sábado, 4 de junho de 2011

X-Men - Primeira Classe



De primeira classe!


Em 2000, Bryan Singer levou os filmes baseados em histórias em quadrinhos a um novo status. A despeito das dúvidas e incredulidade de muitos, que achavam difícil transpor para as telas o universo dos “X-Men” com a qualidade técnica necessária, mas, principalmente, a carga dramática característica dos mutantes, Singer foi extremamente bem sucedido em sua adaptação. E quando falo em “carga dramática” não é à toa. Entre os tradicionais heróis tanto do universo Marvel quanto da DC (as maiores editoras de quadrinhos dos EUA), certamente os mutantes são aqueles com maior densidade psicológica, dada a questão central que permeia as suas tramas: o preconceito (acredito que apenas Batman, na DC, se equipare neste aspecto, mas com outras motivações e temáticas). Singer, todavia, encarou muito bem o desafio e nos trouxe um ótimo filme, cheio de ação, mas sem nunca perder o foco dos dramas pessoais vividos por seus personagens. O sucesso em qualidade se refletiu também em sucesso de público, catapultando Hugh Jackman, com sua caracterização perfeita de Wolverine, ao estrelato e gerando mais duas continuações diretas, além de uma prequel exclusiva do citado Wolverine. Com o segundo episódio, vale salientar, Singer conseguiu superar o primeiro, tanto em termos técnicos quanto no aprofundamento dos conflitos, fazendo de “X-Men 2” um dos melhores filmes de super-heróis até hoje realizados. Após se afastar da franquia para assumir a direção de “Superman – O Retorno” (um dos seus antigos sonhos era dirigir um filme do homem de aço), Singer retorna agora ao universo mutante, mas como produtor, deixando a direção para um dos nomes promissores da Hollywood atual, Matthew Vaughn (que dirigiu anteriormente “Kick Ass – Quebrando Tudo”). A missão de ambos era dar um novo fôlego à série, cujo terceiro episódio (“O Confronto Final”), dirigido por Brett Ratner, não teria apresentado resultado tão satisfatório quanto os seus dois predecessores (está um pouco abaixo, realmente, mas, na minha opinião, ainda é muito bom).

O conceito de “X-Men – Primeira Classe”, o qual consiste em revelar as origens dos conflitos desenvolvidos na série e de alguns dos personagens já conhecidos do público, mormente o Professor Charles Xavier e seu amigo-inimigo Magneto, teve início com um projeto para um filme solo do famoso mutante mestre do magnetismo. Felizmente, perceberam que um filme de Magneto sem a presença de Charles Xavier seria um tiro na água e a ideia evoluiu para um contexto mais amplo, qual seja, mostrar como nasceu a tal amizade-inimizade entre os dois, além da escola para jovens superdotados gerida pelo professor.

É com esse intuito que somos levados aos anos 60, não sem antes acontecer uma passagem pelos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. É neles que o garoto Erick Lehnsherr (interpretado já adulto pelo excelente ator alemão Michael Fassbender) vê sua mãe ser assassinada por um nazista, o cientista Sebastian Shaw (Kevin Bacon), o qual já havia percebido os poderes magnéticos do menino. A vingança torna-se, desta forma, a obsessão de sua vida e é em busca dela que Erick acaba esbarrando em Charles Xavier (o sempre ótimo James McAvoy), ainda um jovem professor estudioso das mutações genéticas. A amizade entre os dois levará à busca de jovens mutantes (à serviço da CIA, convencidos pela agente Moira MacTargget) e criação da tal escola para superdotados, ensinando-os a canalizar seus poderes e oferecendo uma convivência com outras pessoas também detentoras de habilidades especiais. A trama mutante tem como pano de fundo os fatos reais acontecidos na década de 60, principalmente a crise dos mísseis em Cuba, a qual acaba servindo também como força motora de vários aspectos da narrativa (com direito até a inserções de imagens de John Kennedy na projeção). O resultado, e isso afirmo como apreciador não só da franquia cinematográfica como também das HQs, é vibrante e, por vezes, emocionante.


O roteiro, escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e o próprio cineasta Matthew Vaughn , é realmente ótimo e muito feliz em realizar uma verdadeira fusão entre elementos ficcionais e verídicos. Além disso, sabe equilibrar quase à perfeição os momentos de ação e reflexão. Aliás, neste último aspecto, este é o filme ao mesmo tempo mais reflexivo e introspectivo de toda a série, onde se percebe uma verdadeira aula de como se fazer uma aventura cheia de neurônios. Se a metáfora do preconceito está presente em todos os episódios, aqui, ressalte-se, ela é trabalhada de maneira ainda mais sólida e consistente, principalmente através dos ricos diálogos entre Xavier e Magneto (que estão entre os melhores momentos do longa, vale dizer). A força deste manifesto anti-preconceito é ainda corporificada nos personagens de Mística (Jennifer Lawrence, de “Inverno da Alma”, bonita e talentosa) e Hank McCoy, o Fera (Nicholas Hoult, muito competente), cujas mutações também lhes confere uma aparência física “diferente”, o que redunda em um sentimento de exclusão ainda mais forte do que os dos outros mutantes.

Claro que toda a carga dramática do filme cairia no descrédito não fossem as ótimas atuações do elenco. Difícil afirmar quem está melhor em tela. Tanto McAvoy quanto Fassbender dão um show de competência como Charles Xavier e Erick Lehnsherr, respectivamente. Fassbender deverá, inclusive, deixar de ser um ator pouco conhecido para construir uma carreira sólida em Hollywood, não tenho dúvidas. Mesmo Kevin Bacon, um ator cheio de altos e baixos, está ótimo como o pedante Sebastian Shaw, um dos vilões mais marcantes das antigas estórias dos X-Men, quando estes viviam seus embates contra o Clube do Inferno. Por outro lado, fica a desejar a caracterização de Emma Frost, a Rainha Branca do clube e esposa de Shaw, aqui interpretada por January Jones. Lembrada nos quadrinhos não apenas por sua beleza e sensualidade, mas também por sua inteligência e personalidade manipuladora, ela aparece na projeção sem destaque para essas duas últimas características, quase se transformando em uma loira de butique, o que é uma pena.

Além da pobreza desta transposição de Emma Frost, o roteiro ainda peca por se utilizar da velha muleta de apresentar os mutantes e seus poderes de forma muito didática (um verdadeiro lugar-comum em filmes de super-heróis). O didatismo aqui se torna ainda mais acentuado até mesmo devido às técnicas de controle desenvolvidas na escola de Charles Xavier. Ademais, os efeitos especiais deixam a desejar em algumas passagens e a caracterização do Fera me pareceu um pouco artificial (creio que o uso de CGI teria sido mais feliz do que a maquiagem, neste caso).

Todavia, estes são problemas pontuais que não comprometem o conjunto. O diretor Vaughn jamais deixa a peteca cair, com um ótimo ritmo. Apesar de um pouco longo, o filme nunca se torna cansativo. Muito pelo contrário. Ele vai crescendo em envolvimento e emoção, resultando em um final sensacional e marcante, que só deixa o espectador ainda mais ansioso para ver mais um capítulo da saga. Um desfecho que, se não nos faz tomar o lado de Magneto em sua batalha, também nos leva a compreender suas motivações, fazendo com que evitemos pronunciar julgamentos acerca de suas atitudes. Uma aula de como realizar um produto voltado para as massas sem maniqueísmos. Esperemos que, tal como os alunos do Professor X aprenderam com este a dominar seus poderes, os produtores e diretores aprendam com Singer e Vaughn a usar seus altos orçamentos para gerar obras que podem ser um ótimo entretenimento com respeito à inteligência e sensibilidade do espectador. E, neste aspecto, a nova aventura dos X-Men é mesmo de primeira classe!


Obs. Há duas participações especiais no filme: Hugh Jackman (hilário!) e Rebecca Ronmjn-Stamos. Fique atento (a)!


Cotação:

Nota: 9,5

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda sobre "Piratas do Caribe"



Com a chegada do quarto episódio da franquia, já em exibição nos cinemas, aproveito a oportunidade para postar a resenha de "Piratas do Caribe - No Fim do Mundo", escrita quando do lançamento do longa e que ainda permanecia inédita neste espaço. Segue abaixo.



Piratas do Caribe - No Fim do Mundo


Confusão em alto mar


Em 2003, a Disney teve a idéia de produzir um filme baseado em um brinquedo de um de seus famosos parques. Caindo nas mãos do produtor Jerry Bruckheimer, este convidou Gore Verbinski para dirigi-lo. O que parecia uma empreitada pouco pretensiosa dos estúdios do Mickey acabou se tornando um enorme sucesso, não só de público como de crítica. Sem buscar algo além de um bom entretenimento, o filme tinha ótimas doses de aventura, romance e comédia, sendo este último aspecto capitaneado pelo fantástico ator Johnny Depp, o qual criou um especial personagem: o Capitão Jack Sparrow, uma espécie de “Macunaíma Pop”, um anti-herói sem nenhum caráter, mas extremamente divertido. O sucesso do personagem foi tão grande que Depp ganhou uma indicação ao Oscar, além de ver seu nome catapultado ao time de super-astros de Hollywood, logo ele que sempre teve um perfil “alternativo”.

Estimulados com o sucesso de “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”, os produtores resolveram investir em mais duas continuações. A primeira delas, intitulada “O Baú da Morte” teve sua estréia em 2006 e acabou se tornando o terceiro filme em bilheteria na história, atrás apenas do insuperável “Titanic” e de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, sendo também o terceiro filme a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão arrecadados em todo o mundo. Embora com um roteiro não tão bem acabado quanto o do original, “Piratas 2” mantém o nível de diversão nas alturas, com uma participação do capitão Sparrow ainda mais impagável e uma trama repleta de aventuras e fantasia.

Pois bem, agora estréia nos cinemas de todo o mundo, prometendo arrecadar de forma também gigantesca “Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo” a terceira e última (será mesmo?) parte da trilogia.Todavia , mesmo que tenha sua bilheteria estratosférica garantida, este se mostra o exemplar mais fraco da série.

Logo no início, vemos Elizabeth Swann (a bela Keira Knigthley), ao lado do Capitão Barbossa (Geoffrey Rush, ótimo), em busca da ajuda de Sao-Feng (Chow Yun-Fat, coadjuvante de luxo), um dos nove lordes piratas, para resgatar Jack Sparrow da espécie de “limbo” onde está após ser levado pelo Kraken no fim do 2º episódio. Sparrow, que também é um dos tais “lordes piratas”, é necessário para que a Confraria dos Piratas possa libertar a deusa dos mares Calypso da forma humana à qual está presa por obra da própria Confraria. E a verdade é que nos perdemos em um emaranhado de nomes, lugares e situações, principalmente se você não viu ou reviu o segundo episódio há pouco tempo (para aqueles que ainda não viram e pretendem assistir a esse 3º episódio, é recomendável que cheguem ao cinema com o segundo episódio ainda fresco na memória). A primeira metade do filme se arrasta de forma aborrecida, sem sal e eu já estava apreensivo, pois tendo em vista sua “longa metragem” (são duas horas e quarenta e cinco minutos) seria mesmo um saco acompanhar tudo aquilo até o fim.



Todavia, para alegria geral dos espectadores, a segunda metade do filme decola, apresentando fantásticas cenas de ação, além das doses de comédia também aumentarem consideravelmente. Memorável a seqüência do confronto entre o Flying Dutchman (o navio do capitão Davy Jones) e o Pérola Negra em meio a um redemoinho, onde várias tomadas de ação se desenrolam ao mesmo tempo: o duelo entre Sparrow e Davy Jones; o casamento de Will Turner (Orlando Bloom) com Elizabeth, tendo o capitão Barbossa como responsável pelo casório (hilário!!!); a resolução do conflito entre Will e seu pai... Ou seja uma avalanche de acontecimentos realmente empolgante. Ademais, é na segunda metade do filme que realmente vemos onde foram colocados os “zilhões” de dólares gastos na produção. Vale dizer ainda que o romance de Will e Elizabeth resta poeticamente bem resolvido. Em síntese: a segunda metade do longa salva o todo de um naufrágio de proporções gigantes.

Naufrágio este que também não ocorre devido às ótimas atuações, seja do sempre brilhante Johnny Depp, como também de Geoffrey Rush, que está ótimo como Barbossa. Keyra também está competente (além de bela) além de todo o restante do elenco. Só Orlando Bloom é que continua com sua eterna “cara de nada”, tão expressivo nas telas quanto a seleção de futebol da Guatemala no cenário esportivo... Mas ainda há um detalhe especial a ser ressaltado no elenco: a breve participação de Keith Richards, o lendário guitarrista dos Rolling Stones, como pai de Jack Sparrow. E até sou capaz de afirmar: ele rouba a cena! É sabido que Depp se inspirou em Richards para compor seu pirata e a participação do guitarrista foi mesmo uma grande sacada da equipe!

Mas a verdade é que, no término da sessão, ficamos com a sensação que de o longa resultou bem aquém de suas possibilidades, perdendo-se em um roteiro atabalhoado que procura amarrar todas as pontas soltas deixadas pelo episódio 2, mas que só consegue ser confuso e arrastado durante um bom tempo, salvando-se no fim. Entre altos e baixos, o filme se salva, mas brilhando bem menos que seus predecessores. Vale dizer que entre os grandes lançamentos do “verão 3” dos EUA este é o está tendo a menor bilheteria, não só pela sua longa duração (o que possibilita um número menor de exibições por dia), como também pelas críticas pouco simpáticas que vem obtendo (muito embora Shrek Terceiro esteja recebendo espinafradas ainda maiores!). Esperamos que os produtores, caso desejem levar adiante a idéia de um “Piratas 4”, procurem corrigir os problemas apresentados neste, para que não vejam uma franquia tão interessante naufragar tragada pelo redemoinho da incompetência.

Por fim, uma observação: vale à pena esperar até o fim dos créditos para assistir à cena final. É bem interessante!


Cotação:

Nota: 7,0

domingo, 22 de maio de 2011

"A Árvore da Vida" leva a Palma de Ouro


Depois de um festival cheio de polêmicas, como as declarações nazistas de Lars Von Trier (numa queimada de filme histórica), o júri comandado por Robert De Niro anunciou hoje os vencedores do evento. A Palma de Ouro foi para "A Árvore da Vida", do lendário Terrence Malick, filme que provocou tumulto em sua primeira exibição e foi vaiado por muitos e aplaudido por outros tantos (e que estou ansioso pra ver!). Confira abaixo a matéria do portal IG.


"A Árvore da Vida" ganha Palma de Ouro em Cannes

Filme de Terrence Malick é o grande vencedor do festival em 2011

Orlando Margarido, especial de Cannes | 22/05/2011 15:06



A Palma de Ouro do 64ª Festival de Cannes foi para o filme "A Árvore da Vida", de Terrence Malick. Ele não veio a Cannes e foi representado por dois dos vários produtores envolvidos na fita, que tem entre os montadores o brasileiro Daniel Rezende - leia a entrevista exclusiva com Daniel Rezende. “Malick é um tímido incorrigível”, disse um dos produtores. A premiação terminou agora a pouco. Já o Grande Prêmio do Júri, o Grand Prix, foi dividido entre "Le Gamin au Véio", da dupla belga Jean-Pierre e Luc Dardenne e “Bir Zamanlar Anadolu’da”, do turco Nuri Bilge Ceylan.

Os irmãos Dardenne agradeceram o protagonista adolescente do filme Thomas Doret. Ceylan foi breve e parecia contrariado com a premiação. A melhor direção coube ao dinamarquês com carreira nos Estados Unidos Nicolas Winding Refn pelo filme "Drive". Ele lembrou especialmente o ator Ryan Gosling, seu protagonista, pela colaboração na realização do longa-metragem.

O prêmio de melhor ator e melhor atriz foram entregues a Jean Dujardin, protagonista da produção francesa "The Artist", e Kirsten Dunst, por "Melancolia", filme de Lars Von Trier. Ela agradeceu a possibilidade de poder mostrar tanto empenho no filme. Dujardin, astro na França, dividiu o reconhecimento com sua parceira na fita, Bérénice Bejo. “Eu também quero a receita desse prêmio para recebê-lo sempre”, completou. O concorrente israelense "Hearat Shulayim", de Joseph Cedar, teve reconhecido o roteiro. O diretor não estava na premiação e foi representado por uma integrante da equipe, que leu uma mensagem do realizador. O prêmio do júri foi para "Polisse", da diretora francesa Maïwenn. Muito emocionada e ofegante, ela agradeceu sua equipe de atores e técnicos, sua família e filhos.

O júri da competição oficial é presidido pelo ator Robert De Niro e formado pelo diretor francês Olivier Assayas, seu colega chadiano Mahamat –Saleh Haroun, que no ano passado recebeu o Prêmio do Júri por "Un Homme qui Crie", Johnnie To, realizador de Hong Kong, o ator Jude Law, as atrizes Martina Gusmán, argentina que é mulher do diretor Pablo Trapero, e Uma Thurman, a escritora norueguesa Linn Ullman, e por fim a produtora chinesa Nansun Shi.

A Caméra D’Or para o melhor diretor estreante foi dada a Pablo Giorgelli, pela co-produção hispano-argentina "Las Acacias", exibida na paralela Semana da Crítica, enquanto "Cross Country)", de Maryna Vroda levou a Palma de Ouro na categoria de curta-metragem.

Veja abaixo a lista com os vencedores do Festival de Cannes 2011:

Palma de Ouro: "A Árvore da Vida", de Terrence Malick
Atriz: Kirsten Dunst, por "Melancolia"
Ator: Jean Dujardin, por "The Artist"
Diretor: Nicolas Winding Refn, por "Drive"
Roteiro: "Hearat Shulayim", de Hearat Shulayim
Grande prêmio: "Le Gamin au Véio", de Jean-Pierre e Luc Dardenne, e "Bir Zamanlar Anadolu’da", de Nuri Bilge Ceylan
Curta-metragem: "Cross Country", de Marina Vroda
Prêmio Câmera de Ouro: "Las Acacias", de Pablo Giorgelli
Prêmio de júri: "Polisse", de Maiwenn Le Besc

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas




As aventuras de Indiana Sparrow ainda agradam


Desde o primeiro episódio da franquia “Piratas do Caribe” – mais precisamente “A Maldição do Pérola Negra”, de 2003 – a salas de exibição costumam ficar lotadas em suas sessões e, desta vez, não foi diferente. Sala cheia (acho que não cabia mais ninguém). A popularidade da série é tamanha que mesmo o apenas mediano terceiro episódio (“No Fim do Mundo”) não diminuiu a vontade do público de ver mais uma aventura encabeçada pelo Capitão Jack Sparrow, personagem que transformou Johnny Depp em uma super-astro de blockbusters, deixando de lado sua antiga aura de ator mais voltado para filmes alternativos e artísticos. Interessante que, no primeiro filme, o capitão surgiu como coadjuvante do casal central formado por Keira Knightley e Orlando Bloom, mas o talento e carisma de Depp acabaram por transformar Sparrow no verdadeiro protagonista da série e este quarto episódio, “Navegando Em Águas Misteriosas”, só atesta tal percepção.

A popularidade de Jack Sparrow atualmente se assemelha bastante ao Indiana Jones de Harrison Ford de duas décadas atrás. Ambos são reis das grandes aventuras, dotadas de um realismo fantástico que remete a um cinema mais antigo, que empolgava crianças e adolescentes em um tempo em que ainda não havia televisão ou games. Os dois protagonistas também são espirituosos, sempre com a piada certa para o momento certo, além de serem famosos em seu “meio profissional”. Talvez então não seja coincidência que a trama desta nova sequência lembre bastante aquelas do arqueólogo caçador de relíquias perdidas. No presente caso, Sparrow alia-se a outros piratas, entre eles Barbossa (Geoffrey Rush, sempre com sua competência inquestionável) e Barba Negra (Ian McShane) – cada qual com suas motivações – em busca da Fonte da Juventude. Eles ainda correm para chegar ao objetivo antes dos espanhóis, que também estão à procura da tal fonte. Para que a água da fonte surta seu efeito, entretanto, é necessário que ela seja bebida juntamente com uma lágrima de sereia e em cálices que se encontram no velho navio naufragado comandado pelo lendário Ponce de León. Ou seja, em vários aspectos a narrativa lembra “Os Caçadores da Arca Perdida” ou “A Última Cruzada”, longas protagonizados pelo Dr. Henry Jones Jr. Até mesmo a personagem Angélica (Penélope Cruz, que estava grávida durante as filmagens), filha de Barba Negra e que é um antigo amor de Sparrow, parece bastante com a Marion da franquia Indiana Jones, até mesmo porque os dois vivem aquele romance estilo gata-e-rato, cheio de cinismo e sentimentos (mal) disfarçados.



Mas isso não é exatamente um demérito. Afinal, não há estória que já não tenha sido contada, o que importa é a forma de contá-la. E não se pode negar que o diretor Rob Marshall conseguiu sucesso na empreitada. Marshall, conhecido pela direção de musicais como “Chicago”, sofreu com a desconfiança de muitos que viam na saída de Gore Verbinski, diretor dos três primeiros episódios, um risco para a franquia. Só que há um detalhe importante que talvez passasse despercebido por estes “muitos”. “Piratas do Caribe” é uma série cinematográfica produzida por Jerry Bruckheimer e é bom lembrar que ele faz o estilo dos produtores da antiga Hollywood, controlando todas as fases do processo de produção. Um filme produzido por Bruckheimer é eminentemente um filme de Bruckheimer, assim como um filme produzido por David O. Selznick era um filme de Selznick. Assim, quase não se sente a mudança de direção, tendo o longa uma dinâmica muito semelhante às dos dois primeiros episódios.

Estão lá a ação quase constante, o humor rápido e espirituoso, a trilha sonora que acompanha praticamente toda a projeção, a edição bem realizada que dá lhe dá um ótimo ritmo, o roteiro (escrito por Ted Elliot e Terry Rossio) muito bem amarrado, além do bom desempenho do elenco. Neste aspecto, contudo, Depp parece estar menos entusiasmado que nos outros filmes (alguns diriam que está mais contido). Seus passos bêbados parecem não estar tão bêbados assim e suas tiradas cômicas estão mais esparsas (ou será que o próprio personagem, com a perda da “novidade” já não rende mesmo tão boas risadas quanto antes?). A maior parte dos seus bons momentos são aqueles em que contracena com Penélope, cujo sotaque carregado caiu como uma luva dentro do contexto divertido da série.

Por outro lado, a mão de Bruckheimer pode atuar tanto para o bem quanto para o mal. Apegado aos números de bilheteria, ele nunca vai deixar de fazer seus subordinados inserirem elementos de roteiro aptos a agradar ao grande público, como o romance até simpático, mas também previsível e desnecessário entre o missionário religioso Phillip (Sam Claflin) e a sereia Sirena (Astrid Bergès-Frisbey). Além disso, ele aparentemente retirou por completo a liberdade de Marshall. Conhecido por seu uso vibrante de cores, o diretor trabalhou aqui com imagens em boa parte escuras e pouco saturadas, caindo, neste ponto, na vala da mediocridade que domina as produções atuais. E aí vai a pergunta: com cenários tão belos à disposição (o filme foi rodado em boa parte no Havaí e em Porto Rico), pra que reduzir a paleta de cores, deixando de explorar o grande potencial de tais locações? Pergunta sem resposta (ou talvez seja melhor nem procurar a resposta). Todavia, o uso de efeitos especiais alcança níveis de excelência, como na sequência do ataque das sereias (vai se tornar memorável, sem dúvida).

“Piratas do Caribe – Navegando Em Águas Misteriosas” tem tudo para trazer lucros, apesar de seu pomposo orçamento (US$ 200 milhões). Apesar dos pesares relatados acima, ele é divertido e envolvente, resultando em um longa superior ao insosso e aborrecido terceiro episódio. A insistência de Bruckheimer na mesma fórmula, contudo, pode trazer danos significativos à franquia. Acredito até que a Disney deveria dar um tempo e fazer com que o público comece a sentir saudades das aventuras de Jack Sparrow (e também o próprio Depp, que está relutante em assinar para um quito capítulo), sob pena das águas misteriosas em que navega acabarem se transformando em águas turbulentas, dado o inevitável cansaço que os espectadores irão sentir diante do marasmo que pode acabar por engolir a série.

Obs. 1. Há duas participações especiais no longa. Keith Richards faz uma curta sequência como o pai de Jack e Jude Dench aparece em uma cena logo no início da projeção.

Obs. 2. Como é tradicional na franquia, há uma cena pós-créditos.


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 21 de maio de 2011

(500) Dias Com Ela



Reinventando a comédia romântica


É comum nos sentirmos sozinhos em momentos de dificuldade, seja ela de que natureza for, de saúde, familiar, econômica, profissional ou mesmo amorosa. Já houve quem dissesse que todo ser humano, mesmo que não seja um solitário, estará sempre sozinho, pois nunca será inteiramente compreendido por outro semelhante, uma vez que somos singulares, únicos, cada qual com uma maneira própria de enxergar a vida e o mundo. Em decorrência de tal condição, normalmente ficamos felizes quando vemos que outras pessoas já viveram momentos difíceis semelhantes aos nossos, agindo e reagindo de maneira também similar à nossa. Acredito que a frase “não estou sozinho” deve ter passado pela cabeça de muitos que viram “(500) Dias Com Ela”, um filme peculiar que trata de forma sincera, leve e inteligente as desventuras dos apaixonados.

A identificação dos espectadores com as situações retratadas no filme pode ser tão direta e imediata que, já em sua sequência inicial, aparecem na tela legendas esclarecendo, com acentuado bom-humor, que os fatos narrados são ficcionais, não correspondendo a nenhuma história real e específica. Realmente, é quase impossível que você não tenha passado por ao menos uma das situações tragicômicas vividas pelo personagem de Tom (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, que encontra o tom certo entre a comédia e o drama) ao longo dos 95 minutos de projeção (sim, o filme é enxuto). Estão lá as expectativas frustradas; as dicas furadas de amigos (por mais que seja boa a intenção que eles tenham) ou ainda as tentativas meio tolas de chamar a atenção daquele(a) que lhe rouba a atenção. Tudo está lá e colocado de uma maneira tão trivial, simples, que nos traz uma perspectiva de realidade incomum em um cinema dominado por comédias românticas clichês.

A verdade é que “(500) Dias Com Ela” foge do clichê até mesmo em sua estrutura narrativa não-convencional. A tradicional fórmula “boy meets girl” é subvertida, trazendo um novo jeito de contar uma estória há muito desgastada. Como se sabe, não existe história que já não tenha sido contada. O diferencial que distingue um autor de outros é maneira de narrar essa trama. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor Marc Webb (que está atualmente dirigindo o remake desnecessário do Homem-Aranha) é muito feliz, trazendo novos ares para o gênero a partir do roteiro criativo escrito a quatro mãos por Scott Neustadter e Michael H. Weber. Na própria cronologia da obra já é vista uma peculiar alteração: os tais 500 dias em que Tom se vê apaixonado por Summer (Zooey Deschanel, que além de atriz também é cantora) não são exibidos em ordem cronológica, mas (quase) aleatória. Em dada cena, assistimos a um dia já próximo do fim do relacionamento e, em seguida, pode ocorrer um salto para o início. Tudo sem que percamos a compreensão do que acontece, afinal o mais importante são os sentimentos de Tom e não os fatos em si. Entretanto, é possível que a maior subversão proposta pelo longa seja a dos papeis do homem e da mulher no relacionamento. Ao contrário do que comumente ocorre, Tom é que representa o lado mais frágil da relação, inseguro e romântico, enquanto Summer é confiante e mantém um certo distanciamento, evitando mergulhar de cabeça em uma paixão. Ou seja, retrata-se uma relação antenada com os novos costumes de nossa sociedade, onde os estereótipos estão cada vez mais obsoletos.


Entretanto, embora seja prazeroso e divertido acompanhar as venturas e desventuras de Tom, o roteiro, apesar de sua estrutura original, ainda se vale de algumas muletas narrativas que incomodam. A personagem da menina adolescente (papel de Chloe Moretz) que é mais “experiente” e “sábia” do que todos os outros personagens adultos é recurso já há muito desgastado e, ironia das ironias, a partir de certo ponto alguns acontecimentos se tornam previsíveis, tal como o desfecho do longa. Além disso, o uso constante de referências à cultura pop (como ao grupo Belle & Sebastian, The Smiths e aos próprios Beatles) é algo que também já está caindo no lugar-comum e dá a impressão de que Webb queria com isso apenas atribuir um ar mais “descolado” ao filme, muito embora não deixe de ser uma opção que sempre agrade aos fãs (e eu me incluo entre eles). Talvez sejam tiques de um diretor egresso do mundo dos videoclipes e, inevitavelmente, acabem interferindo no desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica, mas não se pode negar que em alguns momentos ele obtém muito sucesso com essa linguagem, como na conhecida sequência em que se mostra o estado de espírito de Tom após sua primeira noite com Summer.

Apesar de algumas ressalvas, é indubitável que “(500) Dias Com Ela” presta uma preciosa contribuição a um cinema contemporâneo que pouco se esforça em trazer algo de novo para o público, dando um belo sacolejo na preguiça reinante. Ademais, se você estiver passando por um período de dor-de-cotovelo provavelmente irá considerar esta película como uma verdadeira obra-prima. Com olhos mais distanciados, provavelmente não enxergará tanto, mas será impossível deixar de apreciar. Um filme inteligente sobre o amor, algo difícil nos dias de hoje, sempre será bem-vindo.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 15 de maio de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Minha Bela Dama
(My Fair Lady)


Beleza e misoginia



“My Fair Lady” é um filme anacrônico. Lançado no circuito comercial em 1964, ele ainda possui um clima e know-how típicos do studio system que controlava o cinema estadunidense até meados da década de 60, e que seria dali a pouco substituído pelo cinema autoral da Nova Hollywood. Esta enfrentava uma crise criativa acentuada e um severo descompasso com uma nova sociedade que nascia, dominada não mais pelos valores dos mais velhos, mas pela contestação e iconoclastia dos mais jovens. Afinal, em 1964 a beatlemania já dominava o mundo, revolucionários como Ernesto Guevara inspiravam as mentes ansiosas por mudanças em um mundo decrépito e a pílula anticoncepcional já começava a promover uma revolução nos costumes sexuais. A verdade é que a produção cinematográfica, talvez por ser muito cara, reagiu de forma tardia a esse turbilhão de mudanças. Ou, talvez, porque o mercado consumidor ainda não fosse dominado pelos jovens.

Neste cenário, os oito Oscars que o filme recebeu soam como um manifesto sinal de atraso da Academia, ainda extremamente apegada aos valores caros à sua era de ouro. Nada mais distoante da crescente liberação feminina do que a misoginia de “Minha Bela Dama”, uma película que mostra um abastado e machista linguista que encontra em uma florista de rua o alvo perfeito para a realização de uma “experiência”, na realidade uma aposta com seu amigo coronel e também aristocrata. O professor Henry Higgins (Rex Harrison), ademais, é de uma rudeza singular, perfeitamente incapaz de demonstrar sentimentos pelas pessoas e em especial por Eliza Doolitle (Audrey Hepburn), a qual representa uma ameaça à sua solteirice convicta. E nada mais anti-feminista do que vermos Eliza se apaixonar justamente por um homem que sequer lhe trata com educação.

Claro que, por outro lado, o filme possui outras conotações mais inspiradoras. Adaptação de um musical da Broadway, o qual por sua vez foi baseado na obra “Pigmaleão” do escritor George Bernard Shaw, a trama (com roteiro de Alan Jay Lerner) não deixa de ser uma feroz crítica à artificialidade da sociedade burguesa, bastante acostumada a olhar as pessoas apenas pelo seu exterior. Sintomático que Higgins, um intelectual de família tradicional, seja, em verdade, um homem bruto, enquanto a aparentemente embrutecida Eliza é, em verdade, a dama que se traduz no título da película. A essência de cada um não se transforma por suas posses ou aparência. Pelo contrário, é possível que riqueza e conforto apenas acentuem a verdadeira natureza de cada um.


Não se pode negar, ademais, que “My Fair Lady” sempre será lembrado por méritos performáticos e técnicos. É bom recordar que a direção é de George Cukor, um dos grandes expoentes da Hollywood clássica e dono de um talento especial para trabalhar com temáticas femininas e tirar das atrizes o melhor de seus dons interpretativos e que aqui levou o seu merecido prêmio da Academia (outros de seus trabalhos famosos são “Núpcias de Escândalo” e “A Costela de Adão”). O elenco, por sua vez, é simplesmente brilhante. O Oscar entregue a Harrison ficou em ótimas mãos. Ele encarna à perfeição o seu intratável Higgins, encontrando um timing memorável com Audrey Hepburn, esta em mais um papel que seria marcante em sua carreira. Curioso que Audrey foi dublada em várias das sequências musicais, o que a deixou extremamente irritada e talvez tenha sido esse o motivo de sua não indicação ao Oscar de melhor atriz na ocasião. Vale dizer ainda que ela substituiu Julie Andrews, a qual havia representado Eliza na Broadway e seria a primeira cotada para o papel, por motivos óbvios. Outro que se destaca em sua atuação é Wilfrid Hyde-White, interpretando o coronel Hugh Pickering, o cordato e sensato amigo com quem Higgins realiza a aposta que serve de mote da trama, além de Stanley Holloway, como o pai de Eliza, o qual protagoniza alguns do melhores momento musicais do longa, muito embora suas inserções apareçam, por vezes, como pontas soltas do roteiro. Já a direção de arte e os figurinos (de Cecil Beaton) são memoráveis e, com inteira justiça, levaram os prêmios da Academia.

No entanto, apesar de várias sequências divertidas, “Minha Bela Dama” é dotado de uma extensa duração (quase três horas) em que pouco acontece em termos de desenvolvimento da trama. Não é à toa que o crítico Adré Techniné, da Cahiérs du Cinema, ficou admirado com o seu “surpreendente vácuo” e essa sensação de quase nada acontecendo pode causar enfado em muitos (um romance sem beijo ou "eu te amo", dirão outros). Mas o maior demérito do longa não deixa de ser sua ode ao machismo que se mostra principalmente em sua conclusão, de causar arrepios nas feministas mais arraigadas. Entretanto, Tal circunstância não impediu que sua trama e personagens se tornassem uma espécie de mito moderno, copiados diversas vezes não só no próprio cinema como na televisão (várias novelas da Globo, por exemplo, já se valeram de sua premissa). E assim, não deixa de ser uma obra essencial para compreender uma parcela da cultura pop que vigora até os dias de hoje, apesar de ter nascido em um momento histórico-social dissonante do seu conteúdo.


Cotação:

Nota: 8,0

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Problemas com o Blogger

Muito estranho o comportamento do blog nos últimos dias. De ontem para hoje, então, não só alguns comentários sumiram, como um post inteiro, sobre o início do Festival de Cannes, foi para não sei onde. Isso após um bom tempo em que o sistema ficou inacessível. Provavelmente resultado de algum reboot que fez perder o que foi postado ontem. Bem, vou postar novamente, é o jeito!

Atualizado: Agora, o post sobre Cannes ressurgiu do nada. Vai entender...

E alerto aos leitores que alguns comentários que eventualmente não estejam visíveis não foram deletados pelo blogueiro! Abraço!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Festival de Cannes 2011 - Abertura


E começou ontem o Fetival de Cannes 2011. O longa de abertura (e fora de competição) foi "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen, contando no elenco com Owen Wilson e Rachel McAdams. Olha a foto acima! Ah, e Bernardo Bertolucci levou a primeira Palma de Ouro honorária da história do Festival, prêmio este que agora será entregue anualmente aos diretores com grande currículo, mas que nunca tenha levado a honraria pra casa. Olha a foto aí abaixo. Talvez eu seja exceção, mas meu grande sonho de cinéfilo não é o de ir ao Oscar, mas a Cannes!!!



terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu Quero Esse Pôster #14


Bem, esse eu literalmente tenho na parede da sala! Preciso dizer o porquê?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Restaurando a Película



Já havia algum tempo eu pensava em iniciar uma coluna destinada a redescobrir filmes injustiçados. Há diversas obras, grandes ou mais discretas, que, por motivos variados, acabam sendo rejeitados pelo público ou crítica (ou por ambos), quando do seu lançamento. O próprio Cidadão Kane, considerado hoje o melhor filme já feito, padeceu desse mal até que fosse devidamente colocado no panteão das grandes obras da arte cinematográfica. Existem muitas películas que merecem uma revisitada, tirá-las do esquecimento ou atribuir-lhes o valor que merecem. Aqui, dou início à série como o "Guerra e Paz" dirigido por King Vidor em 1956. Segue o texto!




Guerra e Paz
(War And Peace)



A epopeia do rei Vidor


King Vidor foi um dos grandes cineastas da era de ouro de Hollywood, conhecido por suas contribuições com o poderoso produtor David O. Selznick (este foi o responsável por “...E o Vento Levou”, por exemplo).”Duelo ao Sol” é um notório representante desta sua vertente. No entanto, seria injusto dizer que Vidor foi um mero burocrata a serviço do studio system reinante. Martin Scorsese, em sua obra “Um Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano” (documentário para a TV que posteriormente foi transformado em livro), afirma: “Vidor foi provavelmente o mais maleável dos pioneiros do cinema – um dos poucos que foram capazes, repetidas vezes, de convencer os chefões a deixá-lo fazer experiências” . Um exemplo claro de sua visão mais autoral de cinema encontra-se no longa “A Turba”, de 1928, ainda da era do cinema mudo, obra em que expõe uma forte crítica à competição e busca incessante pelo sucesso na sociedade capitalista (bastante atual, não?). De qualquer forma, mesmo quando se prestava a fazer as vontades dos produtores, Vidor deixava lá suas marcas pessoais, aproveitando-se do roteiro para tecer suas críticas, mesmo que de forma mais sutil. É o caso deste “Guerra e Paz”, adaptação para as telas do mais que famoso romance do russo Leon Tolstoi.

Claro que, pela própria grandiosidade da obra na qual se apoia, o filme foi concebido como uma superprodução pelos produtores italianos Carlo Ponti e Dino De Laurentiis (o longa é uma co-produção EUA-Itália), possuindo ecos de “...E O Vento Levou” em várias de suas passagens. Com um orçamento mastodôntico (com a correção da inflação somaria US$ 560 milhões, o que o levaria a ser o filme mais caro de todos os tempos), “Guerra e Paz” possui cenas belíssimas e impressionantes, principalmente nas passagens das batalhas que ocorrem quando da invasão da Rússia pela França de Napoleão. Vemos na tela centenas, talvez milhares de soldados em cada quadro, e é bom lembrar que, naquela época, não havia efeitos de CGI para criar figurantes. Traduzindo em miúdos: em cada cena de multidão havia realmente uma multidão ali, cada qual com suas roupas, armas, cavalos e outros adereços mais. Dá para imaginar o trabalho hercúleo das equipes de figurino e direção de arte? Mas não só de cenas de batalha vive este longuíssima metragem (são 3h28min de projeção). Tudo nele é grandioso. A sequência do primeiro baile de Natasha Rostov é de uma suntuosidade impressionante - tenho pra mim que foi nela que Luchino Visconti se inspirou para conceber seus famosos bailes cinematográficos.



Ademais, os personagens inesquecíveis concebidos por Tolstoi encontram perfeita interpretação na miríade de estrelas escaladas para a empreitada. Estão lá a super-estrela Audrey Hepburn, como a citada Natasha Rostov, dona de uma atuação marcante, sabendo transmitir toda a alegria e imaturidade típicos da fase que vive a personagem (a própria Audrey ainda era bastante jovem à época, contando apenas 27 anos), cheia de impulsos irrefreáveis - como costumam ser as heroínas de Vidor. Seu então marido fora das telas, Mel Ferrer, empresta uma altivez e nobreza marcantes ao príncipe Andrei Bolkonsky; já o astro Henry Fonda está perfeito como Pierre Bezukhov, um humanista e anti-belicista, filho bastardo de um nobre e só reconhecido por este já à beira da morte. Também compõem o cast o ótimo Oscar Homolka, indicado ao prêmio da Academia por sua interpretação do General Kotusov, além de Vittorio Gassman na pele do sedutor Anatole. Também se destacam Hebert Lom, encarnando uma perfeita representação de Napoleão de acordo com a iconografia consagrada, e Anita Ekberg, no auge da beleza, no papel da frívola e adúltera esposa de Pierre. E isso sem falar na linda trilha sonora de Nino Rota (fiel colaborador de Fellini).

Entretanto, é perceptível que Vidor se recusou a fazer uma versão meramente pasteurizada da obra de Tolstoi para agradar as massas, adocicando-o para alcançar bilheterias suficientes para cobrir seu altíssimo custo. Mesmo que alguns possam afirmar que as críticas à aristocracia já estavam presentes na obra original, é de se aplaudir o fato de que Vidor as manteve na película. Talvez a mais notável sequência que demonstra que o filme é uma obra de Vidor, e não meramente uma colagem do livro, é aquela em que Pierre passeia por entre as tropas durante a batalha de Borodino, na realidade uma cena retirada não de Tolstoi, mas de Stendhal em seu romance “A Cartuxa de Parma”. Embora possa causar uma certa estranheza à primeira vista, a sequência resulta belíssima, recheada ao mesmo tempo de lirismo e reflexão. Assim como preciosa é a cena em que Pierre, numa Moscou incendiada pelos próprios moradores, aguarda na tocaia a aproximação de Napoleão. Cena excelente em que o rei Vidor demonstra todo seu talento e competência na direção.

Mas nem só de belas cenas vive “Guerra e Paz”. Pode-se afirmar que roteiro consegue condensar de forma satisfatória a gigantesca obra literária, detentora de várias facetas. Uma proeza levada a efeito pelas mãos dos roteiristas (foram oito, ao todo, entre eles Bridget Boland, Ennio De Concini e o próprio Vidor). Mas é verdade que o resultado tem um que de pasteurização e excessos românticos, dando a impressão, por vezes, de que Tolstoi quis apenas escrever uma imensa novela água-com-açúcar. Mas somente às vezes, é bom ressaltar. Vidor não chega a descambar para o melodrama, principalmente porque sabe realçar também o cunho de narração histórica da obra literária, com seu tom de epopeia nacional russa. Afinal, entre os momentos mais interessantes estão os protagonizados por Napoleão,sua soberba ao chegar à Rússia em contraposição ao ar sombrio com que a deixa.

Interessante que esta versão de “Guerra e Paz” teve boa aceitação na Rússia (que era então União Soviética, bom lembrar), mas foi estranhamente rejeitada nos EUA. Foi o penúltimo filme do Rei Vidor, que se aposentou três anos mais tarde com “Salomão e a Rainha de Sabá”, já cansado de guerra. Mas é claro que a filmografia de Vidor nunca estará cansada e “Guerra e Paz” merece ser visto não somente por se tratar de uma boa adaptação de uma grande obra literária para as telas, mas também por se constituir um ótimo representante do talento inquestionável de um dos precursores e grandes artífices do cinema hollywoodiano.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 1 de maio de 2011

Thor



Poder oscilante


Logo que ouvi falar na adaptação para as telas de Thor, mais um dos personagens da Marvel Comics, pensei imediatamente na dificuldade que seria não apenas transportar sua estórias para o cinema, como também em encontrar o seu público fora dos leitores das HQs, mesmo que a adaptação fosse bem-sucedida. Afinal, não é lá muito fácil engolir um personagem tão inverossímil, um deus nórdico que, banido por seu pai Odin devido à sua arrogância e imprudência, passa a viver na Terra como um mortal até que seja digno de novamente empunhar o martelo Mjölnir, artefato que o faz controlar os raios e as tempestades. A chamada “suspensão de descrença” essencial para que o espectador se envolva com o que lhe é mostrado na tela é difícil de ser atingida diante de premissa tão fantasiosa. Claro, Peter Jackson foi inteiramente feliz com sua trilogia “O Senhor dos Anéis”, mas isso não desmente a assertiva de que não é fácil fazer as pessoas embarcarem no cinema-fantasia, principalmente aquelas que não tiveram um contato prévio com a obra que inspirou o filme.

Sabendo desta dificuldade e tendo em vista algumas outras características do personagem, como suas tramas familiares e palacianas que remontam às tragédias escritas pelo bardo William Shakespeare, a Marvel Studios optou por convidar Kenneth Branagh para conduzir o projeto, um diretor e ator de formação clássica e conhecido por suas adaptações shakeaspearianas para as telas, como o seu famoso “Hamlet” de texto integral e quatro horas de duração. A expectativa era a de que Branagh conseguisse imprimir um tom ao mesmo tempo dramático e crível, passando pelas inevitáveis cenas de ação de um filme de super-heróis, sem que a mistura caísse no ridículo. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor obteve sucesso.

A narrativa do filme se mostra fiel à da HQ criada por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber, apenas com algumas pequenas alterações talvez necessárias a uma trama que deve se encaixar em 120 minutos de duração. Como dito mais acima, Thor (interpretado aqui pelo ator estreante e bombado Chris Hemsworth), o deus do trovão da mitologia escandinava, é um dos filhos de Odin (Anthony Hopkins), o deus supremo do reino etéreo de Asgard. Por seu valor e coragem como guerreiro, Thor é o filho escolhido por Odin para lhe suceder no trono, preterindo seu outro filho, Loki (Tom Hiddleston), o deus da trapaça. Por outro lado, Thor ainda apresenta a arrogância, imprudência e inconsequência típicos da juventude, características que acabam por levar Asgard a uma nova guerra com Jotuheim, o reino dos Gigantes de Gelo. Decepcionado com o filho, Odin decide enviá-lo à Terra, local onde, destituído dos seus poderes místicos e da condição de imortal, deverá aprender as virtudes da humildade, paciência e altruísmo.

Esta vertente palaciana e mitológica do filme é muito bem desenvolvida, mostrando uma trama que lembra mesmo obras de Shakespeare como “Rei Lear” e “Otelo”. Todos os personagens são bem caracterizados e os fãs das HQs vão adorar ver nas telas figuras como Volstagg (Ray Stevenson), Fandral (Josh Dallas)e Hogun (Tadanobu Asano), além da bela Lady Sif (Jamie Alexander) e Heimdall (Edris Alba), o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Asgard a Terra. Nenhuma das atuações deixa a desejar, o que era de se esperar de um diretor de origem teatral acostumado a lidar com personagens complexos, sabendo tirar dos intérpretes o melhor que podem oferecer. Mesmo o novato Hemsworth não compromete, desfazendo a primeira impressão de seria apenas uma montanha de músculos (e ele de fato tem presença de cena). Só a lamentar a presença prá lá de discreta de Rene Russo (estava sumida, hein?), como a mãe de Thor, praticamente entrando muda e saindo calada.



É no lado “terreno” da trama que o roteiro se complica. Ao cair em nosso mundo (que os argardianos conhecem por Midgard), Thor é encontrado por um grupo de três cientistas, entre eles a astrofísica Jane Foster (a oscarizada Natalie Portman). É claro como a água que os dois terão um romance e não há problema nisso, já que um projeto que pretende ser um blockbuster também tem que ter um apelo para o público feminino. O problema reside na forma como ele se desenvolve, de forma muito apressada. Por mais que Natalie Portman seja encantadora, o clima entre os dois soa artificial com a correria do roteiro. Pior ainda resulta a mudança da personalidade do príncipe que, em pouco tempo, já se mostra humilde e contido em seus impulsos. Acredito que não custava nada mostrar mais das vivências do personagem entre os humanos, além de colocar legendas que indicassem passagens de tempo como “1 ano depois” ou qualquer outra coisa que o valha. Ademais, é este momento em que se apresentam as maiores diferenças com relação ao universo dos quadrinhos, já que Thor não perde sua memória como nas HQs, assumindo o nome de Donald Blake apenas por circunstâncias (o nome seria de um ex-namorado de Jane, a qual, por sinal, nos quadrinhos é uma enfermeira). De qualquer forma, também pelo lado de Midgard as atuações se mostram eficientes. Portman se mostra à vontade no papel e o sueco Stellan Skarsgård como o professor Selvig e Kat Dennings como a estagiária Darcy também são boas presenças.

No aspecto técnico, o filme também acaba oscilando, com ótimos efeitos visuais em certas sequências, mas deixando a desejar em outras. Por outro lado, farei uma ressalva a favor dos ângulos e enquadramentos escolhidos pelo diretor Branagh. Muitos vêm criticando os planos inclinados, ou tombados (que alguns chamam de “plano holandês”) utilizados em várias cenas. Mas há um detalhe que muitos não estão percebendo. Tais planos foram usados apenas nas sequências que se passam na Terra e creio que a intenção de Branagh seja a de identificar estas imagens com a ideia de um deus caído, deslocado do seu mundo. Seja como for, o recurso não me incomodou e não vejo como demérito algum à fotografia do longa. Por seu turno, a trilha sonora, composta por Patrick Doyle, é ótima, bonita e muito bem inserida ao longo da projeção.

Como leitor antigo das HQs do universo Marvel, fiquei razoavelmente satisfeito com a adaptação (e há várias referências no filme que farão a alegria dos fãs da Marvel, como a aparição de um certo vingador na pele de Jeremy Renner). Só resta saber como será respondida a questão levantada no início deste texto. Será que uma narrativa com personagens e situações tão inverossímeis irá agradar a muitos? A sessão que eu e minha noiva pegamos estava praticamente lotada, mas é natural que nos primeiros dias os fãs e adeptos lotem as salas. De qualquer forma, apesar de suas oscilações, “Thor” tem potencial para construir uma carreira de sucesso, mostrando que a Marvel está sabendo o que fazer com seus personagens, mesmo diante do quadro já meio cansado do gênero dos super-heróis.

Obs. Há uma cena depois dos créditos. Espere um pouquinho!


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva


Akira
(Akira)


Adolescência apocalíptica


Já havia algum tempo, o DVD de “Akira”, a obra máxima do japonês Katsuhiro Otomo, se encontrava na minha estante de filmes, em meio às dezenas de outros longas-metragens aos quais eu ainda não havia assistido, e isso apesar da minha grande curiosidade em vê-lo. Pois bem, eis que finalmente decidi apreciá-lo e, atendendo às minhas expectativas, o filme, em boa parte, não decepciona, se mostrando surpreendentemente atual em várias de suas facetas e, mesmo nos aspectos técnicos da animação, ainda dotado de muita beleza.

Antes de tudo, “Akira” procura traduzir em imagens o turbilhão de emoções à flor da pele que é a adolescência. Seus protagonistas, Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, são espelho tanto da inconsequência, quanto da revolta e sentimento de inadequação que caracterizam esta fase da vida. Tetsuo, o garoto que é alvo de uma experiência que potencializa os poderes de sua mente, é a síntese destes conflitos, ainda mais agravados pelo fato do mesmo ser uma vítima de bullyng e sempre precisar da ajuda se seu amigo Kaneda, uma espécie de irmão mais velho, para escapar das enrascadas em que se envolve. Imaginar um adolescente ressentido com poderes telepáticos quase infinitos, capazes de promover a destruição de tudo que se encontrar no caminho é algo assustador e nos lembra até mesmo de fatos recentes, como o do atirador da escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, ou dos estudantes que abriram fogo no Instituto Columbine, nos EUA, há alguns anos. Por outro lado, essa abordagem não deixa de refletir o temor que a sociedade japonesa tem de seus jovens. Extremamente conservadores e tradicionalistas, é difícil para os japoneses aceitarem qualquer forma de iconoclastia e isso se traduz no receio com relação às gerações mais novas, o que redunda em uma repressão que conduz vários desses jovens ao suicídio.

Os japoneses, ademais, costumam expressar seus medos coletivos de forma bastante explícita em seus meios artísticos. O cinema, ao longo de décadas, tem servido de divã para esses temores, como bem demonstra o excepcional “Sonhos”, do mestre Akira Kurosawa, onde o horror nuclear aparece em mais de um dos sonhos (contos) que constituem as diversas narrativas do filme. Otomo, não fugindo à regra, também manifesta esses medos de maneira acentuada nesta obra, que foi primeiramente um manga de sucesso escrito pelo próprio diretor. Afinal, a trama de Akira, é importante explicar, insere-se em um contexto pós-apocalíptico, quando a terceira guerra mundial já haveria ocorrido, com a antiga cidade de Tóquio varrida do mapa. Em seu lugar, foi construída Neo-Tóquio, uma metrópole sombria e turbulenta dominada por jovens delinquentes e grupos políticos anarquistas. Neste contexto, os militares se impõem como força da ordem e adquirem poderes quase ilimitados, seqüestrando pessoas para servirem de cobaias no projeto Akira (daí o título do filme). O nome do projeto se refere a um garoto especialmente poderoso que, com seus talentos fora de controle, teria sido o responsável pela destruição da antiga Tóquio. É de tais experiências que Tetsuo é cobaia, como já mencionado no início deste texto, logo após esbarrar, durante uma das brigas de gangues, em uma das crianças especiais que havia escapado das instalações militares. Kaneda, então, se empenha em sua busca, tendo de contar, para tanto, com a ajuda dos grupos paramilitares anarquistas.



Toda essa apoteose de paranoias nipônicas tem uma ambientação cyberpunk que remete a longas de ficção-científica anteriores, como o inevitável “Blade Runner”. Mas seria leviano afirmar que Otomo se limita a realizar um pastiche de obras predecessoras. Seu universo possui uma inegável originalidade que influenciou vários outros autores, até mesmo em suas características imagéticas (em determinadas sequências, “Ronin”, uma das grandes HQs de Frank Miller, me veio à mente, percebendo assim a influência de “Akira” em obras ocidentais). Entretanto, e aqui vai uma ressalva, tal universo em diversos momentos se apresenta muito hermético para os não iniciados nos mangas e animes japoneses. Sua conclusão, bastante abstrata e que, por vezes, parece sugerir que o espectador conheça previamente a obra em quadrinhos, é um exemplo claro desta afirmação (muito embora seja distinta da escrita para o manga).

Em aspectos técnicos, Akira também foi responsável por uma enorme evolução, principalmente no âmbito da produção japonesa. A fluidez alcançada pelas técnicas empregadas só era comparável à qualidade dos estúdios Disney (o que, inclusive, deixou a Casa do Mickey de orelhas em pé), estando muito além dos recursos utilizados nos animes até então. A perfeita sincronia entre as vozes e os gestos faciais foi surpreendente, assim como a ampla gama de cores utilizadas, as quais contribuíram em muito para dar vida e um clima diferenciado à cidade de Neo-Tóquio.

Dotado de uma violência gráfica talvez nunca antes vista em uma animação, é preciso alertar que “Akira” não é uma experiência que agrade a todos, mas é bom lembrar que o próprio gênero da ficção-científica não é uma unanimidade. Contudo, se estiver procurando uma experiência cinematográfica diferente do feijão com arroz cotidiano, a jornada do perturbado Tetsuo se apresenta como uma opção bastante interessante e, com certeza, obrigatória para os interessados na cultura nipônica, além de expor muito do inconsciente coletivo desta sociedade e, porque não, também da sociedade ocidental, hoje repleta de jovens enfurecidos dispostos a extravasar de maneira violenta seus ressentimentos.


Cotação:

Nota: 9,5

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cannes 2011 - Seleção


Eu havia passado batido por essa notícia, mas nunca é tarde para repercuti-la. No último dia 14/04, tivemos a divulgação da seleção oficial do Festival de Cannes 2011. Ela inclui vários cineastas consagrados, de Woody Allen (fora de competição) a Lars Von Trier, passando por Pedro Almodóvar e Terrence Malick (com o seu aguardadíssimo "A Árvore da Vida"). O Brasil se faz presente na mostra "Um Certo Olhar" com o longa "Trabalhar Cansa", de Juliana Rojas e Marcos Dutra, além da presença na "Quinzena dos Realizadores" (cuja seleção foi divulgada no dia 19), aqui com o novo filme de Karim Aïnouz, "O Abismo Prateado". Na mostra de curtas Cinéfondation, teremos ainda "Duelo Antes da Noite", de Ana Furtado. O festival terá início no dia 11/05 e seguirá até 22/05, tendo Robert DeNiro como presidente do júri. Agora é aguardar!



Filme de abertura:

“Midnight in Paris”, Woody Allen (for a de competição)



Competitiva:

“The Skin That I Live In”, Pedro Almodóvar

“L’Apollonide”, Betrand Bonello

“Footnote”, Joseph Cedar

“Paterre”, Alain Cavalier

“Once Upon A Time In Anatolia”, Nuri Bilge Ceylan

“The Kid With The Bike”, Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Le Havre”, Aki Kaurismaki

“Hanezu no Tsuki”, Naomi Kawase

“Sleeping Beauty”, Julia Leigh

“A Árvore da Vida”, Terrence Malick

“La Source de Femmes”, Radu Mihaileanu

“Polisse”, Maïwenn Le Besco

“Harakiri”, Takashi Miike

“We Have A Pope”, Nanni Moretti

“Melancolia”, Lars Von Trier

“This Must Be The Place”, Paolo Sorrentino

“Drive”, Nicholas Winding Refn

“We Need To Talk About Kevin”, Lynne Ramsay



Un Certain Regard/Um Certo Olhar:

“Restless”, Gus Van Sant (filme de abertura)

“Martha Marcy May Marlene”, Sean Durkin

“The Hunter”, Bazur Bakuradze

“Halt auf freier Strecke”, Andreas Dresen

“Skoonheid”, Oliver Hermanus

“Hors Satan”, Bruno Dumont

Les Neiges du Kilimandjaro”, Robert Guédiguian

“The Days He Arrives”, Hong Sang-Soo

“Bonsai”, Christian Jimenez

“Tatsumi”, Erik Khoo

“En maintenant, on va ou?”, Nadine Labaki

“Ariang”, Kim Ki Duk

“Loverboy”, Catalin Mitulescu,

“Toomelah”, Ivan Sen

“Yellow Sea”, Na Hong-Jin,

“Miss Bala”, Gerardo Naranjo,

“L’exercice de l’Etat”, Pierre Schoeller,

“Oslo, August 31st”, Joachim Trier

“Trabalhar Cansa”, Juliana Rojas e Marco Dutra



Fora de competição:

“Um Novo Despertar”, Jodie Foster

“The Artist”, Michel Hazanavicius

“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas”, Rob Marshall

“La Conquete”, Xavier Durringer

“Kung Fu Panda 2”, Jennifer Yuh



Sessões da meia-noite:

“Wu Xia”, Peter Ho-Sun Chan

“Dias de Gracia”, Everardo Gout



Exibições especiais:

“Labrador”, Frederikke Aspock

“Le maître des forges de l’enfer”, Rithy Panh

“Un documentaire sur Michel Petrucciani”, Michael Radford

“Tous au Larzac”, Christian Rouaud


Quinzena dos Realizadores


Longas:

Après Le Sud, de Jean-Jacques Jauffret (França)

Breathing, de Karl Markovics (Áustria)

Blue Bird, de Gust Van de Berghe (Bélgica)

Palawan Destin, de Auraeus Solito (Filipinas)

Chatrak, de Vimukthi Jayasundara (França e Índia)

Code Blue, de Urszula Antoniak (Holanda e Dinamarca)

Corpo Celeste, de Alice Rohrwacher (Itália, Suíça e França)

Eldfjall, de Rúnar Rúnarsson (Dinamarca e Islândia)

En Ville, de Valérie Mréjen e Bertrand Schefer (França)

Impardonnables, de André Téchiné e Jeanne Captive (França)

Jeanne Captive, de Philippe Ramos (França)

La Fée, de Fiona Gordon, Dominique Abel e Bruno Romy (França e Bélgica)

La Fin Du Silence, de Roland Edzard (França)

Les Géants, de Bouli Lanners (Bélgica, França e Luxemburgo)

O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz (Brasil)

Play, de Ruben Östlund (Suécia, França e Dinamarca)

Porfirio, de Alejandro Landes (Colômbia, Espanha, Uruguai, Argentina e França)

Return, de Liza Johnson (Estados Unidos)

Sur La Planche, de Leïla Kilani (Marrocos, França e Alemanha)

The Island, de Kamen Kalev (Bulgária e Suécia)

The Other Side Of Sleep, de Rebecca Daly (Holanda, Hungria e Irlanda)


Curtas:

Armand 15 Ans L’été, de Blaise Harrison (França)

Bielutin - Dans Le Jardin Du Temps, de Clément Cogitore (França)

Boro In The Box, de Bertrand Mandico (França)

Cigarette At Night, de Duane Hopkins (Reino Unido)

Csicska, de Attila Till (Hungria)

Demain, Ça Sera Bien, de Pauline Gay (França)

Fourplay: Tampa, de Kyle Henry (Estados Unidos)

Killing The Chickens To Scare The Monkeys, de Jens Assur (Suécia e Tailândia)

La Conduite De La Raison, de Aliocha (França)

Las Palmas, de Johannes Nyholm (Suécia)

Le Songe de Poliphile, de Camille Henrot (França)

Mila Caos, de Simon Paetau (Alemanha e Cuba)

Nuvem, de Basil da Cunha (Portugal e Suíça)

Vice Versa One, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão)


Sessões Especiais:

Des Jeunes Gens Mödernes, de Jérôme de Missolz (França e Bélgica)

El Velador, de Natalia Almada (Estados Unidos, México e França)

Koi No Tsumi, de Sion Sono (Japão)

La Nuit Elles Dansent, de Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault (Canadá)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinema e Religião: 7 filmes essenciais


Em todos os anos, quando chega o período da Semana Santa católica, vários canais de TV (principalmente aberta), inundam as telas com filmes de temática religiosa, geralmente narrando os últimos momentos da vida de Jesus Cristo ou o Êxodo dos Hebreus, rumo à terra prometida. No entanto, como em todo gênero, é necessário separar o joio do trigo e aqui me presto a fazer uma seleção das melhores obras de caráter religioso para ver nestes dias que antecedem a Páscoa, seja você cristão ou simplesmente um apreciador de ótimos filmes. Vamos a eles. Como sempre, a lista do Cinema Com Pimenta é composta de 7 obras.


7) A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) – O filme dirigido por Mel Gibson é polêmico em toda a sua concepção. Acusado por seu excesso de violência (a flagelação vem se mostrando uma obsessão do diretor ao longo dos anos) e um anti-semitismo subliminar (que pode ter lá o seu fundo de verdade, pois que Gibson já foi pego proferindo ofensas a judeus), não se pode negar, todavia, que o filme é pungente em várias passagens, além de contar com ótimas atuações e a virtude de ser falado na língua original dos personagens, se contrapondo à preguiça reinante em Hollywood de colocar o elenco falando em inglês, mesmo em longas com trama se passando na Idade Antiga. Mas o alerta continua valendo: é um filme que exige estômago forte, dado o realismo – e, por vezes, sensacionalismo – das cenas do martírio de Cristo. Um enorme sucesso (o mais bem-sucedido independente em todos os tempos), se estiver disposto(a), vale à pena, até mesmo para opinar sobre a polêmica que recai sobre esta produção;


6) O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998) – Esta, sem dúvida, foi uma da animações mais ambiciosas já realizadas, tentando tornar mais acessível a história bíblica relatada no livro do Êxodo (e que já havia sido transposta para o cinema na superprodução “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, da qual falarei mais adiante). E a empreitada é bem sucedida. Os personagens, tanto de Moisés quanto do faraó Ramsés, são muito bem construídos e a ideia de mostrar a relação de irmãos entre os dois é muito feliz, trazendo uma clara mensagem de paz aplicável ao Oriente Médio. Ademais, as imagens concebidas são belíssimas, principalmente a famosa cena da travessia do Mar Vermelho. Ainda considero a melhor animação da Dreamworks até hoje e recomendável tanto para crianças quanto para adultos. Se ainda não viu, veja logo;




5) Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) – Nos anos 80, a Rede Globo sempre repetia esse filme nestes dias próximos à Páscoa e o vi diversas vezes (sabem como é criança, né?). O diretor Cecil B. DeMille era uma espécie de Steven Spielberg ou James Cameron do seu tempo, responsável por superproduções de encher os olhos. É o caso exatamente desta, seu último trabalho, a qual narra toda a vida de Moisés, desde quando foi encontrado nas águas do Nilo, passando pelo seu encontro com Deus, até levar a cabo a missão do qual foi incumbido: liderar o povo hebreu rumo à Terra Prometida. Na realidade, é uma refilmagem mais suntuosa do filme homônimo dirigido pelo próprio DeMille em 1923. Algumas de suas cenas já entraram para o inconsciente coletivo (como a passagem pelo Mar Vermelho) e Charlton Heston, o intérprete do protagonista, meio que se tornou a imagem oficial de Moisés no cinema. Apesar de possuir um certo exagero que hoje em dia pode ser visto como cafonice, constitui um longa-metragem obrigatório. Seus efeitos visuais (levou o Oscar neste quesito) ainda são eficientes mesmo para os padrões de hoje;



4) Irmão Sol, Irmã Lua (Brother Sun, Sister Moon, 1972) – Este não narra nem a história de Cristo nem a de Moisés. O filme é sobre a vida de Francisco de Assis (interpretado aqui pelo ator Graham Faulkner),o filho de um rico comerciante que larga toda sua vida de facilidades para se dedicar à imitação de Cristo, passando a ter a caridade e a solidariedade como nortes, além de defender a paz e o respeito à natureza (alguns afirmam que ele andava com extremo cuidado para não correr o risco de retirar nem mesmo a vida de um inseto). Dirigido por Franco Zeffirelli e roteirizado pelo mesmo em parceria com Lina Wertmüller (diretora de “Pasqualino Sete Belezas”) e Suso Cecchi D’Amico, é um longa bastante sensível e emocional, indicado para ver com a família. Tem ótimas canções e bela fotografia. Filme apto a agradar a todos os gostos;


3) A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988) – Se o acima citado “A Paixão de Cristo” causou polêmica, imagine este longa-metragem que retrata um Jesus Cristo humanizado, com dúvidas e fraquezas e até mesmo titubeante em algumas passagens. Baseado no romance de Nikos Kazantzakis e dirigido pelo genial Martin Scorsese, o filme foi considerado herético pela Igreja Católica e proibido em muitos países ao longo de vários anos (no Chile, só em 2003 ele foi liberado). Willem Dafoe (naquela que é a melhor interpretação de sua carreira) interpreta Jesus, mostrado com um marceneiro judeu responsável pela confecção das cruzes utilizadas pelos romanos para aplicar suas sentenças de morte. Detalhe especial para a tal “última tentação” do título, quando Jesus é tentado, na cruz e à beira da morte, a abdicar de sua responsabilidade para com a humanidade e do sacrifício como Messias e assumir para si a vida de um homem comum, simples, com esposa, filhos e uma perspectiva de envelhecer e morrer desta forma. Bem, como pode perceber, se sua visão da vida de Cristo é dogmática, este longa não é sua praia. Mas, se tiver disposição para visões diferentes da Bíblia, encontrará aqui um filme excepcional;



2) O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo secondo Matteo, 1964) – Esta é, provavelmente, a adaptação da vida Cristo para as telas mais fiel ao texto bíblico. Ironicamente, foi realizada pelo comunista Pier Paolo Pasolini. Como se sabe, Pasolini sempre fazia de suas obras um manifesto, uma forma de criticar o status quo e mexer com a concepção tradicional de temas. E aqui não é diferente. Dedicado ao papa João XXIII, o filme não tem uma palavra sequer em seu texto que não tenha sido tirada do Evangelho de Mateus, demonstrando o quanto as ideias de Jesus tinham de socialistas, associando sua imagem a de um provocador social, um revolucionário. Filmado com não-atores, no melhor estilo do neo-realismo italiano, o longa muitas vezes lembra um documentário, sem enfatizar ou romancear os eventos da vida de Cristo. Ademais, Pasolini mexe em um vespeiro ao insinuar que ideologias sociais podem ter um parentesco próximo com doutrinas religiosas. É provável que não agrade a muitos, todavia possivelmente cairá nas graças dos cinéfilos de carteirinha. Em tempo: o filme ganhou chancela oficial do Vaticano;



1) O Rei dos Reis (King of Kings, 1961) – Esta é a versão mais emblemática da história de Jesus Cristo para o cinema. Dirigido pelo cultuado Nicholas Ray em 1961 e contando com a narração de ninguém menos que Orson Welles, o Cristo vivido pelo ator Jeffrey Hunter se tornou emblemático. Um blockbuster que fez enorme sucesso quando do seu lançamento, detentor de cenas belíssimas e, certamente, da melhor transposição da passagem do Sermão da Montanha de que se tem notícia. Quando garoto, era atração certa na Sessão da Tarde da sexta-feira da Paixão. A trilha sonora é linda e, se você é religioso, este filme é mais do que obrigatório. E se você não é, o longa é obrigatório. Imperdível!

Bons filmes e uma boa Páscoa a todos!



terça-feira, 19 de abril de 2011

Trilha Sonora #16


Roberto Carlos, maior ídolo da música brasileira, está completando 70 anos hoje, 19 de abril. Roberto protagonizou 3 filmes em sua carreira. Um deles, "Em Ritmo de Aventura", possui uma trilha sonora que se constitui um dos seus melhores discos. Abaixo, como exemplo do repertório da trilha, segue a simbólica, famosa e inesquecível "Como é Grande o Meu Amor Por Você". Som na caixa e parabéns ao Rei!

P.S. Sandra, minha linda, essa é pra você! :=)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva

Orfeu Negro


Entre a poesia e o exotismo



Ao longo dos anos, “Orfeu Negro” vem sendo alvo tanto de admiração por boa parte de críticos e cinéfilos ao redor do mundo, quanto de severos ataques em terras brasileiras. Dirigido por Marcel Camus e lançado em 1959, recendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro (que servem até como exemplo de sua repercussão extremamente positiva no meio internacional), o longa-metragem franco-ítalo-brasileiro apresenta, curiosamente, características que podem dar razão aos dois lados da moeda.

Adaptado da peça “Orfeu da Conceição”, escrita por Vinícius de Moraes, a narrativa transpõe o mito grego de Orfeu e Eurídice para os morros do Rio de Janeiro, procurando realçar os elementos da cultura brasileira. O roteiro nos apresenta o Orfeu brasileiro (interpretado pelo também jogador de futebol Breno Mello) como um condutor de bondes que mora no morro da Babilônia. Seu talento musical incomum possui fama nas redondezas e muitos dizem que ele é capaz de fazer o sol se levantar ao tocar seu violão. Prima de uma de suas vizinhas, a recatada Eurídice (a norte-americana Marpessa Dawn) vem do interior para passar os dias da festa de Momo na casa de sua parenta. Os dois vivem, então, de maneira meteórica, uma paixão de contornos trágicos.

Convém sublinhar, antes de tudo, que se trata de um olhar estrangeiro sobre a nossa cultura, o que necessariamente trará uma perspectiva diferente da que temos de nós mesmos. Natural, por conseguinte, que muito do que é mostrado seja visto como estereotipado pelos brasileiros. O que, ao menos em parte, é verdade. Ao escolher o carnaval como época do ano para a transposição do mito, transmite-se a ideia de que o Brasil vive em uma eterna festa, principalmente quando se atenta para o fato de que praticamente durante toda a projeção há sempre um batuque de samba ao fundo e gente dançando quase sem parar. A percepção de Camus se avizinha, em uma observação mais detida, da visão romântica do “bom selvagem”. Ou seja, ele parece ver os moradores do morro como pessoas de bom coração, felizes por terem o samba no pé e a bela paisagem do Rio de Janeiro para admirar, apesar de sua considerável pobreza material. Ingenuidade talvez seja a melhor palavra para descrever tal perspectiva e ela foi em muito responsável pelos ataques que o filme sofreu por parte da intelectualidade brasileira, a qual acusava também Camus de fugir deliberadamente das críticas e observações sociais presentes na obra dramática de Vinícius. “Orfeu Negro” se apresentaria, por conseguinte, como uma obra inautêntica, tanto por fugir da realidade do povo do Rio de Janeiro, quanto por se distanciar em demasia da matéria-prima que lhe deu origem. Até mesmo Jean-Luc Godard apontou esta inautenticidade em um dos seus escritos na famosa “Cahiérs Du Cinema”, afirmando que o filme possuía um “exotismo cartão-postal”. Décadas depois, o hoje presidente dos Estados Unidos Barack Obama também denunciou este aspecto ao mencionar, em sua autobiografia, que sua mãe, Ann Dunhan, se apaixonou por seu pai, um queniano estudante nos EUA, pouco depois de assistir a “Orfeu Negro” (mostrando que a mesma, provavelmente, passara a ter uma visão romântica e idealizada sobre o Brasil e os brasileiros e, por extensão, sobre a África).



Por outro lado, não se pode negar que, a despeito de sua inautenticidade, o longa-metragem possui momentos de admirável beleza. Seu início mostra uma pipa erguida por um garoto no alto do morro, cena esta sublinhada por “A Felicidade”, canção icônica da Bossa Nova (de autoria de Tom Jobim e Vinícius de Moraes) cujos versos mencionam que a felicidade “é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar”, pluma esta que, para manter-se voando, “precisa que haja vento sem parar”. Uma metáfora perfeita da alegria que teriam Orfeu e Eurídice durante os poucos dias do Carnaval. A festa, por si só, momento de euforia de toda uma nação, já é posta como representação do efêmero. A “grande ilusão” que acaba na quarta-feira. Ademais, não se pode negar a ousadia de Camus em utilizar, ainda nos 50, um elenco quase inteiramente negro na produção. Contudo, muitos ainda criticam o filme mesmo em tais aspectos, argumentando que a poesia viria de Vinícius de Moraes e não de Marcel Camus ou do roteirista Jacques Viot (em parceria com o próprio Camus). Esta, todavia, é uma crítica que beira o sofisma, já que, desta forma, seríamos levados a enxergar com maus olhos toda película com origem na literatura, pois que suas virtudes passariam inevitavelmente pelos méritos do escritor.

Adentrando em questões mais técnicas, é importante frisar a qualidade da fotografia de Jean Bourgoin, muito embora se saiba que filmar o Rio de Janeiro é muito fácil. Já as interpretações oscilam constantemente. Herdeiro do neo-realismo, Camus usou vários amadores nas filmagens e o resultado é marcadamente inconstante. A começar pelo próprio protagonista, Breno Mello. Este foi seu primeiro trabalho cinematográfico, migrando do futebol para a arte interpretativa, o que naturalmente gera limitações no seu desempenho. Marpessa Dawn, uma atriz profissional, se sai melhor, obviamente, mas quem acaba roubando a cena é o elenco infantil, com suas crianças simpáticas e cheias de samba no pé (curiosidade: o intérprete da Morte que persegue Eurídice é o bi-campeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva). A trilha sonora, então, pode ser considerada uma história à parte. Permeada pelas canções de Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Luiz Bonfá (é dele a belíssima “Manhã de Carnaval) e Antônio Maria, o filme serviu de trampolim internacional para a Bossa Nova, sendo um dos responsáveis pelo sucesso global que o gênero alcançou.

Constituindo ou não um clássico da “macumba para turistas”, “Orfeu Negro” meio que se tornou um filme obrigatório para os cinéfilos brasileiros, sendo importante salientar que ele, de certa forma, abriu terreno para que o excelente “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, viesse a ser premiado em Cannes alguns anos depois. Faz-se interessante até mesmo contrapô-lo ao recente “Rio”, outra produção que está destinada a ser vista ao longo dos anos vindouros como mais um exemplo do “exotismo cartão-postal” denunciado por Godard, só que aqui dirigido por um brasileiro a serviço de Hollywood. De qualquer forma, em ambos os casos os resultados são palatáveis ao grande público. Dois bons filmes cujos méritos acabam sendo ofuscados por nosso complexo de inferioridade (ou de “vira-latas”, como batizado por Nelson Rodrigues), o qual não permite qualquer perspectiva que nos aproxime de possíveis estereótipos. Curiosamente, Camus jamais viria a obter o mesmo respeito e sucesso com seus trabalhos posteriores. Será que algum brasileiro irritado fez alguma macumba para amaldiçoar o pobre diretor? Acredito que o cineasta não mereceria isso. O máximo de que ele pode realmente ser acusado é de não ter entendido a nossa cultura.

Cotação:

Nota: 8,0

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sidney Lumet : 1924- 2011


No último sábado, 09 de abril, perdemos Sidney Lumet, um diretor excepcional e que foi injustiçado na mesma proporção. Mesmo com dois dias de atraso, o Cinema Com Pimenta presta aqui sua h0menagem a este grande cineasta. Sempre que lembro de Lumet, dois filmes logo me vêm à mente. No video logo abaixo, você confere a recomendação do crítico Marcelo Janot para o longa "12 Homens e Uma Sentença", o primeiro de Lumet, iniciando sua carreira com uma autêntica obra-prima.




E a seguir, veja o trailer de "Um Dia de Cão" (cuja resenha você pode conferir aqui), uma obra febril e impactante que se tornou uma das referências da "Nova Hollywood". Por sinal, Al Pacino em estado de graça!




Ao saber da morte de Lumet, disse Woody Allen: "conhecendo Sidney, ele terá mais energia morto do que a maioria dos vivos." Que Deus o receba em paz e que lhe faça a devida justiça, Sidney Lumet!