terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Além da Vida



Clint Eastwood - O contador de histórias


Existe algum elogio que ainda não foi feito a Clint Eastwood? Não há dúvidas de que ele é um dos grandes diretores norte-americanos em atividade (ao lado de Martin Scorsese) e, vou admitir aqui, um dos meus preferidos. Dentre as várias virtudes que se podem apontar no cineasta, entre elas a sua simplicidade, a que mais se destaca é o seu grande talento para contar histórias. Por mais que certas tramas pareçam clichês, Eastwood consegue atribuir-lhes um toque mágico que as transforma em algo além de um mero entretenimento. É o toque do artista, daquele que, antes de tudo, ama o que faz e acredita na história que está narrando.

É interessante como este seu novo trabalho, “Além da Vida”, parece fugir de sua filmografia tradicional, apresentando uma temática, digamos assim, “espiritual”. Mas essa seria uma análise superficial. Trata-se de uma obra muito mais sobre perda do que sobre crenças e tal temática absolutamente não é estranha na filmografia do cineasta. Invariavelmente, a morte (e as diversas formas de superá-la) ou sua iminência estão presentes em seus longas. Basta rememorar os exemplos de “Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro” ou o mais recente “Gran Torino”. Em todos eles, de uma forma ou de outra, os personagens precisam lidar com a inevitabilidade da morte e a irremediável ausência que a mesma provoca.

O longa possui três vertentes dramáticas que, em certo ponto da projeção, se comungam, o que, obviamente, não constitui nenhuma novidade. Todavia, Clint não é um cineasta preocupado com vanguardas, mas com o poder que sua narração tem de sensibilizar o espectador. A primeira das três histórias aborda a experiência de quase morte vivida pela jornalista francesa Marie Lelay (Cécile de France) após se afogar em um tsunami na Ásia (o filme sugere se tratar do evento de 2004) em uma sequência impactante, horripilante e, ao mesmo tempo, sensacional (a “mágica” da cena foi provavelmente proporcionada por Steven Spielberg, produtor executivo da película), evidenciando uma inédita experiência de Clint com os efeitos visuais. A segunda delas mostra o operário George Lonegan (Matt Damon, com boa atuação em sua segunda parceria com Eastwood) um médium que já utilizou seu dom para ganhar dinheiro, mas que agora o vê como uma maldição, já que o impossibilita de manter uma relação natural com as pessoas. A última trama aborda o personagem de Marcus (Frankie McLaren, jovem talentoso!), um garoto que perde o irmão gêmeo Jason e ainda tem de encarar a dependência química da mãe.

O roteiro, escrito por Peter Morgan, resolve bem todos os lados da narração, dando-lhes igual tratamento na elaboração dos personagens e sem que nenhum deles possua uma exposição menor. São três pessoas que têm uma ligação próxima com a morte e, talvez por isso, a sua futura aproximação em nenhum momento soa forçada. Tudo flui perfeitamente até o desfecho, o qual, para alguns, pode resultar previsível, mas que jamais perde a sua beleza. Além disso, o mais do que experiente diretor sabe administrar as doses dramáticas, sem que nunca a narrativa descambe para o piegas. Tudo é muito verdadeiro e sentimos que as ações poderiam efetivamente se dar na vida real. Eastwood, ademais, consegue, por meio da trilha sonora (de sua própria autoria, como de hábito) estabelecer nuances distintas para cada um dos segmentos, fazendo com que o espectador não sinta dificuldade em acompanhá-los (neste aspecto, também vale destacar a bem-resolvida edição).

Acima, mencionei que o longa é muito mais sobre perda do que sobre crenças. É verdade. Contudo, não se pode deixar de lado o questionamento oferecido no filme sobre o que nos aguarda depois da morte, um mistério que nunca será inteiramente desvendado, por maior que seja a fé que você ou eu tenhamos em determinada religião ou doutrina. Seria isso um reflexo da idade avançada do diretor? Talvez a proximidade da morte lhe induza a estas reflexões, mas o próprio já afirmou que resolveu filmar a história porque gostou dela e não por uma obsessão especial pelo tema, tendo apenas uma curiosidade normal como todos têm sobre a morte e o que vem depois dela.

Afinal, este é Clint Eastwood, um homem que ama contar histórias, trazendo-nos a cada novo trabalho uma apaixonada imersão que torna quase impossível a indiferença. Neste ponto, é uma pena que tanto o público quanto a crítica norte-americanos tenham recebido o filme com certa frieza, o que demonstra o quanto os EUA historicamente cometem equívocos em se tratando de cinema. É possível que “Além da Vida” tenha uma carreira de mais sucesso no Brasil,que tem um público mais afeito às temáticas abordadas no longa, bastando lembrar o sucesso recente dos nacionais “Chico Xavier” e “Nosso Lar” (muito embora, vale lembrar, este “Hereafter” não é um filme religioso). Espero que, ao menos aqui, este novo trabalho do genial Clint Eastwood encontre a acolhida merecida. Descubra-o.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

72 Horas



Hitchcock aprovaria


O gênio Alfred Hitchcock talvez tenha sido praticamente o criador do gênero de filmes em que o protagonista é envolvido e perseguido devido a fatos que normalmente fogem ao seu controle (o conceito de “homem errado”). Em sua filmografia, com algumas variações, há vários exemplos deste tipo de trama, como “O Homem Que Sabia Demais”, cuja versão norte-americana é protagonizada por James Stewart, e “Intriga Internacional”, com o astro Cary Grant. Em todos eles, o velho Hitch levava sempre a dúvida ao público sobre o sucesso das empreitadas do personagem central, geralmente tentando provar sua inocência de algum crime que não cometeu ou procurando salvar alguém. Uma fórmula de sucesso eficiente que acabou sendo imitada por muitos cineastas ao longo dos anos (a própria série Bourne se vale desse conceito de “homem errado”). Todavia, na maioria dos casos os resultados são medíocres, sendo gerados longas-metragens esquecíveis que sequer chegam a manter a atenção do público durante a exibição.

“72 Horas”, atualmente em cartaz no circuitão brasileiro, é um herdeiro desta tradição e, felizmente, não cai na referida mediocridade. Dirigido por Paul Haggis, que iniciou sua carreira no cinema como roteirista (“Menina de Ouro” é um dos seus roteiros mais lembrados pelo grande público) e depois se aventurou na direção (“Crash” acabou levando o Oscar de melhor filme), o longa é uma refilmagem do francês “Pour Elle”, mostrando a saga de um professor universitário que, cansado de tentar provar a inocência de sua esposa acusada de assassinato pelos métodos legais, decide libertá-la adotando vias não ortodoxas, mais precisamente planejando sua fuga da prisão. Como de costume nos filmes de Haggis, o roteiro se desenrola com fluidez, envolvendo o espectador e tendo o trunfo de deixar envolta na dúvida a verdade sobre o crime que levou a esposa à prisão. Mas é importante destacar que Haggis vem evoluindo em outros aspectos. O longa possui uma ótima edição, responsável pelo ritmo constante, além de uma boa fotografia, com a utilização de alguns ângulos inusitados (uma certa sequência envolvendo os personagens centrais e um automóvel é particularmente interessante).

O protagonista, John Brennan, é interpretado com certa vontade por Russell Crowe (saindo da sua apatia de filmes recentes) e sua riqueza de detalhes é um dos pontos altos da projeção. Sua personalidade, inclusive, é um dos elementos responsáveis pela dúvida sobre a verdade do crime, já que, em uma interessante referência a “Dom Quixote”, percebemos que John pode ter criado um mundo idealizado onde as verdades não correspondem exatamente às do mundo real. Esta ligação entre a personalidade do personagem e o suspense engendrado daria orgulho ao mestre Hitchcock, o qual ofereceu uma verdadeira aula neste sentido com o seu soberbo “Um Corpo Que Cai” (Vertigo).

Por outro lado, nem tudo é perfeito. Haggis faz a trama descambar para os clichês em algumas de suas vertentes, como na relação entre Lara Brennan (Elizabeth Banks) e Luke (Ty Simpkins), filho do casal, deixando entrever aos mais atentos algumas possíveis resoluções finais. Haggis, por sinal, comumente possui esses tiques de previsibilidade que, uma vez não controlados por outra mão (como no caso de Clint Eastwood em “Menina de Ouro”), descamba para o inevitável clichê (foi assim no mencionado “Crash”). Há ainda algumas ligações mal explicadas na trama, meio que colocadas a fórceps para levar adiante a narrativa, resultando em soluções artificiais.

É bom que se diga que não vi o original francês, o qual, segundo comentários que pude ler por meio da internet, parece ser melhor que essa refilmagem. Contudo, mesmo sem tal parâmetro, posso afirmar que “72 Horas” prende a atenção e leva o espectador, em alguns momentos, a duvidar da sorte dos protagonistas, bem como das verdades oferecidas inicialmente pelo roteiro. Não é nenhuma obra-prima, longe disso, mas está longe de fazer feio e o mestre Alfred Hitchcock certamente veria com bons olhos este suspense que tem tudo para agradar aos fãs do gênero.


Cotação:

Nota: 8,0

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os 7 melhores de 2010

Como sempre, a lista do Cinema com Pimenta apresenta 7 itens. Este ano, particularmente, foi bastante fraco. Não imagino muito mais títulos que pudessem estar aqui entre os longa-metragens exibidos no circuito brasileiro em 2010. Lamentável... E vamos parar de falação e passar logo para a lista, seguindo abaixo. A ordem é de preferência (crescente).



7) Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen)


6) A Rede Social (David Fincher)


5) Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow)


4) A Origem (Christopher Nolan)



3) Ilha do Medo (Martin Scorsese)



2) Tropa de Elite 2 (José Padilha)


1) Toy Story 3 (Lee Unkrich)


Aproveito para desejar um feliz 2011 para todos, cheio de saúde, paz e realizações! Grande Abraço!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Pinóquio
(Pinocchio)


Uma fábula atemporal



É muito provável que você já tenha escutado uma canção chamada “When You Wish Upon A Star”, a qual se tornou um clássico do cancioneiro popular norte-americano (se não ouviu, basta clicar no display ao fim desta resenha). Pois bem, ela recebeu o Oscar de melhor canção (com justiça) em 1941, ajudando a consagrar o filme do qual é tema, “Pinóquio”, o segundo longa-metragem em animação dos estúdios Disney.

Após o estrondoso sucesso de “Branca de Neve e Os Sete Anões”, a primeira animação em longa metragem do cinema, realizada em 1937 e que, até hoje, serve como patamar de referência para os estúdios de animação, seria difícil para Walt Disney igualar o nível de sua empreitada pioneira. A começar pelo material básico. O conto “Pinocchio” de Carlo Collodi (de 1883) era muito sombrio e Disney teve que determinar à sua equipe algumas alterações para que ele se tornasse mais palatável ao grande público. Os personagens também não se mostravam tão carismáticos quanto os de “Branca de Neve”, o que levou a equipe a inserir alguns outros, como o Grilo Falante. Além disso, a trama apresentava desafios técnicos enormes, tais como a sequência envolvendo a fuga de uma baleia em alto mar. Entretanto, Disney sempre afirmou que sua grande meta era quebrar barreiras e desta vez não foi diferente. Mesmo tendo uma estreia difícil, com uma bilheteria abaixo do esperado (o mundo estava em guerra quando foi lançado), a animação, ao longo dos anos, cresceu junto aos olhos da crítica e do público, fazendo jus ao esforço de seu idealizador.

A narrativa trata de um boneco de madeira construído pelo artesão Gepeto que adquire vida por obra da Fada Azul, atendendo a um pedido do velho solitário. A partir de então, o grande desejo de Pinóquio é se tornar um menino de carne e osso. Todavia, para conseguir seu objetivo, deverá mostrar valentia, dedicação, lealdade e disciplina, entre outras virtudes necessárias. Seu objetivo começa a sofrer atropelos quando é assediado por João Honesto, um larápio que o convence de que pode ser um grande ator, apesar da insistência em contrário do Grilo Falante, o qual possui a missão de ser a sua “consciência” (e foi primeiro personagem da Disney a falar diretamente com os espectadores). O intuito de João Honesto, na verdade, é vendê-lo para o saltimbanco Stromboli, dono de um show de marionetes que vagueia pelas redondezas. É aqui que começa o lado sinistro da narrativa e percebemos o quanto o longa ainda permanece atual. A exploração da inocência continua tão frequente quanto em outros tempos (talvez tenha até aumentado) o que torna “Pinóquio” até mesmo um filme necessário, hoje, para os pequenos. Os noticiários estão repletos de casos de crianças desaparecidas, sequestradas ou abusadas sexualmente e as cenas que mostram o menino de madeira preso a uma gaiola podem, infelizmente, retratar a realidade de muitos inocentes no presente momento.


É interessante notar, ademais, como Pinóquio retrata com perfeição o comportamento infantil, mesmo levando em consideração a “esperteza” das crianças de hoje. Toda criança, em determinada fase, mente aos adultos para esconder suas peraltices e isto é mostrado com rara eficiência na clássica sequência em que o nariz de Pinóquio cresce a cada mentira que conta para a Fada Azul. A indisciplina infantil também é retratada de forma perfeita nas desventuras de Pinóquio na Ilha dos Prazeres. Mal influenciado pelo garoto Espoleta (demonstrando o quanto as más influências podem ser nocivas ao comportamento das crianças), o protagonista se entrega a toda sorte de prazeres proibidos aos pequenos, como fumar, jogar ou se entupir de guloseimas. A consequência é que os garotos, aos poucos, vão se transformando em burros, numa analogia clara com os resultados que a falta de estudo ou dedicação ao trabalho podem trazer. A passagem na Ilha dos Prazeres também possui tons bastante sinistros (tal como no cativeiro de Stromboli), mas é importante ressaltar que a equipe (com direção de Hamilton Luske e Ben Sharpsteen) soube realmente minorar o lado sombrio para torná-lo palatável ao público (principalmente às crianças).

O caráter técnico, por sua vez, é realmente impressionante. Várias sequências são de extrema beleza , com um apuro técnico capaz de impressionar até os dias hoje, dominados pela computação gráfica. Verdadeiras pinturas animadas surgem na tela, com texturas e cores que mesmo as animações produzidas atualmente dificilmente igualam (uma das cenas, inclusive, em que Gepeto procura Pinóquio em meio a uma tempestade, teve chuva real acrescentada à imagem). Custa a acreditar que essa produção é de 1940. Isso sem falar na trilha sonora, belíssima e que foi também vencedora do Oscar.

Todos esses elementos fariam de “Pinóquio” uma estória atemporal, mas há outro que talvez seja ainda mais relevante. O cerne da trama diz respeito à concretização dos sonhos, mesmo os quase impossíveis. Ao transformar-se em um garoto de verdade, Pinóquio se torna o personagem ícone da realização dos nossos mais profundos desejos, mesmo que para tanto tenhamos que trilhar, invariavelmente, caminhos dolorosos. A força de sua mensagem é tão intensa que ela reverbera ao longo das décadas, influenciando nitidamente tramas “modernas” como a de “Inteligência Artificial”, longa de Steven Spielberg. Uma fábula que não perderá jamais a sua força, soando cada vez mais contemporânea.


Cotação e nota: Obra-prima.

Abaixo escute "When You Wish Upon A Star"!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um feliz Natal para todos!

Uma das lembranças mais caras relacionadas ao Natal que trago da minha infância é a de ver, todos os anos, uma animação em Stop Motion chamada "Rudolph, A Rena do Nariz Vermelho". Feito para a televisão em 1964, o longa narra a estória de uma renazinha que nasce com um pequeno "defeito" congênito que você já deve ter entendido pelo título. Rudolph sonha em ser uma das renas do trenó do Papai Noel, mas ele se sente discrimiando pela sua condição "diferente". Durante anos, o filme foi sempre reprisado na noite de Natal (e eu sempre assistia com o mesmo entusiasmo), mas as redes de TV em geral estão cada vez mais ridículas e esquecendo no fundo do baú os produtos de qualidade. Segue abaixo um trecho da animação para matar as saudades de muita gente. Além disso, aproveito o ensejo para desejar um feliz Natal para todos, cheio de muita saúde, paz e harmonia com a família e os amigos. E que o nascimento de um certo menino em Belém, há cerca de de 2000 anos, nos sirva de inspiração não apenas no dia 25/12, mas ao longo de todos os dias do ano. Um grande abraço!


sábado, 18 de dezembro de 2010

Blake Edwards: 1922-2010


Na última quarta-feira dia 15, como amplamente divulgado na mídia, faleceu, aos 88 anos, Blake Edwards, um dos diretores que mais fizeram o público rir na história do cinema, apesar de sua depressão crônica. Dentre tantos filmes divertidos que dirigiu, considero um especialmente hilário. É "Um Convidado Bem Trapalhão" (The Party), mais uma de suas parcerias com o também genial (e louco) Peter Sellers. Segue abaixo a sequência inicial do longa, a qual já dá um aperitivo. A verdade é que ao longo da projeção poucas vezes paramos de rir. Se não viu, veja urgentemente!


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Beijos Proibidos
(Baisers Volés)




A vida segundo François Truffaut


Os iniciantes na obra do mestre François Truffaut costumam realizar o primeiro contato através de “Os Incompreendidos” e é até natural que assim o seja. Afinal, trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, além de ser considerado o marco inicial da Nouvelle Vague, o movimento cinematográfico que pôs em prática a “política do autor” desenvolvida pelos críticos da revista “Cahiérs du Cinema” (Truffaut entre eles). Todavia, acredito que para muitos, principalmente os mais afeitos ao padrão do cinema atualmente exibido a cada sexta-feira nos multiplexes dos shoppings mais próximos, talvez esta não seja a melhor opção. “Os Incompreendidos” não é exatamente um filme fácil, possui um final que pode deixar muitos insatisfeitos (apesar de genial e marcante), além de ser em P&B (há muitas pessoas que têm preconceito com o preto e branco, pode acreditar). Tampouco recomendaria “Jules & Jim”, um dos seus longas mais famosos, mas que também pode descontentar os mais tradicionais com sua narrativa não-convencional (além de ser também em P&B).

Se alguém me perguntar a que filme de Truffaut assistir para começar a apreciar sua obra, responderei, quase com certeza, “Beijos Proibidos” (Baisers Volés). Trata-se de um filme leve, divertido, romântico, que não assusta o espectador afeito a Hollywood, mas que também é dotado do frescor e originalidade típicos de um Truffaut ainda jovem e cheio de novas ideias na cabeça. Na realidade, este é o terceiro filme do cineasta com o personagem Antoine Doinel (os anteriores foram o citado “Os Incompreendidos” e o curta “Antoine e Collete”), o seu alter-ego, sempre interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud. Nele, vemos Doinel já adulto, logo após deixar o exército, tendo sido dispensado por inadequação às regras militares. De qualquer forma, não há problema em assistir a este episódio sem ter visto os anteriores. As tramas são independentes e não necessitam que o espectador possua um conhecimento prévio do personagem para apreciar o longa.

Truffaut procura retratar aqui a inconstância da juventude e suas várias facetas. Doinel não consegue se fixar em um trabalho. Sai do exército para trabalhar em um hotel como atendente noturno, emprego do qual é logo demitido. Logo depois, é contratado para trabalhar em uma agência de detetives particulares, emprego que o levará a diversas peripécias, dentre as quais o seu encontro com Fabienne Tabard (Delphine Seyrig), mulher mais madura com quem acaba tendo um relacionamento amoroso. Ao mesmo tempo, Doinel mantém um namoro cheio de idas e vindas com a bela Christine Darbon (Claude Jade), da qual parece realmente gostar, mas ainda é imaturo demais para assumir um compromisso mais sério. Por outro lado, não se pode negar que Doinel tem uma imensa alegria de viver, procurando aproveitar cada momento sem grandes preocupações com o futuro. Aliás, esta é uma característica típica da obra do diretor francês. Sabe-se que ele teve uma infância e adolescência difíceis (retratada em “Os Incompreendidos”), tendo passado alguns anos como delinquente nas ruas de Paris. Pode-se até mesmo afirmar que a sétima arte o salvou. Entretanto, Truffaut manteve-se longe das amarguras e sua obra é sempre lembrada como uma celebração da vida. Seu alter-ego reflete, assim, esse estado do espírito do diretor. Doinel quer apenas um lugar para se dedicar à literatura e oportunidades para estar ao lado de belas mulheres. Nada mais o preocupa, a não ser vivenciar os pequenos prazeres que lhe dão o colorido da vida. A própria estrutura narrativa não possui exatamente uma trama, mas tão somente uma sucessão de acontecimentos no cotidiano de Antoine tal como, na verdade, acontece em nossas vidas. Afinal, a vida não tem uma trama, mas uma sucessão de fatos que muitas vezes parecem desconexos (e muitas vezes realmente o são) e é desta forma que acompanhamos a trajetória de Doinel.



Em outra vertente, Truffaut parece afirmar que não só a natureza do amor pode ser inconstante, mas que ele também pode ser uma forma de loucura. Doinel nos parece meio louco com sua paixão repentina por Fabienne Tabard, assim como outros personagens, entre eles um misterioso desconhecido que dá ao desfecho do longa um tom bastante inusitado (assim como um dos clientes da firma de detetives, responsável por uma das sequências mais divertidas do longa). Vale ressaltar, porém, que Truffaut jamais desrespeita seus personagens, tratando-os com um enorme carinho. Toda a ternura do filme parece ser sintetizada pela bela canção que abre a narrativa, a inesquecível “Que Reste-t-il de Nos Amours”, interpretada por Charles Trenet, uma delícia musical que grudará em sua memória.

François Truffaut pode não ter sido o mais inovador dentre os cineastas da Nouvelle Vague (esse título possivelmente cabe a Jean-Luc Godard). Todavia, ao adentrar em sua obra, você perceberá porque ele é o mais amado dentre estes. Abordando como poucos, e de forma positiva, os sentimentos, relacionamentos, decepções, esperanças e alegrias, peças estas que compõem a parte mais significativa da vida, ele escreveu uma página fundamental da sétima arte e “Beijos Proibidos” é mesmo uma ótima, leve e divertida forma de iniciar sua apreciação da carreira do diretor francês (ou mesmo uma ótima maneira de começar a conhecer a Nouvelle Vague). Começará a perceber, assim, que Truffaut parece dizer a cada fotograma de sua obra que viver é fundamental.


Cotação:

Nota: 10,0

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Impressões sobre o Globo de Ouro 2011


Fiquei impressionado com a lista dos indicados ao Globo de Ouro 2011, a ser entregue no próximo dia 16 de janeiro. Contudo, porém, todavia... Na realidade, fiquei mal impressionado. A presença de filmes como "Alice no País das Maravilhas" entre os finalistas, mesmo que seja na categoria comédia/musical, só pode ser piada de mal gosto. Não que o filme seja ruim, mas é apenas razoável, sendo muita estranha sua presença entre os supostamente melhores do ano. O que dizer então de "RED - Aposentados e Perigosos"? Outra piada de gosto duvidoso. Mas não, em verdade, não é. Este talvez seja o mais forte sintoma de que o ano foi fraquíssimo! O crítico Rubens Ewald Filho costuma taxar todos os anos como fracos na produção cinematográfica e em várias oportunidades discordei dele. Mas neste ano tenho que lhe dar a mão à palmatória: 2010 foi um ano ruim para o cinema. Na categoria drama, "O Discurso do Rei" surge como o longa de maior número de indicações. Apesar dos elogios que vêm sendo feitos à atuação de Collin Firth, tenho a impressão (pois ainda não vi) que esse filme é mais um daqueles programados para concorrer ao Oscar, mas que no fundo não é lá essas coisas. De qualquer forma, o Globo de Ouro deixou de ser termômetro do Oscar já faz um certo tempo. Por outro lado, minha torcida para o prêmio da Academia de Hollywood vai para "Toy Story 3", sem dúvida o melhor filme do ano!

Segue abaixo a lista de indicados em cinema:



Melhor filme (drama)

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social

Melhor filme (musical / comédia)


Alice no País das Maravilhas
Burlesque
Minhas Mães e meu Pai
RED - Aposentados e Perigosos
O Turista


Melhor ator (drama)

Jesse Eisenberg - A Rede Social
Colin Firth - O Discurso do Rei
James Franco - 127 Horas
Ryan Gosling - Blue Valentine
Mark Wahlberg - O Vencedor

Melhor atriz (drama)

Halle Berry - Frankie and Alice
Nicole Kidman - The Rabbit Hole
Jennifer Lawrence - Inverno da Alma
Natalie Portman - Cisne Negro
Michelle Williams - Blue Valentine

Melhor ator (musical / comédia)

Johnny Depp - Alice no País das Maravilhas
Johnny Depp - O Turista
Paul Giamatti - Barney's Version
Jake Gyllenhaal - Amor e Outras Drogas
Kevin Spacey - Casino Jack

Melhor atriz (musical / comédia)

Annette Bening - Minhas Mães e meu Pai
Anne Hathaway - Amor e Outras Drogas
Angelina Jolie - O Turista
Julianne Moore - Minhas Mães e meu Pai
Emma Stone - Easy A

Melhor ator coadjuvante

Christian Bale - O Vencedor
Michael Douglas - Wall Street 2
Andrew Garfield - A Rede Social
Jeremy Renner - Atração Perigosa
Geoffrey Rush - O Discurso do Rei

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams - O Vencedor
Helena Bonham Carter - O Discurso do Rei
Mila Kunis - Cisne Negro
Jacki Weaver - Animal Kingdom
Melissa Leo - O Vencedor

Melhor diretor

Darren Aronovsky - Cisne Negro
David Fincher - A Rede Social
Tom Hooper - O Discurso do Rei
Christopher Nolan - A Origem
David O. Russell - O Vencedor

Melhor roteiro

Danny Boyle and Simon Beaufoy - 127 Horas
Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg - Minhas Mães e meu Pai
Christopher Nolan - A Origem
David Seidler - O Discurso do Rei
Aaron Sorkin - A Rede Social
Melhor filme em lingua estrangeira

Biutiful
The Concert
The Edge
I Am Love
Em um Mundo Melhor

Melhor longa animado

Meu Malvado Favorito
Como Treinar o Seu Dragão
O Mágico
Enrolados
Toy Story 3

Melhor trilha sonora original

Alexandre Desplat - O Discurso do Rei
Danny Elfman - Alice no País das Maravilhas
A.R. Rahman - 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross - A Rede Social
Hans Zimmer - A Origem

Melhor canção original

"Bound to You" - Burlesque
"Coming Home" - Country Strong
"I See the Light" - Enrolados
"There's A Place For Us" - As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada
"You Haven't Seen The Last of Me" - Burlesque

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Quero Ver Novamente #9

Desde outubro parece que o nome "Beatles" não tem dado trégua na mídia nacional. Nestes últimos meses, tivemos o aniverário de 70 anos de John Lennon (09 de outubro), os shows de Paul McCartney no Brasil em novembro e, no último dia 08/12, a lembrança dos 30 anos do assassinato de John.

Tudo isso me faz lembrar que um dos longas estrelados pelos Fab Four, "A Hard Day's Night" (conhecido no Brasil como "Os Reis do Iê, Iê, Iê!"), possui qualidade cinematográfica indiscutível. Dirigido por Richard Lester, o filme pode ser colocado como o responsável pelo futuro surgimento da MTV, já que a fórmula de assossiação imagem-música criada por Lester é, basicamente, a mesma utilizada até hoje nos videoclipes. Futuramente, os próprios Beatles utilizariam este conceito nos primeiros clipes da história da música pop, com as canções "Penny Lane" e "Strawberry Fields Forever". Ademais, poucos filmes captam tão bem o espírito de uma época, com a explosão da juventude e o surgimento do que hoje conhecemos como cultura pop. Este já está na minha lista de reprises para uma data bastante breve! Confira abaixo o estouro da beatlemania...



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Tropa de Elite 2" chegou lá!



Esta notícia já era esperada há alguns dias e hoje foi ratificada. "Tropa de Elite 2" tornou-se o filme brasileiro mais visto em todos os tempos. Com as exibições até a noite de terça-feira 07/12, o longa de José Padilha alcançou 10.736.995 milhões espectadores. "Nunca antes na história desse país" um filme havia alcançado tamanho número de bilhetes vendidos!

O recorde anterior pertencia a "Dona Flor e Seus Dois Maridos", dirigido por Bruno Barreto em 1976, o qual contava com 10.735.525 milhões espectadores.

Já "A Dama do Lotação", dirigido por Neville de Almeida em 1978, levou 6,5 milhões de pessoas aos cinemas (passando agora a ser o terceiro colocado em número de espectadores). "Tropa de elite 2" está há nove semanas em cartaz e, atualmente, está sendo exibido em 331 salas.

Na opinião deste blogueiro, o feito é justo, muito justo! É justíssimo!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Rede Social



Rede de solitários


David Fincher é, inegavelmente, um dos melhores diretores em atividade no cinema norte-americano. Alguns de seus filmes, inclusive, alcançaram grande popularidade, como os ótimos “Seven”, “Clube da Luta” e “O Curioso Caso de Benjamin Button” Ademais, analisando as entrelinhas destas obras, verificamos traços autorais fortíssimos. Talvez o mais marcante deles seja a existência de personagens (normalmente os protagonistas) que se sentem socialmente excluídos/inadequados. É assim com o personagem de Edward Norton em “Clube da Luta” e é assim com o Benjamin de Brad Pitt no terceiro filme mencionado (sem falar nos dois antagonistas de “Seven”, o policial de Pitt e o sociopata de Kevin Spacey).

Neste seu novo “A Rede Social” não é diferente. O protagonista Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, ótimo no papel), o criador do Facebook, o mais jovem bilionário do mundo, é mostrado, antes de tudo, como um grande solitário que, apesar de sua enorme inteligência, não consegue estabelecer relações sociais sólidas. O longa (que teve roteiro de Aaron Zorkin, baseado em livro de Ben Mezrich) tem início colocando em ênfase esta sua dificuldade. Em uma cena com marcante atuação dos participantes, Zuckerberg leva um fora de sua então namorada Erica Albright (papel de Rooney Mara). Na discussão, Erica pronuncia uma frase que parece se tornar um marco negativo na vida do jovem estudante de Harvard: “você não tem sucesso com as garotas por ser nerd, mas por ser um babaca”. Enfurecido, Mark se vinga da ex criando um site de competição entre garotas universitárias, onde os usuários atribuem notas para as concorrentes. A partir do lamentável sucesso da empreitada (que leva o servidor a entrar em pane devido à grande quantidade de acessos simultâneos), Zuckerberg é convidado a desenvolver um projeto de uma rede social por colegas de Harvard. Para isso, conta com a ajuda do grande (e único) amigo Eduardo Gaverin (Andrew Garfield, o próximo Homem-Aranha das telonas), brasileiro e colega de faculdade. É de conhecimento público que Gaverin foi passado pra trás por Zuckerberg, depois que este se aliou a Sean Parker (o cantor Justin Timberlake, em surpreendente boa atuação), o criador do Napster e escroque de marca maior (pelo menos essa é a imagem que o filme retrata).

Contudo, tais atitudes reprováveis do protagonista se mostram, na visão de Fincher, como resultado de seu sentimento de rejeição social. Erica sofre bullyng virtual em consequência da rejeição a Mark, assim como Eduardo sofre as consequências de ser mais popular e ter maior sucesso com as mulheres, fato que, subentende-se, se revela como a origem de sua trapaça com o amigo. E é louvável que Fincher não caia nas facilidades do maniqueísmo. O nosso protagonista é antipático, tem um caráter duvidoso, mas jamais somos levados a ser juízes de suas atitudes e nem o diretor se presta a esse papel.

Ironicamente, toda a narrativa é levada a cabo a partir das lembranças dos personagens em uma audiência judicial (audiência esta realizada no curso do processo promovido por Gaverin). Ou seja, vamos tomando conhecimento dos fatos em flashbacks constantes, mas é interessante como estas idas e vindas temporais, antes de confundir o espectador, ajudam a manter o ritmo do filme, já que o mesmo é bastante falado (o que pode cansar alguns). Neste ponto, vale um elogio à edição primorosa do longa, que consegue estabelecer um dinamismo mesmo em uma trama onde os personagens basicamente apenas conversam e teclam em computadores. Em um longa tão verborrágico, óbvio que as atuações se transformam também em elemento primordial. E elas não decepcionam. Jesse Eisenberg, como dito acima, alcança o tom certo para um personagem difícil, conferindo-lhe humanidade ao mesmo tempo que mostra suas facetas obscuras (circula na internet que ele deve ser indicado ao Oscar, o que não seria injusto). Também, neste ponto, se destaca a presença de Andrew Garfield (fazendo muito fã do herói aracnídeo ficar aliviado). Ele compõe seu Eduardo, com seu jeito mais descontraído e simpático, como um contraponto ao antipático e retraído Zuckerberg, mas sem cair na caricatura do amigo “popular”. Justin Timberlake, o famoso cantor e dançarino, está bem na interpertação do seu Sean Parker, quem diria! Finalmente, o elenco feminino não tem muito o que fazer. Mesmo Rooney Mara, a tal Erica que dá o fora em Zuckerberg, aparece em poucas cenas. As mulheres no filme surgem apenas como impulsionadoras das atitudes dos rapazes, sem maior aprofundamento. Aliás, a grande maioria das personagens femininas do filme é exibida como promíscua e/ou fútil, escapando dessa visão apenas a mencionada Erica e a advogada de Jesse durante o processo judicial, o que acaba se tornando um ponto fraco do longa (mas, em verdade, é uma constante na obra de Fincher, autor de longas em geral predominantememte masculinos). Outro ponto negativo são os momentos meio jogados a machadadas no roteiro para que percebamos que Mark ainda nutre sentimentos por Erica (um em especial, durante um diálogo entre Zuckerberg e Parker em uma boate, me pareceu um tanto forçado). Ressalte-se que o Zuckerberg real nega a existência do namoro.

Mas é importante destacar: com a “A Rede Social” Fincher procura, acima de tudo, traçar um painel da sociedade atual, extremamente ligada por laços virtuais (“o que você escreve na internet não pode ser apagado”, é dito a certa altura), mas a cada dia mais individualista, tonando-se um precursor na abordagem dessas relações aproximadas/distanciadas. Não há maior paradoxo e ironia do que o criador de um site de relacionamentos que reúne 500 milhões de usuários em todo o mundo não possuir um amigo sequer. A fantástica conclusão, pontuada pela canção “Baby, You’re a Rich Man” dos Beatles, sublinha com veemência esta realidade. Talvez a tais redes sociais tivessem na designação “redes de solitários” uma definição mais feliz.

Cotação:

Nota: 9,5

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Senna



Mito resgatado


Os documentários em longa-metragem, gênero cinematográfico que vem ganhando mais força nos últimos anos (principalmente com a popularidade de Michael Moore e suas peças contra o conservadorismo norte-americano), tradicionalmente desenvolvem sua narrativa, principalmente quando se trata de biografias, por meio de entrevistas com aqueles que conviveram (ou convivem) com o biografado, além da presença de um narrador (mesmo que em off). A primeira virtude de “Senna”, documentário sobre o lendário piloto brasileiro, um verdadeiro mito na nossa Terra Brasilis, é justamente fugir desta fórmula convencional.

O diretor Asif Kapadia conseguiu desenvolver uma bela narrativa, que perpassa toda a carreira de Ayrton Senna da Silva, com um ritmo quase ficcional, apenas através da edição de imagens dos arquivos (algumas delas inéditas) fornecidas por emissoras de TV (rede Globo entre elas) e a inserção de áudios de depoimentos e narrações de profissionais como Reginaldo Leme e Galvão Bueno (no tempo em que Galvão ainda era narrador e não o chato absoluto que é hoje). O painel que se mostra nos dá uma perspectiva não só das proezas do piloto, mas também da personalidade do Senna ser humano, com suas virtudes e falhas.

Kapadia vai buscar o início da carreira de Ayrton, ainda no kart, em sua primeira temporada na Europa, mostrando as dificuldades que se colocam principalmente para os latinos, tendo de viver longe da família e dos amigos. E assim vamos acompanhando sua ascensão até sua chegada à F1, por meio da modesta escuderia Toleman. A despeito das limitações do carro que tinha em mãos, Senna consegue um resultado excepcional no Grande Prêmio de Mônaco, debaixo de forte chuva, não alcançando a vitória devido ao encerramento prematuro da prova. Esta seria a primeira de muitas oportunidades em que Senna enfrentaria a politicagem dentro do esporte, que no longa se apresenta encarnada no presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o truculento, autoritário e arrogante Jean-Marrie Ballestre. Neste ponto há um detalhe importante: Ballestre era francês, mesma nacionalidade do arqui-rival do piloto brasileiro, o “professor” Alain Prost. E aqui é interessante perceber que, quando da chegada de Senna à McLaren, apesar da competitividade acentuada e ambos os pilotos (ninguém se torna campeão em um esporte individual sem possuir uma forte dose de competitividade circulando nas veias), havia um clima de camaradagem entre eles, proporcionando um bom ambiente na equipe. Esse clima agradável, contudo, vai sendo substituído por um ambiente negro onde as vaidades são exacerbadas e é neste ponto que o documentário aponta para uma derrapada. Prost acaba sendo mostrado como o “vilão” da história, o “inimigo” a ser batido por Senna, e não como um desportista que também almejava as suas vitórias. Tal tendência é ainda mais realçada quando da abordagem da decisão do campeonato de 1989, quando Kapadia parece ter convicção de que o piloto francês foi o responsável pelo acidente que levaria à decisão da competição. Esta atitude meio que serviria para justificar o comportamento semelhante de Senna no ano seguinte, quando parece ter provocado a colisão que também determinou a decisão do título nesta oportunidade.

Há, ademais, um certo apelo à ideia de que Senna pressentiu a sua morte ocorrida no GP de Ímola de 1994, induzindo o espectador a acreditar nesta versão que parece ser acalentada pelos fãs. Na realidade, se trata de uma impressão de alguns que estavam próximos a ele, mas jamais saberemos se é verdade. Aliás, segundo depoimento do próprio piloto mostrado no longa, ele próprio imaginava estar ainda na metade da vida, o que contradiz essa ideia de pressentimentos funesto anunciados pelos comentários em off.

Em outra ponta, o longa é feliz em mostrar as razões que levaram Senna a se tornar um ídolo em nosso país. O Brasil vivia tempos amargos na economia, com a hiperinflação e o aumento exponencial da pobreza. Isso ainda se somava à frustração com os representantes eleitos, sendo que o primeiro presidente após a redemocratização acabou sofrendo o impeachment pelo Congresso Nacional. Como diz uma popular em certo momento, para os brasileiros Senna parecia ser “a única coisa que o Brasil tem de bom” (é bom recordar ainda que o futebol estava em um momento de vacas magras). Ademais, ele sempre demonstrou uma afinidade muito grande com a fé do povo brasileiro, colocando Deus constantemente no centro de seus depoimentos. Assim, vê-se com uma certa naturalidade a catarse coletiva provocada pela morte de Ayrton, o qual naquele momento significava um dos escassos orgulhos nacionais, um vencedor que jamais escondeu sua origem, carregando a bandeira brasileira nos momentos de júbilo.

Para quem acompanha o automobilismo, também é ótimo ver a “era de ouro” da F1 resgatada na telona. Uma época de pilotos vibrantes, que buscavam antes de tudo a vitória, e não meros empregados de firma que cumprem ordens toscas para deixarem colegas ultrapassar, desrespeitando os espectadores, o próprio esporte e a si mesmos (vide os exemplos de Barrichello e Massa). Um tempo em que as escuderias respeitavam a competitividade e não realizavam manobras de equipe para beneficiar piloto A ou B. Bons tempos aqueles em que a F1 era capaz de produzir ídolos em escala global, como Senna, que, mesmo com seus defeitos, muito humanos, fez jus ao status de referência mundial no esporte (não apenas no automobilismo). Eu mesmo nunca nutri muita admiração pela pessoa de Senna (talvez devido a uma certa antipatia gerada pelo excesso de bajulação de Galvão Bueno), mas jamais vi um piloto tão talentoso quanto ele, capaz de proezas únicas, nunca repetidas por Schummachers ou Alonsos que estão por aí. E este documentário, apesar das imperfeições acima apontadas, rende uma bela e merecida homenagem a um desportista que se tornou mitológico.


Cotação:

Nota: 9,0

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eu Quero Esse Pôster #11


Descobri este poster sensacional de "Os Pássaros", um dos grandes filmes do velho Hitch!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tudo Pode Dar Certo



Rir de si mesmo é o melhor remédio


Muitos afirmam que Woody Allen há muitos anos faz o mesmo filme. Mas há também quem diga que todo diretor sempre faz o mesmo filme. Há uma parcela de verdade nas duas assertivas, mas também existe muita veracidade ao afirmarmos que é sempre um prazer assistir a mais um rebento da prolífica carreira do diretor nova-iorquino. É ótimo ver como os temas que mexem com sua cabeça (e de muitas outras mundo afora) “neurótica” são repetidos ao longo dos anos, mas nunca soam cansativos. Mostra-se pertinente, inclusive, destacar que Allen sabe abordar suas fixações de maneira bastante eficaz até mesmo em gêneros distintos. Em “Match Point” (2005), por exemplo, um longa de suspense mesclado com sensualidade, ele destaca o papel determinante que o acaso (ou a “sorte” como denominam alguns) pode ter em nossas vidas, mostrando que estas últimas fogem sobremaneira ao nosso controle. E agora, neste recente “Tudo Pode Dar Certo”, obra que se insere dentro do seu estilo mais característico, Allen lança novamente esta ideia para o público.

Quando falo “obra dentro do seu estilo característico” quero sintetizar aqueles filmes cheios de humor onde os relacionamentos são debatidos, suas neuras são exorcizadas com a presença de um personagem que serve de alter-ego e cujas ações se passam em Nova York. Todos esses ingredientes estão presentes neste “Tudo Pode Dar Certo”, cujo roteiro (escrito pelo próprio Allen ainda em 1977, o que talvez explique o retorno ao estilo que o consagrou) narra o cotidiano de Boris (papel de Larry David), um físico que, segundo diz, quase ganhou o prêmio Nobel, perdendo por “questões políticas”. De temperamento difícil, misantropo e ególatra, Boris vive sozinho desde que se separou de sua primeira esposa, ocasião em que tentou o suicídio (sem sucesso, obviamente). Ele tem sua rotina alterada quando conhece Melody (Evan Rachel Wood), uma bela e ingênua jovem vinda do interior que passa a morar com o velho mal-humorado.

Óbvio que as situações apresentadas se tornam um prato cheio para Allen, pois que o próprio viveu situação semelhante na vida real (como sempre, há uma parcela autobiográfica em seus longas). Talvez por isso, seu texto esteja particularmente inspirado, com diálogos e situações que irão com certeza levar o espectador ao riso, afinal possivelmente o maior talento de Allen seja justamente o de rir de si mesmo. E de nos fazer rirmos de nós mesmos. O personagem de Boris cria uma casca de dureza e indiferença para esconder sua fragilidade, como tantos de nós costumamos fazer em nossos relacionamentos. Afinal, muitas das nossas manifestações de egoísmo e vaidade decorrem de nossas carências, normalmente mal-resolvidas durante boa parte da vida (ou toda ela). Por outro lado, fica nítido que Allen procura mais uma vez dar destaque à força do acaso no rumo de nossos destinos, algo que é difícil admitir porque freqüentemente é confortável acreditarmos que temos completo domínio sobre os caminhos que seguimos. A própria Melody surge na vida de Boris como resultado do acaso e, para alguém habituado a lidar com a exatidão da ciência nada pode ser mais angustiante do que sentir a força do imponderável. Ademais, estão presentes ainda na narrativa outros velhos temas de Allen como sua hipocondria, suas velhas brigas com Deus (ele sempre me passa a sensação de querer ser ateu, mas não consegue), além da liberação de amarras culturais.

No plano formal, uma solução muito interessante para a condução da trama é o diálogo direto do personagem de Boris com a plateia (a chamada “quebra da quarta parede”). Embora não seja totalmente original, o recurso funciona muito bem sem soar gratuito, causando no espectador aquela sensação ao mesmo tempo estranha e divertida de estar participando do filme. A mais, temos novamente uma ótima direção de atores, uma da marcas do cineasta, muito embora algumas atuações, principalmente a do protagonista, deixe a desejar em alguns momentos, pois que Larry David não encontra o tom certo para o seu Boris, que às vezes se apresenta excessivamente seco (algo que nunca acontece quando o próprio Allen vai para a frente das câmeras). Já Evan Rachel Wood se sai muito bem com sua Melody, o que não surpreende, já que ela é mesmo talentosa (basta lembrar de sua atuação em “O Lutador”). Também apresentado bons desempenhos estão Patricia Clarkson e Ed Begley Jr., que fazem os pais de Melody e possuem relevância no desenrolar da trama.

De qualquer forma, o que mais interessa é vermos que este senhor de 74 anos não dá mostras de cansaço. Pelo contrário! Sua vitalidade ainda é capaz de nos presentear com longas-metragens que, se por um lado repetem velhos temas, por outro conseguem trazer inteligência para o âmbito de um cinema que anda por demais infantilizado. É muito mais prazeiroso ir ao cinema e saborear uma comédia que nos leva a refletir sobre nossas próprias “neuras” do que engolir uma das muitas “comédias românticas” com começo-meio-e-fim manjados e irreais que costumam ocupar muitas salas no circuito comercial. Assim, torço para que Woody Allen continue nos fazendo rir de nós mesmos a cada novo trabalho.


Cotação:

Nota: 8,5

domingo, 14 de novembro de 2010

Para Ver em Um Dia de Chuva



Um Dia de Cão
(Dog Day Afternoon)


Tensão e crítica social com Sidney Lumet

Se você quer imaginar um diretor que deveria ser mais reconhecido do que de fato o é, este diretor sem dúvida é Sidney Lumet. Este cineasta é o responsável por filmaços inesquecíveis desde sua estreia, em 1957, com “12 Homens e Uma Sentença”, um trhiller que se passa inteiramente dentro de uma sala onde 12 jurados estão confinados para decidir o destino de um acusado em certo julgamento. E o que parece impossível acontece. Mesmo com esta limitação de espaço, Lumet consegue manter o ritmo do início ao fim, unindo um roteiro com diálogos afiados a uma edição primorosa (e também contando com ótimos atores, como o astro Henry Fonda).

Lumet parece mesmo se dar muito bem com microcosmos estabelecidos em pequenos ambientes onde a tensão reina e os personagens parecem ser levados a confrontar os seus limites. Este também é o mote explorado por ele no intenso “Um Dia de Cão”, o qual também se insere entre seus filmes “nova-iorquinos” (afinal, não são apenas Woody Allen e Martin Scorsese que usam continuamente Nova York para retratarem seus dramas). Baseado numa reportagem publicada pela revista “Life” (muito embora o roteiro, escrito por Frank Pierson, tenha levado o prêmio de melhor roteiro original da Academia de Hollywood) sobre um assalto a banco realizado por um certo John Wojtowicz, o longa metragem de 1975 se passa quase que inteiramente dentro de uma agência bancária, onde assaltantes e reféns são cercados pela polícia ao longo de um dia quente de verão. Os assaltantes, totalmente inexperientes no “ramo”, chamam-se Sonny (Al Pacino) e Sal (John Cazale, ator talentosíssimo que faleceu aos 42 anos, vítima de câncer). Sonny é um ex-combatente do Vietnã e ex-bancário, sendo que sua motivação para o crime é bastante peculiar: conseguir dinheiro para que seu namorado Leon (Chris Sarandon) realize uma operação de mudança de sexo.

Pode-se afirmar, antes de tudo, que “Um Dia de Cão” é um dos típicos produtos do que se convencionou chamar como “Nova Hollywood”, movimento surgido na segunda metade dos anos 60 e que foi responsável pela projeção da figura do diretor no cinema americano em contraposição ao studio system, o qual teve seu auge até o fim dos anos 50. Contraditoriamente, foi essa nova forma de enxergar a maneira de se fazer cinema que tirou os estúdios da bancarrota (“O Poderoso Chefão”, por exemplo, salvou a Paramount da falência). Devido ao seu perfil autoral (adotando o pensamento difundido pela Nouvelle Vague francesa), estes jovens diretores inseriam em seus filmes temas polêmicos e visões heterodoxas sobre os mesmos, algo que, até então, era realizado de forma mais tênue devido à ingerência dos produtores no resultado final. Outro fator que também contribuiu foi o abrandamento das normas de classificação etária nos EUA, com o fim do código de normas que as produções eram obrigadas a seguir.

A temática abordada pelo longa de Lumet só poderia mesmo surgir e ser bem aceita em um ambiente de contestação do establishment, onde falsos pudores foram jogados pela janela, substituídos por um retrato mais fiel da sociedade. Sociedade esta atônita com o horror da guerra do Vietnã e com a corrupção na política, representada de forma lapidar com o escândalo de Watergate. A cinematografia dos anos 70 tornou-se, desta forma, a mais contestadora da história do cinema americano, expondo a sujeira escondida debaixo do tapete do moralismo ianque. Com um público ávido por enfrentar as situações postas, a história de Sonny acabou se tornando um sucesso de bilheteria. Afinal, Sonny era um desempregado que, num ato de amor e desespero, resolve fugir às regras sociais para realizar o sonho daquele que amava. Uma inadequação do indivíduo ao meio ainda mais potencializada por sua homossexualidade, poucas vezes mostrada de forma tão aberta até então.

O inconformismo e a crítica para com o status quo vigente são ainda representados pela menção ao massacre de Attica, uma prisão onde poucos anos antes havia acontecido um massacre de detentos promovido pela polícia de Nova York (uma espécie de “Carandiru” local), muito embora este seja um aspecto que torna o longa datado e, principalmente, causa estranheza àqueles que não conhecem o evento mencionado.

Outro aspecto importante levantado por Lumet na projeção é a espetacularização realizada pela mídia e o surgimento das celebridades instantâneas. É nítido que vários dos personagens, seja os reféns, seja a população que acompanha de perto os acontecimentos, se satisfazem com a ideia de se tornarem conhecidos a partir de então. “Vou aparecer na TV” ou “sou um astro”, são falas que sublinham a narrativa e, de certa forma, antecipam os dias atuais onde a previsão dos 15 minutos de fama feita por Andy Warhol parece cada vez mais factível.


Toda esta abordagem densa e crítica, entretanto, é conduzida por Lumet de forma extremamente envolvente. Com uma edição brilhante (indicada ao Oscar), o ritmo do longa jamais cai e a sensação de tensão acompanha cada fotograma exibido. O clima tenso, por outro lado, não teria sucesso não fosse a contribuição extraordinária do elenco. Pacino (que cogitou abandonar o projeto antes começarem as filmagens) está brilhante na pele do protagonista, repetindo aqui a parceria de sucesso com Lumet iniciada dois anos antes em “Serpico” (outro dos filmes nova-iorquinos do diretor). Com uma atuação visceral, o ator transformou Sonny em um personagem inesquecível, tendo recebido elogios do próprio John Wojtowicz. Cazale também leva brilhantismo ao seu desequilibrado Sal, personagem dos mais instigantes (memorável a cena em Sonny lhe pergunta para que país ele gostaria de fugir e o mesmo responde “Wyoming”). Ademais, buscando maior realismo, Lumet determinou que todo o elenco deveria utilizar roupas próprias nas gravações, substituindo as tradicionais roupas de estúdio. Aliando esses detalhes a uma improvisação nas falas dos atores, o resultado se mostra bastante naturalista, algo ainda mais necessário em história que se baseia em fatos reais.

“Dog Day Afternoon”, com seu senso de urgência, mostra-se, desta maneira, como um filme bastante contemporâneo, apto a agradar o público impaciente dos dias atuais (mesmo considerando alguns elementos datados, como mencionado mais acima). Por outro lado, revela um olhar contundente acerca da moral e valores do meio social estadunidense, capaz de levar à reflexão o espectador mais exigente, longe da infantilidade que parece dominar as salas de cinema nos dias de hoje. Além disso, é, antes de tudo, um belo exemplo das capacidades técnicas e artísticas de Sidney Lumet, um diretor que, decididamente, merece ser mais conhecido e, principalmente, reconhecido por seus pares e amantes do cinema.

Cotação:

Nota:9,5

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quero Ver Novamente #8

A morte de Dino De Laurentiis se tornou fato noticiado até no Jornal Nacional desta última quinta-feira, 11/11/2010. À parte seu envolvimento com a máfia italiana, Laurentiis produziu grandes obras-primas da 7ª arte e também algumas bombas... Mas vamos lembrar dele por filmes como "A Estrada da Vida", dirigido pelo gênio Federico Fellini. Uma obra pungente com interpretações soberbas de Anthony Quinn e Giulietta Masina (esposa de Fellini). Confira abaixo algumas cenas com a bela trilha do mestre Nino Rota!


sábado, 6 de novembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer



O Homem que Matou o Facínora
(The Man Who Shot Liberty Valance)



Os fatos e as lendas



Em certa oportunidade, Jean-Luc Godard, ainda um crítico da revista Cahiérs du Cinema, foi levado às lágrimas em uma sala de cinema. Ele estava sensibilizado pela forte interpretação de John Wayne e a tragédia vivida pelo personagem deste em “Rastros de Ódio”, um dos mais importantes e amargos westerns de todos os tempos, dirigido por ninguém menos que John Ford, um dos grandes gênios da história do cinema.

Muitos afirmam que o Oeste mítico foi criado por Ford com seus personagens durões e sua bela fotografia das imponentes regiões desérticas norte-americanas, principalmente do Monument Valley. Esta é uma verdade apenas parcial. Não se pode negar que Ford, auxiliado pela presença de John Wayne, seu parceiro em muitos filmes, transmitiu a milhões de espectadores a ideia consagrada da formação da sociedade americana. Contudo, apesar de se valer de mitos e arquétipos, Ford os utiliza não como uma elegia à América, mas principalmente como uma maneira de dissecá-la, mostrando o outro lado, muito menos louvável, desta mesma sociedade. O citado “Rastros de Ódio”, por exemplo, mostra que a formação dos EUA está calcada no racismo, o qual foi responsável pela dizimação indígena e, posteriormente, a segregação dos negros nos estados sulistas.

Já em “O Homem Que Matou o Facínora”, Ford vai ainda mais longe neste processo de desmistificação. Em um olhar mais atento, parece querer afirmar que toda a construção da nação estadunidense, tal como a conhecemos, na realidade pode ser uma grande farsa criada para que não enxerguemos uma realidade não muito bonita ou meritória. Afinal, é mais fácil respeitar a História quando ela nos revela lances de heroísmo e retidão, ingredientes que podem transformá-la em uma autêntica lenda. Mas a História é, antes de tudo, construída por seres humanos, demasiadamente humanos, com circunstâncias humanas que fogem em muito de situações míticas.

O longa-metragem de 1962 (com roteiro escrito por James Warner Bella e Willis Goldbeck, a partir de uma obra de Dorothy M. Johnson) se inicia com a chegada do senador Ransom Stoddard (personagem de James Stewart, um dos melhores e mais carismáticos atores hollywoodianos) à cidade de Shinbone, acompanhado de sua esposa Hallie (Vera Miles), após muitos anos sem retornar, para o funeral de um cidadão local, um certo Tom Doniphon (John Wayne, fazendo sua caracterização típica), homem praticamente desconhecido pelas novas gerações do vilarejo. Instado por jornalistas e o prefeito locais, Stoddard passa a narrar os motivos de sua deferência ao falecido, na realidade o verdadeiro responsável pela eliminação de um bandido que assolava a região anos antes (o Liberty Valance do título original, interpretado por Lee Marvin), feito que acabou sendo atribuído ao agora senador devido às circunstâncias de como ocorreu. Na verdade, Stoddard, à época, era um recém formado em Direito, um homem vindo dos meios mais civilizados do Leste. Um estranho no ninho diante da lei do mais forte que imperava na região selvagem para a qual migrou. Entretanto, vai, aos poucos, descobrindo que as leis são insuficientes para garantir a sobrevivência naquele meio inóspito. Trava-se, desta maneira, de forma alegórica, um embate entre a civilização e o meio selvagem, entre o homem “esclarecido” e o homem “rude” (representado tanto por Liberty Valance quanto por Tom Doniphon). Tal antagonismo é ainda personificado pela personagem de Hallie, que se vê dividida entre o gentil e educado Ransom e o vigoroso e viril Doniphon.


A resolução levada ao conhecimento do público pelos meios comunicação (bastante criticados por Ford no longa) parece sugerir uma conciliação destes dois opostos. O homem civilizado representado por Stoddard usa de métodos embrutecidos quando necessário, no caso para defender sua própria vida. Uma síntese da ideia corriqueira que os próprios norte-americanos fazem de si mesmos: pessoas civilizadas que recorrem à violência quando não resta outra alternativa (pensamento usado para justificar até mesmo a bomba em Hiroshima). No entanto, trata-se de uma grande ilusão vendida através dos séculos. Na trama, Stoddard jamais venceria Valance com suas próprias forças. Apesar de sua coragem, Liberty é morto por Doniphon, com um tiro às escondidas. E, mesmo depois de saber a verdade, Stoddard aceita os louros da fama. Enfim: o senador simboliza uma América que exclui a verdade quando lhe é conveniente. A frase emblemática do longa sintetiza o conceito de forma perfeita: “quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”.

Ou seja, Ford dá um tapa cruel no rosto da sociedade ianque, desconstruindo os mitos e realizando uma auto-crítica como poucas vezes se observa no cenário de Hollywood. Não é à toa que seu estilo clássico, mas ao mesmo tempo incisivo, se tornou referência para várias gerações de cineastas, desde o referido Godard da Nouvelle Vague até nomes como Clint Eastwood (que considero o seu mais talentoso e fiel discípulo direto). Eis um gênio que merece ser mais conhecido pelas novas gerações. No caso dele, sua genialidade é muito mais fato do que lenda.


Cotação:

Nota: 10,0

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Tropa de Elite 2" já ultrapassa 7 milhões de espectadores


Pela quarta semana consecutiva, "Tropa de Elite 2" seguiu no topo da bilheteria brasileira. No meio da semana passada, o filme se tornou o longa-metragem brasileiro mais visto desde a Retomada. E no fim de semana de 29 a 31 de outubro, somou mais R$ 7,3 milhões (687 mil espectadores) à sua bilheteria, resultando em um total de R$ 69 milhões arrecadados até agora.

Com isso, o filme caminha para se tornar o mais visto no Brasil este ano, superando produções hollywoodianas como "Toy Story 3" e "Alice no País das Maravilhas". A última vez em que isso aconteceu foi em 2005, com "2 Filhos de Francisco". E mais: a segunda parte da luta de Nascimento contra o crime organizado já se tornou o segundo longa nacional mais visto em todos os tempos, ultrapassando “A Dama do Lotação”, que em 1978 vendeu 6,5 milhões de ingressos e era desde então o segundo maior público da história do cinema nacional. Agora, a expectativa é para saber se “Tropa 2” tem bala para ultrapassar “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que fez 10,7 milhões de espectadores em 1976. O filme da Tropa já tem mais de 7,5 milhões de ingressos vendidos. Façam suas apostas!

domingo, 31 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Hiroshima, Meu Amor
(Hiroshima, Mon Amour)



Nós somos nossa memória



É difícil escrever sobre um filme como “Hiroshima, Meu Amor”, não só pela sua complexidade, mas também pela enormidade de textos já escritos sobre o mesmo. O filme de Alain Resnais, que pegou carona na Nouvelle Vague (muito embora o próprio Resnais não fizesse exatamente parte do movimento), é um dos mais debatidos de toda a história do cinema, muito devido ao potencial inovador que trouxe para a sétima arte. O longa é uma mistura de drama e documentário e sua primeira parte, sé é que podemos dizer assim, é uma das mais famosas e impactantes já vistas.

Resnais era documentarista antes deste trabalho, sendo famoso o seu “Noite e Neblina” (de 1955), sobre os campos de concentração nazistas, e havia começado “Hiroshima” não como uma ficção, mas como documentário. É daí que surgiram as imagens inesquecíveis de Hiroshima destruída, dos corpos carbonizados, dos sobreviventes miseráveis, do bebê ferido e em prantos, do memorial da bomba na cidade, cenas estas sublinhadas pela memorável frase “você não viu nada em Hiroshima”, pronunciada pelo ator japonês Eiji Okada, talvez querendo dizer que o pior ainda estaria por vir (Curiosidade: Okada não falava francês e teve que aprender o texto foneticamente). Em contraponto a esta fala, lançam-se as frases ditas pela personagem da atriz francesa Emmanuelle Riva, afirmando que “viu tudo em Hiroshima”. Esta rica contraposição foi levada a cabo pelo belo texto de Marguerite Duras, escritora francesa que faria aqui sua primeira incursão no cinema (ela posteriormente também se tornaria diretora), elaborando um roteiro baseado em experiências pessoais que já haviam sido tema de livros de sua autoria.

Este aspecto literário do longa é ainda mais realçado em sua “segunda parte”. Os personagens de Riva e Okada são amantes que se encontram em Hiroshima. Ele é um arquiteto; ela, uma atriz que está na cidade para realização de filmagens. Aos poucos, ela vai revelando fatos marcantes do seu passado na França, mais precisamente em Nevers, cidade da Bretanha ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Aos poucos, vamos descobrindo que a mesma teve um romance com um soldado alemão, o qual acaba sendo morto no dia em que iriam fugir para viverem livremente seu amor. A família descobre a relação e a jovem sofre duríssimas consequências. Este passado da atriz em Nevers é mostrado através da reconstrução de memórias. Não sabemos como de fato os eventos aconteceram, mas somente como eles se processaram na memória da narradora. A memória, frise-se, é fugidia, escorregadia, pregando-nos peças e recriando os fatos de uma forma que, em muitas ocasiões, pode ser a mais confortável para a nossa consciência. E assim, a atriz vai narrando ao arquiteto (os personagens não possuem nomes), de maneira similar a uma sessão psicanalítica, as suas vicissitudes em Nevers, dando-nos uma visão da formação de sua personalidade, das motivações do seu comportamento. A memória, parece dizer Resnais, é a principal responsável por sermos o que somos.


Essa perspectiva pessoal também dialoga diretamente com o coletivo. Se a humanidade, como um todo, possui em sua História a memória dos fatos que delimitaram seus rumos, cada ser humano possui em si também eventos que marcaram/marcarão para sempre o seu destino. A Nevers da protagonista funciona para ela como Hiroshima funciona para o povo japonês, ou seja, um marco divisor que influencia seu comportamento mesmo após muitos anos dos eventos ocorridos. Cada ser humano possui uma Hiroshima que, no caso da personagem, é sua Nevers, como fica bem delimitado na “terceira parte” longa.

Vale salientar que, para uma narrativa calcada em memórias, a estrutura usada por Resnais foi necessariamente inovadora para o seu tempo. As palavras em off, no mencionado início, a sobreposição às imagens da guerra, o uso de flashbacks constantes, levando a uma projeção não linear, causaram um grande impacto na época, impacto hoje bastante diluído devido ao uso constante dos artifícios usados pelo diretor, os quais se tornaram comuns até mesmo na televisão. Resnais, ademais, radicalizaria esta proposta no seu filme seguinte, “O Ano Passado em Marienbad”, tornando-se quase inacessível ao grande público tal a dificuldade existente em sua compreensão.

Essa forma difícil, bem como a banalização de suas inovações, faz com que boa parte do público das novas gerações possua um certo desdém para com a obra do diretor francês. Uma pena. Resnais é um dos cineastas responsáveis pelo cinema tal como o vemos hoje. E “Hiroshima, Meu Amor”, sem dúvida, é uma obra seminal que ajudou a elevar a arte cinematográfica. Bem, no fim das contas, creio que não fui original, mas acabei escrevendo um texto sobre este grande filme! ;=)


Cotação e Nota: Obra-prima

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Trilha Sonora #14


"Cosmic Dancer" é a música que abre "Billy Elliot", em uma melhores sequências de créditos iniciais que já vi! Ela faz parte do álbum "Eletric Warrior", da banda "T-Rex" (cuja capa, inclusive, aparece na mencionada sequência), uma das bandas mais injustiçadas de todos os tempos! Curta clicando abaixo!