sexta-feira, 22 de abril de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinema e Religião: 7 filmes essenciais


Em todos os anos, quando chega o período da Semana Santa católica, vários canais de TV (principalmente aberta), inundam as telas com filmes de temática religiosa, geralmente narrando os últimos momentos da vida de Jesus Cristo ou o Êxodo dos Hebreus, rumo à terra prometida. No entanto, como em todo gênero, é necessário separar o joio do trigo e aqui me presto a fazer uma seleção das melhores obras de caráter religioso para ver nestes dias que antecedem a Páscoa, seja você cristão ou simplesmente um apreciador de ótimos filmes. Vamos a eles. Como sempre, a lista do Cinema Com Pimenta é composta de 7 obras.


7) A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) – O filme dirigido por Mel Gibson é polêmico em toda a sua concepção. Acusado por seu excesso de violência (a flagelação vem se mostrando uma obsessão do diretor ao longo dos anos) e um anti-semitismo subliminar (que pode ter lá o seu fundo de verdade, pois que Gibson já foi pego proferindo ofensas a judeus), não se pode negar, todavia, que o filme é pungente em várias passagens, além de contar com ótimas atuações e a virtude de ser falado na língua original dos personagens, se contrapondo à preguiça reinante em Hollywood de colocar o elenco falando em inglês, mesmo em longas com trama se passando na Idade Antiga. Mas o alerta continua valendo: é um filme que exige estômago forte, dado o realismo – e, por vezes, sensacionalismo – das cenas do martírio de Cristo. Um enorme sucesso (o mais bem-sucedido independente em todos os tempos), se estiver disposto(a), vale à pena, até mesmo para opinar sobre a polêmica que recai sobre esta produção;


6) O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998) – Esta, sem dúvida, foi uma da animações mais ambiciosas já realizadas, tentando tornar mais acessível a história bíblica relatada no livro do Êxodo (e que já havia sido transposta para o cinema na superprodução “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, da qual falarei mais adiante). E a empreitada é bem sucedida. Os personagens, tanto de Moisés quanto do faraó Ramsés, são muito bem construídos e a ideia de mostrar a relação de irmãos entre os dois é muito feliz, trazendo uma clara mensagem de paz aplicável ao Oriente Médio. Ademais, as imagens concebidas são belíssimas, principalmente a famosa cena da travessia do Mar Vermelho. Ainda considero a melhor animação da Dreamworks até hoje e recomendável tanto para crianças quanto para adultos. Se ainda não viu, veja logo;




5) Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) – Nos anos 80, a Rede Globo sempre repetia esse filme nestes dias próximos à Páscoa e o vi diversas vezes (sabem como é criança, né?). O diretor Cecil B. DeMille era uma espécie de Steven Spielberg ou James Cameron do seu tempo, responsável por superproduções de encher os olhos. É o caso exatamente desta, seu último trabalho, a qual narra toda a vida de Moisés, desde quando foi encontrado nas águas do Nilo, passando pelo seu encontro com Deus, até levar a cabo a missão do qual foi incumbido: liderar o povo hebreu rumo à Terra Prometida. Na realidade, é uma refilmagem mais suntuosa do filme homônimo dirigido pelo próprio DeMille em 1923. Algumas de suas cenas já entraram para o inconsciente coletivo (como a passagem pelo Mar Vermelho) e Charlton Heston, o intérprete do protagonista, meio que se tornou a imagem oficial de Moisés no cinema. Apesar de possuir um certo exagero que hoje em dia pode ser visto como cafonice, constitui um longa-metragem obrigatório. Seus efeitos visuais (levou o Oscar neste quesito) ainda são eficientes mesmo para os padrões de hoje;



4) Irmão Sol, Irmã Lua (Brother Sun, Sister Moon, 1972) – Este não narra nem a história de Cristo nem a de Moisés. O filme é sobre a vida de Francisco de Assis (interpretado aqui pelo ator Graham Faulkner),o filho de um rico comerciante que larga toda sua vida de facilidades para se dedicar à imitação de Cristo, passando a ter a caridade e a solidariedade como nortes, além de defender a paz e o respeito à natureza (alguns afirmam que ele andava com extremo cuidado para não correr o risco de retirar nem mesmo a vida de um inseto). Dirigido por Franco Zeffirelli e roteirizado pelo mesmo em parceria com Lina Wertmüller (diretora de “Pasqualino Sete Belezas”) e Suso Cecchi D’Amico, é um longa bastante sensível e emocional, indicado para ver com a família. Tem ótimas canções e bela fotografia. Filme apto a agradar a todos os gostos;


3) A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988) – Se o acima citado “A Paixão de Cristo” causou polêmica, imagine este longa-metragem que retrata um Jesus Cristo humanizado, com dúvidas e fraquezas e até mesmo titubeante em algumas passagens. Baseado no romance de Nikos Kazantzakis e dirigido pelo genial Martin Scorsese, o filme foi considerado herético pela Igreja Católica e proibido em muitos países ao longo de vários anos (no Chile, só em 2003 ele foi liberado). Willem Dafoe (naquela que é a melhor interpretação de sua carreira) interpreta Jesus, mostrado com um marceneiro judeu responsável pela confecção das cruzes utilizadas pelos romanos para aplicar suas sentenças de morte. Detalhe especial para a tal “última tentação” do título, quando Jesus é tentado, na cruz e à beira da morte, a abdicar de sua responsabilidade para com a humanidade e do sacrifício como Messias e assumir para si a vida de um homem comum, simples, com esposa, filhos e uma perspectiva de envelhecer e morrer desta forma. Bem, como pode perceber, se sua visão da vida de Cristo é dogmática, este longa não é sua praia. Mas, se tiver disposição para visões diferentes da Bíblia, encontrará aqui um filme excepcional;



2) O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo secondo Matteo, 1964) – Esta é, provavelmente, a adaptação da vida Cristo para as telas mais fiel ao texto bíblico. Ironicamente, foi realizada pelo comunista Pier Paolo Pasolini. Como se sabe, Pasolini sempre fazia de suas obras um manifesto, uma forma de criticar o status quo e mexer com a concepção tradicional de temas. E aqui não é diferente. Dedicado ao papa João XXIII, o filme não tem uma palavra sequer em seu texto que não tenha sido tirada do Evangelho de Mateus, demonstrando o quanto as ideias de Jesus tinham de socialistas, associando sua imagem a de um provocador social, um revolucionário. Filmado com não-atores, no melhor estilo do neo-realismo italiano, o longa muitas vezes lembra um documentário, sem enfatizar ou romancear os eventos da vida de Cristo. Ademais, Pasolini mexe em um vespeiro ao insinuar que ideologias sociais podem ter um parentesco próximo com doutrinas religiosas. É provável que não agrade a muitos, todavia possivelmente cairá nas graças dos cinéfilos de carteirinha. Em tempo: o filme ganhou chancela oficial do Vaticano;



1) O Rei dos Reis (King of Kings, 1961) – Esta é a versão mais emblemática da história de Jesus Cristo para o cinema. Dirigido pelo cultuado Nicholas Ray em 1961 e contando com a narração de ninguém menos que Orson Welles, o Cristo vivido pelo ator Jeffrey Hunter se tornou emblemático. Um blockbuster que fez enorme sucesso quando do seu lançamento, detentor de cenas belíssimas e, certamente, da melhor transposição da passagem do Sermão da Montanha de que se tem notícia. Quando garoto, era atração certa na Sessão da Tarde da sexta-feira da Paixão. A trilha sonora é linda e, se você é religioso, este filme é mais do que obrigatório. E se você não é, o longa é obrigatório. Imperdível!

Bons filmes e uma boa Páscoa a todos!



terça-feira, 19 de abril de 2011

Trilha Sonora #16


Roberto Carlos, maior ídolo da música brasileira, está completando 70 anos hoje, 19 de abril. Roberto protagonizou 3 filmes em sua carreira. Um deles, "Em Ritmo de Aventura", possui uma trilha sonora que se constitui um dos seus melhores discos. Abaixo, como exemplo do repertório da trilha, segue a simbólica, famosa e inesquecível "Como é Grande o Meu Amor Por Você". Som na caixa e parabéns ao Rei!

P.S. Sandra, minha linda, essa é pra você! :=)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva

Orfeu Negro


Entre a poesia e o exotismo



Ao longo dos anos, “Orfeu Negro” vem sendo alvo tanto de admiração por boa parte de críticos e cinéfilos ao redor do mundo, quanto de severos ataques em terras brasileiras. Dirigido por Marcel Camus e lançado em 1959, recendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro (que servem até como exemplo de sua repercussão extremamente positiva no meio internacional), o longa-metragem franco-ítalo-brasileiro apresenta, curiosamente, características que podem dar razão aos dois lados da moeda.

Adaptado da peça “Orfeu da Conceição”, escrita por Vinícius de Moraes, a narrativa transpõe o mito grego de Orfeu e Eurídice para os morros do Rio de Janeiro, procurando realçar os elementos da cultura brasileira. O roteiro nos apresenta o Orfeu brasileiro (interpretado pelo também jogador de futebol Breno Mello) como um condutor de bondes que mora no morro da Babilônia. Seu talento musical incomum possui fama nas redondezas e muitos dizem que ele é capaz de fazer o sol se levantar ao tocar seu violão. Prima de uma de suas vizinhas, a recatada Eurídice (a norte-americana Marpessa Dawn) vem do interior para passar os dias da festa de Momo na casa de sua parenta. Os dois vivem, então, de maneira meteórica, uma paixão de contornos trágicos.

Convém sublinhar, antes de tudo, que se trata de um olhar estrangeiro sobre a nossa cultura, o que necessariamente trará uma perspectiva diferente da que temos de nós mesmos. Natural, por conseguinte, que muito do que é mostrado seja visto como estereotipado pelos brasileiros. O que, ao menos em parte, é verdade. Ao escolher o carnaval como época do ano para a transposição do mito, transmite-se a ideia de que o Brasil vive em uma eterna festa, principalmente quando se atenta para o fato de que praticamente durante toda a projeção há sempre um batuque de samba ao fundo e gente dançando quase sem parar. A percepção de Camus se avizinha, em uma observação mais detida, da visão romântica do “bom selvagem”. Ou seja, ele parece ver os moradores do morro como pessoas de bom coração, felizes por terem o samba no pé e a bela paisagem do Rio de Janeiro para admirar, apesar de sua considerável pobreza material. Ingenuidade talvez seja a melhor palavra para descrever tal perspectiva e ela foi em muito responsável pelos ataques que o filme sofreu por parte da intelectualidade brasileira, a qual acusava também Camus de fugir deliberadamente das críticas e observações sociais presentes na obra dramática de Vinícius. “Orfeu Negro” se apresentaria, por conseguinte, como uma obra inautêntica, tanto por fugir da realidade do povo do Rio de Janeiro, quanto por se distanciar em demasia da matéria-prima que lhe deu origem. Até mesmo Jean-Luc Godard apontou esta inautenticidade em um dos seus escritos na famosa “Cahiérs Du Cinema”, afirmando que o filme possuía um “exotismo cartão-postal”. Décadas depois, o hoje presidente dos Estados Unidos Barack Obama também denunciou este aspecto ao mencionar, em sua autobiografia, que sua mãe, Ann Dunhan, se apaixonou por seu pai, um queniano estudante nos EUA, pouco depois de assistir a “Orfeu Negro” (mostrando que a mesma, provavelmente, passara a ter uma visão romântica e idealizada sobre o Brasil e os brasileiros e, por extensão, sobre a África).



Por outro lado, não se pode negar que, a despeito de sua inautenticidade, o longa-metragem possui momentos de admirável beleza. Seu início mostra uma pipa erguida por um garoto no alto do morro, cena esta sublinhada por “A Felicidade”, canção icônica da Bossa Nova (de autoria de Tom Jobim e Vinícius de Moraes) cujos versos mencionam que a felicidade “é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar”, pluma esta que, para manter-se voando, “precisa que haja vento sem parar”. Uma metáfora perfeita da alegria que teriam Orfeu e Eurídice durante os poucos dias do Carnaval. A festa, por si só, momento de euforia de toda uma nação, já é posta como representação do efêmero. A “grande ilusão” que acaba na quarta-feira. Ademais, não se pode negar a ousadia de Camus em utilizar, ainda nos 50, um elenco quase inteiramente negro na produção. Contudo, muitos ainda criticam o filme mesmo em tais aspectos, argumentando que a poesia viria de Vinícius de Moraes e não de Marcel Camus ou do roteirista Jacques Viot (em parceria com o próprio Camus). Esta, todavia, é uma crítica que beira o sofisma, já que, desta forma, seríamos levados a enxergar com maus olhos toda película com origem na literatura, pois que suas virtudes passariam inevitavelmente pelos méritos do escritor.

Adentrando em questões mais técnicas, é importante frisar a qualidade da fotografia de Jean Bourgoin, muito embora se saiba que filmar o Rio de Janeiro é muito fácil. Já as interpretações oscilam constantemente. Herdeiro do neo-realismo, Camus usou vários amadores nas filmagens e o resultado é marcadamente inconstante. A começar pelo próprio protagonista, Breno Mello. Este foi seu primeiro trabalho cinematográfico, migrando do futebol para a arte interpretativa, o que naturalmente gera limitações no seu desempenho. Marpessa Dawn, uma atriz profissional, se sai melhor, obviamente, mas quem acaba roubando a cena é o elenco infantil, com suas crianças simpáticas e cheias de samba no pé (curiosidade: o intérprete da Morte que persegue Eurídice é o bi-campeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva). A trilha sonora, então, pode ser considerada uma história à parte. Permeada pelas canções de Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Luiz Bonfá (é dele a belíssima “Manhã de Carnaval) e Antônio Maria, o filme serviu de trampolim internacional para a Bossa Nova, sendo um dos responsáveis pelo sucesso global que o gênero alcançou.

Constituindo ou não um clássico da “macumba para turistas”, “Orfeu Negro” meio que se tornou um filme obrigatório para os cinéfilos brasileiros, sendo importante salientar que ele, de certa forma, abriu terreno para que o excelente “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, viesse a ser premiado em Cannes alguns anos depois. Faz-se interessante até mesmo contrapô-lo ao recente “Rio”, outra produção que está destinada a ser vista ao longo dos anos vindouros como mais um exemplo do “exotismo cartão-postal” denunciado por Godard, só que aqui dirigido por um brasileiro a serviço de Hollywood. De qualquer forma, em ambos os casos os resultados são palatáveis ao grande público. Dois bons filmes cujos méritos acabam sendo ofuscados por nosso complexo de inferioridade (ou de “vira-latas”, como batizado por Nelson Rodrigues), o qual não permite qualquer perspectiva que nos aproxime de possíveis estereótipos. Curiosamente, Camus jamais viria a obter o mesmo respeito e sucesso com seus trabalhos posteriores. Será que algum brasileiro irritado fez alguma macumba para amaldiçoar o pobre diretor? Acredito que o cineasta não mereceria isso. O máximo de que ele pode realmente ser acusado é de não ter entendido a nossa cultura.

Cotação:

Nota: 8,0

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sidney Lumet : 1924- 2011


No último sábado, 09 de abril, perdemos Sidney Lumet, um diretor excepcional e que foi injustiçado na mesma proporção. Mesmo com dois dias de atraso, o Cinema Com Pimenta presta aqui sua h0menagem a este grande cineasta. Sempre que lembro de Lumet, dois filmes logo me vêm à mente. No video logo abaixo, você confere a recomendação do crítico Marcelo Janot para o longa "12 Homens e Uma Sentença", o primeiro de Lumet, iniciando sua carreira com uma autêntica obra-prima.




E a seguir, veja o trailer de "Um Dia de Cão" (cuja resenha você pode conferir aqui), uma obra febril e impactante que se tornou uma das referências da "Nova Hollywood". Por sinal, Al Pacino em estado de graça!




Ao saber da morte de Lumet, disse Woody Allen: "conhecendo Sidney, ele terá mais energia morto do que a maioria dos vivos." Que Deus o receba em paz e que lhe faça a devida justiça, Sidney Lumet!

sábado, 9 de abril de 2011

Rio



Nossas contradições


Nós, brasileiros, costumamos nos entusiasmar e enaltecer nossos compatriotas que alcançam destaque internacional, seja no esporte, na música, na literatura, nas ciências naturais ou, como no caso de que trata este texto, no cinema. O carioca Carlos Saldanha, um dos grandes diretores da área de animação na Hollywood atual, é hoje o espelho para os nossos cineastas ao lado de nomes como Fernando Meirelles e Walter Sales, encarnando esse nosso desejo de aceitação pelos mais “ricos” ou “desenvolvidos”. Um sentimento, vale dizer, herdado da nossa condição de colônia e que insiste em se perpetuar (realmente, aspectos culturais de uma nação são muito difíceis de mudar). Em seu novo trabalho, Saldanha, de uma certa forma, não foge dessa necessidade de aceitação. “Rio”, a aventura de uma arara azul pela Cidade Maravilhosa, possui aqueles elementos que muitos poderiam classificar como “Brasil pra gringo ver”. Estão lá o carnaval, as praias, o samba, nossa fauna e flora. E também as favelas e a criminalidade, já que estas passaram a fazer parte do imaginário estrangeiro sobre nossa terra desde “Cidade de Deus”.

Mas é interessante que, mesmo trabalhando a partir de estereótipos, o diretor consegue construir um todo que foge da caricatura, obtendo um resultado positivo com relação à imagem de nosso país ao mesmo tempo em que não se esquece de abordar alguns de nossos sérios problemas. A começar pelo motor da trama: o tráfico de animais silvestres. É devido a ele que a pequenina arara azul Blu (voz de Jesse Eisenberg no original) vai parar no estado norte-americano e friorento de Minnesota, onde acaba sendo criado pela tímida Linda (Leslie Mann) ao longo de muitos anos. Devido à proteção e à distância de seu habitat natural, Blu acaba por não desenvolver uma das principais características de um pássaro: ele não sabe voar. Sua vida confortável, entretanto, é abalada pela chegada de Túlio (voz de Rodrigo Santoro), um pesquisador brasileiro que vê em Blu a chance de salvar a espécie da araras azuis por meio de seu acasalamento com a fêmea Jade (voz da atual queridinha de Hollywood Anne Hathaway). Blu e Linda partem, então, para o Rio de Janeiro, onde Blu deverá acasalar-se com Jade. O casal de araras, contudo, acaba sequestrado por traficantes de aves e, em seguida, vivendo uma série de peripécias ao lado de outras aves nacionais, como um tucano, um canário e um galo-de-campina. Nota-se, durante a projeção, que há uma preocupação em expor nossas contradições sociais, como no contraste de imagens que mostram a favela em contraposição à belíssima paisagem da metrópole que se avizinha mais abaixo. Ademais, o personagem de um garoto favelado está ali posto para não nos esquecermos que a pobreza é, em boa parte, responsável pela criminalidade.

À parte a exposição de nossa terra, percebe-se que a trama (com roteiro de Don Rhymer) se desenvolve como o amadurecimento de um filho muito protegido que precisa encontrar seus próprios caminhos. Não há metáfora mais clara para tanto do que um pássaro que precisa aprender a voar, embora acredite que não consegue. Na realidade, Blu estava acomodado em um ambiente de conforto e proteção e tem de passar pelo processo de amadurecimento, de deixar o lar “materno” para construir o seu próprio. Claro que tudo isso de forma leve e recheada de humor. Saldanha, como demonstrou na série “A Era do Gelo”, é um mestre nas gags e há várias em “Rio” que desmontarão mesmo o mais ranzinza dos espectadores. O mais interessante neste ponto é que o diretor soube se utilizar de elementos típicos da cultura brasileira para fazer soltar as risadas, como nossa paixão por futebol e até mesmo o desfile das escolas de samba na Sapucaí. Saldanha sabe usar, ainda, referências cinematográficas, como a ideia de Blu e Jade andarem acorrentados, remetendo a “Os 39 Degraus”, um dos filmes da fase inglesa de Alfred Hitchcock. Ademais, a animação tem uma belíssima “fotografia” do Rio de Janeiro, não deixando em nada a dever às paisagens que, sabemos, são tão ou até mais bonitas que na tela. A trilha sonora também sabe explorar várias nuances de nossa música, passando por samba, bossa nova e até mesmo o funk, muito embora a utilização de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes (que fez parte da equipe musical do longa), em determinada sequência, tenha caído no banal. Todavia, certos buracos no roteiro incomodam. Embora a mencionada cena dos desfiles na Sapucaí seja muito bem realizada em termos técnicos, ela se encaixa muito mal no desenvolvimento do roteiro, perecendo que foi colocada a fórceps porque havia a necessidade de inseri-la em qualquer parte da trama. Da mesma maneira, o desfecho do longa soa apressado e contando com uma espécie de videoclipe de propaganda do Rio de Janeiro.

“Rio” tem lançamento com recorde em número de salas no Brasil (1008, mais precisamente) e a Fox gastou cerca de 74 milhões de dólares com o marketing do filme em todo o mundo. Isso revela um pouco da importância que o País vem assumindo tanto como mercado consumidor como quanto expoente cultural. “O Brasil está na moda”, dirão alguns, o que não deixa de ser verdade. Basta acompanharmos o noticiário não só nosso como do exterior para percebermos que não somos mais vistos com um “vira-latas” entre as nações (há pouco tempo uma propaganda republicana contra Barack Obama colocou o Brasil entre os maiores credores dos EUA, só para ter uma noção). Resta a nós mesmos nos livrarmos dessa síndrome. O filme de Carlos Saldanha se situa, nesse contexto, a um meio termo. O diretor reflete que temos orgulho de nosso país, mesmo com os seus problemas, mas ainda sentimos necessidade de mostrar um Brasil para os gringos verem. E isso, observem bem o paradoxo, por meio de um dos maiores estúdios do cinema norte-americano. E lá vamos nós, lotar os cinemas para ver o Brasil da Fox. Mesmo que merecidamente (afinal, o longa é mesmo divertido e apto a agradar toda a família), tal circunstância acaba se colocando como mais um exemplo de nossas velhas contradições.


Cotação:

Nota: 8,5

quarta-feira, 6 de abril de 2011

As Mães de Chico Xavier



Emoção e espiritismo


Hollywood sempre soube se aproveitar de segmentos de marcado que se mostram especialmente rentáveis. Citando um exemplo recente, o gênero dos super-heróis tem provocado uma enxurrada de blockbusters aptos a saciar o público adolescente masculino, um voraz consumidor de qualquer coisa que envolva seus personagens mais queridos. O cinema brasileiro não vem agindo diferente e é natural que assim seja. Afinal, boa parcela de nosso mercado ainda desconfia da qualidade dos produtos de nossa indústria cinematográfica. Uma demonstração recente foi a invasão dos filmes favela-mundo cão, nos rastro do sucesso de público e crítica “Cidade de Deus”. Agora, estamos vendo o segmento dos filmes espíritas conquistar uma fatia considerável do mercado. Possui um público fiel, uma vez que o Brasil é o maior país espírita do mundo, além de ter a simpatia de outras parcelas da população, já que mesmo os católicos praticantes muitas vezes possuem um pé na crença espírita. Por outro lado, também se torna inevitável que os resultados artísticos de tantos filmes com abordagem de temáticas similares oscilem. Assim, se fomos brindados com o ótimo “Chico Xavier”, de Daniel Filho, também tivemos o apenas mediano “Nosso Lar”. Mediano talvez seja a melhor maneira de designar este “As Mães de Chico Xavier”, em cartaz nacional desde a última sexta-feira, 01 de abril.

Dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes, os mesmos de “Bezerra de Menezes” (o precursor do gênero espírita na Terra Brasilis), o roteiro trabalha com três narrativas paralelas (e que são baseadas em fatos reais e no livro "Por trás do Véu de Ísis", de Marcel Souto Maior). Duas delas mostram a difícil aceitação da perda por parte de pais que perderam seus filhos, enquanto outra trata de uma jovem grávida que está pensando em realizar um aborto. Interessante perceber que, no caso deste longa-metragem, a oscilação ocorre dentro de sua própria estrutura. Enquanto a trama dos pais Mário e Ruth (interpretados por Herson Capri e Via Negromonte) que têm um filho, Raul (Daniel Dias) vítima das drogas é bem contada, a da grávida Lara (papel de Tainá Müller) tem alguns furos e sua resolução se coloca muito apressada, meio que para entrar logo em sintonia com as demais. Já a narrativa dos pais Elisa e Guilherme, vividos por Vanessa Gerbelli e Joelson Medeiros, transcorre muito lenta, chegando a dar a impressão, por vezes, de que nada vai acontecer. Contudo, a despeito de suas falhas, o roteiro consegue um envolvimento emocional muito eficiente, principalmente no último terço da projeção. Neste ponto, mostra-se mais eficaz do que seu referido antecessor “Nosso Lar”, este último um longa que sempre me parece emocionalmente pálido. Em tal aspecto, o único pecado de “As Mães de Chico Xavier” é sua equivocada trilha sonora. Nada contra as composições de Flávio Venturini, mas elas foram mal selecionadas e mal encaixadas na projeção. Em diversos momentos, as músicas se tornam um elemento desnecessário às cenas, que já são suficientemente tristes, e sua inclusão acaba por gerar momentos excessivamente piegas.

Se o drama ainda funciona, a despeito dos defeitos apontados, é por virtude do elenco. Todo ele se encontra uniforme e ninguém descamba para a canastrice. Mas é claro que Nelson Xavier mais uma vez alcança destaque. Tal como o cinema norte-americano imortalizou a imagem de determinados personagens por meio da figura de alguns atores (como no exemplo clássico do Super-Homem encarnado por Christopher Reeve), a produção nacional está se encarregando de transformar Nelson na encarnação (com perdão do trocadilho) de Chico Xavier nas telonas, até mesmo pela sua semelhança física com o famoso médium.

Alguns poderão apontar o posicionamento religioso do longa, com estampada mensagem anti-aborto, como um sério problema, mas não vejo dessa forma. Qualquer cineasta, seja ele qual for, tem direito de expressar sua visão sobre determinado tema em sua obra, seja ela política, social, econômica ou mesmo religiosa. Seria o mesmo que dizer que “O Triunfo da Vontade”, o célebre documentário de Leni Riefenstahl, é um filme ruim por enaltecer o nazismo. Desta forma, os diretores não incorrem em qualquer erro ao defender suas posições e, se você não concorda, paciência, vivemos em uma democracia e todas as posições devem ser respeitadas. Ademais, esta película consegue se tornar bem mais palatável ao público não adepto da doutrina espírita do que seu antecessor “Nosso Lar” e, se não alcança o mesmo resultado artístico de “Chico Xavier”, ao menos constitui uma experiência cinematográfica com substância e que deve agradar tanto aos doutrinados quanto aos que buscam um drama comovente para assistir na sala escura.


Obs. Eu não sou espírita.


Cotação:

Nota: 7,5

quinta-feira, 31 de março de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Esta semana tivemos a estreia de "Sucker Punch - Mundo Surreal" no circuito, o novo longa do diretor Zack Snyder. Não vi o filme, mas, tomando como base a média de avaliações do site "Rotten Tomatoes" , parece ser uma verdadeira bomba. Entretanto, embora não seja nenhuma obra de arte, o longa abaixo mostra que Snyder tem potencial. A crítica a seguir foi escrita quando do seu lançamento no Brasil, em 2007, e permanecia inédita no blog.



300
(300)


Adaptação estilo “videogame” funciona


Antes de tudo, convém pontuar que “300” é um espetáculo para as massas. Cada fotograma tem a nítida intenção de fazer o público vibrar, pular mesmo nas cadeiras das salas de exibição. E, neste aspecto, o filme consegue atingir seu objetivo. “300”, longa de Zack Snyder (o mesmo de “Madrugada dos Mortos”) baseado na HQ de Frank Miller e Lynn Varley, é um espetáculo visual atordoante. Muitas de suas cenas parecem verdadeiras pinturas dignas de um grande artista. Seu ritmo é vibrante e envolve bastante o espectador.

Narrando o episódio histórico-lendário em que cerca de 7.000 soldados gregos enfrentaram 250 000 homens do exército persa (segundo alguns historiadores talvez o número alcançasse pelo menos o dobro disto), sendo os primeiros capitaneados pelo espartano Leônidas e mais 300 guerreiros da elite do exército de Esparta, o filme se mostra muito fiel à Graphic Novell (um dos grandes trabalhos de Miller), sendo que várias de suas imagens são transposições literais da mesma. Ser fiel aos quadrinhos significa dar ênfase ao aspecto lendário do episódio, à bravura dos espartanos, não se importando muito com as questões políticas da época. Todavia, não deixa de retratar certos costumes de Esparta, como aquele de descartar as crianças fisicamente imperfeitas, ou a criação dos filhos, a partir dos 7 anos, pelo próprio Estado, preparando-os desde cedo para a guerra.

E neste ponto cabe uma digressão: já percebi que alguns críticos taxaram o filme de “moralmente reprovável”, acusando-o de machista, de desrespeito às minorias, de preconceito contra os homossexuais etc. Para começo de conversa: não cabe a um crítico de cinema ser a palmatória do mundo, querendo taxar tal filme como “imoral”, socialmente inadequado ou coisas do gênero. Sua função é analisar a obra e mostrar se é boa ou não. O resto é moralismo, opiniões ideológicas, o que seja, mas não é crítica. E também é pertinente questionar: eles então queriam que os espartanos fossem politicamente corretos? Ora, esses costumes (eliminação de deficientes, belicismo etc) são mostrados em qualquer livro de História que trate da sociedade espartana. Seria no mínimo risível, portanto, se a obra procurasse mostrá-la de uma forma mais adequada ao nosso politicamente correto. Por outro lado: o filme não tem nada de machista, pelo contrário. O personagem da rainha Gorgo teve sua participação consideravelmente ampliada nas telas (ela quase não aparece na HQ), mostrando-se uma mulher forte, inteligente, respeitada por todos e amada pelo seu esposo Leônidas. O fato de a obra enaltecer a virilidade não a torna machista. Os dois conceitos não se confundem. Seria o mesmo que afirmar que “Orgulho e Preconceito” ou “Razão e Sensibilidade” são filmes feministas. Não são. São filmes femininos por excelência, mas não são feministas.

De outra parte, li comentários afirmando que “300” representa uma espécie de “revolução” no cinema, principalmente no gênero épico. Essa afirmação soa um tanto quanto exagerada. Na realidade, “300” mostra-se extremamente influenciado por “Gladiador”, de Ridley Scott, este sim um filme que estabeleceu um novo padrão para o gênero (certas seqüências, e vocês perceberão quais ao assistir, lembram muito o vencedor do Oscar). Mesmo a utilização de ambientações totalmente modeladas por computador não são novidade no cinema (vide “Sin City”, também adaptado de Miller, e “Capitão Sky”). Talvez, sua inovação seja o ritmo “videogame” que permeia o longa e principalmente as cenas de ação. Mas não vejo isso como algo tão inovador assim, pois acaba deixando certas cenas esteticamente bonitas, mas um tanto quanto vazias, um pouco sem emoção... Ou melhor, de forma paradoxal, apelam tanto para o sensacionalismo dos games, que acabam perdendo a emoção.



Aliás, o sensacionalismo é um dos pontos fracos do filme. Todas as cenas têm de parecer grandiosas. Até mesmo o fincar de uma lança no chão gera um efeito sonoro gigantesco, como se aquela lança ali posta tivesse uma importância enorme para o desenrolar da narrativa. Esse sensacionalismo exagerado chega mesmo a incomodar, deixando a obra com um caráter por vezes pueril. Outro ponto fraco é o roteiro, que traz algumas alterações com relação à HQ (para dar um ar mais cinematográfico à trama). Alguns elementos desnecessários são inseridos, como a cena de sexo envolvendo Leônidas e Gorgo, que parce estar ali só para mostrar que o rei de Esparta é “macho”, gosta muito de mulher e "manda" muito bem...

Quanto às atuações: Gerard Butler parece se envolver no tom sensacionalista geral do longa e acaba fazendo um discurso de campanha política a cada aparição. O personagem é mais contido na HQ e lembra bem mais o Maximus de Russel Crowe (no citado Gladiador). Lena Headey, que interpreta Gorgo, está correta. E os demais não têm muito o que fazer. Ei, calma, não esqueci o Rodrigo Santoro: fica difícil avaliar sua atuação como o rei dos persas Xerxes debaixo de tanta maquiagem, alterações digitais e, principalmente, da alteração digital da sua voz (ficou bem cavernosa!).

Para terminar, algumas observações finais:

Não vejo qualquer relação do filme com o momento político atual. Os realizadores tinham apenas a intenção de adaptar a graphic novell e ponto final. Aliás, Bush é covarde demais para se comparar a reis como Leônidas e Xerxes, que acompanhavam seus soldados ao campo de batalha (no caso de Leônidas, ele não só acompanhava como também lutava junto com seus soldados). Outra: o filme vem sendo taxado de “homo-erótico” devido ao fato de que os espartanos passam a projeção inteira sem camisa, com seus corpos bem definidos. Não creio que tenha sido a intenção de Snyder realizar algo para atrair a platéia homossexual para o cinema. A verdade é que na obra de Miller os espartanos são representados desta forma e o filme foi simplesmente fiel a ela.

Todavia, creio que os pontos fortes de “300” superam suas falhas. Trata-se de um longa capaz de agradar à maioria da platéia (mesmo à meninas) e seria bom que todos os blockbusters tivessem tal padrão de qualidade. A verdade é que, mesmo sabendo que as façanhas dos espartanos foram elevadas ao caráter lendário durante a projeção, é de se admirar a coragem daqueles homens, que chega mesmo a ser inspiradora (tanto que serviu realmente de inspiração aos demais gregos, que a partir deste evento resistiram ao invasor persa).

Confiram!!!

Cotação:

Nota: 8,5


terça-feira, 29 de março de 2011

Valeu, Zé!


Pausa no cinema.

Esta imagem logo acima simboliza como poucas quem foi José Alencar Gomes da Silva. Mesmo diante de um inimigo que lhe fez passar por 17 cirurgias, ele encontrou forças para continuar na luta pelo que acreditava. Obrigado, Zé! Você foi um herói! Que Deus o receba com Sua paz!

domingo, 27 de março de 2011

Capitão América: primeiro trailer

Durante muitos anos, fui um aficcionado em quadrinhos. Hoje, estou distante da chamada "9ª arte". Não tenho mais paciência para as tramas novelísticas de Marvel e DC, que exigem anos de bagagem cronológica acumulada, e as HQs que fogem ao universo de super-heróis normalmente têm preços proibitivos. De qualquer forma, sempre acaba surgindo um certo entusiasmo quando vejo trailers que prometem uma boa adaptação dos personagens dos quadrinhos para as telas, mesmo com o cansaço no qual o gênero está caindo. É o caso deste "Capitão América - O Primeiro Vingador", com estreia prevista para 29 de julho. Pelas cenas que você pode ver logo abaixo, o longa promete! A conferir!


quarta-feira, 23 de março de 2011

Elizabeth Taylor: 1932 - 2011


Acredito que não seria sequer necessário mencionar o nome da possuidora dos impressionantes olhos acima fotografada. Afinal, não é preciso ser cinéfilo para saber que Elizabeth Taylor foi uma das maiores estrelas do cinema em todos os tempos. A esta altura, todos já estão sabendo do seu falecimento e seria redundante escrever aqui sobre sua carreira, seus vários problemas de saúde, além de sua turbulenta vida amorosa, onde colecionou 8 casamentos, sendo que dois deles com o mesmo marido, Richard Burton. Curioso que, há poucos dias, durante o carnaval, vi "A Megera Domada", adaptação da obra de Shakespeare para o cinema sob a direção de Franco Zefirelli. No filme, bastante divertido, temos o referido casal contracenando em cenas impagáveis, como você pode conferir na sequência abaixo.




Entretanto, sempre que lembro de Liz Taylor não me deixa de vir à mente o soberbo "Um Lugar Ao Sol", uma obra-prima dirigida por George Stevens na qual ela contracena com Montgomery Clift. Um filme belíssimo que possivelmente figura no meu top 10 de melhores de todos os tempos. Então com apenas 17 anos, ela já demonstrava que se transformaria em uma estrela como poucas. Veja a cena a seguir (com legendas).





Por fim, apesar do filme não ser lá essas coisas, não se pode pensar na atriz sem lembrar de sua atuação em "Cleópatra" (trailer abaixo), fechando essa singela homenagem do "Cinema Com Pimenta" à diva dos inesquecíveis olhos cor de violeta.




terça-feira, 22 de março de 2011

Quero Ver Novamente #11

Atire a primeira pedra aquele(a) que não gosta de "Grease"... Divertidíssimo! E como faz tempo que não vejo esse filme! Abaixo, a sequência de "Summer Nights", uma das canções mais lembradas do longa!

domingo, 20 de março de 2011

Rango


Western Spaghetti animado


O tempo passa e cada vez mais demonstra o tamanho da influência que um certo cineasta italiano exerceu e ainda exerce sobre o imaginário do cinema hollywoodiano e mundial, por extensão. Nos anos 60, o diretor Sergio Leone reinventou o gênero western com a trilogia do “Homem Sem Nome”, protagonizada por um ator que mais tarde se transformaria em uma lenda da sétima arte: Clint Eastwood. Ao longo dos anos, vários foram os outros cineastas que prestaram tributo em suas obras aos filmes seminais de Leone, sendo Quentin Tarantino o exemplo mais forte dessa vertente.

Talvez inspirado por Tarantino, Gore Verbinski também resolveu prestar sua homenagem ao western spaghetti com “Rango”, primeira incursão tanto do diretor quanto do estúdio Paramount no terreno das animações. Anteriormente, Verbinski já mostrava afinidade em trabalhar no universo das “aventuras de época”, tendo em vista o sucesso da franquia “Piratas do Caribe”, comandada pelo mesmo (o que inclusive explica a escolha de Johnny Depp para a voz do protagonista na versão original em inglês). E não seria de estranhar que também obtivesse sucesso no mundo animado, já que sempre demonstrou trabalhar bem o lado do humor nos seus longas, cheios de tiradas espirituosas e gags criativas que nunca resvalam no mau gosto. Este “Rango”, é bom ressaltar, não foge à regra.

Divertido e inteligente, sua premissa demonstra uma originalidade incomum na mesmice do cinema norte-americano atual. A narrativa mostra a saga de um camaleão que vive em um aquário de família, ensaiando com seus amigos inanimados (um peixinho de plástico, um busto de boneca, um inseto morto e um coqueiro artificial) no sonho de um dia se tornar um grande ator. Devido a um acidente, ele é jogado pra fora do automóvel em que a família viaja, vendo-se assim às margens de uma auto-estrada e diante de um imenso deserto. Mais tarde, acaba chegando à cidade de Poeira, onde acaba se tornando o xerife local após a população acreditar em sua persona inventada de grande pistoleiro que veio do Oeste. O maior problema de Poeira é a escassez de água, cuja quantidade restante fica depositada no banco local, e seus habitantes começam a ver no forasteiro uma espécie de messias que trará de volta o precioso líquido para a região.

É interessante perceber como Hollywood vem se tornando politizada, fazendo críticas abertas ao sistema até mesmo em animações. Não só banqueiros como governantes são diretamente criticados ao longo da trama e esta também não deixa de servir de alerta ambiental, já que, obviamente, a escolha da água como bem escasso e essencial como mote do seu desenrolar não pode ser à toa. Contudo, não se pode negar que o foco de “Rango” (o nome adotado pelo herói acaba sendo uma homenagem tanto a Durango Kid, cowboy de cine-série da Columbia nos anos 40, quanto a “Django”, filme e personagem imortalizado por Franco Nero) é mesmo a jornada do herói sem passado, o “homem sem nome” imortalizado por Eastwood, como acima mencionado. Assim, nada mais adequado, para tanto, que a figura de um camaleão para representar alguém sem identidade definida. A busca dessa identidade é que se torna a grande saga de Rango e o leva a se encontrar com o Espírito do Oeste em busca de uma resposta (representado por uma versão animada do próprio Clint Eastwood, o qual foi convidado para fazer sua voz, mas acabou recusando a proposta).

Toda a narrativa, por sinal, é pontuada por uma série de referências a clássicos do cinema como “Apocalypse Now”, passando por “A Felicidade Não Se Compra” e chegando até mesmo a (pasmem) “Morangos Silvestres”. Entretanto, embora faça a festa dos cinéfilos, tais recursos acabam por trazer um possível hermetismo ao filme, já que a maior parte dos espectadores não perceberá as referências e muito menos os pequenos, os quais sempre serão consumidores das animações, por mais que estas estejam cada vez mais repletas de elementos para o público adulto. Por outro lado, o roteiro (escrito por John Logan, James Ward Byrkit e o próprio Gore Verbinski) se desenvolve muito bem em seu início, com uma ótima apresentação de personagens, cada um com suas características pitorescas, como Feijão, a lagarta que acaba se tornado o interesse romântico do herói. Todavia, acaba por pecar em seu desfecho, o qual se torna apressado, deixando no ar a explicação para alguns acontecimentos do fim da trama (muito embora possua uma sequência final de créditos excelente).

Talvez o grande problema de “Rango” seja justamente o fato de se limitar a ser uma homenagem a um gênero, o que retira uma boa parcela de sua originalidade e o deixa previsível em muitos pontos. Assim, o que era para ser diferente acaba se tornando clichê e o filme, que poderia até se tornar memorável, acaba sendo uma ótima diversão, mas tão somente isso. Verbinski acaba por abdicar da originalidade para se colocar apenas numa posição de reverência. Assim, o sabor diferente da primeira metade do longa transmuda-se, ao seu final, em uma considerável sensação de dejá vu. Em consequência , “Rango” se coloca tão somente como um bom e divertido western spaghetti, só que desta vez animado.


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 17 de março de 2011

Eu Quero Esse Pôster #13




Você já viu algum poster semelhante a este logo acima? Os responsáveis pela arte promocional de "Johnny & June" (Walk The Line) alcançaram um resultado único!

sábado, 12 de março de 2011

Inverno da Alma



Sobre coragem e convicções


Curioso que, entre os filmes indicados ao prêmio máximo da Academia de Hollywood este ano, dois deles tenham uma premissa similar, embora não idêntica. “Bravura Indômita”, dos irmãos Joel e Ethan Coen, narra a trajetória de uma adolescente em busca de vingança pela morte de seu pai, assassinado por um bandoleiro, enfrentando um ambiente hostil e violento que retrata muito das entranhas da nação norte-americana. “Inverno da Alma”, longa dirigido por Debra Granik (em seu segundo longa-metragem), também tem o ponto de partida em uma garota que, vivendo em um ambiente hostil dos rincões ianques, busca não uma vendeta, mas encontrar o pai desaparecido há dias para que, obtendo sucesso, consiga salvar a residência da família das mãos de credores hipotecários. A semelhança chega até mesmo às surpresas do elenco. Se no filme dos irmãos Coen tivemos o destaque para a novata Hailee Steinfeld no papel principal (sua indicação ao Oscar como coadjuvante soa bastante estranha), a desconhecida Jennifer Lawrence, como a protagonista Ree em “Inverno da Alma” também se mostra uma grata revelação. Ambas têm enorme sucesso ao interpretar meninas fortes que têm de superar o medo e enormes adversidades para alcançar seus respectivos objetivos.

Entretanto, as semelhanças param por aí. Se o filme dos Coen se desenvolve como um típico western comercial (o mais comercial dos longas dos irmãos cineastas), com desenvolvimento da trama e caracterização dos personagens aptos a agradar ao grande público, o filme de Debra Granik se desenrola em um ritmo típico de produções independentes destinadas a circuitos mais alternativos, embora flertando com o suspense concomitantemente. Seus personagens e circunstâncias são apresentados lentamente e sem qualquer sensacionalismo que invoque a empatia imediata do espectador. Vamos descobrindo, assim, que Ree tem uma mãe com problemas mentais e dois irmãos mais novos dos quais tem de cuidar, já que seu pai está envolvido com o tráfico de drogas na região. Ambientado nas montanhas Ozark, no estado do Missouri, a atmosfera densa logo preenche o roteiro (baseado em romance de Daniel Woodrell) e percebemos que a comunidade na qual Ree está inserida, boa parte delas formada por parentes próximos ou distantes, lhe oferece pouco acolhimento.

É neste ponto que o longa fisga o espectador. É difícil não se sensibilizar com a via crucis de uma garota de 17 anos para salvar o próprio lar, sofrendo ameaças de pessoas das quais seria de esperar ao menos uma mão estendida. Nesse aspecto, vale frisar que o longa chega a flertar com o noir, tendo em vista a dubiedade presente em quase todos as personagens, à exceção da protagonista. É aqui que, com já frisado acima, que se sobressai a atuação de Lawrence, talentosíssima em sua juventude. Impressionante como ela utiliza de poucas expressões (quando seria de se esperar até caretas de colegas menos talentosas) para transparecer emoções, externando sentimentos como medo, revolta, solidão e desesperança como grande simplicidade. Da mesma forma, John Hawkes (indicado ao Oscar como coadjuvante), empresta verdade ao titubeante e escorregadio tio Teardrop, um homem também dominado pelo vício, mas que não esquece seus vínculos familiares. A oposição entre essa maldita circunstância familiar e a aversão que Ree sente pela mesma é mostrada de forma contundente na sequência em que Teardrop lhe oferece droga e ela recusa peremptoriamente, afirmando que nunca provará disso.

Por outro lado, a película também funciona como um thriller policial (mais uma vez invocando o noir), trazendo tensão e dúvida em diversas passagens, principalmente em seu clímax (de arrepiar), além de possuir elementos técnicos muito bem trabalhados, como a bela e ao mesmo tempo soturna fotografia. Interessante constatar que “Winter’s Bone” poderia facilmente ganhar circuitos comerciais, fugindo do rótulo de “filme de festival” (ele recebeu prêmios tanto em Sundance quanto em Berlim). Isso talvez mostre que um cineasta não deve abandonar suas convicções (tal como Ree não foge às suas no longa), sendo que agradar ao público deve ser sempre consequência e não o objetivo de um trabalho. No fim das contas, Granik, em sua fotografia de um lado da sociedade americana, se sai mais feliz do que os Coen em sua mais recente obra, cuja nuance comercial foge às características da dupla. Um retrato sem convicção é um retrato falso. Talvez por isso “Inverno da Alma” nos atinja no coração de maneira mais contundente. Vendo o filme, não deixei de lembrar de uma certa frase de Guimarães Rosa, a qual poderia lhe servir como epígrafe: “"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."


Cotação:

Nota: 9,5

sexta-feira, 4 de março de 2011

Star Wars em 3D!?????


Eu estava em uma navegação de rotina quando me deparo com uma notícia ao mesmo tempo previsível e lamentável. George Lucas anunciou que vai converter sua série "Star Wars" para o 3D. É isso mesmo! E não será apenas a segunda trilogia, que tem valor cinematográfico e afetivo inferior à original. Sim, a trilogia clássica também passará por este processo nefasto. É deprimente ver que Lucas realmente se tornou um dinheirista capaz de desrespeitar até a própria obra. As conversões serão realizadas a partir do episódio I (aquele filme fraquinho, fraquinho), com estreia prevista para fevereiro de 2012. Bem, ao que parece, diante da ganância dos executivos, em breve teremos até "... E O Vento Levou" em 3D. Só me resta orar: "perdoai-os, Senhor, eles não sabem o que fazem"...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Impressões sobre o Oscar 2011


- James Franco e Anne Hathaway não emplacaram. O início, naquela montagem com os filmes indicados, até que foi engraçadinho, mas depois o casal caiu na banalidade. Nem tanto por culpa deles. O script estava pouco inspirado,cheio de piadas sem graça (pra variar). Não obstante, Franco não tem presença de palco e ficou quase completamente apagado. Hathaway estava nitidamente nervosa, mas ao menos soube mostrar que tem agilidade para trocar de vestidos com rapidez;

- Ainda não entendi porque não chamam Robert Downey Jr. para apresentar o Oscar. Creio que não haveria melhor escolha;

- Por sinal, apesar de enxuta, essa foi uma das cerimônias mais fracas que já vi. Faltou emoção. Aquela ideia da Academia de retirar os prêmios honorários da cerimônia, transferindo-os para um evento realizado previamente, foi muito infeliz. Normalmente, eles eram os responsáveis pelos melhores momentos, injetando emoção com um público que costuma ficar de pé para aplaudir os homenageados. Já pensou passar um filminho com os melhores momentos da carreira de Francis Ford Coppola e em seguida ele entrar triunfante e ovacionado? Pois é, a Academia deu bobeira mesmo...;

- O momento mais curioso da noite foi a entrega do prêmio de atriz coadjuvante, com a presença de Kirk Douglas aos 94 anos. Logo em seguida, Melissa Leo, em uma atitude pseudo-engraçada, começa a soltar palavrões. Ao menos fugiu da rotina...;

- Colin Firth levou o prêmio de melhor ator, mas nós brasileiros sabemos que quem merecia era Wagner Moura;

- A previsibilidade nas principais categorias foi tão grande quanto quebra de carro alegórico em desfile de escola de samba. Acredito que alguns ainda insistiram na tese de que “A Rede Social” poderia levar filme e diretor apenas para deixar a cerimônia com um certo ar de suspense, o que não aconteceu;

- Lição que mais uma vez se tira da maioria das premiações: não é bom apostar na contramão do que foi decidido pelos sindicatos;

- Quando Steven Spielberg disse que os perdedores estariam ao lado de filmaços como “Cidadão Kane” e “Touro Indomável” ele não estava se referindo a “A Rede Social”, mas ao seu “O Resgate do Soldado Ryan”, um filme muito superior ao descartável “Shakespeare Apaixonado”, o qual também era apadrinhado dos Weinstein;

- Por sinal, tem gente por aí já dizendo que essa foi uma injustiça com “A Rede Social” do mesmo quilate daquela realizada com os citados “Cidadão Kane” e “Touro Indomável”. Menos, menos...O filme de Fincher é bem bom, mas eu cito pelo menos 3 outros longas melhores do que este concorrendo na mesma noite: “Toy Story 3”, “Cisne Negro” e “A Origem”;

- Os prêmios mais justos da noite foram o de melhor animação para “Toy Story 3” e o de melhor atriz para Natalie Portman;

- Gostei do discurso de Tom Hooper: “dê atenção ao que fala sua mãe”. As mães são sempre muito sábias mesmo;

- Natalie Portman também foi muito feliz ao falar que seu maior prêmio seria trabalhar com suas concorrentes;

- “Bravura Indômita” foi o grande derrotado da noite. Não levou nada das 10 indicações;

- Aquela ideia do coral infantil é bonitinha, mas está meio démodé. Acho que se encaixaria melhor se o Oscar fosse entregue na época do Natal;

- Uma das poucas boas ideias da noite foi a de levar todos os vencedores ao palco no fim da cerimônia. Dá um tom mais festivo e fica bem, televisivamente falando.

Bom, é isso. Agora, se você já não viu todos os indicados, confira para ver se concorda ou não. Ano que vem tem mais! O Cinema com Pimenta estará de olho novamente!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Previsões para o Oscar 2011


Previsões científicas do Cinema com Pimenta para a festa do Oscar que se avizinha (e será apresentada pelo casal acima, James Franco e Anne Hathaway).

Melhor Filme: Vai dar “O Discurso do Rei”, mas o merecedor é “Toy Story 3”. Por que será que custa tanto reconhecer que o melhor filme de 2010 é uma animação?

Melhor Diretor: Tom Hooper vai levar por “O Discurso do Rei”. Ele já levou o prêmio do DGA e raramente acontece divergência entre este e o prêmio da Academia. Mas, dentre os concorrentes, eu daria o prêmio para Darren Aronofsky;

Melhor Ator: Colin Firth deve ser o escolhido e, na minha opinião, não será injusto se assim se confirmar. Como também não seria injusto se Jeff Bridges ganhasse;

Melhor Atriz: Vai dar Natalie Portman. E se você acha que não é justo é porque ainda não viu “Cisne Negro”;

Melhor Ator Coadjuvante: Vai ganhar Christian Bale e considero a opção bem justa. Por outro lado, Geoffrey Rush está ótimo em “O Discurso do Rei” e também seria plausível que ele levasse;

Melhor Atriz Coadjuvante: Quem deve segurar a estatueta é Melissa Leo, mas eu daria o prêmio para Hailee Steinfeld, a garota de “Bravura Indômita”. Hailee, inclusive, deveria estar indicada como melhor atriz e não como coadjuvante;

Melhor Roteiro Original: Acho que esse vai ser o prêmio de consolação de “A Origem”, muito embora “O Discurso do Rei” tenha grandes possibilidades. Se dependesse de mim, ficaria com “A Origem” mesmo;

Melhor Roteiro Adaptado: Quem vai ganhar é “A Rede Social” e, nesta categoria, é muito justo que o prêmio vá para ele. Não é fácil transformar uma história de nerds ligados a micros em algo interessante de ser ver na tela;

Melhor Animação: Esse é o prêmio que Toy Story 3 vai levar pra casa. Mais um da Pixar;

Melhor Filme Estrangeiro: É bem provável que “Biutiful” com a grife de diretor famoso venha a ganhar, ainda mais se lembrarmos que Javier Bardem está indicado como melhor ator. Não sei dizer se é justo, pois não vi qualquer dos indicados;

Melhor Documentário: Estou torcendo muito pelo meio-brasileiro “Lixo Extraordinário” e a verdade é que ele tem boas chances, sim;

Melhor Edição: Acredito que vai dar “A Rede Social” e se levar é muito justo, pois manter o ritmo em um filme tão falado não é tarefa simples;

Melhor Figurino: A Academia adora premiar filmes de época nessa categoria. Prato cheio para “O Discurso do Rei” e eu concordo se acontecer desta forma;

Melhor Direção de Arte: Reconstituições de época levam vantagem nessa categoria. Portanto, "O Discurso do Rei" deve papar também essa.

Nas demais categorias, não vou arriscar, pois seria na base do chutômetro. Bem, vamos aguardar o próximo domingo e curtir na TV, mas sem levar o Oscar tão sério. Afinal, o prêmio que é mais importante é aquele que seria entregue por você mesmo. E até segunda-feira para os comentários pós-festa!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita (2010)



Coen para as massas


Em 2007, os irmãos Joel e Ethan Coen realizaram uma obra peculiar, uma espécie de western moderno intitulado “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, um filme soberbo que pintou em cores vivas a decadência dos valores da sociedade norte-americana, valores nobres substituídos unicamente pela ganância, pela busca implacável da riqueza a qualquer custo, gerando uma amoralidade vista de modo cada vez mais natural. Inegavelmente pessimista, trata-se de um olhar desalentado sobre uma sociedade que parece fadada ao declínio e degradação. Esta é uma temática, vale dizer, muito cara ao trabalho dos inseparáveis irmãos, como já se podia perceber no seu emblemático “Fargo”, longa de 1996 vencedor do Oscar de melhor roteiro original e atriz (Frances McDormand).

Eis que agora surgem os autores com este “Bravura Indômita”, uma releitura do clássico protagonizado pelo imortal John Wayne e que lhe rendeu o único Oscar da carreira. Talvez o termo “releitura” seja mais preciso, pois que os irmãos recusam o termo comum de “remake”, pois que alegam estar realizando uma nova adaptação, mais fiel ao material do livro de Charles Portis e não uma mera refilmagem do longa predecessor. Contudo, à parte as inevitáveis comparações com o filme de 1969 (até porque mexer com um personagem imortalizado por John Wayne é sempre algo temerário), o mais interessante é contextualizar a nova produção na própria obra dos renomados diretores-roteiristas.

O primeiro ponto relevante a ser mencionado é o caráter comercial deste novo trabalho. Sem dúvida, trata-se do filme mais apto dos Coen a agradar ao grande público. Não à toa, ele se tornou um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, o mais rentável produto da dupla até hoje. Observando os nomes presentes nos créditos, percebe-se que Steven Spielberg é o produtor executivo do longa, o que provavelmente influenciou no seu resultado palatável. Há uma carga emocional mais forte do que se costuma verificar na filmografia dos diretores, cujos exemplares normalmente têm pouco ou nenhum apelo emocional, como no acima referido “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, dono de uma aridez que espanta espectadores com certa freqüência. Não se pode refutar que isso, de certa forma, atribuiu uma aura mais humana aos personagens da trama, vez que, quase invariavelmente, estes são muito caricaturizados nos roteiros desenvolvidos pelos irmãos. Por outro lado, concessões são sempre concessões, e é perceptível que alguns dos traços estilísticos dos autores foram aqui suavizados, entre eles o humor negro característico da dupla que, se não está ausente, se mostra bastante minorado aqui. O único elemento comum aos longas anteriores que transparece de maneira incisiva é a violência, e mesmo assim de forma menos impactante do que em outros exemplares da filmografia Coen.

No mais, a trama se desenvolve da mesma forma que a obra de 1969. Mattie Ross (a novata Hailee Steinfeld), uma garota que teve o pai assassinado, busca vingança. Para caçar o responsável, o criminoso Chaney (Josh Brolin), ela contrata o policial federal Reuben “Rooster” Cogburn (o papel de John Wayne na primeira versão e aqui interpretado por Jeff Bridges),o qual possui métodos pouco ortodoxos e conduta questionável. A eles se junta o ranger La Bouef (Matt Damon), que já estava anteriormente no encalço do facínora. Entre os três se desenvolve aquela tradicional relação de antipatia que acaba se tornando amizade, além de uma disputa sublimada entre os homens da lei pela atenção da menina. Todavia, não se pode negar que o elenco nos oferece um bom desempenho. Steinfeld é mesmo boa atriz e pode ter muito futuro caso escolha os trabalhos certos. Matt Damon está ótimo como La Bouef, sendo até estranho que tenha sido excluído das indicações ao prêmio da Academia como ator coadjuvante. E Jeff Bridges (que já havia trabalhado com os irmãos em “O Grande Lebowski”), na ingrata missão de reformular um personagem encarnado por um dos grandes astros de Hollywood, se sai inegavelmente bem, preservando o tapa-olho, mas sabendo construir uma nova identidade para Cogburn (ele está indicado ao prêmio de melhor ator, mas não deve levar).Outro elemento bem trabalhado foi a trilha sonora, de Carter Burwell, que consegue imprimir emoção no momentos certos, mesmo diante da fotografia escura (em contraposição à ensolarada da versão pioneira) adotada pelos diretores (como em geral acontece em seus filmes).

A verdade é que a sensação de já ter visto aquela narrativa em algum lugar incomoda um pouco. Fazer remakes, principalmente de um clássico, sempre é um risco, pois o sabor de comida requentada pode se fazer sentir em muitos espectadores. Eu fui um deles. De qualquer forma, é indubitável que os Irmãos Coen conseguiram imprimir, mesmo que de forma atenuada, devido ao caráter mais comercial do projeto (como salientado mais acima), uma sensível dose de sua personalidade e estilo. Entretanto, resta um ponto que talvez demonstre que os mesmos tenham recuperado a fé nas pessoas: este novo “True Grit” revela um perceptível otimismo, contrastando com o pessimismo cáustico de “Onde Os Fracos Não Têm Vez”. Os Coen parecem agora dizer que ainda há luz no fim do túnel para uma sociedade degradada. Tomara que estejam certos.


Cotação:

Nota: 8,5

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quero Ver Novamente #10

Na recente resenha sobre "Meu Ódio Será Sua Herança", comentei que o diretor Sam Peckinpah, em termos cinematográficos, foi uma espécie de avô de Quentin Tarantino. E não tem jeito: sempre que lembro de Tarantino, lembro de sua saga "Kill Bill", um filme dividido em duas partes (vols. 1 e 2) simplesmente espetacular. Na minha opinião, sua grande obra até aqui. Nunca canso de vê-la. A cena abaixo, que mostra a Noiva (Uma Thurman) escapando da cova onde foi enterrada viva por Budd (Michael Madsen), já no vol. 2, é cinema em estado de graça! Realmente, poucos dirigem tão bem quanto Tarantino no cinema contemporâneo. Sensacional!


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva



Meu Ódio Será Sua Herança
(The Wild Bunch)



Quando os brutos se tornam heróis


“Meu Ódio Será Sua Herança” possui uma sequência de créditos iniciais das mais marcantes que já tive a oportunidade de ver. Nela, um grupo de foras-da-lei, disfarçados com uniformes do exército norte-americano, avança calmamente a cavalo pelas ruas de um lugarejo poeirento próximo à fronteira dos EUA com o México. A imagem da cavalgada dos bandidos é entrecortada por outra, mostrando um grupo de crianças em uma rua próxima rindo com uma brincadeira cruel: elas assistem a escorpiões sendo devorados em um ninho de formigas vermelhas. A imagem, que foi sugerida por um dos integrantes do elenco, o ator mexicano Emilio Fernández, apresenta uma perfeita similaridade com o roteiro desenvolvido, constituindo uma metáfora interessantíssima para o desfecho deste impactante filme dirigido por Sam Peckinpah.

Peckinpah foi uma espécie de precursor da hiperviolência nas telas de cinema, um ancestral de Quentin Tarantino que estourou no final dos anos 60, quando todo o cinema americano, vale dizer, passava por transformações significativas. É possível, inclusive, que ele tenha sido o primeiro diretor a filmar a morte em câmera lenta, mostrando toda a dor dos personagens no momento em que são alvejados, em cenas dignas de tragédias operísticas. Contudo, tanto uma parte do público quanto a crítica não entenderam o seu cinema. Muitos consideravam gratuita e sensacionalista a violência de suas obras, com jorros de sangue voando para todos os lados. Roger Ebert, o famoso crítico norte-americano, afirma que a reação causada por “The Wild Bunch” foi similar àquela provocada, décadas depois, por “O Clube da Luta”, longa de David Fincher também muito criticado por adotar a hiperviolência como sustentáculo da obra. Entretanto, se é verdade que o filme de Fincher é muitíssimo violento, não se pode negar o seu valor enquanto obra vanguardista e questionadora, bem como representativa de um contexto sociocultural perfeitamente retratado em suas entrelinhas. E, do mesmo modo, pode-se afirmar que o filme de Peckinpah apresenta tais características.

“Meu Ódio...” é um faroeste crepuscular, narrando a saga de um grupo de assaltantes que se encontra próximo do fim. Seu líder, Pike Bishop (o astro William Holden) já está avançando na idade e cansado demais para continuar em uma vida repleta de perigos. Ademais, ele percebe que os tempos estão mudando. O ano é o de 1913, quando o automóvel começa aos poucos a fazer parte da paisagem ianque e o Estado já está se fazendo presente mesmo em rincões afastados do Oeste. Empresários e banqueiros, por seu turno, dispõem cada vez mais de recursos para proteger seus bens, tornando ainda mais perigosa e difícil a vida de assaltantes com ele. Pike, então, juntamente com seus companheiros Dutch Engstrom (Ernest Borgnine, recentemente homenageado no SAG), o velho e espirituoso Freddie Sykes (Edmond O’brien), o índio passional Angel (Jaime Sanchez), além dos irmãos crianças-grandes Lyle e Tector Gorch (Warren Oates e Bem Johnson, respectivamente), decide realizar um último golpe antes da aposentadoria: roubar uma carga de armas do exército americano, a mando do general paramilitar Mapache (Emilio Fernández, já mencionado mais acima). Por sua vez, o caçador de recompensas Deke Thornton (Robert Ryan) lidera um outro grupo que persegue o bando de Pike, grupo este formado por homens que se comportam como urubus ou hienas, se apropriando dos despojos dos mortos. Pike e Thornton, vale salientar, já foram amigos no passado, fazendo parte do mesmo bando.

Enganam-se aqueles que possam pensar que o longa se limita a um bangue-bangue bem encenado. Os personagens de Pike e Thornton são muito bem interpretados tanto por Holden quanto por Ryan, os quais conferem às suas interpretações uma forte carga interna. São homens que demonstram ciência de que seu tempo já passou, de que o fim está próximo, carregando nas costas o peso de uma vida errática e repleta de remorsos. Neste ponto, são ancestrais de Bill Munny, personagem de Clint Eastwood no seu antológico “Os Imperdoáveis”. É ainda importante salientar que o maniqueísmo passa longe da abordagem de Peckinpah. Se, por um lado, não deixamos de enxergar a crueldade dos membros do bando em certos momentos, em outros percebemos que os mesmos possuem uma ética própria, um senso de companheirismo que os leva a um desfecho trágico e, porque não dizer, também heróico. Até mesmo os piores facínoras podem ter um momento de redenção, parece nos dizer o diretor. Em outra vertente, porém, é de se lamentar uma certa misoginia na película, vez que as mulheres são sempre mostradas ora como prostitutas, ora tendo caráter duvidoso, o que pode acabar por trazer um certa rejeição do público feminino.


Extremamente bem fotografado e editado, esse western faz jus aos filmes de Sergio Leone no trato imagético. Uma profusão de sequências impressionantes é vista na tela, como a do tiroteio no centro da cidade em meio a uma passeata contra o uso de álcool, logo no início do filme (cena que tem um gosto peculiar para o alcoólatra Peckinpah), ou ainda a do assalto ao trem com a carga de armas. E isso pra não falar da mítica imagem em que os quatro integrantes restantes do grupo adentram um vilarejo com a altivez e consciência de que, na realidade, devem estar se dirigindo ao encontro da morte.

É intrigante como “Meu Ódio Será Sua Herança”, ao tratar do fim da era histórica do Velho Oeste, acabou também por simbolizar o fim de uma era no cinema, aquela controlada pelos estúdios (o “studio system”), e substituída pelo novo mundo dos diretores, surgido com os artífices da Nova Hollywood. Enfim, um filme que acabou se tornando o marco de uma transição. Curioso que, daí em diante, Sam Peckinpah tenha alternado sucessos e fracassos também em gêneros distintos, mas hoje seja lembrado principalmente pelos seus westerns. Ou seja, acabou desenvolvendo sua carreira tendo como base um gênero moribundo, tal como eram moribundos os tempos retratados neste seu longa-metragem que testou limites e influenciou decisivamente a estética do cinema norte-americano posterior. Não estranharei se um dia Quentin Tarantino acabar realizando um remake deste longa. Fará bastante sentido.


Cotação:

Nota: 9,5