quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Brave": poster e teaser trailer


Enquanto o primeiro grande fiasco da Pixar está em exibição nos cinemas (preciso dizer que se trata de "Carros 2"?), foram divulgados o primeiro poster e o primeiro trailer de sua próxima produção, "Brave". Aparentemente, o filme promete honrar o nome do estúdio de John Lasseter e fazer o público esquecer desse tropeço de 2011. A trama do novo longa se passará nas místicas montanhas da Escócia, onde Merida é a princesa do reino governado pelo Rei Fergus e a Rainha Elinor. Filha rebelde e ótima arqueira, Merida acaba por fazer escolhas erradas que colocam o reino e os seus pais em perigo. Ela vai ter que lutar contra as forças da natureza, magia e uma antiga maldição, tudo para poder salvar o seu reino. O poster você já viu acima e o trailer você pode conferir logo abaixo. Aguardando!


domingo, 26 de junho de 2011

Restaurando a Película



Meus Vizinhos São Um Terror
(The 'Burbs)


Do tempo em que Tom Hanks fazia rir


Quem é cinéfilo deve se lembrar do início da carreira de Tom Hanks. Antes de ser uma astro do primeiro escalão de Hollywood, ele atuava em comédias de orçamento mediano. Ficou famosa sua parceria com Meg Ryan em “Sintonia de Amor” (Sleepless In Seatle), uma das melhores comédias românticas a que já tive oportunidade de assistir. Sua identificação com a comédia era tão forte que, quando ele foi indicado para o Oscar de melhor ator por um drama pesado, “Fildélfia”, encarei a notícia com profunda estranheza na época. “Aquele ator de 'Meus Vizinhos São Um Terror' vai levar um Oscar?! Nossa!”... Você não conhece “Meus Vizinhos São Um Terror”? Trata-se de uma comédia-suspense protagonizada por Hanks em 1989. Passou repetidas vezes na “Sessão da Tarde” e eu o considerava um barato. Ri muitas vezes com aquela trama curiosa dos vizinhos que, desde a mudança de novos moradores para uma casa mal cuidada do bairro, passam a bisbilhotar a vida destes. E, vendo hoje, com um olhar mais adulto e crítico, percebi que o filme resistiu muito bem ao tempo e pude verificar, ademais, as fortes referências ao mestre Alfred Hitchcock que possui tanto no roteiro quanto nos aspectos técnicos.

A começar pelo protagonista. Interpretado por Tom Hanks, Ray Peterson está de férias, sem dinheiro para viajar e cansado de ir à sua casa de campo em uma localidade próxima. Logo, passa os dias bisbilhotando a vida dos vizinhos (é bom lembrar que na época não havia internet) e, especialmente, começa a perceber que os novos moradores da casa ao lado, os Koplek, são estranhos além da conta. Passam os dias trancados em casa e cavam buracos no quintal durante a noite. Ajudado por seus vizinhos, e depois do sumiço de um deles, Ray resolve investigar o comportamento dos estranhos e descobrir se eles estão envolvidos com o desaparecimento. Como se percebe; a relaação com o personagem L. B. Jeffries de James Stewart em “Janela Indiscreta” é, desta forma, óbvia. Mas a recauchutagem promovida pelo diretor Joe Dante (seu trabalho mais famoso é “Gremlins”) é que torna a experiência divertida. Ele eleva o suspense, tanto por meio de recursos como closes e slowmotion ou levando a trilha sonora ao último volume, ao nível da caricatura, arrancando inevitavelmente o riso do espectador. Dante soube, ademais, utilizar muito bem o potencial imagético da trama. Claro que não chega à maestria de Hitchcock, mas o diretor mostra competência na utilização da câmera. Ademais, os tais Koplek também são caricaturados, o que acentua ainda mais o tom cômico daquilo que primordialmente deveria ser um suspense. Muito embora o roteiro (escrito por Dana Olsen, que participa em cena como um policial) tenha lá suas falhas, ele se desenvolve a contento e mantendo sempre o interesse do público no seu desenrolar.


Por outro lado, os personagens também são bem caracterizados e não deixa de ser um barato observar seus intérpretes com o olhar de hoje. Estão lá, além de Hanks, Carrie Fisher, a eterna pincesa Leia da saga Star Wars (não deu para fugir do chavão), como a esposa de Ray, além de Corey Feldman, ator adolescente quase que onipresente nas produções voltadas para o público mais jovem nos anos 80. Fazendo um garoto que passa os dias observando o movimento do bairro, chamando seus amigos para acompanhar aquilo que afirma ser “melhor do que cinema”, ele é sempre uma presença carismática, assim como Bruce Dern fazendo o caricato militar Rumsfield.

O longa, vale dizer, também pode ser visto como uma obervação e comentário sobre a vida nos subúrbios estadunidenses, então ocupados por uma classe média conservadora que via na estranheza um motivo de preocupação (não é à toa que seu título original poderia ser traduzido como “Os Suburbanos). Neste ponto, todavia, talvez o filme tivesse mais sucesso em sua crítica caso o desfecho tomasse um outro rumo do que foi realizado. De qualquer forma, se você pretende apenas ver uma comédia sem maiores consequências, esta é uma boa pedida. O citado “Gremlins”, ademais, é mais feliz e marcante em seu humor negro para o grande público. Mas, mesmo não sendo nada que vai mudar sua vida, “Meus Vizinhos São Um Terror” é um filme que lhe traz um ótimo entretenimento ao longo de 101 minutos de projeção, merecendo ser resgatado do esquecimento e figurar entre as boas lembranças do cinema oitentista. Ah, e também é bom ver Tom Hanks em um tempo em que ele tinha vontade de atuar...


Cotação:

Nota: 7,5

sábado, 25 de junho de 2011

Quero Ver Novamente #12

Se pedirem para eu escolher a melhor sequência de créditos que já vi em um filme, certamente optarei pela de "Prenda-me Se For Capaz". Um verdadeiro curta de animação inserido no filme e que, observando atentamente, consegue sintentizar toda a sua trama. E isso com a trilha sonora genial de John Williams, na minha opinião uma de suas melhores composições. Por sinal, o longa é uma joia de Steven Spielberg não muito conhecida do grande público. Está entre os meus preferidos do diretor. Veja abaixo essa forma inteligentíssima de apresentar os créditos ao espectador!


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris



A Rosa Púrpura do Cairo + Manhattan = Um belo filme


Se você já assistiu a “A Rosa Púrpura do Cairo”, longa-metragem de Woody Allen realizado em 1985, provavelmente também irá apreciar este seu novo trabalho, “Meia-Noite Em Paris”, cuja premiére mundial aconteceu no último Festival de Cannes. Tanto um como outro utilizam-se de componentes imaginários, surreais, para compor sua narrativa. Em ambos, o velho Allen enfrenta a necessidade que frequentemente sentimos de fugir da realidade em que vivemos, comumente dura demais e insatisfatória. Se no filme protagonizado por Mia Farrow sua personagem mergulha na fantasia do cinema para esquecer a realidade, neste “Meia-Noite Em Paris”, o Gil de Owen Wilson deseja viver em um tempo que não é o seu. E consegue.

Gil Pender é um romancista frustrado. Seu grande sonho é a literatura, da qual ele abriu mão para escrever roteiros para o cinema, já que é mais fácil ganhar dinheiro trabalhando para Hollywood do que vendendo livros. Ele está de férias em Paris acompanhado de sua noiva Inez (Rachell McAdams) e da família desta, vivenciando dias na cidade que sempre habitou o seu imaginário e para a qual planeja se mudar para que tenha uma maior inspiração para o seu livro em andamento. Gil considera os anos 20 da capital francesa como a melhor época e lugar para se viver que já existiram, o tempo em que seus ídolos literários e artísticos estavam em plena atividade. Em uma noite, Gil resolve voltar a pé para o hotel, e sozinho, já que sua noiva não compartilha de sua ideias românticas de caminhadas ao ar livre pela Cidade Luz. No caminho, surge um antigo táxi cujos passageiros o convidam para um passeio e, de repente, Gil se vê na era dos seus sonhos. Lá ele encontra nomes como Ernest Hemingway (Corey Stoll), F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), o cineasta Luis Buñuel, Pablo Picasso e Salvador Dalí (Adrien Brody), entre outros, além de um novo interesse romântico na figura de Adriana, personagem da sempre encantadora Marion Cotillard.

Logicamente, como em todo filme de Allen, há muito dele mesmo nos sentimentos e pensamentos representados na tela. Como se sabe, Allen é um leitor voraz e, provavelmente, sempre nutriu o desejo de seguir uma carreira literária mais prolífica e profunda. Fica nítido que ele acabou se rendendo aos roteiros cinematográficos por terem um resultado financeiro maior e mais imediato. Ademais, o diretor não é apenas um comediante, mas também um grande investigador de nossas fraquezas e limitações humanas. Aqui ele analisa nossa eterna insatisfação com a realidade que vivemos, normalmente cruel demais, o que nos faz romantizar e deseja viver em outras eras (eu mesmo tenho uma certa fascinação pelos anos 60). No fundo, uma forma de escapismo disfarçada, um engano que muitas vezes não conseguimos enxergar. Assim também como é a relação de Gil com sua noiva Inez. Talvez levado pela sua beleza e sensualidade, Gil não consegue perceber que ela, uma mulher superficial, não é a pessoa adequada para dividir sua vida. E quantas vezes nós mesmos já não estivemos mergulhados nesses enganos? De uma forma ou de outra, parece que estamos sempre querendo esquecer ou não enxergar a realidade em que estamos, iludidos por uma falsa sensação de felicidade.


Temas tão complexos, porém, são abordados com a leveza habitual dos longas com a assinatura de Woody Allen. Várias são as passagens divertidas, com aquele humor inteligente típico do autor, todas com supedâneo em um ótimo elenco. Apesar de emular a persona cênica de Allen, nunca havia assistido a uma atuação tão boa de Owen Wilson. Acredito até que Allen deveria repetir a experiência e convidá-lo a representar seu alter-ego em outras oportunidades. Rachell McAdams, todavia, apesar de bela e especialmente sensual, tem um personagem ingrato que acaba por nos gerar uma certa antipatia, o que, em verdade, talvez seja um sintoma de sua boa atuação. Já Marion Cottilard está ótima como de costume, ficando fácil entender o imediato interesse de Gil por ela. Além desses, destacam-se o mencionado Brody, impagável como Salvador Dalí, Corey Stoll como Hemingway e Khaty Bates como a escritora Gertrude Stein, a qual acaba avaliando o inacabado romance de Gil (há ainda uma participação da primeira-dama da França, Carla Bruni). O aspecto leve do roteiro ainda é complementado pelas tiradas que mostram o protagonista influenciando na criação de futuras obras dos artistas inseridos na trama. Contudo, tais recursos não deixam de trazer um certo hermetismo ao loga, já que o espectador precisará de uma base cultural bastante razoável para compreender plenamente as nuances do roteiro.

Por outro lado, se “Midnight In Paris” traz várias lembranças de “A Rosa Púrpura do Cairo”, também não se pode negar que “Manhattan”, outro clássico absoluto do velho Woody, também parece deixar suas marcas aqui. Sua introdução, mostrando o dia-a-dia de Paris e dos parisienses lembra muito o princípio do já clássico filme de 1979. Mas não só isso. Ambos os longas promovem uma ótima viagem introspectiva, em busca das repostas para o eterno vazio presente nos seres humanos. Na maioria dos filmes de Woody, ele nos oferece uma conclusão otimista. Neste, assim como em “Manhattan” essa linha é seguida e no desfecho saímos com a alma suave da sala de projeção. As obras deste gênio nos mostram que a vida pode ser bem menos complicada do que parece, basta usar a inteligência e ouvir o coração.


Cotação:

Nota: 9,0

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris será exibido em Natal! (???)


Eu levei um susto quando, agora há pouco, vi que a programação do Cinemark do Shopping Midway Mall para a próxima semana inclui "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen. Um filme de Allen ter sua exibição em Natal na mesma data da estreia em circuito nacional é um fato extremamente raro (se não for inédito)! Parabéns aos exibidores por acreditarem que nem só de blockbusters vive o cinema. Agora é conferir e prestigiar!

Ah, e esse poster, que combina uma imagem do filme com a tela "A Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh, merecia estar na série "Eu quero esse poster". Genial!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Trilha Sonora #17


"Suplício de Uma Saudade" (Love Is A Many Splendored Thing, 1955) não é exatamente um grande filme. É cheio de altos e baixos, intercalando belas cenas românticas (não se pode negar que a fotografia é ótima) com algumas outras que descambam para a cafonice. De qualquer forma, a história de amor protagonizada por Jennifer Jones e William Holden acabou por se tornar inesquecível devido ao seu final, belamente trágico, e que o faz deixar de ser um longa apenas mediano e ganhar um status verdadeiramente cult. Outro fator importante para torná-lo memorável é sua linda trilha sonora, composta por Alfred Newman, que nos legou a belíssima canção-título (vencedora do Oscar) e que você pode ouvir clicando abaixo, em mais uma das interpretações marcantes de Nat King Cole, a mais bela voz da música popular em todos os tempos (os fãs de Sinatra que me perdoem...)!



domingo, 5 de junho de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Dr. Jivago
(Dr. Zhivago)


O público tinha razão



O conflito entre público e crítica sempre existiu na história da sétima arte e, talvez, com uma intensidade ainda maior do que em qualquer outra forma de expressão artística. No cinema, a crítica sempre teve um papel muito forte, muitas vezes determinando o sucesso ou o fracasso de um longa-metragem. Não é à toa que no mundo cinematográfico as premiações sempre acabam por trazer uma sensível adição de interesse por um filme. Basta o longa ser premiado com alguns prêmios da Academia de Hollywood ou uma Palma de Ouro em Cannes que o desejo de vê-lo já é despertado em muitos, como se tais prêmios fossem um atestado de qualidade da obra em questão, o que nem sempre ocorre, como sabemos (só a título de comparação: que diferença faz para você se um disco ou cantor ganhou ou não ganhou um Grammy?). Em alguns casos, porém, o grande público acaba ignorando obras excelentes e amadas pelos críticos - como os filmes de Ingmar Bergman, para citar um exemplo claro. Por outro lado, algumas vezes o público presta reverência a filmes não muito queridos ou mesmo apedrejados pela crítica, o que faz com que uma parcela de apreciadores do cinema acabe esnobando aquilo que tem um apelo popular mais evidente.

Um filme que se mostra como notável exemplar do conflito entre público e crítica é justamente “Dr. Jivago”, uma megaprodução dirigida por ninguém menos que David Lean. Quando do seu lançamento, em 1965, muitos críticos torceram o nariz para o que consideraram pieguices, pouco apuro na reconstituição de época (os cenários teriam sido feito “às pressas”) e pouca profundidade no trato do contexto político. Algumas críticas foram tão virulentas que trouxeram desgosto a Lean, levando o diretor a pensar em se afastar do ofício (e graças a Deus ele não levou a ideia adiante). Em contrapartida, o público lotou as salas, fazendo da história de Yuri Jivago um grande sucesso. Até hoje o filme é amado por muitos espectadores, os quais costumam sempre dar boa audiência às reprises televisivas. E, ressalte-se, com muita razão.

“Dr. Jivago” é, de fato, um super-espetáculo cinematográfico. Poucas são as oportunidades de vermos, em um único filme, uma sucessão tão grande de imagens estonteantes, com grandes atuações, além de uma reconstituição de época preciosa (ao contrário do que os críticos tacanhos afirmaram à época do seu lançamento). David Lean foi, possivelmente ao lado de Stanley Kubrick, o cineasta mais perfeccionista dentre os cineastas perfeccionistas. Entretanto, diferentemente do diretor de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, conhecido pelo teor cerebral de seus longas, Lean deixava a emoção correr solta em suas obras. Ele, ademais, parecia ter alguma fixação com amores impossíveis, corações divididos. Em vários aspectos, “Dr. Jivago” me faz lembrar “Desencanto” (Brief Encounter), filme de Lean realizado em 1945. Contudo, se este último possui contornos mais intimistas, o filme de 1965 é um verdadeiro épico, até mesmo pelas suas pretensões e conotações também político-históricas. Aqui, Lean não se presta “apenas” (assim mesmo, entre aspas, pois que “Desencanto” é um longa excepcional) a narrar um romance. Ele ambiciona retratar também o momento histórico vivido pela Rússia quando revolução comunista de 1917, buscando estudar os reflexos desta convulsão política na sociedade e, mais ainda, como ela afetou a individualidade de seus integrantes. Essa visão orgânica de indivíduo-coletividade permeia toda a sua extensa duração, constituindo um dos grandes trunfos da produção.


O roteiro de Robert Bolt adapta o romance de Boris Pasternak, que acabou levando o Nobel de Literatura devido a ele, mas sendo proibido de recebê-lo pelo Partido Comunista soviético. Não conheço a biografia de Pasternak, mas só este fato já mostra que muito da narrativa de sua obra tem contornos bastante pessoais. Não é à toa que seu Yuri Jivago (no filme interpretado pelo egípcio Omar Shariff), além de médico, é também poeta. Idealista e sensível, ele nutre simpatia pela causa socialista, a despeito de pertencer a uma camada privilegiada da sociedade. Todavia, ao longo do processo revolucionário, acaba se deparando com violências e arbitrariedades que tornam a nova ordem social bastante semelhante à primeira. Arbitrariedades tais que suprimem sua criatividade, já que o governo revolucionário considera sua obra muito “pessoal”, “burguesa”, extravasando sentimentos íntimos (considerados “individualistas”) em detrimento de uma arte voltada para a coletividade. Estabelece-se, então, o conflito indivíduo-sociedade, embate este insolúvel, pois que um não existe sem o outro. De maneira instigante, o filme tece fortes críticas tanto ao czarismo feudal de outrora, quanto ao comunismo castrador nascente, demonstrando o quanto circunstâncias histórico-sociais podem acabar afetando irremediavelmente a vida pessoal dos indivíduos. A vida íntima de Jivago, por seu turno, representa bem essa cisão experimentada pela própria Rússia. Dividido entre o sentimento tranquilo por sua esposa, Tonya (Geraldine Chaplin, filha de Charles Chaplin), e a paixão por Lara Antipova (Julie Christie, belíssima, em um papel que lhe alçou à condição de estrela), a oscilação do médico-poeta coloca-se como marcante metáfora para o momento vivido pela sociedade russa – e que talvez tenha passado despercebida pelos críticos míopes do seu tempo.



Todavia, Lean não se conforma em realizar um épico histórico. O longa possui uma carga sentimental acentuada, um dos motivos, por sinal, que o tornou tão popular. Longe de fazer julgamentos acerca das fraquezas dos personagens, a narrativa, muito pelo contrário, procura entender as motivações do seu comportamento, ao mesmo tempo em que também não busca justificá-los. Narrado em flashback pelo meio-irmão de Jivago, Yevgraf (Sir Alec Guinness), o roteiro acaba por se constituir em três atos para melhor apresentar a trama e seus personagens. Na primeira parte, ocorre uma atenção maior para Lara e sua intrincada relação com Victor Komarovsky (Rod Steiger, um pouco exagerado, mas ainda assim eficiente), aristocrata de poucos escrúpulos de quem se torna amante, apesar de estar noiva de Pasha (Tom Courtenay). Em um segundo ato, mais focado em Jivago, vemos o nascimento de seu tranqüilo casamento com Tonya, ao mesmo tempo em que ele acaba convocado para servir como médico na Primeira Guerra Mundial, ocasião em que acabará conhecendo Lara, a qual serve como enfermeira no front. É no terceiro ato que acompanhamos o nascimento e cisão do romance entre os dois que, no fim, termina por adquirir contornos trágicos. É triste, realmente consternador, perceber como os personagens acabam infelizes em decorrência tanto de suas próprias fraquezas, quanto da inevitabilidade de fatos que fogem ao controle de todos.

Ademais, toda essa narrativa carregada de História e sentimentalidades é exibida com uma carga imagética poucas vezes igualada ao longo de décadas de arte cinematográfica. Várias são as cenas e sequências marcantes, inesquecíveis, daquelas que grudarão na sua mente por muito tempo, como a travessia das paisagens nevadas dos Urais na interminável viagem de trem (ocasião em que Klaus Kinski faz uma breve, mas marcante participação); a investida das tropas do czar contra os manifestantes nas ruas de Moscou, oportunidade em que Lean não necessita mostrar a violência na tela para conseguir nos transmitir todo o horror do acontecido; a corrida de Jivago no interior do palacete congelado de Varykino, buscando enxergar Lara, que está partindo... Bem, eu poderia escrever mais algumas páginas apenas descrevendo belas cenas deste filme, mas vamos nos poupar, pois melhor do que ler a descrição é ver, ou rever, ditas sequências. Só a acrescentar, ainda, a importância da magnífica trilha sonora, cujo tema central (o famoso “Tema de Lara”), composto por Maurice Jarre, tornou-se uma das mais lembradas e populares trilhas já concebidas.

Detentor de múltiplas leituras, “Dr. Jivago” pode ser visto ora como um filme de estudo histórico-político, ora como uma jornada passional. O que não se duvida é que ele constitui uma verdadeira obra-prima e que o tempo mostrou que o público, ao menos neste caso, tinha plena razão ao consagrar nas bilheterias o talento de David Lean. Hoje, este é um filme querido de muitos, enquanto os críticos que o espezinharam são lembrados por poucos.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 4 de junho de 2011

X-Men - Primeira Classe



De primeira classe!


Em 2000, Bryan Singer levou os filmes baseados em histórias em quadrinhos a um novo status. A despeito das dúvidas e incredulidade de muitos, que achavam difícil transpor para as telas o universo dos “X-Men” com a qualidade técnica necessária, mas, principalmente, a carga dramática característica dos mutantes, Singer foi extremamente bem sucedido em sua adaptação. E quando falo em “carga dramática” não é à toa. Entre os tradicionais heróis tanto do universo Marvel quanto da DC (as maiores editoras de quadrinhos dos EUA), certamente os mutantes são aqueles com maior densidade psicológica, dada a questão central que permeia as suas tramas: o preconceito (acredito que apenas Batman, na DC, se equipare neste aspecto, mas com outras motivações e temáticas). Singer, todavia, encarou muito bem o desafio e nos trouxe um ótimo filme, cheio de ação, mas sem nunca perder o foco dos dramas pessoais vividos por seus personagens. O sucesso em qualidade se refletiu também em sucesso de público, catapultando Hugh Jackman, com sua caracterização perfeita de Wolverine, ao estrelato e gerando mais duas continuações diretas, além de uma prequel exclusiva do citado Wolverine. Com o segundo episódio, vale salientar, Singer conseguiu superar o primeiro, tanto em termos técnicos quanto no aprofundamento dos conflitos, fazendo de “X-Men 2” um dos melhores filmes de super-heróis até hoje realizados. Após se afastar da franquia para assumir a direção de “Superman – O Retorno” (um dos seus antigos sonhos era dirigir um filme do homem de aço), Singer retorna agora ao universo mutante, mas como produtor, deixando a direção para um dos nomes promissores da Hollywood atual, Matthew Vaughn (que dirigiu anteriormente “Kick Ass – Quebrando Tudo”). A missão de ambos era dar um novo fôlego à série, cujo terceiro episódio (“O Confronto Final”), dirigido por Brett Ratner, não teria apresentado resultado tão satisfatório quanto os seus dois predecessores (está um pouco abaixo, realmente, mas, na minha opinião, ainda é muito bom).

O conceito de “X-Men – Primeira Classe”, o qual consiste em revelar as origens dos conflitos desenvolvidos na série e de alguns dos personagens já conhecidos do público, mormente o Professor Charles Xavier e seu amigo-inimigo Magneto, teve início com um projeto para um filme solo do famoso mutante mestre do magnetismo. Felizmente, perceberam que um filme de Magneto sem a presença de Charles Xavier seria um tiro na água e a ideia evoluiu para um contexto mais amplo, qual seja, mostrar como nasceu a tal amizade-inimizade entre os dois, além da escola para jovens superdotados gerida pelo professor.

É com esse intuito que somos levados aos anos 60, não sem antes acontecer uma passagem pelos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. É neles que o garoto Erick Lehnsherr (interpretado já adulto pelo excelente ator alemão Michael Fassbender) vê sua mãe ser assassinada por um nazista, o cientista Sebastian Shaw (Kevin Bacon), o qual já havia percebido os poderes magnéticos do menino. A vingança torna-se, desta forma, a obsessão de sua vida e é em busca dela que Erick acaba esbarrando em Charles Xavier (o sempre ótimo James McAvoy), ainda um jovem professor estudioso das mutações genéticas. A amizade entre os dois levará à busca de jovens mutantes (à serviço da CIA, convencidos pela agente Moira MacTargget) e criação da tal escola para superdotados, ensinando-os a canalizar seus poderes e oferecendo uma convivência com outras pessoas também detentoras de habilidades especiais. A trama mutante tem como pano de fundo os fatos reais acontecidos na década de 60, principalmente a crise dos mísseis em Cuba, a qual acaba servindo também como força motora de vários aspectos da narrativa (com direito até a inserções de imagens de John Kennedy na projeção). O resultado, e isso afirmo como apreciador não só da franquia cinematográfica como também das HQs, é vibrante e, por vezes, emocionante.


O roteiro, escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e o próprio cineasta Matthew Vaughn , é realmente ótimo e muito feliz em realizar uma verdadeira fusão entre elementos ficcionais e verídicos. Além disso, sabe equilibrar quase à perfeição os momentos de ação e reflexão. Aliás, neste último aspecto, este é o filme ao mesmo tempo mais reflexivo e introspectivo de toda a série, onde se percebe uma verdadeira aula de como se fazer uma aventura cheia de neurônios. Se a metáfora do preconceito está presente em todos os episódios, aqui, ressalte-se, ela é trabalhada de maneira ainda mais sólida e consistente, principalmente através dos ricos diálogos entre Xavier e Magneto (que estão entre os melhores momentos do longa, vale dizer). A força deste manifesto anti-preconceito é ainda corporificada nos personagens de Mística (Jennifer Lawrence, de “Inverno da Alma”, bonita e talentosa) e Hank McCoy, o Fera (Nicholas Hoult, muito competente), cujas mutações também lhes confere uma aparência física “diferente”, o que redunda em um sentimento de exclusão ainda mais forte do que os dos outros mutantes.

Claro que toda a carga dramática do filme cairia no descrédito não fossem as ótimas atuações do elenco. Difícil afirmar quem está melhor em tela. Tanto McAvoy quanto Fassbender dão um show de competência como Charles Xavier e Erick Lehnsherr, respectivamente. Fassbender deverá, inclusive, deixar de ser um ator pouco conhecido para construir uma carreira sólida em Hollywood, não tenho dúvidas. Mesmo Kevin Bacon, um ator cheio de altos e baixos, está ótimo como o pedante Sebastian Shaw, um dos vilões mais marcantes das antigas estórias dos X-Men, quando estes viviam seus embates contra o Clube do Inferno. Por outro lado, fica a desejar a caracterização de Emma Frost, a Rainha Branca do clube e esposa de Shaw, aqui interpretada por January Jones. Lembrada nos quadrinhos não apenas por sua beleza e sensualidade, mas também por sua inteligência e personalidade manipuladora, ela aparece na projeção sem destaque para essas duas últimas características, quase se transformando em uma loira de butique, o que é uma pena.

Além da pobreza desta transposição de Emma Frost, o roteiro ainda peca por se utilizar da velha muleta de apresentar os mutantes e seus poderes de forma muito didática (um verdadeiro lugar-comum em filmes de super-heróis). O didatismo aqui se torna ainda mais acentuado até mesmo devido às técnicas de controle desenvolvidas na escola de Charles Xavier. Ademais, os efeitos especiais deixam a desejar em algumas passagens e a caracterização do Fera me pareceu um pouco artificial (creio que o uso de CGI teria sido mais feliz do que a maquiagem, neste caso).

Todavia, estes são problemas pontuais que não comprometem o conjunto. O diretor Vaughn jamais deixa a peteca cair, com um ótimo ritmo. Apesar de um pouco longo, o filme nunca se torna cansativo. Muito pelo contrário. Ele vai crescendo em envolvimento e emoção, resultando em um final sensacional e marcante, que só deixa o espectador ainda mais ansioso para ver mais um capítulo da saga. Um desfecho que, se não nos faz tomar o lado de Magneto em sua batalha, também nos leva a compreender suas motivações, fazendo com que evitemos pronunciar julgamentos acerca de suas atitudes. Uma aula de como realizar um produto voltado para as massas sem maniqueísmos. Esperemos que, tal como os alunos do Professor X aprenderam com este a dominar seus poderes, os produtores e diretores aprendam com Singer e Vaughn a usar seus altos orçamentos para gerar obras que podem ser um ótimo entretenimento com respeito à inteligência e sensibilidade do espectador. E, neste aspecto, a nova aventura dos X-Men é mesmo de primeira classe!


Obs. Há duas participações especiais no filme: Hugh Jackman (hilário!) e Rebecca Ronmjn-Stamos. Fique atento (a)!


Cotação:

Nota: 9,5

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda sobre "Piratas do Caribe"



Com a chegada do quarto episódio da franquia, já em exibição nos cinemas, aproveito a oportunidade para postar a resenha de "Piratas do Caribe - No Fim do Mundo", escrita quando do lançamento do longa e que ainda permanecia inédita neste espaço. Segue abaixo.



Piratas do Caribe - No Fim do Mundo


Confusão em alto mar


Em 2003, a Disney teve a idéia de produzir um filme baseado em um brinquedo de um de seus famosos parques. Caindo nas mãos do produtor Jerry Bruckheimer, este convidou Gore Verbinski para dirigi-lo. O que parecia uma empreitada pouco pretensiosa dos estúdios do Mickey acabou se tornando um enorme sucesso, não só de público como de crítica. Sem buscar algo além de um bom entretenimento, o filme tinha ótimas doses de aventura, romance e comédia, sendo este último aspecto capitaneado pelo fantástico ator Johnny Depp, o qual criou um especial personagem: o Capitão Jack Sparrow, uma espécie de “Macunaíma Pop”, um anti-herói sem nenhum caráter, mas extremamente divertido. O sucesso do personagem foi tão grande que Depp ganhou uma indicação ao Oscar, além de ver seu nome catapultado ao time de super-astros de Hollywood, logo ele que sempre teve um perfil “alternativo”.

Estimulados com o sucesso de “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”, os produtores resolveram investir em mais duas continuações. A primeira delas, intitulada “O Baú da Morte” teve sua estréia em 2006 e acabou se tornando o terceiro filme em bilheteria na história, atrás apenas do insuperável “Titanic” e de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, sendo também o terceiro filme a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão arrecadados em todo o mundo. Embora com um roteiro não tão bem acabado quanto o do original, “Piratas 2” mantém o nível de diversão nas alturas, com uma participação do capitão Sparrow ainda mais impagável e uma trama repleta de aventuras e fantasia.

Pois bem, agora estréia nos cinemas de todo o mundo, prometendo arrecadar de forma também gigantesca “Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo” a terceira e última (será mesmo?) parte da trilogia.Todavia , mesmo que tenha sua bilheteria estratosférica garantida, este se mostra o exemplar mais fraco da série.

Logo no início, vemos Elizabeth Swann (a bela Keira Knigthley), ao lado do Capitão Barbossa (Geoffrey Rush, ótimo), em busca da ajuda de Sao-Feng (Chow Yun-Fat, coadjuvante de luxo), um dos nove lordes piratas, para resgatar Jack Sparrow da espécie de “limbo” onde está após ser levado pelo Kraken no fim do 2º episódio. Sparrow, que também é um dos tais “lordes piratas”, é necessário para que a Confraria dos Piratas possa libertar a deusa dos mares Calypso da forma humana à qual está presa por obra da própria Confraria. E a verdade é que nos perdemos em um emaranhado de nomes, lugares e situações, principalmente se você não viu ou reviu o segundo episódio há pouco tempo (para aqueles que ainda não viram e pretendem assistir a esse 3º episódio, é recomendável que cheguem ao cinema com o segundo episódio ainda fresco na memória). A primeira metade do filme se arrasta de forma aborrecida, sem sal e eu já estava apreensivo, pois tendo em vista sua “longa metragem” (são duas horas e quarenta e cinco minutos) seria mesmo um saco acompanhar tudo aquilo até o fim.



Todavia, para alegria geral dos espectadores, a segunda metade do filme decola, apresentando fantásticas cenas de ação, além das doses de comédia também aumentarem consideravelmente. Memorável a seqüência do confronto entre o Flying Dutchman (o navio do capitão Davy Jones) e o Pérola Negra em meio a um redemoinho, onde várias tomadas de ação se desenrolam ao mesmo tempo: o duelo entre Sparrow e Davy Jones; o casamento de Will Turner (Orlando Bloom) com Elizabeth, tendo o capitão Barbossa como responsável pelo casório (hilário!!!); a resolução do conflito entre Will e seu pai... Ou seja uma avalanche de acontecimentos realmente empolgante. Ademais, é na segunda metade do filme que realmente vemos onde foram colocados os “zilhões” de dólares gastos na produção. Vale dizer ainda que o romance de Will e Elizabeth resta poeticamente bem resolvido. Em síntese: a segunda metade do longa salva o todo de um naufrágio de proporções gigantes.

Naufrágio este que também não ocorre devido às ótimas atuações, seja do sempre brilhante Johnny Depp, como também de Geoffrey Rush, que está ótimo como Barbossa. Keyra também está competente (além de bela) além de todo o restante do elenco. Só Orlando Bloom é que continua com sua eterna “cara de nada”, tão expressivo nas telas quanto a seleção de futebol da Guatemala no cenário esportivo... Mas ainda há um detalhe especial a ser ressaltado no elenco: a breve participação de Keith Richards, o lendário guitarrista dos Rolling Stones, como pai de Jack Sparrow. E até sou capaz de afirmar: ele rouba a cena! É sabido que Depp se inspirou em Richards para compor seu pirata e a participação do guitarrista foi mesmo uma grande sacada da equipe!

Mas a verdade é que, no término da sessão, ficamos com a sensação que de o longa resultou bem aquém de suas possibilidades, perdendo-se em um roteiro atabalhoado que procura amarrar todas as pontas soltas deixadas pelo episódio 2, mas que só consegue ser confuso e arrastado durante um bom tempo, salvando-se no fim. Entre altos e baixos, o filme se salva, mas brilhando bem menos que seus predecessores. Vale dizer que entre os grandes lançamentos do “verão 3” dos EUA este é o está tendo a menor bilheteria, não só pela sua longa duração (o que possibilita um número menor de exibições por dia), como também pelas críticas pouco simpáticas que vem obtendo (muito embora Shrek Terceiro esteja recebendo espinafradas ainda maiores!). Esperamos que os produtores, caso desejem levar adiante a idéia de um “Piratas 4”, procurem corrigir os problemas apresentados neste, para que não vejam uma franquia tão interessante naufragar tragada pelo redemoinho da incompetência.

Por fim, uma observação: vale à pena esperar até o fim dos créditos para assistir à cena final. É bem interessante!


Cotação:

Nota: 7,0

domingo, 22 de maio de 2011

"A Árvore da Vida" leva a Palma de Ouro


Depois de um festival cheio de polêmicas, como as declarações nazistas de Lars Von Trier (numa queimada de filme histórica), o júri comandado por Robert De Niro anunciou hoje os vencedores do evento. A Palma de Ouro foi para "A Árvore da Vida", do lendário Terrence Malick, filme que provocou tumulto em sua primeira exibição e foi vaiado por muitos e aplaudido por outros tantos (e que estou ansioso pra ver!). Confira abaixo a matéria do portal IG.


"A Árvore da Vida" ganha Palma de Ouro em Cannes

Filme de Terrence Malick é o grande vencedor do festival em 2011

Orlando Margarido, especial de Cannes | 22/05/2011 15:06



A Palma de Ouro do 64ª Festival de Cannes foi para o filme "A Árvore da Vida", de Terrence Malick. Ele não veio a Cannes e foi representado por dois dos vários produtores envolvidos na fita, que tem entre os montadores o brasileiro Daniel Rezende - leia a entrevista exclusiva com Daniel Rezende. “Malick é um tímido incorrigível”, disse um dos produtores. A premiação terminou agora a pouco. Já o Grande Prêmio do Júri, o Grand Prix, foi dividido entre "Le Gamin au Véio", da dupla belga Jean-Pierre e Luc Dardenne e “Bir Zamanlar Anadolu’da”, do turco Nuri Bilge Ceylan.

Os irmãos Dardenne agradeceram o protagonista adolescente do filme Thomas Doret. Ceylan foi breve e parecia contrariado com a premiação. A melhor direção coube ao dinamarquês com carreira nos Estados Unidos Nicolas Winding Refn pelo filme "Drive". Ele lembrou especialmente o ator Ryan Gosling, seu protagonista, pela colaboração na realização do longa-metragem.

O prêmio de melhor ator e melhor atriz foram entregues a Jean Dujardin, protagonista da produção francesa "The Artist", e Kirsten Dunst, por "Melancolia", filme de Lars Von Trier. Ela agradeceu a possibilidade de poder mostrar tanto empenho no filme. Dujardin, astro na França, dividiu o reconhecimento com sua parceira na fita, Bérénice Bejo. “Eu também quero a receita desse prêmio para recebê-lo sempre”, completou. O concorrente israelense "Hearat Shulayim", de Joseph Cedar, teve reconhecido o roteiro. O diretor não estava na premiação e foi representado por uma integrante da equipe, que leu uma mensagem do realizador. O prêmio do júri foi para "Polisse", da diretora francesa Maïwenn. Muito emocionada e ofegante, ela agradeceu sua equipe de atores e técnicos, sua família e filhos.

O júri da competição oficial é presidido pelo ator Robert De Niro e formado pelo diretor francês Olivier Assayas, seu colega chadiano Mahamat –Saleh Haroun, que no ano passado recebeu o Prêmio do Júri por "Un Homme qui Crie", Johnnie To, realizador de Hong Kong, o ator Jude Law, as atrizes Martina Gusmán, argentina que é mulher do diretor Pablo Trapero, e Uma Thurman, a escritora norueguesa Linn Ullman, e por fim a produtora chinesa Nansun Shi.

A Caméra D’Or para o melhor diretor estreante foi dada a Pablo Giorgelli, pela co-produção hispano-argentina "Las Acacias", exibida na paralela Semana da Crítica, enquanto "Cross Country)", de Maryna Vroda levou a Palma de Ouro na categoria de curta-metragem.

Veja abaixo a lista com os vencedores do Festival de Cannes 2011:

Palma de Ouro: "A Árvore da Vida", de Terrence Malick
Atriz: Kirsten Dunst, por "Melancolia"
Ator: Jean Dujardin, por "The Artist"
Diretor: Nicolas Winding Refn, por "Drive"
Roteiro: "Hearat Shulayim", de Hearat Shulayim
Grande prêmio: "Le Gamin au Véio", de Jean-Pierre e Luc Dardenne, e "Bir Zamanlar Anadolu’da", de Nuri Bilge Ceylan
Curta-metragem: "Cross Country", de Marina Vroda
Prêmio Câmera de Ouro: "Las Acacias", de Pablo Giorgelli
Prêmio de júri: "Polisse", de Maiwenn Le Besc

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas




As aventuras de Indiana Sparrow ainda agradam


Desde o primeiro episódio da franquia “Piratas do Caribe” – mais precisamente “A Maldição do Pérola Negra”, de 2003 – a salas de exibição costumam ficar lotadas em suas sessões e, desta vez, não foi diferente. Sala cheia (acho que não cabia mais ninguém). A popularidade da série é tamanha que mesmo o apenas mediano terceiro episódio (“No Fim do Mundo”) não diminuiu a vontade do público de ver mais uma aventura encabeçada pelo Capitão Jack Sparrow, personagem que transformou Johnny Depp em uma super-astro de blockbusters, deixando de lado sua antiga aura de ator mais voltado para filmes alternativos e artísticos. Interessante que, no primeiro filme, o capitão surgiu como coadjuvante do casal central formado por Keira Knightley e Orlando Bloom, mas o talento e carisma de Depp acabaram por transformar Sparrow no verdadeiro protagonista da série e este quarto episódio, “Navegando Em Águas Misteriosas”, só atesta tal percepção.

A popularidade de Jack Sparrow atualmente se assemelha bastante ao Indiana Jones de Harrison Ford de duas décadas atrás. Ambos são reis das grandes aventuras, dotadas de um realismo fantástico que remete a um cinema mais antigo, que empolgava crianças e adolescentes em um tempo em que ainda não havia televisão ou games. Os dois protagonistas também são espirituosos, sempre com a piada certa para o momento certo, além de serem famosos em seu “meio profissional”. Talvez então não seja coincidência que a trama desta nova sequência lembre bastante aquelas do arqueólogo caçador de relíquias perdidas. No presente caso, Sparrow alia-se a outros piratas, entre eles Barbossa (Geoffrey Rush, sempre com sua competência inquestionável) e Barba Negra (Ian McShane) – cada qual com suas motivações – em busca da Fonte da Juventude. Eles ainda correm para chegar ao objetivo antes dos espanhóis, que também estão à procura da tal fonte. Para que a água da fonte surta seu efeito, entretanto, é necessário que ela seja bebida juntamente com uma lágrima de sereia e em cálices que se encontram no velho navio naufragado comandado pelo lendário Ponce de León. Ou seja, em vários aspectos a narrativa lembra “Os Caçadores da Arca Perdida” ou “A Última Cruzada”, longas protagonizados pelo Dr. Henry Jones Jr. Até mesmo a personagem Angélica (Penélope Cruz, que estava grávida durante as filmagens), filha de Barba Negra e que é um antigo amor de Sparrow, parece bastante com a Marion da franquia Indiana Jones, até mesmo porque os dois vivem aquele romance estilo gata-e-rato, cheio de cinismo e sentimentos (mal) disfarçados.



Mas isso não é exatamente um demérito. Afinal, não há estória que já não tenha sido contada, o que importa é a forma de contá-la. E não se pode negar que o diretor Rob Marshall conseguiu sucesso na empreitada. Marshall, conhecido pela direção de musicais como “Chicago”, sofreu com a desconfiança de muitos que viam na saída de Gore Verbinski, diretor dos três primeiros episódios, um risco para a franquia. Só que há um detalhe importante que talvez passasse despercebido por estes “muitos”. “Piratas do Caribe” é uma série cinematográfica produzida por Jerry Bruckheimer e é bom lembrar que ele faz o estilo dos produtores da antiga Hollywood, controlando todas as fases do processo de produção. Um filme produzido por Bruckheimer é eminentemente um filme de Bruckheimer, assim como um filme produzido por David O. Selznick era um filme de Selznick. Assim, quase não se sente a mudança de direção, tendo o longa uma dinâmica muito semelhante às dos dois primeiros episódios.

Estão lá a ação quase constante, o humor rápido e espirituoso, a trilha sonora que acompanha praticamente toda a projeção, a edição bem realizada que dá lhe dá um ótimo ritmo, o roteiro (escrito por Ted Elliot e Terry Rossio) muito bem amarrado, além do bom desempenho do elenco. Neste aspecto, contudo, Depp parece estar menos entusiasmado que nos outros filmes (alguns diriam que está mais contido). Seus passos bêbados parecem não estar tão bêbados assim e suas tiradas cômicas estão mais esparsas (ou será que o próprio personagem, com a perda da “novidade” já não rende mesmo tão boas risadas quanto antes?). A maior parte dos seus bons momentos são aqueles em que contracena com Penélope, cujo sotaque carregado caiu como uma luva dentro do contexto divertido da série.

Por outro lado, a mão de Bruckheimer pode atuar tanto para o bem quanto para o mal. Apegado aos números de bilheteria, ele nunca vai deixar de fazer seus subordinados inserirem elementos de roteiro aptos a agradar ao grande público, como o romance até simpático, mas também previsível e desnecessário entre o missionário religioso Phillip (Sam Claflin) e a sereia Sirena (Astrid Bergès-Frisbey). Além disso, ele aparentemente retirou por completo a liberdade de Marshall. Conhecido por seu uso vibrante de cores, o diretor trabalhou aqui com imagens em boa parte escuras e pouco saturadas, caindo, neste ponto, na vala da mediocridade que domina as produções atuais. E aí vai a pergunta: com cenários tão belos à disposição (o filme foi rodado em boa parte no Havaí e em Porto Rico), pra que reduzir a paleta de cores, deixando de explorar o grande potencial de tais locações? Pergunta sem resposta (ou talvez seja melhor nem procurar a resposta). Todavia, o uso de efeitos especiais alcança níveis de excelência, como na sequência do ataque das sereias (vai se tornar memorável, sem dúvida).

“Piratas do Caribe – Navegando Em Águas Misteriosas” tem tudo para trazer lucros, apesar de seu pomposo orçamento (US$ 200 milhões). Apesar dos pesares relatados acima, ele é divertido e envolvente, resultando em um longa superior ao insosso e aborrecido terceiro episódio. A insistência de Bruckheimer na mesma fórmula, contudo, pode trazer danos significativos à franquia. Acredito até que a Disney deveria dar um tempo e fazer com que o público comece a sentir saudades das aventuras de Jack Sparrow (e também o próprio Depp, que está relutante em assinar para um quito capítulo), sob pena das águas misteriosas em que navega acabarem se transformando em águas turbulentas, dado o inevitável cansaço que os espectadores irão sentir diante do marasmo que pode acabar por engolir a série.

Obs. 1. Há duas participações especiais no longa. Keith Richards faz uma curta sequência como o pai de Jack e Jude Dench aparece em uma cena logo no início da projeção.

Obs. 2. Como é tradicional na franquia, há uma cena pós-créditos.


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 21 de maio de 2011

(500) Dias Com Ela



Reinventando a comédia romântica


É comum nos sentirmos sozinhos em momentos de dificuldade, seja ela de que natureza for, de saúde, familiar, econômica, profissional ou mesmo amorosa. Já houve quem dissesse que todo ser humano, mesmo que não seja um solitário, estará sempre sozinho, pois nunca será inteiramente compreendido por outro semelhante, uma vez que somos singulares, únicos, cada qual com uma maneira própria de enxergar a vida e o mundo. Em decorrência de tal condição, normalmente ficamos felizes quando vemos que outras pessoas já viveram momentos difíceis semelhantes aos nossos, agindo e reagindo de maneira também similar à nossa. Acredito que a frase “não estou sozinho” deve ter passado pela cabeça de muitos que viram “(500) Dias Com Ela”, um filme peculiar que trata de forma sincera, leve e inteligente as desventuras dos apaixonados.

A identificação dos espectadores com as situações retratadas no filme pode ser tão direta e imediata que, já em sua sequência inicial, aparecem na tela legendas esclarecendo, com acentuado bom-humor, que os fatos narrados são ficcionais, não correspondendo a nenhuma história real e específica. Realmente, é quase impossível que você não tenha passado por ao menos uma das situações tragicômicas vividas pelo personagem de Tom (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, que encontra o tom certo entre a comédia e o drama) ao longo dos 95 minutos de projeção (sim, o filme é enxuto). Estão lá as expectativas frustradas; as dicas furadas de amigos (por mais que seja boa a intenção que eles tenham) ou ainda as tentativas meio tolas de chamar a atenção daquele(a) que lhe rouba a atenção. Tudo está lá e colocado de uma maneira tão trivial, simples, que nos traz uma perspectiva de realidade incomum em um cinema dominado por comédias românticas clichês.

A verdade é que “(500) Dias Com Ela” foge do clichê até mesmo em sua estrutura narrativa não-convencional. A tradicional fórmula “boy meets girl” é subvertida, trazendo um novo jeito de contar uma estória há muito desgastada. Como se sabe, não existe história que já não tenha sido contada. O diferencial que distingue um autor de outros é maneira de narrar essa trama. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor Marc Webb (que está atualmente dirigindo o remake desnecessário do Homem-Aranha) é muito feliz, trazendo novos ares para o gênero a partir do roteiro criativo escrito a quatro mãos por Scott Neustadter e Michael H. Weber. Na própria cronologia da obra já é vista uma peculiar alteração: os tais 500 dias em que Tom se vê apaixonado por Summer (Zooey Deschanel, que além de atriz também é cantora) não são exibidos em ordem cronológica, mas (quase) aleatória. Em dada cena, assistimos a um dia já próximo do fim do relacionamento e, em seguida, pode ocorrer um salto para o início. Tudo sem que percamos a compreensão do que acontece, afinal o mais importante são os sentimentos de Tom e não os fatos em si. Entretanto, é possível que a maior subversão proposta pelo longa seja a dos papeis do homem e da mulher no relacionamento. Ao contrário do que comumente ocorre, Tom é que representa o lado mais frágil da relação, inseguro e romântico, enquanto Summer é confiante e mantém um certo distanciamento, evitando mergulhar de cabeça em uma paixão. Ou seja, retrata-se uma relação antenada com os novos costumes de nossa sociedade, onde os estereótipos estão cada vez mais obsoletos.


Entretanto, embora seja prazeroso e divertido acompanhar as venturas e desventuras de Tom, o roteiro, apesar de sua estrutura original, ainda se vale de algumas muletas narrativas que incomodam. A personagem da menina adolescente (papel de Chloe Moretz) que é mais “experiente” e “sábia” do que todos os outros personagens adultos é recurso já há muito desgastado e, ironia das ironias, a partir de certo ponto alguns acontecimentos se tornam previsíveis, tal como o desfecho do longa. Além disso, o uso constante de referências à cultura pop (como ao grupo Belle & Sebastian, The Smiths e aos próprios Beatles) é algo que também já está caindo no lugar-comum e dá a impressão de que Webb queria com isso apenas atribuir um ar mais “descolado” ao filme, muito embora não deixe de ser uma opção que sempre agrade aos fãs (e eu me incluo entre eles). Talvez sejam tiques de um diretor egresso do mundo dos videoclipes e, inevitavelmente, acabem interferindo no desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica, mas não se pode negar que em alguns momentos ele obtém muito sucesso com essa linguagem, como na conhecida sequência em que se mostra o estado de espírito de Tom após sua primeira noite com Summer.

Apesar de algumas ressalvas, é indubitável que “(500) Dias Com Ela” presta uma preciosa contribuição a um cinema contemporâneo que pouco se esforça em trazer algo de novo para o público, dando um belo sacolejo na preguiça reinante. Ademais, se você estiver passando por um período de dor-de-cotovelo provavelmente irá considerar esta película como uma verdadeira obra-prima. Com olhos mais distanciados, provavelmente não enxergará tanto, mas será impossível deixar de apreciar. Um filme inteligente sobre o amor, algo difícil nos dias de hoje, sempre será bem-vindo.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 15 de maio de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Minha Bela Dama
(My Fair Lady)


Beleza e misoginia



“My Fair Lady” é um filme anacrônico. Lançado no circuito comercial em 1964, ele ainda possui um clima e know-how típicos do studio system que controlava o cinema estadunidense até meados da década de 60, e que seria dali a pouco substituído pelo cinema autoral da Nova Hollywood. Esta enfrentava uma crise criativa acentuada e um severo descompasso com uma nova sociedade que nascia, dominada não mais pelos valores dos mais velhos, mas pela contestação e iconoclastia dos mais jovens. Afinal, em 1964 a beatlemania já dominava o mundo, revolucionários como Ernesto Guevara inspiravam as mentes ansiosas por mudanças em um mundo decrépito e a pílula anticoncepcional já começava a promover uma revolução nos costumes sexuais. A verdade é que a produção cinematográfica, talvez por ser muito cara, reagiu de forma tardia a esse turbilhão de mudanças. Ou, talvez, porque o mercado consumidor ainda não fosse dominado pelos jovens.

Neste cenário, os oito Oscars que o filme recebeu soam como um manifesto sinal de atraso da Academia, ainda extremamente apegada aos valores caros à sua era de ouro. Nada mais distoante da crescente liberação feminina do que a misoginia de “Minha Bela Dama”, uma película que mostra um abastado e machista linguista que encontra em uma florista de rua o alvo perfeito para a realização de uma “experiência”, na realidade uma aposta com seu amigo coronel e também aristocrata. O professor Henry Higgins (Rex Harrison), ademais, é de uma rudeza singular, perfeitamente incapaz de demonstrar sentimentos pelas pessoas e em especial por Eliza Doolitle (Audrey Hepburn), a qual representa uma ameaça à sua solteirice convicta. E nada mais anti-feminista do que vermos Eliza se apaixonar justamente por um homem que sequer lhe trata com educação.

Claro que, por outro lado, o filme possui outras conotações mais inspiradoras. Adaptação de um musical da Broadway, o qual por sua vez foi baseado na obra “Pigmaleão” do escritor George Bernard Shaw, a trama (com roteiro de Alan Jay Lerner) não deixa de ser uma feroz crítica à artificialidade da sociedade burguesa, bastante acostumada a olhar as pessoas apenas pelo seu exterior. Sintomático que Higgins, um intelectual de família tradicional, seja, em verdade, um homem bruto, enquanto a aparentemente embrutecida Eliza é, em verdade, a dama que se traduz no título da película. A essência de cada um não se transforma por suas posses ou aparência. Pelo contrário, é possível que riqueza e conforto apenas acentuem a verdadeira natureza de cada um.


Não se pode negar, ademais, que “My Fair Lady” sempre será lembrado por méritos performáticos e técnicos. É bom recordar que a direção é de George Cukor, um dos grandes expoentes da Hollywood clássica e dono de um talento especial para trabalhar com temáticas femininas e tirar das atrizes o melhor de seus dons interpretativos e que aqui levou o seu merecido prêmio da Academia (outros de seus trabalhos famosos são “Núpcias de Escândalo” e “A Costela de Adão”). O elenco, por sua vez, é simplesmente brilhante. O Oscar entregue a Harrison ficou em ótimas mãos. Ele encarna à perfeição o seu intratável Higgins, encontrando um timing memorável com Audrey Hepburn, esta em mais um papel que seria marcante em sua carreira. Curioso que Audrey foi dublada em várias das sequências musicais, o que a deixou extremamente irritada e talvez tenha sido esse o motivo de sua não indicação ao Oscar de melhor atriz na ocasião. Vale dizer ainda que ela substituiu Julie Andrews, a qual havia representado Eliza na Broadway e seria a primeira cotada para o papel, por motivos óbvios. Outro que se destaca em sua atuação é Wilfrid Hyde-White, interpretando o coronel Hugh Pickering, o cordato e sensato amigo com quem Higgins realiza a aposta que serve de mote da trama, além de Stanley Holloway, como o pai de Eliza, o qual protagoniza alguns do melhores momento musicais do longa, muito embora suas inserções apareçam, por vezes, como pontas soltas do roteiro. Já a direção de arte e os figurinos (de Cecil Beaton) são memoráveis e, com inteira justiça, levaram os prêmios da Academia.

No entanto, apesar de várias sequências divertidas, “Minha Bela Dama” é dotado de uma extensa duração (quase três horas) em que pouco acontece em termos de desenvolvimento da trama. Não é à toa que o crítico Adré Techniné, da Cahiérs du Cinema, ficou admirado com o seu “surpreendente vácuo” e essa sensação de quase nada acontecendo pode causar enfado em muitos (um romance sem beijo ou "eu te amo", dirão outros). Mas o maior demérito do longa não deixa de ser sua ode ao machismo que se mostra principalmente em sua conclusão, de causar arrepios nas feministas mais arraigadas. Entretanto, Tal circunstância não impediu que sua trama e personagens se tornassem uma espécie de mito moderno, copiados diversas vezes não só no próprio cinema como na televisão (várias novelas da Globo, por exemplo, já se valeram de sua premissa). E assim, não deixa de ser uma obra essencial para compreender uma parcela da cultura pop que vigora até os dias de hoje, apesar de ter nascido em um momento histórico-social dissonante do seu conteúdo.


Cotação:

Nota: 8,0

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Problemas com o Blogger

Muito estranho o comportamento do blog nos últimos dias. De ontem para hoje, então, não só alguns comentários sumiram, como um post inteiro, sobre o início do Festival de Cannes, foi para não sei onde. Isso após um bom tempo em que o sistema ficou inacessível. Provavelmente resultado de algum reboot que fez perder o que foi postado ontem. Bem, vou postar novamente, é o jeito!

Atualizado: Agora, o post sobre Cannes ressurgiu do nada. Vai entender...

E alerto aos leitores que alguns comentários que eventualmente não estejam visíveis não foram deletados pelo blogueiro! Abraço!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Festival de Cannes 2011 - Abertura


E começou ontem o Fetival de Cannes 2011. O longa de abertura (e fora de competição) foi "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen, contando no elenco com Owen Wilson e Rachel McAdams. Olha a foto acima! Ah, e Bernardo Bertolucci levou a primeira Palma de Ouro honorária da história do Festival, prêmio este que agora será entregue anualmente aos diretores com grande currículo, mas que nunca tenha levado a honraria pra casa. Olha a foto aí abaixo. Talvez eu seja exceção, mas meu grande sonho de cinéfilo não é o de ir ao Oscar, mas a Cannes!!!



terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu Quero Esse Pôster #14


Bem, esse eu literalmente tenho na parede da sala! Preciso dizer o porquê?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Restaurando a Película



Já havia algum tempo eu pensava em iniciar uma coluna destinada a redescobrir filmes injustiçados. Há diversas obras, grandes ou mais discretas, que, por motivos variados, acabam sendo rejeitados pelo público ou crítica (ou por ambos), quando do seu lançamento. O próprio Cidadão Kane, considerado hoje o melhor filme já feito, padeceu desse mal até que fosse devidamente colocado no panteão das grandes obras da arte cinematográfica. Existem muitas películas que merecem uma revisitada, tirá-las do esquecimento ou atribuir-lhes o valor que merecem. Aqui, dou início à série como o "Guerra e Paz" dirigido por King Vidor em 1956. Segue o texto!




Guerra e Paz
(War And Peace)



A epopeia do rei Vidor


King Vidor foi um dos grandes cineastas da era de ouro de Hollywood, conhecido por suas contribuições com o poderoso produtor David O. Selznick (este foi o responsável por “...E o Vento Levou”, por exemplo).”Duelo ao Sol” é um notório representante desta sua vertente. No entanto, seria injusto dizer que Vidor foi um mero burocrata a serviço do studio system reinante. Martin Scorsese, em sua obra “Um Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano” (documentário para a TV que posteriormente foi transformado em livro), afirma: “Vidor foi provavelmente o mais maleável dos pioneiros do cinema – um dos poucos que foram capazes, repetidas vezes, de convencer os chefões a deixá-lo fazer experiências” . Um exemplo claro de sua visão mais autoral de cinema encontra-se no longa “A Turba”, de 1928, ainda da era do cinema mudo, obra em que expõe uma forte crítica à competição e busca incessante pelo sucesso na sociedade capitalista (bastante atual, não?). De qualquer forma, mesmo quando se prestava a fazer as vontades dos produtores, Vidor deixava lá suas marcas pessoais, aproveitando-se do roteiro para tecer suas críticas, mesmo que de forma mais sutil. É o caso deste “Guerra e Paz”, adaptação para as telas do mais que famoso romance do russo Leon Tolstoi.

Claro que, pela própria grandiosidade da obra na qual se apoia, o filme foi concebido como uma superprodução pelos produtores italianos Carlo Ponti e Dino De Laurentiis (o longa é uma co-produção EUA-Itália), possuindo ecos de “...E O Vento Levou” em várias de suas passagens. Com um orçamento mastodôntico (com a correção da inflação somaria US$ 560 milhões, o que o levaria a ser o filme mais caro de todos os tempos), “Guerra e Paz” possui cenas belíssimas e impressionantes, principalmente nas passagens das batalhas que ocorrem quando da invasão da Rússia pela França de Napoleão. Vemos na tela centenas, talvez milhares de soldados em cada quadro, e é bom lembrar que, naquela época, não havia efeitos de CGI para criar figurantes. Traduzindo em miúdos: em cada cena de multidão havia realmente uma multidão ali, cada qual com suas roupas, armas, cavalos e outros adereços mais. Dá para imaginar o trabalho hercúleo das equipes de figurino e direção de arte? Mas não só de cenas de batalha vive este longuíssima metragem (são 3h28min de projeção). Tudo nele é grandioso. A sequência do primeiro baile de Natasha Rostov é de uma suntuosidade impressionante - tenho pra mim que foi nela que Luchino Visconti se inspirou para conceber seus famosos bailes cinematográficos.



Ademais, os personagens inesquecíveis concebidos por Tolstoi encontram perfeita interpretação na miríade de estrelas escaladas para a empreitada. Estão lá a super-estrela Audrey Hepburn, como a citada Natasha Rostov, dona de uma atuação marcante, sabendo transmitir toda a alegria e imaturidade típicos da fase que vive a personagem (a própria Audrey ainda era bastante jovem à época, contando apenas 27 anos), cheia de impulsos irrefreáveis - como costumam ser as heroínas de Vidor. Seu então marido fora das telas, Mel Ferrer, empresta uma altivez e nobreza marcantes ao príncipe Andrei Bolkonsky; já o astro Henry Fonda está perfeito como Pierre Bezukhov, um humanista e anti-belicista, filho bastardo de um nobre e só reconhecido por este já à beira da morte. Também compõem o cast o ótimo Oscar Homolka, indicado ao prêmio da Academia por sua interpretação do General Kotusov, além de Vittorio Gassman na pele do sedutor Anatole. Também se destacam Hebert Lom, encarnando uma perfeita representação de Napoleão de acordo com a iconografia consagrada, e Anita Ekberg, no auge da beleza, no papel da frívola e adúltera esposa de Pierre. E isso sem falar na linda trilha sonora de Nino Rota (fiel colaborador de Fellini).

Entretanto, é perceptível que Vidor se recusou a fazer uma versão meramente pasteurizada da obra de Tolstoi para agradar as massas, adocicando-o para alcançar bilheterias suficientes para cobrir seu altíssimo custo. Mesmo que alguns possam afirmar que as críticas à aristocracia já estavam presentes na obra original, é de se aplaudir o fato de que Vidor as manteve na película. Talvez a mais notável sequência que demonstra que o filme é uma obra de Vidor, e não meramente uma colagem do livro, é aquela em que Pierre passeia por entre as tropas durante a batalha de Borodino, na realidade uma cena retirada não de Tolstoi, mas de Stendhal em seu romance “A Cartuxa de Parma”. Embora possa causar uma certa estranheza à primeira vista, a sequência resulta belíssima, recheada ao mesmo tempo de lirismo e reflexão. Assim como preciosa é a cena em que Pierre, numa Moscou incendiada pelos próprios moradores, aguarda na tocaia a aproximação de Napoleão. Cena excelente em que o rei Vidor demonstra todo seu talento e competência na direção.

Mas nem só de belas cenas vive “Guerra e Paz”. Pode-se afirmar que roteiro consegue condensar de forma satisfatória a gigantesca obra literária, detentora de várias facetas. Uma proeza levada a efeito pelas mãos dos roteiristas (foram oito, ao todo, entre eles Bridget Boland, Ennio De Concini e o próprio Vidor). Mas é verdade que o resultado tem um que de pasteurização e excessos românticos, dando a impressão, por vezes, de que Tolstoi quis apenas escrever uma imensa novela água-com-açúcar. Mas somente às vezes, é bom ressaltar. Vidor não chega a descambar para o melodrama, principalmente porque sabe realçar também o cunho de narração histórica da obra literária, com seu tom de epopeia nacional russa. Afinal, entre os momentos mais interessantes estão os protagonizados por Napoleão,sua soberba ao chegar à Rússia em contraposição ao ar sombrio com que a deixa.

Interessante que esta versão de “Guerra e Paz” teve boa aceitação na Rússia (que era então União Soviética, bom lembrar), mas foi estranhamente rejeitada nos EUA. Foi o penúltimo filme do Rei Vidor, que se aposentou três anos mais tarde com “Salomão e a Rainha de Sabá”, já cansado de guerra. Mas é claro que a filmografia de Vidor nunca estará cansada e “Guerra e Paz” merece ser visto não somente por se tratar de uma boa adaptação de uma grande obra literária para as telas, mas também por se constituir um ótimo representante do talento inquestionável de um dos precursores e grandes artífices do cinema hollywoodiano.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 1 de maio de 2011

Thor



Poder oscilante


Logo que ouvi falar na adaptação para as telas de Thor, mais um dos personagens da Marvel Comics, pensei imediatamente na dificuldade que seria não apenas transportar sua estórias para o cinema, como também em encontrar o seu público fora dos leitores das HQs, mesmo que a adaptação fosse bem-sucedida. Afinal, não é lá muito fácil engolir um personagem tão inverossímil, um deus nórdico que, banido por seu pai Odin devido à sua arrogância e imprudência, passa a viver na Terra como um mortal até que seja digno de novamente empunhar o martelo Mjölnir, artefato que o faz controlar os raios e as tempestades. A chamada “suspensão de descrença” essencial para que o espectador se envolva com o que lhe é mostrado na tela é difícil de ser atingida diante de premissa tão fantasiosa. Claro, Peter Jackson foi inteiramente feliz com sua trilogia “O Senhor dos Anéis”, mas isso não desmente a assertiva de que não é fácil fazer as pessoas embarcarem no cinema-fantasia, principalmente aquelas que não tiveram um contato prévio com a obra que inspirou o filme.

Sabendo desta dificuldade e tendo em vista algumas outras características do personagem, como suas tramas familiares e palacianas que remontam às tragédias escritas pelo bardo William Shakespeare, a Marvel Studios optou por convidar Kenneth Branagh para conduzir o projeto, um diretor e ator de formação clássica e conhecido por suas adaptações shakeaspearianas para as telas, como o seu famoso “Hamlet” de texto integral e quatro horas de duração. A expectativa era a de que Branagh conseguisse imprimir um tom ao mesmo tempo dramático e crível, passando pelas inevitáveis cenas de ação de um filme de super-heróis, sem que a mistura caísse no ridículo. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor obteve sucesso.

A narrativa do filme se mostra fiel à da HQ criada por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber, apenas com algumas pequenas alterações talvez necessárias a uma trama que deve se encaixar em 120 minutos de duração. Como dito mais acima, Thor (interpretado aqui pelo ator estreante e bombado Chris Hemsworth), o deus do trovão da mitologia escandinava, é um dos filhos de Odin (Anthony Hopkins), o deus supremo do reino etéreo de Asgard. Por seu valor e coragem como guerreiro, Thor é o filho escolhido por Odin para lhe suceder no trono, preterindo seu outro filho, Loki (Tom Hiddleston), o deus da trapaça. Por outro lado, Thor ainda apresenta a arrogância, imprudência e inconsequência típicos da juventude, características que acabam por levar Asgard a uma nova guerra com Jotuheim, o reino dos Gigantes de Gelo. Decepcionado com o filho, Odin decide enviá-lo à Terra, local onde, destituído dos seus poderes místicos e da condição de imortal, deverá aprender as virtudes da humildade, paciência e altruísmo.

Esta vertente palaciana e mitológica do filme é muito bem desenvolvida, mostrando uma trama que lembra mesmo obras de Shakespeare como “Rei Lear” e “Otelo”. Todos os personagens são bem caracterizados e os fãs das HQs vão adorar ver nas telas figuras como Volstagg (Ray Stevenson), Fandral (Josh Dallas)e Hogun (Tadanobu Asano), além da bela Lady Sif (Jamie Alexander) e Heimdall (Edris Alba), o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Asgard a Terra. Nenhuma das atuações deixa a desejar, o que era de se esperar de um diretor de origem teatral acostumado a lidar com personagens complexos, sabendo tirar dos intérpretes o melhor que podem oferecer. Mesmo o novato Hemsworth não compromete, desfazendo a primeira impressão de seria apenas uma montanha de músculos (e ele de fato tem presença de cena). Só a lamentar a presença prá lá de discreta de Rene Russo (estava sumida, hein?), como a mãe de Thor, praticamente entrando muda e saindo calada.



É no lado “terreno” da trama que o roteiro se complica. Ao cair em nosso mundo (que os argardianos conhecem por Midgard), Thor é encontrado por um grupo de três cientistas, entre eles a astrofísica Jane Foster (a oscarizada Natalie Portman). É claro como a água que os dois terão um romance e não há problema nisso, já que um projeto que pretende ser um blockbuster também tem que ter um apelo para o público feminino. O problema reside na forma como ele se desenvolve, de forma muito apressada. Por mais que Natalie Portman seja encantadora, o clima entre os dois soa artificial com a correria do roteiro. Pior ainda resulta a mudança da personalidade do príncipe que, em pouco tempo, já se mostra humilde e contido em seus impulsos. Acredito que não custava nada mostrar mais das vivências do personagem entre os humanos, além de colocar legendas que indicassem passagens de tempo como “1 ano depois” ou qualquer outra coisa que o valha. Ademais, é este momento em que se apresentam as maiores diferenças com relação ao universo dos quadrinhos, já que Thor não perde sua memória como nas HQs, assumindo o nome de Donald Blake apenas por circunstâncias (o nome seria de um ex-namorado de Jane, a qual, por sinal, nos quadrinhos é uma enfermeira). De qualquer forma, também pelo lado de Midgard as atuações se mostram eficientes. Portman se mostra à vontade no papel e o sueco Stellan Skarsgård como o professor Selvig e Kat Dennings como a estagiária Darcy também são boas presenças.

No aspecto técnico, o filme também acaba oscilando, com ótimos efeitos visuais em certas sequências, mas deixando a desejar em outras. Por outro lado, farei uma ressalva a favor dos ângulos e enquadramentos escolhidos pelo diretor Branagh. Muitos vêm criticando os planos inclinados, ou tombados (que alguns chamam de “plano holandês”) utilizados em várias cenas. Mas há um detalhe que muitos não estão percebendo. Tais planos foram usados apenas nas sequências que se passam na Terra e creio que a intenção de Branagh seja a de identificar estas imagens com a ideia de um deus caído, deslocado do seu mundo. Seja como for, o recurso não me incomodou e não vejo como demérito algum à fotografia do longa. Por seu turno, a trilha sonora, composta por Patrick Doyle, é ótima, bonita e muito bem inserida ao longo da projeção.

Como leitor antigo das HQs do universo Marvel, fiquei razoavelmente satisfeito com a adaptação (e há várias referências no filme que farão a alegria dos fãs da Marvel, como a aparição de um certo vingador na pele de Jeremy Renner). Só resta saber como será respondida a questão levantada no início deste texto. Será que uma narrativa com personagens e situações tão inverossímeis irá agradar a muitos? A sessão que eu e minha noiva pegamos estava praticamente lotada, mas é natural que nos primeiros dias os fãs e adeptos lotem as salas. De qualquer forma, apesar de suas oscilações, “Thor” tem potencial para construir uma carreira de sucesso, mostrando que a Marvel está sabendo o que fazer com seus personagens, mesmo diante do quadro já meio cansado do gênero dos super-heróis.

Obs. Há uma cena depois dos créditos. Espere um pouquinho!


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva


Akira
(Akira)


Adolescência apocalíptica


Já havia algum tempo, o DVD de “Akira”, a obra máxima do japonês Katsuhiro Otomo, se encontrava na minha estante de filmes, em meio às dezenas de outros longas-metragens aos quais eu ainda não havia assistido, e isso apesar da minha grande curiosidade em vê-lo. Pois bem, eis que finalmente decidi apreciá-lo e, atendendo às minhas expectativas, o filme, em boa parte, não decepciona, se mostrando surpreendentemente atual em várias de suas facetas e, mesmo nos aspectos técnicos da animação, ainda dotado de muita beleza.

Antes de tudo, “Akira” procura traduzir em imagens o turbilhão de emoções à flor da pele que é a adolescência. Seus protagonistas, Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, são espelho tanto da inconsequência, quanto da revolta e sentimento de inadequação que caracterizam esta fase da vida. Tetsuo, o garoto que é alvo de uma experiência que potencializa os poderes de sua mente, é a síntese destes conflitos, ainda mais agravados pelo fato do mesmo ser uma vítima de bullyng e sempre precisar da ajuda se seu amigo Kaneda, uma espécie de irmão mais velho, para escapar das enrascadas em que se envolve. Imaginar um adolescente ressentido com poderes telepáticos quase infinitos, capazes de promover a destruição de tudo que se encontrar no caminho é algo assustador e nos lembra até mesmo de fatos recentes, como o do atirador da escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, ou dos estudantes que abriram fogo no Instituto Columbine, nos EUA, há alguns anos. Por outro lado, essa abordagem não deixa de refletir o temor que a sociedade japonesa tem de seus jovens. Extremamente conservadores e tradicionalistas, é difícil para os japoneses aceitarem qualquer forma de iconoclastia e isso se traduz no receio com relação às gerações mais novas, o que redunda em uma repressão que conduz vários desses jovens ao suicídio.

Os japoneses, ademais, costumam expressar seus medos coletivos de forma bastante explícita em seus meios artísticos. O cinema, ao longo de décadas, tem servido de divã para esses temores, como bem demonstra o excepcional “Sonhos”, do mestre Akira Kurosawa, onde o horror nuclear aparece em mais de um dos sonhos (contos) que constituem as diversas narrativas do filme. Otomo, não fugindo à regra, também manifesta esses medos de maneira acentuada nesta obra, que foi primeiramente um manga de sucesso escrito pelo próprio diretor. Afinal, a trama de Akira, é importante explicar, insere-se em um contexto pós-apocalíptico, quando a terceira guerra mundial já haveria ocorrido, com a antiga cidade de Tóquio varrida do mapa. Em seu lugar, foi construída Neo-Tóquio, uma metrópole sombria e turbulenta dominada por jovens delinquentes e grupos políticos anarquistas. Neste contexto, os militares se impõem como força da ordem e adquirem poderes quase ilimitados, seqüestrando pessoas para servirem de cobaias no projeto Akira (daí o título do filme). O nome do projeto se refere a um garoto especialmente poderoso que, com seus talentos fora de controle, teria sido o responsável pela destruição da antiga Tóquio. É de tais experiências que Tetsuo é cobaia, como já mencionado no início deste texto, logo após esbarrar, durante uma das brigas de gangues, em uma das crianças especiais que havia escapado das instalações militares. Kaneda, então, se empenha em sua busca, tendo de contar, para tanto, com a ajuda dos grupos paramilitares anarquistas.



Toda essa apoteose de paranoias nipônicas tem uma ambientação cyberpunk que remete a longas de ficção-científica anteriores, como o inevitável “Blade Runner”. Mas seria leviano afirmar que Otomo se limita a realizar um pastiche de obras predecessoras. Seu universo possui uma inegável originalidade que influenciou vários outros autores, até mesmo em suas características imagéticas (em determinadas sequências, “Ronin”, uma das grandes HQs de Frank Miller, me veio à mente, percebendo assim a influência de “Akira” em obras ocidentais). Entretanto, e aqui vai uma ressalva, tal universo em diversos momentos se apresenta muito hermético para os não iniciados nos mangas e animes japoneses. Sua conclusão, bastante abstrata e que, por vezes, parece sugerir que o espectador conheça previamente a obra em quadrinhos, é um exemplo claro desta afirmação (muito embora seja distinta da escrita para o manga).

Em aspectos técnicos, Akira também foi responsável por uma enorme evolução, principalmente no âmbito da produção japonesa. A fluidez alcançada pelas técnicas empregadas só era comparável à qualidade dos estúdios Disney (o que, inclusive, deixou a Casa do Mickey de orelhas em pé), estando muito além dos recursos utilizados nos animes até então. A perfeita sincronia entre as vozes e os gestos faciais foi surpreendente, assim como a ampla gama de cores utilizadas, as quais contribuíram em muito para dar vida e um clima diferenciado à cidade de Neo-Tóquio.

Dotado de uma violência gráfica talvez nunca antes vista em uma animação, é preciso alertar que “Akira” não é uma experiência que agrade a todos, mas é bom lembrar que o próprio gênero da ficção-científica não é uma unanimidade. Contudo, se estiver procurando uma experiência cinematográfica diferente do feijão com arroz cotidiano, a jornada do perturbado Tetsuo se apresenta como uma opção bastante interessante e, com certeza, obrigatória para os interessados na cultura nipônica, além de expor muito do inconsciente coletivo desta sociedade e, porque não, também da sociedade ocidental, hoje repleta de jovens enfurecidos dispostos a extravasar de maneira violenta seus ressentimentos.


Cotação:

Nota: 9,5

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cannes 2011 - Seleção


Eu havia passado batido por essa notícia, mas nunca é tarde para repercuti-la. No último dia 14/04, tivemos a divulgação da seleção oficial do Festival de Cannes 2011. Ela inclui vários cineastas consagrados, de Woody Allen (fora de competição) a Lars Von Trier, passando por Pedro Almodóvar e Terrence Malick (com o seu aguardadíssimo "A Árvore da Vida"). O Brasil se faz presente na mostra "Um Certo Olhar" com o longa "Trabalhar Cansa", de Juliana Rojas e Marcos Dutra, além da presença na "Quinzena dos Realizadores" (cuja seleção foi divulgada no dia 19), aqui com o novo filme de Karim Aïnouz, "O Abismo Prateado". Na mostra de curtas Cinéfondation, teremos ainda "Duelo Antes da Noite", de Ana Furtado. O festival terá início no dia 11/05 e seguirá até 22/05, tendo Robert DeNiro como presidente do júri. Agora é aguardar!



Filme de abertura:

“Midnight in Paris”, Woody Allen (for a de competição)



Competitiva:

“The Skin That I Live In”, Pedro Almodóvar

“L’Apollonide”, Betrand Bonello

“Footnote”, Joseph Cedar

“Paterre”, Alain Cavalier

“Once Upon A Time In Anatolia”, Nuri Bilge Ceylan

“The Kid With The Bike”, Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Le Havre”, Aki Kaurismaki

“Hanezu no Tsuki”, Naomi Kawase

“Sleeping Beauty”, Julia Leigh

“A Árvore da Vida”, Terrence Malick

“La Source de Femmes”, Radu Mihaileanu

“Polisse”, Maïwenn Le Besco

“Harakiri”, Takashi Miike

“We Have A Pope”, Nanni Moretti

“Melancolia”, Lars Von Trier

“This Must Be The Place”, Paolo Sorrentino

“Drive”, Nicholas Winding Refn

“We Need To Talk About Kevin”, Lynne Ramsay



Un Certain Regard/Um Certo Olhar:

“Restless”, Gus Van Sant (filme de abertura)

“Martha Marcy May Marlene”, Sean Durkin

“The Hunter”, Bazur Bakuradze

“Halt auf freier Strecke”, Andreas Dresen

“Skoonheid”, Oliver Hermanus

“Hors Satan”, Bruno Dumont

Les Neiges du Kilimandjaro”, Robert Guédiguian

“The Days He Arrives”, Hong Sang-Soo

“Bonsai”, Christian Jimenez

“Tatsumi”, Erik Khoo

“En maintenant, on va ou?”, Nadine Labaki

“Ariang”, Kim Ki Duk

“Loverboy”, Catalin Mitulescu,

“Toomelah”, Ivan Sen

“Yellow Sea”, Na Hong-Jin,

“Miss Bala”, Gerardo Naranjo,

“L’exercice de l’Etat”, Pierre Schoeller,

“Oslo, August 31st”, Joachim Trier

“Trabalhar Cansa”, Juliana Rojas e Marco Dutra



Fora de competição:

“Um Novo Despertar”, Jodie Foster

“The Artist”, Michel Hazanavicius

“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas”, Rob Marshall

“La Conquete”, Xavier Durringer

“Kung Fu Panda 2”, Jennifer Yuh



Sessões da meia-noite:

“Wu Xia”, Peter Ho-Sun Chan

“Dias de Gracia”, Everardo Gout



Exibições especiais:

“Labrador”, Frederikke Aspock

“Le maître des forges de l’enfer”, Rithy Panh

“Un documentaire sur Michel Petrucciani”, Michael Radford

“Tous au Larzac”, Christian Rouaud


Quinzena dos Realizadores


Longas:

Après Le Sud, de Jean-Jacques Jauffret (França)

Breathing, de Karl Markovics (Áustria)

Blue Bird, de Gust Van de Berghe (Bélgica)

Palawan Destin, de Auraeus Solito (Filipinas)

Chatrak, de Vimukthi Jayasundara (França e Índia)

Code Blue, de Urszula Antoniak (Holanda e Dinamarca)

Corpo Celeste, de Alice Rohrwacher (Itália, Suíça e França)

Eldfjall, de Rúnar Rúnarsson (Dinamarca e Islândia)

En Ville, de Valérie Mréjen e Bertrand Schefer (França)

Impardonnables, de André Téchiné e Jeanne Captive (França)

Jeanne Captive, de Philippe Ramos (França)

La Fée, de Fiona Gordon, Dominique Abel e Bruno Romy (França e Bélgica)

La Fin Du Silence, de Roland Edzard (França)

Les Géants, de Bouli Lanners (Bélgica, França e Luxemburgo)

O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz (Brasil)

Play, de Ruben Östlund (Suécia, França e Dinamarca)

Porfirio, de Alejandro Landes (Colômbia, Espanha, Uruguai, Argentina e França)

Return, de Liza Johnson (Estados Unidos)

Sur La Planche, de Leïla Kilani (Marrocos, França e Alemanha)

The Island, de Kamen Kalev (Bulgária e Suécia)

The Other Side Of Sleep, de Rebecca Daly (Holanda, Hungria e Irlanda)


Curtas:

Armand 15 Ans L’été, de Blaise Harrison (França)

Bielutin - Dans Le Jardin Du Temps, de Clément Cogitore (França)

Boro In The Box, de Bertrand Mandico (França)

Cigarette At Night, de Duane Hopkins (Reino Unido)

Csicska, de Attila Till (Hungria)

Demain, Ça Sera Bien, de Pauline Gay (França)

Fourplay: Tampa, de Kyle Henry (Estados Unidos)

Killing The Chickens To Scare The Monkeys, de Jens Assur (Suécia e Tailândia)

La Conduite De La Raison, de Aliocha (França)

Las Palmas, de Johannes Nyholm (Suécia)

Le Songe de Poliphile, de Camille Henrot (França)

Mila Caos, de Simon Paetau (Alemanha e Cuba)

Nuvem, de Basil da Cunha (Portugal e Suíça)

Vice Versa One, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão)


Sessões Especiais:

Des Jeunes Gens Mödernes, de Jérôme de Missolz (França e Bélgica)

El Velador, de Natalia Almada (Estados Unidos, México e França)

Koi No Tsumi, de Sion Sono (Japão)

La Nuit Elles Dansent, de Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault (Canadá)