produções voltadas para o público mais jovem nos anos 80. Fazendo um garoto que passa os dias observando o movimento do bairro, chamando seus amigos para acompanhar aquilo que afirma ser “melhor do que cinema”, ele é sempre uma presença carismática, assim como Bruce Dern fazendo o caricato militar Rumsfield.
O longa, vale dizer, também pode ser visto como uma obervação e comentário sobre a vida nos subúrbios estadunidenses, então ocupados por uma classe média conservadora que via na estranheza um motivo de preocupação (não é à toa que seu título original poderia ser traduzido como “Os Suburbanos). Neste ponto, todavia, talvez o filme tivesse mais sucesso em sua crítica caso o desfecho tomasse um outro rumo do que foi realizado. De qualquer forma, se você pretende apenas ver uma comédia sem maiores consequências, esta é uma boa pedida. O citado “Gremlins”, ademais, é mais feliz e marcante em seu humor negro para o grande público. Mas, mesmo não sendo nada que vai mudar sua vida, “Meus Vizinhos São Um Terror” é um filme que lhe traz um ótimo entretenimento ao longo de 101 minutos de projeção, merecendo ser resgatado do esquecimento e figurar entre as boas lembranças do cinema oitentista. Ah, e também é bom ver Tom Hanks em um tempo em que ele tinha vontade de atuar...
Cotação:

Nota: 7,5
(The 'Burbs)
Do tempo em que Tom Hanks fazia rir
Quem é cinéfilo deve se lembrar do início da carreira de Tom Hanks. Antes de ser uma astro do primeiro escalão de Hollywood, ele atuava em comédias de orçamento mediano. Ficou famosa sua parceria com Meg Ryan em “Sintonia de Amor” (Sleepless In Seatle), uma das melhores comédias românticas a que já tive oportunidade de assistir. Sua identificação com a comédia era tão forte que, quando ele foi indicado para o Oscar de melhor ator por um drama pesado, “Fildélfia”, encarei a notícia com profunda estranheza na época. “Aquele ator de 'Meus Vizinhos São Um Terror' vai levar um Oscar?! Nossa!”... Você não conhece “Meus Vizinhos São Um Terror”? Trata-se de uma comédia-suspense protagonizada por Hanks em 1989. Passou repetidas vezes na “Sessão da Tarde” e eu o considerava um barato. Ri muitas vezes com aquela trama curiosa dos vizinhos que, desde a mudança de novos moradores para uma casa mal cuidada do bairro, passam a bisbilhotar a vida destes. E, vendo hoje, com um olhar mais adulto e crítico, percebi que o filme resistiu muito bem ao tempo e pude verificar, ademais, as fortes referências ao mestre Alfred Hitchcock que possui tanto no roteiro quanto nos aspectos técnicos.
A começar pelo protagonista. Interpretado por Tom Hanks, Ray Peterson está de férias, sem dinheiro para viajar e cansado de ir à sua casa de campo em uma localidade próxima. Logo, passa os dias bisbilhotando a vida dos vizinhos (é bom lembrar que na época não havia internet) e, especialmente, começa a perceber que os novos moradores da casa ao lado, os Koplek, são estranhos além da conta. Passam os dias trancados em casa e cavam buracos no quintal durante a noite. Ajudado por seus vizinhos, e depois do sumiço de um deles, Ray resolve investigar o comportamento dos estranhos e descobrir se eles estão envolvidos com o desaparecimento. Como se percebe; a relaação com o personagem L. B. Jeffries de James Stewart em “Janela Indiscreta” é, desta forma, óbvia. Mas a recauchutagem promovida pelo diretor Joe Dante (seu trabalho mais famoso é “Gremlins”) é que torna a experiência divertida. Ele eleva o suspense, tanto por meio de recursos como closes e slowmotion ou levando a trilha sonora ao último volume, ao nível da caricatura, arrancando inevitavelmente o riso do espectador. Dante soube, ademais, utilizar muito bem o potencial imagético da trama. Claro que não chega à maestria de Hitchcock, mas o diretor mostra competência na utilização da câmera. Ademais, os tais Koplek também são caricaturados, o que acentua ainda mais o tom cômico daquilo que primordialmente deveria ser um suspense. Muito embora o roteiro (escrito por Dana Olsen, que participa em cena como um policial) tenha lá suas falhas, ele se desenvolve a contento e mantendo sempre o interesse do público no seu desenrolar.

Por outro lado, os personagens também são bem caracterizados e não deixa de ser um barato observar seus intérpretes com o olhar de hoje. Estão lá, além de Hanks, Carrie Fisher, a eterna pincesa Leia da saga Star Wars (não deu para fugir do chavão), como a esposa de Ray, além de Corey Feldman, ator adolescente quase que onipresente nas produções voltadas para o público mais jovem nos anos 80. Fazendo um garoto que passa os dias observando o movimento do bairro, chamando seus amigos para acompanhar aquilo que afirma ser “melhor do que cinema”, ele é sempre uma presença carismática, assim como Bruce Dern fazendo o caricato militar Rumsfield.
O longa, vale dizer, também pode ser visto como uma obervação e comentário sobre a vida nos subúrbios estadunidenses, então ocupados por uma classe média conservadora que via na estranheza um motivo de preocupação (não é à toa que seu título original poderia ser traduzido como “Os Suburbanos). Neste ponto, todavia, talvez o filme tivesse mais sucesso em sua crítica caso o desfecho tomasse um outro rumo do que foi realizado. De qualquer forma, se você pretende apenas ver uma comédia sem maiores consequências, esta é uma boa pedida. O citado “Gremlins”, ademais, é mais feliz e marcante em seu humor negro para o grande público. Mas, mesmo não sendo nada que vai mudar sua vida, “Meus Vizinhos São Um Terror” é um filme que lhe traz um ótimo entretenimento ao longo de 101 minutos de projeção, merecendo ser resgatado do esquecimento e figurar entre as boas lembranças do cinema oitentista. Ah, e também é bom ver Tom Hanks em um tempo em que ele tinha vontade de atuar...
Cotação:

Nota: 7,5
sábado, 25 de junho de 2011
Quero Ver Novamente #12
Se pedirem para eu escolher a melhor sequência de créditos que já vi em um filme, certamente optarei pela de "Prenda-me Se For Capaz". Um verdadeiro curta de animação inserido no filme e que, observando atentamente, consegue sintentizar toda a sua trama. E isso com a trilha sonora genial de John Williams, na minha opinião uma de suas melhores composições. Por sinal, o longa é uma joia de Steven Spielberg não muito conhecida do grande público. Está entre os meus preferidos do diretor. Veja abaixo essa forma inteligentíssima de apresentar os créditos ao espectador!
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quinta-feira, 23 de junho de 2011
Meia-Noite em Paris

A Rosa Púrpura do Cairo + Manhattan = Um belo filme
Se você já assistiu a “A Rosa Púrpura do Cairo”, longa-metragem de Woody Allen realizado em 1985, provavelmente também irá apreciar este seu novo trabalho, “Meia-Noite Em Paris”, cuja premiére mundial aconteceu no último Festival de Cannes. Tanto um como outro utilizam-se de componentes imaginários, surreais, para compor sua narrativa. Em ambos, o velho Allen enfrenta a necessidade que frequentemente sentimos de fugir da realidade em que vivemos, comumente dura demais e insatisfatória. Se no filme protagonizado por Mia Farrow sua personagem mergulha na fantasia do cinema para esquecer a realidade, neste “Meia-Noite Em Paris”, o Gil de Owen Wilson deseja viver em um tempo que não é o seu. E consegue.
Gil Pender é um romancista frustrado. Seu grande sonho é a literatura, da qual ele abriu mão para escrever roteiros para o cinema, já que é mais fácil ganhar dinheiro trabalhando para Hollywood do que vendendo livros. Ele está de férias em Paris acompanhado de sua noiva Inez (Rachell McAdams) e da família desta, vivenciando dias na cidade que sempre habitou o seu imaginário e para a qual planeja se mudar para que tenha uma maior inspiração para o seu livro em andamento. Gil considera os anos 20 da capital francesa como a melhor época e lugar para se viver que já existiram, o tempo em que seus ídolos literários e artísticos estavam em plena atividade. Em uma noite, Gil resolve voltar a pé para o hotel, e sozinho, já que sua noiva não compartilha de sua ideias românticas de caminhadas ao ar livre pela Cidade Luz. No caminho, surge um antigo táxi cujos passageiros o convidam para um passeio e, de repente, Gil se vê na era dos seus sonhos. Lá ele encontra nomes como Ernest Hemingway (Corey Stoll), F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), o cineasta Luis Buñuel, Pablo Picasso e Salvador Dalí (Adrien Brody), entre outros, além de um novo interesse romântico na figura de Adriana, personagem da sempre encantadora Marion Cotillard.
Logicamente, como em todo filme de Allen, há muito dele mesmo nos sentimentos e pensamentos representados na tela. Como se sabe, Allen é um leitor voraz e, provavelmente, sempre nutriu o desejo de seguir uma carreira literária mais prolífica e profunda. Fica nítido que ele acabou se rendendo aos roteiros cinematográficos por terem um resultado financeiro maior e mais imediato. Ademais, o diretor não é apenas um comediante, mas também um grande investigador de nossas fraquezas e limitações humanas. Aqui ele analisa nossa eterna insatisfação com a realidade que vivemos, normalmente cruel demais, o que nos faz romantizar e deseja viver em outras eras (eu mesmo tenho uma certa fascinação pelos anos 60). No fundo, uma forma de escapismo disfarçada, um engano que muitas vezes não conseguimos enxergar. Assim também como é a relação de Gil com sua noiva Inez. Talvez levado pela sua beleza e sensualidade, Gil não consegue perceber que ela, uma mulher superficial, não é a pessoa adequada para dividir sua vida. E quantas vezes nós mesmos já não estivemos mergulhados nesses enganos? De uma forma ou de outra, parece que estamos sempre querendo esquecer ou não enxergar a realidade em que estamos, iludidos por uma falsa sensação de felicidade.

Temas tão complexos, porém, são abordados com a leveza habitual dos longas com a assinatura de Woody Allen. Várias são as passagens divertidas, com aquele humor inteligente típico do autor, todas com supedâneo em um ótimo elenco. Apesar de emular a persona cênica de Allen, nunca havia assistido a uma atuação tão boa de Owen Wilson. Acredito até que Allen deveria repetir a experiência e convidá-lo a representar seu alter-ego em outras oportunidades. Rachell McAdams, todavia, apesar de bela e especialmente sensual, tem um personagem ingrato que acaba por nos gerar uma certa antipatia, o que, em verdade, talvez seja um sintoma de sua boa atuação. Já Marion Cottilard está ótima como de costume, ficando fácil entender o imediato interesse de Gil por ela. Além desses, destacam-se o mencionado Brody, impagável como Salvador Dalí, Corey Stoll como Hemingway e Khaty Bates como a escritora Gertrude Stein, a qual acaba avaliando o inacabado romance de Gil (há ainda uma participação da primeira-dama da França, Carla Bruni). O aspecto leve do roteiro ainda é complementado pelas tiradas que mostram o protagonista influenciando na criação de futuras obras dos artistas inseridos na trama. Contudo, tais recursos não deixam de trazer um certo hermetismo ao loga, já que o espectador precisará de uma base cultural bastante razoável para compreender plenamente as nuances do roteiro.
Por outro lado, se “Midnight In Paris” traz várias lembranças de “A Rosa Púrpura do Cairo”, também não se pode negar que “Manhattan”, outro clássico absoluto do velho Woody, também parece deixar suas marcas aqui. Sua introdução, mostrando o dia-a-dia de Paris e dos parisienses lembra muito o princípio do já clássico filme de 1979. Mas não só isso. Ambos os longas promovem uma ótima viagem introspectiva, em busca das repostas para o eterno vazio presente nos seres humanos. Na maioria dos filmes de Woody, ele nos oferece uma conclusão otimista. Neste, assim como em “Manhattan” essa linha é seguida e no desfecho saímos com a alma suave da sala de projeção. As obras deste gênio nos mostram que a vida pode ser bem menos complicada do que parece, basta usar a inteligência e ouvir o coração.
Cotação:

Nota: 9,0
Se você já assistiu a “A Rosa Púrpura do Cairo”, longa-metragem de Woody Allen realizado em 1985, provavelmente também irá apreciar este seu novo trabalho, “Meia-Noite Em Paris”, cuja premiére mundial aconteceu no último Festival de Cannes. Tanto um como outro utilizam-se de componentes imaginários, surreais, para compor sua narrativa. Em ambos, o velho Allen enfrenta a necessidade que frequentemente sentimos de fugir da realidade em que vivemos, comumente dura demais e insatisfatória. Se no filme protagonizado por Mia Farrow sua personagem mergulha na fantasia do cinema para esquecer a realidade, neste “Meia-Noite Em Paris”, o Gil de Owen Wilson deseja viver em um tempo que não é o seu. E consegue.
Gil Pender é um romancista frustrado. Seu grande sonho é a literatura, da qual ele abriu mão para escrever roteiros para o cinema, já que é mais fácil ganhar dinheiro trabalhando para Hollywood do que vendendo livros. Ele está de férias em Paris acompanhado de sua noiva Inez (Rachell McAdams) e da família desta, vivenciando dias na cidade que sempre habitou o seu imaginário e para a qual planeja se mudar para que tenha uma maior inspiração para o seu livro em andamento. Gil considera os anos 20 da capital francesa como a melhor época e lugar para se viver que já existiram, o tempo em que seus ídolos literários e artísticos estavam em plena atividade. Em uma noite, Gil resolve voltar a pé para o hotel, e sozinho, já que sua noiva não compartilha de sua ideias românticas de caminhadas ao ar livre pela Cidade Luz. No caminho, surge um antigo táxi cujos passageiros o convidam para um passeio e, de repente, Gil se vê na era dos seus sonhos. Lá ele encontra nomes como Ernest Hemingway (Corey Stoll), F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), o cineasta Luis Buñuel, Pablo Picasso e Salvador Dalí (Adrien Brody), entre outros, além de um novo interesse romântico na figura de Adriana, personagem da sempre encantadora Marion Cotillard.
Logicamente, como em todo filme de Allen, há muito dele mesmo nos sentimentos e pensamentos representados na tela. Como se sabe, Allen é um leitor voraz e, provavelmente, sempre nutriu o desejo de seguir uma carreira literária mais prolífica e profunda. Fica nítido que ele acabou se rendendo aos roteiros cinematográficos por terem um resultado financeiro maior e mais imediato. Ademais, o diretor não é apenas um comediante, mas também um grande investigador de nossas fraquezas e limitações humanas. Aqui ele analisa nossa eterna insatisfação com a realidade que vivemos, normalmente cruel demais, o que nos faz romantizar e deseja viver em outras eras (eu mesmo tenho uma certa fascinação pelos anos 60). No fundo, uma forma de escapismo disfarçada, um engano que muitas vezes não conseguimos enxergar. Assim também como é a relação de Gil com sua noiva Inez. Talvez levado pela sua beleza e sensualidade, Gil não consegue perceber que ela, uma mulher superficial, não é a pessoa adequada para dividir sua vida. E quantas vezes nós mesmos já não estivemos mergulhados nesses enganos? De uma forma ou de outra, parece que estamos sempre querendo esquecer ou não enxergar a realidade em que estamos, iludidos por uma falsa sensação de felicidade.

Temas tão complexos, porém, são abordados com a leveza habitual dos longas com a assinatura de Woody Allen. Várias são as passagens divertidas, com aquele humor inteligente típico do autor, todas com supedâneo em um ótimo elenco. Apesar de emular a persona cênica de Allen, nunca havia assistido a uma atuação tão boa de Owen Wilson. Acredito até que Allen deveria repetir a experiência e convidá-lo a representar seu alter-ego em outras oportunidades. Rachell McAdams, todavia, apesar de bela e especialmente sensual, tem um personagem ingrato que acaba por nos gerar uma certa antipatia, o que, em verdade, talvez seja um sintoma de sua boa atuação. Já Marion Cottilard está ótima como de costume, ficando fácil entender o imediato interesse de Gil por ela. Além desses, destacam-se o mencionado Brody, impagável como Salvador Dalí, Corey Stoll como Hemingway e Khaty Bates como a escritora Gertrude Stein, a qual acaba avaliando o inacabado romance de Gil (há ainda uma participação da primeira-dama da França, Carla Bruni). O aspecto leve do roteiro ainda é complementado pelas tiradas que mostram o protagonista influenciando na criação de futuras obras dos artistas inseridos na trama. Contudo, tais recursos não deixam de trazer um certo hermetismo ao loga, já que o espectador precisará de uma base cultural bastante razoável para compreender plenamente as nuances do roteiro.
Por outro lado, se “Midnight In Paris” traz várias lembranças de “A Rosa Púrpura do Cairo”, também não se pode negar que “Manhattan”, outro clássico absoluto do velho Woody, também parece deixar suas marcas aqui. Sua introdução, mostrando o dia-a-dia de Paris e dos parisienses lembra muito o princípio do já clássico filme de 1979. Mas não só isso. Ambos os longas promovem uma ótima viagem introspectiva, em busca das repostas para o eterno vazio presente nos seres humanos. Na maioria dos filmes de Woody, ele nos oferece uma conclusão otimista. Neste, assim como em “Manhattan” essa linha é seguida e no desfecho saímos com a alma suave da sala de projeção. As obras deste gênio nos mostram que a vida pode ser bem menos complicada do que parece, basta usar a inteligência e ouvir o coração.
Cotação:

Nota: 9,0
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Meia-Noite em Paris será exibido em Natal! (???)

Eu levei um susto quando, agora há pouco, vi que a programação do Cinemark do Shopping Midway Mall para a próxima semana inclui "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen. Um filme de Allen ter sua exibição em Natal na mesma data da estreia em circuito nacional é um fato extremamente raro (se não for inédito)! Parabéns aos exibidores por acreditarem que nem só de blockbusters vive o cinema. Agora é conferir e prestigiar!
Ah, e esse poster, que combina uma imagem do filme com a tela "A Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh, merecia estar na série "Eu quero esse poster". Genial!
Ah, e esse poster, que combina uma imagem do filme com a tela "A Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh, merecia estar na série "Eu quero esse poster". Genial!
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