domingo, 20 de março de 2011

Rango


Western Spaghetti animado


O tempo passa e cada vez mais demonstra o tamanho da influência que um certo cineasta italiano exerceu e ainda exerce sobre o imaginário do cinema hollywoodiano e mundial, por extensão. Nos anos 60, o diretor Sergio Leone reinventou o gênero western com a trilogia do “Homem Sem Nome”, protagonizada por um ator que mais tarde se transformaria em uma lenda da sétima arte: Clint Eastwood. Ao longo dos anos, vários foram os outros cineastas que prestaram tributo em suas obras aos filmes seminais de Leone, sendo Quentin Tarantino o exemplo mais forte dessa vertente.

Talvez inspirado por Tarantino, Gore Verbinski também resolveu prestar sua homenagem ao western spaghetti com “Rango”, primeira incursão tanto do diretor quanto do estúdio Paramount no terreno das animações. Anteriormente, Verbinski já mostrava afinidade em trabalhar no universo das “aventuras de época”, tendo em vista o sucesso da franquia “Piratas do Caribe”, comandada pelo mesmo (o que inclusive explica a escolha de Johnny Depp para a voz do protagonista na versão original em inglês). E não seria de estranhar que também obtivesse sucesso no mundo animado, já que sempre demonstrou trabalhar bem o lado do humor nos seus longas, cheios de tiradas espirituosas e gags criativas que nunca resvalam no mau gosto. Este “Rango”, é bom ressaltar, não foge à regra.

Divertido e inteligente, sua premissa demonstra uma originalidade incomum na mesmice do cinema norte-americano atual. A narrativa mostra a saga de um camaleão que vive em um aquário de família, ensaiando com seus amigos inanimados (um peixinho de plástico, um busto de boneca, um inseto morto e um coqueiro artificial) no sonho de um dia se tornar um grande ator. Devido a um acidente, ele é jogado pra fora do automóvel em que a família viaja, vendo-se assim às margens de uma auto-estrada e diante de um imenso deserto. Mais tarde, acaba chegando à cidade de Poeira, onde acaba se tornando o xerife local após a população acreditar em sua persona inventada de grande pistoleiro que veio do Oeste. O maior problema de Poeira é a escassez de água, cuja quantidade restante fica depositada no banco local, e seus habitantes começam a ver no forasteiro uma espécie de messias que trará de volta o precioso líquido para a região.

É interessante perceber como Hollywood vem se tornando politizada, fazendo críticas abertas ao sistema até mesmo em animações. Não só banqueiros como governantes são diretamente criticados ao longo da trama e esta também não deixa de servir de alerta ambiental, já que, obviamente, a escolha da água como bem escasso e essencial como mote do seu desenrolar não pode ser à toa. Contudo, não se pode negar que o foco de “Rango” (o nome adotado pelo herói acaba sendo uma homenagem tanto a Durango Kid, cowboy de cine-série da Columbia nos anos 40, quanto a “Django”, filme e personagem imortalizado por Franco Nero) é mesmo a jornada do herói sem passado, o “homem sem nome” imortalizado por Eastwood, como acima mencionado. Assim, nada mais adequado, para tanto, que a figura de um camaleão para representar alguém sem identidade definida. A busca dessa identidade é que se torna a grande saga de Rango e o leva a se encontrar com o Espírito do Oeste em busca de uma resposta (representado por uma versão animada do próprio Clint Eastwood, o qual foi convidado para fazer sua voz, mas acabou recusando a proposta).

Toda a narrativa, por sinal, é pontuada por uma série de referências a clássicos do cinema como “Apocalypse Now”, passando por “A Felicidade Não Se Compra” e chegando até mesmo a (pasmem) “Morangos Silvestres”. Entretanto, embora faça a festa dos cinéfilos, tais recursos acabam por trazer um possível hermetismo ao filme, já que a maior parte dos espectadores não perceberá as referências e muito menos os pequenos, os quais sempre serão consumidores das animações, por mais que estas estejam cada vez mais repletas de elementos para o público adulto. Por outro lado, o roteiro (escrito por John Logan, James Ward Byrkit e o próprio Gore Verbinski) se desenvolve muito bem em seu início, com uma ótima apresentação de personagens, cada um com suas características pitorescas, como Feijão, a lagarta que acaba se tornado o interesse romântico do herói. Todavia, acaba por pecar em seu desfecho, o qual se torna apressado, deixando no ar a explicação para alguns acontecimentos do fim da trama (muito embora possua uma sequência final de créditos excelente).

Talvez o grande problema de “Rango” seja justamente o fato de se limitar a ser uma homenagem a um gênero, o que retira uma boa parcela de sua originalidade e o deixa previsível em muitos pontos. Assim, o que era para ser diferente acaba se tornando clichê e o filme, que poderia até se tornar memorável, acaba sendo uma ótima diversão, mas tão somente isso. Verbinski acaba por abdicar da originalidade para se colocar apenas numa posição de reverência. Assim, o sabor diferente da primeira metade do longa transmuda-se, ao seu final, em uma considerável sensação de dejá vu. Em consequência , “Rango” se coloca tão somente como um bom e divertido western spaghetti, só que desta vez animado.


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 17 de março de 2011

Eu Quero Esse Pôster #13




Você já viu algum poster semelhante a este logo acima? Os responsáveis pela arte promocional de "Johnny & June" (Walk The Line) alcançaram um resultado único!

sábado, 12 de março de 2011

Inverno da Alma



Sobre coragem e convicções


Curioso que, entre os filmes indicados ao prêmio máximo da Academia de Hollywood este ano, dois deles tenham uma premissa similar, embora não idêntica. “Bravura Indômita”, dos irmãos Joel e Ethan Coen, narra a trajetória de uma adolescente em busca de vingança pela morte de seu pai, assassinado por um bandoleiro, enfrentando um ambiente hostil e violento que retrata muito das entranhas da nação norte-americana. “Inverno da Alma”, longa dirigido por Debra Granik (em seu segundo longa-metragem), também tem o ponto de partida em uma garota que, vivendo em um ambiente hostil dos rincões ianques, busca não uma vendeta, mas encontrar o pai desaparecido há dias para que, obtendo sucesso, consiga salvar a residência da família das mãos de credores hipotecários. A semelhança chega até mesmo às surpresas do elenco. Se no filme dos irmãos Coen tivemos o destaque para a novata Hailee Steinfeld no papel principal (sua indicação ao Oscar como coadjuvante soa bastante estranha), a desconhecida Jennifer Lawrence, como a protagonista Ree em “Inverno da Alma” também se mostra uma grata revelação. Ambas têm enorme sucesso ao interpretar meninas fortes que têm de superar o medo e enormes adversidades para alcançar seus respectivos objetivos.

Entretanto, as semelhanças param por aí. Se o filme dos Coen se desenvolve como um típico western comercial (o mais comercial dos longas dos irmãos cineastas), com desenvolvimento da trama e caracterização dos personagens aptos a agradar ao grande público, o filme de Debra Granik se desenrola em um ritmo típico de produções independentes destinadas a circuitos mais alternativos, embora flertando com o suspense concomitantemente. Seus personagens e circunstâncias são apresentados lentamente e sem qualquer sensacionalismo que invoque a empatia imediata do espectador. Vamos descobrindo, assim, que Ree tem uma mãe com problemas mentais e dois irmãos mais novos dos quais tem de cuidar, já que seu pai está envolvido com o tráfico de drogas na região. Ambientado nas montanhas Ozark, no estado do Missouri, a atmosfera densa logo preenche o roteiro (baseado em romance de Daniel Woodrell) e percebemos que a comunidade na qual Ree está inserida, boa parte delas formada por parentes próximos ou distantes, lhe oferece pouco acolhimento.

É neste ponto que o longa fisga o espectador. É difícil não se sensibilizar com a via crucis de uma garota de 17 anos para salvar o próprio lar, sofrendo ameaças de pessoas das quais seria de esperar ao menos uma mão estendida. Nesse aspecto, vale frisar que o longa chega a flertar com o noir, tendo em vista a dubiedade presente em quase todos as personagens, à exceção da protagonista. É aqui que, com já frisado acima, que se sobressai a atuação de Lawrence, talentosíssima em sua juventude. Impressionante como ela utiliza de poucas expressões (quando seria de se esperar até caretas de colegas menos talentosas) para transparecer emoções, externando sentimentos como medo, revolta, solidão e desesperança como grande simplicidade. Da mesma forma, John Hawkes (indicado ao Oscar como coadjuvante), empresta verdade ao titubeante e escorregadio tio Teardrop, um homem também dominado pelo vício, mas que não esquece seus vínculos familiares. A oposição entre essa maldita circunstância familiar e a aversão que Ree sente pela mesma é mostrada de forma contundente na sequência em que Teardrop lhe oferece droga e ela recusa peremptoriamente, afirmando que nunca provará disso.

Por outro lado, a película também funciona como um thriller policial (mais uma vez invocando o noir), trazendo tensão e dúvida em diversas passagens, principalmente em seu clímax (de arrepiar), além de possuir elementos técnicos muito bem trabalhados, como a bela e ao mesmo tempo soturna fotografia. Interessante constatar que “Winter’s Bone” poderia facilmente ganhar circuitos comerciais, fugindo do rótulo de “filme de festival” (ele recebeu prêmios tanto em Sundance quanto em Berlim). Isso talvez mostre que um cineasta não deve abandonar suas convicções (tal como Ree não foge às suas no longa), sendo que agradar ao público deve ser sempre consequência e não o objetivo de um trabalho. No fim das contas, Granik, em sua fotografia de um lado da sociedade americana, se sai mais feliz do que os Coen em sua mais recente obra, cuja nuance comercial foge às características da dupla. Um retrato sem convicção é um retrato falso. Talvez por isso “Inverno da Alma” nos atinja no coração de maneira mais contundente. Vendo o filme, não deixei de lembrar de uma certa frase de Guimarães Rosa, a qual poderia lhe servir como epígrafe: “"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."


Cotação:

Nota: 9,5

sexta-feira, 4 de março de 2011

Star Wars em 3D!?????


Eu estava em uma navegação de rotina quando me deparo com uma notícia ao mesmo tempo previsível e lamentável. George Lucas anunciou que vai converter sua série "Star Wars" para o 3D. É isso mesmo! E não será apenas a segunda trilogia, que tem valor cinematográfico e afetivo inferior à original. Sim, a trilogia clássica também passará por este processo nefasto. É deprimente ver que Lucas realmente se tornou um dinheirista capaz de desrespeitar até a própria obra. As conversões serão realizadas a partir do episódio I (aquele filme fraquinho, fraquinho), com estreia prevista para fevereiro de 2012. Bem, ao que parece, diante da ganância dos executivos, em breve teremos até "... E O Vento Levou" em 3D. Só me resta orar: "perdoai-os, Senhor, eles não sabem o que fazem"...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Impressões sobre o Oscar 2011


- James Franco e Anne Hathaway não emplacaram. O início, naquela montagem com os filmes indicados, até que foi engraçadinho, mas depois o casal caiu na banalidade. Nem tanto por culpa deles. O script estava pouco inspirado,cheio de piadas sem graça (pra variar). Não obstante, Franco não tem presença de palco e ficou quase completamente apagado. Hathaway estava nitidamente nervosa, mas ao menos soube mostrar que tem agilidade para trocar de vestidos com rapidez;

- Ainda não entendi porque não chamam Robert Downey Jr. para apresentar o Oscar. Creio que não haveria melhor escolha;

- Por sinal, apesar de enxuta, essa foi uma das cerimônias mais fracas que já vi. Faltou emoção. Aquela ideia da Academia de retirar os prêmios honorários da cerimônia, transferindo-os para um evento realizado previamente, foi muito infeliz. Normalmente, eles eram os responsáveis pelos melhores momentos, injetando emoção com um público que costuma ficar de pé para aplaudir os homenageados. Já pensou passar um filminho com os melhores momentos da carreira de Francis Ford Coppola e em seguida ele entrar triunfante e ovacionado? Pois é, a Academia deu bobeira mesmo...;

- O momento mais curioso da noite foi a entrega do prêmio de atriz coadjuvante, com a presença de Kirk Douglas aos 94 anos. Logo em seguida, Melissa Leo, em uma atitude pseudo-engraçada, começa a soltar palavrões. Ao menos fugiu da rotina...;

- Colin Firth levou o prêmio de melhor ator, mas nós brasileiros sabemos que quem merecia era Wagner Moura;

- A previsibilidade nas principais categorias foi tão grande quanto quebra de carro alegórico em desfile de escola de samba. Acredito que alguns ainda insistiram na tese de que “A Rede Social” poderia levar filme e diretor apenas para deixar a cerimônia com um certo ar de suspense, o que não aconteceu;

- Lição que mais uma vez se tira da maioria das premiações: não é bom apostar na contramão do que foi decidido pelos sindicatos;

- Quando Steven Spielberg disse que os perdedores estariam ao lado de filmaços como “Cidadão Kane” e “Touro Indomável” ele não estava se referindo a “A Rede Social”, mas ao seu “O Resgate do Soldado Ryan”, um filme muito superior ao descartável “Shakespeare Apaixonado”, o qual também era apadrinhado dos Weinstein;

- Por sinal, tem gente por aí já dizendo que essa foi uma injustiça com “A Rede Social” do mesmo quilate daquela realizada com os citados “Cidadão Kane” e “Touro Indomável”. Menos, menos...O filme de Fincher é bem bom, mas eu cito pelo menos 3 outros longas melhores do que este concorrendo na mesma noite: “Toy Story 3”, “Cisne Negro” e “A Origem”;

- Os prêmios mais justos da noite foram o de melhor animação para “Toy Story 3” e o de melhor atriz para Natalie Portman;

- Gostei do discurso de Tom Hooper: “dê atenção ao que fala sua mãe”. As mães são sempre muito sábias mesmo;

- Natalie Portman também foi muito feliz ao falar que seu maior prêmio seria trabalhar com suas concorrentes;

- “Bravura Indômita” foi o grande derrotado da noite. Não levou nada das 10 indicações;

- Aquela ideia do coral infantil é bonitinha, mas está meio démodé. Acho que se encaixaria melhor se o Oscar fosse entregue na época do Natal;

- Uma das poucas boas ideias da noite foi a de levar todos os vencedores ao palco no fim da cerimônia. Dá um tom mais festivo e fica bem, televisivamente falando.

Bom, é isso. Agora, se você já não viu todos os indicados, confira para ver se concorda ou não. Ano que vem tem mais! O Cinema com Pimenta estará de olho novamente!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Previsões para o Oscar 2011


Previsões científicas do Cinema com Pimenta para a festa do Oscar que se avizinha (e será apresentada pelo casal acima, James Franco e Anne Hathaway).

Melhor Filme: Vai dar “O Discurso do Rei”, mas o merecedor é “Toy Story 3”. Por que será que custa tanto reconhecer que o melhor filme de 2010 é uma animação?

Melhor Diretor: Tom Hooper vai levar por “O Discurso do Rei”. Ele já levou o prêmio do DGA e raramente acontece divergência entre este e o prêmio da Academia. Mas, dentre os concorrentes, eu daria o prêmio para Darren Aronofsky;

Melhor Ator: Colin Firth deve ser o escolhido e, na minha opinião, não será injusto se assim se confirmar. Como também não seria injusto se Jeff Bridges ganhasse;

Melhor Atriz: Vai dar Natalie Portman. E se você acha que não é justo é porque ainda não viu “Cisne Negro”;

Melhor Ator Coadjuvante: Vai ganhar Christian Bale e considero a opção bem justa. Por outro lado, Geoffrey Rush está ótimo em “O Discurso do Rei” e também seria plausível que ele levasse;

Melhor Atriz Coadjuvante: Quem deve segurar a estatueta é Melissa Leo, mas eu daria o prêmio para Hailee Steinfeld, a garota de “Bravura Indômita”. Hailee, inclusive, deveria estar indicada como melhor atriz e não como coadjuvante;

Melhor Roteiro Original: Acho que esse vai ser o prêmio de consolação de “A Origem”, muito embora “O Discurso do Rei” tenha grandes possibilidades. Se dependesse de mim, ficaria com “A Origem” mesmo;

Melhor Roteiro Adaptado: Quem vai ganhar é “A Rede Social” e, nesta categoria, é muito justo que o prêmio vá para ele. Não é fácil transformar uma história de nerds ligados a micros em algo interessante de ser ver na tela;

Melhor Animação: Esse é o prêmio que Toy Story 3 vai levar pra casa. Mais um da Pixar;

Melhor Filme Estrangeiro: É bem provável que “Biutiful” com a grife de diretor famoso venha a ganhar, ainda mais se lembrarmos que Javier Bardem está indicado como melhor ator. Não sei dizer se é justo, pois não vi qualquer dos indicados;

Melhor Documentário: Estou torcendo muito pelo meio-brasileiro “Lixo Extraordinário” e a verdade é que ele tem boas chances, sim;

Melhor Edição: Acredito que vai dar “A Rede Social” e se levar é muito justo, pois manter o ritmo em um filme tão falado não é tarefa simples;

Melhor Figurino: A Academia adora premiar filmes de época nessa categoria. Prato cheio para “O Discurso do Rei” e eu concordo se acontecer desta forma;

Melhor Direção de Arte: Reconstituições de época levam vantagem nessa categoria. Portanto, "O Discurso do Rei" deve papar também essa.

Nas demais categorias, não vou arriscar, pois seria na base do chutômetro. Bem, vamos aguardar o próximo domingo e curtir na TV, mas sem levar o Oscar tão sério. Afinal, o prêmio que é mais importante é aquele que seria entregue por você mesmo. E até segunda-feira para os comentários pós-festa!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita (2010)



Coen para as massas


Em 2007, os irmãos Joel e Ethan Coen realizaram uma obra peculiar, uma espécie de western moderno intitulado “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, um filme soberbo que pintou em cores vivas a decadência dos valores da sociedade norte-americana, valores nobres substituídos unicamente pela ganância, pela busca implacável da riqueza a qualquer custo, gerando uma amoralidade vista de modo cada vez mais natural. Inegavelmente pessimista, trata-se de um olhar desalentado sobre uma sociedade que parece fadada ao declínio e degradação. Esta é uma temática, vale dizer, muito cara ao trabalho dos inseparáveis irmãos, como já se podia perceber no seu emblemático “Fargo”, longa de 1996 vencedor do Oscar de melhor roteiro original e atriz (Frances McDormand).

Eis que agora surgem os autores com este “Bravura Indômita”, uma releitura do clássico protagonizado pelo imortal John Wayne e que lhe rendeu o único Oscar da carreira. Talvez o termo “releitura” seja mais preciso, pois que os irmãos recusam o termo comum de “remake”, pois que alegam estar realizando uma nova adaptação, mais fiel ao material do livro de Charles Portis e não uma mera refilmagem do longa predecessor. Contudo, à parte as inevitáveis comparações com o filme de 1969 (até porque mexer com um personagem imortalizado por John Wayne é sempre algo temerário), o mais interessante é contextualizar a nova produção na própria obra dos renomados diretores-roteiristas.

O primeiro ponto relevante a ser mencionado é o caráter comercial deste novo trabalho. Sem dúvida, trata-se do filme mais apto dos Coen a agradar ao grande público. Não à toa, ele se tornou um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, o mais rentável produto da dupla até hoje. Observando os nomes presentes nos créditos, percebe-se que Steven Spielberg é o produtor executivo do longa, o que provavelmente influenciou no seu resultado palatável. Há uma carga emocional mais forte do que se costuma verificar na filmografia dos diretores, cujos exemplares normalmente têm pouco ou nenhum apelo emocional, como no acima referido “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, dono de uma aridez que espanta espectadores com certa freqüência. Não se pode refutar que isso, de certa forma, atribuiu uma aura mais humana aos personagens da trama, vez que, quase invariavelmente, estes são muito caricaturizados nos roteiros desenvolvidos pelos irmãos. Por outro lado, concessões são sempre concessões, e é perceptível que alguns dos traços estilísticos dos autores foram aqui suavizados, entre eles o humor negro característico da dupla que, se não está ausente, se mostra bastante minorado aqui. O único elemento comum aos longas anteriores que transparece de maneira incisiva é a violência, e mesmo assim de forma menos impactante do que em outros exemplares da filmografia Coen.

No mais, a trama se desenvolve da mesma forma que a obra de 1969. Mattie Ross (a novata Hailee Steinfeld), uma garota que teve o pai assassinado, busca vingança. Para caçar o responsável, o criminoso Chaney (Josh Brolin), ela contrata o policial federal Reuben “Rooster” Cogburn (o papel de John Wayne na primeira versão e aqui interpretado por Jeff Bridges),o qual possui métodos pouco ortodoxos e conduta questionável. A eles se junta o ranger La Bouef (Matt Damon), que já estava anteriormente no encalço do facínora. Entre os três se desenvolve aquela tradicional relação de antipatia que acaba se tornando amizade, além de uma disputa sublimada entre os homens da lei pela atenção da menina. Todavia, não se pode negar que o elenco nos oferece um bom desempenho. Steinfeld é mesmo boa atriz e pode ter muito futuro caso escolha os trabalhos certos. Matt Damon está ótimo como La Bouef, sendo até estranho que tenha sido excluído das indicações ao prêmio da Academia como ator coadjuvante. E Jeff Bridges (que já havia trabalhado com os irmãos em “O Grande Lebowski”), na ingrata missão de reformular um personagem encarnado por um dos grandes astros de Hollywood, se sai inegavelmente bem, preservando o tapa-olho, mas sabendo construir uma nova identidade para Cogburn (ele está indicado ao prêmio de melhor ator, mas não deve levar).Outro elemento bem trabalhado foi a trilha sonora, de Carter Burwell, que consegue imprimir emoção no momentos certos, mesmo diante da fotografia escura (em contraposição à ensolarada da versão pioneira) adotada pelos diretores (como em geral acontece em seus filmes).

A verdade é que a sensação de já ter visto aquela narrativa em algum lugar incomoda um pouco. Fazer remakes, principalmente de um clássico, sempre é um risco, pois o sabor de comida requentada pode se fazer sentir em muitos espectadores. Eu fui um deles. De qualquer forma, é indubitável que os Irmãos Coen conseguiram imprimir, mesmo que de forma atenuada, devido ao caráter mais comercial do projeto (como salientado mais acima), uma sensível dose de sua personalidade e estilo. Entretanto, resta um ponto que talvez demonstre que os mesmos tenham recuperado a fé nas pessoas: este novo “True Grit” revela um perceptível otimismo, contrastando com o pessimismo cáustico de “Onde Os Fracos Não Têm Vez”. Os Coen parecem agora dizer que ainda há luz no fim do túnel para uma sociedade degradada. Tomara que estejam certos.


Cotação:

Nota: 8,5

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quero Ver Novamente #10

Na recente resenha sobre "Meu Ódio Será Sua Herança", comentei que o diretor Sam Peckinpah, em termos cinematográficos, foi uma espécie de avô de Quentin Tarantino. E não tem jeito: sempre que lembro de Tarantino, lembro de sua saga "Kill Bill", um filme dividido em duas partes (vols. 1 e 2) simplesmente espetacular. Na minha opinião, sua grande obra até aqui. Nunca canso de vê-la. A cena abaixo, que mostra a Noiva (Uma Thurman) escapando da cova onde foi enterrada viva por Budd (Michael Madsen), já no vol. 2, é cinema em estado de graça! Realmente, poucos dirigem tão bem quanto Tarantino no cinema contemporâneo. Sensacional!


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva



Meu Ódio Será Sua Herança
(The Wild Bunch)



Quando os brutos se tornam heróis


“Meu Ódio Será Sua Herança” possui uma sequência de créditos iniciais das mais marcantes que já tive a oportunidade de ver. Nela, um grupo de foras-da-lei, disfarçados com uniformes do exército norte-americano, avança calmamente a cavalo pelas ruas de um lugarejo poeirento próximo à fronteira dos EUA com o México. A imagem da cavalgada dos bandidos é entrecortada por outra, mostrando um grupo de crianças em uma rua próxima rindo com uma brincadeira cruel: elas assistem a escorpiões sendo devorados em um ninho de formigas vermelhas. A imagem, que foi sugerida por um dos integrantes do elenco, o ator mexicano Emilio Fernández, apresenta uma perfeita similaridade com o roteiro desenvolvido, constituindo uma metáfora interessantíssima para o desfecho deste impactante filme dirigido por Sam Peckinpah.

Peckinpah foi uma espécie de precursor da hiperviolência nas telas de cinema, um ancestral de Quentin Tarantino que estourou no final dos anos 60, quando todo o cinema americano, vale dizer, passava por transformações significativas. É possível, inclusive, que ele tenha sido o primeiro diretor a filmar a morte em câmera lenta, mostrando toda a dor dos personagens no momento em que são alvejados, em cenas dignas de tragédias operísticas. Contudo, tanto uma parte do público quanto a crítica não entenderam o seu cinema. Muitos consideravam gratuita e sensacionalista a violência de suas obras, com jorros de sangue voando para todos os lados. Roger Ebert, o famoso crítico norte-americano, afirma que a reação causada por “The Wild Bunch” foi similar àquela provocada, décadas depois, por “O Clube da Luta”, longa de David Fincher também muito criticado por adotar a hiperviolência como sustentáculo da obra. Entretanto, se é verdade que o filme de Fincher é muitíssimo violento, não se pode negar o seu valor enquanto obra vanguardista e questionadora, bem como representativa de um contexto sociocultural perfeitamente retratado em suas entrelinhas. E, do mesmo modo, pode-se afirmar que o filme de Peckinpah apresenta tais características.

“Meu Ódio...” é um faroeste crepuscular, narrando a saga de um grupo de assaltantes que se encontra próximo do fim. Seu líder, Pike Bishop (o astro William Holden) já está avançando na idade e cansado demais para continuar em uma vida repleta de perigos. Ademais, ele percebe que os tempos estão mudando. O ano é o de 1913, quando o automóvel começa aos poucos a fazer parte da paisagem ianque e o Estado já está se fazendo presente mesmo em rincões afastados do Oeste. Empresários e banqueiros, por seu turno, dispõem cada vez mais de recursos para proteger seus bens, tornando ainda mais perigosa e difícil a vida de assaltantes com ele. Pike, então, juntamente com seus companheiros Dutch Engstrom (Ernest Borgnine, recentemente homenageado no SAG), o velho e espirituoso Freddie Sykes (Edmond O’brien), o índio passional Angel (Jaime Sanchez), além dos irmãos crianças-grandes Lyle e Tector Gorch (Warren Oates e Bem Johnson, respectivamente), decide realizar um último golpe antes da aposentadoria: roubar uma carga de armas do exército americano, a mando do general paramilitar Mapache (Emilio Fernández, já mencionado mais acima). Por sua vez, o caçador de recompensas Deke Thornton (Robert Ryan) lidera um outro grupo que persegue o bando de Pike, grupo este formado por homens que se comportam como urubus ou hienas, se apropriando dos despojos dos mortos. Pike e Thornton, vale salientar, já foram amigos no passado, fazendo parte do mesmo bando.

Enganam-se aqueles que possam pensar que o longa se limita a um bangue-bangue bem encenado. Os personagens de Pike e Thornton são muito bem interpretados tanto por Holden quanto por Ryan, os quais conferem às suas interpretações uma forte carga interna. São homens que demonstram ciência de que seu tempo já passou, de que o fim está próximo, carregando nas costas o peso de uma vida errática e repleta de remorsos. Neste ponto, são ancestrais de Bill Munny, personagem de Clint Eastwood no seu antológico “Os Imperdoáveis”. É ainda importante salientar que o maniqueísmo passa longe da abordagem de Peckinpah. Se, por um lado, não deixamos de enxergar a crueldade dos membros do bando em certos momentos, em outros percebemos que os mesmos possuem uma ética própria, um senso de companheirismo que os leva a um desfecho trágico e, porque não dizer, também heróico. Até mesmo os piores facínoras podem ter um momento de redenção, parece nos dizer o diretor. Em outra vertente, porém, é de se lamentar uma certa misoginia na película, vez que as mulheres são sempre mostradas ora como prostitutas, ora tendo caráter duvidoso, o que pode acabar por trazer um certa rejeição do público feminino.


Extremamente bem fotografado e editado, esse western faz jus aos filmes de Sergio Leone no trato imagético. Uma profusão de sequências impressionantes é vista na tela, como a do tiroteio no centro da cidade em meio a uma passeata contra o uso de álcool, logo no início do filme (cena que tem um gosto peculiar para o alcoólatra Peckinpah), ou ainda a do assalto ao trem com a carga de armas. E isso pra não falar da mítica imagem em que os quatro integrantes restantes do grupo adentram um vilarejo com a altivez e consciência de que, na realidade, devem estar se dirigindo ao encontro da morte.

É intrigante como “Meu Ódio Será Sua Herança”, ao tratar do fim da era histórica do Velho Oeste, acabou também por simbolizar o fim de uma era no cinema, aquela controlada pelos estúdios (o “studio system”), e substituída pelo novo mundo dos diretores, surgido com os artífices da Nova Hollywood. Enfim, um filme que acabou se tornando o marco de uma transição. Curioso que, daí em diante, Sam Peckinpah tenha alternado sucessos e fracassos também em gêneros distintos, mas hoje seja lembrado principalmente pelos seus westerns. Ou seja, acabou desenvolvendo sua carreira tendo como base um gênero moribundo, tal como eram moribundos os tempos retratados neste seu longa-metragem que testou limites e influenciou decisivamente a estética do cinema norte-americano posterior. Não estranharei se um dia Quentin Tarantino acabar realizando um remake deste longa. Fará bastante sentido.


Cotação:

Nota: 9,5

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Tropa de Elite 2" é exibido em Berlim


Enquanto está todo mundo preocupado com a entrega do Oscar no próximo dia 27, é bom lembrar que está rolando desde quinta-feira a 61ª edição do Festival de Berlim. E ontem foi exibido, na mostra Panorama, o segundo "Tropa de Elite", na gigantesca sala do Friedrichstadtpalast, de 1.800 lugares. Ela estava cerca de 70% ocupada para a primeira sessão oficial do filme, no início da noite desta sexta-feira (11/02).

O diretor José Padilha subiu ao palco para agradecer a presença de todos e à organização da seção Panorama antes do inicio da sessão. A plateia, com boa parte de brasileiros, caiu na risada quando apareceu o nome da uma marca de cerveja como patrocinadora do longa.

Ao final, “Tropa de Elite 2” foi muito aplaudido durante 3 minutos. Os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro subiram ao palco para agradecer a recepção. Wagner foi muito requisitado para tirar fotos com os fãs. Só não dá pra entender porque o longa ficou fora da competição principal pelo Urso de Ouro, já que o primeiro longa levou o prêmio...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cisne Negro


Assistir é preciso


Quando observada com atenção, a carreira de um cineasta pode revelar algumas de suas obsessões, manias ou simplesmente temas que gosta de abordar. Interessante que uma das primeiras impressões que tive de “Cisne Negro” foi a de que seu diretor, Darren Aronofsky, possui uma certa cisma com autoflagelação. A personagem central, a bailarina Nina Sayers (Natalie Portman), é adepta inconsciente desta prática, assim como o protagonista Randy, de “O Lutador” (filme anterior do diretor), também era adepto da mesma, só que neste caso de forma consciente. Além disso, Nina pratica, ao longo de toda a projeção do longa indicado a 5 Oscars, uma espécie de autoflagelação psicológica ao se determinar a incorporar uma personagem distante de sua própria essência. Sua tortura, ademais, é complementada pelo controle da mãe super-protetora (Barbara Hershey) e consequentemente opressora, a qual também foi bailarina e vê na filha uma chance de sucesso que não conseguiu obter, e as imposições tirânicas e cínicas do diretor e produtor do balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel).

É aqui, por outro lado, que reside o cerne deste trabalho perturbador de Aronofsky. Nina ambiciona o papel central da nova montagem de “O Lago dos Cisnes”, o clássico de Tchaikovsky que narra a estória de uma princesa transformada por um encanto em um cisne branco. Para libertá-la do feitiço, é necessário que um príncipe se case com ela. Entretanto, o príncipe acaba seduzido e casando com o cisne negro, irmã do cisne branco, levando esta última, em um ato de desespero, ao suicídio, atirando-se do penhasco. Só que, na montagem planejada pelo diretor Leroy, cisne branco e negro serão interpretados pela mesma bailarina. Para conseguir o papel de protagonista (após a aposentadoria forçada da principal integrante da companhia, interpretada por Wynona Rider-ressurgindo-das-cinzas), Nina então terá de despertar em si aspectos humanos que parecem não lhe pertencer ou estarem reprimidos ao longo dos anos.

Muitos podem atirar pedras na comparação que farei agora, mas essa temática do despertar do “lado negro” já se tornou um tanto cansada no cinema depois de toda a longa série “Star Wars”, que é por muitos vista apenas como filmes rasos que proporcionam uma boa diversão. A saga de Anakin Skywalker trata exatamente deste embate entre o bem e o mal que existe em cada ser humano, conflito este que, ademais, está na base de todas as religiões. Talvez a diferença entre Nina e Anakin esteja no fato de que a primeira deseja ardentemente despertar este seu lado adormecido, enquanto Anakin luta para dominá-lo, mas, eventualmente, acaba sendo vencido pelas circunstâncias que insuflam a sua vertente perversa.


Vale dizer, ademais, que Aronofsky flerta perigosamente com um certo conservadorismo ao deixar nítida a relação entre o lado obscuro e a sexualidade. Nina, possivelmente virgem, é recatada e infantilizada pela mãe (basta observar os detalhes de seu quarto rosa) e sua maior dificuldade em interpretar o cisne negro reside justamente em transmitir uma sensualidade necessária à sua interpretação na dança. A ideia de que sensualidade e maldade estão necessariamente ligadas parece percorrer toda a trama, como se não fosse possível Nina desenvolver melhor sua sexualidade sem despertar aspectos “nefastos” do seu ser. Essa posição de Aronofsky se torna ainda mais nítida com a inclusão da personagem Lilly (Mila Kunis), a rival na disputa pelo papel de cisne branco/negro. Ela se mostra como o natural “cisne negro” da narrativa, com uma sensualidade espontânea, mas também com um caráter dúbio e escorregadio, induzindo Nina, por vezes, a um hedonismo permeado por excessos. Aliás, se à primeira vista a narrativa se mostra confusa e quase indecifrável, com um olhar mais detido percebe-se que estamos diante de uma alegoria em que Leroy, o diretor da montagem, é o príncipe que irá retirar Nina se sua condição de “cisne”, uma bailarina de menor destaque, para a condição de “princesa”, ou seja, a estrela da companhia. Ela então se vê ameaçada por Lilly (teria alguma relação com Lilith, a primeira mulher de Adão?), “o cisne negro” que também quer a condição de princesa e usa suas armas de sedução par atingir tal objetivo. Ou seja, pode soar até como um paradoxo, mas Aronofsky resvala no maniqueísmo ao querer investigar as forças obscuras que existem nas entranhas de cada um.

À parte a existência de um determinado cansaço da temática e da abordagem dotada talvez de um rígido conservadorismo, Darren demonstra mais uma vez ser dotado de um talento ímpar para dirigir filmes. O longa-metragem é tecnicamente perfeito. A forma com a qual o roteiro é desenvolvido (escrito por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin), auxiliado por suas fotografia e edição, imprime ao filme um ritmo e clima oníricos, fazendo o público muitas vezes ter dúvidas sobre o que está realmente acontecendo e estabelecendo um horror psicológico cujas raízes remontam a “O Bebê de Rosemary”, clássico de Roman Polansky. O aspecto fotográfico, de autoria de Matthew Libatique, talvez seja, deveras, o mais brilhante. Com alguns closes nos pés da bailarina durante a dança, além de seu rosto durante a execução da mesma, podemos ter a ideia, mesmo que limitada, do enorme grau de dificuldade de uma arte que exige precisão técnica nos passos ao mesmo tempo em que demanda um grande poder performático. Aliás, uma leitura alternativa possível pode levar o espectador a intuir que toda a trama de “Cisne Negro” é uma boa metáfora para a profissão de ator, a qual muitas vezes exige que seus profissionais lidem com emoções e sentimentos estranhos às suas próprias naturezas.


Neste ponto, é importante destacar que o filme não seria absolutamente nada sem a força das atuações. Todo o elenco está impecável (mesmo Vincent Cassel acaba deixando de lado sua tradicional canastrice). Entretanto, este é mesmo o papel da vida de Natalie Portman (pelo menos até agora, pois que ainda é bastante jovem), um daqueles trabalhos que serão lembrados mesmo após décadas. Imagino que ela deve ter-se sentido exaurida após um trabalho que exigiu uma dedicação gigantesca, não apenas no aspecto técnico (já que ela se dedicou verdadeiramente ao balé, emagrecendo vários quilos, mesmo que algumas cenas sejam realizadas por dublês), mas fundamentalmente no emocional. Caso venha de fato a receber o prêmio da Academia, será tão justo quanto foi a premiação de Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino ao Amor”. Ela só terá que tomar muito cuidado de agora em diante, pois nem todo mundo é um Marlon Brando capaz de interpretar ao menos uns cinco papéis inesquecíveis ao longo da carreira. As comparações com ela própria serão inevitáveis a partir deste ponto. Aliás, Aronofsky parece mesmo ser um mestre em conceber longas que possibilitem aos atores estas “epifanias”, tal como também ocorreu com Mickey Rourke no citado “O Lutador”.

Com tantos aspectos primorosos, é inevitável que o espectador embarque na trama, deixando-se levar pelos transtornos de Nina, mesmo que não seja uma experiência fácil ou agradável. Afinal, várias são as sequências fortes e impactantes (como a já polêmica cena de lesbianismo), o que pode levar muitos a rejeitarem o filme, principalmente o público feminino. Se, por um lado, Darren Aronofsky parece apresentar um desgastado tema apenas sob uma nova roupagem (mais “cabeça”, digamos assim) e surgindo até simplório em alguns momentos (ao associar sensualidade com desvios de caráter), por outro não se pode negar a força do resultado desta obra que se mostra singular em muitos aspectos. A verdade é que impossível acompanhar a projeção e restar indiferente a ela. Interessante perceber as reações da plateia ao fim da sessão, quando observei que muitos na sala em que assisti saíram com sorrisos nervosos aliados a um grande burburinho que demonstravam que não sabiam dizer exatamente o que tinham visto e se haviam gostado ou não da experiência. Confesso que sou um deles e, desta vez, vou me abster de atribuir uma cotação ou uma nota a este longa peculiar. Há filmes que apenas necessitam ser vistos, mesmo que você venha a gostar deles ou não.


Cotação e nota: abstenção.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Vencedor



Em família


O cineasta Darren Aronofsky terá dois concorrentes pelos quais torcer na cerimônia de entrega do Oscar no próximo dia 27. Diretor do aclamado “Cisne Negro” – que deve render a Natalie Portman o prêmio de melhor atriz – ele também foi o produtor executivo deste “O Vencedor”, um projeto antigo que o ator Mark Wahlberg sonhava em levar às telas (ele se preparou ao longo de 10 anos para o papel).

Na realidade, a mão de Aronofsky se faz bem mais presente do que a do diretor David O. Russel, o qual não havia realizado nada de muito relevante até este projeto (o que pode ser ainda lembrado é “Três Reis”). É possível que muitos identifiquem similaridades com "O Lutador", filme de Darren responsável pela ressurreição da carreira de Mickey Rourke e que narra a decadência de um outrora famoso atleta da luta livre norte-americana. Tal como neste longa, temos em “O Vencedor” um atleta que também teve seu momento de glória, mesmo que fugaz, um lutador de boxe que,em 1978, derrubou Sugar Ray Leonard no ringue, mesmo perdendo a luta depois. Dicky Ward (Christian Bale), mesmo após mais de uma década, ainda se vangloria deste feito, se auto-intitulando “o orgulho de Lowell”, bairro pobre de origem irlandesa localizado em Boston. Ele tem um irmão mais novo, Micky Ward (o papel de Wahlberg no filme), o qual possui muito talento para o boxe, mas é atrapalhado por Dicky e pelo restante de sua família problemática. Afinal, Dicky se tornou um viciado em crack e há muito deixou de ajudar o irmão. O maior problema é que ele não percebe isso e que seria melhor se afastar de Micky para que este pudesse se dedicar integralmente à carreira. Quem começa a dar um certo apoio necessário aos anseios de Micky (e também a fazê-lo enxergar o quanto sua família, mormente seu irmão mais velho, acabam sendo um obstáculo ao seu sucesso) é Charlene (Amy Adams), sua namorada que largou a faculdade e agora sobrevive como barwoman.

Assim, o longa (que é baseado em uma história real), antes de tratar sobre carreira ou o próprio boxe, é um filme sobre a família e de como esta pode acabar interferindo nos nossos rumos e resultados individuais. Entretanto, por mais que tentemos nos desvincular destas raízes, elas jamais nos deixarão e a única forma de nos realizarmos é procurando conciliar nossos anseios pessoais com as relações familiares, por mais que estas muitas vezes pareçam nos limitar. Em uma outra leitura, o filme nos mostra como, em muitas ocasiões, podemos criar ilusões sobre nós mesmos, atribuindo-nos uma condição que não possuímos. É o que sucede com Dicky, o qual se atribui uma condição de herói da família e da vizinhança que, em verdade, não possui. A sequência em que ele demonstra perceber esta realidade, cantando uma certa canção dos Bee Gees, por sinal, é brilhante, estando entre as mais memoráveis do cinema recente.

Obviamente, um filme que trata de família comumente necessita de um elenco que dê conta do recado. E é exatamente o caso aqui. Se Mark Wahlberg, um ator cheio de limitações, apenas chega a ser competente, Melissa Leo, no papel da mãe muitas vezes manipuladora e que demonstra uma preferência pelo irmão mais velho, está ótima, fazendo jus aos prêmios que já recebeu e à sua indicação ao Oscar. Da mesma forma, Amy Adams está muito bem como Charlene, conseguindo imprimir força e verdade à sua personagem. Contudo, quem rouba mesmo a cena é Christian Bale. Impressionante o seu mergulho em um personagem difícil, que é irresponsável sem ser exatamente maldoso e ao mesmo tempo apresentando leves distúrbios mentais, talvez resultado do consumo de drogas ou das pancadas do boxe. A verdade é que em nenhum momento ele se excede, com a uma atuação memorável que, caso de fato venha a receber o prêmio da Academia, será com inteira justiça (talvez por isso muitos votantes estejam deixando de lado os deslizes pessoais de Bale, como seus pitis em estúdios ou as acusações de agressão aos familiares que lhe exploram).

Acima, mencionei que é inegável o dedo de Aronofsky no projeto, mas não se pode também menosprezar a direção de Russell. Ele encontrou algumas soluções felizes para o desenvolvimento da trama, como mostrar as lutas de boxe com uma fotografia televisiva, uma forma de renovar o interesse do público nas cenas de luta, já muito repetidas nas telonas. O longa, ademais, nunca perde o ritmo, com uma edição caprichada e um roteiro muito bem adaptado, mesmo que não consiga fugir de alguns esquematismos necessários para envolver o público (afinal, não deixa de ser um produto de Hollywood).

Ou seja: “O Vencedor” é um filme redondo, com alguns momentos realmente marcantes como já mencionado, e que possui um mote que torna a narrativa de fácil apreensão e ligação com o grande público. Afinal, todos estamos inseridos em uma família, que, por melhor que seja, sempre terá seus problemas. Assim, torna-se quase impossível não se identificar de uma forma ou de outra com alguns dos dilemas apresentados. Além disso, acredito que todos nós já nos vimos divididos entre nossas realizações pessoais e o amor aos nossos entes mais próximos. Normalmente, não é fácil alcançar o equilíbrio. Este longa nos mostra que ele pode ser atingido e que buscá-lo é mesmo o melhor caminho.


Cotação:

Nota: 9,0

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Laura
(Laura)


Clássico do Noir


Você sabe o que foi o cinema “noir”? Ao contrário do que se pode pensar, o noir não foi um movimento de artistas ou teóricos que concebiam a criação cinematográfica de uma maneira semelhante (como aconteceu com a Nouvelle Vague francesa) ou com certas regras estilísticas predeterminadas e seguidas à risca por seus realizadores. Na realidade, os cineastas do gênero sequer sabiam que estavam fazendo cinema “noir”, já que este termo, usado pela primeira vez por um crítico francês em 1946 e adotado pelos críticos da revista Cahiérs Du Cinema (que posteriormente seriam os mestres da citada Nouvelle Vague), consolidou-se apenas anos depois que o gênero entrou em declínio. O Noir, em verdade, compreende um conjunto de filmes com características comuns que predominaram no cinema americano a partir do início dos anos 40 até meados da década de 50. Em geral, eram filmes de baixo orçamento, afinal, logo após a crise econômica dos anos 30, o mundo estava em guerra. Também eram voltados predominantemente ao entretenimento das massas, ávidas por filmes escapistas que lhes permitissem esquecer um pouco da dura realidade da época. Normalmente possuíam tramas de mistério sobre delitos ocorridos no submundo do crime e investigados por um detetive durão, com caráter não exatamente impecável, mas no fundo com um bom coração. Era comum tal protagonista envolver-se com uma mulher sedutora, de beleza estonteante, a qual frequentemente lhe trazia revezes (ou seja, o Noir praticamente criou o conceito de “mulher fatal”). Sua fotografia era invariavelmente em preto e branco de forte contraste, apta a realçar as sombras e fumaças de cigarro reinantes nos ambientes (muito do glamour do cigarro surgiu dentro desse estilo fílmico), uma influência do expressionismo alemão (“noir” significa “negro” em francês).

Embora se constitua um gênero predominantemente escapista, como dito acima, o Noir também nos revelou diretores excelentes, que souberam usar os roteiros muitas vezes esquemáticos para ir além e realizar verdadeiros estudos de personagens, revelando muito da alma humana através de suas obras. Um deles, indubitavelmente, foi Otto Preminger, um judeu austríaco que havia emigrado para os EUA após a ascensão do nazismo e que se transformou em um dos diretores mais profícuos e respeitados da Hollywood de então. Não que Preminger se dedicasse exclusivamente ao Noir, mas ele foi o responsável por um dos exemplares mais perfeitos e acabados do estilo: “Laura”, produção de 1944 protagonizada por Gene Tierney como a personagem-título.

O longa-metragem é uma adaptação do romance policial homônimo escrito por Vera Caspary e narra a investigação realizada pelo policial Mark McPherson (Dana Andrews) procurando elucidar a autoria do assassinato de Laura, morta com dois tiros de espingarda no rosto. Entre os maiores suspeitos estão o rico e influente jornalista Waldo Lydecker (o ator da Broadway Clifton Webb), o bon-vivant Shelby Carpenter (o jovem Vincent Price) e a socialite Ann Treadwell (Judith Anderson). Por meio do relato dos suspeitos, somos levados então a flashbacks (outra característica do Noir) que mostram como Laura deixou o anonimato para se tornar uma famosa designer, ao mesmo tempo em que percebemos que o detetive McPherson aos poucos vai se apaixonando pela falecida, descrita por todos como uma mulher encantadora e de beleza inigualável.


Costuma-se afirmar que filmes noir possuem enredo intrincado, mas “intrincado” talvez não seja o termo mais adequado para a trama deste magnífico “Laura”. Ele é bem elaborado e apresenta reviravoltas, mas jamais confunde ou entendia o espectador. Além disso, o trio de roteiristas responsável pela adaptação contou com o poeta Samuel Hoffenstein (além de Jay Dratler e Betty Reinhardt), o qual deu um refinamento aos diálogos todo especial, atribuindo-lhes qualidade verdadeiramente literária. Várias são as frases marcantes e memoráveis dos personagens, como a de Waldo Lydecker “nunca esquecerei o fim de semana em que Laura morreu. Eu me senti como o único ser humano que restou em Nova York”; ou ainda a de McPherson: “quando uma mulher é morta, ela não se preocupa com a aparência”. É um prazer acompanhá-los em falas tão inteligentes e instigantes, permitindo rever o filme com interesse sempre renovado.

As atuações, por sinal, merecem um parágrafo à parte. Gene Tierney parece ter nascido para o papel de Laura. Sua beleza excepcional torna perfeitamente crível o fato de tantos homens se apaixonarem por ela. Interessante que ela foi apenas a segunda opção de Preminger, uma vez que Tierney havia deixado o cinema por um ano para ser mãe. Sua grande popularidade, ademais, também foi um dos fatores que transformaram a produção em um sucesso de bilheteria. Por outro lado, Clifton Webb, que interpreta o cínico jornalista Lydecker, dá um show de interpretação, compensando o esforço de Preminger em escalá-lo, já que o então chefão da Fox, Darryl F. Zanuck, não gostava da opção devido aos boatos sobre a homossexualidade de Webb. A verdade é que o jornalista Waldo disputa as atenções da plateia com Laura. O personagem é inesquecível e sua obsessão por Laura adquire uma dupla conotação, pois que acabamos com a impressão de que o mesmo, na realidade, não é apenas apaixonado por Laura, mas talvez queira assumir sua vida, ser a própria adorada. Possivelmente o primeiro personagem masculino do cinema que deseja ser uma mulher. Além destes, Dana Andrews, Vincent Price e Judith Anderson também estão ótimos e perfeitamente encaixados em seus respectivos papeis.

Mas a série de acertos não para por aí. A fotografia primorosa de Joseph Lashelle, vencedora do Oscar, é belíssima, assim como a trilha sonora inesquecível e famosa de David Raksin. E, claro, tudo isso não seria nada sem a direção primorosa de Preminger. É bom lembrar que Rouben Mamoulian havia iniciado a direção do longa, enquanto Preminger tinha permanecido apenas na produção devido aos seus incontáveis atritos com Zanuck. Todavia, o próprio Zanuck não gostou do trabalho de Mamoulian e aceitou que o diretor austríaco tomasse as rédeas do projeto.

Não poderia haver decisão mais acertada. Otto Preminger transformou Laura em uma obra-prima, com um suspense capaz de prender a atenção mesmo das dispersivas platéias de hoje. Se você pretende iniciar uma apreciação do cinema noir, este sem dúvida é um ótimo começo. Se já é um iniciado e ainda não viu, saiba que este é um filme obrigatório do gênero. E se já assistiu, acredito que, após estas linhas, deve ter batido aquela vontade de rever este clássico. Por sinal, “clássico” é um termo que inegavelmente se aplica à perfeição em “Laura”.


Classificação e nota: Obra-prima.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Vai dar "O Discurso do Rei"!


Com a premiação de ontem à noite do Sindicato de Atores (Screen Actors Guild) não resta dúvida de que "O Discurso do Rei" se transformou no favorito ao Oscar de melhor produção de 2010. O longa levou os prêmios de melhor elenco e ator. A classe dos atores é a mais numerosa entre os votantes da Academia de Hollywood. Adiocione a isto os prêmios que o longa de Tom Hooper já levou do Sindicato dos Produtores e Diretores e fica difícil qualquer outro concorrente derrubá-lo, mesmo que este seja "A Rede Social", de David Fincher. Também já restam certas as estuetas carecas para Colin Firth, Natalie Portman, Christian Bale e Melissa Leo (vencedores do prêmio SAG nas categorias de ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante, respectivamente). Agora é só aguardar o dia 27 próximo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tom Hooper bateu David Fincher





E Tom Hooper, diretor de "O Discurso do Rei", levou o prêmio do Sindicato dos Diretores neste último sábado 29/01.Confesso que para mim foi uma premiação inesperada. Apostava minhas fichas em David Fincher,o qual mostra, mais uma vez, que pode não ser muito bem relacionado no seu meio. Em raras ocasiões a escolha do Director's Guild não foi confirmada pela Academia de Hollywood (seis vezes, mais precisamente). Bom lembrar também que o Sindicato dos Produtores já premiou "O Discurso do Rei" como melhor filme. Agora, com o prêmio dos diretores, que possuem enorme influência na Academia, não se pode negar que este filme da Weinstein Company se tornou o favorito para o Oscar. Hoje à noite teremos a premiação do Sindicato dos Atores (transmitido pela TNT)o que pode denotar mais uma tendência (mas os atores não têm prêmio de melhor filme e o prêmio para o elenco não significa muito neste sentido). Estou pressentindo que o Oscar pode retroceder uns 10 anos no tempo e premiar aqueles filmes dos Weinstein programadinhos para receber o prêmio máximo do cinema comercial. Uma pena...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Trilha Sonora #15


Quem já assistiu a "Apocalypse Now", uma da obras máximas do gênio Francis Ford Coppola, deve se lembrar de sua abertura impactante, ao som da voz inconfundível de Jim Morrison cantando "The End", uma das melhores canções do "The Doors". De arrepiar! Ouça abaixo!


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Rei sai na frente e o Brasil está no Oscar!


A premiação do Sindicato dos Produtores já havia dado a dica e, hoje, com suas 12 indicações, “O Discurso do Rei” assumiu ares de favorito ao Oscar 2011. No mínimo, deixou a corrida bem menos previsível do que se supunha há alguns dias, quando, diante dos repetidos prêmios para “A Rede Social”, a comunidade cinéfila já vinha considerando o filme de David Fincher imbatível. Por outro lado, é bem verdade que não existe nenhuma surpresa entre os 10 concorrentes ao prêmio de melhor filme. Algumas outras categorias, contudo, não foram tão previsíveis assim. Vamos aos indicados e respectivos comentários nas principais categorias, com grande destaque para o meio-brasileiro "Lixo Extraordinário".



Melhor filme

"Cisne Negro"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"
"Toy Story 3"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"O Vencedor"
"127 Horas"
"Minhas Mães e Meu Pai"
"Inverno da Alma"

- Como dito acima, muito previsível. Destaque apenas para a indicação merecida de “Toy Story 3”, na minha opinião o melhor filme do ano.


Melhor direção

Darren Aronofsky - "Cisne Negro"
David Fincher - "A Rede Social"
David O. Russell - "O Vencedor"
Tom Hooper - "O Discurso do Rei"
Joel Coen e Ethan Coen - "Bravura Indômita"


- Aqui a primeira injustiça notável. Onde está a indicação para Cristopher Nolan pelo seu ótimo “A Origem”? Não dá pra entender. Nada contra os irmãos Coen (nem preciso tecer adjetivos a eles), mas sua indicação está com cheiro de arrumadinho, pois é muito estranho pretender premiar alguém por uma refilmagem.


Melhor ator

Javier Bardem - "Biutiful"
Jeff Bridges - "Bravura Indômita"
Colin Firth - "O Discurso do Rei"
James Franco - "127 Horas"
Jesse Eisenberg - "A Rede Social"

- Uma boa surpresa a inclusão de Javier Bardem. A cada ano a Academia vem se mostrando mais atenta ao que é feito fora dos EUA. A indicação do ator espanhol vai nessa direção. De lamentar só mesmo a exclusão de Leonardo DiCaprio, desde já o grande injustiçado do ano.


Melhor atriz

Annette Bening - "Minhas Mães e Meu Pai"
Natalie Portman - "Cisne Negro"
Nicole Kidman - "Reencontrando a Felicidade"
Jennifer Lawrence - "Inverno da Alma"
Michelle Wiliams - "Blue Valentine"

- Muitos reclamarão da exclusão de Julliane Moore. De qualquer forma, vai dar Natalie Portman. Não aposte em zebra porque não vai acontecer. Obs: que título infeliz deram para o filme com Nicole Kidman, não?



Melhor ator coadjuvante

Geoffrey Rush - "O Discurso do Rei"
Christian Bale - "O Vencedor"
Jeremy Renner - "Atração Perigosa"
John Hawkes - "Inverno da Alma"
Mark Ruffalo - "Minhas Mães e Meu Pai"

- Fiquei surpreso com a exclusão de Andrew Garfield, na minha visão a melhor presença de “A Rede Social”. Por outro lado, ,muito boa a lembrança de Mark Rufallo, um ótimo ator que há tempos já merece um maior reconhecimento.


Melhor atriz coadjuvante

Melissa Leo - "O Vencedor"
Amy Adams - "O Vencedor"
Helena Bonham Carter - "O Discurso do Rei"
Hailee Steinfeld - "Bravura Indômita"
Jacki Weaver - "Animal Kingdom"

- Será que Julliane Moore poderia ter sido indicada aqui? Mas esta é a categoria provavelmente mais equilibrada entre todas.


Melhor roteiro original

"Cisne Negro"
"A Origem"
"Anotyher Year"
"O Vencedor"
"O Discurso do Rei"

- Chance para Nolan levar um prêmio por seu “A Origem”. Mas, tenho a impressão que devem estar com vontade de premiar “O Discurso do Rei” também nesta categoria, até porque o roteirista do filme também já sofreu com a gagueira.

Melhor roteiro adaptado

"127 Horas"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"
"Toy Story 3"
"Inverno da Alma"

Previsível e vai dar “A Rede Social”.


Melhor animação

"Toy Story 3"
"Como Treinar o Seu Dragão"
"O Mágico"

Você tem dúvidas de que "Toy Story 3" vai levar o prêmio?


Melhor documentário

"Lixo Extraordinário"
"Trabalho Interno"
"Exit Through the Gift Shop"
"Gasland"
"Restrepo"

Ah, aqui vale o destaque para o parcialmente brasileiro (é uma coprodução com o Reino Unido) “Lixo Extraordinário”, que tem como codiretores os nossos compatriotas João Jardim e Karen Harley. Como diria Galvão Bueno, “bem, amigo, é o Brasil no Oscar”. Até lá! Abaixo, seguem as demais categorias.


Melhor filme estrangeiro

"Fora da Lei" (Argélia)
"Incendies" (Canadá)
"Em Um Mundo Melhor" (Dinamarca)
"Dente Canino" (Grécia)
"Biutiful" (México)


Melhor trilha sonora

Hans Zimmer - "A Origem"
Trent Reznor e Atticus Ross - "A Rede Social"
Alexandre Desplat - "O Discurso do Rei"
John Powell - "Como Treinar o seu Dragão"
A.R. Rahman - "127 Horas"

Melhor canção original

"Coming Home" - "Country Strong"
"I See the Light" - "Enrolados"
"If I Rise" - "127 Horas"
"We Belong Together" - "Toy Story 3"

Melhor edição

"127 Horas"
"Cisne Negro"
"A Rede Social"
"O Discurso do Rei"
"O Vencedor"

Melhor fotografia

"A Origem"
"Cisne Negro"
"A Rede Social"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"

Melhor figurino

"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"Alice no País das Maravilhas"
"I am Love"
"The Tempest"

Melhor direção de arte

"Alice no País das Maravilhas"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I"

Melhor mixagem de som

"Salt"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"

Melhor edição de som

"Toy Story 3"
"Tron - O Legado"
"A Origem"
"Bravura Indômita"
"Incontrolável"

Melhor maquiagem

"O Lobisomem"
"Caminho da Liberdade"
"Minha Versão para o Amor"

Melhores efeitos visuais

"Além da Vida"
"A Origem"
"Homem de Ferro 2"
"Alice no País das Maravilhas"
"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I"

Melhor curta-metragem

"The Confession"
"The Crush"
"God of Love"
"Na Wewe"
"Wish 143"

Melhor documentário em curta-metragem

"Poster Girl"
"Strangers no More"
"Killing in the Name"
"Sun Come Up"
"The Warriors of Qiugang"

Melhor curta-metragem de animação

"Day & Night"
"Let's Pollute"
"The Lost Thing"
"The Gruffalo"
"Madagascar, Carnet de Voyage"

domingo, 23 de janeiro de 2011

Disputa em aberto para o Oscar 2011!


Nos meus comentários sobre o Globo de Ouro 2011, afirmei que o Oscar deste ano estava muito previsível, já que todas as premiações estavam seguindo a mesma linha, considerando "A Rede Social" como o melhor filme do ano. Pois bem, felizmente resolveram me contrariar.

No PGA (Producers Guild Awards), prêmio do Sindicato dos Produtores dos EUA, o laureado como melhor filme não foi o longa de David Fincher, mas "O Discurso do Rei", de Tom Hooper, longa que já vem rendendo a Colin Firth prêmios de melhor atuação (inclusive o Globo de Ouro). Uma bela tumultuada no meio de campo foi criada, já que, na maioria das ocasiões, o Oscar repete a tendência do Sindicato de Produtores. Entretanto, a categoria de melhor filme é a que costuma ser mais imprevisível, já que todos os integrantes da Academia votam nela (e não apenas produtores).

Creio que o embaralhamento será ainda maior, já que imagino ser bem difícil que o Sindicato de Diretores, que terá sua premiação no sábado 29, atribua a Tom Hooper a láurea de melhor diretor. E desde que foi criado, o prêmio de diretores raramente distoa do resultado no Oscar. E em poucas ocasiões o prêmio de melhor diretor no Oscar distoou do prêmio de melhor filme... Seria um barato que o Director's Guild premiasse Christopher Nolan por "A Origem", não? :=)

Carteza mesmo só o Oscar de melhor animação para "Toy Story 3", que também venceu agora no PGA.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



A Conversação
(The Conversation)



Dúvida e obsessão



Não há dúvidas que Francis Ford Coppola é um dos diretores mais importantes de todos os tempos, apesar de sua fase pouco inspirada dos últimos anos. Um dos precursores da “Nova Hollywood”, movimento que mudou a cara do cinema norte-americano para sempre, e responsável pela trilogia absoluta de “O Poderoso Chefão” (cujos dois primeiros filmes são obras-primas indiscutíveis), além de “Apocalypse Now”, outra obra de arte soberba, muitos não se recordam de algumas de suas “pequenas” pérolas. Talvez o melhor exemplo destes filmes de Coppola pouco lembrados seja “A Conversação”, um estudo sobre os meandros da mente humana quando carregada de culpa e dúvida.

No seu auge criativo, o diretor realizou o filme entre as duas primeiras partes da trilogia do Chefão, em 1974 (o que talvez explique seu relativo “esquecimento”). Extremamente provocativo, o longa representa muito bem a nascente paranoia estadunidense com o então recente caso de Watergate. Neste longa, Coppola narra a história de Harry Caul (com interpretação perfeita de Gene Hackman), um especialista em escutas investigativas. Em um de seus trabalhos, ouvindo o diálogo de um casal repleto de ruídos, ele acaba se deparando com a possibilidade de um iminente crime. Só que, para chegar a tal conclusão, ele não conta apenas com seu apuro profissional, mas também com sua imaginação, já perturbada por um caso anterior em que sua atuação possibilitou evento similar.

O mais instigante no desenvolvimento do roteiro e na condução de Coppola é que esses elementos não são jogados com facilidade para o espectador. Aos poucos vamos descobrindo a personalidade e as motivações de Harry, percebendo que o mesmo, talvez devido ao seu ofício, é um homem solitário, hermético, de poucos amigos, que parece ter como única diversão tocar o seu saxofone sozinho no seu apartamento. Ou será que foi sua personalidade que o levou a buscar um trabalho em que interage com as pessoas sem precisar se expor? Sem dúvida, um personagem misterioso e tridimensional. Seu pouco tato em relacionamentos se mostra de forma ainda mais clara quando é enganado por uma mulher em uma situação de fácil percepção. Além disso, à medida em que Harry progride em sua investigação, ele se afunda cada vez mais em seu isolamento, afastando até mesmo seu único amigo, Stan (interpretado por John Cazale, falecido precocemente), bem como imerge em uma dúvida terrível sobre a verdade do fatos que está acompanhando.


A solidão de Harry Caul, ademais, é realçada de forma brilhante pela direção de Coppola. Ele realiza aquele tipo de trabalho extremamente visual, onde a narrativa flui essencialmente através das imagens. O velho Hitchcock já ensinava que a melhor forma de provocar suspense é pelo meio imagético. Mas se enganam aqueles que podem pensar que os sons e diálogos assumem uma importância menor na trama. Afinal, é justamente a partir de sons captados que se estabelece o vértice do filme. Interessante como, ao longo da película, escutamos um mesmo diálogo repetidas vezes, mas, tal como o protagonista, jamais nos cansamos de ouvi-lo, além de também sermos instigados a descobrir a verdade por trás daquelas palavras. Por seu turno, a trilha sonora, de David Shire, se mostra melancólica, brilhante e marcante. São raros os filmes em que a trilha se encaixa tão bem na temática abordada, ressaltando ainda mais a solidão e obsessão do protagonista.

Visto hoje, décadas depois de seu lançamento, percebe-se o quanto este longa-metragem (que recebeu a Palma de Ouro em Cannes) não envelheceu. Afinal, voyeurismo e invasão de privacidade são temas mais do que nunca atuais. Suas influências são sentidas mesmo em obras recentes, como no também ótimo “A Vida dos Outros” (do alemão Florian Henckel von Donnersmarck). Estas obras perenes, que se lançam no tempo sem perder a sua atualidade, costumam ser fruto de talentos geniais. Inegavelmente, Francis Ford Coppola é um destes talentos.


Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

11 Comentários sobre o Globo de Ouro 2011


1º comentário: Rick Gervais não cheirou, nem fedeu. Nem prestei atenção direito no que ele falava. Soltou algumas piadinhas sem graça. Tão sem graça que nem percebi alguém rindo na platéia;

2º Comentário: Falando em bom-humor, Robert De Niro deu um show nesse ponto ao não se levar a sério, tirando piadas com a baixa qualidade dos filmes em que vem atuando nos últimos tempos;

3º Comentário: Falando em De Niro, sua homenagem foi, de longe, o melhor momento da noite. Ele é ídolo de muitos daqueles presentes ao evento e isso ficou claro quando a câmera mostrou Tom Hanks com lágrimas nos olhos. E eu estou falando de Tom Hanks...

4º Comentário: Eu imaginava que até pudesse haver um certo equilíbrio entre “A Rede Social” e “A Origem”, mas nem isso...

5º Comentário: Natalie Portman vai ganhar o Oscar de melhor atriz. Não adianta Annette Bening sonhar, mesmo tendo vencido o prêmio em comédia/musical. A Academia privilegia papeis de forte carga dramática, especialmente quando o ator/atriz teve que mergulhar em um universo distinto do seu, alterando seu peso, fazendo pesquisas e outras coisas do gênero;

6º Comentário: Sei que muitos elogiaram o papel que deu a Al Pacino o prêmio de ontem, mas é sempre lamentável perceber que Pacino voltou a ser premiado com um trabalho para a TV. É ruim para o cinema e ruim pra ele;

7º Comentário: As indicações para “O Turista” tiveram como única finalidade levar o casal Branjolie para a cerimônia, além de Johnny Depp, e assim garantir uns pontos a mais na audiência;

8º Comentário: “A Origem” saiu de mãos abanando no Globo de Ouro, mas no Oscar, como consolação, deve levar o prêmio de roteiro original;

9º Comentário: O melhor filme do ano só levou o prêmio de melhor animação;

10º Comentário: O Oscar deste ano está mais previsível do que enchentes no mês de janeiro*.

Último comentário: todo ano a TNT escala aquela péssima apresentadora/tradutora para a entrega destes prêmios. Não tem ninguém melhor?


*aproveitando a deixa: ajude as vítimas das enchentes no Rio de Janeiro. Estes seres humanos estão passando por momentos de verdadeiro horror. Contribua com o que puder!