
Diário de Uma Paixão
(The Notebook)
A tradição dos filmes românticos anda em baixa no cinema atual. Vivemos tempos cínicos, frios, onde pessoas românticas são tidas como bobas ou ingênuas, e isso acaba se refletindo na produção cultural. Até mesmo as tradicionais comédias românticas hoje são mais “comédias” do que “românticas”, apresentando uma forma de enxergar o amor muito mais pragmática do que em décadas passadas. Dentro destas cinrcunstâncias, torna-se extremamente prazeroso e bem-vindo rever um filme como “Diário de Uma Paixão”.
Dirigido por Nick Cassavetes (filho do lendário John Cassavetes), “The Notebook” é um daqueles longas-metragens desavergonhadamente meloso. Não estranhe se, durante a exibição dele em sua sala, um caminho de formigas tomar o rumo de sua TV. Contudo, é exatamente este romantismo assumido que acaba encantando a quem assiste, uma vez que traz uma nostalgia de tempos mais puros, em que se acreditava mais facilmente em um amor verdadeiro. Afinal, é difícil não se envolver com a bela narrativa que traça os caminhos das venturas e desventuras românticas de Noah (o sempre competente Ryan Gosling) e Allie (a encantadora Rachel McAdams), dois jovens que, no início dos anos 40, vivem uma intensa paixão que terá como destino tornar-se muito mais que um namorico de verão. O problema é que os abastados pais da moça se opõem (sim, ecos de “Romeu e Julieta” ecoam pela bilionésima oportunidade em produção cultural ocidental), pois que Noah é apenas um carpinteiro que nunca poderá oferecer a Allie a vida confortável a que ela está acostumada. E assim os momentos de paixão e separação vão se sucedendo, narrados em forma de flashback.
Apontando para este aspecto, não se pode negar que o roteiro (escrito por Jeremy Leven e Jan Sardi, adaptando romance de Nicholas Sparks) sabe se aproveitar de todos os clichês do gênero para fisgar a plateia. Entretanto, apesar de ditos clichês, em vários momentos parece que estamos assistindo a algo novo, nunca dantes filmado, sensação reforçada por uma série de sequências memoráveis, destinadas a produzirem suspiros no público durante muito tempo. Afinal, como não ver beleza na cena da praia em que Allie diz que se sente como um pássaro? Ou ainda quando os dois, na noite do primeiro encontro, dançam no meio da rua sem ouvir qualquer música? A sensação trazida por ditas cenas é aquela buscada por todo espectador que vai a uma sala de cinema, pois que capazes de transportá-lo para uma outra realidade.

Para se alcançar tal imersão, além de um roteiro que toca em pontos nevrálgicos do coração, o diretor Cassavetes se vale de uma fotografia exuberante, realmente primorosa, que só acentua a beleza de sequências como as acima mencionadas. Sempre afirmo e reafirmo que cinema é imagem e Cassavetes parece mesmo conhecer o poder delas. Ademais, é importante ressaltar a química e carisma do casal protagonsita. Gosling está perfeito no papel do rapaz ao mesmo tempo obstinado e romântico, enquanto McAdams encontra-se realmente encantadora. Mesmo a canastrice de David Thornton (que faz o pai de Allie), com seu bigode saído de algum folhetim do século XIX, não chega a comprometer (torna-se até pitoresco) e é em muito compensada pelas presenças de James Garner e Gena Rowlands, os quais interpretam Noah e Allie na 3ª idade. Talvez seja possível afirmar que a trilha sonora seja o ponto mais fraco do longa, mas também não chega a marcar como aspecto negativo (é apenas “esquecível”).
Por outro lado, apesar de suas falhas pontuais, é interessante como o filme passa de forma tão agradável que jamais aparenta ter qualquer defeito, afinal, nem só de técnica vive a arte. O cinema que é capaz de cativar o público com emoção sincera estará sempre entre os melhores, por mais que alguns críticos metidos a besta torçam o nariz para o que definem como “pieguismo”. Uma bela de uma bobagem. Tal como existem músicas bastante piegas, mas que não saem da boca do povo e atravessam as gerações sendo cantadas, há filmes piegas que não saem da memória daqueles que o viram. Isso não os torna inferiores a filmes mais “cerebrais”. Em síntese, “Diário de Uma Paixão” é um longa que afirma: “sou romântico sim, senhor!”. E é exatamente nisso que reside todo o seu charme.
Cotação:

Nota:9,5






























