sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quero Ver Novamente #10

Na recente resenha sobre "Meu Ódio Será Sua Herança", comentei que o diretor Sam Peckinpah, em termos cinematográficos, foi uma espécie de avô de Quentin Tarantino. E não tem jeito: sempre que lembro de Tarantino, lembro de sua saga "Kill Bill", um filme dividido em duas partes (vols. 1 e 2) simplesmente espetacular. Na minha opinião, sua grande obra até aqui. Nunca canso de vê-la. A cena abaixo, que mostra a Noiva (Uma Thurman) escapando da cova onde foi enterrada viva por Budd (Michael Madsen), já no vol. 2, é cinema em estado de graça! Realmente, poucos dirigem tão bem quanto Tarantino no cinema contemporâneo. Sensacional!


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva



Meu Ódio Será Sua Herança
(The Wild Bunch)



Quando os brutos se tornam heróis


“Meu Ódio Será Sua Herança” possui uma sequência de créditos iniciais das mais marcantes que já tive a oportunidade de ver. Nela, um grupo de foras-da-lei, disfarçados com uniformes do exército norte-americano, avança calmamente a cavalo pelas ruas de um lugarejo poeirento próximo à fronteira dos EUA com o México. A imagem da cavalgada dos bandidos é entrecortada por outra, mostrando um grupo de crianças em uma rua próxima rindo com uma brincadeira cruel: elas assistem a escorpiões sendo devorados em um ninho de formigas vermelhas. A imagem, que foi sugerida por um dos integrantes do elenco, o ator mexicano Emilio Fernández, apresenta uma perfeita similaridade com o roteiro desenvolvido, constituindo uma metáfora interessantíssima para o desfecho deste impactante filme dirigido por Sam Peckinpah.

Peckinpah foi uma espécie de precursor da hiperviolência nas telas de cinema, um ancestral de Quentin Tarantino que estourou no final dos anos 60, quando todo o cinema americano, vale dizer, passava por transformações significativas. É possível, inclusive, que ele tenha sido o primeiro diretor a filmar a morte em câmera lenta, mostrando toda a dor dos personagens no momento em que são alvejados, em cenas dignas de tragédias operísticas. Contudo, tanto uma parte do público quanto a crítica não entenderam o seu cinema. Muitos consideravam gratuita e sensacionalista a violência de suas obras, com jorros de sangue voando para todos os lados. Roger Ebert, o famoso crítico norte-americano, afirma que a reação causada por “The Wild Bunch” foi similar àquela provocada, décadas depois, por “O Clube da Luta”, longa de David Fincher também muito criticado por adotar a hiperviolência como sustentáculo da obra. Entretanto, se é verdade que o filme de Fincher é muitíssimo violento, não se pode negar o seu valor enquanto obra vanguardista e questionadora, bem como representativa de um contexto sociocultural perfeitamente retratado em suas entrelinhas. E, do mesmo modo, pode-se afirmar que o filme de Peckinpah apresenta tais características.

“Meu Ódio...” é um faroeste crepuscular, narrando a saga de um grupo de assaltantes que se encontra próximo do fim. Seu líder, Pike Bishop (o astro William Holden) já está avançando na idade e cansado demais para continuar em uma vida repleta de perigos. Ademais, ele percebe que os tempos estão mudando. O ano é o de 1913, quando o automóvel começa aos poucos a fazer parte da paisagem ianque e o Estado já está se fazendo presente mesmo em rincões afastados do Oeste. Empresários e banqueiros, por seu turno, dispõem cada vez mais de recursos para proteger seus bens, tornando ainda mais perigosa e difícil a vida de assaltantes com ele. Pike, então, juntamente com seus companheiros Dutch Engstrom (Ernest Borgnine, recentemente homenageado no SAG), o velho e espirituoso Freddie Sykes (Edmond O’brien), o índio passional Angel (Jaime Sanchez), além dos irmãos crianças-grandes Lyle e Tector Gorch (Warren Oates e Bem Johnson, respectivamente), decide realizar um último golpe antes da aposentadoria: roubar uma carga de armas do exército americano, a mando do general paramilitar Mapache (Emilio Fernández, já mencionado mais acima). Por sua vez, o caçador de recompensas Deke Thornton (Robert Ryan) lidera um outro grupo que persegue o bando de Pike, grupo este formado por homens que se comportam como urubus ou hienas, se apropriando dos despojos dos mortos. Pike e Thornton, vale salientar, já foram amigos no passado, fazendo parte do mesmo bando.

Enganam-se aqueles que possam pensar que o longa se limita a um bangue-bangue bem encenado. Os personagens de Pike e Thornton são muito bem interpretados tanto por Holden quanto por Ryan, os quais conferem às suas interpretações uma forte carga interna. São homens que demonstram ciência de que seu tempo já passou, de que o fim está próximo, carregando nas costas o peso de uma vida errática e repleta de remorsos. Neste ponto, são ancestrais de Bill Munny, personagem de Clint Eastwood no seu antológico “Os Imperdoáveis”. É ainda importante salientar que o maniqueísmo passa longe da abordagem de Peckinpah. Se, por um lado, não deixamos de enxergar a crueldade dos membros do bando em certos momentos, em outros percebemos que os mesmos possuem uma ética própria, um senso de companheirismo que os leva a um desfecho trágico e, porque não dizer, também heróico. Até mesmo os piores facínoras podem ter um momento de redenção, parece nos dizer o diretor. Em outra vertente, porém, é de se lamentar uma certa misoginia na película, vez que as mulheres são sempre mostradas ora como prostitutas, ora tendo caráter duvidoso, o que pode acabar por trazer um certa rejeição do público feminino.


Extremamente bem fotografado e editado, esse western faz jus aos filmes de Sergio Leone no trato imagético. Uma profusão de sequências impressionantes é vista na tela, como a do tiroteio no centro da cidade em meio a uma passeata contra o uso de álcool, logo no início do filme (cena que tem um gosto peculiar para o alcoólatra Peckinpah), ou ainda a do assalto ao trem com a carga de armas. E isso pra não falar da mítica imagem em que os quatro integrantes restantes do grupo adentram um vilarejo com a altivez e consciência de que, na realidade, devem estar se dirigindo ao encontro da morte.

É intrigante como “Meu Ódio Será Sua Herança”, ao tratar do fim da era histórica do Velho Oeste, acabou também por simbolizar o fim de uma era no cinema, aquela controlada pelos estúdios (o “studio system”), e substituída pelo novo mundo dos diretores, surgido com os artífices da Nova Hollywood. Enfim, um filme que acabou se tornando o marco de uma transição. Curioso que, daí em diante, Sam Peckinpah tenha alternado sucessos e fracassos também em gêneros distintos, mas hoje seja lembrado principalmente pelos seus westerns. Ou seja, acabou desenvolvendo sua carreira tendo como base um gênero moribundo, tal como eram moribundos os tempos retratados neste seu longa-metragem que testou limites e influenciou decisivamente a estética do cinema norte-americano posterior. Não estranharei se um dia Quentin Tarantino acabar realizando um remake deste longa. Fará bastante sentido.


Cotação:

Nota: 9,5

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Tropa de Elite 2" é exibido em Berlim


Enquanto está todo mundo preocupado com a entrega do Oscar no próximo dia 27, é bom lembrar que está rolando desde quinta-feira a 61ª edição do Festival de Berlim. E ontem foi exibido, na mostra Panorama, o segundo "Tropa de Elite", na gigantesca sala do Friedrichstadtpalast, de 1.800 lugares. Ela estava cerca de 70% ocupada para a primeira sessão oficial do filme, no início da noite desta sexta-feira (11/02).

O diretor José Padilha subiu ao palco para agradecer a presença de todos e à organização da seção Panorama antes do inicio da sessão. A plateia, com boa parte de brasileiros, caiu na risada quando apareceu o nome da uma marca de cerveja como patrocinadora do longa.

Ao final, “Tropa de Elite 2” foi muito aplaudido durante 3 minutos. Os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro subiram ao palco para agradecer a recepção. Wagner foi muito requisitado para tirar fotos com os fãs. Só não dá pra entender porque o longa ficou fora da competição principal pelo Urso de Ouro, já que o primeiro longa levou o prêmio...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cisne Negro


Assistir é preciso


Quando observada com atenção, a carreira de um cineasta pode revelar algumas de suas obsessões, manias ou simplesmente temas que gosta de abordar. Interessante que uma das primeiras impressões que tive de “Cisne Negro” foi a de que seu diretor, Darren Aronofsky, possui uma certa cisma com autoflagelação. A personagem central, a bailarina Nina Sayers (Natalie Portman), é adepta inconsciente desta prática, assim como o protagonista Randy, de “O Lutador” (filme anterior do diretor), também era adepto da mesma, só que neste caso de forma consciente. Além disso, Nina pratica, ao longo de toda a projeção do longa indicado a 5 Oscars, uma espécie de autoflagelação psicológica ao se determinar a incorporar uma personagem distante de sua própria essência. Sua tortura, ademais, é complementada pelo controle da mãe super-protetora (Barbara Hershey) e consequentemente opressora, a qual também foi bailarina e vê na filha uma chance de sucesso que não conseguiu obter, e as imposições tirânicas e cínicas do diretor e produtor do balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel).

É aqui, por outro lado, que reside o cerne deste trabalho perturbador de Aronofsky. Nina ambiciona o papel central da nova montagem de “O Lago dos Cisnes”, o clássico de Tchaikovsky que narra a estória de uma princesa transformada por um encanto em um cisne branco. Para libertá-la do feitiço, é necessário que um príncipe se case com ela. Entretanto, o príncipe acaba seduzido e casando com o cisne negro, irmã do cisne branco, levando esta última, em um ato de desespero, ao suicídio, atirando-se do penhasco. Só que, na montagem planejada pelo diretor Leroy, cisne branco e negro serão interpretados pela mesma bailarina. Para conseguir o papel de protagonista (após a aposentadoria forçada da principal integrante da companhia, interpretada por Wynona Rider-ressurgindo-das-cinzas), Nina então terá de despertar em si aspectos humanos que parecem não lhe pertencer ou estarem reprimidos ao longo dos anos.

Muitos podem atirar pedras na comparação que farei agora, mas essa temática do despertar do “lado negro” já se tornou um tanto cansada no cinema depois de toda a longa série “Star Wars”, que é por muitos vista apenas como filmes rasos que proporcionam uma boa diversão. A saga de Anakin Skywalker trata exatamente deste embate entre o bem e o mal que existe em cada ser humano, conflito este que, ademais, está na base de todas as religiões. Talvez a diferença entre Nina e Anakin esteja no fato de que a primeira deseja ardentemente despertar este seu lado adormecido, enquanto Anakin luta para dominá-lo, mas, eventualmente, acaba sendo vencido pelas circunstâncias que insuflam a sua vertente perversa.


Vale dizer, ademais, que Aronofsky flerta perigosamente com um certo conservadorismo ao deixar nítida a relação entre o lado obscuro e a sexualidade. Nina, possivelmente virgem, é recatada e infantilizada pela mãe (basta observar os detalhes de seu quarto rosa) e sua maior dificuldade em interpretar o cisne negro reside justamente em transmitir uma sensualidade necessária à sua interpretação na dança. A ideia de que sensualidade e maldade estão necessariamente ligadas parece percorrer toda a trama, como se não fosse possível Nina desenvolver melhor sua sexualidade sem despertar aspectos “nefastos” do seu ser. Essa posição de Aronofsky se torna ainda mais nítida com a inclusão da personagem Lilly (Mila Kunis), a rival na disputa pelo papel de cisne branco/negro. Ela se mostra como o natural “cisne negro” da narrativa, com uma sensualidade espontânea, mas também com um caráter dúbio e escorregadio, induzindo Nina, por vezes, a um hedonismo permeado por excessos. Aliás, se à primeira vista a narrativa se mostra confusa e quase indecifrável, com um olhar mais detido percebe-se que estamos diante de uma alegoria em que Leroy, o diretor da montagem, é o príncipe que irá retirar Nina se sua condição de “cisne”, uma bailarina de menor destaque, para a condição de “princesa”, ou seja, a estrela da companhia. Ela então se vê ameaçada por Lilly (teria alguma relação com Lilith, a primeira mulher de Adão?), “o cisne negro” que também quer a condição de princesa e usa suas armas de sedução par atingir tal objetivo. Ou seja, pode soar até como um paradoxo, mas Aronofsky resvala no maniqueísmo ao querer investigar as forças obscuras que existem nas entranhas de cada um.

À parte a existência de um determinado cansaço da temática e da abordagem dotada talvez de um rígido conservadorismo, Darren demonstra mais uma vez ser dotado de um talento ímpar para dirigir filmes. O longa-metragem é tecnicamente perfeito. A forma com a qual o roteiro é desenvolvido (escrito por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin), auxiliado por suas fotografia e edição, imprime ao filme um ritmo e clima oníricos, fazendo o público muitas vezes ter dúvidas sobre o que está realmente acontecendo e estabelecendo um horror psicológico cujas raízes remontam a “O Bebê de Rosemary”, clássico de Roman Polansky. O aspecto fotográfico, de autoria de Matthew Libatique, talvez seja, deveras, o mais brilhante. Com alguns closes nos pés da bailarina durante a dança, além de seu rosto durante a execução da mesma, podemos ter a ideia, mesmo que limitada, do enorme grau de dificuldade de uma arte que exige precisão técnica nos passos ao mesmo tempo em que demanda um grande poder performático. Aliás, uma leitura alternativa possível pode levar o espectador a intuir que toda a trama de “Cisne Negro” é uma boa metáfora para a profissão de ator, a qual muitas vezes exige que seus profissionais lidem com emoções e sentimentos estranhos às suas próprias naturezas.


Neste ponto, é importante destacar que o filme não seria absolutamente nada sem a força das atuações. Todo o elenco está impecável (mesmo Vincent Cassel acaba deixando de lado sua tradicional canastrice). Entretanto, este é mesmo o papel da vida de Natalie Portman (pelo menos até agora, pois que ainda é bastante jovem), um daqueles trabalhos que serão lembrados mesmo após décadas. Imagino que ela deve ter-se sentido exaurida após um trabalho que exigiu uma dedicação gigantesca, não apenas no aspecto técnico (já que ela se dedicou verdadeiramente ao balé, emagrecendo vários quilos, mesmo que algumas cenas sejam realizadas por dublês), mas fundamentalmente no emocional. Caso venha de fato a receber o prêmio da Academia, será tão justo quanto foi a premiação de Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino ao Amor”. Ela só terá que tomar muito cuidado de agora em diante, pois nem todo mundo é um Marlon Brando capaz de interpretar ao menos uns cinco papéis inesquecíveis ao longo da carreira. As comparações com ela própria serão inevitáveis a partir deste ponto. Aliás, Aronofsky parece mesmo ser um mestre em conceber longas que possibilitem aos atores estas “epifanias”, tal como também ocorreu com Mickey Rourke no citado “O Lutador”.

Com tantos aspectos primorosos, é inevitável que o espectador embarque na trama, deixando-se levar pelos transtornos de Nina, mesmo que não seja uma experiência fácil ou agradável. Afinal, várias são as sequências fortes e impactantes (como a já polêmica cena de lesbianismo), o que pode levar muitos a rejeitarem o filme, principalmente o público feminino. Se, por um lado, Darren Aronofsky parece apresentar um desgastado tema apenas sob uma nova roupagem (mais “cabeça”, digamos assim) e surgindo até simplório em alguns momentos (ao associar sensualidade com desvios de caráter), por outro não se pode negar a força do resultado desta obra que se mostra singular em muitos aspectos. A verdade é que impossível acompanhar a projeção e restar indiferente a ela. Interessante perceber as reações da plateia ao fim da sessão, quando observei que muitos na sala em que assisti saíram com sorrisos nervosos aliados a um grande burburinho que demonstravam que não sabiam dizer exatamente o que tinham visto e se haviam gostado ou não da experiência. Confesso que sou um deles e, desta vez, vou me abster de atribuir uma cotação ou uma nota a este longa peculiar. Há filmes que apenas necessitam ser vistos, mesmo que você venha a gostar deles ou não.


Cotação e nota: abstenção.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Vencedor



Em família


O cineasta Darren Aronofsky terá dois concorrentes pelos quais torcer na cerimônia de entrega do Oscar no próximo dia 27. Diretor do aclamado “Cisne Negro” – que deve render a Natalie Portman o prêmio de melhor atriz – ele também foi o produtor executivo deste “O Vencedor”, um projeto antigo que o ator Mark Wahlberg sonhava em levar às telas (ele se preparou ao longo de 10 anos para o papel).

Na realidade, a mão de Aronofsky se faz bem mais presente do que a do diretor David O. Russel, o qual não havia realizado nada de muito relevante até este projeto (o que pode ser ainda lembrado é “Três Reis”). É possível que muitos identifiquem similaridades com "O Lutador", filme de Darren responsável pela ressurreição da carreira de Mickey Rourke e que narra a decadência de um outrora famoso atleta da luta livre norte-americana. Tal como neste longa, temos em “O Vencedor” um atleta que também teve seu momento de glória, mesmo que fugaz, um lutador de boxe que,em 1978, derrubou Sugar Ray Leonard no ringue, mesmo perdendo a luta depois. Dicky Ward (Christian Bale), mesmo após mais de uma década, ainda se vangloria deste feito, se auto-intitulando “o orgulho de Lowell”, bairro pobre de origem irlandesa localizado em Boston. Ele tem um irmão mais novo, Micky Ward (o papel de Wahlberg no filme), o qual possui muito talento para o boxe, mas é atrapalhado por Dicky e pelo restante de sua família problemática. Afinal, Dicky se tornou um viciado em crack e há muito deixou de ajudar o irmão. O maior problema é que ele não percebe isso e que seria melhor se afastar de Micky para que este pudesse se dedicar integralmente à carreira. Quem começa a dar um certo apoio necessário aos anseios de Micky (e também a fazê-lo enxergar o quanto sua família, mormente seu irmão mais velho, acabam sendo um obstáculo ao seu sucesso) é Charlene (Amy Adams), sua namorada que largou a faculdade e agora sobrevive como barwoman.

Assim, o longa (que é baseado em uma história real), antes de tratar sobre carreira ou o próprio boxe, é um filme sobre a família e de como esta pode acabar interferindo nos nossos rumos e resultados individuais. Entretanto, por mais que tentemos nos desvincular destas raízes, elas jamais nos deixarão e a única forma de nos realizarmos é procurando conciliar nossos anseios pessoais com as relações familiares, por mais que estas muitas vezes pareçam nos limitar. Em uma outra leitura, o filme nos mostra como, em muitas ocasiões, podemos criar ilusões sobre nós mesmos, atribuindo-nos uma condição que não possuímos. É o que sucede com Dicky, o qual se atribui uma condição de herói da família e da vizinhança que, em verdade, não possui. A sequência em que ele demonstra perceber esta realidade, cantando uma certa canção dos Bee Gees, por sinal, é brilhante, estando entre as mais memoráveis do cinema recente.

Obviamente, um filme que trata de família comumente necessita de um elenco que dê conta do recado. E é exatamente o caso aqui. Se Mark Wahlberg, um ator cheio de limitações, apenas chega a ser competente, Melissa Leo, no papel da mãe muitas vezes manipuladora e que demonstra uma preferência pelo irmão mais velho, está ótima, fazendo jus aos prêmios que já recebeu e à sua indicação ao Oscar. Da mesma forma, Amy Adams está muito bem como Charlene, conseguindo imprimir força e verdade à sua personagem. Contudo, quem rouba mesmo a cena é Christian Bale. Impressionante o seu mergulho em um personagem difícil, que é irresponsável sem ser exatamente maldoso e ao mesmo tempo apresentando leves distúrbios mentais, talvez resultado do consumo de drogas ou das pancadas do boxe. A verdade é que em nenhum momento ele se excede, com a uma atuação memorável que, caso de fato venha a receber o prêmio da Academia, será com inteira justiça (talvez por isso muitos votantes estejam deixando de lado os deslizes pessoais de Bale, como seus pitis em estúdios ou as acusações de agressão aos familiares que lhe exploram).

Acima, mencionei que é inegável o dedo de Aronofsky no projeto, mas não se pode também menosprezar a direção de Russell. Ele encontrou algumas soluções felizes para o desenvolvimento da trama, como mostrar as lutas de boxe com uma fotografia televisiva, uma forma de renovar o interesse do público nas cenas de luta, já muito repetidas nas telonas. O longa, ademais, nunca perde o ritmo, com uma edição caprichada e um roteiro muito bem adaptado, mesmo que não consiga fugir de alguns esquematismos necessários para envolver o público (afinal, não deixa de ser um produto de Hollywood).

Ou seja: “O Vencedor” é um filme redondo, com alguns momentos realmente marcantes como já mencionado, e que possui um mote que torna a narrativa de fácil apreensão e ligação com o grande público. Afinal, todos estamos inseridos em uma família, que, por melhor que seja, sempre terá seus problemas. Assim, torna-se quase impossível não se identificar de uma forma ou de outra com alguns dos dilemas apresentados. Além disso, acredito que todos nós já nos vimos divididos entre nossas realizações pessoais e o amor aos nossos entes mais próximos. Normalmente, não é fácil alcançar o equilíbrio. Este longa nos mostra que ele pode ser atingido e que buscá-lo é mesmo o melhor caminho.


Cotação:

Nota: 9,0

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Laura
(Laura)


Clássico do Noir


Você sabe o que foi o cinema “noir”? Ao contrário do que se pode pensar, o noir não foi um movimento de artistas ou teóricos que concebiam a criação cinematográfica de uma maneira semelhante (como aconteceu com a Nouvelle Vague francesa) ou com certas regras estilísticas predeterminadas e seguidas à risca por seus realizadores. Na realidade, os cineastas do gênero sequer sabiam que estavam fazendo cinema “noir”, já que este termo, usado pela primeira vez por um crítico francês em 1946 e adotado pelos críticos da revista Cahiérs Du Cinema (que posteriormente seriam os mestres da citada Nouvelle Vague), consolidou-se apenas anos depois que o gênero entrou em declínio. O Noir, em verdade, compreende um conjunto de filmes com características comuns que predominaram no cinema americano a partir do início dos anos 40 até meados da década de 50. Em geral, eram filmes de baixo orçamento, afinal, logo após a crise econômica dos anos 30, o mundo estava em guerra. Também eram voltados predominantemente ao entretenimento das massas, ávidas por filmes escapistas que lhes permitissem esquecer um pouco da dura realidade da época. Normalmente possuíam tramas de mistério sobre delitos ocorridos no submundo do crime e investigados por um detetive durão, com caráter não exatamente impecável, mas no fundo com um bom coração. Era comum tal protagonista envolver-se com uma mulher sedutora, de beleza estonteante, a qual frequentemente lhe trazia revezes (ou seja, o Noir praticamente criou o conceito de “mulher fatal”). Sua fotografia era invariavelmente em preto e branco de forte contraste, apta a realçar as sombras e fumaças de cigarro reinantes nos ambientes (muito do glamour do cigarro surgiu dentro desse estilo fílmico), uma influência do expressionismo alemão (“noir” significa “negro” em francês).

Embora se constitua um gênero predominantemente escapista, como dito acima, o Noir também nos revelou diretores excelentes, que souberam usar os roteiros muitas vezes esquemáticos para ir além e realizar verdadeiros estudos de personagens, revelando muito da alma humana através de suas obras. Um deles, indubitavelmente, foi Otto Preminger, um judeu austríaco que havia emigrado para os EUA após a ascensão do nazismo e que se transformou em um dos diretores mais profícuos e respeitados da Hollywood de então. Não que Preminger se dedicasse exclusivamente ao Noir, mas ele foi o responsável por um dos exemplares mais perfeitos e acabados do estilo: “Laura”, produção de 1944 protagonizada por Gene Tierney como a personagem-título.

O longa-metragem é uma adaptação do romance policial homônimo escrito por Vera Caspary e narra a investigação realizada pelo policial Mark McPherson (Dana Andrews) procurando elucidar a autoria do assassinato de Laura, morta com dois tiros de espingarda no rosto. Entre os maiores suspeitos estão o rico e influente jornalista Waldo Lydecker (o ator da Broadway Clifton Webb), o bon-vivant Shelby Carpenter (o jovem Vincent Price) e a socialite Ann Treadwell (Judith Anderson). Por meio do relato dos suspeitos, somos levados então a flashbacks (outra característica do Noir) que mostram como Laura deixou o anonimato para se tornar uma famosa designer, ao mesmo tempo em que percebemos que o detetive McPherson aos poucos vai se apaixonando pela falecida, descrita por todos como uma mulher encantadora e de beleza inigualável.


Costuma-se afirmar que filmes noir possuem enredo intrincado, mas “intrincado” talvez não seja o termo mais adequado para a trama deste magnífico “Laura”. Ele é bem elaborado e apresenta reviravoltas, mas jamais confunde ou entendia o espectador. Além disso, o trio de roteiristas responsável pela adaptação contou com o poeta Samuel Hoffenstein (além de Jay Dratler e Betty Reinhardt), o qual deu um refinamento aos diálogos todo especial, atribuindo-lhes qualidade verdadeiramente literária. Várias são as frases marcantes e memoráveis dos personagens, como a de Waldo Lydecker “nunca esquecerei o fim de semana em que Laura morreu. Eu me senti como o único ser humano que restou em Nova York”; ou ainda a de McPherson: “quando uma mulher é morta, ela não se preocupa com a aparência”. É um prazer acompanhá-los em falas tão inteligentes e instigantes, permitindo rever o filme com interesse sempre renovado.

As atuações, por sinal, merecem um parágrafo à parte. Gene Tierney parece ter nascido para o papel de Laura. Sua beleza excepcional torna perfeitamente crível o fato de tantos homens se apaixonarem por ela. Interessante que ela foi apenas a segunda opção de Preminger, uma vez que Tierney havia deixado o cinema por um ano para ser mãe. Sua grande popularidade, ademais, também foi um dos fatores que transformaram a produção em um sucesso de bilheteria. Por outro lado, Clifton Webb, que interpreta o cínico jornalista Lydecker, dá um show de interpretação, compensando o esforço de Preminger em escalá-lo, já que o então chefão da Fox, Darryl F. Zanuck, não gostava da opção devido aos boatos sobre a homossexualidade de Webb. A verdade é que o jornalista Waldo disputa as atenções da plateia com Laura. O personagem é inesquecível e sua obsessão por Laura adquire uma dupla conotação, pois que acabamos com a impressão de que o mesmo, na realidade, não é apenas apaixonado por Laura, mas talvez queira assumir sua vida, ser a própria adorada. Possivelmente o primeiro personagem masculino do cinema que deseja ser uma mulher. Além destes, Dana Andrews, Vincent Price e Judith Anderson também estão ótimos e perfeitamente encaixados em seus respectivos papeis.

Mas a série de acertos não para por aí. A fotografia primorosa de Joseph Lashelle, vencedora do Oscar, é belíssima, assim como a trilha sonora inesquecível e famosa de David Raksin. E, claro, tudo isso não seria nada sem a direção primorosa de Preminger. É bom lembrar que Rouben Mamoulian havia iniciado a direção do longa, enquanto Preminger tinha permanecido apenas na produção devido aos seus incontáveis atritos com Zanuck. Todavia, o próprio Zanuck não gostou do trabalho de Mamoulian e aceitou que o diretor austríaco tomasse as rédeas do projeto.

Não poderia haver decisão mais acertada. Otto Preminger transformou Laura em uma obra-prima, com um suspense capaz de prender a atenção mesmo das dispersivas platéias de hoje. Se você pretende iniciar uma apreciação do cinema noir, este sem dúvida é um ótimo começo. Se já é um iniciado e ainda não viu, saiba que este é um filme obrigatório do gênero. E se já assistiu, acredito que, após estas linhas, deve ter batido aquela vontade de rever este clássico. Por sinal, “clássico” é um termo que inegavelmente se aplica à perfeição em “Laura”.


Classificação e nota: Obra-prima.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Vai dar "O Discurso do Rei"!


Com a premiação de ontem à noite do Sindicato de Atores (Screen Actors Guild) não resta dúvida de que "O Discurso do Rei" se transformou no favorito ao Oscar de melhor produção de 2010. O longa levou os prêmios de melhor elenco e ator. A classe dos atores é a mais numerosa entre os votantes da Academia de Hollywood. Adiocione a isto os prêmios que o longa de Tom Hooper já levou do Sindicato dos Produtores e Diretores e fica difícil qualquer outro concorrente derrubá-lo, mesmo que este seja "A Rede Social", de David Fincher. Também já restam certas as estuetas carecas para Colin Firth, Natalie Portman, Christian Bale e Melissa Leo (vencedores do prêmio SAG nas categorias de ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante, respectivamente). Agora é só aguardar o dia 27 próximo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tom Hooper bateu David Fincher





E Tom Hooper, diretor de "O Discurso do Rei", levou o prêmio do Sindicato dos Diretores neste último sábado 29/01.Confesso que para mim foi uma premiação inesperada. Apostava minhas fichas em David Fincher,o qual mostra, mais uma vez, que pode não ser muito bem relacionado no seu meio. Em raras ocasiões a escolha do Director's Guild não foi confirmada pela Academia de Hollywood (seis vezes, mais precisamente). Bom lembrar também que o Sindicato dos Produtores já premiou "O Discurso do Rei" como melhor filme. Agora, com o prêmio dos diretores, que possuem enorme influência na Academia, não se pode negar que este filme da Weinstein Company se tornou o favorito para o Oscar. Hoje à noite teremos a premiação do Sindicato dos Atores (transmitido pela TNT)o que pode denotar mais uma tendência (mas os atores não têm prêmio de melhor filme e o prêmio para o elenco não significa muito neste sentido). Estou pressentindo que o Oscar pode retroceder uns 10 anos no tempo e premiar aqueles filmes dos Weinstein programadinhos para receber o prêmio máximo do cinema comercial. Uma pena...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Trilha Sonora #15


Quem já assistiu a "Apocalypse Now", uma da obras máximas do gênio Francis Ford Coppola, deve se lembrar de sua abertura impactante, ao som da voz inconfundível de Jim Morrison cantando "The End", uma das melhores canções do "The Doors". De arrepiar! Ouça abaixo!


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Rei sai na frente e o Brasil está no Oscar!


A premiação do Sindicato dos Produtores já havia dado a dica e, hoje, com suas 12 indicações, “O Discurso do Rei” assumiu ares de favorito ao Oscar 2011. No mínimo, deixou a corrida bem menos previsível do que se supunha há alguns dias, quando, diante dos repetidos prêmios para “A Rede Social”, a comunidade cinéfila já vinha considerando o filme de David Fincher imbatível. Por outro lado, é bem verdade que não existe nenhuma surpresa entre os 10 concorrentes ao prêmio de melhor filme. Algumas outras categorias, contudo, não foram tão previsíveis assim. Vamos aos indicados e respectivos comentários nas principais categorias, com grande destaque para o meio-brasileiro "Lixo Extraordinário".



Melhor filme

"Cisne Negro"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"
"Toy Story 3"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"O Vencedor"
"127 Horas"
"Minhas Mães e Meu Pai"
"Inverno da Alma"

- Como dito acima, muito previsível. Destaque apenas para a indicação merecida de “Toy Story 3”, na minha opinião o melhor filme do ano.


Melhor direção

Darren Aronofsky - "Cisne Negro"
David Fincher - "A Rede Social"
David O. Russell - "O Vencedor"
Tom Hooper - "O Discurso do Rei"
Joel Coen e Ethan Coen - "Bravura Indômita"


- Aqui a primeira injustiça notável. Onde está a indicação para Cristopher Nolan pelo seu ótimo “A Origem”? Não dá pra entender. Nada contra os irmãos Coen (nem preciso tecer adjetivos a eles), mas sua indicação está com cheiro de arrumadinho, pois é muito estranho pretender premiar alguém por uma refilmagem.


Melhor ator

Javier Bardem - "Biutiful"
Jeff Bridges - "Bravura Indômita"
Colin Firth - "O Discurso do Rei"
James Franco - "127 Horas"
Jesse Eisenberg - "A Rede Social"

- Uma boa surpresa a inclusão de Javier Bardem. A cada ano a Academia vem se mostrando mais atenta ao que é feito fora dos EUA. A indicação do ator espanhol vai nessa direção. De lamentar só mesmo a exclusão de Leonardo DiCaprio, desde já o grande injustiçado do ano.


Melhor atriz

Annette Bening - "Minhas Mães e Meu Pai"
Natalie Portman - "Cisne Negro"
Nicole Kidman - "Reencontrando a Felicidade"
Jennifer Lawrence - "Inverno da Alma"
Michelle Wiliams - "Blue Valentine"

- Muitos reclamarão da exclusão de Julliane Moore. De qualquer forma, vai dar Natalie Portman. Não aposte em zebra porque não vai acontecer. Obs: que título infeliz deram para o filme com Nicole Kidman, não?



Melhor ator coadjuvante

Geoffrey Rush - "O Discurso do Rei"
Christian Bale - "O Vencedor"
Jeremy Renner - "Atração Perigosa"
John Hawkes - "Inverno da Alma"
Mark Ruffalo - "Minhas Mães e Meu Pai"

- Fiquei surpreso com a exclusão de Andrew Garfield, na minha visão a melhor presença de “A Rede Social”. Por outro lado, ,muito boa a lembrança de Mark Rufallo, um ótimo ator que há tempos já merece um maior reconhecimento.


Melhor atriz coadjuvante

Melissa Leo - "O Vencedor"
Amy Adams - "O Vencedor"
Helena Bonham Carter - "O Discurso do Rei"
Hailee Steinfeld - "Bravura Indômita"
Jacki Weaver - "Animal Kingdom"

- Será que Julliane Moore poderia ter sido indicada aqui? Mas esta é a categoria provavelmente mais equilibrada entre todas.


Melhor roteiro original

"Cisne Negro"
"A Origem"
"Anotyher Year"
"O Vencedor"
"O Discurso do Rei"

- Chance para Nolan levar um prêmio por seu “A Origem”. Mas, tenho a impressão que devem estar com vontade de premiar “O Discurso do Rei” também nesta categoria, até porque o roteirista do filme também já sofreu com a gagueira.

Melhor roteiro adaptado

"127 Horas"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"
"Toy Story 3"
"Inverno da Alma"

Previsível e vai dar “A Rede Social”.


Melhor animação

"Toy Story 3"
"Como Treinar o Seu Dragão"
"O Mágico"

Você tem dúvidas de que "Toy Story 3" vai levar o prêmio?


Melhor documentário

"Lixo Extraordinário"
"Trabalho Interno"
"Exit Through the Gift Shop"
"Gasland"
"Restrepo"

Ah, aqui vale o destaque para o parcialmente brasileiro (é uma coprodução com o Reino Unido) “Lixo Extraordinário”, que tem como codiretores os nossos compatriotas João Jardim e Karen Harley. Como diria Galvão Bueno, “bem, amigo, é o Brasil no Oscar”. Até lá! Abaixo, seguem as demais categorias.


Melhor filme estrangeiro

"Fora da Lei" (Argélia)
"Incendies" (Canadá)
"Em Um Mundo Melhor" (Dinamarca)
"Dente Canino" (Grécia)
"Biutiful" (México)


Melhor trilha sonora

Hans Zimmer - "A Origem"
Trent Reznor e Atticus Ross - "A Rede Social"
Alexandre Desplat - "O Discurso do Rei"
John Powell - "Como Treinar o seu Dragão"
A.R. Rahman - "127 Horas"

Melhor canção original

"Coming Home" - "Country Strong"
"I See the Light" - "Enrolados"
"If I Rise" - "127 Horas"
"We Belong Together" - "Toy Story 3"

Melhor edição

"127 Horas"
"Cisne Negro"
"A Rede Social"
"O Discurso do Rei"
"O Vencedor"

Melhor fotografia

"A Origem"
"Cisne Negro"
"A Rede Social"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"

Melhor figurino

"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"Alice no País das Maravilhas"
"I am Love"
"The Tempest"

Melhor direção de arte

"Alice no País das Maravilhas"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I"

Melhor mixagem de som

"Salt"
"A Origem"
"O Discurso do Rei"
"Bravura Indômita"
"A Rede Social"

Melhor edição de som

"Toy Story 3"
"Tron - O Legado"
"A Origem"
"Bravura Indômita"
"Incontrolável"

Melhor maquiagem

"O Lobisomem"
"Caminho da Liberdade"
"Minha Versão para o Amor"

Melhores efeitos visuais

"Além da Vida"
"A Origem"
"Homem de Ferro 2"
"Alice no País das Maravilhas"
"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I"

Melhor curta-metragem

"The Confession"
"The Crush"
"God of Love"
"Na Wewe"
"Wish 143"

Melhor documentário em curta-metragem

"Poster Girl"
"Strangers no More"
"Killing in the Name"
"Sun Come Up"
"The Warriors of Qiugang"

Melhor curta-metragem de animação

"Day & Night"
"Let's Pollute"
"The Lost Thing"
"The Gruffalo"
"Madagascar, Carnet de Voyage"

domingo, 23 de janeiro de 2011

Disputa em aberto para o Oscar 2011!


Nos meus comentários sobre o Globo de Ouro 2011, afirmei que o Oscar deste ano estava muito previsível, já que todas as premiações estavam seguindo a mesma linha, considerando "A Rede Social" como o melhor filme do ano. Pois bem, felizmente resolveram me contrariar.

No PGA (Producers Guild Awards), prêmio do Sindicato dos Produtores dos EUA, o laureado como melhor filme não foi o longa de David Fincher, mas "O Discurso do Rei", de Tom Hooper, longa que já vem rendendo a Colin Firth prêmios de melhor atuação (inclusive o Globo de Ouro). Uma bela tumultuada no meio de campo foi criada, já que, na maioria das ocasiões, o Oscar repete a tendência do Sindicato de Produtores. Entretanto, a categoria de melhor filme é a que costuma ser mais imprevisível, já que todos os integrantes da Academia votam nela (e não apenas produtores).

Creio que o embaralhamento será ainda maior, já que imagino ser bem difícil que o Sindicato de Diretores, que terá sua premiação no sábado 29, atribua a Tom Hooper a láurea de melhor diretor. E desde que foi criado, o prêmio de diretores raramente distoa do resultado no Oscar. E em poucas ocasiões o prêmio de melhor diretor no Oscar distoou do prêmio de melhor filme... Seria um barato que o Director's Guild premiasse Christopher Nolan por "A Origem", não? :=)

Carteza mesmo só o Oscar de melhor animação para "Toy Story 3", que também venceu agora no PGA.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



A Conversação
(The Conversation)



Dúvida e obsessão



Não há dúvidas que Francis Ford Coppola é um dos diretores mais importantes de todos os tempos, apesar de sua fase pouco inspirada dos últimos anos. Um dos precursores da “Nova Hollywood”, movimento que mudou a cara do cinema norte-americano para sempre, e responsável pela trilogia absoluta de “O Poderoso Chefão” (cujos dois primeiros filmes são obras-primas indiscutíveis), além de “Apocalypse Now”, outra obra de arte soberba, muitos não se recordam de algumas de suas “pequenas” pérolas. Talvez o melhor exemplo destes filmes de Coppola pouco lembrados seja “A Conversação”, um estudo sobre os meandros da mente humana quando carregada de culpa e dúvida.

No seu auge criativo, o diretor realizou o filme entre as duas primeiras partes da trilogia do Chefão, em 1974 (o que talvez explique seu relativo “esquecimento”). Extremamente provocativo, o longa representa muito bem a nascente paranoia estadunidense com o então recente caso de Watergate. Neste longa, Coppola narra a história de Harry Caul (com interpretação perfeita de Gene Hackman), um especialista em escutas investigativas. Em um de seus trabalhos, ouvindo o diálogo de um casal repleto de ruídos, ele acaba se deparando com a possibilidade de um iminente crime. Só que, para chegar a tal conclusão, ele não conta apenas com seu apuro profissional, mas também com sua imaginação, já perturbada por um caso anterior em que sua atuação possibilitou evento similar.

O mais instigante no desenvolvimento do roteiro e na condução de Coppola é que esses elementos não são jogados com facilidade para o espectador. Aos poucos vamos descobrindo a personalidade e as motivações de Harry, percebendo que o mesmo, talvez devido ao seu ofício, é um homem solitário, hermético, de poucos amigos, que parece ter como única diversão tocar o seu saxofone sozinho no seu apartamento. Ou será que foi sua personalidade que o levou a buscar um trabalho em que interage com as pessoas sem precisar se expor? Sem dúvida, um personagem misterioso e tridimensional. Seu pouco tato em relacionamentos se mostra de forma ainda mais clara quando é enganado por uma mulher em uma situação de fácil percepção. Além disso, à medida em que Harry progride em sua investigação, ele se afunda cada vez mais em seu isolamento, afastando até mesmo seu único amigo, Stan (interpretado por John Cazale, falecido precocemente), bem como imerge em uma dúvida terrível sobre a verdade do fatos que está acompanhando.


A solidão de Harry Caul, ademais, é realçada de forma brilhante pela direção de Coppola. Ele realiza aquele tipo de trabalho extremamente visual, onde a narrativa flui essencialmente através das imagens. O velho Hitchcock já ensinava que a melhor forma de provocar suspense é pelo meio imagético. Mas se enganam aqueles que podem pensar que os sons e diálogos assumem uma importância menor na trama. Afinal, é justamente a partir de sons captados que se estabelece o vértice do filme. Interessante como, ao longo da película, escutamos um mesmo diálogo repetidas vezes, mas, tal como o protagonista, jamais nos cansamos de ouvi-lo, além de também sermos instigados a descobrir a verdade por trás daquelas palavras. Por seu turno, a trilha sonora, de David Shire, se mostra melancólica, brilhante e marcante. São raros os filmes em que a trilha se encaixa tão bem na temática abordada, ressaltando ainda mais a solidão e obsessão do protagonista.

Visto hoje, décadas depois de seu lançamento, percebe-se o quanto este longa-metragem (que recebeu a Palma de Ouro em Cannes) não envelheceu. Afinal, voyeurismo e invasão de privacidade são temas mais do que nunca atuais. Suas influências são sentidas mesmo em obras recentes, como no também ótimo “A Vida dos Outros” (do alemão Florian Henckel von Donnersmarck). Estas obras perenes, que se lançam no tempo sem perder a sua atualidade, costumam ser fruto de talentos geniais. Inegavelmente, Francis Ford Coppola é um destes talentos.


Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

11 Comentários sobre o Globo de Ouro 2011


1º comentário: Rick Gervais não cheirou, nem fedeu. Nem prestei atenção direito no que ele falava. Soltou algumas piadinhas sem graça. Tão sem graça que nem percebi alguém rindo na platéia;

2º Comentário: Falando em bom-humor, Robert De Niro deu um show nesse ponto ao não se levar a sério, tirando piadas com a baixa qualidade dos filmes em que vem atuando nos últimos tempos;

3º Comentário: Falando em De Niro, sua homenagem foi, de longe, o melhor momento da noite. Ele é ídolo de muitos daqueles presentes ao evento e isso ficou claro quando a câmera mostrou Tom Hanks com lágrimas nos olhos. E eu estou falando de Tom Hanks...

4º Comentário: Eu imaginava que até pudesse haver um certo equilíbrio entre “A Rede Social” e “A Origem”, mas nem isso...

5º Comentário: Natalie Portman vai ganhar o Oscar de melhor atriz. Não adianta Annette Bening sonhar, mesmo tendo vencido o prêmio em comédia/musical. A Academia privilegia papeis de forte carga dramática, especialmente quando o ator/atriz teve que mergulhar em um universo distinto do seu, alterando seu peso, fazendo pesquisas e outras coisas do gênero;

6º Comentário: Sei que muitos elogiaram o papel que deu a Al Pacino o prêmio de ontem, mas é sempre lamentável perceber que Pacino voltou a ser premiado com um trabalho para a TV. É ruim para o cinema e ruim pra ele;

7º Comentário: As indicações para “O Turista” tiveram como única finalidade levar o casal Branjolie para a cerimônia, além de Johnny Depp, e assim garantir uns pontos a mais na audiência;

8º Comentário: “A Origem” saiu de mãos abanando no Globo de Ouro, mas no Oscar, como consolação, deve levar o prêmio de roteiro original;

9º Comentário: O melhor filme do ano só levou o prêmio de melhor animação;

10º Comentário: O Oscar deste ano está mais previsível do que enchentes no mês de janeiro*.

Último comentário: todo ano a TNT escala aquela péssima apresentadora/tradutora para a entrega destes prêmios. Não tem ninguém melhor?


*aproveitando a deixa: ajude as vítimas das enchentes no Rio de Janeiro. Estes seres humanos estão passando por momentos de verdadeiro horror. Contribua com o que puder!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os 100 melhores filmes em língua não-inglesa


Hoje, teremos a entrega do Globo de Ouro 2011, um dos mais fracos de todos os tempos, na minha opinião. O máximo que irá acontecer será o embate entre “A Rede Social” e “A Origem”. Ou seja, previsibilidade extrema. Aliás, as entregas de prêmios estão se tornando cada vez mais tediosas. Bem mais interessante do que a lista de indicados ao Globo de Ouro é esta lista elaborada pela “Empire” no ano passado com os 100 melhores filmes em língua não-inglesa. Listas criam muita discussão, mas é inegável que servem como referência para os amantes do cinema. Veja abaixo a lista e a matéria original da publicação pode ser conferida aqui. Obs: observem que posição honrosa alcançou o nosso “Cidade de Deus”.


001. Os sete samurais (Akira Kurosawa, 1954)

002. O fabuloso destino de Amélie Poulain (J.-P. Jeunet, 2001)

003. O encouraçado Potemkin (Sergei M. Eisenstein, 1925)

004. Ladrões de bicicleta (Vittorio de Sica, 1948)

005. O labirinto do fauno (Guillermo del Toro, 2006)

006. A batalha de Argel (Gillo Pontecorvo, 1965)

007. Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

008. O sétimo selo (Ingmar Bergman, 1957)

009. O salário do medo (Henri-Georges Clouzot, 1953)

010. A viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, 2001)

011. A doce vida (Federico Fellini, 1960)

012. Metrópolis (Fritz Lang, 1927)

013. A regra do jogo (Jean Renoir, 1939)

014. Trilogia das Cores:
014. A liberdade é azul (Krzysztof Kieslowski, 1993)
014. A igualdade é branca (Krzysztof Kieslowski, 1994)
014. A fraternidade é vermelha (Krzysztof Kieslowski, 1994)

015. Deixa ela entrar (Tomas Alfredson, 2008)

016. Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953)

017. Trilogia de Apu:
017. A canção da estrada (Satyajit Ray, 1955)
017. O invencível (Satyajit Ray, 1956)
017. O mundo de Apu (Satyajit Ray, 1959)

018. Oldboy (Chan-wook Park, 2003)

019. Aguirre, a cólera dos deuses (Werner Herzog, 1972)

020. E sua mãe também (Alfonso Cuarón, 2001)

021. Nosferatu (F. W. Murnau, 1922)

022. Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)

023. O espírito da colméia (Víctor Erice, 1973)

024. Vá e veja (Elem Klimov, 1985)

025. O barco, inferno no mar (Wolfgang Petersen, 1981)

026. A Bela e a Fera (Jean Cocteau, 1946)

027. Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

028. Lanternas vermelhas (Yimou Zhang, 1991)

029. Os incompreendidos (François Truffaut, 1959)

030. Infernal afffairs (Alan Mak - Lau Wai-keung, 2002) Conflitos Internos

031. Godzilla (Ishirô Honda, 1954)

032. O ódio (Mathieu Kassovitz, 1995)

033.M - o vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang,1931)

034. Valsa com Bashir(Ari Folman, 2008)

035. A grande ilusão (Jean Renoir, 1937)

036. Decálogo (Krzysztof Kieslowski, 1988)

037. Roma, cidade aberta (Roberto Rossellini, 1945)

038. Cinzas e diamantes (Andrzej Wajda, 1958)

039. O Samurai (Jean-Pierre Melville, 1967)

040. A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960)

041. Meu amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988)

042. Amor à flor da pele (Kar-Wai Wong, 2000)

043. Cyrano De Bergerac (Jean-Paul Rappeneau, 1990)

044. Ikiru - Viver (Akira Kurosawa, 1952)

045. Suspiria (Dario Argento, 1977)

046. Jules e Jim - uma mulher para dois (François Truffaut, 1961)

047. Dez (Abbas Kiarostami, 2002)

048. A queda - as últimas horas de Hitler (O. Hirschbiegel, 2004)

049. As férias do senhor Hulot (Jacques Tati, 1953)

050 Trens estreitamente vigiados (Jiri Menzel, 1967)

051. Akira (Katsuhiro Otomo, 1988)

052. Touki Bouki (Djibril Diop Mambéty, 1973)

053. Tudo sobre minha mãe (Pedro Almodóvar, 1999)

054. Festa de família (Thomas Vinterberg, 1998)

055. Lagaan (Ashutosh Gowariker, 2001)

056. A bela da tarde (Luis Buñuel, 1967)

057. Central do Brasil (Walter Salles, 1998)

058. Persépolis (Vincent Paronnaud - Marjane Satrapi, 2007)

059. Heimat (Edgar Reitz, 1985)

060. Jean de Florette (Claude Berri, 1986)

061. A Faca Na Água(Roman Polanski , 1962)

062. 8 1/2 (Federico Fellini, 1963)

063. A prophet (Jacques Audiard, 2009) O Profeta

064. Asas do desejo (Wim Wenders, 1987)

065. Um cão andaluz (Luis Buñuel, 1928)

66º - O tigre e o dragão (Ang Lee, 2000)

067. The Vanishing (George Sluizer, 1988)

068. Solaris (Andrei Tarkovsky, 1972)

069. Ringu - o primeiro chamado (Hideo Nakata, 1998)

070. Fervura máxima (John Woo, 1992)

071. Persona (Ingmar Bergman, 1966)

072. Ten Canoes (Rolf de Heer - Peter Djigirr, 2006)

073. Caché (Michael Haneke, 2005)

074. Devdas (Sanjay Leela Bhansali , 2002)

075. Acossado (Jean-Luc Godard, 1959)

076. Os idiotas (Lars Von Trier, 1998)

077. O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, 2004)

078. Mulheres à beira de um ataque de nervos (P. Almodóvar, 1988)

079. Bande à part (Jean-Luc Godard, 1964)

080. Mother India (Mehboob Khan , 1957)

081. O hospedeiro (Joon-ho Bong, 2006)

082. Battle Royale (Kinji Fukasaku, 2000)

083. Xala (Ousmane Sembene , 1974)

084. Orfeu (Jean Cocteau, 1950)

085. O conformista (Bernardo Bertolucci, 1969)

086. Corra, Lola, Corra (Tom Tykwer, 1998)

087. Andrei Rublev (Andrei Tarkovsky, 1966)

088. Leningrad Cowboys (Aki Kayrismaki, 1989)

089. Os Amores de uma Loira (Milos Forman, 1965)

090. Rififi (Jules Dassin, 1955)

091. Adeus, Lênin! (Wolfgang Becker, 2003)

092. Ghost in the shell (Mamoru Oshii, 1995)

093. The Fourth Man (Paul Verhoeven, 1983)

094. Yeelen (Souleymane Cisse, 1987)

095. Way of the Dragon (Bruce Lee, 1972)

096. Delicatessen (Marc Caro - Jean-Pierre Jeunet, 1991)

097. Adeus, minha concubina (Kaige Chen, 1993)

098. Ran (Akira Kurosawa, 1985)

099. Iron Monkey (Yuen Woo-ping , 1993)

100. Guardiões da Noite(Timur Bekmambetov , 2004)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Eu Quero Esse Pôster #12


"Cisne Negro", o novo filme de Darren Aronofsky que deve render ao menos uma indicação ao Oscar para Natalie Portman, possui uma série de cartazes muito bonitos. Além do já famoso poster com a face de Natalie "rachada", também temos este, bastante estiloso, lembrando os cartazes de filmes clássicos, além de remontar a uma estética afeita ao balé. Perfeito!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Além da Vida



Clint Eastwood - O contador de histórias


Existe algum elogio que ainda não foi feito a Clint Eastwood? Não há dúvidas de que ele é um dos grandes diretores norte-americanos em atividade (ao lado de Martin Scorsese) e, vou admitir aqui, um dos meus preferidos. Dentre as várias virtudes que se podem apontar no cineasta, entre elas a sua simplicidade, a que mais se destaca é o seu grande talento para contar histórias. Por mais que certas tramas pareçam clichês, Eastwood consegue atribuir-lhes um toque mágico que as transforma em algo além de um mero entretenimento. É o toque do artista, daquele que, antes de tudo, ama o que faz e acredita na história que está narrando.

É interessante como este seu novo trabalho, “Além da Vida”, parece fugir de sua filmografia tradicional, apresentando uma temática, digamos assim, “espiritual”. Mas essa seria uma análise superficial. Trata-se de uma obra muito mais sobre perda do que sobre crenças e tal temática absolutamente não é estranha na filmografia do cineasta. Invariavelmente, a morte (e as diversas formas de superá-la) ou sua iminência estão presentes em seus longas. Basta rememorar os exemplos de “Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro” ou o mais recente “Gran Torino”. Em todos eles, de uma forma ou de outra, os personagens precisam lidar com a inevitabilidade da morte e a irremediável ausência que a mesma provoca.

O longa possui três vertentes dramáticas que, em certo ponto da projeção, se comungam, o que, obviamente, não constitui nenhuma novidade. Todavia, Clint não é um cineasta preocupado com vanguardas, mas com o poder que sua narração tem de sensibilizar o espectador. A primeira das três histórias aborda a experiência de quase morte vivida pela jornalista francesa Marie Lelay (Cécile de France) após se afogar em um tsunami na Ásia (o filme sugere se tratar do evento de 2004) em uma sequência impactante, horripilante e, ao mesmo tempo, sensacional (a “mágica” da cena foi provavelmente proporcionada por Steven Spielberg, produtor executivo da película), evidenciando uma inédita experiência de Clint com os efeitos visuais. A segunda delas mostra o operário George Lonegan (Matt Damon, com boa atuação em sua segunda parceria com Eastwood) um médium que já utilizou seu dom para ganhar dinheiro, mas que agora o vê como uma maldição, já que o impossibilita de manter uma relação natural com as pessoas. A última trama aborda o personagem de Marcus (Frankie McLaren, jovem talentoso!), um garoto que perde o irmão gêmeo Jason e ainda tem de encarar a dependência química da mãe.

O roteiro, escrito por Peter Morgan, resolve bem todos os lados da narração, dando-lhes igual tratamento na elaboração dos personagens e sem que nenhum deles possua uma exposição menor. São três pessoas que têm uma ligação próxima com a morte e, talvez por isso, a sua futura aproximação em nenhum momento soa forçada. Tudo flui perfeitamente até o desfecho, o qual, para alguns, pode resultar previsível, mas que jamais perde a sua beleza. Além disso, o mais do que experiente diretor sabe administrar as doses dramáticas, sem que nunca a narrativa descambe para o piegas. Tudo é muito verdadeiro e sentimos que as ações poderiam efetivamente se dar na vida real. Eastwood, ademais, consegue, por meio da trilha sonora (de sua própria autoria, como de hábito) estabelecer nuances distintas para cada um dos segmentos, fazendo com que o espectador não sinta dificuldade em acompanhá-los (neste aspecto, também vale destacar a bem-resolvida edição).

Acima, mencionei que o longa é muito mais sobre perda do que sobre crenças. É verdade. Contudo, não se pode deixar de lado o questionamento oferecido no filme sobre o que nos aguarda depois da morte, um mistério que nunca será inteiramente desvendado, por maior que seja a fé que você ou eu tenhamos em determinada religião ou doutrina. Seria isso um reflexo da idade avançada do diretor? Talvez a proximidade da morte lhe induza a estas reflexões, mas o próprio já afirmou que resolveu filmar a história porque gostou dela e não por uma obsessão especial pelo tema, tendo apenas uma curiosidade normal como todos têm sobre a morte e o que vem depois dela.

Afinal, este é Clint Eastwood, um homem que ama contar histórias, trazendo-nos a cada novo trabalho uma apaixonada imersão que torna quase impossível a indiferença. Neste ponto, é uma pena que tanto o público quanto a crítica norte-americanos tenham recebido o filme com certa frieza, o que demonstra o quanto os EUA historicamente cometem equívocos em se tratando de cinema. É possível que “Além da Vida” tenha uma carreira de mais sucesso no Brasil,que tem um público mais afeito às temáticas abordadas no longa, bastando lembrar o sucesso recente dos nacionais “Chico Xavier” e “Nosso Lar” (muito embora, vale lembrar, este “Hereafter” não é um filme religioso). Espero que, ao menos aqui, este novo trabalho do genial Clint Eastwood encontre a acolhida merecida. Descubra-o.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

72 Horas



Hitchcock aprovaria


O gênio Alfred Hitchcock talvez tenha sido praticamente o criador do gênero de filmes em que o protagonista é envolvido e perseguido devido a fatos que normalmente fogem ao seu controle (o conceito de “homem errado”). Em sua filmografia, com algumas variações, há vários exemplos deste tipo de trama, como “O Homem Que Sabia Demais”, cuja versão norte-americana é protagonizada por James Stewart, e “Intriga Internacional”, com o astro Cary Grant. Em todos eles, o velho Hitch levava sempre a dúvida ao público sobre o sucesso das empreitadas do personagem central, geralmente tentando provar sua inocência de algum crime que não cometeu ou procurando salvar alguém. Uma fórmula de sucesso eficiente que acabou sendo imitada por muitos cineastas ao longo dos anos (a própria série Bourne se vale desse conceito de “homem errado”). Todavia, na maioria dos casos os resultados são medíocres, sendo gerados longas-metragens esquecíveis que sequer chegam a manter a atenção do público durante a exibição.

“72 Horas”, atualmente em cartaz no circuitão brasileiro, é um herdeiro desta tradição e, felizmente, não cai na referida mediocridade. Dirigido por Paul Haggis, que iniciou sua carreira no cinema como roteirista (“Menina de Ouro” é um dos seus roteiros mais lembrados pelo grande público) e depois se aventurou na direção (“Crash” acabou levando o Oscar de melhor filme), o longa é uma refilmagem do francês “Pour Elle”, mostrando a saga de um professor universitário que, cansado de tentar provar a inocência de sua esposa acusada de assassinato pelos métodos legais, decide libertá-la adotando vias não ortodoxas, mais precisamente planejando sua fuga da prisão. Como de costume nos filmes de Haggis, o roteiro se desenrola com fluidez, envolvendo o espectador e tendo o trunfo de deixar envolta na dúvida a verdade sobre o crime que levou a esposa à prisão. Mas é importante destacar que Haggis vem evoluindo em outros aspectos. O longa possui uma ótima edição, responsável pelo ritmo constante, além de uma boa fotografia, com a utilização de alguns ângulos inusitados (uma certa sequência envolvendo os personagens centrais e um automóvel é particularmente interessante).

O protagonista, John Brennan, é interpretado com certa vontade por Russell Crowe (saindo da sua apatia de filmes recentes) e sua riqueza de detalhes é um dos pontos altos da projeção. Sua personalidade, inclusive, é um dos elementos responsáveis pela dúvida sobre a verdade do crime, já que, em uma interessante referência a “Dom Quixote”, percebemos que John pode ter criado um mundo idealizado onde as verdades não correspondem exatamente às do mundo real. Esta ligação entre a personalidade do personagem e o suspense engendrado daria orgulho ao mestre Hitchcock, o qual ofereceu uma verdadeira aula neste sentido com o seu soberbo “Um Corpo Que Cai” (Vertigo).

Por outro lado, nem tudo é perfeito. Haggis faz a trama descambar para os clichês em algumas de suas vertentes, como na relação entre Lara Brennan (Elizabeth Banks) e Luke (Ty Simpkins), filho do casal, deixando entrever aos mais atentos algumas possíveis resoluções finais. Haggis, por sinal, comumente possui esses tiques de previsibilidade que, uma vez não controlados por outra mão (como no caso de Clint Eastwood em “Menina de Ouro”), descamba para o inevitável clichê (foi assim no mencionado “Crash”). Há ainda algumas ligações mal explicadas na trama, meio que colocadas a fórceps para levar adiante a narrativa, resultando em soluções artificiais.

É bom que se diga que não vi o original francês, o qual, segundo comentários que pude ler por meio da internet, parece ser melhor que essa refilmagem. Contudo, mesmo sem tal parâmetro, posso afirmar que “72 Horas” prende a atenção e leva o espectador, em alguns momentos, a duvidar da sorte dos protagonistas, bem como das verdades oferecidas inicialmente pelo roteiro. Não é nenhuma obra-prima, longe disso, mas está longe de fazer feio e o mestre Alfred Hitchcock certamente veria com bons olhos este suspense que tem tudo para agradar aos fãs do gênero.


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os 7 melhores de 2010

Como sempre, a lista do Cinema com Pimenta apresenta 7 itens. Este ano, particularmente, foi bastante fraco. Não imagino muito mais títulos que pudessem estar aqui entre os longa-metragens exibidos no circuito brasileiro em 2010. Lamentável... E vamos parar de falação e passar logo para a lista, seguindo abaixo. A ordem é de preferência (crescente).



7) Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen)


6) A Rede Social (David Fincher)


5) Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow)


4) A Origem (Christopher Nolan)



3) Ilha do Medo (Martin Scorsese)



2) Tropa de Elite 2 (José Padilha)


1) Toy Story 3 (Lee Unkrich)


Aproveito para desejar um feliz 2011 para todos, cheio de saúde, paz e realizações! Grande Abraço!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Pinóquio
(Pinocchio)


Uma fábula atemporal



É muito provável que você já tenha escutado uma canção chamada “When You Wish Upon A Star”, a qual se tornou um clássico do cancioneiro popular norte-americano (se não ouviu, basta clicar no display ao fim desta resenha). Pois bem, ela recebeu o Oscar de melhor canção (com justiça) em 1941, ajudando a consagrar o filme do qual é tema, “Pinóquio”, o segundo longa-metragem em animação dos estúdios Disney.

Após o estrondoso sucesso de “Branca de Neve e Os Sete Anões”, a primeira animação em longa metragem do cinema, realizada em 1937 e que, até hoje, serve como patamar de referência para os estúdios de animação, seria difícil para Walt Disney igualar o nível de sua empreitada pioneira. A começar pelo material básico. O conto “Pinocchio” de Carlo Collodi (de 1883) era muito sombrio e Disney teve que determinar à sua equipe algumas alterações para que ele se tornasse mais palatável ao grande público. Os personagens também não se mostravam tão carismáticos quanto os de “Branca de Neve”, o que levou a equipe a inserir alguns outros, como o Grilo Falante. Além disso, a trama apresentava desafios técnicos enormes, tais como a sequência envolvendo a fuga de uma baleia em alto mar. Entretanto, Disney sempre afirmou que sua grande meta era quebrar barreiras e desta vez não foi diferente. Mesmo tendo uma estreia difícil, com uma bilheteria abaixo do esperado (o mundo estava em guerra quando foi lançado), a animação, ao longo dos anos, cresceu junto aos olhos da crítica e do público, fazendo jus ao esforço de seu idealizador.

A narrativa trata de um boneco de madeira construído pelo artesão Gepeto que adquire vida por obra da Fada Azul, atendendo a um pedido do velho solitário. A partir de então, o grande desejo de Pinóquio é se tornar um menino de carne e osso. Todavia, para conseguir seu objetivo, deverá mostrar valentia, dedicação, lealdade e disciplina, entre outras virtudes necessárias. Seu objetivo começa a sofrer atropelos quando é assediado por João Honesto, um larápio que o convence de que pode ser um grande ator, apesar da insistência em contrário do Grilo Falante, o qual possui a missão de ser a sua “consciência” (e foi primeiro personagem da Disney a falar diretamente com os espectadores). O intuito de João Honesto, na verdade, é vendê-lo para o saltimbanco Stromboli, dono de um show de marionetes que vagueia pelas redondezas. É aqui que começa o lado sinistro da narrativa e percebemos o quanto o longa ainda permanece atual. A exploração da inocência continua tão frequente quanto em outros tempos (talvez tenha até aumentado) o que torna “Pinóquio” até mesmo um filme necessário, hoje, para os pequenos. Os noticiários estão repletos de casos de crianças desaparecidas, sequestradas ou abusadas sexualmente e as cenas que mostram o menino de madeira preso a uma gaiola podem, infelizmente, retratar a realidade de muitos inocentes no presente momento.


É interessante notar, ademais, como Pinóquio retrata com perfeição o comportamento infantil, mesmo levando em consideração a “esperteza” das crianças de hoje. Toda criança, em determinada fase, mente aos adultos para esconder suas peraltices e isto é mostrado com rara eficiência na clássica sequência em que o nariz de Pinóquio cresce a cada mentira que conta para a Fada Azul. A indisciplina infantil também é retratada de forma perfeita nas desventuras de Pinóquio na Ilha dos Prazeres. Mal influenciado pelo garoto Espoleta (demonstrando o quanto as más influências podem ser nocivas ao comportamento das crianças), o protagonista se entrega a toda sorte de prazeres proibidos aos pequenos, como fumar, jogar ou se entupir de guloseimas. A consequência é que os garotos, aos poucos, vão se transformando em burros, numa analogia clara com os resultados que a falta de estudo ou dedicação ao trabalho podem trazer. A passagem na Ilha dos Prazeres também possui tons bastante sinistros (tal como no cativeiro de Stromboli), mas é importante ressaltar que a equipe (com direção de Hamilton Luske e Ben Sharpsteen) soube realmente minorar o lado sombrio para torná-lo palatável ao público (principalmente às crianças).

O caráter técnico, por sua vez, é realmente impressionante. Várias sequências são de extrema beleza , com um apuro técnico capaz de impressionar até os dias hoje, dominados pela computação gráfica. Verdadeiras pinturas animadas surgem na tela, com texturas e cores que mesmo as animações produzidas atualmente dificilmente igualam (uma das cenas, inclusive, em que Gepeto procura Pinóquio em meio a uma tempestade, teve chuva real acrescentada à imagem). Custa a acreditar que essa produção é de 1940. Isso sem falar na trilha sonora, belíssima e que foi também vencedora do Oscar.

Todos esses elementos fariam de “Pinóquio” uma estória atemporal, mas há outro que talvez seja ainda mais relevante. O cerne da trama diz respeito à concretização dos sonhos, mesmo os quase impossíveis. Ao transformar-se em um garoto de verdade, Pinóquio se torna o personagem ícone da realização dos nossos mais profundos desejos, mesmo que para tanto tenhamos que trilhar, invariavelmente, caminhos dolorosos. A força de sua mensagem é tão intensa que ela reverbera ao longo das décadas, influenciando nitidamente tramas “modernas” como a de “Inteligência Artificial”, longa de Steven Spielberg. Uma fábula que não perderá jamais a sua força, soando cada vez mais contemporânea.


Cotação e nota: Obra-prima.

Abaixo escute "When You Wish Upon A Star"!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um feliz Natal para todos!

Uma das lembranças mais caras relacionadas ao Natal que trago da minha infância é a de ver, todos os anos, uma animação em Stop Motion chamada "Rudolph, A Rena do Nariz Vermelho". Feito para a televisão em 1964, o longa narra a estória de uma renazinha que nasce com um pequeno "defeito" congênito que você já deve ter entendido pelo título. Rudolph sonha em ser uma das renas do trenó do Papai Noel, mas ele se sente discrimiando pela sua condição "diferente". Durante anos, o filme foi sempre reprisado na noite de Natal (e eu sempre assistia com o mesmo entusiasmo), mas as redes de TV em geral estão cada vez mais ridículas e esquecendo no fundo do baú os produtos de qualidade. Segue abaixo um trecho da animação para matar as saudades de muita gente. Além disso, aproveito o ensejo para desejar um feliz Natal para todos, cheio de muita saúde, paz e harmonia com a família e os amigos. E que o nascimento de um certo menino em Belém, há cerca de de 2000 anos, nos sirva de inspiração não apenas no dia 25/12, mas ao longo de todos os dias do ano. Um grande abraço!