sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2



Doa a quem doer!


Desde “Cidade de Deus” a temática da violência urbana se tornou lugar-comum na produção cinematográfica nacional. Uma profusão de “filmes mundo cão” dominou as salas de cinema e, devido à enorme quantidade, faz-se necessário separar o joio do trigo. Se o citado longa-metragem de Fernando Meirelles causou impacto não apenas no Brasil como também internacionalmente, tivemos, por outro lado, bombas como “Última Parada 174”. Entre os pertencentes ao primeiro grupo, está “Tropa de Elite”, longa de José Padilha que, em 2007, fez o País discutir a criminalidade e a forma de combatê-la. Não é à toa que acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, evento que costuma premiar produções vanguardistas ou que trazem à baila discussões sociais relevantes. Ademais, transformou em ícone o Capitão Nascimento, personagem interpretado magnificamente por Wagner Moura (na minha opinião, o melhor ator brasileiro em atividade) e ainda gerou vários bordões que caíram na boca do povo (como o famoso “pede pra sair”). Três anos depois deste fenômeno pop, após recusar até mesmo realizar uma série para a poderosa Rede Globo (e depois de muito disse-não-disse) eis que Padilha nos traz a aguardada continuação “Tropa de Elite 2”. E a verdade é que o autor, agora, parece querer desencavar ainda mais as caveiras de burro que estão no fundo da criminalidade que assola não apenas o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil. Ele, quase literalmente (e com perdão da expressão), joga a merda no ventilador.

Ao mostrar a passagem do agora Coronel Nascimento para um cargo burocrático na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em decorrência de uma criticada ação do BOPE em uma rebelião dentro de Bangu I, Padilha chafurda na lama da corrupção existente no seio da própria polícia, um câncer responsável pela perpetuação da violência na mesma proporção do tráfico nas favelas. Se o foco do primeiro longa era a hipocrisia da classe média, a qual alimenta o tráfico com seus consumidores, aqui a mira se volta para aqueles que, antes de tudo, deveriam combater o crime, mas que no fundo se alimentam dele para assegurar a manutenção de seus interesses. Idolatrado pela população, para a qual “bandido bom é bandido morto”, mas criticado por grupos defensores dos direitos humanos e pela mídia, que o vêem com fascista, Nascimento (assim como muitos dos espectadores) vai descobrindo que o buraco é muito mais embaixo. Assim, “Tropa de Elite 2” transforma-se em uma peça ainda mais política do que sua antecessora, dona de um potencial explosivo ainda mais forte diante do quadro eleitoral em que o país vive.

Todavia, claro que o filme de Padilha sabe levar todo esse discurso politizado de uma forma palatável para as massas. Com acabamento mais uma vez hollywoodiano, o diretor dá uma verdadeira aula até mesmo aos ianques de como se fazer um filme policial. Dono de um ritmo que jamais oscila devido à edição brilhante de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”), ele consegue discutir o complexo tema da violência urbana sem jamais cair na chatice, deixando o espectador grudado na cadeira ao mesmo tempo em que reflete as temáticas discutidas (sempre pontuadas, mais uma vez, pela narração em off de Nascimento). Com enquadramentos perfeitos, a fotografia também tem os seus méritos, ao mesmo tempo em que o roteiro, escrito pelo próprio José Padilha e Bráulio Mantovani, se desenvolve de forma precisa, redonda e sem concessões para possíveis finais felizes (e com uma violência talvez ainda mais brutal que na primeira parte).

Com relação ao elenco, tal como ocorreu no primeiro episódio, temos os seus pontos altos e baixos. O Milhem Cortaz, como o policial Fábio, continua canastrão como de hábito, muito embora o seu personagem seja um dos melhores da trama. Já André Ramiro, com o seu André Matias (que agora é capitão), mais uma vez tem participação destacada, mesmo que o foco desta oportunidade seja mais centrado em Nascimento. Falando neste último, o personagem adquiriu características ainda mais tridimensionais, principalmente na abordagem da relação com o seu filho, mostrando-se também como um pai que tem dificuldades de relacionamento com o garoto. Mostra-se também falível na sua profissão e na relação com os amigos, cometendo seus erros e omissões. Essa abordagem mais humana do personagem dá ainda mais espaço para o show habitual de Wagner Moura, que consegue imprimir uma verdade na tela poucas vezes vista na história do cinema (não só do cinema nacional). Insisto que, em certos momentos, sua atuação alcança níveis brandonianos. Seus diálogos com André Matias (com direito a closes que não permitem subterfúgios aos atores) são especialmente interessantes e memoráveis (uma em especial, que trata sobre a ida de Nascimento para a subsecretaria de inteligência, já está entre as melhore que vi esse ano). Além disso, André Mattos está hilário como apresentador e deputado Fortunato, garantindo alguns risos diante do clima tenso.

E assim, Padilha consegue desferir mais um soco no estômago dos brasileiros. Um soco dirigido para todos os lados, seja a sociedade, os governos (independente de posição partidária), políticos, mídia (há um momento em que esta é mostrada de forma realmente repugnante), polícia, ricos, pobres etc. Na realidade, a conclusão a que ele parece chegar é de que o verdadeiro embate a ser travado em nossa Nação não está entre esquerda e direita, partido A ou partido B, mas entre corruptos e não corruptos, entre os de caráter e os sem caráter. [SPOILER] Nesse ponto, é notável que coloque, ao fim do filme, do mesmo lado e com a mesma integridade, os personagens de Nascimento e do deputado defensor dos direitos humanos Flagra, em contraposição à antipatia e rivalidade primordial dos dois [FIM DE SPOILER]. Uma obra corajosa e apta a gerar ainda mais discussões do que o primeiro. Doa a quem doer!


Cotação:

Nota: 10,0

Obs. Mesmo que de forma tênue, creio que Padilha dá a entender suas posições partidárias por meio das gravatas de certos personagens. Fique atento(a)! ;=)

John Lennon: 70 anos!

Pausa no cinema!
Se vivo fosse, John Lennon, um dos maiores músicos e personalidades do século XX, estaria completando 70 anos. Abaixo, o videoclip de "Imagine", emblemático e lindo em sua simplicidade! Valeu, John! Feliz aniversário!


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Tropa de Elite
Eu estava com essa carta na manga há algum tempo. Às vésperas da estreia nos cinemas de "Tropa de Elite 2", publico no "Cinema Com Pimenta" a resenha que escrevi para o filme original quando do seu lançamento, ainda inédita neste espaço. Só aviso que ela é beeeeeeeeemmm longa... Avisado(a)? Se desejar, continue abaixo!




Tropa de Elite osso duro de roer! Pega um, pega geral! Ela vai pegar você!!!!!!


Muito já foi debatido e questionado sobre “Tropa de Elite”, o filme brasileiro mais comentado do ano, não só pelo fato de ter sido amplamente pirateado, mas principalmente pela temática que carrega. Diante de tudo que já foi falado em todos os meios de comunicação (na “imprensa escrita, falada, televisionada e virtual”), não posso deixar de “meter o meu bedelho” nesta balbúrdia de opiniões que tomou a pauta nacional, seja no botequim, seja nos chamados “círculos acadêmicos”. Dada a complexidade do tema, preferi dividir este texto em duas partes distintas: na primeira, passarei a uma análise de “Tropa de Elite” enquanto obra cinematográfica. Em um segundo momento, passarei às repercussões sociais trazidos pelo longa. E vamos ao que interessa!

Tropa de Elite – O filme

Antes de adentramos especificamente na análise do filme de José Padilha, convém lembrarmos dos seus “ancestrais”, remotos e próximos, os quais parecem ter influenciado o diretor na construção de “Tropa”. Três podem ser citados como claros “avós” deste último.

O primeiro deles é Taxi Driver, obra do genial Martin Scorsese, um dos maiores diretores americanos vivos (ao lado de Clint Eastwood). Nele, Scorsese nos mostra a vida de um taxista novaiorquino, Travis Brickle, interpretado magistralmente por Robert De Niro. Travis é um pária social, um “esquecido”, ou “loser” como gosta de afirmar pejorativamente a sociedade americana. Em meio a uma Nova York pré Rudolph Giulianni, dominada por criminosos, Travis, gradualmente, vê-se imbuído de um sentimento misto de justiça e vingança, levando-o a cometer uma série de assassinatos, uma verdadeira “faxina” social. Em outras e mais claras palavras: justiça com as próprias mãos. Em sua época, suscitou reações diversas na sociedade americana, gerando discussões entre aqueles que apoiavam sua “limpeza”, e aqueles viam na sua atitude um caráter fascista. Como se pode observar, debate bem parecido com o que vivemos atualmente em nossas terras tupiniquins. Aliás, a influência é diretamente assumida por Padilha através da seqüência em o policial Neto “treina” em frente ao espelho em sua residência. Qualquer um que já tenha assistido a Taxi Driver lembrará imediatamente da cena em que Travis pratica pontaria em frente ao espelho. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Outra obra que vem à memória quando assistimos a “Tropa de Elite” é, sem dúvida, Apocalypse Now, dirigido por outro genial cineasta, Francis Ford Coppola. Em vários momentos, não pude deixar de associar a conduta obsessiva do capitão Nascimento com a paranóia do coronel interpretado por Robert Duvall, o qual gostava do cheiro de napalm pela manhã porque era “o cheiro da vitória”. Ou seja, vitória a qualquer custo, mesmo que para isso se valha estratégias imorais. No caso do coronel, a terrível arma química que atingia inúmeros inocentes; no caso de Nascimento, tortura e assassinatos para combater o tráfico. Este aspecto será melhor debatido no momento oportuno. De qualquer forma, a famosa frase do coronel Kurtz (este interpretado por Marlon Brando) parece cair como uma luva ao fim das duas obras: “O horror! O horror!”.

Em terceiro lugar, podemos citar mais um filme, de mais um cineasta absoluto: Stanley Kubrick. Em seu “Nascido Para Matar”, Kubrick nos mostra o processo de brutalização a que são submetidos os soldados preparados para guerra (no caso, a do Vietnã). Kubrick nos mostra que até os mais sensíveis são condicionados a se transformarem em máquinas de matar, tornando-se indiferentes ao sofrimento alheio (e, em alguns casos, ao próprio sofrimento). Está lembrando do treinamento dos soldados do BOPE? Sim, mais uma vez qualquer semelhança não é mera coincidência. Em vários momentos, o capitão Nascimento me fez lembrar o brutal sargento responsável pelo treinamento dos soldados no filme de Kubrick. E, vejam que curioso, dois filmes de guerra citados como referências para o longa de Padilha. Uma importante conclusão, que será também melhor explicitada mais abaixo, podemos tirar dessa “semelhança”: o BOPE vê a ação nas favelas como uma guerra, mesmo que não declarada oficialmente.

Por último, o que podemos chamar não de “avô”, mas de “pai” de Tropa de Elite é, obviamente. “Cidade de Deus”, o longa de Fernando Meirelles que causou impacto não apenas nacional, mas no mundo todo. Muitos até afirmam que “Tropa de Elite” é um “Cidade de Deus” da polícia. O mesmo tema visto através de olhos opostos. E isto, em parte, é verdade. Mas não apenas no campo temático.

Padilha utiliza vários dos artifícios usados por Meirelles para prender o espectador. Primeiramente, um roteiro muito bem amarrado, pensado em detalhes, com nuances de ação e comédia que envolvem o grande público. Seus aspectos técnicos também são de primeira linha: som e edição de som com qualidade hollywoodiana, fotografia vibrante e trêmula (embora menos “estética” que a de Cidade de Deus), montagem alucinante, fazendo com que o longa jamais perca o ritmo. Há, ainda, a narrativa em “off”, realizada por um personagem que parece ser o central da trama, mas que na realidade não é (em “Cidade”, Buscapé; em “Tropa”, o capitão Nascimento).

E é inegável que “Tropa de Elite”, com a direção segura de José Padilha, constitui ótimo cinema ,tal qual seu outro longa, o documentário, brilhante é importante ressaltar, “Ônibus 174”. É bem interessante, por sinal, fazer uma leitura de “Tropa de Elite” depois de ter visto “Ônibus”. Os dois podem soar até como contraponto um do outro. No documentário, somos levados a compreender as razões e circunstância que levaram Sandro do Nascimento a cometer aquele ato de loucura dentro de um ônibus de linha urbana na cidade do Rio de Janeiro. Constatamos a vida inteira de privações e abandono a que foi submetido (passando em resumo: Sandro não teve pai, viu sua mãe ser assassinada na sua frente, viveu nas ruas, teve seus amigos chacinados na Candelária, ele próprio escapando por pouco). É impossível não nos sentirmos todos culpados por aquela tragédia, ao fim do filme. Já em “Tropa” temos a visão dos policiais, como eles enxergam o tráfico e os motivos que levam os membros do BOPE a praticarem os atos de selvageria e desrespeito à garantias civis. Mas da mesma forma, desfere um “soco no estômago” das classes mais abastadas ao colocá-la como sócia do narcotráfico. Talvez a grande “mensagem” (para utilizar um termo clichê) de ambos os longas seja a de que não existem inocentes, todos temos responsabilidade pelo atual estado de medo e conflito que aflige nosso país.





Há ainda um aspecto fundamental a ser enaltecido para a eficiência de “Tropa de Elite” como cinema: o elenco. Muito bem escolhidos pelo cineasta (e com preparação de Fátima Toledo), todos estão bem. Tanto Caio Junqueira (Neto) como André Ramiro (Matias), mostram muita competência na interpretação dos soldados iniciantes do BOPE. Todavia, quem definitivamente rouba a cena, por meio de uma atuação realmente magnífica, é Wagner Moura. O seu Capitão Nascimento entrará, sem dúvida, para o rol dos personagens mais marcantes do cinema nacional, assim como entrou o Zé Pequeno de Luís Firmino da Hora. Aliás, boa parte dos sentimentos de apoio do público talvez não existisse se o personagem não tivesse sido interpretado por um ator deste nível de excelência. É mesmo uma atuação digna de um Robert De Niro, Jack Nicholson, ou mesmo um Marlon Brando. Fosse um ator norte-americano, provavelmente o Oscar estaria em suas mãos. Seu Nascimento é brutal, mas ao mesmo tempo detém uma autoridade que pode tornar inquestionáveis seus atos mais atrozes, geralmente vistos pelo próprio como um “mal necessário”.

A trilha sonora também conduz o espectador no ritmo do que é visto na tela. Muitos apontaram a trilha como um elemento “fascista” da obra, o que me parece idéia de gente que não tem o que dizer nem o que fazer. Scorsese, por exemplo, muitas vezes utilizou rock em sua trilhas, e nem por isso foi chamado de fascista (muito pelo contrário).

Em síntese: Tropa de Elite é, de fato, um filme excelente digno de palmas. Se você está querendo ver um bom filme, independente de qual corrente “ideológica” você pertença, pode assistir sem medo, pois verá um grande. Aliás, o só fato do longa de José Padilha gerar tanta discussão demonstra que algo de bom ele deve ter, afinal, filmes que geram discussões são cada vez mais raros no meio deste mar de mediocridade que ora impera em nossas salas de cinema. E é da discussão que trataremos na segunda parte desta análise.

Tropa de Elite – A Polêmica

Fascista. Este é o principal adjetivo que vem sendo atribuído ao filme ora em debate por seus críticos. Padilha vem sendo acusado sistematicamente de defender as ações brutais do Batalhão de Elite da polícia militar do Rio de Janeiro. Mas será que o adjetivo lhe cai bem?

Talvez seja um tanto exagerada. É bem verdade que somos apresentados aos fatos, durante a projeção, pela visão, um tanto de distorcida (pelo menos pra mim) do capitão Nascimento, através de sua narrativa em “off”. E isso induz a platéia, pelo menos a sua parcela mais “influenciável”, ou menos conhecedora da temática da criminalidade, ou simplesmente mais reacionária, a aceitar como necessários os métodos brutais, que incluem tortura e assassinatos, usados pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE. Mas, se há verdade nessa afirmação, além da forma vibrante como o filme é narrado (o que pode fazer com que os mais exaltados saiam por aí gritando “faca na caveira”), também é falsa a afirmação de que a postura do capitão de não sentir “remorso”, de que o filme não retrata os conflitos psicológicos a que os soldados do batalhão são submetidos. Ora, o personagem do capitão, ao longo de toda a narrativa, procura justamente encontrar um substituto por não suportar mais o stress a que é submetido. Ademais, mostra-se que se sentiu culpado em ter matado um “fogueteiro” em uma de suas ações na favela. “Eu senti remorso e um policial do BOPE não pode ter remorso”, afirma a certa altura. Por outro lado, acusar Padilha de ser um radical de direita soa um tanto ridículo, principalmente ao lembrarmos de uma das feridas cutucadas pelo longa: a participação das classes altas como financiadora do tráfico. Olhando por este prisma, talvez alguns o considerem um “radical de esquerda”, pecha que lhe foi atribuída por muitos após “Ônibus 174”.

Na realidade, discutir se a obra cinematográfica é fascista, ou não, é de uma pobreza sem tamanho. Um artista expõe em sua obra a sua visão de mundo e o fato de alguns não concordarem com esta visão de mundo não diminui o valor da obra. Sergei Eisenstein era membro do partido comunista soviético e isso não impede que sua obra seja reconhecida como genial mesmo pelos norte-americanos. Da mesma forma, Leni Riefensthal fez documentários divulgadores do partido nazista e de sua tosca ideologia, o que também não impediu o mundo de reconhecer seus méritos cinematográficos.

Mais interessante que perquirir se o filme é ou não fascista, é perguntar se as idéias do capitão Nascimento, mostradas na tela, são ou não são válidas dentro da contingência atualmente enfrentada pela sociedade brasileira.

Para responder a esta pergunta, é necessário fazermos antes um novo questionamento: a sociedade brasileira vive hoje um estado de guerra? A pergunta é pertinente devido às conseqüências que uma resposta afirmativa pode gerar. Se admitirmos que vivemos uma situação de guerra poderemos admitir a suspensão de garantias individuais e encararmos os atos bárbaros do capitão da tropa como admissíveis (ou pelo menos uma destes atos), tendo em vista que uma guerra comporta medidas de exceção. Se, por outro lado, não reconhecermos a existência de um estado de guerra em nossas ruas, jamais poderemos admitir que o Estado (e os membros do BOPE são agentes do Estado, não podemos esquecer esse detalhe) atinja as regras que garantem a sua própria existência enquanto Estado democrático.

Todavia, se a resposta for “sim”, a suspensão dos direitos individuais não pode ser admitida apenas para “os outros”, para a parcela pobre e marginalizada da população, como parece defender o decepcionante apresentador Luciano Huck em seu lamentável artigo para a Folha de São Paulo. É bom lembrar o verdadeiro soco no estômago da classe média que é desferido pelo filme de José Padilha. Os extratos mais abastados da “hierarquia” social têm enorme responsabilidade pela manutenção do tráfico. Da mesma forma que a Coca-Cola tornou-se uma multinacional com sede em todos os lugares do globo porque tem muitos consumidores para o seu produto, o tráfico também só é um ramo muito “rentável” porque existe um enorme número de consumidores para as drogas, a maior parte deles de classes abastadas.

O “tapa na cara” dado na classe média é tão forte que muitos apressadinhos e pseudo-intelectuais de plantão já “colocaram na pauta” das discussões do país a descriminalização das drogas como “principal fator” para combater a violência reinante nas favelas. Nada mais hipócrita. Isso não passa de uma tentativa de, desculpem a expressão, livrar o rabo da classe média da seringa, pois ao comprar drogas de forma legal ela estaria se eximindo da responsabilidade pelo tráfico. Trata-se porém de uma falácia em várias vertentes. Fernandinho Beira-Mar jamais venderia sua droga pagando imposto, e a própria classe média não iria querer comprar sua droga mais cara. Eu fico estarrecido com argumentos como “o álcool é mais nocivo do que várias drogas ilegais”. Mentira! Um copo de vinho não faz mal a ninguém. O mesmo não pode se dizer de um cigarro de maconha ou de uma “carreira” de cocaína, como já muito divulgado pelos especialistas da área. É impressionante até que ponto pode ir a burguesia em defesa de seu hedonismo desmedido.

Vale dizer que, dentro das reações que o filme me despertou, não deixei de sentir uma certa satisfação ao ver o personagem de Matias dando uns tabefes nos playboyzinhos colegas no seu curso de Direito. São pessoas que possuem todas as escolhas, mas preferem se associar ao crime, chegando a alegações absurdas de que traficantes “possuem consciência social”. Eu sinto faltar toda a minha paciência, sendo bem sincero.

Assim, caso admitamos a existência do Capitão Nascimento temos que admitir que ele também invada nossas próprias casas e não apenas a do outro. Deveremos admitir também que ele torture nossos parentes, mesmo que talvez eles não saibam o paradeiro de determinado delinqüente. O que talvez exista de mais nefasto no Brasil não é a violência absurda que aparece todos os dias nas capas dos jornais e em filmes como este, mas maldita divisão da sociedade em castas, onde alguns parecem ser imunes a qualquer ação do Estado, por mais nocivo que seja seu comportamento. Como diz o lema da tropa, transcrito no início deste texto: “pega um, pega geral”. Nada de “discriminações”.

Talvez o que o longa de José Padilha queira mesmo nos passar seja exatamente essa idéia, já anteriormente presente em “Ônibus 174”: por favor, chega de hipocrisia! Somos todos integrantes de um grupo social e, portanto, responsáveis pelas mazelas deste grupo. Está na hora de encararmos nossas responsabilidades para que, assim, não precisemos mais de homens como o capitão Nascimento.

Ah, já quase me esquecia de dar a nota ao filme.


Cotação:

Nota: 10,0

Em tempo: Acho que vou chamar o Capitão Nascimento para pegar o Diogo Mainardi! Hahhahahhahahahhahhaha!

Eu Quero Esse Pôster #10


Na imagem acima, um belo poster de um filme mais belo ainda, "A Aventura", clássico atemporal do mestre Michelangelo Antonioni!

sábado, 2 de outubro de 2010

Comer, Rezar, Amar




Auto-Ajuda na Telona


Antes de tudo, devo adiantar que eu não tenho muita simpatia por Julia Roberts. Desde sua explosão, com o mais do que reprisado na TV “Uma Linda Mulher”, acredito que Roberts vem sempre fazendo o mesmo papel, apenas com algumas variações. Além disso, sua presença se tornou sinônimo de cinema comercial programado para agradar às massas classe média que frequentam salas de cinema, constituindo aquele típico produto formulaico para comer com pipoca. Ou seja, Roberts personifica aquele lado mais criticável do cinema americano, qual seja, a acomodação que garante resultados financeiros.

Confesso que este seu novo trabalho, “Comer, Rezar, Amar” me inspirava a mesma expectativa. E, de fato, ela foi, ao menos em parte, confirmada. Julia Roberts continua a mesma, não fazendo nada além do que a sua costumeira performance sem sal. O que torna este novo longa-metragem algo um tanto diferente da média de seus projetos é o texto que serve de base para o seu roteiro, uma adaptação do best-seller homônimo de Elizabeth Gilbert, que já vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Não que eu seja fã de auto-ajuda, longe disso. Sequer li a obra literária, mas não se pode negar que vemos em tela a abordagem de algumas questões interessantes.

Liz Gilbert é uma mulher que procura superar o trauma de um divórcio após um casamento de 8 anos, cujo fracasso ela própria atribui à sua inconstância e falta de auto-conhecimento. Parte, assim, para uma jornada que a levará a pontos diversos do globo terrestre, entre eles Itália, Índia e Indonésia. Em outras palavras, trata-se daqueles filmes de “transformação”, em que a protagonista passará a compreender e enxergar a vida com novos parâmetros, resultando em maior amadurecimento. Possui conexões, assim, com obras como “Amor Sem Escalas” e com muitos road movies que volta e meia baixam nas salas de cinema. A diferença é que, apesar de Liz viajar muito, sua trajetória não se dá através de uma única viagem, ao longo de uma estrada quase interminável. Variados serão os destinos da sua trajetória, todos alcançados por meios aéreos (o que deixa este longa mais próximo do citado filme com George Clooney). É ao longo dessas viagens que o três verbos que constituem o título serão conjugados pela personagem. E mais não digo, pois poderá comprometer alguns dos prazeres do longa. Liz sintetiza, desta froma, as angústias da mulher moderna (não é à toa que seu livro se tornou um sucesso absoluto no meio feminino), que procura descobrir o que realmente quer da vida e, principalmente, dos relacionamentos, já que, ao mesmo tempo em que nunca consegue estar sozinha, jamais permanece feliz por muito tempo com os seus companheiros.

Não se pode negar que há uma comunicação muito maior da trama com o público feminino, em detrimento do masculino, até pelo próprio material que lhe deu origem. Contudo, mesmo para a plateia mais cheia de testosterona o filme não se torna desinteressante. Afinal, algumas das questões levantadas são próprias de seres humanos, não sendo exclusivas das mulheres, e o filme é muito bem conduzido por Ryan Murphy (diretor da série televisiva “Glee”), com imagens belíssimas que irão levar muitos direto da sala de cinema para a agência de viagens mais próxima. Murphy erra, porém, ao estender um pouco demais o longa, que passa a impressão de começar a se arrastar a certa altura, muito embora seu terceiro ato seja um tanto apressado (talvez exatamente porque se tenha perdido muito tempo nos anteriores), o que acaba dificultando a conexão do espectador com a intensidade dos sentimentos do personagens.

Outro problema diz respeito à forma como vemos os diversos momentos de Liz. Não sei se por culpa da mesmice de Julia Roberts ou do diretor, todos os momentos de Liz aparecem da mesma forma amena, mesmo os mais duros. Tudo fica muito pasteurizado e acaba representando pouco da transformação que vive a personagem (principalmente ao lembrarmos que ela é real). Elizabeth Gilbert, a autora, não deve ter muito a ver com a Julia Roberts da tela, sempre Julia Roberts. O personagem de Javier Bardem, por outro lado, surge como aquele homem dos sonhos de boa parte das mulheres no mundo, encarnando muito do que elas concebem hoje como um “príncipe encantado”. Não sei se Gilbert encontrou um homem assim na realidade, mas isso leva o filme a cair em um grande clichê, sem dúvida.

E assim, percebe-se que “Comer, Rezar, Amar” poderia ter se tornado um produto bem mais denso se não fosse voltado para um público que espera ver Julia Roberts de novo em ação nas telas. Tivesse sido adaptado na Europa, poderia render até um longa de arte. Mas isso é Hollywood, no fim das contas, a qual pode até surpreender em alguns casos, mas no geral transforma tudo em algo para se ver comendo pipoca. Salvam-se as indagações da verdadeira Elizabeth Gilbert, as quais conseguem deixar o longa numa honrosa nota 7,0.

Obs. Há elementos especiais na exibição para nós brasileiros, mas não vou estragar o prazer dos que ainda não viram o filme ou não leram o livro.


Cotação:

Nota: 7,0

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Gloria Stuart: 1910 - 2010


No último dia 26, domingo, tivemos a notícia do falecimento de Gloria Stuart, atriz norte-americana de cinema, teatro e televisão, que encarnou a personagem de Rose DeWitt Bukater na velhice, em "Titanic" (todo mundo sabe que Kate Winslet a interpretou na juventude).

A carreira de Gloria começou na década de 30, mas foi somente aos 87 anos, com o seu desempenho no filme de James Cameron, que conseguiria uma nomeação para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (sendo então a atriz mais velha a ser indicada). Foi distinguida, ainda, com o Globo de Ouro e recebeu o prêmio do Sindicato dos Atores, que dividiu com Kim Bassinger.

Depois de "Titanic", onde desempenhou o papel da sua vida, como confessou, foi chamada para atuar em "The Love Letter"(1999), "The Million Dollar Hotel" (2000) e "Terra da Abundância" (2004).

Gloria Stuart começou a carreira no teatro, atuando em Pasadena, Califórnia. Estreou no cinema com "Street of Women", em 1932. Foi, ainda, co-fundadora do Sindicato dos Atores dos EUA. Morreu dia 26, de câncer no pulmão, na sua casa em Los Angeles.

Abaixo, uma entrevista com Gloria e Kate Winslet. Confira!



domingo, 26 de setembro de 2010

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Diário de Uma Paixão
(The Notebook)


Assumidamente romântico


A tradição dos filmes românticos anda em baixa no cinema atual. Vivemos tempos cínicos, frios, onde pessoas românticas são tidas como bobas ou ingênuas, e isso acaba se refletindo na produção cultural. Até mesmo as tradicionais comédias românticas hoje são mais “comédias” do que “românticas”, apresentando uma forma de enxergar o amor muito mais pragmática do que em décadas passadas. Dentro destas cinrcunstâncias, torna-se extremamente prazeroso e bem-vindo rever um filme como “Diário de Uma Paixão”.

Dirigido por Nick Cassavetes (filho do lendário John Cassavetes), “The Notebook” é um daqueles longas-metragens desavergonhadamente meloso. Não estranhe se, durante a exibição dele em sua sala, um caminho de formigas tomar o rumo de sua TV. Contudo, é exatamente este romantismo assumido que acaba encantando a quem assiste, uma vez que traz uma nostalgia de tempos mais puros, em que se acreditava mais facilmente em um amor verdadeiro. Afinal, é difícil não se envolver com a bela narrativa que traça os caminhos das venturas e desventuras românticas de Noah (o sempre competente Ryan Gosling) e Allie (a encantadora Rachel McAdams), dois jovens que, no início dos anos 40, vivem uma intensa paixão que terá como destino tornar-se muito mais que um namorico de verão. O problema é que os abastados pais da moça se opõem (sim, ecos de “Romeu e Julieta” ecoam pela bilionésima oportunidade em produção cultural ocidental), pois que Noah é apenas um carpinteiro que nunca poderá oferecer a Allie a vida confortável a que ela está acostumada. E assim os momentos de paixão e separação vão se sucedendo, narrados em forma de flashback.

Apontando para este aspecto, não se pode negar que o roteiro (escrito por Jeremy Leven e Jan Sardi, adaptando romance de Nicholas Sparks) sabe se aproveitar de todos os clichês do gênero para fisgar a plateia. Entretanto, apesar de ditos clichês, em vários momentos parece que estamos assistindo a algo novo, nunca dantes filmado, sensação reforçada por uma série de sequências memoráveis, destinadas a produzirem suspiros no público durante muito tempo. Afinal, como não ver beleza na cena da praia em que Allie diz que se sente como um pássaro? Ou ainda quando os dois, na noite do primeiro encontro, dançam no meio da rua sem ouvir qualquer música? A sensação trazida por ditas cenas é aquela buscada por todo espectador que vai a uma sala de cinema, pois que capazes de transportá-lo para uma outra realidade.



Para se alcançar tal imersão, além de um roteiro que toca em pontos nevrálgicos do coração, o diretor Cassavetes se vale de uma fotografia exuberante, realmente primorosa, que só acentua a beleza de sequências como as acima mencionadas. Sempre afirmo e reafirmo que cinema é imagem e Cassavetes parece mesmo conhecer o poder delas. Ademais, é importante ressaltar a química e carisma do casal protagonsita. Gosling está perfeito no papel do rapaz ao mesmo tempo obstinado e romântico, enquanto McAdams encontra-se realmente encantadora. Mesmo a canastrice de David Thornton (que faz o pai de Allie), com seu bigode saído de algum folhetim do século XIX, não chega a comprometer (torna-se até pitoresco) e é em muito compensada pelas presenças de James Garner e Gena Rowlands, os quais interpretam Noah e Allie na 3ª idade. Talvez seja possível afirmar que a trilha sonora seja o ponto mais fraco do longa, mas também não chega a marcar como aspecto negativo (é apenas “esquecível”).

Por outro lado, apesar de suas falhas pontuais, é interessante como o filme passa de forma tão agradável que jamais aparenta ter qualquer defeito, afinal, nem só de técnica vive a arte. O cinema que é capaz de cativar o público com emoção sincera estará sempre entre os melhores, por mais que alguns críticos metidos a besta torçam o nariz para o que definem como “pieguismo”. Uma bela de uma bobagem. Tal como existem músicas bastante piegas, mas que não saem da boca do povo e atravessam as gerações sendo cantadas, há filmes piegas que não saem da memória daqueles que o viram. Isso não os torna inferiores a filmes mais “cerebrais”. Em síntese, “Diário de Uma Paixão” é um longa que afirma: “sou romântico sim, senhor!”. E é exatamente nisso que reside todo o seu charme.


Cotação:
Nota:9,5

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Faroeste Caboclo


Há alguns anos, bem antes deste blog existir, havia escutado uma notícia no "Video Show", da Rede Globo (sim, este já foi um programa decente), sobre um filme que narraria a estória do "João do Santo Cristo", famoso personagem da canção "Faroeste Caboclo", da Leigião Urbana. Lembro que, durante muito tempo, um amigo (fala, Luciano!) sempre me perguntava se eu tinha mais notícias sobre esse projeto e eu, infelizmente, sempre respondia negativamente.

Pois eis que, agora, depois de vários anos, consigo enfim uma notícia sobre dita produção. Em matéria publicada no portal do IG (leia aqui e aqui), o filho de Renato Russo, Giulianno Manfredini, deu sinal de que o projeto está seguindo adiante. A história se arrasta devido aos atritos do herdeiro de Renato com os outros integrantes da banda. Mas já se sabe que o diretor será o brasiliense René Sampaio. Há ainda uma outra produção cinematográfica envolvendo a Legião em andamento. Ela se chamará "Somos Tão Jovens" e terá como mote a formação da banda (um possível intérprete para Renato será Caio Blat). Enfim, boas notícias para aqueles que, como eu, além de cinéfilos, são também legionários.

sábado, 18 de setembro de 2010

Trilha Sonora #13


"O Rei Leão" é, com certeza, uma das melhores animações de todos os tempos! A versão para crianças (ou não!) da tragédia shakespeariana "Hamlet" até hoje ainda impressiona pela beleza de suas imagens e enorme carisma de seus personagens, muito bem adaptados para o grande público. Memorável ainda a sua canção tema, vencedora do Oscar, uma das grandes composições de Elton John. Ouça abaixo e viva a nostalgia!


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Iluminado
(The Shining)


Violência domést
ica

Muitos consideram “O Iluminado” como o filme mais assustador da história do cinema. E é provável que o seja. Afinal, um filme de horror dirigido pelo gênio Stanley Kubrick só poderia mesmo resultar em algo fora do comum, memorável. Muito do terror, claro, resulta do talento do mestre, com seu perfeccionismo e domínio completo da linguagem cinematográfica, realizando tomadas com ângulos inusitados, clima de tensão crescente, sensação de claustrofobia e perda da sanidade mental. Além disso, Kubrick é um dos cineastas que mais conheciam a força imagética da 7ª arte, construindo cenas que já se eternizaram no inconsciente coletivo. Todavia, talvez a grande força aterradora do longa seja a ideia de ser ameaçado por alguém que, antes de tudo, deveria lhe proteger. Não deve haver maior terror do que uma violência partindo de alguém que você ama.

Esse é o conceito que Kubrick trabalha ao adaptar o livro homônimo de Stephen King. O escritor, aliás, sempre afirmou que sua obra era “um pequeno conto sobre bloqueio de autor” e, talvez por isso (e curiosamente), não tenha gostado da adaptação realizada por Kubrick. Este último, na realidade, procurou traduzir, nas telas, uma reciclagem das velhas estórias de “casa mal-assombrada” para retratar o assombro que muitos vivem diariamente no mundo real: a violência doméstica. Afinal, Jack Torrance, o pai de família interpretado por Jack Nicholson, é um escritor com problemas criativos e financeiros que se presta a trabalhar como zelador do Hotel Overlook, uma estância de verão nas montanhas rochosas do Colorado. O problema é que o serviço será prestado durante o inverno, quando todos os funcionários deixam o local, que fica praticamente isolado devido às fortes nevascas que se abatem sobre a região durante a estação fria. Ou seja, isolamento completo. Jack leva sua família com ele, a esposa Wendy (Shelley Duvall) e o pequeno Danny (Danny Lloyd), o tal “iluminado” do título, possuindo poderes mediúnicos que o alertam sobre eventos futuros e presenças malignas. Com problemas passados com o alcoolismo, Jack, desta forma, parece resumir as características de pais violentos, pois que se encontra em um momento profissional difícil e, influenciado pelo álcool mais uma vez, acaba por descontar na família as suas frustrações. A solidão que a família passa a viver no Overlook é muito representativo do isolamento social porque Jack passa, afinal ele é um “fracassado” (de acordo com a concepção tola criada pelos norte-americanos sobre “fracasso” e “sucesso”). Tais condicionamentos acabam por levá-lo a atos de violência que, no contexto do roteiro, são induzidos por fantasmas que há muito habitam o hotel, almas penadas vítimas de assassinatos extremamente violentos e que ali permaneceram para todo o sempre. Na realidade, uma alegoria para os fantasmas que rondam o inconsciente de pessoas que acabam perdendo o controle, atribuindo a culpa de seu fracasso a quem está mais próximo.



Todo esse processo é coroado, de maneira imageticamente poderosa, com a perseguição que Jack empreende de machado em punho contra sua esposa e filho, uma sequência digna realmente dos piores pesadelos. Não é à toa que já foi escolhida em eleições promovidas por publicações especializadas como a cena mais aterradora da história do cinema. Vale sublinhar que o terror visto em tela é resultado, em parte, do mencionado perfeccionismo de Kubrick, o qual levou sua equipe a repeti-la à exaustão (mais de 70 takes, segundo informações que constam do próprio making off do longa). Shelley Duval teria dito que sua expressão de horror já era fruto do estado nervoso em que estava, tamanha a obsessão do diretor (sabidamente um tirano nos sets). Contudo, algumas das seqüências que mais geram calafrios no público são aquelas do pequeno Danny vagando com seu velocípede pelos corredores do hotel. Impressionante como apenas o uso inteligente da câmera, que persegue o velocípede (a então novidadeira steadicam), além do uso do som do brinquedo, é capaz de produzir calafrios em qualquer um. Outra cena memorável é a do elevador jorrando sangue por todos lados, também digna de tenebrosos pesadelos. Aliás, essa sensação onírica parece percorrer toda a exibição desde o início, com as belas tomadas das paisagens da região, o que, de resto, parece ser algo sempre presente na filmografia de Kubrick (“Laranja Mecânica” e “De Olhos Bem Fechados” são outros exemplos que me vêm à mente). E, claro, como é ainda marcante nos filmes do diretor, as imagens são sublinhadas por uma trilha sonora poderosa (composta por Wendy Carlos e Rachel Elkind).



Se tudo isso ainda não convenceu você a assistir a “O Iluminado”, vale considerar ainda a presença transtornada de Jack Nicholson, em um papel que para sempre lhe renderia tiques interpretativos. Sabe-se que Nicholson não é lá um exemplo de pessoa “normal” e suas expressões extremamente marcantes, com aquela aparência de maluco-de-camisa-de-força ensandecido, com certeza farão você lembrar de Jack Torrance por muito tempo.

Ou seja, Stanley Kubrick, com sua genialidade ímpar, concebeu uma obra-prima do terror moderno. Muitos críticos não colocam este como um dos seus melhores trabalhos, talvez por considerá-lo apenas mais um filme de sustos. Longe disso, o longa faz uma análise de medos inconscientes e causa impacto por mostrar o horror dentro de uma família. Só não aconselho vê-lo antes de ir dormir. É provável que você não consiga mais cair no sono...


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 12 de setembro de 2010

Claude Chabrol: 1930-2010


Faleceu o cineasta Claude Chabrol, companheiro de Truffaut e Godard na Nouvelle Vague. Abaixo, reproduzo a notícia publicada no G1. Fará grande falta!



"O cineasta francês Claude Chabrol morreu neste domingo (12) aos 80 anos, segundo a Prefeitura de Paris.

Chabrol é considerado um dos autores principais da cinematografia francesa e da Nouvelle Vague. Foi diretor, produtor, ator e crítico do "Cahiers du cinéma".

Chabrol ficou famoso por filmes bem humorados e sutis, em que criticava a burguesia de seu país.

Filho de uma família de farmacêuticos, nasceu em 24 de junho de 1930 Paris, mas passou a adolescência em Creuse, no centro da França, durante a Segunda Guerra Mundial.
O cineasta francês Claude Chabrol em 15 de março de 2004 no set.O cineasta francês Claude Chabrol em 15 de março de 2004 no set. (Foto: AFP)

Voltou à capital para estudar Letras e Farmácia.

Formado em Letras, participou do começo da Nouvelle Vague, movimento de renovação do cinema francês.

Sua primeira atuação foi como crítico na legendária publicação "Cahiers du cinéma", ao lado de François Truffaut e Jacques Rivette -que, a exemplo dele, também se tornariam importantes diretores.

Chabrol começou a se firmar com "Le Beau Serge" (O belo Sergio, de 1957), que recebeu o prêmio Jean Vigo e o prêmio principal do Festival de Locarno em 1958.

No ano seguinte, seu "Les Cousins" (Os primos) ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

Chabrol se separou de sua primeira mulher para casar com a atriz Stéphane Audran, que atuou em filmes seus como "La femme infidèle" (A mulher infiel), "Le Boucher" (O açougueiro, de 1970) e "Juste avant la nuit" (Ao anoitecer, de 1970).

Também é creditado a ele o mérito de ter revelado a atriz Isabelle Huppert, em "Violete Nozière", de 1978. Ela voltaria a atuar em filmes seus como "Una affaire de femmes" (Um assunto de mulheres, de 1988), "La Céremonie" (Mulheres diabólicas, de 1995) e "Merci pour le chocolat" (A teia de chocolate, de 2000).

Em 2009 dirigiu "Bellamy" e suas últimas obras foram dois capítulos de "Au siècle de Maupassant: Contes et nouvelles du XIXème siècle".

Também conseguiu sucesso de bilheteria com filmes mais leves, como "Inspecteur Lavardin", de 1986, e "Poulet au vinaigre" (Frango ao vinagrete, de 1985), que contam histórias policiais estreladas pelo ator Jean Poiret.

Sua obra inclui mais de 80 filmes, entre cinema e televisão. Ele foi premiado em 2005 com o Prêmio René Clair, da Academia Francesa, e em 2010 com o Grande Prêmio para autores dramáticos.

Também recebeu, em 2009, o prêmio pelo conjunto da obra no Festival de Berlim.

Chabrol havia se casado pela terceira vez em 1983 com Aurore Pajot. Ele deixa quatro filhos."

Clique no link abaixo para ir ao blog de Rubens Ewald Filho, que publicou texto bem interessante sobre Chabrol.

http://noticias.r7.com/blogs/rubens-ewald-filho/

sábado, 11 de setembro de 2010

Quero Ver Novamente # 6

Na realidade, eu estava pensando em uma sessão do "Trilha Sonora", mas encontrei este video no Youtube, com um clipe das cenas do filme, e acabei sendo levado a postar mais um da série "Quero Ver Novamente". Este filme, "Apenas Uma Vez" (Once), é uma pequena obra-prima, de beleza única, para ser visto e revisto. Quem já viu, sabe do que estou falando e quem não viu não sabe o que está perdendo...

Obs. Sandra, este post é dedicado a você! ;=)


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Divulgados concorrentes brasileiros ao Oscar 2011


Ontem, quarta-feira, o Ministério da Cultura (MinC) divulgou a lista dos 23 filmes que podem ser o selecionado para concorrer a uma das 5 indicações da categoria "Melhor Filme Estrangeiro do Oscar".

O nome da produção brasileira escolhida vai ser anunciado no próximo dia 23 de setembro por uma comissão especial de seleção formada por membros do MinC e de outras instituições como a Agência Nacional de Cinema do Brasil (Ancine)e a Academia Brasileira de Cinema.

A lista com todos os cinco indicados para categoria vai ser divulgada apenas em 25 de janeiro de 2011.

Veja a lista dos filmes, entre eles o elogiado "5 X Favela", o sucesso "Chico Xavier", o controverso "Lula - O Filho do Brasil" e a bomba "O Bem Amado".


As Melhores Coisas do Mundo – Laís Bodanzky
Sonhos Roubados – Sandra Werneck
Utopia e Barbárie – Sílvio Tendler
A Suprema Felicidade – Arnaldo Jabor
Antes que o Mundo Acabe – Ana Luiza Azevedo
Bróder! – Jeferson De
É Proibido Fumar - Anna Muylaert
Em Teu Nome – Paulo Nascimento
Hotel Atlântico – Suzana Amaral
Lula, o Filho do Brasil – Fábio Barreto
Nosso Lar – Wagner Assis
Carregadoras de Sonhos – Deivison Fiuza
Cabeça a Prêmio – Marco Ricca
5x Favela – Agora por Nós Mesmos – Luciana Bezerra, Cacau Amaral, Rodrigo Felha, Wavá Novais, Manaíra Carneiro, Cadu Barcellos e Luciano Vidigal
O Grão – Petrus Cariry
Os Inquilinos (Os Incomodados que se Mudem) – Sérgio Bianchi
Os Famosos e os Duendes da Morte – Esmir Filho
Quincas Berro D’água – Sérgio Machado
Reflexões de um Liquidificador – André Klotzel
Chico Xavier – Daniel Filho
Olhos Azuis – José Joffily
Ouro Negro – Isa Albuquerque
O Bem Amado – Guel Arraes



domingo, 5 de setembro de 2010

Nosso Lar



Para iniciados


O cinema nacional vive, neste ano de 2010, uma onda de filmes com temática vinculada aos princípios do Espiritismo Kardecista, muito em virtude do centenário de nascimento de Chico Xavier, o médium mais querido do país (no plano televisivo, ainda podemos lembrar a atual novela das 18h da Rede Globo, “Escrito nas Estrelas”). Em abril, tivemos o lançamento de sua biografia cinematográfica, o bom “Chico Xavier”, com enorme sucesso de público e boa aceitação da crítica. Agora, temos este “Nosso Lar”, adaptação do livro que o mencionado Chico psicografou e é atribuído ao espírito de André Luiz, um médico brasileiro que teria tido sua última encarnação no início do século passado (alguns afirmam que ele teria sido um dos fundadores de um certo clube de camisas de cores vermelha e preta no Rio de Janeiro*).

Adianto, desde já, que nunca li a obra literária, o que, por um lado, é algo positivo, pois que me possibilita avaliar o longa tendo como referência apenas o que foi visto na tela. Tendo em vista tal circunstância, posso afirmar que o primeiro problema que se apresenta para um filme como esse é o do envolvimento do espectador. É inevitável que uma trama que mostra como seria “o outro lado da vida” acabe despertando reações diversas na plateia, dependendo da crença de cada um dos assistentes. Óbvio que aqueles que acreditam na doutrina espírita terão uma facilidade bem maior para se envolver com a narrativa, enquanto outros, céticos, poderão se mostrar indiferentes ou considerar tudo até uma grande bobagem.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor Wagner de Assis de acordo com os conceitos espíritas, mostra a vida de André Luiz após ter desencarnado, sua passagem pelo Umbral (um tipo de purgatório) e sua chegada ao ambiente conhecido como Nosso Lar, uma espécie de cidade espiritual, que também possui a sua burocracia, seus hospitais, suas formas de locomoção etc. E onde também é necessário trabalhar para conseguir certos objetivos, mesmo que esses objetivos não sejam os mundanos “dinheiro-fama-poder”. Entretanto, na narrativa tudo se desenvolve de forma bastante expositiva, didática mesmo. Muitos afirmam que o livro realmente é desta forma, assemelhando-se a uma aula de como as coisas se passam no além-túmulo. O problema é que cinema possui uma outra linguagem, exigindo força narrativa maior para atingir em cheio o espectador. E, nesse propósito, o filme acaba falhando, pelo menos para aqueles que não são seguidores da doutrina. Uma solução interessante teria sido mostrar mais da vida de André antes de seu falecimento, para que assim pudéssemos conhecer melhor o personagem e estabelecer links emocionais a serem explorados com maior eficácia na segunda metade do longa. Da maneira como filmado, aquele que deveria ser o clímax não chega a funcionar a contento, apesar de constituir uma sequência bem realizada em termos dramáticos.

Outro aspecto que deixa a desejar é justamente este, o dramático. A produção optou pela escalação de um ator pouco conhecido, Renato Prieto, para o papel do protagonista André, o que acaba se tornando um equívoco. Renato se esforça, mas não tem o carisma suficiente para levar o filme nas costas, alternando bons (como a citada sequência do “clímax”) e maus momentos. Nem mesmo o elenco de apoio se sai bem, apesar de nomes como Othon Bastos, Paulo Goulart e Ana Rosa, pois seus personagens são praticamente destituídos de conflitos, servindo apenas para orientar André em suas novas vivências espirituais.

Entretanto, não se pode negar que o filme possui elementos que se constituem em uma evolução dentro do cinema nacional. Os R$ 20 milhões investidos na produção (o que a transforma na mais cara produção brasileira em todos os tempos) são vistos principalmente nos efeitos especiais (da empresa canadense Intelligent Creatures), responsáveis pela materialização da cidade espiritual, repleta de elementos futuristas. Os planos aéreos da comunidade são mesmo ótimos e convincentes, mas também é verdade que outros efeitos deixam a desejar, como a materialização dos espíritos na região do Nosso Lar quando vindos da área do Umbral. Contudo, há de se elogiar o esforço dos produtores em sair do comodismo e apatia reinantes no nosso cinema, reconhecidamente pouco ousado nesta seara técnica (a despeito dos figurinos me soarem equivocados, parecendo roupas de Krypton ou similares). Por sinal, outro aspecto técnico que desperta atenção é a trilha sonora, composta pelo badalado Phillip Glass. Com freqüência, as trilhas de Glass são invasivas, mas aqui até que ele se contém e não se pode negar a beleza de suas composições. Outro ponto que me agradou foi a caracterização do Umbral. Utilizando-se de poucos recursos especiais, ele se mostra bem realista em várias tomadas, mesmo que também muitas vezes lembre mais o inferno (“A Divina Comédia”, de Dante, vem logo à mente).

Todavia, todo este esmero técnico vai esbarrar na disposição do espectador em embarcar na crença na doutrina abordada. Se você é kardecista ou já leu ou livro, provavelmente não terá dificuldades de se envolver na proposta. Por outro lado, se é cético ou simplesmente não comunga da mesma crença, poderá considerar tudo uma grande perda de tempo. Desta forma, é um filme voltado para um público específico e vale dizer que, como peça a despertar interesse pela doutrina de Allan Kardec, o filme de Chico Xavier funciona bem melhor. Já “Nosso Lar” é muito mais uma obra para iniciados.


Cotação:

Nota: 7,0


* Se André Luiz fosse botafoguense não teria passado tanto tempo no Umbral!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

7 frases marcantes do cinema!

Na recente edição da série “Quero Ver Novamente”, relembrei a famosa frase de Darth Vader para Luke Skywalker: “Eu sou seu pai”. Na verdade, o cinema está repleto de frases marcantes, as quais ecoam na mente dos apreciadores por muito tempo, muitas vezes durante a vida inteira. A seguir, uma seleção de 7 frases marcantes para os cinéfilos, sem ordem de preferência:


- “Francamente, minha cara, eu não dou a mínima” – De Rhett Buttler (Clark Gable) para Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), em sua despedida no clássico “...E o Vento Levou”;



- “Sempre teremos Paris” – De Rick Blane (Humphrey Bogart) para Ilsa Lund (Ingrid Bergman), na antológica despedida do casal em “Casablanca”;


- “Hoje eu sou um vadio, Charlie, vamos admitir” – De Terry Malloy (Marlon Brando) para seu irmão Charley (Rod Steiger), em “Sindicato de Ladrões”;


- “Você me faz querer ser um homem melhor” – De Melvin (Jack Nicholson) para Carol (Hellen Hunt) em “Melhor É Impossível”, uma das mais belas declarações de amor do cinema em todos os tempos;



- “Que a força esteja com você” – De Obi-Wan Kenobi (Sir Alec Guiness), em “Guerra nas Estrelas”, com certeza uma das frases mais “pop” já vistas;


- “Mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda” – de Don Vito Corleone (Marlon Brando) em “O Poderoso Chefão”;


- “My precious” (“meu precioso”) – De Gollum (Andy Serkis), na trilogia “O Senhor dos Anéis”.


Sintam-se à vontade para citar outras frases memoráveis!

domingo, 29 de agosto de 2010

Karatê Kid




Kung-fu muito kid


Quem foi garoto (a) nos anos 80 certamente tem em “Karatê Kid – A Hora da Verdade” uma de suas mais caras memórias cinematográficas. Eu mesmo perdi as contas de quantas vezes assisti ao longa e de quantas tentativas realizei procurando imitar o famoso golpe da garça. Protagonizado por Ralph Macchio e pelo saudoso Pat Morita, o filme mostrava um adolescente, Daniel, que mudava de cidade com sua mãe e lá tinha as tradicionais dificuldades de adaptação. Além disso, passa a ser a vítima preferida dos valentões da redondeza, apanhando diariamente de uns certos praticantes de karatê que usavam a arte marcial para o lado negro da força, até que um dia ele é salvo pelo Sr. Miyagi, um japonês sisudo que depois lhe ensina o karatê através de métodos bastante peculiares. Tudo acaba por culminar em um torneio em que Daniel-San enfrenta seus rivais das ruas.

Décadas depois, o popular e poderoso Will Smith tem a ideia de fazer um remake do clássico oitentista para servir de veículo para o seu filho, Jaden Smith. Dirigido por Harald Zwart (um diretor sem nada muito expressivo no currículo), o projeto gerou controvérsia desde o princípio por alterar a arte marcial praticada pelo protagonista: saiu o karatê, entrou o kung-fu, o que já torna o título meio estranho (não é à toa que o título foi alterado na China para “Kung-fu Kid”). Além dessa, outras alterações são marcantes. Dre Parker (o novo nome do protagonista, interpretado obviamente por Jaden) muda não apenas de cidade, mas de país, acompanhando sua mãe (Taraji P. Henson, indicada ao Oscar por “O Curioso Caso de Benjamin Button”) até a China. Ou seja, já sentimos aqui a força da globalização e da presença cultural da economia que mais cresce no mundo hoje (afinal, negócios são negócios...). Descobrimos, assim, que o bullying parece mesmo ser uma prática que transcende fronteiras, já que Dre passa a apanhar sistematicamente dos praticantes de kung-fu da sua escola. É aí que entra o Sr. Han (Jackie Chan, o astro oriental mais famoso da atualidade) para salvá-lo e ensiná-lo a se defender (substituindo o Miyagi de Morita).

Outra mudança, talvez a mais significativa delas, seja a idade do personagem central. Dre tem apenas 12 anos, ou seja, praticamente uma criança, enquanto que Daniel-San tinha lá os seus 16, 17 anos. Confesso que é bastante estranho ver crianças lutando como adultos, além das cenas explícitas de violência envolvendo as mesmas. Mais um exemplo da hipocrisia da sociedade americana, extremamente conservadora com relação a outros aspectos, mas que libera violência para todas as idades. É até esquisito, na cena em que o Sr. Han salva Dre de seus perseguidores, vê-lo lutando com rapazes que ainda estão mais para moleques... Além disso, muitos golpes e sequências se tornam até inverossímeis devido à pouca idade de seus participantes. Essa questão, inclusive, faz com que a faixa etária alvo do filme também seja mais reduzida, o que acaba se refletindo no seu aspecto mais pueril do que o original, além de caracterizações adequadas a tal público, como a do torneio final, que lembra muito games como “Street Fighter”.

Mas não se pode negar que o filme também tem seus acertos. Jaden Smith mostra que pode ter um belo futuro, não apenas por ser filho de quem é. Ele realmente se dedicou ao papel com muito empenho, como se percebe nas cenas de treinamento, e chega mesmo a surpreender em outras de cunho mais dramático. Jackie Chan também se apresenta bem, muito embora o seu Han não tenha o mesmo impacto do misterioso Miyagi de Morita. Por outro lado, ele já apresenta uma tridimensionalidade que Miyagi só iria desenvolver melhor no segundo episódio da série original. Vale ressaltar ainda que as cenas de luta foram bem coreografadas e a utilização de cenários turísticos chineses em diversas cenas é de encher os olhos. Contudo, como já vem sendo comentado por muitos na internet, o golpe da garça de Daniel possuía, deveras, uma força muito maior, pois que ele treinava o golpe ao longo de boa parte da narrativa, enquanto o golpe final de Dre, a despeito de plasticamente bonito, não oferece ao espectador a sensação de “recompensa” tão presente no original.

No fim, a sensação é aquela que acompanha 90% dos remakes, qual seja, a ausência de necessidade, mesmo que seja sob a justificativa de atualizar a obra para um novo público. É certo que o filme entretém, prende a atenção (apesar de ser um pouco longo) e está indo bem nas bilheterias, mas é desnecessário. Além disso, ver crianças trocando sopapos nunca é algo positivo, mesmo que os garotos de hoje vivam nestes embates por meio dos videogames. Entretanto, não nego: se ainda tivesse meus 12 anos (“quem me dera voltar a tê-los”), possivelmente sairia da sala de cinema empolgado... ;=)


Cotação:

Nota: 7,0

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quero Ver Novamente # 5

Recentemente, "O Império Contra-ataca" foi escolhido, em uma pesquisa britânica, como a melhor sequência da história do cinema. Vasculhando o Youtube, encontrei esta pérola de cena, na dublagem original em português (muito melhor do que a atual), cena esta reprisada na minha mente de garoto quase ao infinito. Confiram abaixo, mais uma vez, a mais do que clássica revelação da série, certamente um dos grandes momentos da 7ª arte!


domingo, 22 de agosto de 2010

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tudo Que O Céu Permite
(All That Heaven Allows)



Hipocrisia atemporal


É sempre interessante constatar como alguns filmes, apesar de produzidos há algumas décadas, não envelhecem. A despeito de alguns elementos que aparecem datados, suas temáticas centrais permanecem firmes e atuais, talvez como um perfeito registro de que a humanidade tem mesmo enorme dificuldade em superar certas limitações. É o caso de “Tudo Que O Céu Permite”, longa-metragem de 1956 dirigido por Douglas Sirk e por muitos considerado seu melhor trabalho.

Egresso do teatro, Sirk (cujo nome verdadeiro era Detlef Sierk) fez parte da onda de artistas europeus que emigraram para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial (tal como Fritz Lang, ficando apenas em um outro exemplo mais famoso), fugindo do nazismo, pois que sua esposa era judia. Dono de uma veia emotiva forte, sua obra foi por muito tempo considerada excessivamente melodramática, feita para o público feminino mais sensível se acabar em lágrimas. Apenas em meados da década de 70, ela começou a passar por uma revisão e pela percepção de que estava recheada de crítica social, talvez com o melodrama sendo usado apenas para fazer do filme um produto mais vendável.

“Tudo Que O Céu Permite” parece se inserir perfeitamente nesta afirmação. A trama mostra Cary Scott, uma simpática e bonita viúva de classe média alta, interpretada por Jane Wyman (a qual já trabalhara com Sirk anteriormente), com dois filhos já em idade universitária que costumam visitá-la nos fins de semana. Ned (William Reynolds), o mais velho, parece um esboço do que seria mais tarde conhecido como um “yuppie”, enquanto Kay (Gloria Talbott), a filha mais adolescente, tem uma aura de intelectual afeita às teorias psicanalíticas de Freud, inclusive incentivando a mãe a casar-se novamente. Apesar de cortejada por homens “bem estabelecidos” socialmente, Cary acaba se apaixonando por seu jardineiro, Ron Kirby (Rock Hudson), 15 anos mais jovem.

É aí que sobe o tom crítico às hipocrisias do “american way of life”, tão presentes nestes meios tipicamente ianques. Cary sofre o preconceito e maledicência de uma comunidade que não aceita uma mulher casar-se com um homem de classe social inferior e, de quebra, ainda bem mais jovem. Até mesmo seus filhos se colocam contra o matrimônio tão logo descobrem quem é o pretendente, havendo um enfoque especial na filha adepta de teorias elaboradas sobre o comportamento humano, mas que acaba apresentando grande dificuldade em colocá-las em prática.

Interpretado com muita competência tanto por Wyman quanto por Hudson (bom lembrar a origem teatral de Sirk, o que logicamente lhe dava uma ótima direção de atores), o casal de protagonistas fisga o público, que passa a torcer pelo amor entre os dois. Contudo, não de pode negar que há um certo tom de novela das 6 na trama, cujas cenas finais chegam mesmo a descambar para o kitsch. Claro que o culpado pela banalização de determinadas soluções não está no longa, mas em toda a profusão de telenovelas que este tipo de projeto inspirou ao longo dos anos. Mas não se pode negar que tais circunstâncias acabam deixando o filme datado em alguns aspectos. Tais aspectos datados, vale destacar, não se limitam a pontos do roteiro. O deslumbre com o Technicolor, por exemplo, transborda em algumas imagens e cenários, especialmente concebidos para agradar a um público que ainda se impressionava com o uso de cores vivas na tela (algumas cenas parecem remeter a paisagens dignas de quadros impressionistas). Por outro lado, não se pode negar que Sirk foi feliz em contrapor o meio rural onde vive Ron, representando os verdadeiros desejos de Cary, ao meio urbano representativo dos artificialismos que a oprimem.

Inspirando vários diretores posteriores, como o alemão Reiner Werner Fassbinder, este longa encontrou ecos até mesmo em obras já do século XXI, como “Longe do Paraíso”, de Todd Haynes, ou até mesmo “Foi Apenas Um Sonho”, de Sam Mendes, muito embora este último possua uma visão menos otimista (inclusive “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn, traz alguns traços que remetem, mesmo que de forma tênue, a este clássico). E é exatamente pela sua essência atemporal que ele merece ser visto. Os 89 minutos de sua exibição (filme bastante enxuto, portanto) já são suficientes para percebermos que, no fundo, a sociedade pouco mudou ao longo destas décadas.


Cotação:

Nota: 9,0

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Michael Douglas pode perder a voz


Esta semana, tivemos a notícia de que Michael Douglas, de 65 anos, está acometido de um câncer na garganta. Infelizmente, hoje tivemos uma notícia ainda mais preocupante: o ator corre o risco de perder a voz. É o que afirmou o jornal britânico "Daily Mail" nesta quarta-feira, 18/08. Segundo a publicação, o tumor encontra-se em estágio avançado.

O tabloide relata que Michael vai iniciar o tratamento de quimioterapia e radioterapia já na semana que vem. As sessões devem durar cerca de oito semanas e têm como principal objetivo evitar uma cirurgia em sua laringe. A internação, ainda segundo o jornal, será em um hospital de Nova York.

Caso não surta efeito, a alternativa pode ser uma laringectomia. O método pode deixar o ator com a voz bastante alterada, ou mesmo perdê-la. Caso o tratamento seja bem sucedido, as chances de sobrevivência de Michael são de 60% para os próximos 5 anos. Ou seja, as chances de insucesso são elevadas o que deixa todo o público cinéfilo bastante preocupado.

domingo, 15 de agosto de 2010

O Segredo dos Seus Olhos



Razão e sensibilidade


Este ano, com a vitória do cinema argentino no Oscar, recebendo o prêmio de melhor filme estrangeiro, levantou-se a questão na Terra Brasilis sobre a competência dos hermanos em realizar obras e cinematográficas em contraposição à nossa incapacidade genética para tanto. Sem querer adentrar no mérito desta discussão (até porque ela acaba revelando pouca memória com relação aos nossos méritos), é importante lembrar que um dos motivos para atacar a produção brasileira seria sua obsessão com alguns temas, os repetidos pobreza-favela-violência, seca-miséria-Nordeste ou ainda ditadura-violência-memória. Se há parcela de verdade nesta afirmação, ela esconde, por outro lado, o quanto os argentinos também são apegados a certas temáticas. A ditadura militar é um osso que definitivamente eles não largam e “O Segredo dos Seus Olhos”, o tal vencedor do careca dourado este ano, é mais um da extensa lista de filmes portenhos dedicados ao assunto.

Dirigido por Juan José Campanella e protagonizado por Ricardo Darín (a mesma dupla de “O Filho da Noiva”), o filme, em essência, trata da possibilidade de punição aos responsáveis pelos horrores do regime militar, jamais esquecidos pelo povo hermano, possibilidade esta aprovada pela Suprema Corte argentina e que vai em sentido contrário à recente decisão do nosso Supremo Tribunal Federal vedando tal objetivo (alguém já disse que a nossa elite é a pior do mundo, o que parece mesmo ser verdade). A diferença das escolas argentina e brasileira de cinema reside, antes de tudo, na forma de abordagem, uma vez que nossos amigos parecem ter o bom senso de não transformar seus longas em panfletos, preferindo formas metafóricas para atingir o mesmo objetivo.

Aqui, o roteiro (escrito por Campanella e Eduardo Sacheri, baseado no livro deste último), mostra o policial Benjamín Espósito (Darín) buscando elucidar o assassinato bárbaro de uma bela mulher, depois de ser estuprada. Para tanto, ele tem a ajuda de seu amigo alcoólatra Pablo Sandoval (Guillermo Francella), além da bela promotora de justiça Irene (Soledad Villamil), pela qual nutre um amor nunca revelado. A investigação do crime acaba se transformando em verdadeira obsessão, principalmente depois que Espósito se aproxima do viúvo (Pablo Rago), um homem que nutria um amor invejável pela esposa e que agora vê sua vida transformada em um imenso vazio. Ou seja, o roteiro substitui o crime político pelo crime comum, mas o questionamento realizado é o da necessidade de se punir crimes impunes. E, claro, sempre é muito inteligente falar de política sem aparentemente fazê-lo, mesmo que o público argentino seja bem mais politizado que o brasileiro (provavelmente o mais despolitizado do planeta Terra). Nesse intuito, a inclusão do subtexto amoroso é muito feliz. As cenas que envolvem Espósito e Irene são marcantes, donas de uma sensibilidade de fazer inveja a muito filme romântico por aí. E se em minha crítica sobre “A Origem” mencionei que o filme investe excessivamente em nosso lado lógico-racional, fazendo com que as cenas mais emocionais acabem perdendo força, Campanella sabe perfeitamente equilibrar as duas vertentes, levando o espectador à reflexão ao mesmo tempo em que pode fazê-lo até mesmo chorar.

Além de uma direção de arte primorosa, o longa é belissimamente fotografado. Mesmo que muitas das cenas se passem em ambientes burocráticos, há um plano-sequência em um estádio de futebol que atesta a nossa incapacidade de filmar com presteza o esporte que é uma das grandes paixões do nosso povo. Memorável, consegue traduzir em imagens toda a paixão argentina em poucos minutos e de forma extremamente elegante. Por sinal, e falando em paixão, o filme nos coloca diante da ideia de que jamais podemos fugir de nossas paixões, premissa inteligente, verdadeira e que é muito bem utilizada pela narrativa. A sua conclusão, ademais, evoca este mote, inserindo-o no contexto político de forma impecável, talvez apontando que o povo argentino, tal como não pode fugir de sua paixão futebolística, tão pouco poderá fugir do desejo e necessidade de que os fantasmas de seu passado sejam expurgados, da mesma forma que um homem não pode fugir do amor que sente por uma mulher. Campanella parece afirmar que o Estado precisa fazer o seu papel para que finalmente o povo argentino possa enterrar seus mortos e seguir em frente. Uma sofisticada alegoria que realmente nos faz concluir que o Oscar ficou em boas mãos. E que talvez o grande problema do cinema brasileiro não seja sua obsessão com certos temas, mas a forma como os mostra para o espectador. Afinal, inteligência e sensibilidade, ingredientes que transbordam neste “O Segredo dos Seus Olhos”, sempre serão bem-vindas.


Cotação:

Nota: 10,0