domingo, 22 de maio de 2011

Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas




As aventuras de Indiana Sparrow ainda agradam


Desde o primeiro episódio da franquia “Piratas do Caribe” – mais precisamente “A Maldição do Pérola Negra”, de 2003 – a salas de exibição costumam ficar lotadas em suas sessões e, desta vez, não foi diferente. Sala cheia (acho que não cabia mais ninguém). A popularidade da série é tamanha que mesmo o apenas mediano terceiro episódio (“No Fim do Mundo”) não diminuiu a vontade do público de ver mais uma aventura encabeçada pelo Capitão Jack Sparrow, personagem que transformou Johnny Depp em uma super-astro de blockbusters, deixando de lado sua antiga aura de ator mais voltado para filmes alternativos e artísticos. Interessante que, no primeiro filme, o capitão surgiu como coadjuvante do casal central formado por Keira Knightley e Orlando Bloom, mas o talento e carisma de Depp acabaram por transformar Sparrow no verdadeiro protagonista da série e este quarto episódio, “Navegando Em Águas Misteriosas”, só atesta tal percepção.

A popularidade de Jack Sparrow atualmente se assemelha bastante ao Indiana Jones de Harrison Ford de duas décadas atrás. Ambos são reis das grandes aventuras, dotadas de um realismo fantástico que remete a um cinema mais antigo, que empolgava crianças e adolescentes em um tempo em que ainda não havia televisão ou games. Os dois protagonistas também são espirituosos, sempre com a piada certa para o momento certo, além de serem famosos em seu “meio profissional”. Talvez então não seja coincidência que a trama desta nova sequência lembre bastante aquelas do arqueólogo caçador de relíquias perdidas. No presente caso, Sparrow alia-se a outros piratas, entre eles Barbossa (Geoffrey Rush, sempre com sua competência inquestionável) e Barba Negra (Ian McShane) – cada qual com suas motivações – em busca da Fonte da Juventude. Eles ainda correm para chegar ao objetivo antes dos espanhóis, que também estão à procura da tal fonte. Para que a água da fonte surta seu efeito, entretanto, é necessário que ela seja bebida juntamente com uma lágrima de sereia e em cálices que se encontram no velho navio naufragado comandado pelo lendário Ponce de León. Ou seja, em vários aspectos a narrativa lembra “Os Caçadores da Arca Perdida” ou “A Última Cruzada”, longas protagonizados pelo Dr. Henry Jones Jr. Até mesmo a personagem Angélica (Penélope Cruz, que estava grávida durante as filmagens), filha de Barba Negra e que é um antigo amor de Sparrow, parece bastante com a Marion da franquia Indiana Jones, até mesmo porque os dois vivem aquele romance estilo gata-e-rato, cheio de cinismo e sentimentos (mal) disfarçados.



Mas isso não é exatamente um demérito. Afinal, não há estória que já não tenha sido contada, o que importa é a forma de contá-la. E não se pode negar que o diretor Rob Marshall conseguiu sucesso na empreitada. Marshall, conhecido pela direção de musicais como “Chicago”, sofreu com a desconfiança de muitos que viam na saída de Gore Verbinski, diretor dos três primeiros episódios, um risco para a franquia. Só que há um detalhe importante que talvez passasse despercebido por estes “muitos”. “Piratas do Caribe” é uma série cinematográfica produzida por Jerry Bruckheimer e é bom lembrar que ele faz o estilo dos produtores da antiga Hollywood, controlando todas as fases do processo de produção. Um filme produzido por Bruckheimer é eminentemente um filme de Bruckheimer, assim como um filme produzido por David O. Selznick era um filme de Selznick. Assim, quase não se sente a mudança de direção, tendo o longa uma dinâmica muito semelhante às dos dois primeiros episódios.

Estão lá a ação quase constante, o humor rápido e espirituoso, a trilha sonora que acompanha praticamente toda a projeção, a edição bem realizada que dá lhe dá um ótimo ritmo, o roteiro (escrito por Ted Elliot e Terry Rossio) muito bem amarrado, além do bom desempenho do elenco. Neste aspecto, contudo, Depp parece estar menos entusiasmado que nos outros filmes (alguns diriam que está mais contido). Seus passos bêbados parecem não estar tão bêbados assim e suas tiradas cômicas estão mais esparsas (ou será que o próprio personagem, com a perda da “novidade” já não rende mesmo tão boas risadas quanto antes?). A maior parte dos seus bons momentos são aqueles em que contracena com Penélope, cujo sotaque carregado caiu como uma luva dentro do contexto divertido da série.

Por outro lado, a mão de Bruckheimer pode atuar tanto para o bem quanto para o mal. Apegado aos números de bilheteria, ele nunca vai deixar de fazer seus subordinados inserirem elementos de roteiro aptos a agradar ao grande público, como o romance até simpático, mas também previsível e desnecessário entre o missionário religioso Phillip (Sam Claflin) e a sereia Sirena (Astrid Bergès-Frisbey). Além disso, ele aparentemente retirou por completo a liberdade de Marshall. Conhecido por seu uso vibrante de cores, o diretor trabalhou aqui com imagens em boa parte escuras e pouco saturadas, caindo, neste ponto, na vala da mediocridade que domina as produções atuais. E aí vai a pergunta: com cenários tão belos à disposição (o filme foi rodado em boa parte no Havaí e em Porto Rico), pra que reduzir a paleta de cores, deixando de explorar o grande potencial de tais locações? Pergunta sem resposta (ou talvez seja melhor nem procurar a resposta). Todavia, o uso de efeitos especiais alcança níveis de excelência, como na sequência do ataque das sereias (vai se tornar memorável, sem dúvida).

“Piratas do Caribe – Navegando Em Águas Misteriosas” tem tudo para trazer lucros, apesar de seu pomposo orçamento (US$ 200 milhões). Apesar dos pesares relatados acima, ele é divertido e envolvente, resultando em um longa superior ao insosso e aborrecido terceiro episódio. A insistência de Bruckheimer na mesma fórmula, contudo, pode trazer danos significativos à franquia. Acredito até que a Disney deveria dar um tempo e fazer com que o público comece a sentir saudades das aventuras de Jack Sparrow (e também o próprio Depp, que está relutante em assinar para um quito capítulo), sob pena das águas misteriosas em que navega acabarem se transformando em águas turbulentas, dado o inevitável cansaço que os espectadores irão sentir diante do marasmo que pode acabar por engolir a série.

Obs. 1. Há duas participações especiais no longa. Keith Richards faz uma curta sequência como o pai de Jack e Jude Dench aparece em uma cena logo no início da projeção.

Obs. 2. Como é tradicional na franquia, há uma cena pós-créditos.


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 21 de maio de 2011

(500) Dias Com Ela



Reinventando a comédia romântica


É comum nos sentirmos sozinhos em momentos de dificuldade, seja ela de que natureza for, de saúde, familiar, econômica, profissional ou mesmo amorosa. Já houve quem dissesse que todo ser humano, mesmo que não seja um solitário, estará sempre sozinho, pois nunca será inteiramente compreendido por outro semelhante, uma vez que somos singulares, únicos, cada qual com uma maneira própria de enxergar a vida e o mundo. Em decorrência de tal condição, normalmente ficamos felizes quando vemos que outras pessoas já viveram momentos difíceis semelhantes aos nossos, agindo e reagindo de maneira também similar à nossa. Acredito que a frase “não estou sozinho” deve ter passado pela cabeça de muitos que viram “(500) Dias Com Ela”, um filme peculiar que trata de forma sincera, leve e inteligente as desventuras dos apaixonados.

A identificação dos espectadores com as situações retratadas no filme pode ser tão direta e imediata que, já em sua sequência inicial, aparecem na tela legendas esclarecendo, com acentuado bom-humor, que os fatos narrados são ficcionais, não correspondendo a nenhuma história real e específica. Realmente, é quase impossível que você não tenha passado por ao menos uma das situações tragicômicas vividas pelo personagem de Tom (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, que encontra o tom certo entre a comédia e o drama) ao longo dos 95 minutos de projeção (sim, o filme é enxuto). Estão lá as expectativas frustradas; as dicas furadas de amigos (por mais que seja boa a intenção que eles tenham) ou ainda as tentativas meio tolas de chamar a atenção daquele(a) que lhe rouba a atenção. Tudo está lá e colocado de uma maneira tão trivial, simples, que nos traz uma perspectiva de realidade incomum em um cinema dominado por comédias românticas clichês.

A verdade é que “(500) Dias Com Ela” foge do clichê até mesmo em sua estrutura narrativa não-convencional. A tradicional fórmula “boy meets girl” é subvertida, trazendo um novo jeito de contar uma estória há muito desgastada. Como se sabe, não existe história que já não tenha sido contada. O diferencial que distingue um autor de outros é maneira de narrar essa trama. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor Marc Webb (que está atualmente dirigindo o remake desnecessário do Homem-Aranha) é muito feliz, trazendo novos ares para o gênero a partir do roteiro criativo escrito a quatro mãos por Scott Neustadter e Michael H. Weber. Na própria cronologia da obra já é vista uma peculiar alteração: os tais 500 dias em que Tom se vê apaixonado por Summer (Zooey Deschanel, que além de atriz também é cantora) não são exibidos em ordem cronológica, mas (quase) aleatória. Em dada cena, assistimos a um dia já próximo do fim do relacionamento e, em seguida, pode ocorrer um salto para o início. Tudo sem que percamos a compreensão do que acontece, afinal o mais importante são os sentimentos de Tom e não os fatos em si. Entretanto, é possível que a maior subversão proposta pelo longa seja a dos papeis do homem e da mulher no relacionamento. Ao contrário do que comumente ocorre, Tom é que representa o lado mais frágil da relação, inseguro e romântico, enquanto Summer é confiante e mantém um certo distanciamento, evitando mergulhar de cabeça em uma paixão. Ou seja, retrata-se uma relação antenada com os novos costumes de nossa sociedade, onde os estereótipos estão cada vez mais obsoletos.


Entretanto, embora seja prazeroso e divertido acompanhar as venturas e desventuras de Tom, o roteiro, apesar de sua estrutura original, ainda se vale de algumas muletas narrativas que incomodam. A personagem da menina adolescente (papel de Chloe Moretz) que é mais “experiente” e “sábia” do que todos os outros personagens adultos é recurso já há muito desgastado e, ironia das ironias, a partir de certo ponto alguns acontecimentos se tornam previsíveis, tal como o desfecho do longa. Além disso, o uso constante de referências à cultura pop (como ao grupo Belle & Sebastian, The Smiths e aos próprios Beatles) é algo que também já está caindo no lugar-comum e dá a impressão de que Webb queria com isso apenas atribuir um ar mais “descolado” ao filme, muito embora não deixe de ser uma opção que sempre agrade aos fãs (e eu me incluo entre eles). Talvez sejam tiques de um diretor egresso do mundo dos videoclipes e, inevitavelmente, acabem interferindo no desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica, mas não se pode negar que em alguns momentos ele obtém muito sucesso com essa linguagem, como na conhecida sequência em que se mostra o estado de espírito de Tom após sua primeira noite com Summer.

Apesar de algumas ressalvas, é indubitável que “(500) Dias Com Ela” presta uma preciosa contribuição a um cinema contemporâneo que pouco se esforça em trazer algo de novo para o público, dando um belo sacolejo na preguiça reinante. Ademais, se você estiver passando por um período de dor-de-cotovelo provavelmente irá considerar esta película como uma verdadeira obra-prima. Com olhos mais distanciados, provavelmente não enxergará tanto, mas será impossível deixar de apreciar. Um filme inteligente sobre o amor, algo difícil nos dias de hoje, sempre será bem-vindo.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 15 de maio de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Minha Bela Dama
(My Fair Lady)


Beleza e misoginia



“My Fair Lady” é um filme anacrônico. Lançado no circuito comercial em 1964, ele ainda possui um clima e know-how típicos do studio system que controlava o cinema estadunidense até meados da década de 60, e que seria dali a pouco substituído pelo cinema autoral da Nova Hollywood. Esta enfrentava uma crise criativa acentuada e um severo descompasso com uma nova sociedade que nascia, dominada não mais pelos valores dos mais velhos, mas pela contestação e iconoclastia dos mais jovens. Afinal, em 1964 a beatlemania já dominava o mundo, revolucionários como Ernesto Guevara inspiravam as mentes ansiosas por mudanças em um mundo decrépito e a pílula anticoncepcional já começava a promover uma revolução nos costumes sexuais. A verdade é que a produção cinematográfica, talvez por ser muito cara, reagiu de forma tardia a esse turbilhão de mudanças. Ou, talvez, porque o mercado consumidor ainda não fosse dominado pelos jovens.

Neste cenário, os oito Oscars que o filme recebeu soam como um manifesto sinal de atraso da Academia, ainda extremamente apegada aos valores caros à sua era de ouro. Nada mais distoante da crescente liberação feminina do que a misoginia de “Minha Bela Dama”, uma película que mostra um abastado e machista linguista que encontra em uma florista de rua o alvo perfeito para a realização de uma “experiência”, na realidade uma aposta com seu amigo coronel e também aristocrata. O professor Henry Higgins (Rex Harrison), ademais, é de uma rudeza singular, perfeitamente incapaz de demonstrar sentimentos pelas pessoas e em especial por Eliza Doolitle (Audrey Hepburn), a qual representa uma ameaça à sua solteirice convicta. E nada mais anti-feminista do que vermos Eliza se apaixonar justamente por um homem que sequer lhe trata com educação.

Claro que, por outro lado, o filme possui outras conotações mais inspiradoras. Adaptação de um musical da Broadway, o qual por sua vez foi baseado na obra “Pigmaleão” do escritor George Bernard Shaw, a trama (com roteiro de Alan Jay Lerner) não deixa de ser uma feroz crítica à artificialidade da sociedade burguesa, bastante acostumada a olhar as pessoas apenas pelo seu exterior. Sintomático que Higgins, um intelectual de família tradicional, seja, em verdade, um homem bruto, enquanto a aparentemente embrutecida Eliza é, em verdade, a dama que se traduz no título da película. A essência de cada um não se transforma por suas posses ou aparência. Pelo contrário, é possível que riqueza e conforto apenas acentuem a verdadeira natureza de cada um.


Não se pode negar, ademais, que “My Fair Lady” sempre será lembrado por méritos performáticos e técnicos. É bom recordar que a direção é de George Cukor, um dos grandes expoentes da Hollywood clássica e dono de um talento especial para trabalhar com temáticas femininas e tirar das atrizes o melhor de seus dons interpretativos e que aqui levou o seu merecido prêmio da Academia (outros de seus trabalhos famosos são “Núpcias de Escândalo” e “A Costela de Adão”). O elenco, por sua vez, é simplesmente brilhante. O Oscar entregue a Harrison ficou em ótimas mãos. Ele encarna à perfeição o seu intratável Higgins, encontrando um timing memorável com Audrey Hepburn, esta em mais um papel que seria marcante em sua carreira. Curioso que Audrey foi dublada em várias das sequências musicais, o que a deixou extremamente irritada e talvez tenha sido esse o motivo de sua não indicação ao Oscar de melhor atriz na ocasião. Vale dizer ainda que ela substituiu Julie Andrews, a qual havia representado Eliza na Broadway e seria a primeira cotada para o papel, por motivos óbvios. Outro que se destaca em sua atuação é Wilfrid Hyde-White, interpretando o coronel Hugh Pickering, o cordato e sensato amigo com quem Higgins realiza a aposta que serve de mote da trama, além de Stanley Holloway, como o pai de Eliza, o qual protagoniza alguns do melhores momento musicais do longa, muito embora suas inserções apareçam, por vezes, como pontas soltas do roteiro. Já a direção de arte e os figurinos (de Cecil Beaton) são memoráveis e, com inteira justiça, levaram os prêmios da Academia.

No entanto, apesar de várias sequências divertidas, “Minha Bela Dama” é dotado de uma extensa duração (quase três horas) em que pouco acontece em termos de desenvolvimento da trama. Não é à toa que o crítico Adré Techniné, da Cahiérs du Cinema, ficou admirado com o seu “surpreendente vácuo” e essa sensação de quase nada acontecendo pode causar enfado em muitos (um romance sem beijo ou "eu te amo", dirão outros). Mas o maior demérito do longa não deixa de ser sua ode ao machismo que se mostra principalmente em sua conclusão, de causar arrepios nas feministas mais arraigadas. Entretanto, Tal circunstância não impediu que sua trama e personagens se tornassem uma espécie de mito moderno, copiados diversas vezes não só no próprio cinema como na televisão (várias novelas da Globo, por exemplo, já se valeram de sua premissa). E assim, não deixa de ser uma obra essencial para compreender uma parcela da cultura pop que vigora até os dias de hoje, apesar de ter nascido em um momento histórico-social dissonante do seu conteúdo.


Cotação:

Nota: 8,0

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Problemas com o Blogger

Muito estranho o comportamento do blog nos últimos dias. De ontem para hoje, então, não só alguns comentários sumiram, como um post inteiro, sobre o início do Festival de Cannes, foi para não sei onde. Isso após um bom tempo em que o sistema ficou inacessível. Provavelmente resultado de algum reboot que fez perder o que foi postado ontem. Bem, vou postar novamente, é o jeito!

Atualizado: Agora, o post sobre Cannes ressurgiu do nada. Vai entender...

E alerto aos leitores que alguns comentários que eventualmente não estejam visíveis não foram deletados pelo blogueiro! Abraço!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Festival de Cannes 2011 - Abertura


E começou ontem o Fetival de Cannes 2011. O longa de abertura (e fora de competição) foi "Meia-Noite em Paris", o novo de Woody Allen, contando no elenco com Owen Wilson e Rachel McAdams. Olha a foto acima! Ah, e Bernardo Bertolucci levou a primeira Palma de Ouro honorária da história do Festival, prêmio este que agora será entregue anualmente aos diretores com grande currículo, mas que nunca tenha levado a honraria pra casa. Olha a foto aí abaixo. Talvez eu seja exceção, mas meu grande sonho de cinéfilo não é o de ir ao Oscar, mas a Cannes!!!



terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu Quero Esse Pôster #14


Bem, esse eu literalmente tenho na parede da sala! Preciso dizer o porquê?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Restaurando a Película



Já havia algum tempo eu pensava em iniciar uma coluna destinada a redescobrir filmes injustiçados. Há diversas obras, grandes ou mais discretas, que, por motivos variados, acabam sendo rejeitados pelo público ou crítica (ou por ambos), quando do seu lançamento. O próprio Cidadão Kane, considerado hoje o melhor filme já feito, padeceu desse mal até que fosse devidamente colocado no panteão das grandes obras da arte cinematográfica. Existem muitas películas que merecem uma revisitada, tirá-las do esquecimento ou atribuir-lhes o valor que merecem. Aqui, dou início à série como o "Guerra e Paz" dirigido por King Vidor em 1956. Segue o texto!




Guerra e Paz
(War And Peace)



A epopeia do rei Vidor


King Vidor foi um dos grandes cineastas da era de ouro de Hollywood, conhecido por suas contribuições com o poderoso produtor David O. Selznick (este foi o responsável por “...E o Vento Levou”, por exemplo).”Duelo ao Sol” é um notório representante desta sua vertente. No entanto, seria injusto dizer que Vidor foi um mero burocrata a serviço do studio system reinante. Martin Scorsese, em sua obra “Um Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano” (documentário para a TV que posteriormente foi transformado em livro), afirma: “Vidor foi provavelmente o mais maleável dos pioneiros do cinema – um dos poucos que foram capazes, repetidas vezes, de convencer os chefões a deixá-lo fazer experiências” . Um exemplo claro de sua visão mais autoral de cinema encontra-se no longa “A Turba”, de 1928, ainda da era do cinema mudo, obra em que expõe uma forte crítica à competição e busca incessante pelo sucesso na sociedade capitalista (bastante atual, não?). De qualquer forma, mesmo quando se prestava a fazer as vontades dos produtores, Vidor deixava lá suas marcas pessoais, aproveitando-se do roteiro para tecer suas críticas, mesmo que de forma mais sutil. É o caso deste “Guerra e Paz”, adaptação para as telas do mais que famoso romance do russo Leon Tolstoi.

Claro que, pela própria grandiosidade da obra na qual se apoia, o filme foi concebido como uma superprodução pelos produtores italianos Carlo Ponti e Dino De Laurentiis (o longa é uma co-produção EUA-Itália), possuindo ecos de “...E O Vento Levou” em várias de suas passagens. Com um orçamento mastodôntico (com a correção da inflação somaria US$ 560 milhões, o que o levaria a ser o filme mais caro de todos os tempos), “Guerra e Paz” possui cenas belíssimas e impressionantes, principalmente nas passagens das batalhas que ocorrem quando da invasão da Rússia pela França de Napoleão. Vemos na tela centenas, talvez milhares de soldados em cada quadro, e é bom lembrar que, naquela época, não havia efeitos de CGI para criar figurantes. Traduzindo em miúdos: em cada cena de multidão havia realmente uma multidão ali, cada qual com suas roupas, armas, cavalos e outros adereços mais. Dá para imaginar o trabalho hercúleo das equipes de figurino e direção de arte? Mas não só de cenas de batalha vive este longuíssima metragem (são 3h28min de projeção). Tudo nele é grandioso. A sequência do primeiro baile de Natasha Rostov é de uma suntuosidade impressionante - tenho pra mim que foi nela que Luchino Visconti se inspirou para conceber seus famosos bailes cinematográficos.



Ademais, os personagens inesquecíveis concebidos por Tolstoi encontram perfeita interpretação na miríade de estrelas escaladas para a empreitada. Estão lá a super-estrela Audrey Hepburn, como a citada Natasha Rostov, dona de uma atuação marcante, sabendo transmitir toda a alegria e imaturidade típicos da fase que vive a personagem (a própria Audrey ainda era bastante jovem à época, contando apenas 27 anos), cheia de impulsos irrefreáveis - como costumam ser as heroínas de Vidor. Seu então marido fora das telas, Mel Ferrer, empresta uma altivez e nobreza marcantes ao príncipe Andrei Bolkonsky; já o astro Henry Fonda está perfeito como Pierre Bezukhov, um humanista e anti-belicista, filho bastardo de um nobre e só reconhecido por este já à beira da morte. Também compõem o cast o ótimo Oscar Homolka, indicado ao prêmio da Academia por sua interpretação do General Kotusov, além de Vittorio Gassman na pele do sedutor Anatole. Também se destacam Hebert Lom, encarnando uma perfeita representação de Napoleão de acordo com a iconografia consagrada, e Anita Ekberg, no auge da beleza, no papel da frívola e adúltera esposa de Pierre. E isso sem falar na linda trilha sonora de Nino Rota (fiel colaborador de Fellini).

Entretanto, é perceptível que Vidor se recusou a fazer uma versão meramente pasteurizada da obra de Tolstoi para agradar as massas, adocicando-o para alcançar bilheterias suficientes para cobrir seu altíssimo custo. Mesmo que alguns possam afirmar que as críticas à aristocracia já estavam presentes na obra original, é de se aplaudir o fato de que Vidor as manteve na película. Talvez a mais notável sequência que demonstra que o filme é uma obra de Vidor, e não meramente uma colagem do livro, é aquela em que Pierre passeia por entre as tropas durante a batalha de Borodino, na realidade uma cena retirada não de Tolstoi, mas de Stendhal em seu romance “A Cartuxa de Parma”. Embora possa causar uma certa estranheza à primeira vista, a sequência resulta belíssima, recheada ao mesmo tempo de lirismo e reflexão. Assim como preciosa é a cena em que Pierre, numa Moscou incendiada pelos próprios moradores, aguarda na tocaia a aproximação de Napoleão. Cena excelente em que o rei Vidor demonstra todo seu talento e competência na direção.

Mas nem só de belas cenas vive “Guerra e Paz”. Pode-se afirmar que roteiro consegue condensar de forma satisfatória a gigantesca obra literária, detentora de várias facetas. Uma proeza levada a efeito pelas mãos dos roteiristas (foram oito, ao todo, entre eles Bridget Boland, Ennio De Concini e o próprio Vidor). Mas é verdade que o resultado tem um que de pasteurização e excessos românticos, dando a impressão, por vezes, de que Tolstoi quis apenas escrever uma imensa novela água-com-açúcar. Mas somente às vezes, é bom ressaltar. Vidor não chega a descambar para o melodrama, principalmente porque sabe realçar também o cunho de narração histórica da obra literária, com seu tom de epopeia nacional russa. Afinal, entre os momentos mais interessantes estão os protagonizados por Napoleão,sua soberba ao chegar à Rússia em contraposição ao ar sombrio com que a deixa.

Interessante que esta versão de “Guerra e Paz” teve boa aceitação na Rússia (que era então União Soviética, bom lembrar), mas foi estranhamente rejeitada nos EUA. Foi o penúltimo filme do Rei Vidor, que se aposentou três anos mais tarde com “Salomão e a Rainha de Sabá”, já cansado de guerra. Mas é claro que a filmografia de Vidor nunca estará cansada e “Guerra e Paz” merece ser visto não somente por se tratar de uma boa adaptação de uma grande obra literária para as telas, mas também por se constituir um ótimo representante do talento inquestionável de um dos precursores e grandes artífices do cinema hollywoodiano.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 1 de maio de 2011

Thor



Poder oscilante


Logo que ouvi falar na adaptação para as telas de Thor, mais um dos personagens da Marvel Comics, pensei imediatamente na dificuldade que seria não apenas transportar sua estórias para o cinema, como também em encontrar o seu público fora dos leitores das HQs, mesmo que a adaptação fosse bem-sucedida. Afinal, não é lá muito fácil engolir um personagem tão inverossímil, um deus nórdico que, banido por seu pai Odin devido à sua arrogância e imprudência, passa a viver na Terra como um mortal até que seja digno de novamente empunhar o martelo Mjölnir, artefato que o faz controlar os raios e as tempestades. A chamada “suspensão de descrença” essencial para que o espectador se envolva com o que lhe é mostrado na tela é difícil de ser atingida diante de premissa tão fantasiosa. Claro, Peter Jackson foi inteiramente feliz com sua trilogia “O Senhor dos Anéis”, mas isso não desmente a assertiva de que não é fácil fazer as pessoas embarcarem no cinema-fantasia, principalmente aquelas que não tiveram um contato prévio com a obra que inspirou o filme.

Sabendo desta dificuldade e tendo em vista algumas outras características do personagem, como suas tramas familiares e palacianas que remontam às tragédias escritas pelo bardo William Shakespeare, a Marvel Studios optou por convidar Kenneth Branagh para conduzir o projeto, um diretor e ator de formação clássica e conhecido por suas adaptações shakeaspearianas para as telas, como o seu famoso “Hamlet” de texto integral e quatro horas de duração. A expectativa era a de que Branagh conseguisse imprimir um tom ao mesmo tempo dramático e crível, passando pelas inevitáveis cenas de ação de um filme de super-heróis, sem que a mistura caísse no ridículo. E, neste ponto, não se pode negar que o diretor obteve sucesso.

A narrativa do filme se mostra fiel à da HQ criada por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber, apenas com algumas pequenas alterações talvez necessárias a uma trama que deve se encaixar em 120 minutos de duração. Como dito mais acima, Thor (interpretado aqui pelo ator estreante e bombado Chris Hemsworth), o deus do trovão da mitologia escandinava, é um dos filhos de Odin (Anthony Hopkins), o deus supremo do reino etéreo de Asgard. Por seu valor e coragem como guerreiro, Thor é o filho escolhido por Odin para lhe suceder no trono, preterindo seu outro filho, Loki (Tom Hiddleston), o deus da trapaça. Por outro lado, Thor ainda apresenta a arrogância, imprudência e inconsequência típicos da juventude, características que acabam por levar Asgard a uma nova guerra com Jotuheim, o reino dos Gigantes de Gelo. Decepcionado com o filho, Odin decide enviá-lo à Terra, local onde, destituído dos seus poderes místicos e da condição de imortal, deverá aprender as virtudes da humildade, paciência e altruísmo.

Esta vertente palaciana e mitológica do filme é muito bem desenvolvida, mostrando uma trama que lembra mesmo obras de Shakespeare como “Rei Lear” e “Otelo”. Todos os personagens são bem caracterizados e os fãs das HQs vão adorar ver nas telas figuras como Volstagg (Ray Stevenson), Fandral (Josh Dallas)e Hogun (Tadanobu Asano), além da bela Lady Sif (Jamie Alexander) e Heimdall (Edris Alba), o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Asgard a Terra. Nenhuma das atuações deixa a desejar, o que era de se esperar de um diretor de origem teatral acostumado a lidar com personagens complexos, sabendo tirar dos intérpretes o melhor que podem oferecer. Mesmo o novato Hemsworth não compromete, desfazendo a primeira impressão de seria apenas uma montanha de músculos (e ele de fato tem presença de cena). Só a lamentar a presença prá lá de discreta de Rene Russo (estava sumida, hein?), como a mãe de Thor, praticamente entrando muda e saindo calada.



É no lado “terreno” da trama que o roteiro se complica. Ao cair em nosso mundo (que os argardianos conhecem por Midgard), Thor é encontrado por um grupo de três cientistas, entre eles a astrofísica Jane Foster (a oscarizada Natalie Portman). É claro como a água que os dois terão um romance e não há problema nisso, já que um projeto que pretende ser um blockbuster também tem que ter um apelo para o público feminino. O problema reside na forma como ele se desenvolve, de forma muito apressada. Por mais que Natalie Portman seja encantadora, o clima entre os dois soa artificial com a correria do roteiro. Pior ainda resulta a mudança da personalidade do príncipe que, em pouco tempo, já se mostra humilde e contido em seus impulsos. Acredito que não custava nada mostrar mais das vivências do personagem entre os humanos, além de colocar legendas que indicassem passagens de tempo como “1 ano depois” ou qualquer outra coisa que o valha. Ademais, é este momento em que se apresentam as maiores diferenças com relação ao universo dos quadrinhos, já que Thor não perde sua memória como nas HQs, assumindo o nome de Donald Blake apenas por circunstâncias (o nome seria de um ex-namorado de Jane, a qual, por sinal, nos quadrinhos é uma enfermeira). De qualquer forma, também pelo lado de Midgard as atuações se mostram eficientes. Portman se mostra à vontade no papel e o sueco Stellan Skarsgård como o professor Selvig e Kat Dennings como a estagiária Darcy também são boas presenças.

No aspecto técnico, o filme também acaba oscilando, com ótimos efeitos visuais em certas sequências, mas deixando a desejar em outras. Por outro lado, farei uma ressalva a favor dos ângulos e enquadramentos escolhidos pelo diretor Branagh. Muitos vêm criticando os planos inclinados, ou tombados (que alguns chamam de “plano holandês”) utilizados em várias cenas. Mas há um detalhe que muitos não estão percebendo. Tais planos foram usados apenas nas sequências que se passam na Terra e creio que a intenção de Branagh seja a de identificar estas imagens com a ideia de um deus caído, deslocado do seu mundo. Seja como for, o recurso não me incomodou e não vejo como demérito algum à fotografia do longa. Por seu turno, a trilha sonora, composta por Patrick Doyle, é ótima, bonita e muito bem inserida ao longo da projeção.

Como leitor antigo das HQs do universo Marvel, fiquei razoavelmente satisfeito com a adaptação (e há várias referências no filme que farão a alegria dos fãs da Marvel, como a aparição de um certo vingador na pele de Jeremy Renner). Só resta saber como será respondida a questão levantada no início deste texto. Será que uma narrativa com personagens e situações tão inverossímeis irá agradar a muitos? A sessão que eu e minha noiva pegamos estava praticamente lotada, mas é natural que nos primeiros dias os fãs e adeptos lotem as salas. De qualquer forma, apesar de suas oscilações, “Thor” tem potencial para construir uma carreira de sucesso, mostrando que a Marvel está sabendo o que fazer com seus personagens, mesmo diante do quadro já meio cansado do gênero dos super-heróis.

Obs. Há uma cena depois dos créditos. Espere um pouquinho!


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva


Akira
(Akira)


Adolescência apocalíptica


Já havia algum tempo, o DVD de “Akira”, a obra máxima do japonês Katsuhiro Otomo, se encontrava na minha estante de filmes, em meio às dezenas de outros longas-metragens aos quais eu ainda não havia assistido, e isso apesar da minha grande curiosidade em vê-lo. Pois bem, eis que finalmente decidi apreciá-lo e, atendendo às minhas expectativas, o filme, em boa parte, não decepciona, se mostrando surpreendentemente atual em várias de suas facetas e, mesmo nos aspectos técnicos da animação, ainda dotado de muita beleza.

Antes de tudo, “Akira” procura traduzir em imagens o turbilhão de emoções à flor da pele que é a adolescência. Seus protagonistas, Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, são espelho tanto da inconsequência, quanto da revolta e sentimento de inadequação que caracterizam esta fase da vida. Tetsuo, o garoto que é alvo de uma experiência que potencializa os poderes de sua mente, é a síntese destes conflitos, ainda mais agravados pelo fato do mesmo ser uma vítima de bullyng e sempre precisar da ajuda se seu amigo Kaneda, uma espécie de irmão mais velho, para escapar das enrascadas em que se envolve. Imaginar um adolescente ressentido com poderes telepáticos quase infinitos, capazes de promover a destruição de tudo que se encontrar no caminho é algo assustador e nos lembra até mesmo de fatos recentes, como o do atirador da escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, ou dos estudantes que abriram fogo no Instituto Columbine, nos EUA, há alguns anos. Por outro lado, essa abordagem não deixa de refletir o temor que a sociedade japonesa tem de seus jovens. Extremamente conservadores e tradicionalistas, é difícil para os japoneses aceitarem qualquer forma de iconoclastia e isso se traduz no receio com relação às gerações mais novas, o que redunda em uma repressão que conduz vários desses jovens ao suicídio.

Os japoneses, ademais, costumam expressar seus medos coletivos de forma bastante explícita em seus meios artísticos. O cinema, ao longo de décadas, tem servido de divã para esses temores, como bem demonstra o excepcional “Sonhos”, do mestre Akira Kurosawa, onde o horror nuclear aparece em mais de um dos sonhos (contos) que constituem as diversas narrativas do filme. Otomo, não fugindo à regra, também manifesta esses medos de maneira acentuada nesta obra, que foi primeiramente um manga de sucesso escrito pelo próprio diretor. Afinal, a trama de Akira, é importante explicar, insere-se em um contexto pós-apocalíptico, quando a terceira guerra mundial já haveria ocorrido, com a antiga cidade de Tóquio varrida do mapa. Em seu lugar, foi construída Neo-Tóquio, uma metrópole sombria e turbulenta dominada por jovens delinquentes e grupos políticos anarquistas. Neste contexto, os militares se impõem como força da ordem e adquirem poderes quase ilimitados, seqüestrando pessoas para servirem de cobaias no projeto Akira (daí o título do filme). O nome do projeto se refere a um garoto especialmente poderoso que, com seus talentos fora de controle, teria sido o responsável pela destruição da antiga Tóquio. É de tais experiências que Tetsuo é cobaia, como já mencionado no início deste texto, logo após esbarrar, durante uma das brigas de gangues, em uma das crianças especiais que havia escapado das instalações militares. Kaneda, então, se empenha em sua busca, tendo de contar, para tanto, com a ajuda dos grupos paramilitares anarquistas.



Toda essa apoteose de paranoias nipônicas tem uma ambientação cyberpunk que remete a longas de ficção-científica anteriores, como o inevitável “Blade Runner”. Mas seria leviano afirmar que Otomo se limita a realizar um pastiche de obras predecessoras. Seu universo possui uma inegável originalidade que influenciou vários outros autores, até mesmo em suas características imagéticas (em determinadas sequências, “Ronin”, uma das grandes HQs de Frank Miller, me veio à mente, percebendo assim a influência de “Akira” em obras ocidentais). Entretanto, e aqui vai uma ressalva, tal universo em diversos momentos se apresenta muito hermético para os não iniciados nos mangas e animes japoneses. Sua conclusão, bastante abstrata e que, por vezes, parece sugerir que o espectador conheça previamente a obra em quadrinhos, é um exemplo claro desta afirmação (muito embora seja distinta da escrita para o manga).

Em aspectos técnicos, Akira também foi responsável por uma enorme evolução, principalmente no âmbito da produção japonesa. A fluidez alcançada pelas técnicas empregadas só era comparável à qualidade dos estúdios Disney (o que, inclusive, deixou a Casa do Mickey de orelhas em pé), estando muito além dos recursos utilizados nos animes até então. A perfeita sincronia entre as vozes e os gestos faciais foi surpreendente, assim como a ampla gama de cores utilizadas, as quais contribuíram em muito para dar vida e um clima diferenciado à cidade de Neo-Tóquio.

Dotado de uma violência gráfica talvez nunca antes vista em uma animação, é preciso alertar que “Akira” não é uma experiência que agrade a todos, mas é bom lembrar que o próprio gênero da ficção-científica não é uma unanimidade. Contudo, se estiver procurando uma experiência cinematográfica diferente do feijão com arroz cotidiano, a jornada do perturbado Tetsuo se apresenta como uma opção bastante interessante e, com certeza, obrigatória para os interessados na cultura nipônica, além de expor muito do inconsciente coletivo desta sociedade e, porque não, também da sociedade ocidental, hoje repleta de jovens enfurecidos dispostos a extravasar de maneira violenta seus ressentimentos.


Cotação:

Nota: 9,5

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cannes 2011 - Seleção


Eu havia passado batido por essa notícia, mas nunca é tarde para repercuti-la. No último dia 14/04, tivemos a divulgação da seleção oficial do Festival de Cannes 2011. Ela inclui vários cineastas consagrados, de Woody Allen (fora de competição) a Lars Von Trier, passando por Pedro Almodóvar e Terrence Malick (com o seu aguardadíssimo "A Árvore da Vida"). O Brasil se faz presente na mostra "Um Certo Olhar" com o longa "Trabalhar Cansa", de Juliana Rojas e Marcos Dutra, além da presença na "Quinzena dos Realizadores" (cuja seleção foi divulgada no dia 19), aqui com o novo filme de Karim Aïnouz, "O Abismo Prateado". Na mostra de curtas Cinéfondation, teremos ainda "Duelo Antes da Noite", de Ana Furtado. O festival terá início no dia 11/05 e seguirá até 22/05, tendo Robert DeNiro como presidente do júri. Agora é aguardar!



Filme de abertura:

“Midnight in Paris”, Woody Allen (for a de competição)



Competitiva:

“The Skin That I Live In”, Pedro Almodóvar

“L’Apollonide”, Betrand Bonello

“Footnote”, Joseph Cedar

“Paterre”, Alain Cavalier

“Once Upon A Time In Anatolia”, Nuri Bilge Ceylan

“The Kid With The Bike”, Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Le Havre”, Aki Kaurismaki

“Hanezu no Tsuki”, Naomi Kawase

“Sleeping Beauty”, Julia Leigh

“A Árvore da Vida”, Terrence Malick

“La Source de Femmes”, Radu Mihaileanu

“Polisse”, Maïwenn Le Besco

“Harakiri”, Takashi Miike

“We Have A Pope”, Nanni Moretti

“Melancolia”, Lars Von Trier

“This Must Be The Place”, Paolo Sorrentino

“Drive”, Nicholas Winding Refn

“We Need To Talk About Kevin”, Lynne Ramsay



Un Certain Regard/Um Certo Olhar:

“Restless”, Gus Van Sant (filme de abertura)

“Martha Marcy May Marlene”, Sean Durkin

“The Hunter”, Bazur Bakuradze

“Halt auf freier Strecke”, Andreas Dresen

“Skoonheid”, Oliver Hermanus

“Hors Satan”, Bruno Dumont

Les Neiges du Kilimandjaro”, Robert Guédiguian

“The Days He Arrives”, Hong Sang-Soo

“Bonsai”, Christian Jimenez

“Tatsumi”, Erik Khoo

“En maintenant, on va ou?”, Nadine Labaki

“Ariang”, Kim Ki Duk

“Loverboy”, Catalin Mitulescu,

“Toomelah”, Ivan Sen

“Yellow Sea”, Na Hong-Jin,

“Miss Bala”, Gerardo Naranjo,

“L’exercice de l’Etat”, Pierre Schoeller,

“Oslo, August 31st”, Joachim Trier

“Trabalhar Cansa”, Juliana Rojas e Marco Dutra



Fora de competição:

“Um Novo Despertar”, Jodie Foster

“The Artist”, Michel Hazanavicius

“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas”, Rob Marshall

“La Conquete”, Xavier Durringer

“Kung Fu Panda 2”, Jennifer Yuh



Sessões da meia-noite:

“Wu Xia”, Peter Ho-Sun Chan

“Dias de Gracia”, Everardo Gout



Exibições especiais:

“Labrador”, Frederikke Aspock

“Le maître des forges de l’enfer”, Rithy Panh

“Un documentaire sur Michel Petrucciani”, Michael Radford

“Tous au Larzac”, Christian Rouaud


Quinzena dos Realizadores


Longas:

Après Le Sud, de Jean-Jacques Jauffret (França)

Breathing, de Karl Markovics (Áustria)

Blue Bird, de Gust Van de Berghe (Bélgica)

Palawan Destin, de Auraeus Solito (Filipinas)

Chatrak, de Vimukthi Jayasundara (França e Índia)

Code Blue, de Urszula Antoniak (Holanda e Dinamarca)

Corpo Celeste, de Alice Rohrwacher (Itália, Suíça e França)

Eldfjall, de Rúnar Rúnarsson (Dinamarca e Islândia)

En Ville, de Valérie Mréjen e Bertrand Schefer (França)

Impardonnables, de André Téchiné e Jeanne Captive (França)

Jeanne Captive, de Philippe Ramos (França)

La Fée, de Fiona Gordon, Dominique Abel e Bruno Romy (França e Bélgica)

La Fin Du Silence, de Roland Edzard (França)

Les Géants, de Bouli Lanners (Bélgica, França e Luxemburgo)

O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz (Brasil)

Play, de Ruben Östlund (Suécia, França e Dinamarca)

Porfirio, de Alejandro Landes (Colômbia, Espanha, Uruguai, Argentina e França)

Return, de Liza Johnson (Estados Unidos)

Sur La Planche, de Leïla Kilani (Marrocos, França e Alemanha)

The Island, de Kamen Kalev (Bulgária e Suécia)

The Other Side Of Sleep, de Rebecca Daly (Holanda, Hungria e Irlanda)


Curtas:

Armand 15 Ans L’été, de Blaise Harrison (França)

Bielutin - Dans Le Jardin Du Temps, de Clément Cogitore (França)

Boro In The Box, de Bertrand Mandico (França)

Cigarette At Night, de Duane Hopkins (Reino Unido)

Csicska, de Attila Till (Hungria)

Demain, Ça Sera Bien, de Pauline Gay (França)

Fourplay: Tampa, de Kyle Henry (Estados Unidos)

Killing The Chickens To Scare The Monkeys, de Jens Assur (Suécia e Tailândia)

La Conduite De La Raison, de Aliocha (França)

Las Palmas, de Johannes Nyholm (Suécia)

Le Songe de Poliphile, de Camille Henrot (França)

Mila Caos, de Simon Paetau (Alemanha e Cuba)

Nuvem, de Basil da Cunha (Portugal e Suíça)

Vice Versa One, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão)


Sessões Especiais:

Des Jeunes Gens Mödernes, de Jérôme de Missolz (França e Bélgica)

El Velador, de Natalia Almada (Estados Unidos, México e França)

Koi No Tsumi, de Sion Sono (Japão)

La Nuit Elles Dansent, de Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault (Canadá)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinema e Religião: 7 filmes essenciais


Em todos os anos, quando chega o período da Semana Santa católica, vários canais de TV (principalmente aberta), inundam as telas com filmes de temática religiosa, geralmente narrando os últimos momentos da vida de Jesus Cristo ou o Êxodo dos Hebreus, rumo à terra prometida. No entanto, como em todo gênero, é necessário separar o joio do trigo e aqui me presto a fazer uma seleção das melhores obras de caráter religioso para ver nestes dias que antecedem a Páscoa, seja você cristão ou simplesmente um apreciador de ótimos filmes. Vamos a eles. Como sempre, a lista do Cinema Com Pimenta é composta de 7 obras.


7) A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) – O filme dirigido por Mel Gibson é polêmico em toda a sua concepção. Acusado por seu excesso de violência (a flagelação vem se mostrando uma obsessão do diretor ao longo dos anos) e um anti-semitismo subliminar (que pode ter lá o seu fundo de verdade, pois que Gibson já foi pego proferindo ofensas a judeus), não se pode negar, todavia, que o filme é pungente em várias passagens, além de contar com ótimas atuações e a virtude de ser falado na língua original dos personagens, se contrapondo à preguiça reinante em Hollywood de colocar o elenco falando em inglês, mesmo em longas com trama se passando na Idade Antiga. Mas o alerta continua valendo: é um filme que exige estômago forte, dado o realismo – e, por vezes, sensacionalismo – das cenas do martírio de Cristo. Um enorme sucesso (o mais bem-sucedido independente em todos os tempos), se estiver disposto(a), vale à pena, até mesmo para opinar sobre a polêmica que recai sobre esta produção;


6) O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998) – Esta, sem dúvida, foi uma da animações mais ambiciosas já realizadas, tentando tornar mais acessível a história bíblica relatada no livro do Êxodo (e que já havia sido transposta para o cinema na superprodução “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, da qual falarei mais adiante). E a empreitada é bem sucedida. Os personagens, tanto de Moisés quanto do faraó Ramsés, são muito bem construídos e a ideia de mostrar a relação de irmãos entre os dois é muito feliz, trazendo uma clara mensagem de paz aplicável ao Oriente Médio. Ademais, as imagens concebidas são belíssimas, principalmente a famosa cena da travessia do Mar Vermelho. Ainda considero a melhor animação da Dreamworks até hoje e recomendável tanto para crianças quanto para adultos. Se ainda não viu, veja logo;




5) Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) – Nos anos 80, a Rede Globo sempre repetia esse filme nestes dias próximos à Páscoa e o vi diversas vezes (sabem como é criança, né?). O diretor Cecil B. DeMille era uma espécie de Steven Spielberg ou James Cameron do seu tempo, responsável por superproduções de encher os olhos. É o caso exatamente desta, seu último trabalho, a qual narra toda a vida de Moisés, desde quando foi encontrado nas águas do Nilo, passando pelo seu encontro com Deus, até levar a cabo a missão do qual foi incumbido: liderar o povo hebreu rumo à Terra Prometida. Na realidade, é uma refilmagem mais suntuosa do filme homônimo dirigido pelo próprio DeMille em 1923. Algumas de suas cenas já entraram para o inconsciente coletivo (como a passagem pelo Mar Vermelho) e Charlton Heston, o intérprete do protagonista, meio que se tornou a imagem oficial de Moisés no cinema. Apesar de possuir um certo exagero que hoje em dia pode ser visto como cafonice, constitui um longa-metragem obrigatório. Seus efeitos visuais (levou o Oscar neste quesito) ainda são eficientes mesmo para os padrões de hoje;



4) Irmão Sol, Irmã Lua (Brother Sun, Sister Moon, 1972) – Este não narra nem a história de Cristo nem a de Moisés. O filme é sobre a vida de Francisco de Assis (interpretado aqui pelo ator Graham Faulkner),o filho de um rico comerciante que larga toda sua vida de facilidades para se dedicar à imitação de Cristo, passando a ter a caridade e a solidariedade como nortes, além de defender a paz e o respeito à natureza (alguns afirmam que ele andava com extremo cuidado para não correr o risco de retirar nem mesmo a vida de um inseto). Dirigido por Franco Zeffirelli e roteirizado pelo mesmo em parceria com Lina Wertmüller (diretora de “Pasqualino Sete Belezas”) e Suso Cecchi D’Amico, é um longa bastante sensível e emocional, indicado para ver com a família. Tem ótimas canções e bela fotografia. Filme apto a agradar a todos os gostos;


3) A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988) – Se o acima citado “A Paixão de Cristo” causou polêmica, imagine este longa-metragem que retrata um Jesus Cristo humanizado, com dúvidas e fraquezas e até mesmo titubeante em algumas passagens. Baseado no romance de Nikos Kazantzakis e dirigido pelo genial Martin Scorsese, o filme foi considerado herético pela Igreja Católica e proibido em muitos países ao longo de vários anos (no Chile, só em 2003 ele foi liberado). Willem Dafoe (naquela que é a melhor interpretação de sua carreira) interpreta Jesus, mostrado com um marceneiro judeu responsável pela confecção das cruzes utilizadas pelos romanos para aplicar suas sentenças de morte. Detalhe especial para a tal “última tentação” do título, quando Jesus é tentado, na cruz e à beira da morte, a abdicar de sua responsabilidade para com a humanidade e do sacrifício como Messias e assumir para si a vida de um homem comum, simples, com esposa, filhos e uma perspectiva de envelhecer e morrer desta forma. Bem, como pode perceber, se sua visão da vida de Cristo é dogmática, este longa não é sua praia. Mas, se tiver disposição para visões diferentes da Bíblia, encontrará aqui um filme excepcional;



2) O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo secondo Matteo, 1964) – Esta é, provavelmente, a adaptação da vida Cristo para as telas mais fiel ao texto bíblico. Ironicamente, foi realizada pelo comunista Pier Paolo Pasolini. Como se sabe, Pasolini sempre fazia de suas obras um manifesto, uma forma de criticar o status quo e mexer com a concepção tradicional de temas. E aqui não é diferente. Dedicado ao papa João XXIII, o filme não tem uma palavra sequer em seu texto que não tenha sido tirada do Evangelho de Mateus, demonstrando o quanto as ideias de Jesus tinham de socialistas, associando sua imagem a de um provocador social, um revolucionário. Filmado com não-atores, no melhor estilo do neo-realismo italiano, o longa muitas vezes lembra um documentário, sem enfatizar ou romancear os eventos da vida de Cristo. Ademais, Pasolini mexe em um vespeiro ao insinuar que ideologias sociais podem ter um parentesco próximo com doutrinas religiosas. É provável que não agrade a muitos, todavia possivelmente cairá nas graças dos cinéfilos de carteirinha. Em tempo: o filme ganhou chancela oficial do Vaticano;



1) O Rei dos Reis (King of Kings, 1961) – Esta é a versão mais emblemática da história de Jesus Cristo para o cinema. Dirigido pelo cultuado Nicholas Ray em 1961 e contando com a narração de ninguém menos que Orson Welles, o Cristo vivido pelo ator Jeffrey Hunter se tornou emblemático. Um blockbuster que fez enorme sucesso quando do seu lançamento, detentor de cenas belíssimas e, certamente, da melhor transposição da passagem do Sermão da Montanha de que se tem notícia. Quando garoto, era atração certa na Sessão da Tarde da sexta-feira da Paixão. A trilha sonora é linda e, se você é religioso, este filme é mais do que obrigatório. E se você não é, o longa é obrigatório. Imperdível!

Bons filmes e uma boa Páscoa a todos!



terça-feira, 19 de abril de 2011

Trilha Sonora #16


Roberto Carlos, maior ídolo da música brasileira, está completando 70 anos hoje, 19 de abril. Roberto protagonizou 3 filmes em sua carreira. Um deles, "Em Ritmo de Aventura", possui uma trilha sonora que se constitui um dos seus melhores discos. Abaixo, como exemplo do repertório da trilha, segue a simbólica, famosa e inesquecível "Como é Grande o Meu Amor Por Você". Som na caixa e parabéns ao Rei!

P.S. Sandra, minha linda, essa é pra você! :=)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva

Orfeu Negro


Entre a poesia e o exotismo



Ao longo dos anos, “Orfeu Negro” vem sendo alvo tanto de admiração por boa parte de críticos e cinéfilos ao redor do mundo, quanto de severos ataques em terras brasileiras. Dirigido por Marcel Camus e lançado em 1959, recendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro (que servem até como exemplo de sua repercussão extremamente positiva no meio internacional), o longa-metragem franco-ítalo-brasileiro apresenta, curiosamente, características que podem dar razão aos dois lados da moeda.

Adaptado da peça “Orfeu da Conceição”, escrita por Vinícius de Moraes, a narrativa transpõe o mito grego de Orfeu e Eurídice para os morros do Rio de Janeiro, procurando realçar os elementos da cultura brasileira. O roteiro nos apresenta o Orfeu brasileiro (interpretado pelo também jogador de futebol Breno Mello) como um condutor de bondes que mora no morro da Babilônia. Seu talento musical incomum possui fama nas redondezas e muitos dizem que ele é capaz de fazer o sol se levantar ao tocar seu violão. Prima de uma de suas vizinhas, a recatada Eurídice (a norte-americana Marpessa Dawn) vem do interior para passar os dias da festa de Momo na casa de sua parenta. Os dois vivem, então, de maneira meteórica, uma paixão de contornos trágicos.

Convém sublinhar, antes de tudo, que se trata de um olhar estrangeiro sobre a nossa cultura, o que necessariamente trará uma perspectiva diferente da que temos de nós mesmos. Natural, por conseguinte, que muito do que é mostrado seja visto como estereotipado pelos brasileiros. O que, ao menos em parte, é verdade. Ao escolher o carnaval como época do ano para a transposição do mito, transmite-se a ideia de que o Brasil vive em uma eterna festa, principalmente quando se atenta para o fato de que praticamente durante toda a projeção há sempre um batuque de samba ao fundo e gente dançando quase sem parar. A percepção de Camus se avizinha, em uma observação mais detida, da visão romântica do “bom selvagem”. Ou seja, ele parece ver os moradores do morro como pessoas de bom coração, felizes por terem o samba no pé e a bela paisagem do Rio de Janeiro para admirar, apesar de sua considerável pobreza material. Ingenuidade talvez seja a melhor palavra para descrever tal perspectiva e ela foi em muito responsável pelos ataques que o filme sofreu por parte da intelectualidade brasileira, a qual acusava também Camus de fugir deliberadamente das críticas e observações sociais presentes na obra dramática de Vinícius. “Orfeu Negro” se apresentaria, por conseguinte, como uma obra inautêntica, tanto por fugir da realidade do povo do Rio de Janeiro, quanto por se distanciar em demasia da matéria-prima que lhe deu origem. Até mesmo Jean-Luc Godard apontou esta inautenticidade em um dos seus escritos na famosa “Cahiérs Du Cinema”, afirmando que o filme possuía um “exotismo cartão-postal”. Décadas depois, o hoje presidente dos Estados Unidos Barack Obama também denunciou este aspecto ao mencionar, em sua autobiografia, que sua mãe, Ann Dunhan, se apaixonou por seu pai, um queniano estudante nos EUA, pouco depois de assistir a “Orfeu Negro” (mostrando que a mesma, provavelmente, passara a ter uma visão romântica e idealizada sobre o Brasil e os brasileiros e, por extensão, sobre a África).



Por outro lado, não se pode negar que, a despeito de sua inautenticidade, o longa-metragem possui momentos de admirável beleza. Seu início mostra uma pipa erguida por um garoto no alto do morro, cena esta sublinhada por “A Felicidade”, canção icônica da Bossa Nova (de autoria de Tom Jobim e Vinícius de Moraes) cujos versos mencionam que a felicidade “é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar”, pluma esta que, para manter-se voando, “precisa que haja vento sem parar”. Uma metáfora perfeita da alegria que teriam Orfeu e Eurídice durante os poucos dias do Carnaval. A festa, por si só, momento de euforia de toda uma nação, já é posta como representação do efêmero. A “grande ilusão” que acaba na quarta-feira. Ademais, não se pode negar a ousadia de Camus em utilizar, ainda nos 50, um elenco quase inteiramente negro na produção. Contudo, muitos ainda criticam o filme mesmo em tais aspectos, argumentando que a poesia viria de Vinícius de Moraes e não de Marcel Camus ou do roteirista Jacques Viot (em parceria com o próprio Camus). Esta, todavia, é uma crítica que beira o sofisma, já que, desta forma, seríamos levados a enxergar com maus olhos toda película com origem na literatura, pois que suas virtudes passariam inevitavelmente pelos méritos do escritor.

Adentrando em questões mais técnicas, é importante frisar a qualidade da fotografia de Jean Bourgoin, muito embora se saiba que filmar o Rio de Janeiro é muito fácil. Já as interpretações oscilam constantemente. Herdeiro do neo-realismo, Camus usou vários amadores nas filmagens e o resultado é marcadamente inconstante. A começar pelo próprio protagonista, Breno Mello. Este foi seu primeiro trabalho cinematográfico, migrando do futebol para a arte interpretativa, o que naturalmente gera limitações no seu desempenho. Marpessa Dawn, uma atriz profissional, se sai melhor, obviamente, mas quem acaba roubando a cena é o elenco infantil, com suas crianças simpáticas e cheias de samba no pé (curiosidade: o intérprete da Morte que persegue Eurídice é o bi-campeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva). A trilha sonora, então, pode ser considerada uma história à parte. Permeada pelas canções de Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Luiz Bonfá (é dele a belíssima “Manhã de Carnaval) e Antônio Maria, o filme serviu de trampolim internacional para a Bossa Nova, sendo um dos responsáveis pelo sucesso global que o gênero alcançou.

Constituindo ou não um clássico da “macumba para turistas”, “Orfeu Negro” meio que se tornou um filme obrigatório para os cinéfilos brasileiros, sendo importante salientar que ele, de certa forma, abriu terreno para que o excelente “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, viesse a ser premiado em Cannes alguns anos depois. Faz-se interessante até mesmo contrapô-lo ao recente “Rio”, outra produção que está destinada a ser vista ao longo dos anos vindouros como mais um exemplo do “exotismo cartão-postal” denunciado por Godard, só que aqui dirigido por um brasileiro a serviço de Hollywood. De qualquer forma, em ambos os casos os resultados são palatáveis ao grande público. Dois bons filmes cujos méritos acabam sendo ofuscados por nosso complexo de inferioridade (ou de “vira-latas”, como batizado por Nelson Rodrigues), o qual não permite qualquer perspectiva que nos aproxime de possíveis estereótipos. Curiosamente, Camus jamais viria a obter o mesmo respeito e sucesso com seus trabalhos posteriores. Será que algum brasileiro irritado fez alguma macumba para amaldiçoar o pobre diretor? Acredito que o cineasta não mereceria isso. O máximo de que ele pode realmente ser acusado é de não ter entendido a nossa cultura.

Cotação:

Nota: 8,0

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sidney Lumet : 1924- 2011


No último sábado, 09 de abril, perdemos Sidney Lumet, um diretor excepcional e que foi injustiçado na mesma proporção. Mesmo com dois dias de atraso, o Cinema Com Pimenta presta aqui sua h0menagem a este grande cineasta. Sempre que lembro de Lumet, dois filmes logo me vêm à mente. No video logo abaixo, você confere a recomendação do crítico Marcelo Janot para o longa "12 Homens e Uma Sentença", o primeiro de Lumet, iniciando sua carreira com uma autêntica obra-prima.




E a seguir, veja o trailer de "Um Dia de Cão" (cuja resenha você pode conferir aqui), uma obra febril e impactante que se tornou uma das referências da "Nova Hollywood". Por sinal, Al Pacino em estado de graça!




Ao saber da morte de Lumet, disse Woody Allen: "conhecendo Sidney, ele terá mais energia morto do que a maioria dos vivos." Que Deus o receba em paz e que lhe faça a devida justiça, Sidney Lumet!

sábado, 9 de abril de 2011

Rio



Nossas contradições


Nós, brasileiros, costumamos nos entusiasmar e enaltecer nossos compatriotas que alcançam destaque internacional, seja no esporte, na música, na literatura, nas ciências naturais ou, como no caso de que trata este texto, no cinema. O carioca Carlos Saldanha, um dos grandes diretores da área de animação na Hollywood atual, é hoje o espelho para os nossos cineastas ao lado de nomes como Fernando Meirelles e Walter Sales, encarnando esse nosso desejo de aceitação pelos mais “ricos” ou “desenvolvidos”. Um sentimento, vale dizer, herdado da nossa condição de colônia e que insiste em se perpetuar (realmente, aspectos culturais de uma nação são muito difíceis de mudar). Em seu novo trabalho, Saldanha, de uma certa forma, não foge dessa necessidade de aceitação. “Rio”, a aventura de uma arara azul pela Cidade Maravilhosa, possui aqueles elementos que muitos poderiam classificar como “Brasil pra gringo ver”. Estão lá o carnaval, as praias, o samba, nossa fauna e flora. E também as favelas e a criminalidade, já que estas passaram a fazer parte do imaginário estrangeiro sobre nossa terra desde “Cidade de Deus”.

Mas é interessante que, mesmo trabalhando a partir de estereótipos, o diretor consegue construir um todo que foge da caricatura, obtendo um resultado positivo com relação à imagem de nosso país ao mesmo tempo em que não se esquece de abordar alguns de nossos sérios problemas. A começar pelo motor da trama: o tráfico de animais silvestres. É devido a ele que a pequenina arara azul Blu (voz de Jesse Eisenberg no original) vai parar no estado norte-americano e friorento de Minnesota, onde acaba sendo criado pela tímida Linda (Leslie Mann) ao longo de muitos anos. Devido à proteção e à distância de seu habitat natural, Blu acaba por não desenvolver uma das principais características de um pássaro: ele não sabe voar. Sua vida confortável, entretanto, é abalada pela chegada de Túlio (voz de Rodrigo Santoro), um pesquisador brasileiro que vê em Blu a chance de salvar a espécie da araras azuis por meio de seu acasalamento com a fêmea Jade (voz da atual queridinha de Hollywood Anne Hathaway). Blu e Linda partem, então, para o Rio de Janeiro, onde Blu deverá acasalar-se com Jade. O casal de araras, contudo, acaba sequestrado por traficantes de aves e, em seguida, vivendo uma série de peripécias ao lado de outras aves nacionais, como um tucano, um canário e um galo-de-campina. Nota-se, durante a projeção, que há uma preocupação em expor nossas contradições sociais, como no contraste de imagens que mostram a favela em contraposição à belíssima paisagem da metrópole que se avizinha mais abaixo. Ademais, o personagem de um garoto favelado está ali posto para não nos esquecermos que a pobreza é, em boa parte, responsável pela criminalidade.

À parte a exposição de nossa terra, percebe-se que a trama (com roteiro de Don Rhymer) se desenvolve como o amadurecimento de um filho muito protegido que precisa encontrar seus próprios caminhos. Não há metáfora mais clara para tanto do que um pássaro que precisa aprender a voar, embora acredite que não consegue. Na realidade, Blu estava acomodado em um ambiente de conforto e proteção e tem de passar pelo processo de amadurecimento, de deixar o lar “materno” para construir o seu próprio. Claro que tudo isso de forma leve e recheada de humor. Saldanha, como demonstrou na série “A Era do Gelo”, é um mestre nas gags e há várias em “Rio” que desmontarão mesmo o mais ranzinza dos espectadores. O mais interessante neste ponto é que o diretor soube se utilizar de elementos típicos da cultura brasileira para fazer soltar as risadas, como nossa paixão por futebol e até mesmo o desfile das escolas de samba na Sapucaí. Saldanha sabe usar, ainda, referências cinematográficas, como a ideia de Blu e Jade andarem acorrentados, remetendo a “Os 39 Degraus”, um dos filmes da fase inglesa de Alfred Hitchcock. Ademais, a animação tem uma belíssima “fotografia” do Rio de Janeiro, não deixando em nada a dever às paisagens que, sabemos, são tão ou até mais bonitas que na tela. A trilha sonora também sabe explorar várias nuances de nossa música, passando por samba, bossa nova e até mesmo o funk, muito embora a utilização de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes (que fez parte da equipe musical do longa), em determinada sequência, tenha caído no banal. Todavia, certos buracos no roteiro incomodam. Embora a mencionada cena dos desfiles na Sapucaí seja muito bem realizada em termos técnicos, ela se encaixa muito mal no desenvolvimento do roteiro, perecendo que foi colocada a fórceps porque havia a necessidade de inseri-la em qualquer parte da trama. Da mesma maneira, o desfecho do longa soa apressado e contando com uma espécie de videoclipe de propaganda do Rio de Janeiro.

“Rio” tem lançamento com recorde em número de salas no Brasil (1008, mais precisamente) e a Fox gastou cerca de 74 milhões de dólares com o marketing do filme em todo o mundo. Isso revela um pouco da importância que o País vem assumindo tanto como mercado consumidor como quanto expoente cultural. “O Brasil está na moda”, dirão alguns, o que não deixa de ser verdade. Basta acompanharmos o noticiário não só nosso como do exterior para percebermos que não somos mais vistos com um “vira-latas” entre as nações (há pouco tempo uma propaganda republicana contra Barack Obama colocou o Brasil entre os maiores credores dos EUA, só para ter uma noção). Resta a nós mesmos nos livrarmos dessa síndrome. O filme de Carlos Saldanha se situa, nesse contexto, a um meio termo. O diretor reflete que temos orgulho de nosso país, mesmo com os seus problemas, mas ainda sentimos necessidade de mostrar um Brasil para os gringos verem. E isso, observem bem o paradoxo, por meio de um dos maiores estúdios do cinema norte-americano. E lá vamos nós, lotar os cinemas para ver o Brasil da Fox. Mesmo que merecidamente (afinal, o longa é mesmo divertido e apto a agradar toda a família), tal circunstância acaba se colocando como mais um exemplo de nossas velhas contradições.


Cotação:

Nota: 8,5

quarta-feira, 6 de abril de 2011

As Mães de Chico Xavier



Emoção e espiritismo


Hollywood sempre soube se aproveitar de segmentos de marcado que se mostram especialmente rentáveis. Citando um exemplo recente, o gênero dos super-heróis tem provocado uma enxurrada de blockbusters aptos a saciar o público adolescente masculino, um voraz consumidor de qualquer coisa que envolva seus personagens mais queridos. O cinema brasileiro não vem agindo diferente e é natural que assim seja. Afinal, boa parcela de nosso mercado ainda desconfia da qualidade dos produtos de nossa indústria cinematográfica. Uma demonstração recente foi a invasão dos filmes favela-mundo cão, nos rastro do sucesso de público e crítica “Cidade de Deus”. Agora, estamos vendo o segmento dos filmes espíritas conquistar uma fatia considerável do mercado. Possui um público fiel, uma vez que o Brasil é o maior país espírita do mundo, além de ter a simpatia de outras parcelas da população, já que mesmo os católicos praticantes muitas vezes possuem um pé na crença espírita. Por outro lado, também se torna inevitável que os resultados artísticos de tantos filmes com abordagem de temáticas similares oscilem. Assim, se fomos brindados com o ótimo “Chico Xavier”, de Daniel Filho, também tivemos o apenas mediano “Nosso Lar”. Mediano talvez seja a melhor maneira de designar este “As Mães de Chico Xavier”, em cartaz nacional desde a última sexta-feira, 01 de abril.

Dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes, os mesmos de “Bezerra de Menezes” (o precursor do gênero espírita na Terra Brasilis), o roteiro trabalha com três narrativas paralelas (e que são baseadas em fatos reais e no livro "Por trás do Véu de Ísis", de Marcel Souto Maior). Duas delas mostram a difícil aceitação da perda por parte de pais que perderam seus filhos, enquanto outra trata de uma jovem grávida que está pensando em realizar um aborto. Interessante perceber que, no caso deste longa-metragem, a oscilação ocorre dentro de sua própria estrutura. Enquanto a trama dos pais Mário e Ruth (interpretados por Herson Capri e Via Negromonte) que têm um filho, Raul (Daniel Dias) vítima das drogas é bem contada, a da grávida Lara (papel de Tainá Müller) tem alguns furos e sua resolução se coloca muito apressada, meio que para entrar logo em sintonia com as demais. Já a narrativa dos pais Elisa e Guilherme, vividos por Vanessa Gerbelli e Joelson Medeiros, transcorre muito lenta, chegando a dar a impressão, por vezes, de que nada vai acontecer. Contudo, a despeito de suas falhas, o roteiro consegue um envolvimento emocional muito eficiente, principalmente no último terço da projeção. Neste ponto, mostra-se mais eficaz do que seu referido antecessor “Nosso Lar”, este último um longa que sempre me parece emocionalmente pálido. Em tal aspecto, o único pecado de “As Mães de Chico Xavier” é sua equivocada trilha sonora. Nada contra as composições de Flávio Venturini, mas elas foram mal selecionadas e mal encaixadas na projeção. Em diversos momentos, as músicas se tornam um elemento desnecessário às cenas, que já são suficientemente tristes, e sua inclusão acaba por gerar momentos excessivamente piegas.

Se o drama ainda funciona, a despeito dos defeitos apontados, é por virtude do elenco. Todo ele se encontra uniforme e ninguém descamba para a canastrice. Mas é claro que Nelson Xavier mais uma vez alcança destaque. Tal como o cinema norte-americano imortalizou a imagem de determinados personagens por meio da figura de alguns atores (como no exemplo clássico do Super-Homem encarnado por Christopher Reeve), a produção nacional está se encarregando de transformar Nelson na encarnação (com perdão do trocadilho) de Chico Xavier nas telonas, até mesmo pela sua semelhança física com o famoso médium.

Alguns poderão apontar o posicionamento religioso do longa, com estampada mensagem anti-aborto, como um sério problema, mas não vejo dessa forma. Qualquer cineasta, seja ele qual for, tem direito de expressar sua visão sobre determinado tema em sua obra, seja ela política, social, econômica ou mesmo religiosa. Seria o mesmo que dizer que “O Triunfo da Vontade”, o célebre documentário de Leni Riefenstahl, é um filme ruim por enaltecer o nazismo. Desta forma, os diretores não incorrem em qualquer erro ao defender suas posições e, se você não concorda, paciência, vivemos em uma democracia e todas as posições devem ser respeitadas. Ademais, esta película consegue se tornar bem mais palatável ao público não adepto da doutrina espírita do que seu antecessor “Nosso Lar” e, se não alcança o mesmo resultado artístico de “Chico Xavier”, ao menos constitui uma experiência cinematográfica com substância e que deve agradar tanto aos doutrinados quanto aos que buscam um drama comovente para assistir na sala escura.


Obs. Eu não sou espírita.


Cotação:

Nota: 7,5

quinta-feira, 31 de março de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Esta semana tivemos a estreia de "Sucker Punch - Mundo Surreal" no circuito, o novo longa do diretor Zack Snyder. Não vi o filme, mas, tomando como base a média de avaliações do site "Rotten Tomatoes" , parece ser uma verdadeira bomba. Entretanto, embora não seja nenhuma obra de arte, o longa abaixo mostra que Snyder tem potencial. A crítica a seguir foi escrita quando do seu lançamento no Brasil, em 2007, e permanecia inédita no blog.



300
(300)


Adaptação estilo “videogame” funciona


Antes de tudo, convém pontuar que “300” é um espetáculo para as massas. Cada fotograma tem a nítida intenção de fazer o público vibrar, pular mesmo nas cadeiras das salas de exibição. E, neste aspecto, o filme consegue atingir seu objetivo. “300”, longa de Zack Snyder (o mesmo de “Madrugada dos Mortos”) baseado na HQ de Frank Miller e Lynn Varley, é um espetáculo visual atordoante. Muitas de suas cenas parecem verdadeiras pinturas dignas de um grande artista. Seu ritmo é vibrante e envolve bastante o espectador.

Narrando o episódio histórico-lendário em que cerca de 7.000 soldados gregos enfrentaram 250 000 homens do exército persa (segundo alguns historiadores talvez o número alcançasse pelo menos o dobro disto), sendo os primeiros capitaneados pelo espartano Leônidas e mais 300 guerreiros da elite do exército de Esparta, o filme se mostra muito fiel à Graphic Novell (um dos grandes trabalhos de Miller), sendo que várias de suas imagens são transposições literais da mesma. Ser fiel aos quadrinhos significa dar ênfase ao aspecto lendário do episódio, à bravura dos espartanos, não se importando muito com as questões políticas da época. Todavia, não deixa de retratar certos costumes de Esparta, como aquele de descartar as crianças fisicamente imperfeitas, ou a criação dos filhos, a partir dos 7 anos, pelo próprio Estado, preparando-os desde cedo para a guerra.

E neste ponto cabe uma digressão: já percebi que alguns críticos taxaram o filme de “moralmente reprovável”, acusando-o de machista, de desrespeito às minorias, de preconceito contra os homossexuais etc. Para começo de conversa: não cabe a um crítico de cinema ser a palmatória do mundo, querendo taxar tal filme como “imoral”, socialmente inadequado ou coisas do gênero. Sua função é analisar a obra e mostrar se é boa ou não. O resto é moralismo, opiniões ideológicas, o que seja, mas não é crítica. E também é pertinente questionar: eles então queriam que os espartanos fossem politicamente corretos? Ora, esses costumes (eliminação de deficientes, belicismo etc) são mostrados em qualquer livro de História que trate da sociedade espartana. Seria no mínimo risível, portanto, se a obra procurasse mostrá-la de uma forma mais adequada ao nosso politicamente correto. Por outro lado: o filme não tem nada de machista, pelo contrário. O personagem da rainha Gorgo teve sua participação consideravelmente ampliada nas telas (ela quase não aparece na HQ), mostrando-se uma mulher forte, inteligente, respeitada por todos e amada pelo seu esposo Leônidas. O fato de a obra enaltecer a virilidade não a torna machista. Os dois conceitos não se confundem. Seria o mesmo que afirmar que “Orgulho e Preconceito” ou “Razão e Sensibilidade” são filmes feministas. Não são. São filmes femininos por excelência, mas não são feministas.

De outra parte, li comentários afirmando que “300” representa uma espécie de “revolução” no cinema, principalmente no gênero épico. Essa afirmação soa um tanto quanto exagerada. Na realidade, “300” mostra-se extremamente influenciado por “Gladiador”, de Ridley Scott, este sim um filme que estabeleceu um novo padrão para o gênero (certas seqüências, e vocês perceberão quais ao assistir, lembram muito o vencedor do Oscar). Mesmo a utilização de ambientações totalmente modeladas por computador não são novidade no cinema (vide “Sin City”, também adaptado de Miller, e “Capitão Sky”). Talvez, sua inovação seja o ritmo “videogame” que permeia o longa e principalmente as cenas de ação. Mas não vejo isso como algo tão inovador assim, pois acaba deixando certas cenas esteticamente bonitas, mas um tanto quanto vazias, um pouco sem emoção... Ou melhor, de forma paradoxal, apelam tanto para o sensacionalismo dos games, que acabam perdendo a emoção.



Aliás, o sensacionalismo é um dos pontos fracos do filme. Todas as cenas têm de parecer grandiosas. Até mesmo o fincar de uma lança no chão gera um efeito sonoro gigantesco, como se aquela lança ali posta tivesse uma importância enorme para o desenrolar da narrativa. Esse sensacionalismo exagerado chega mesmo a incomodar, deixando a obra com um caráter por vezes pueril. Outro ponto fraco é o roteiro, que traz algumas alterações com relação à HQ (para dar um ar mais cinematográfico à trama). Alguns elementos desnecessários são inseridos, como a cena de sexo envolvendo Leônidas e Gorgo, que parce estar ali só para mostrar que o rei de Esparta é “macho”, gosta muito de mulher e "manda" muito bem...

Quanto às atuações: Gerard Butler parece se envolver no tom sensacionalista geral do longa e acaba fazendo um discurso de campanha política a cada aparição. O personagem é mais contido na HQ e lembra bem mais o Maximus de Russel Crowe (no citado Gladiador). Lena Headey, que interpreta Gorgo, está correta. E os demais não têm muito o que fazer. Ei, calma, não esqueci o Rodrigo Santoro: fica difícil avaliar sua atuação como o rei dos persas Xerxes debaixo de tanta maquiagem, alterações digitais e, principalmente, da alteração digital da sua voz (ficou bem cavernosa!).

Para terminar, algumas observações finais:

Não vejo qualquer relação do filme com o momento político atual. Os realizadores tinham apenas a intenção de adaptar a graphic novell e ponto final. Aliás, Bush é covarde demais para se comparar a reis como Leônidas e Xerxes, que acompanhavam seus soldados ao campo de batalha (no caso de Leônidas, ele não só acompanhava como também lutava junto com seus soldados). Outra: o filme vem sendo taxado de “homo-erótico” devido ao fato de que os espartanos passam a projeção inteira sem camisa, com seus corpos bem definidos. Não creio que tenha sido a intenção de Snyder realizar algo para atrair a platéia homossexual para o cinema. A verdade é que na obra de Miller os espartanos são representados desta forma e o filme foi simplesmente fiel a ela.

Todavia, creio que os pontos fortes de “300” superam suas falhas. Trata-se de um longa capaz de agradar à maioria da platéia (mesmo à meninas) e seria bom que todos os blockbusters tivessem tal padrão de qualidade. A verdade é que, mesmo sabendo que as façanhas dos espartanos foram elevadas ao caráter lendário durante a projeção, é de se admirar a coragem daqueles homens, que chega mesmo a ser inspiradora (tanto que serviu realmente de inspiração aos demais gregos, que a partir deste evento resistiram ao invasor persa).

Confiram!!!

Cotação:

Nota: 8,5


terça-feira, 29 de março de 2011

Valeu, Zé!


Pausa no cinema.

Esta imagem logo acima simboliza como poucas quem foi José Alencar Gomes da Silva. Mesmo diante de um inimigo que lhe fez passar por 17 cirurgias, ele encontrou forças para continuar na luta pelo que acreditava. Obrigado, Zé! Você foi um herói! Que Deus o receba com Sua paz!

domingo, 27 de março de 2011

Capitão América: primeiro trailer

Durante muitos anos, fui um aficcionado em quadrinhos. Hoje, estou distante da chamada "9ª arte". Não tenho mais paciência para as tramas novelísticas de Marvel e DC, que exigem anos de bagagem cronológica acumulada, e as HQs que fogem ao universo de super-heróis normalmente têm preços proibitivos. De qualquer forma, sempre acaba surgindo um certo entusiasmo quando vejo trailers que prometem uma boa adaptação dos personagens dos quadrinhos para as telas, mesmo com o cansaço no qual o gênero está caindo. É o caso deste "Capitão América - O Primeiro Vingador", com estreia prevista para 29 de julho. Pelas cenas que você pode ver logo abaixo, o longa promete! A conferir!