quinta-feira, 21 de julho de 2011

Trilha Sonora #18


Eu assisti a "O Sol da Meia-Noite" (White Nights, 1985) há muitos anos e não lembro muito dele. Recordo da presença do famoso bailarino Mikhail Baryshnikov, o qual interpreta um personagem com tons semelhantes aos da sua própria biografia, já que ambos fogem da antiga União Soviética e se naturalizam norte-americanos. Mas, principalmente, nem eu e nem niguém esquece da canção vencedora do Oscar "Say You, Say Me", de Lionel Ritchie (por onde ele anda?). Quem viveu os anos 80 deve sentir saudade dessa!


domingo, 17 de julho de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva




Interlúdio
(Notorious - 1946)


Suspense e romance em harmonia


Entre as mais conhecidas obras de Alfred Hitchcock, esta é uma das últimas a que me faltavam assistir. Não gosto de me valer dos subterfúgio de baixar filmes pela internet, mas a verdade é que cansei de esperar uma edição oficial e decente em DVD no Brasil, estando disponível no mercado nacional apenas as cópias da perigosa (co)Continental, caras e pouco confiáveis (já pensou pagar cerca de 40 reais por um disco e ele travar na metade?). Bem, a verdade é que realizei o download e a acabei assistindo a esta peculiar película do mestre do suspense na chuvosa tarde do último sábado. O termo peculiar cabe de forma ainda mais especial para nós, brasileiros. Isso porque a maior parte de sua trama se passa no Rio de Janeiro e vemos lá algumas cenas interessantes do Rio antigo. Vale frisar que, contudo, o par central da narrativa, formado pelos antológicos astros Cary Grant e Ingrid Bergman, jamais esteve em solo carioca, uma vez que foram usados dublês e imagens projetadas durante as filmagens. De qualquer forma, o detalhe passa quase despercebido diante da bela fotografia em preto e branco e, também, do ótimo resultado alcançado pelo diretor com esse longa.

Esse resultado feliz provavelmente foi obtido devido à quase ausência de interferência do produtor David O. Selznick, um dos poderosos chefões da velha Hollywood – ou talvez o maior deles (ele produziu “...E o Vento Levou”, lembra-se?). Este era o terceiro trabalho que Hitchcock fazia pra ele, depois de “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (que lhe rendeu o único Oscar de melhor filme em toda sua carreira) e “Spellbound – Quando Fala o Coração”, este uma experiência com contribuições surrealistas do gênio artístico Salvador Dalí (e também a primeira oportunidade em que trabalhou com Ingrid Bergman). A ingerência de Selznick em “Spellbound” foi tão grande que várias das criações do pintor espanhol foram rejeitadas para conter custos, o que levou Dalí a acreditar que a razão do convite era apenas a sua assinatura nos créditos. A verdade é que em “Interlúdio” Selznick praticamente permitiu que Hitchock produzisse a si mesmo – e muitos afirmam que, se fosse diferente, o projeto teria terminado em um desastre.

O sucesso da empreitada se deu, inclusive, a despeito da premissa inverossímil do roteiro (escrito por Ben Hecht) . Afinal, mesmo levando em consideração a costumeira desinformação do público norte-americano, é difícil imaginar que este não conhecesse seus aliados e inimigos durante a Segunda Guerra Mundial (valendo à pena dizer que a produção é de 1946, logo após o término do conflito, portanto). E a trama parte justamente da ideia de que cientistas alemães viveriam em tranquilidade (?!) no Brasil durante o fim deste evento histórico. Cary Grant interpreta o agente Devlin, um encarregado de monitorar as atividades destes cientistas por estas bandas. No entanto, como forma de facilitar e aprofundar o trabalho, ele procura a bela Alicia Huberman (Ingrid), filha de um norte-americano condenado por traição exatamente devido à sua ligação com o grupo de nazistas que está sendo espionado. No entanto, Devlin, ao mesmo tempo em que usa Alicia para atingir os objetivos do Estado, acaba realmente se apaixonando por ela. As coisas complicam ainda mais quando seus superiores sugerem que Alicia case com o alemão Alexander Sebastian (Claude Rains, o policial Renault de “Casablanca”) e ela passa a viver sobre o fio da navalha na bela mansão deste, principalmente devido à desconfiança e comportamento maquiavélico da sogra. (Leopoldine Konstantin).


Como nenhum outro cineasta, Hitchcock realiza uma perfeita mistura de gêneros, equilibrando romance e suspense em uma trama de espionagem. O filme pode ser visto tanto como um suspense com pitadas românticas ou como um romance com um pano de fundo de espionagem. O olhar de cada espectador é que determinará o teor do longa. Este equilíbrio, ademais, até mesmo por ser observado através das suas duas mais lembradas sequências. Da mesma forma em que há a presença de uma longa cena de beijo entre Devlin e Alicia (que foi considerada a mais longa do cinema até então, tendo inclusive problemas com a censura), também encontramos uma sequência sensacional de suspense que só poderia mesmo ter sido concebida por Hitchcock. Afinal, só ele mesmo para conseguir tensão através de coisas banais como a busca de garrafas de vinho e champanhe em uma adega. Acredito que esta simbiose de gêneros só voltaria a ser tão bem executada pelo mestre nas obras-primas “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) e “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958). Por outro lado, o diretor nos faz nutrir sentimentos oscilantes pelos personagens, já que Sebastian nos é mostrado não como um típico “vilão”, mas como, antes de tudo, um homem apaixonado por Alicia. A sequência final na escadaria, frise-se, se coloca como a perfeita síntese dessa ambiguidade.

Contando com atuações inspiradas – principalmente de Bergman (linda como de costume) e do sempre excelente Rains (que acabou sendo indicado ao prêmio de coadjuvante da Academia de Hollywood) – alguns podem se queixar que “Notorious” possui uma conclusão exageradamente aberta, o que acaba por frustrar uma parcela do público mais acostumada com desfechos mastigados. Entretanto, creio que este final que estimula a mente do espectador talvez seja até um mérito da película, deixando entrever o que acontecerá com cada um dos personagens. Ressalte-se, ainda, que este é um recurso característico das obras do velho Hitch - o final de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) é exemplo clássico desse aspecto. Mesmo que não seja um filme perfeito como o citado “Janela Indiscreta”, não se pode negar que “Interlúdio”, a despeito dos mencionados aspectos pouco verossímeis, se constitui em um ótimo exemplar da filmografia do mestre e, repito, é bom ver cenas de um Rio de Janeiro ainda distante do clima um tanto caótico de hoje. Valeu à pena fazer o download!

Curiosidade: Hitchock não sabia que o urânio, elemento químico presente no desenrolar da narrativa, era utilizado para a confecção da bomba atômica. A presença de tal elemento na trama fez com que o diretor fosse investigado durante anos pelo FBI...


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dica de Livro


Em 1995, o British Film Institute convidou ninguém menos que Martin Scorsese para realizar um documentário para a TV em comemoração aos 100 anos da Sétima Arte. Pois bem, o livro que aqui indico é justamente o roteiro dessa produção. Como sugere o título, "Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano" faz um passeio ao longo de várias décadas do cinema estadunidense, onde Scorsese, com maestria, nos mostra a influência e importância fundamental dos diretores que lhe precederam. Gostoso de ler, vamos descobrindo sem qualquer enfado como funcionava o studio system - a velha forma de produção que reinou durante muitos anos em Hollywood - além de conhecer os pioneiros na contestação desse status quo e, claro (e esta é a parte mais saborosa), descobrir vários e vários filmes dos quais muitas vezes sequer ouvimos falar, mas que Scorsese resgata do esquecimento para lustrar e fazer reluzir o seu devido brilho. Há ainda vários comentários de outros diretores e atores famosos, trechos de diálogos interessantes de diversas produções e também belas fotos que ilustram as páginas. Não é à toa que Scorsese é conhecido, mesmo no seu meio, como um verdadeiro professor da arte em que também brilha. Obrigatório para qualquer cinéfilo!

Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano - Martin Scorsese e Michael Henry Wilson - Cosac & Naify - 223 páginas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cinema Com Pimenta - 3 anos!


É isso aí. Há exatos três anos, no dia 11 de julho de 2008, com a postagem da resenha sobre “Wall-E”, surgia o “Cinema Com Pimenta” como uma forma de publicar os textos que eu escrevia sobre os filmes, que via em enviava por e-mail para alguns amigos. Alguns destes davam a sugestão de criar um blog enquanto outros perguntavam porque eu não publicava em jornais. A ideia de publicar em periódicos nunca me agradou, já que iriam podar meus textos para caber no formato e limitações editoriais. Ademais, escrevo minhas linhas por paixão e não por vontades ou necessidades financeiras. A alternativa do blog se tornou, desta forma, a melhor, já que eu poderia escrever livremente e de acordo com o meu tempo disponível.

Mas é claro que os desafios se apresentaram de maneiras diversas. Como esta não é a minha atividade profissional, é frequente ter que driblar a falta de tempo para manter este espaço atualizado. E também, por vezes, é preciso superar a ausência de inspiração. Há filmes que terminamos de ver e já sabemos tudo que iremos escrever, enquanto em outros casos as palavras parecem sair a fórceps. Todavia, apesar dos obstáculos, a cada comentário postado pelos leitores me sinto recompensado por todo o esforço. Muito melhor do que qualquer possível retribuição financeira, que eu poderia receber em outros meios, é a força dada por aqueles que também vivem o cinema. Dia desses, li que Rubens Ewald Filho valoriza muito o trabalho dos blogueiros. “Eles escrevem com paixão”, disse o crítico. Acredito que cada cinéfilo blogueiro sabe o quanto de verdade existe nessa frase.

Bem, como forma de lembrar o aniversário, coloco abaixo uma sequência famosa e marcante de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Durante muito tempo considerei este o melhor filme de todos os tempos. Talvez hoje ele não ocupe o posto no meu ranking (nem sei exatamente que filme eu definiria, neste momento, como o melhor já realizado), mas, com certeza, ele tem e sempre terá lugar cativo no meu top 10. Cheio de pretensões, mas brilhante em igual medida, “2001” é uma experiência que sempre perderá se transformada em palavras. E isso me faz dispensá-las agora. Se você ainda não teve a felicidade de apreciar esta verdadeira pérola de genialidade gerada por Stanley Kubrick, um dos raros filmes que nos atingem da mesma forma que uma música ou uma pintura, aí segue um aperitivo. Mas o melhor mesmo é assistir à obra por completo.

Por fim, fica aqui o meu muito obrigado para todos aqueles que acompanham o Cinema Com Pimenta. Um grande abraço e que Deus abençoe a todos!



sábado, 9 de julho de 2011

O cinema e a reciclagem de ideias - Parte II

Continuando as linhas sobres o reaproveitamento de ideias na atual crise de criatividade presente nas realizaçãoes cinematográficas (principalmente as made in Hollywood), vamos agora falar sobre outras espécies destas reciclagens. Se na primeira parte tecemos comentários sobre as duas fórmulas mais comumente usadas, quais sejam, o remake e a sequência, agora partiremos para uma apreciação de outras nem tão “badaladas”. São elas o prequel, o midquel, o interquel e o reboot. Nada muito catedrático, como podem perceber, mas acreditamos contribuir para o esclarecimento dos conceitos. Vamos a eles.


Prequel – Em terras brasileiras, não foi ainda utilizado um termo em português para traduzir esse neologismo surgido nos anos 1970. Em Portugal, utiliza-se a palavra “prequela”, o que constitui uma boa tradução, já que o termo em inglês se origina da junção de pre (antes, anterior) e sequel (sequência, sequela). Prequel é uma obra cuja trama ocorre em momento anterior à outra já lançada previamente, comumente esclarecendo a origem de personagens ou fatos que não foram totalmente desvendados durante a narrativa original. Embora o termo só tenha surgido nos anos 70, como mencionado, a origem deste tipo de obra é bem mais remota. O livro bíblico de “Rute”, que narra histórias de antepassados do rei Davi, por exemplo, é uma prequela de outros livros que tratam deste soberano hebreu. Em outra exemplificação, o genial músico Richard Wagner utilizou-se deste recurso na sua tetralogia “O Anel dos Nibelungos”, já que a ópera “Das Rheingold” é uma prequel da anterior “Siegfried”. Em termos cinematográficos, é essencial frisar que os fatos constantes da nova narrativa devem ser cronologicamente anteriores aos presentes no primeiro longa-metragem, pois que, se posteriores, não será uma prequela, mas uma sequência.

Apesar de não tão comuns quanto as sequências, podemos citar exemplos bem famosos e interessantes de prequels. Mais uma vez vamos recordar aqui o caso da saga “Star Wars”. Uma das precursoras nas sequências, ela também é referência entre as prequelas. Como é bastante conhecido, toda a série “Guerra nas Estrelas” foi concebida originariamente por George Lucas em seis episódios, mas ele resolveu filmar primeiramente o episódio IV, denominado “Uma Nova Esperança”. Décadas depois do término da trilogia que compreende este episódio e mais o V e o VI (o acima mencionado “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”, respectivamente), Lucas retomou seu universo para levar às telas os três primeiros episódios que contam como Anakin Skywalker se tornou o temido Darth Vader. Ou seja, toda a segunda trilogia de “Star Wars” é uma extensa prequel do episódio IV, uma vez que suas narrativas tratam de fatos cronologicamente anteriores ao longa de 1977.

A segunda trilogia de Star Wars: um extenso prequel do pioneiro episódio IV

Ainda podemos elencar outras prequelas bastante conhecidas do grande público. “O Exorcista – O Início” (Exorcist: The Beginning, 2004) é prequel do clássico “O Exorcista” (The Exorcist) dirigido por William Friedkin em 1973 (e, por extensão, de toda a franquia, que inclui ainda os episódios II e III), mostrando a viagem que o Padre Merrin realiza para a África Oriental, deparando-se pela primeira vez com o demônio Pazuzu. Já “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, 2009) antecede cronologicamente a trilogia dos X-Men iniciada em 2001 e revela o surgimento do popular herói Wolverine com a implantação do metal adamantium em seu esqueleto. Por sinal, ainda está em exibição nas salas de cinema, o segundo prequel da série do mutantes, o ótimo “X-Men Primeira Classe” (X-Men: First Class - 2011). Por outro lado, uma prequela já se tornou lendária entre os cinéfilos. Trata-se de “O Hobbit”, adaptação do livro de J.R.R. Tolkien que antecipa os acontecimentos de “O Senhor dos Anéis”. Há anos os fãs aguardam ansiosamente pelo filme, o qual, depois de anos de entraves jurídicos relativos aos direitos de adaptação da obra, finalmente entrou em fase de produção, tendo inclusive algumas imagens já liberadas na internet.

Interquel e Midquel – São duas formas de abordagem pouco utilizadas e, por isso mesmo, menos importantes, sendo mais comum na televisão e principalmente na expansão de uma obra para outras mídias. No interquel, temos uma narrativa que se passa entre duas outras já realizadas anteriormente, desenrolando fatos que o público não tinha tomado conhecimento. Um bom exemplo deste recurso é a animação “Star Wars: The Clone Wars” (2008), longa que serviu de introdução para a série de animação televisiva com o mesmo nome. Já no midquel o roteiro é desenvolvido a partir de uma elipse ocorrida no contexto de uma obra prévia. O conceito ficará mais claro recordando “Bambi II”, animação dos estúdios Disney elaborada para o mercado de home vídeo. Nele, a narrativa se desenvolve durante o período de tempo que se passa entre a morte da mãe de Bambi e sua idade adulta, o qual não é mostrado no famoso longa de animação que leva o nome do seu personagem central. Resta claro, portanto, que interquel e midquel são formas bastante mercadológicas de se explorar personagens com grande potencial e retorno financeiro. Não é à toa que fizemos mais uma menção à série “Guerra nas Estrelas”, já que Gorge Lucas se tornou o rei deste tipo de exploração mercantilista.

Reboot (ou reinício) – Talvez seja sinal dos tempos, mas é curioso que um termo da informática seja adotado para designar um conceito de obra midiática. Para conceituar reboot vamos nos valer da definição de Thomas R. Willits: “reboot significa reiniciar um universo de entretenimento que já foi estabelecido previamente, começando uma nova história e/ou cronologia que desconsidera a história ou acontecimentos do original, tornando-o obsoleto”. Neste ponto, é fundamental frisar que o reboot não é o mesmo que um remake. Como demonstrado em linhas anteriores, a refilmagem funciona como uma adequação ou nova visão de uma obra para uma determinada plateia, seja por necessidades comerciais ou artísticas, sendo que a obra, em linhas gerais, continua a mesma, com igual trama e personagens. No reinício novos paradigmas são estabelecidos para um universo ficcional que normalmente já teve sequências, sendo que tudo que foi feito ulteriormente é ignorado na noviça produção. Assim, um outro cânone é instituído, inovando e consagrando novos parâmetros a serem seguidos.


O exemplo mais imediato que podemos utilizar para exemplificar a ideia de reboot é o longa-metragem “Batman Begins” (2005), responsável por devolver ao famoso personagem dos quadrinhos o respeito perdido com os desastrosos filmes dirigidos por Joel Schumacher (principalmente “Batman & Robin”, de 1997, assombrosamente ruim). A solução encontrada pela Warner Bros., estúdio detentor dos direitos de adaptação, foi a de “zerar” a série cinematográfica, ignorando inclusive os filmes dirigidos por Tim Burton, que também nunca foram unanimidade de crítica e público. A intenção era a de contar uma nova origem para o herói e o diretor escalado, Christopher Nolan, obteve grande sucesso na empreitada, a qual inclusive gerou uma sequência, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008), que acabou se tornando um marco nas adaptações de HQ para a tela grande, rendendo, inclusive, um Oscar de ator coadjuvante ao saudoso Heath Ledger. Outro reinício que se mostrou bastante feliz foi o da longa série “007”, que, a partir de “Cassino Royale” (2006), de Martin Campbell, assumiu novos e surpreendentes ares, com o ator Daniel Craig encarnando o agente James Bond com uma força e competência que não se via desde os anos 60 com Sean Connery. Recentemente, tivemos ainda o reboot da saga “Star Trek” (2009), apresentando-a para uma nova geração de possíveis fãs. Vale assinalar, porém, que nem sempre os reboots são necessários. A nova adaptação do Homem-Aranha, dirigida por Marc Webb e contando com Andrew Garfield no papel de Peter Parker (tem estreia prevista para 2012), é um típico caso de desnecessidade, tendo em vista a qualidade da trilogia dirigida por Sam Raimi e protagonizada por Tobey Maguire, ainda viva na memória do público e dona de uma legião de fãs. E que fique claro mais uma vez: reinício não é refilmagem, mas uma nova maneira de abordar um universo ficcional, não estando em absoluto atrelado a uma obra lançada anteriormente.

Embora não se possa negar que essas diversas formas de abordar um universo ficcional tenham sido engendradas, em sua maioria, por motivações eminentemente comerciais, como já frisado em diversas passagens nas linhas precedentes, também não se pode olvidar, por outro lado, que em várias outras ocasiões são obtidos resultados artisticamente relevantes. Mesmo os remakes, que talvez representem melhor esta vertente de mercado, uma vez que é a menos criativa das opções de retomada de um universo ficcional, podem adquirir um valor cinematográfico relevante quando bem realizados. Concluindo, o Cinema Com Pimenta espera ter jogado um pouco de luz, mesmo que de forma tênue, sobre a zona nublada que encobre as variadas espécies de reciclagem criativa que permeiam o cinema contemporâneo. Na verdade, espera mais ainda que as mentes que fazem o cinema, sejam cineastas ou executivos, consigam deixar para trás esse marasmo criativo e consigam fazer de tais reciclagens uma exceção e não a regra, já que está última vem reinando nos últimos anos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O cinema e a reciclagem de ideias - Parte I



Na atual crise de criatividade que assola a indústria do cinema, mormente a hollywoodiana, estão cada vez mais comuns as reciclagens de ideias, aproveitadas por meios distintos de abordar um universo ficcional. Neste sentido, surgiram termos como “remake”, “reboot”, “prequel”, entre outros, para designar os longas-metragens que promovem tal reaproveitamento de material criativo. Contudo, percebe-se que muitas vezes ocorre confusão por parte tanto da mídia quanto dos espectadores acerca do conceito de cada uma destas maneiras de reutilização de uma trama ou conjunto de personagens já pré-estabelecidos em produções ulteriores. É comum que seja empregado o termo “reboot” quando, em verdade, se trata de um “prequel”, por exemplo. A mais comum destas fórmulas, vale dizer, é o remake, mas, frise-se, ele é tão somente um dos meios de se explorar um universo ficcional já pré-estabelecido. Outros caminhos de abordagem também são muito usados, principalmente nesses tempos de escassez de ideias. É possível utilizar-se de um mesmo conjunto de personagens para desenvolver uma nova trama em um longa-metragem posterior, ou simplesmente continuar a narrativa desenvolvida no filme original, oferecendo um desenvolvimento maior dos acontecimentos e personagens ou mesmo esclarecendo pontos que permaneceram obscuros anteriormente. Existe ainda a possibilidade de recriar o universo estabelecido em longas anteriores, reiniciando a saga dos personagens, desconsiderando o que foi feito previamente. Ou, ainda, retomar o universo de um primeiro longa-metragem mostrando fatos que, cronologicamente, antecedem aqueles exibidos na película original. Para cada uma destas possibilidades existe uma designação específica e é importante, para aquela que pretende conhecer um pouco mais da sétima arte, conseguir diferenciá-las. Mas vale uma ressalva: se, na maioria dos casos, tais filmes representam uma carência de ideias novas no meio cinematográfico, em outras eles podem significar uma necessidade artística, trazendo-nos obras relevantes e mesmo artisticamente superiores, como tentaremos explanar a seguir. Passemos então a uma análise mais atenta e em tópicos das diversas vertentes de aproveitamento de um mesmo universo ficcional. Pra tornar a leitura menos cansativa, o Cinema Com Pimenta opta por dividi-la em duas partes. Na primeira, falaremos sobre o remake e a sequência. Na seguinte, abordaremos o prequel, o reboot e mais o midquel e o interquel. Vamos a eles.

Remake (ou refilmagem) – A mais comum das formas de reciclagem de ideias no cinema. Seu conceito é de fácil apreensão, já que consiste em tomar o mesmo material de um filme original e vertê-lo novamente para a tela, com a mesma trama e os mesmos personagens (1). Ultimamente, o remake vem sendo rotineiramente utilizado para verter longas estrangeiros para o mercado norte-americano, dada a aversão dos estadunidenses à leitura de legendas, além de tornar o material original mais palatável ao sabor de um público moldado para as facilidades do cinema comercial. Um exemplo bastante conhecido é o de “O Chamado” (The Ring, 2002), de Gore Verbinski, refilmagem do japonês “Ringu” (1998), cujo sucesso acabou gerando uma onda de remakes de filmes nipônicos de horror. Embora normalmente a confecção de uma refilmagem seja resultado de necessidades comerciais, é possível que ela ocorra também por motivações artísticas, como no recente “Bravura Indômita” (True Grit, 2010) realizado pelos irmãos Joel e Ethan Coen, uma nova versão para o filme homônimo protagonizado em 1969 pelo ícone John Wayne (muito embora os Coen recusem o rótulo de “remake”, alegando que realizaram uma nova adaptação do livro de Charles Portis e não uma releitura do filme de Henry Hathaway). A nova roupagem imprimida pelos irmãos diretores acabou, inclusive, agradando ao público mais jovem, resultando em um grande sucesso de bilheteria.


John Wayne e Jeff Bridges no papel de Rooster Gogburn nas duas versões de "Bravura Indômita"

É bom destacar que esta “atualização” para uma nova geração de espectadores também caracteriza uma das motivações recorrentes dos remakes. Outro caso bastante conhecido de refilmagem é a de “O Homem Que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1956), de Alfred Hitchcock, que soube aliar interesses comerciais e artísticos na sua direção, já que ele nunca havia ficado plenamente satisfeito com a versão inglesa da obra (de 1934). A nova cria resultou mais exuberante e imageticamente poderosa, com algumas da melhores sequências da carreira do genial diretor, como a conclusão repleta de suspense no Albert Hall londrino. É bom, ademais, relembrar projetos de releituras totalmente dispensáveis, tanto do ponto de vista comercial quanto artístico, como no emblemático exemplo do “Psicose” (Psycho, 1998) do diretor norte-americano Gus Van Sant, uma refilmagem quadro a quadro do clássico absoluto de Hitchcock (lançado em 1960), o qual jamais perdeu sua força, carecendo de qualquer atualização para um público mais jovem. Destaque-se, por último, que o remake é um recurso usado não apenas no mundo do cinema. A televisão também costuma realizar remakes de séries e novelas constantemente. Afinal, todos os veículos procuram um porto seguro quando as ideias escasseiam.

Sequência (ou sequel) – Praticamente tão comum quanto o remake, a sequência consiste em retomar um universo definido em um longa-metragem anterior, continuando e desenvolvendo sua trama normalmente do ponto onde foi interrompida. Portanto, não se trata de mostrar mais uma vez a mesma estória, como acontece na refilmagem, mas de desenvolver uma nova narrativa com o mesmo conjunto de personagens e tendo por base os fatos já ocorridos no filme predecessor. Normalmente produzidas por questões mercadológicas, são muito frequentes as sequências de grandes campeões de bilheteria, os denominados blockbusters, já que estas superproduções costumam arrebanhar uma horda de fãs que acabam por tornar seguro o investimento em uma continuação, com um retorno quase garantido. O exemplar mais emblemático de uma sequência encontra-se em “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back, 1980), segundo episódio a ser lançado da famosa saga “Star Wars”, concebida por George Lucas. A trilogia original de “Guerra nas Estrelas”, inclusive, pode ser apontada como a matriz de toda a invasão de sequels que encontramos hoje nas salas de exibição. Com seu enorme sucesso, tornou-se o exemplo a ser seguido, nem tanto pelos cineastas, mas principalmente pelos executivos, que veem lucros fabulosos surgirem a partir de licenciamentos para uma variação de produtos que vão desde bonecos a toalhas de banho (e não apenas das bilheterias). Ou seja, as sequências tornaram-se a fonte maior de recursos para a manutenção do sistema de produção vigente em Hollywood, alicerçado em altos custos. Muitos filmes, vale ressaltar, já são concebidos para gerar sequels, apresentando conclusões em aberto ou pontos mal explicados que possibilitem o desenvolvimento de um segundo episódio. Em outras oportunidades, já são pensadas como obras divididas em capítulos, como no caso da própria franquia “Star Wars”, escrita por George Lucas em seis partes (e tendo levado às telas primeiramente o capítulo IV) ou a adaptação para o cinema da obra literária “O Senhor dos Anéis” (TheLord Of The Rings), cujas três partes foram filmadas de uma só vez pelo diretor Peter Jackson.



Entretanto, nem só de mercado vivem as sequências. É salutar recordar que um dos pioneiros neste recurso fílmico – antes mesmo da referida série de George Lucas - foi a trilogia “O Poderoso Chefão”, que foi desenvolvida por Francis Ford Coppola muito mais por motivações artísticas que financeiras. Claro que a Paramount viu na oportunidade uma chance de aumentar seus ganhos, tendo em vista o grande sucesso da obra-prima que deu origem à trilogia. Contudo, é importante observar que, para uma parcela da crítica, “O Poderoso Chefão 2” até mesmo supera seu predecessor enquanto obra de arte, demonstrando a substância de um projeto magnífico. Um bom exemplo, ademais, de que nem sempre está com a razão o senso comum, que nos leva a considerar sequências como inferiores ao longa original. Neste sentindo, no Brasil podemos destacar o recente “Tropa de Elite 2” (2010), de José Padilha, uma brilhante continuação para o seu já ótimo primogênito.

Bem, se teve paciência de chegar até aqui, o Cinema Com Pimenta publicará a segunda parte destas observações em breve. Até lá!
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(1) É possível que ocorra a inserção de algum personagem diferente ou exclusão de outro que consta no original, sem que tal expediente descaracterize a natureza de remake.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Brave": poster e teaser trailer


Enquanto o primeiro grande fiasco da Pixar está em exibição nos cinemas (preciso dizer que se trata de "Carros 2"?), foram divulgados o primeiro poster e o primeiro trailer de sua próxima produção, "Brave". Aparentemente, o filme promete honrar o nome do estúdio de John Lasseter e fazer o público esquecer desse tropeço de 2011. A trama do novo longa se passará nas místicas montanhas da Escócia, onde Merida é a princesa do reino governado pelo Rei Fergus e a Rainha Elinor. Filha rebelde e ótima arqueira, Merida acaba por fazer escolhas erradas que colocam o reino e os seus pais em perigo. Ela vai ter que lutar contra as forças da natureza, magia e uma antiga maldição, tudo para poder salvar o seu reino. O poster você já viu acima e o trailer você pode conferir logo abaixo. Aguardando!


domingo, 26 de junho de 2011

Restaurando a Película



Meus Vizinhos São Um Terror
(The 'Burbs)


Do tempo em que Tom Hanks fazia rir


Quem é cinéfilo deve se lembrar do início da carreira de Tom Hanks. Antes de ser uma astro do primeiro escalão de Hollywood, ele atuava em comédias de orçamento mediano. Ficou famosa sua parceria com Meg Ryan em “Sintonia de Amor” (Sleepless In Seatle), uma das melhores comédias românticas a que já tive oportunidade de assistir. Sua identificação com a comédia era tão forte que, quando ele foi indicado para o Oscar de melhor ator por um drama pesado, “Fildélfia”, encarei a notícia com profunda estranheza na época. “Aquele ator de 'Meus Vizinhos São Um Terror' vai levar um Oscar?! Nossa!”... Você não conhece “Meus Vizinhos São Um Terror”? Trata-se de uma comédia-suspense protagonizada por Hanks em 1989. Passou repetidas vezes na “Sessão da Tarde” e eu o considerava um barato. Ri muitas vezes com aquela trama curiosa dos vizinhos que, desde a mudança de novos moradores para uma casa mal cuidada do bairro, passam a bisbilhotar a vida destes. E, vendo hoje, com um olhar mais adulto e crítico, percebi que o filme resistiu muito bem ao tempo e pude verificar, ademais, as fortes referências ao mestre Alfred Hitchcock que possui tanto no roteiro quanto nos aspectos técnicos.

A começar pelo protagonista. Interpretado por Tom Hanks, Ray Peterson está de férias, sem dinheiro para viajar e cansado de ir à sua casa de campo em uma localidade próxima. Logo, passa os dias bisbilhotando a vida dos vizinhos (é bom lembrar que na época não havia internet) e, especialmente, começa a perceber que os novos moradores da casa ao lado, os Koplek, são estranhos além da conta. Passam os dias trancados em casa e cavam buracos no quintal durante a noite. Ajudado por seus vizinhos, e depois do sumiço de um deles, Ray resolve investigar o comportamento dos estranhos e descobrir se eles estão envolvidos com o desaparecimento. Como se percebe; a relaação com o personagem L. B. Jeffries de James Stewart em “Janela Indiscreta” é, desta forma, óbvia. Mas a recauchutagem promovida pelo diretor Joe Dante (seu trabalho mais famoso é “Gremlins”) é que torna a experiência divertida. Ele eleva o suspense, tanto por meio de recursos como closes e slowmotion ou levando a trilha sonora ao último volume, ao nível da caricatura, arrancando inevitavelmente o riso do espectador. Dante soube, ademais, utilizar muito bem o potencial imagético da trama. Claro que não chega à maestria de Hitchcock, mas o diretor mostra competência na utilização da câmera. Ademais, os tais Koplek também são caricaturados, o que acentua ainda mais o tom cômico daquilo que primordialmente deveria ser um suspense. Muito embora o roteiro (escrito por Dana Olsen, que participa em cena como um policial) tenha lá suas falhas, ele se desenvolve a contento e mantendo sempre o interesse do público no seu desenrolar.


Por outro lado, os personagens também são bem caracterizados e não deixa de ser um barato observar seus intérpretes com o olhar de hoje. Estão lá, além de Hanks, Carrie Fisher, a eterna pincesa Leia da saga Star Wars (não deu para fugir do chavão), como a esposa de Ray, além de Corey Feldman, ator adolescente quase que onipresente nas produções voltadas para o público mais jovem nos anos 80. Fazendo um garoto que passa os dias observando o movimento do bairro, chamando seus amigos para acompanhar aquilo que afirma ser “melhor do que cinema”, ele é sempre uma presença carismática, assim como Bruce Dern fazendo o caricato militar Rumsfield.

O longa, vale dizer, também pode ser visto como uma obervação e comentário sobre a vida nos subúrbios estadunidenses, então ocupados por uma classe média conservadora que via na estranheza um motivo de preocupação (não é à toa que seu título original poderia ser traduzido como “Os Suburbanos). Neste ponto, todavia, talvez o filme tivesse mais sucesso em sua crítica caso o desfecho tomasse um outro rumo do que foi realizado. De qualquer forma, se você pretende apenas ver uma comédia sem maiores consequências, esta é uma boa pedida. O citado “Gremlins”, ademais, é mais feliz e marcante em seu humor negro para o grande público. Mas, mesmo não sendo nada que vai mudar sua vida, “Meus Vizinhos São Um Terror” é um filme que lhe traz um ótimo entretenimento ao longo de 101 minutos de projeção, merecendo ser resgatado do esquecimento e figurar entre as boas lembranças do cinema oitentista. Ah, e também é bom ver Tom Hanks em um tempo em que ele tinha vontade de atuar...


Cotação:

Nota: 7,5

sábado, 25 de junho de 2011

Quero Ver Novamente #12

Se pedirem para eu escolher a melhor sequência de créditos que já vi em um filme, certamente optarei pela de "Prenda-me Se For Capaz". Um verdadeiro curta de animação inserido no filme e que, observando atentamente, consegue sintentizar toda a sua trama. E isso com a trilha sonora genial de John Williams, na minha opinião uma de suas melhores composições. Por sinal, o longa é uma joia de Steven Spielberg não muito conhecida do grande público. Está entre os meus preferidos do diretor. Veja abaixo essa forma inteligentíssima de apresentar os créditos ao espectador!


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris



A Rosa Púrpura do Cairo + Manhattan = Um belo filme


Se você já assistiu a “A Rosa Púrpura do Cairo”, longa-metragem de Woody Allen realizado em 1985, provavelmente também irá apreciar este seu novo trabalho, “Meia-Noite Em Paris”, cuja premiére mundial aconteceu no último Festival de Cannes. Tanto um como outro utilizam-se de componentes imaginários, surreais, para compor sua narrativa. Em ambos, o velho Allen enfrenta a necessidade que frequentemente sentimos de fugir da realidade em que vivemos, comumente dura demais e insatisfatória. Se no filme protagonizado por Mia Farrow sua personagem mergulha na fantasia do cinema para esquecer a realidade, neste “Meia-Noite Em Paris”, o Gil de Owen Wilson deseja viver em um tempo que não é o seu. E consegue.

Gil Pender é um romancista frustrado. Seu grande sonho é a literatura, da qual ele abriu mão para escrever roteiros para o cinema, já que é mais fácil ganhar dinheiro trabalhando para Hollywood do que vendendo livros. Ele está de férias em Paris acompanhado de sua noiva Inez (Rachell McAdams) e da família desta, vivenciando dias na cidade que sempre habitou o seu imaginário e para a qual planeja se mudar para que tenha uma maior inspiração para o seu livro em andamento. Gil considera os anos 20 da capital francesa como a melhor época e lugar para se viver que já existiram, o tempo em que seus ídolos literários e artísticos estavam em plena atividade. Em uma noite, Gil resolve voltar a pé para o hotel, e sozinho, já que sua noiva não compartilha de sua ideias românticas de caminhadas ao ar livre pela Cidade Luz. No caminho, surge um antigo táxi cujos passageiros o convidam para um passeio e, de repente, Gil se vê na era dos seus sonhos. Lá ele encontra nomes como Ernest Hemingway (Corey Stoll), F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), o cineasta Luis Buñuel, Pablo Picasso e Salvador Dalí (Adrien Brody), entre outros, além de um novo interesse romântico na figura de Adriana, personagem da sempre encantadora Marion Cotillard.

Logicamente, como em todo filme de Allen, há muito dele mesmo nos sentimentos e pensamentos representados na tela. Como se sabe, Allen é um leitor voraz e, provavelmente, sempre nutriu o desejo de seguir uma carreira literária mais prolífica e profunda. Fica nítido que ele acabou se rendendo aos roteiros cinematográficos por terem um resultado financeiro maior e mais imediato. Ademais, o diretor não é apenas um comediante, mas também um grande investigador de nossas fraquezas e limitações humanas. Aqui ele analisa nossa eterna insatisfação com a realidade que vivemos, normalmente cruel demais, o que nos faz romantizar e deseja viver em outras eras (eu mesmo tenho uma certa fascinação pelos anos 60). No fundo, uma forma de escapismo disfarçada, um engano que muitas vezes não conseguimos enxergar. Assim também como é a relação de Gil com sua noiva Inez. Talvez levado pela sua beleza e sensualidade, Gil não consegue perceber que ela, uma mulher superficial, não é a pessoa adequada para dividir sua vida. E quantas vezes nós mesmos já não estivemos mergulhados nesses enganos? De uma forma ou de outra, parece que estamos sempre querendo esquecer ou não enxergar a realidade em que estamos, iludidos por uma falsa sensação de felicidade.


Temas tão complexos, porém, são abordados com a leveza habitual dos longas com a assinatura de Woody Allen. Várias são as passagens divertidas, com aquele humor inteligente típico do autor, todas com supedâneo em um ótimo elenco. Apesar de emular a persona cênica de Allen, nunca havia assistido a uma atuação tão boa de Owen Wilson. Acredito até que Allen deveria repetir a experiência e convidá-lo a representar seu alter-ego em outras oportunidades. Rachell McAdams, todavia, apesar de bela e especialmente sensual, tem um personagem ingrato que acaba por nos gerar uma certa antipatia, o que, em verdade, talvez seja um sintoma de sua boa atuação. Já Marion Cottilard está ótima como de costume, ficando fácil entender o imediato interesse de Gil por ela. Além desses, destacam-se o mencionado Brody, impagável como Salvador Dalí, Corey Stoll como Hemingway e Khaty Bates como a escritora Gertrude Stein, a qual acaba avaliando o inacabado romance de Gil (há ainda uma participação da primeira-dama da França, Carla Bruni). O aspecto leve do roteiro ainda é complementado pelas tiradas que mostram o protagonista influenciando na criação de futuras obras dos artistas inseridos na trama. Contudo, tais recursos não deixam de trazer um certo hermetismo ao loga, já que o espectador precisará de uma base cultural bastante razoável para compreender plenamente as nuances do roteiro.

Por outro lado, se “Midnight In Paris” traz várias lembranças de “A Rosa Púrpura do Cairo”, também não se pode negar que “Manhattan”, outro clássico absoluto do velho Woody, também parece deixar suas marcas aqui. Sua introdução, mostrando o dia-a-dia de Paris e dos parisienses lembra muito o princípio do já clássico filme de 1979. Mas não só isso. Ambos os longas promovem uma ótima viagem introspectiva, em busca das repostas para o eterno vazio presente nos seres humanos. Na maioria dos filmes de Woody, ele nos oferece uma conclusão otimista. Neste, assim como em “Manhattan” essa linha é seguida e no desfecho saímos com a alma suave da sala de projeção. As obras deste gênio nos mostram que a vida pode ser bem menos complicada do que parece, basta usar a inteligência e ouvir o coração.


Cotação:

Nota: 9,0

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris será exibido em Natal! (???)


Eu levei um susto quando, agora há pouco, vi que a programação do Cinemark do Shopping Midway Mall para a próxima semana inclui "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen. Um filme de Allen ter sua exibição em Natal na mesma data da estreia em circuito nacional é um fato extremamente raro (se não for inédito)! Parabéns aos exibidores por acreditarem que nem só de blockbusters vive o cinema. Agora é conferir e prestigiar!

Ah, e esse poster, que combina uma imagem do filme com a tela "A Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh, merecia estar na série "Eu quero esse poster". Genial!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Trilha Sonora #17


"Suplício de Uma Saudade" (Love Is A Many Splendored Thing, 1955) não é exatamente um grande filme. É cheio de altos e baixos, intercalando belas cenas românticas (não se pode negar que a fotografia é ótima) com algumas outras que descambam para a cafonice. De qualquer forma, a história de amor protagonizada por Jennifer Jones e William Holden acabou por se tornar inesquecível devido ao seu final, belamente trágico, e que o faz deixar de ser um longa apenas mediano e ganhar um status verdadeiramente cult. Outro fator importante para torná-lo memorável é sua linda trilha sonora, composta por Alfred Newman, que nos legou a belíssima canção-título (vencedora do Oscar) e que você pode ouvir clicando abaixo, em mais uma das interpretações marcantes de Nat King Cole, a mais bela voz da música popular em todos os tempos (os fãs de Sinatra que me perdoem...)!



domingo, 5 de junho de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Dr. Jivago
(Dr. Zhivago)


O público tinha razão



O conflito entre público e crítica sempre existiu na história da sétima arte e, talvez, com uma intensidade ainda maior do que em qualquer outra forma de expressão artística. No cinema, a crítica sempre teve um papel muito forte, muitas vezes determinando o sucesso ou o fracasso de um longa-metragem. Não é à toa que no mundo cinematográfico as premiações sempre acabam por trazer uma sensível adição de interesse por um filme. Basta o longa ser premiado com alguns prêmios da Academia de Hollywood ou uma Palma de Ouro em Cannes que o desejo de vê-lo já é despertado em muitos, como se tais prêmios fossem um atestado de qualidade da obra em questão, o que nem sempre ocorre, como sabemos (só a título de comparação: que diferença faz para você se um disco ou cantor ganhou ou não ganhou um Grammy?). Em alguns casos, porém, o grande público acaba ignorando obras excelentes e amadas pelos críticos - como os filmes de Ingmar Bergman, para citar um exemplo claro. Por outro lado, algumas vezes o público presta reverência a filmes não muito queridos ou mesmo apedrejados pela crítica, o que faz com que uma parcela de apreciadores do cinema acabe esnobando aquilo que tem um apelo popular mais evidente.

Um filme que se mostra como notável exemplar do conflito entre público e crítica é justamente “Dr. Jivago”, uma megaprodução dirigida por ninguém menos que David Lean. Quando do seu lançamento, em 1965, muitos críticos torceram o nariz para o que consideraram pieguices, pouco apuro na reconstituição de época (os cenários teriam sido feito “às pressas”) e pouca profundidade no trato do contexto político. Algumas críticas foram tão virulentas que trouxeram desgosto a Lean, levando o diretor a pensar em se afastar do ofício (e graças a Deus ele não levou a ideia adiante). Em contrapartida, o público lotou as salas, fazendo da história de Yuri Jivago um grande sucesso. Até hoje o filme é amado por muitos espectadores, os quais costumam sempre dar boa audiência às reprises televisivas. E, ressalte-se, com muita razão.

“Dr. Jivago” é, de fato, um super-espetáculo cinematográfico. Poucas são as oportunidades de vermos, em um único filme, uma sucessão tão grande de imagens estonteantes, com grandes atuações, além de uma reconstituição de época preciosa (ao contrário do que os críticos tacanhos afirmaram à época do seu lançamento). David Lean foi, possivelmente ao lado de Stanley Kubrick, o cineasta mais perfeccionista dentre os cineastas perfeccionistas. Entretanto, diferentemente do diretor de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, conhecido pelo teor cerebral de seus longas, Lean deixava a emoção correr solta em suas obras. Ele, ademais, parecia ter alguma fixação com amores impossíveis, corações divididos. Em vários aspectos, “Dr. Jivago” me faz lembrar “Desencanto” (Brief Encounter), filme de Lean realizado em 1945. Contudo, se este último possui contornos mais intimistas, o filme de 1965 é um verdadeiro épico, até mesmo pelas suas pretensões e conotações também político-históricas. Aqui, Lean não se presta “apenas” (assim mesmo, entre aspas, pois que “Desencanto” é um longa excepcional) a narrar um romance. Ele ambiciona retratar também o momento histórico vivido pela Rússia quando revolução comunista de 1917, buscando estudar os reflexos desta convulsão política na sociedade e, mais ainda, como ela afetou a individualidade de seus integrantes. Essa visão orgânica de indivíduo-coletividade permeia toda a sua extensa duração, constituindo um dos grandes trunfos da produção.


O roteiro de Robert Bolt adapta o romance de Boris Pasternak, que acabou levando o Nobel de Literatura devido a ele, mas sendo proibido de recebê-lo pelo Partido Comunista soviético. Não conheço a biografia de Pasternak, mas só este fato já mostra que muito da narrativa de sua obra tem contornos bastante pessoais. Não é à toa que seu Yuri Jivago (no filme interpretado pelo egípcio Omar Shariff), além de médico, é também poeta. Idealista e sensível, ele nutre simpatia pela causa socialista, a despeito de pertencer a uma camada privilegiada da sociedade. Todavia, ao longo do processo revolucionário, acaba se deparando com violências e arbitrariedades que tornam a nova ordem social bastante semelhante à primeira. Arbitrariedades tais que suprimem sua criatividade, já que o governo revolucionário considera sua obra muito “pessoal”, “burguesa”, extravasando sentimentos íntimos (considerados “individualistas”) em detrimento de uma arte voltada para a coletividade. Estabelece-se, então, o conflito indivíduo-sociedade, embate este insolúvel, pois que um não existe sem o outro. De maneira instigante, o filme tece fortes críticas tanto ao czarismo feudal de outrora, quanto ao comunismo castrador nascente, demonstrando o quanto circunstâncias histórico-sociais podem acabar afetando irremediavelmente a vida pessoal dos indivíduos. A vida íntima de Jivago, por seu turno, representa bem essa cisão experimentada pela própria Rússia. Dividido entre o sentimento tranquilo por sua esposa, Tonya (Geraldine Chaplin, filha de Charles Chaplin), e a paixão por Lara Antipova (Julie Christie, belíssima, em um papel que lhe alçou à condição de estrela), a oscilação do médico-poeta coloca-se como marcante metáfora para o momento vivido pela sociedade russa – e que talvez tenha passado despercebida pelos críticos míopes do seu tempo.



Todavia, Lean não se conforma em realizar um épico histórico. O longa possui uma carga sentimental acentuada, um dos motivos, por sinal, que o tornou tão popular. Longe de fazer julgamentos acerca das fraquezas dos personagens, a narrativa, muito pelo contrário, procura entender as motivações do seu comportamento, ao mesmo tempo em que também não busca justificá-los. Narrado em flashback pelo meio-irmão de Jivago, Yevgraf (Sir Alec Guinness), o roteiro acaba por se constituir em três atos para melhor apresentar a trama e seus personagens. Na primeira parte, ocorre uma atenção maior para Lara e sua intrincada relação com Victor Komarovsky (Rod Steiger, um pouco exagerado, mas ainda assim eficiente), aristocrata de poucos escrúpulos de quem se torna amante, apesar de estar noiva de Pasha (Tom Courtenay). Em um segundo ato, mais focado em Jivago, vemos o nascimento de seu tranqüilo casamento com Tonya, ao mesmo tempo em que ele acaba convocado para servir como médico na Primeira Guerra Mundial, ocasião em que acabará conhecendo Lara, a qual serve como enfermeira no front. É no terceiro ato que acompanhamos o nascimento e cisão do romance entre os dois que, no fim, termina por adquirir contornos trágicos. É triste, realmente consternador, perceber como os personagens acabam infelizes em decorrência tanto de suas próprias fraquezas, quanto da inevitabilidade de fatos que fogem ao controle de todos.

Ademais, toda essa narrativa carregada de História e sentimentalidades é exibida com uma carga imagética poucas vezes igualada ao longo de décadas de arte cinematográfica. Várias são as cenas e sequências marcantes, inesquecíveis, daquelas que grudarão na sua mente por muito tempo, como a travessia das paisagens nevadas dos Urais na interminável viagem de trem (ocasião em que Klaus Kinski faz uma breve, mas marcante participação); a investida das tropas do czar contra os manifestantes nas ruas de Moscou, oportunidade em que Lean não necessita mostrar a violência na tela para conseguir nos transmitir todo o horror do acontecido; a corrida de Jivago no interior do palacete congelado de Varykino, buscando enxergar Lara, que está partindo... Bem, eu poderia escrever mais algumas páginas apenas descrevendo belas cenas deste filme, mas vamos nos poupar, pois melhor do que ler a descrição é ver, ou rever, ditas sequências. Só a acrescentar, ainda, a importância da magnífica trilha sonora, cujo tema central (o famoso “Tema de Lara”), composto por Maurice Jarre, tornou-se uma das mais lembradas e populares trilhas já concebidas.

Detentor de múltiplas leituras, “Dr. Jivago” pode ser visto ora como um filme de estudo histórico-político, ora como uma jornada passional. O que não se duvida é que ele constitui uma verdadeira obra-prima e que o tempo mostrou que o público, ao menos neste caso, tinha plena razão ao consagrar nas bilheterias o talento de David Lean. Hoje, este é um filme querido de muitos, enquanto os críticos que o espezinharam são lembrados por poucos.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 4 de junho de 2011

X-Men - Primeira Classe



De primeira classe!


Em 2000, Bryan Singer levou os filmes baseados em histórias em quadrinhos a um novo status. A despeito das dúvidas e incredulidade de muitos, que achavam difícil transpor para as telas o universo dos “X-Men” com a qualidade técnica necessária, mas, principalmente, a carga dramática característica dos mutantes, Singer foi extremamente bem sucedido em sua adaptação. E quando falo em “carga dramática” não é à toa. Entre os tradicionais heróis tanto do universo Marvel quanto da DC (as maiores editoras de quadrinhos dos EUA), certamente os mutantes são aqueles com maior densidade psicológica, dada a questão central que permeia as suas tramas: o preconceito (acredito que apenas Batman, na DC, se equipare neste aspecto, mas com outras motivações e temáticas). Singer, todavia, encarou muito bem o desafio e nos trouxe um ótimo filme, cheio de ação, mas sem nunca perder o foco dos dramas pessoais vividos por seus personagens. O sucesso em qualidade se refletiu também em sucesso de público, catapultando Hugh Jackman, com sua caracterização perfeita de Wolverine, ao estrelato e gerando mais duas continuações diretas, além de uma prequel exclusiva do citado Wolverine. Com o segundo episódio, vale salientar, Singer conseguiu superar o primeiro, tanto em termos técnicos quanto no aprofundamento dos conflitos, fazendo de “X-Men 2” um dos melhores filmes de super-heróis até hoje realizados. Após se afastar da franquia para assumir a direção de “Superman – O Retorno” (um dos seus antigos sonhos era dirigir um filme do homem de aço), Singer retorna agora ao universo mutante, mas como produtor, deixando a direção para um dos nomes promissores da Hollywood atual, Matthew Vaughn (que dirigiu anteriormente “Kick Ass – Quebrando Tudo”). A missão de ambos era dar um novo fôlego à série, cujo terceiro episódio (“O Confronto Final”), dirigido por Brett Ratner, não teria apresentado resultado tão satisfatório quanto os seus dois predecessores (está um pouco abaixo, realmente, mas, na minha opinião, ainda é muito bom).

O conceito de “X-Men – Primeira Classe”, o qual consiste em revelar as origens dos conflitos desenvolvidos na série e de alguns dos personagens já conhecidos do público, mormente o Professor Charles Xavier e seu amigo-inimigo Magneto, teve início com um projeto para um filme solo do famoso mutante mestre do magnetismo. Felizmente, perceberam que um filme de Magneto sem a presença de Charles Xavier seria um tiro na água e a ideia evoluiu para um contexto mais amplo, qual seja, mostrar como nasceu a tal amizade-inimizade entre os dois, além da escola para jovens superdotados gerida pelo professor.

É com esse intuito que somos levados aos anos 60, não sem antes acontecer uma passagem pelos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. É neles que o garoto Erick Lehnsherr (interpretado já adulto pelo excelente ator alemão Michael Fassbender) vê sua mãe ser assassinada por um nazista, o cientista Sebastian Shaw (Kevin Bacon), o qual já havia percebido os poderes magnéticos do menino. A vingança torna-se, desta forma, a obsessão de sua vida e é em busca dela que Erick acaba esbarrando em Charles Xavier (o sempre ótimo James McAvoy), ainda um jovem professor estudioso das mutações genéticas. A amizade entre os dois levará à busca de jovens mutantes (à serviço da CIA, convencidos pela agente Moira MacTargget) e criação da tal escola para superdotados, ensinando-os a canalizar seus poderes e oferecendo uma convivência com outras pessoas também detentoras de habilidades especiais. A trama mutante tem como pano de fundo os fatos reais acontecidos na década de 60, principalmente a crise dos mísseis em Cuba, a qual acaba servindo também como força motora de vários aspectos da narrativa (com direito até a inserções de imagens de John Kennedy na projeção). O resultado, e isso afirmo como apreciador não só da franquia cinematográfica como também das HQs, é vibrante e, por vezes, emocionante.


O roteiro, escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e o próprio cineasta Matthew Vaughn , é realmente ótimo e muito feliz em realizar uma verdadeira fusão entre elementos ficcionais e verídicos. Além disso, sabe equilibrar quase à perfeição os momentos de ação e reflexão. Aliás, neste último aspecto, este é o filme ao mesmo tempo mais reflexivo e introspectivo de toda a série, onde se percebe uma verdadeira aula de como se fazer uma aventura cheia de neurônios. Se a metáfora do preconceito está presente em todos os episódios, aqui, ressalte-se, ela é trabalhada de maneira ainda mais sólida e consistente, principalmente através dos ricos diálogos entre Xavier e Magneto (que estão entre os melhores momentos do longa, vale dizer). A força deste manifesto anti-preconceito é ainda corporificada nos personagens de Mística (Jennifer Lawrence, de “Inverno da Alma”, bonita e talentosa) e Hank McCoy, o Fera (Nicholas Hoult, muito competente), cujas mutações também lhes confere uma aparência física “diferente”, o que redunda em um sentimento de exclusão ainda mais forte do que os dos outros mutantes.

Claro que toda a carga dramática do filme cairia no descrédito não fossem as ótimas atuações do elenco. Difícil afirmar quem está melhor em tela. Tanto McAvoy quanto Fassbender dão um show de competência como Charles Xavier e Erick Lehnsherr, respectivamente. Fassbender deverá, inclusive, deixar de ser um ator pouco conhecido para construir uma carreira sólida em Hollywood, não tenho dúvidas. Mesmo Kevin Bacon, um ator cheio de altos e baixos, está ótimo como o pedante Sebastian Shaw, um dos vilões mais marcantes das antigas estórias dos X-Men, quando estes viviam seus embates contra o Clube do Inferno. Por outro lado, fica a desejar a caracterização de Emma Frost, a Rainha Branca do clube e esposa de Shaw, aqui interpretada por January Jones. Lembrada nos quadrinhos não apenas por sua beleza e sensualidade, mas também por sua inteligência e personalidade manipuladora, ela aparece na projeção sem destaque para essas duas últimas características, quase se transformando em uma loira de butique, o que é uma pena.

Além da pobreza desta transposição de Emma Frost, o roteiro ainda peca por se utilizar da velha muleta de apresentar os mutantes e seus poderes de forma muito didática (um verdadeiro lugar-comum em filmes de super-heróis). O didatismo aqui se torna ainda mais acentuado até mesmo devido às técnicas de controle desenvolvidas na escola de Charles Xavier. Ademais, os efeitos especiais deixam a desejar em algumas passagens e a caracterização do Fera me pareceu um pouco artificial (creio que o uso de CGI teria sido mais feliz do que a maquiagem, neste caso).

Todavia, estes são problemas pontuais que não comprometem o conjunto. O diretor Vaughn jamais deixa a peteca cair, com um ótimo ritmo. Apesar de um pouco longo, o filme nunca se torna cansativo. Muito pelo contrário. Ele vai crescendo em envolvimento e emoção, resultando em um final sensacional e marcante, que só deixa o espectador ainda mais ansioso para ver mais um capítulo da saga. Um desfecho que, se não nos faz tomar o lado de Magneto em sua batalha, também nos leva a compreender suas motivações, fazendo com que evitemos pronunciar julgamentos acerca de suas atitudes. Uma aula de como realizar um produto voltado para as massas sem maniqueísmos. Esperemos que, tal como os alunos do Professor X aprenderam com este a dominar seus poderes, os produtores e diretores aprendam com Singer e Vaughn a usar seus altos orçamentos para gerar obras que podem ser um ótimo entretenimento com respeito à inteligência e sensibilidade do espectador. E, neste aspecto, a nova aventura dos X-Men é mesmo de primeira classe!


Obs. Há duas participações especiais no filme: Hugh Jackman (hilário!) e Rebecca Ronmjn-Stamos. Fique atento (a)!


Cotação:

Nota: 9,5

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda sobre "Piratas do Caribe"



Com a chegada do quarto episódio da franquia, já em exibição nos cinemas, aproveito a oportunidade para postar a resenha de "Piratas do Caribe - No Fim do Mundo", escrita quando do lançamento do longa e que ainda permanecia inédita neste espaço. Segue abaixo.



Piratas do Caribe - No Fim do Mundo


Confusão em alto mar


Em 2003, a Disney teve a idéia de produzir um filme baseado em um brinquedo de um de seus famosos parques. Caindo nas mãos do produtor Jerry Bruckheimer, este convidou Gore Verbinski para dirigi-lo. O que parecia uma empreitada pouco pretensiosa dos estúdios do Mickey acabou se tornando um enorme sucesso, não só de público como de crítica. Sem buscar algo além de um bom entretenimento, o filme tinha ótimas doses de aventura, romance e comédia, sendo este último aspecto capitaneado pelo fantástico ator Johnny Depp, o qual criou um especial personagem: o Capitão Jack Sparrow, uma espécie de “Macunaíma Pop”, um anti-herói sem nenhum caráter, mas extremamente divertido. O sucesso do personagem foi tão grande que Depp ganhou uma indicação ao Oscar, além de ver seu nome catapultado ao time de super-astros de Hollywood, logo ele que sempre teve um perfil “alternativo”.

Estimulados com o sucesso de “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”, os produtores resolveram investir em mais duas continuações. A primeira delas, intitulada “O Baú da Morte” teve sua estréia em 2006 e acabou se tornando o terceiro filme em bilheteria na história, atrás apenas do insuperável “Titanic” e de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, sendo também o terceiro filme a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão arrecadados em todo o mundo. Embora com um roteiro não tão bem acabado quanto o do original, “Piratas 2” mantém o nível de diversão nas alturas, com uma participação do capitão Sparrow ainda mais impagável e uma trama repleta de aventuras e fantasia.

Pois bem, agora estréia nos cinemas de todo o mundo, prometendo arrecadar de forma também gigantesca “Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo” a terceira e última (será mesmo?) parte da trilogia.Todavia , mesmo que tenha sua bilheteria estratosférica garantida, este se mostra o exemplar mais fraco da série.

Logo no início, vemos Elizabeth Swann (a bela Keira Knigthley), ao lado do Capitão Barbossa (Geoffrey Rush, ótimo), em busca da ajuda de Sao-Feng (Chow Yun-Fat, coadjuvante de luxo), um dos nove lordes piratas, para resgatar Jack Sparrow da espécie de “limbo” onde está após ser levado pelo Kraken no fim do 2º episódio. Sparrow, que também é um dos tais “lordes piratas”, é necessário para que a Confraria dos Piratas possa libertar a deusa dos mares Calypso da forma humana à qual está presa por obra da própria Confraria. E a verdade é que nos perdemos em um emaranhado de nomes, lugares e situações, principalmente se você não viu ou reviu o segundo episódio há pouco tempo (para aqueles que ainda não viram e pretendem assistir a esse 3º episódio, é recomendável que cheguem ao cinema com o segundo episódio ainda fresco na memória). A primeira metade do filme se arrasta de forma aborrecida, sem sal e eu já estava apreensivo, pois tendo em vista sua “longa metragem” (são duas horas e quarenta e cinco minutos) seria mesmo um saco acompanhar tudo aquilo até o fim.



Todavia, para alegria geral dos espectadores, a segunda metade do filme decola, apresentando fantásticas cenas de ação, além das doses de comédia também aumentarem consideravelmente. Memorável a seqüência do confronto entre o Flying Dutchman (o navio do capitão Davy Jones) e o Pérola Negra em meio a um redemoinho, onde várias tomadas de ação se desenrolam ao mesmo tempo: o duelo entre Sparrow e Davy Jones; o casamento de Will Turner (Orlando Bloom) com Elizabeth, tendo o capitão Barbossa como responsável pelo casório (hilário!!!); a resolução do conflito entre Will e seu pai... Ou seja uma avalanche de acontecimentos realmente empolgante. Ademais, é na segunda metade do filme que realmente vemos onde foram colocados os “zilhões” de dólares gastos na produção. Vale dizer ainda que o romance de Will e Elizabeth resta poeticamente bem resolvido. Em síntese: a segunda metade do longa salva o todo de um naufrágio de proporções gigantes.

Naufrágio este que também não ocorre devido às ótimas atuações, seja do sempre brilhante Johnny Depp, como também de Geoffrey Rush, que está ótimo como Barbossa. Keyra também está competente (além de bela) além de todo o restante do elenco. Só Orlando Bloom é que continua com sua eterna “cara de nada”, tão expressivo nas telas quanto a seleção de futebol da Guatemala no cenário esportivo... Mas ainda há um detalhe especial a ser ressaltado no elenco: a breve participação de Keith Richards, o lendário guitarrista dos Rolling Stones, como pai de Jack Sparrow. E até sou capaz de afirmar: ele rouba a cena! É sabido que Depp se inspirou em Richards para compor seu pirata e a participação do guitarrista foi mesmo uma grande sacada da equipe!

Mas a verdade é que, no término da sessão, ficamos com a sensação que de o longa resultou bem aquém de suas possibilidades, perdendo-se em um roteiro atabalhoado que procura amarrar todas as pontas soltas deixadas pelo episódio 2, mas que só consegue ser confuso e arrastado durante um bom tempo, salvando-se no fim. Entre altos e baixos, o filme se salva, mas brilhando bem menos que seus predecessores. Vale dizer que entre os grandes lançamentos do “verão 3” dos EUA este é o está tendo a menor bilheteria, não só pela sua longa duração (o que possibilita um número menor de exibições por dia), como também pelas críticas pouco simpáticas que vem obtendo (muito embora Shrek Terceiro esteja recebendo espinafradas ainda maiores!). Esperamos que os produtores, caso desejem levar adiante a idéia de um “Piratas 4”, procurem corrigir os problemas apresentados neste, para que não vejam uma franquia tão interessante naufragar tragada pelo redemoinho da incompetência.

Por fim, uma observação: vale à pena esperar até o fim dos créditos para assistir à cena final. É bem interessante!


Cotação:

Nota: 7,0

domingo, 22 de maio de 2011

"A Árvore da Vida" leva a Palma de Ouro


Depois de um festival cheio de polêmicas, como as declarações nazistas de Lars Von Trier (numa queimada de filme histórica), o júri comandado por Robert De Niro anunciou hoje os vencedores do evento. A Palma de Ouro foi para "A Árvore da Vida", do lendário Terrence Malick, filme que provocou tumulto em sua primeira exibição e foi vaiado por muitos e aplaudido por outros tantos (e que estou ansioso pra ver!). Confira abaixo a matéria do portal IG.


"A Árvore da Vida" ganha Palma de Ouro em Cannes

Filme de Terrence Malick é o grande vencedor do festival em 2011

Orlando Margarido, especial de Cannes | 22/05/2011 15:06



A Palma de Ouro do 64ª Festival de Cannes foi para o filme "A Árvore da Vida", de Terrence Malick. Ele não veio a Cannes e foi representado por dois dos vários produtores envolvidos na fita, que tem entre os montadores o brasileiro Daniel Rezende - leia a entrevista exclusiva com Daniel Rezende. “Malick é um tímido incorrigível”, disse um dos produtores. A premiação terminou agora a pouco. Já o Grande Prêmio do Júri, o Grand Prix, foi dividido entre "Le Gamin au Véio", da dupla belga Jean-Pierre e Luc Dardenne e “Bir Zamanlar Anadolu’da”, do turco Nuri Bilge Ceylan.

Os irmãos Dardenne agradeceram o protagonista adolescente do filme Thomas Doret. Ceylan foi breve e parecia contrariado com a premiação. A melhor direção coube ao dinamarquês com carreira nos Estados Unidos Nicolas Winding Refn pelo filme "Drive". Ele lembrou especialmente o ator Ryan Gosling, seu protagonista, pela colaboração na realização do longa-metragem.

O prêmio de melhor ator e melhor atriz foram entregues a Jean Dujardin, protagonista da produção francesa "The Artist", e Kirsten Dunst, por "Melancolia", filme de Lars Von Trier. Ela agradeceu a possibilidade de poder mostrar tanto empenho no filme. Dujardin, astro na França, dividiu o reconhecimento com sua parceira na fita, Bérénice Bejo. “Eu também quero a receita desse prêmio para recebê-lo sempre”, completou. O concorrente israelense "Hearat Shulayim", de Joseph Cedar, teve reconhecido o roteiro. O diretor não estava na premiação e foi representado por uma integrante da equipe, que leu uma mensagem do realizador. O prêmio do júri foi para "Polisse", da diretora francesa Maïwenn. Muito emocionada e ofegante, ela agradeceu sua equipe de atores e técnicos, sua família e filhos.

O júri da competição oficial é presidido pelo ator Robert De Niro e formado pelo diretor francês Olivier Assayas, seu colega chadiano Mahamat –Saleh Haroun, que no ano passado recebeu o Prêmio do Júri por "Un Homme qui Crie", Johnnie To, realizador de Hong Kong, o ator Jude Law, as atrizes Martina Gusmán, argentina que é mulher do diretor Pablo Trapero, e Uma Thurman, a escritora norueguesa Linn Ullman, e por fim a produtora chinesa Nansun Shi.

A Caméra D’Or para o melhor diretor estreante foi dada a Pablo Giorgelli, pela co-produção hispano-argentina "Las Acacias", exibida na paralela Semana da Crítica, enquanto "Cross Country)", de Maryna Vroda levou a Palma de Ouro na categoria de curta-metragem.

Veja abaixo a lista com os vencedores do Festival de Cannes 2011:

Palma de Ouro: "A Árvore da Vida", de Terrence Malick
Atriz: Kirsten Dunst, por "Melancolia"
Ator: Jean Dujardin, por "The Artist"
Diretor: Nicolas Winding Refn, por "Drive"
Roteiro: "Hearat Shulayim", de Hearat Shulayim
Grande prêmio: "Le Gamin au Véio", de Jean-Pierre e Luc Dardenne, e "Bir Zamanlar Anadolu’da", de Nuri Bilge Ceylan
Curta-metragem: "Cross Country", de Marina Vroda
Prêmio Câmera de Ouro: "Las Acacias", de Pablo Giorgelli
Prêmio de júri: "Polisse", de Maiwenn Le Besc

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas




As aventuras de Indiana Sparrow ainda agradam


Desde o primeiro episódio da franquia “Piratas do Caribe” – mais precisamente “A Maldição do Pérola Negra”, de 2003 – a salas de exibição costumam ficar lotadas em suas sessões e, desta vez, não foi diferente. Sala cheia (acho que não cabia mais ninguém). A popularidade da série é tamanha que mesmo o apenas mediano terceiro episódio (“No Fim do Mundo”) não diminuiu a vontade do público de ver mais uma aventura encabeçada pelo Capitão Jack Sparrow, personagem que transformou Johnny Depp em uma super-astro de blockbusters, deixando de lado sua antiga aura de ator mais voltado para filmes alternativos e artísticos. Interessante que, no primeiro filme, o capitão surgiu como coadjuvante do casal central formado por Keira Knightley e Orlando Bloom, mas o talento e carisma de Depp acabaram por transformar Sparrow no verdadeiro protagonista da série e este quarto episódio, “Navegando Em Águas Misteriosas”, só atesta tal percepção.

A popularidade de Jack Sparrow atualmente se assemelha bastante ao Indiana Jones de Harrison Ford de duas décadas atrás. Ambos são reis das grandes aventuras, dotadas de um realismo fantástico que remete a um cinema mais antigo, que empolgava crianças e adolescentes em um tempo em que ainda não havia televisão ou games. Os dois protagonistas também são espirituosos, sempre com a piada certa para o momento certo, além de serem famosos em seu “meio profissional”. Talvez então não seja coincidência que a trama desta nova sequência lembre bastante aquelas do arqueólogo caçador de relíquias perdidas. No presente caso, Sparrow alia-se a outros piratas, entre eles Barbossa (Geoffrey Rush, sempre com sua competência inquestionável) e Barba Negra (Ian McShane) – cada qual com suas motivações – em busca da Fonte da Juventude. Eles ainda correm para chegar ao objetivo antes dos espanhóis, que também estão à procura da tal fonte. Para que a água da fonte surta seu efeito, entretanto, é necessário que ela seja bebida juntamente com uma lágrima de sereia e em cálices que se encontram no velho navio naufragado comandado pelo lendário Ponce de León. Ou seja, em vários aspectos a narrativa lembra “Os Caçadores da Arca Perdida” ou “A Última Cruzada”, longas protagonizados pelo Dr. Henry Jones Jr. Até mesmo a personagem Angélica (Penélope Cruz, que estava grávida durante as filmagens), filha de Barba Negra e que é um antigo amor de Sparrow, parece bastante com a Marion da franquia Indiana Jones, até mesmo porque os dois vivem aquele romance estilo gata-e-rato, cheio de cinismo e sentimentos (mal) disfarçados.



Mas isso não é exatamente um demérito. Afinal, não há estória que já não tenha sido contada, o que importa é a forma de contá-la. E não se pode negar que o diretor Rob Marshall conseguiu sucesso na empreitada. Marshall, conhecido pela direção de musicais como “Chicago”, sofreu com a desconfiança de muitos que viam na saída de Gore Verbinski, diretor dos três primeiros episódios, um risco para a franquia. Só que há um detalhe importante que talvez passasse despercebido por estes “muitos”. “Piratas do Caribe” é uma série cinematográfica produzida por Jerry Bruckheimer e é bom lembrar que ele faz o estilo dos produtores da antiga Hollywood, controlando todas as fases do processo de produção. Um filme produzido por Bruckheimer é eminentemente um filme de Bruckheimer, assim como um filme produzido por David O. Selznick era um filme de Selznick. Assim, quase não se sente a mudança de direção, tendo o longa uma dinâmica muito semelhante às dos dois primeiros episódios.

Estão lá a ação quase constante, o humor rápido e espirituoso, a trilha sonora que acompanha praticamente toda a projeção, a edição bem realizada que dá lhe dá um ótimo ritmo, o roteiro (escrito por Ted Elliot e Terry Rossio) muito bem amarrado, além do bom desempenho do elenco. Neste aspecto, contudo, Depp parece estar menos entusiasmado que nos outros filmes (alguns diriam que está mais contido). Seus passos bêbados parecem não estar tão bêbados assim e suas tiradas cômicas estão mais esparsas (ou será que o próprio personagem, com a perda da “novidade” já não rende mesmo tão boas risadas quanto antes?). A maior parte dos seus bons momentos são aqueles em que contracena com Penélope, cujo sotaque carregado caiu como uma luva dentro do contexto divertido da série.

Por outro lado, a mão de Bruckheimer pode atuar tanto para o bem quanto para o mal. Apegado aos números de bilheteria, ele nunca vai deixar de fazer seus subordinados inserirem elementos de roteiro aptos a agradar ao grande público, como o romance até simpático, mas também previsível e desnecessário entre o missionário religioso Phillip (Sam Claflin) e a sereia Sirena (Astrid Bergès-Frisbey). Além disso, ele aparentemente retirou por completo a liberdade de Marshall. Conhecido por seu uso vibrante de cores, o diretor trabalhou aqui com imagens em boa parte escuras e pouco saturadas, caindo, neste ponto, na vala da mediocridade que domina as produções atuais. E aí vai a pergunta: com cenários tão belos à disposição (o filme foi rodado em boa parte no Havaí e em Porto Rico), pra que reduzir a paleta de cores, deixando de explorar o grande potencial de tais locações? Pergunta sem resposta (ou talvez seja melhor nem procurar a resposta). Todavia, o uso de efeitos especiais alcança níveis de excelência, como na sequência do ataque das sereias (vai se tornar memorável, sem dúvida).

“Piratas do Caribe – Navegando Em Águas Misteriosas” tem tudo para trazer lucros, apesar de seu pomposo orçamento (US$ 200 milhões). Apesar dos pesares relatados acima, ele é divertido e envolvente, resultando em um longa superior ao insosso e aborrecido terceiro episódio. A insistência de Bruckheimer na mesma fórmula, contudo, pode trazer danos significativos à franquia. Acredito até que a Disney deveria dar um tempo e fazer com que o público comece a sentir saudades das aventuras de Jack Sparrow (e também o próprio Depp, que está relutante em assinar para um quito capítulo), sob pena das águas misteriosas em que navega acabarem se transformando em águas turbulentas, dado o inevitável cansaço que os espectadores irão sentir diante do marasmo que pode acabar por engolir a série.

Obs. 1. Há duas participações especiais no longa. Keith Richards faz uma curta sequência como o pai de Jack e Jude Dench aparece em uma cena logo no início da projeção.

Obs. 2. Como é tradicional na franquia, há uma cena pós-créditos.


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 21 de maio de 2011

(500) Dias Com Ela



Reinventando a comédia romântica


É comum nos sentirmos sozinhos em momentos de dificuldade, seja ela de que natureza for, de saúde, familiar, econômica, profissional ou mesmo amorosa. Já houve quem dissesse que todo ser humano, mesmo que não seja um solitário, estará sempre sozinho, pois nunca será inteiramente compreendido por outro semelhante, uma vez que somos singulares, únicos, cada qual com uma maneira própria de enxergar a vida e o mundo. Em decorrência de tal condição, normalmente ficamos felizes quando vemos que outras pessoas já viveram momentos difíceis semelhantes aos nossos, agindo e reagindo de maneira também similar à nossa. Acredito que a frase “não estou sozinho” deve ter passado pela cabeça de muitos que viram “(500) Dias Com Ela”, um filme peculiar que trata de forma sincera, leve e inteligente as desventuras dos apaixonados.

A identificação dos espectadores com as situações retratadas no filme pode ser tão direta e imediata que, já em sua sequência inicial, aparecem na tela legendas esclarecendo, com acentuado bom-humor, que os fatos narrados são ficcionais, não correspondendo a nenhuma história real e específica. Realmente, é quase impossível que você não tenha passado por ao menos uma das situações tragicômicas vividas pelo personagem de Tom (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, que encontra o tom certo entre a comédia e o drama) ao longo dos 95 minutos de projeção (sim, o filme é enxuto). Estão lá as expectativas frustradas; as dicas furadas de amigos (por mais que seja boa a intenção que eles tenham) ou ainda as tentativas meio tolas de chamar a atenção daquele(a) que lhe rouba a atenção. Tudo está lá e colocado de uma maneira tão trivial, simples, que nos traz uma perspectiva de realidade incomum em um cinema dominado por comédias românticas clichês.

A verdade é que “(500) Dias Com Ela” foge do clichê até mesmo em sua estrutura narrativa não-convencional. A tradicional fórmula “boy meets girl” é subvertida, trazendo um novo jeito de contar uma estória há muito desgastada. Como se sabe, não existe história que já não tenha sido contada. O diferencial que distingue um autor de outros é maneira de narrar essa trama. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor Marc Webb (que está atualmente dirigindo o remake desnecessário do Homem-Aranha) é muito feliz, trazendo novos ares para o gênero a partir do roteiro criativo escrito a quatro mãos por Scott Neustadter e Michael H. Weber. Na própria cronologia da obra já é vista uma peculiar alteração: os tais 500 dias em que Tom se vê apaixonado por Summer (Zooey Deschanel, que além de atriz também é cantora) não são exibidos em ordem cronológica, mas (quase) aleatória. Em dada cena, assistimos a um dia já próximo do fim do relacionamento e, em seguida, pode ocorrer um salto para o início. Tudo sem que percamos a compreensão do que acontece, afinal o mais importante são os sentimentos de Tom e não os fatos em si. Entretanto, é possível que a maior subversão proposta pelo longa seja a dos papeis do homem e da mulher no relacionamento. Ao contrário do que comumente ocorre, Tom é que representa o lado mais frágil da relação, inseguro e romântico, enquanto Summer é confiante e mantém um certo distanciamento, evitando mergulhar de cabeça em uma paixão. Ou seja, retrata-se uma relação antenada com os novos costumes de nossa sociedade, onde os estereótipos estão cada vez mais obsoletos.


Entretanto, embora seja prazeroso e divertido acompanhar as venturas e desventuras de Tom, o roteiro, apesar de sua estrutura original, ainda se vale de algumas muletas narrativas que incomodam. A personagem da menina adolescente (papel de Chloe Moretz) que é mais “experiente” e “sábia” do que todos os outros personagens adultos é recurso já há muito desgastado e, ironia das ironias, a partir de certo ponto alguns acontecimentos se tornam previsíveis, tal como o desfecho do longa. Além disso, o uso constante de referências à cultura pop (como ao grupo Belle & Sebastian, The Smiths e aos próprios Beatles) é algo que também já está caindo no lugar-comum e dá a impressão de que Webb queria com isso apenas atribuir um ar mais “descolado” ao filme, muito embora não deixe de ser uma opção que sempre agrade aos fãs (e eu me incluo entre eles). Talvez sejam tiques de um diretor egresso do mundo dos videoclipes e, inevitavelmente, acabem interferindo no desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica, mas não se pode negar que em alguns momentos ele obtém muito sucesso com essa linguagem, como na conhecida sequência em que se mostra o estado de espírito de Tom após sua primeira noite com Summer.

Apesar de algumas ressalvas, é indubitável que “(500) Dias Com Ela” presta uma preciosa contribuição a um cinema contemporâneo que pouco se esforça em trazer algo de novo para o público, dando um belo sacolejo na preguiça reinante. Ademais, se você estiver passando por um período de dor-de-cotovelo provavelmente irá considerar esta película como uma verdadeira obra-prima. Com olhos mais distanciados, provavelmente não enxergará tanto, mas será impossível deixar de apreciar. Um filme inteligente sobre o amor, algo difícil nos dias de hoje, sempre será bem-vindo.


Cotação:

Nota: 9,0