domingo, 5 de setembro de 2010

Nosso Lar



Para iniciados


O cinema nacional vive, neste ano de 2010, uma onda de filmes com temática vinculada aos princípios do Espiritismo Kardecista, muito em virtude do centenário de nascimento de Chico Xavier, o médium mais querido do país (no plano televisivo, ainda podemos lembrar a atual novela das 18h da Rede Globo, “Escrito nas Estrelas”). Em abril, tivemos o lançamento de sua biografia cinematográfica, o bom “Chico Xavier”, com enorme sucesso de público e boa aceitação da crítica. Agora, temos este “Nosso Lar”, adaptação do livro que o mencionado Chico psicografou e é atribuído ao espírito de André Luiz, um médico brasileiro que teria tido sua última encarnação no início do século passado (alguns afirmam que ele teria sido um dos fundadores de um certo clube de camisas de cores vermelha e preta no Rio de Janeiro*).

Adianto, desde já, que nunca li a obra literária, o que, por um lado, é algo positivo, pois que me possibilita avaliar o longa tendo como referência apenas o que foi visto na tela. Tendo em vista tal circunstância, posso afirmar que o primeiro problema que se apresenta para um filme como esse é o do envolvimento do espectador. É inevitável que uma trama que mostra como seria “o outro lado da vida” acabe despertando reações diversas na plateia, dependendo da crença de cada um dos assistentes. Óbvio que aqueles que acreditam na doutrina espírita terão uma facilidade bem maior para se envolver com a narrativa, enquanto outros, céticos, poderão se mostrar indiferentes ou considerar tudo até uma grande bobagem.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor Wagner de Assis de acordo com os conceitos espíritas, mostra a vida de André Luiz após ter desencarnado, sua passagem pelo Umbral (um tipo de purgatório) e sua chegada ao ambiente conhecido como Nosso Lar, uma espécie de cidade espiritual, que também possui a sua burocracia, seus hospitais, suas formas de locomoção etc. E onde também é necessário trabalhar para conseguir certos objetivos, mesmo que esses objetivos não sejam os mundanos “dinheiro-fama-poder”. Entretanto, na narrativa tudo se desenvolve de forma bastante expositiva, didática mesmo. Muitos afirmam que o livro realmente é desta forma, assemelhando-se a uma aula de como as coisas se passam no além-túmulo. O problema é que cinema possui uma outra linguagem, exigindo força narrativa maior para atingir em cheio o espectador. E, nesse propósito, o filme acaba falhando, pelo menos para aqueles que não são seguidores da doutrina. Uma solução interessante teria sido mostrar mais da vida de André antes de seu falecimento, para que assim pudéssemos conhecer melhor o personagem e estabelecer links emocionais a serem explorados com maior eficácia na segunda metade do longa. Da maneira como filmado, aquele que deveria ser o clímax não chega a funcionar a contento, apesar de constituir uma sequência bem realizada em termos dramáticos.

Outro aspecto que deixa a desejar é justamente este, o dramático. A produção optou pela escalação de um ator pouco conhecido, Renato Prieto, para o papel do protagonista André, o que acaba se tornando um equívoco. Renato se esforça, mas não tem o carisma suficiente para levar o filme nas costas, alternando bons (como a citada sequência do “clímax”) e maus momentos. Nem mesmo o elenco de apoio se sai bem, apesar de nomes como Othon Bastos, Paulo Goulart e Ana Rosa, pois seus personagens são praticamente destituídos de conflitos, servindo apenas para orientar André em suas novas vivências espirituais.

Entretanto, não se pode negar que o filme possui elementos que se constituem em uma evolução dentro do cinema nacional. Os R$ 20 milhões investidos na produção (o que a transforma na mais cara produção brasileira em todos os tempos) são vistos principalmente nos efeitos especiais (da empresa canadense Intelligent Creatures), responsáveis pela materialização da cidade espiritual, repleta de elementos futuristas. Os planos aéreos da comunidade são mesmo ótimos e convincentes, mas também é verdade que outros efeitos deixam a desejar, como a materialização dos espíritos na região do Nosso Lar quando vindos da área do Umbral. Contudo, há de se elogiar o esforço dos produtores em sair do comodismo e apatia reinantes no nosso cinema, reconhecidamente pouco ousado nesta seara técnica (a despeito dos figurinos me soarem equivocados, parecendo roupas de Krypton ou similares). Por sinal, outro aspecto técnico que desperta atenção é a trilha sonora, composta pelo badalado Phillip Glass. Com freqüência, as trilhas de Glass são invasivas, mas aqui até que ele se contém e não se pode negar a beleza de suas composições. Outro ponto que me agradou foi a caracterização do Umbral. Utilizando-se de poucos recursos especiais, ele se mostra bem realista em várias tomadas, mesmo que também muitas vezes lembre mais o inferno (“A Divina Comédia”, de Dante, vem logo à mente).

Todavia, todo este esmero técnico vai esbarrar na disposição do espectador em embarcar na crença na doutrina abordada. Se você é kardecista ou já leu ou livro, provavelmente não terá dificuldades de se envolver na proposta. Por outro lado, se é cético ou simplesmente não comunga da mesma crença, poderá considerar tudo uma grande perda de tempo. Desta forma, é um filme voltado para um público específico e vale dizer que, como peça a despertar interesse pela doutrina de Allan Kardec, o filme de Chico Xavier funciona bem melhor. Já “Nosso Lar” é muito mais uma obra para iniciados.


Cotação:

Nota: 7,0


* Se André Luiz fosse botafoguense não teria passado tanto tempo no Umbral!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

7 frases marcantes do cinema!

Na recente edição da série “Quero Ver Novamente”, relembrei a famosa frase de Darth Vader para Luke Skywalker: “Eu sou seu pai”. Na verdade, o cinema está repleto de frases marcantes, as quais ecoam na mente dos apreciadores por muito tempo, muitas vezes durante a vida inteira. A seguir, uma seleção de 7 frases marcantes para os cinéfilos, sem ordem de preferência:


- “Francamente, minha cara, eu não dou a mínima” – De Rhett Buttler (Clark Gable) para Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), em sua despedida no clássico “...E o Vento Levou”;



- “Sempre teremos Paris” – De Rick Blane (Humphrey Bogart) para Ilsa Lund (Ingrid Bergman), na antológica despedida do casal em “Casablanca”;


- “Hoje eu sou um vadio, Charlie, vamos admitir” – De Terry Malloy (Marlon Brando) para seu irmão Charley (Rod Steiger), em “Sindicato de Ladrões”;


- “Você me faz querer ser um homem melhor” – De Melvin (Jack Nicholson) para Carol (Hellen Hunt) em “Melhor É Impossível”, uma das mais belas declarações de amor do cinema em todos os tempos;



- “Que a força esteja com você” – De Obi-Wan Kenobi (Sir Alec Guiness), em “Guerra nas Estrelas”, com certeza uma das frases mais “pop” já vistas;


- “Mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda” – de Don Vito Corleone (Marlon Brando) em “O Poderoso Chefão”;


- “My precious” (“meu precioso”) – De Gollum (Andy Serkis), na trilogia “O Senhor dos Anéis”.


Sintam-se à vontade para citar outras frases memoráveis!

domingo, 29 de agosto de 2010

Karatê Kid




Kung-fu muito kid


Quem foi garoto (a) nos anos 80 certamente tem em “Karatê Kid – A Hora da Verdade” uma de suas mais caras memórias cinematográficas. Eu mesmo perdi as contas de quantas vezes assisti ao longa e de quantas tentativas realizei procurando imitar o famoso golpe da garça. Protagonizado por Ralph Macchio e pelo saudoso Pat Morita, o filme mostrava um adolescente, Daniel, que mudava de cidade com sua mãe e lá tinha as tradicionais dificuldades de adaptação. Além disso, passa a ser a vítima preferida dos valentões da redondeza, apanhando diariamente de uns certos praticantes de karatê que usavam a arte marcial para o lado negro da força, até que um dia ele é salvo pelo Sr. Miyagi, um japonês sisudo que depois lhe ensina o karatê através de métodos bastante peculiares. Tudo acaba por culminar em um torneio em que Daniel-San enfrenta seus rivais das ruas.

Décadas depois, o popular e poderoso Will Smith tem a ideia de fazer um remake do clássico oitentista para servir de veículo para o seu filho, Jaden Smith. Dirigido por Harald Zwart (um diretor sem nada muito expressivo no currículo), o projeto gerou controvérsia desde o princípio por alterar a arte marcial praticada pelo protagonista: saiu o karatê, entrou o kung-fu, o que já torna o título meio estranho (não é à toa que o título foi alterado na China para “Kung-fu Kid”). Além dessa, outras alterações são marcantes. Dre Parker (o novo nome do protagonista, interpretado obviamente por Jaden) muda não apenas de cidade, mas de país, acompanhando sua mãe (Taraji P. Henson, indicada ao Oscar por “O Curioso Caso de Benjamin Button”) até a China. Ou seja, já sentimos aqui a força da globalização e da presença cultural da economia que mais cresce no mundo hoje (afinal, negócios são negócios...). Descobrimos, assim, que o bullying parece mesmo ser uma prática que transcende fronteiras, já que Dre passa a apanhar sistematicamente dos praticantes de kung-fu da sua escola. É aí que entra o Sr. Han (Jackie Chan, o astro oriental mais famoso da atualidade) para salvá-lo e ensiná-lo a se defender (substituindo o Miyagi de Morita).

Outra mudança, talvez a mais significativa delas, seja a idade do personagem central. Dre tem apenas 12 anos, ou seja, praticamente uma criança, enquanto que Daniel-San tinha lá os seus 16, 17 anos. Confesso que é bastante estranho ver crianças lutando como adultos, além das cenas explícitas de violência envolvendo as mesmas. Mais um exemplo da hipocrisia da sociedade americana, extremamente conservadora com relação a outros aspectos, mas que libera violência para todas as idades. É até esquisito, na cena em que o Sr. Han salva Dre de seus perseguidores, vê-lo lutando com rapazes que ainda estão mais para moleques... Além disso, muitos golpes e sequências se tornam até inverossímeis devido à pouca idade de seus participantes. Essa questão, inclusive, faz com que a faixa etária alvo do filme também seja mais reduzida, o que acaba se refletindo no seu aspecto mais pueril do que o original, além de caracterizações adequadas a tal público, como a do torneio final, que lembra muito games como “Street Fighter”.

Mas não se pode negar que o filme também tem seus acertos. Jaden Smith mostra que pode ter um belo futuro, não apenas por ser filho de quem é. Ele realmente se dedicou ao papel com muito empenho, como se percebe nas cenas de treinamento, e chega mesmo a surpreender em outras de cunho mais dramático. Jackie Chan também se apresenta bem, muito embora o seu Han não tenha o mesmo impacto do misterioso Miyagi de Morita. Por outro lado, ele já apresenta uma tridimensionalidade que Miyagi só iria desenvolver melhor no segundo episódio da série original. Vale ressaltar ainda que as cenas de luta foram bem coreografadas e a utilização de cenários turísticos chineses em diversas cenas é de encher os olhos. Contudo, como já vem sendo comentado por muitos na internet, o golpe da garça de Daniel possuía, deveras, uma força muito maior, pois que ele treinava o golpe ao longo de boa parte da narrativa, enquanto o golpe final de Dre, a despeito de plasticamente bonito, não oferece ao espectador a sensação de “recompensa” tão presente no original.

No fim, a sensação é aquela que acompanha 90% dos remakes, qual seja, a ausência de necessidade, mesmo que seja sob a justificativa de atualizar a obra para um novo público. É certo que o filme entretém, prende a atenção (apesar de ser um pouco longo) e está indo bem nas bilheterias, mas é desnecessário. Além disso, ver crianças trocando sopapos nunca é algo positivo, mesmo que os garotos de hoje vivam nestes embates por meio dos videogames. Entretanto, não nego: se ainda tivesse meus 12 anos (“quem me dera voltar a tê-los”), possivelmente sairia da sala de cinema empolgado... ;=)


Cotação:

Nota: 7,0

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quero Ver Novamente # 5

Recentemente, "O Império Contra-ataca" foi escolhido, em uma pesquisa britânica, como a melhor sequência da história do cinema. Vasculhando o Youtube, encontrei esta pérola de cena, na dublagem original em português (muito melhor do que a atual), cena esta reprisada na minha mente de garoto quase ao infinito. Confiram abaixo, mais uma vez, a mais do que clássica revelação da série, certamente um dos grandes momentos da 7ª arte!


domingo, 22 de agosto de 2010

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tudo Que O Céu Permite
(All That Heaven Allows)



Hipocrisia atemporal


É sempre interessante constatar como alguns filmes, apesar de produzidos há algumas décadas, não envelhecem. A despeito de alguns elementos que aparecem datados, suas temáticas centrais permanecem firmes e atuais, talvez como um perfeito registro de que a humanidade tem mesmo enorme dificuldade em superar certas limitações. É o caso de “Tudo Que O Céu Permite”, longa-metragem de 1956 dirigido por Douglas Sirk e por muitos considerado seu melhor trabalho.

Egresso do teatro, Sirk (cujo nome verdadeiro era Detlef Sierk) fez parte da onda de artistas europeus que emigraram para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial (tal como Fritz Lang, ficando apenas em um outro exemplo mais famoso), fugindo do nazismo, pois que sua esposa era judia. Dono de uma veia emotiva forte, sua obra foi por muito tempo considerada excessivamente melodramática, feita para o público feminino mais sensível se acabar em lágrimas. Apenas em meados da década de 70, ela começou a passar por uma revisão e pela percepção de que estava recheada de crítica social, talvez com o melodrama sendo usado apenas para fazer do filme um produto mais vendável.

“Tudo Que O Céu Permite” parece se inserir perfeitamente nesta afirmação. A trama mostra Cary Scott, uma simpática e bonita viúva de classe média alta, interpretada por Jane Wyman (a qual já trabalhara com Sirk anteriormente), com dois filhos já em idade universitária que costumam visitá-la nos fins de semana. Ned (William Reynolds), o mais velho, parece um esboço do que seria mais tarde conhecido como um “yuppie”, enquanto Kay (Gloria Talbott), a filha mais adolescente, tem uma aura de intelectual afeita às teorias psicanalíticas de Freud, inclusive incentivando a mãe a casar-se novamente. Apesar de cortejada por homens “bem estabelecidos” socialmente, Cary acaba se apaixonando por seu jardineiro, Ron Kirby (Rock Hudson), 15 anos mais jovem.

É aí que sobe o tom crítico às hipocrisias do “american way of life”, tão presentes nestes meios tipicamente ianques. Cary sofre o preconceito e maledicência de uma comunidade que não aceita uma mulher casar-se com um homem de classe social inferior e, de quebra, ainda bem mais jovem. Até mesmo seus filhos se colocam contra o matrimônio tão logo descobrem quem é o pretendente, havendo um enfoque especial na filha adepta de teorias elaboradas sobre o comportamento humano, mas que acaba apresentando grande dificuldade em colocá-las em prática.

Interpretado com muita competência tanto por Wyman quanto por Hudson (bom lembrar a origem teatral de Sirk, o que logicamente lhe dava uma ótima direção de atores), o casal de protagonistas fisga o público, que passa a torcer pelo amor entre os dois. Contudo, não de pode negar que há um certo tom de novela das 6 na trama, cujas cenas finais chegam mesmo a descambar para o kitsch. Claro que o culpado pela banalização de determinadas soluções não está no longa, mas em toda a profusão de telenovelas que este tipo de projeto inspirou ao longo dos anos. Mas não se pode negar que tais circunstâncias acabam deixando o filme datado em alguns aspectos. Tais aspectos datados, vale destacar, não se limitam a pontos do roteiro. O deslumbre com o Technicolor, por exemplo, transborda em algumas imagens e cenários, especialmente concebidos para agradar a um público que ainda se impressionava com o uso de cores vivas na tela (algumas cenas parecem remeter a paisagens dignas de quadros impressionistas). Por outro lado, não se pode negar que Sirk foi feliz em contrapor o meio rural onde vive Ron, representando os verdadeiros desejos de Cary, ao meio urbano representativo dos artificialismos que a oprimem.

Inspirando vários diretores posteriores, como o alemão Reiner Werner Fassbinder, este longa encontrou ecos até mesmo em obras já do século XXI, como “Longe do Paraíso”, de Todd Haynes, ou até mesmo “Foi Apenas Um Sonho”, de Sam Mendes, muito embora este último possua uma visão menos otimista (inclusive “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn, traz alguns traços que remetem, mesmo que de forma tênue, a este clássico). E é exatamente pela sua essência atemporal que ele merece ser visto. Os 89 minutos de sua exibição (filme bastante enxuto, portanto) já são suficientes para percebermos que, no fundo, a sociedade pouco mudou ao longo destas décadas.


Cotação:

Nota: 9,0

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Michael Douglas pode perder a voz


Esta semana, tivemos a notícia de que Michael Douglas, de 65 anos, está acometido de um câncer na garganta. Infelizmente, hoje tivemos uma notícia ainda mais preocupante: o ator corre o risco de perder a voz. É o que afirmou o jornal britânico "Daily Mail" nesta quarta-feira, 18/08. Segundo a publicação, o tumor encontra-se em estágio avançado.

O tabloide relata que Michael vai iniciar o tratamento de quimioterapia e radioterapia já na semana que vem. As sessões devem durar cerca de oito semanas e têm como principal objetivo evitar uma cirurgia em sua laringe. A internação, ainda segundo o jornal, será em um hospital de Nova York.

Caso não surta efeito, a alternativa pode ser uma laringectomia. O método pode deixar o ator com a voz bastante alterada, ou mesmo perdê-la. Caso o tratamento seja bem sucedido, as chances de sobrevivência de Michael são de 60% para os próximos 5 anos. Ou seja, as chances de insucesso são elevadas o que deixa todo o público cinéfilo bastante preocupado.

domingo, 15 de agosto de 2010

O Segredo dos Seus Olhos



Razão e sensibilidade


Este ano, com a vitória do cinema argentino no Oscar, recebendo o prêmio de melhor filme estrangeiro, levantou-se a questão na Terra Brasilis sobre a competência dos hermanos em realizar obras e cinematográficas em contraposição à nossa incapacidade genética para tanto. Sem querer adentrar no mérito desta discussão (até porque ela acaba revelando pouca memória com relação aos nossos méritos), é importante lembrar que um dos motivos para atacar a produção brasileira seria sua obsessão com alguns temas, os repetidos pobreza-favela-violência, seca-miséria-Nordeste ou ainda ditadura-violência-memória. Se há parcela de verdade nesta afirmação, ela esconde, por outro lado, o quanto os argentinos também são apegados a certas temáticas. A ditadura militar é um osso que definitivamente eles não largam e “O Segredo dos Seus Olhos”, o tal vencedor do careca dourado este ano, é mais um da extensa lista de filmes portenhos dedicados ao assunto.

Dirigido por Juan José Campanella e protagonizado por Ricardo Darín (a mesma dupla de “O Filho da Noiva”), o filme, em essência, trata da possibilidade de punição aos responsáveis pelos horrores do regime militar, jamais esquecidos pelo povo hermano, possibilidade esta aprovada pela Suprema Corte argentina e que vai em sentido contrário à recente decisão do nosso Supremo Tribunal Federal vedando tal objetivo (alguém já disse que a nossa elite é a pior do mundo, o que parece mesmo ser verdade). A diferença das escolas argentina e brasileira de cinema reside, antes de tudo, na forma de abordagem, uma vez que nossos amigos parecem ter o bom senso de não transformar seus longas em panfletos, preferindo formas metafóricas para atingir o mesmo objetivo.

Aqui, o roteiro (escrito por Campanella e Eduardo Sacheri, baseado no livro deste último), mostra o policial Benjamín Espósito (Darín) buscando elucidar o assassinato bárbaro de uma bela mulher, depois de ser estuprada. Para tanto, ele tem a ajuda de seu amigo alcoólatra Pablo Sandoval (Guillermo Francella), além da bela promotora de justiça Irene (Soledad Villamil), pela qual nutre um amor nunca revelado. A investigação do crime acaba se transformando em verdadeira obsessão, principalmente depois que Espósito se aproxima do viúvo (Pablo Rago), um homem que nutria um amor invejável pela esposa e que agora vê sua vida transformada em um imenso vazio. Ou seja, o roteiro substitui o crime político pelo crime comum, mas o questionamento realizado é o da necessidade de se punir crimes impunes. E, claro, sempre é muito inteligente falar de política sem aparentemente fazê-lo, mesmo que o público argentino seja bem mais politizado que o brasileiro (provavelmente o mais despolitizado do planeta Terra). Nesse intuito, a inclusão do subtexto amoroso é muito feliz. As cenas que envolvem Espósito e Irene são marcantes, donas de uma sensibilidade de fazer inveja a muito filme romântico por aí. E se em minha crítica sobre “A Origem” mencionei que o filme investe excessivamente em nosso lado lógico-racional, fazendo com que as cenas mais emocionais acabem perdendo força, Campanella sabe perfeitamente equilibrar as duas vertentes, levando o espectador à reflexão ao mesmo tempo em que pode fazê-lo até mesmo chorar.

Além de uma direção de arte primorosa, o longa é belissimamente fotografado. Mesmo que muitas das cenas se passem em ambientes burocráticos, há um plano-sequência em um estádio de futebol que atesta a nossa incapacidade de filmar com presteza o esporte que é uma das grandes paixões do nosso povo. Memorável, consegue traduzir em imagens toda a paixão argentina em poucos minutos e de forma extremamente elegante. Por sinal, e falando em paixão, o filme nos coloca diante da ideia de que jamais podemos fugir de nossas paixões, premissa inteligente, verdadeira e que é muito bem utilizada pela narrativa. A sua conclusão, ademais, evoca este mote, inserindo-o no contexto político de forma impecável, talvez apontando que o povo argentino, tal como não pode fugir de sua paixão futebolística, tão pouco poderá fugir do desejo e necessidade de que os fantasmas de seu passado sejam expurgados, da mesma forma que um homem não pode fugir do amor que sente por uma mulher. Campanella parece afirmar que o Estado precisa fazer o seu papel para que finalmente o povo argentino possa enterrar seus mortos e seguir em frente. Uma sofisticada alegoria que realmente nos faz concluir que o Oscar ficou em boas mãos. E que talvez o grande problema do cinema brasileiro não seja sua obsessão com certos temas, mas a forma como os mostra para o espectador. Afinal, inteligência e sensibilidade, ingredientes que transbordam neste “O Segredo dos Seus Olhos”, sempre serão bem-vindas.


Cotação:

Nota: 10,0

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eu quero esse pôster # 9


A série "Eu Quero Esse Poster" teve uma edição recente, mas este poster de "A Origem" , criado pelo norte-amerivano Trent Walton, é tão interessante que me entusiasmou.

domingo, 8 de agosto de 2010

A Origem

Novos Tempos em Hollywood


Há alguns meses, levantei o questionamento de que “Avatar” seria uma verdadeira revolução na sétima arte, como foi alardeado quando do seu lançamento. Na época, respondi que só o tempo diria. Bem, o tempo passou e, cada vez mais, percebemos que o filme de James Cameron não operou “revolução” nenhuma. Apesar de seus efeitos visuais e sua novidadeira tecnologia 3D, o filme dos elfos azuis, com seu roteiro destituído de originalidade e inteligência, mostra-se cada vez mais banal e esquecível (acredito que hoje que não atribuiria a nota 9, a qual atribuí então). Não é uma mera novidade tecnológica que fará um filme tornar-se bom ou não. Fosse assim, “O Cantor de Jazz”, primeiro longa-metragem falado, poderia entrar no top 10 de todos os tempos. Uma verdadeira revolução se empreende antes de tudo com ideias, e não com fogos de artifício.

Talvez a grande “revolução”, se é que podemos definir desta forma, levada a cabo em Hollywood nos últimos anos venha sendo empreendida por Christopher Nolan, um diretor que transforma enredos aparentemente banais em algo mais complexo. Foi assim com a desconstrução realizada em “Amnésia”, provando a tese de Jean-Luc Godard de que um filme precisa ter “começo, meio e fim, mas não necessariamente nessa ordem”. Fosse narrado na ordem cronológica, o longa cairia na banalidade. Bastou alterar esse elemento, a cronologia narrativa, para a trama assumir novos contornos (embora o longa seja criticado por muitos por, segundo eles, resumir-se a uma experiência meramente formalista). Algum tempo depois, Nolan nos presenteou com “O Cavaleiro da Trevas”, mostrando que um filme de super-herói poderia ir muito além de uma mera encenação de mocinhos contra vilões, e isso conseguindo agradar plenamente aos fãs do Morcego, já que permaneceu bastante fiel ao material que lhe deu origem. O diretor colocou explícita a tese de que heróis e vilões em muito se assemelham, em diversos momentos diferindo apenas na maneira de reagir diante das circunstâncias. Batman e Coringa (que falta faz Heath Ledger) são duas faces da mesma moeda, faces estas encarnadas até mesmo por um mesmo personagem no longa, o Duas-Caras, ótima representação deste conflito em uma figura cinematográfica.

E, agora, eis que surge novamente Nolan com este seu “A Origem”, consolidando-se definitivamente como um diretor-autor. Interessante notar como aqui ele parece querer realizar uma nova “desconstrução”. Mas não uma desconstrução na ordem dos acontecimentos mostrados, como no mencionado “Amnésia”. O que se pretende aqui é operar uma revisão da veracidade do que é visto na tela. Afinal, sabe-se que o cinema procura vender como verdade aquilo que fotografa. Daí ser necessário realizar o que se costuma chamar de “suspensão da descrença”, ou seja, fazer com que o espectador, por mais inverossímeis que sejam os fatos filmados, acredite que os mesmos possam realmente acontecer, pelo menos durante os minutos da exibição (o que nem sempre é fácil). “A Origem” trabalha justamente na contramão desta ideia. Sabe-se, desde o início, que as circunstâncias exibidas não são reais porque se passam em sonhos. Paradoxalmente, contudo, continuamos a temer pelo destino dos personagens.

A trama do longa, entretanto, não é exatamente original. Nela, Don Cobb (Leonardo DiCaprio) é o líder de um grupo que realiza “extrações”, ou seja, retiram informações importantes da mente de uma pessoa enquanto ela está sonhando, penetrando em seu inconsciente através de um sistema de compartilhamento de sonhos. É então que o empresário Saito (Ken Watanabe) o contrata para realizar não uma extração, mas a inserção de uma ideia na mente de um rival empresarial (Cillian Murphy, um contínuo colaborador de Nolan). É perceptível, assim, que alguns elementos são mesmo similares a “Matrix” e ao referido “Avatar”, como o conceito de viver em uma outra realidade a partir de conexões com aparelhos específicos. Além disso, o longa não deixa de fugir de alguns esquemas dos filmes de “assalto”, apresentando a quadrilha e as características de seus integrantes. Até mesmo a concepção de uma existência paralela dentro dos sonhos já havia em “A Hora do Pesadelo”. Pode-se afirmar, ademais, que ninguém filmou sonhos com mais propriedade do que Federico Fellini em seu clássico absoluto “8 ½”, ou ainda Akira Kurosawa, com seu soberbo “Sonhos”. Mas não se pode negar a ousadia de Nolan em realizar uma obra que praticamente se passa inteira em ambientes oníricos dentro do esquema blockbuster de Hollywood. E qualquer ousadia dentro do sistema do cinema comercial se torna ainda mais relevante. O próprio DiCaprio chegou a declarar, em entrevistas, que o elenco muitas vezes também não tinha noção do que estavam filmando, de como determinada cena iria se encaixar no todo, o que se só demonstra o quanto Nolan queria mesmo fugir do esquemão hollywoodiano de realizações.

Por outro lado, um dos aspectos mais interessantes e originais de “Inception” (“Inserção”, título original que destoa bastante do abstrato “A Origem”) está na sua concepção visual. Em outras ocasiões, já mencionei que cinema é imagem e a força imagética deste longa é mesmo estonteante. Algumas sequências estão destinadas a fazer parte da história do cinema e nem vou me deter muito neste aspecto para não correr o risco de estragar qualquer surpresa para aqueles que ainda não viram o filme. Força imagética esta muito bem amparada pelo elenco, bastante homogêneo na competência de atuação. DiCaprio, por sinal, apresenta um personagem dotado de muitas semelhanças com aquele que interpretou no recente e ótimo “Ilha do Medo”, perseguido por traumas do passado, relativos à morte de sua esposa (aqui interpretada pela bela e talentosíssima Marion Cotillard). Ainda temos o prazer de ver Ellen Page, com sua arquiteta Ariadne, fugir do seu estigma de “Juno”. Em contrapartida, a trilha do tarimbado Hans Zimmer, a despeito de inspirada e bem orquestrada, se faz tão onipresente que acaba por não diferenciar os momentos mais ou menos importantes. Parece que estamos sempre no clímax da projeção. Aliás, se outro defeito podemos por no longa é que, devido ao fato de ser muito racional, o lado emocional acaba por demais amortecido, fazendo com que algumas cenas que deveriam despertar emoções mais intensas acabam não funcionando tão bem.

Mas a grande jogada de Nolan é mesmo o seu final em aberto, coisa rara não apenas no cinema atual, mas no próprio cinema americano, sempre afeito a conclusões mastigadinhas para o público. E é isso, exatamente, que fará de “A Origem” um filme que não será facilmente esquecido. A conclusão joga o espectador para diversas possibilidades e até mesmo para a hipótese, já debatida na internet, de que a pretensão do diretor era fazer um filme dentro de um filme (o que lhe traria ainda mais semelhanças com o “8 ½” de Fellini). E é aqui que retomo a ideia de “revolução”, ao menos dentro do esquema do cinema comercial. Com suas obras, Cristopher Nolan está fazendo as massas pensarem e pensar é algo a que o público do cinema-pipoca não está acostumado. Não há nada mais salutar do que fazer as pessoas saírem da sala debatendo sobre o real significado do que viram, algo que certamente acontece com todos os que conferiram “A Origem”. Se essa tendência passar a ser adotada por outros cineastas e produtores de Hollywood, podemos estar diante de um novo tempo no cinema. Tomara que esta expectativa se confirme.


Cotação:

Nota: 9,5

sábado, 7 de agosto de 2010

Eu quero esse pôster # 8


É interessante com o poster de "Crash" é bem melhor do que o filme...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Suso Cechi D'Amico: 1914 - 2010


Só agora fiquei sabendo da notícia de que a roteirista italiana Suso Cechi D'Amico (também conhecida como Giovanna Chechi), colaboradora favorita do gênio Luchino Visconti e uma das mentes basilares do neo-realismo, faleceu neste último sábado, 31 de julho, em Roma, aos 96 anos.

Nascida na capital italiana em 21 de julho de 1914 e filha do escritor Emilio Cecchi, colaborou ao longo de sua carreira em mais de cem filmes com os cineastas mais importantes do cinema da italiano (e, por consequência, do cinema mundial), como Roberto Rosselini, Vittorio de Sica e Federico Fellini.

Seu currículo é nada menos que impressionante, fazendo parte dele, por exemplo, "Roma, Cidade aberta", "Irmão Sol, Irmã Lua" (de Franco Zeffirelli) e "Ladrões de Bicicleta". Mas foi mesmo com Visconti sua maior parceria, participando de quase toda a obra do famoso diretor, como em "Rocco e Seus Irmãos " e "O Leopardo"!!! Preciso dizer mais alguma coisa?

domingo, 1 de agosto de 2010

Salt



Quem é Salt? É Angelina Jolie!


Ao longo da história do cinema, um dos elementos da arte/indústria sempre se mostrou essencial: a figura da estrela/astro, capaz de levar muitos espectadores para as salas de exibição. Tal fator, inclusive, foi criado pelo próprio público, que passava a exigir determinados atores para os papeis, seja por competência ou pela beleza (ou, em alguns casos, ambos juntos). Na realidade, essa cultura das estrelas nunca foi agradável para produtores ou diretores, já que para contar com elas estes têm de pagar cachês altíssimos ou aturar seus egos freqüentemente inflados e personalidades infantis.

Talvez devido à superexposição que as celebridades desfrutam hoje em dia contribua para um certo declínio desta cultura. Afinal, várias delas estão presentes em vários meios, seja por meio da TV, jornais, revistas, internet etc. Muitas vezes já estamos tão fartos de suas imagens que não nos animamos a ir vê-las na sala escura. E isso pode trazer até um lado positivo, já que a exigência por tramas inteligentes acaba por suplantar a presença de astros como fator de bilheteria. Ademais, este excesso de exposição também projeta para o grande público certos aspectos negativos da personalidade dos artistas que antes eram mais facilmente escondidos, o que acaba por gerar antipatia em muitos (como no caso atual de Mel Gibson).

Angelina parece ser uma das poucas estrelas que escaparam desta sina. Conseguiu fazer as plateias esquecerem sua derrapada ao “roubar” Brad Pitt de sua ex-esposa, Jeniffer Aniston (aquela desculpa de que o casamento já ia muito mal nunca colou muito), com suas ações humanitárias (copiadas várias outras celebridades) e a vida de mãe dedicada. Tanto isso é verdade que este novo lançamento com o seu nome, “Salt”, em cartaz desde sexta-feira no Brasil, foi bem nas bilheterias americanas, ao contrário de “Encontro Explosivo”, com Tom Cruise, astro que, pelas constantes micagens públicas, parece mesmo ter entrado em desgraça com o público dos EUA (a arrecadação do filme foi bem abaixo do esperado por lá). Interessante que são produções que se situam dentro de um mesmo padrão de ação quase ininterrupta, podendo-se ainda levantar mais a bola do filme Cruise-Diaz pela presença neste de um bom-humor agradável.

Curiosamente, a personagem interpretada por Jolie no longa, Evelyn Salt, havia sido concebido primeiramente para Cruise, que acabou desistindo para assumir “Encontro Explosivo”. Mudou-se apenas o gênero e o roteiro já estava pronto. Ela é uma agente da CIA que acaba sendo acusada de na realidade ser uma espiã russa com a incumbência de assassinar o presidente da Rússia e, assim, acabar gerando uma guerra nuclear. Como resta claro, há clichês na premissa, mas também é verdade que todos os filmes de espiões têm alguns clichês em sua estrutura básica, quase sempre demonstrando aquela peculiar visão dos ianques sobre o resto-do-mundo (ou seja, dominado por potenciais inimigos desumanos). Há muito da saga de Jason Bourne tanto na premissa quanto no estilo (além de outros elementos que lembram “Sob o Domínio do Mal” - clássico de John Frankenheimer). Contudo, toda as histórias já foram contadas,o que difere é a maneira de contá-las. E a forma com que a trama de “Salt” é contada, se não é das melhores, ou mesmo inovadora, também não está entre as piores.

O diretor Phillip Noyce conduz bem o longa, jamais deixando o ritmo cair. Aliás, o filme funciona no sistema corrida de 100m, ou seja, em um fôlego só, rápido e sem pausas para a respiração. Oscila apenas na qualidade das sequências de ação, algumas boas e outras realizadas naquele estilo “Transformers”, onde ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. A trilha sonora, apesar de invasiva em alguns momentos, também funciona muito bem, ajudando a criar o clima de constante tensão. O roteiro, ademais, se mostra até mais inteligente do que eu imaginava. Todavia, o longa cairia na banalidade não fosse, de fato, a presença de Angelina Jolie, uma das poucas atrizes a serem aceitas pelo público como protagonista de filmes de ação (além dela, só lembro de Sigourney Weaver, que já está ficando velha para essas correrias). Com sua presença, o longa se torna menos esquecível e se coloca com potencial até para eventuais continuações (e sua conclusão realmente dá margens para tal, o que também se torna um pequeno defeito). Sabe-se que Jolie realiza, inclusive, algo que costuma se valorizado pelos espectadores, que é a dispensa de dublês na maioria das cenas.

Portanto, não há como negar que, apesar de seus tropeços púbicos, o que as torna cada vez mais “humanas”, as estrelas ainda possuem muita relevância dentro do cinema, podendo ser capazes de tornar interessante um projeto que, em outras circunstâncias, não iria além do trivial. Basta lembrá-las para não fazerem muitas bobagens por aí...


Cotação:

Nota: 7,5

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Festival de Veneza 2010 - Seleção


A 67ª edição do Festival de Veneza, que acontecerá entre 1º e 11 de setembro próximos, divulgou hoje sua lista de concorrentes ao Leão de Ouro, além de diversos outros títulos integrantes das mostras paralelas do evento.

Na competição pelo Leão de Ouro, os nomes mais famosos são os de Darren Aronofsky (o seu "Black Swan" abrirá o Festival), Sofia Coppola, Julian Schnabel (diretor de "O Escafandro e a Borboleta"), Vincent Gallo (voltando à direção, sete anos depois do polêmico “Brown Bunny”), além dos franceses François Ozon e Abdellatif Kechiche, o alemão Tom Tykwer, o japonês Takashi Miike, o vietnamita Tran Anh Hung (diretor de "O Cheiro da Papaia Verde" e que trará o seu "Norwegian Wood", filme que só o título já me desperta entusiasmo!), o chinês Tsui Hark e o espanhol Alex de la Iglesia. Apenas um latino-americano entrou na competição oficial: o chileno Pablo Larraín, diretor de “Tony Manero”, que apresenta seu novo trabalho, “Post Mortem”.

O Brasil, que ficou de fora da disputa principal (pra variar...), é representado por dois filmes: o longa “Lope”, coprodução Brasil-Espanha, assinada por Andrucha Waddington, a qual revisita a figura do famoso dramaturgo espanhol do século 16, Lope de Vega, contando com Selton Mello e Sonia Braga no elenco; e mais o curta “O mundo é belo”, de Luiz Pretti, integrante da mostra paralela "Horizontes".

John Woo reberá o prêmio especial pelo conjunto da obra.

O Júri será presidido por Quentin Tarantino.Confira abaixo os filmes em competição e fora de competição:

COMPETIÇÃO

"Black Swan", Darren Aronofsky (EUA) – filme de abertura
"La Pecora Nera", Ascanio Celestini (Itália)
"Somewhere", Sofia Coppola (EUA)
"Happy Few", Antony Cordier (França)
"La Solitudine dei Numeri Primi", Saverio Costanzo (Itália-Alemanha-França)
"Silent Souls", Aleksei Fedorchenko (Rússia)
"Promises Written in Water," Vincent Gallo (EUA)
"Road to Nowhere", Monte Hellman (EUA)
"Balada Triste de Trompeta", Alex de la Iglesia (Espanha-França)
"Venus Noire", Abdellatif Kechiche (França)
"Post Mortem", Pablo Larrain (Chile, México, Alemanha)
"Barney's Version", Richard J. Lewis (Canadá, Itália)
"Noi credevamo", Mario Martone (Itália-França)
"La Passione", Carlo Mazzacurati (Itália)
"13 Assassins", Takashi Miike (Japão-EUA)
"Potiche", François Ozon (França)
"Meek's Cutoff", Kelly Reichardt (EUA)
"Miral", Julian Schnabel (EUA-França-Itália-Israel)
"Norwegian Wood", Tran Anh Hung (Japão)
"Attenberg", Athina Rachel Tsangari (Grécia)
"Detective Dee and the Mystery of Phantom Flame", Tsui Hark (China)
"Drei", Tom Tykwer (Alemanha)

FORA DE COMPETIÇÃO

"The Town", Ben Affleck (EUA)
"I'm Still Here: the Lost Year of Joaquin Phoenix", Casey Affleck (EUA)
"Sorelle Mai", Marco Bellocchio (Itália)
"Niente Paura -- Come siamo come eravamo e le canzoni di Luciano Ligabue", Piergiorgio Gay (Itália)
"Dante Ferretti -- Production Designer", Gianfranco Giagni (Itália)
"Notizie degli Scavi", Emidio Greco (Itália)
"The Last Movie" (1971), Dennis Hopper
"Gorbaciof", Stefano Incerti (Itália)
"That Girl in Yellow Boots", Anurag Kashyap (Índia)
"Showtime", Stanley Kwan (China)
"Sei Venezia", Carlo Mazzacurati (Itália)
"Zebraman" (2004), Takashi Miike (Japão)
"Zebraman 2: Attack on Zebra City," Takashi Miike (Japão)
"The Child's Eye 3D", Oxide Pang and Danny Pang (China, Hong Kong)
"Vallanzasca – Gli angeli del male," Michele Placido (Itália)
"All Inclusive 3D", Nadia Ranocchi and David Zamagni (Itália/Áustria)
"Raavan", Mani Ratnam (Índia)
"1960", Gabriele Salvatores (Itália)
"La prima volta a Venezia", Antonello Sarno (Itália)
"A letter to Elia", Martin Scorsese and Kent Jones (EUA)
"Shock Labyrinth 3D", Takashi Shimizu (Japão)
"L'ultimo Gattopardo: Ritratto di Goffredo Lombardo", Giuseppe Tornatore (Itália)
"Passione", John Turturro (Itália)
"Lope", Andrucha Waddington (Espanha/Brasil)
"Space Guy", Zhang Yuan (China)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Trilha Sonora #12


Há poucos dias assisti a "Encontro Explosivo" na telona (veja a resenha mais abaixo) e me lembrei do filme que transformou Tom Cruise em mega-astro: "Top Gun - Ases Indomáveis". Verdadeira mania nos anos 80, o longa-metragem tem na trilha sonora a bela canção "Take My Breath Away", da meteórica banda Berlin, vencedora do Oscar de melhor canção e sucesso tão estrondoso quanto o filme. Na realidade, a música é melhor do que o filme... ;=) Ouça!




domingo, 25 de julho de 2010

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Inauguro aqui a série "Para Ver em Um Dia de Chuva", destinada àqueles filmes que não são tão essenciais quanto os da série "Filmes Para Ver Antes de Morrer", mas que mesmo assim merecem ser vistos. Ótimos para aqueles dias chuvosos e com friozinho em que não há nada melhor do que ficar em casa vendo um bom filme. E o primeiro é justamente "O Homem que Fazia Chover". Boa sessão caseira para todos.


O Homem Que Fazia Chover
(The Rainmaker)


O Quixote de Coppola



Não há dúvidas de que Francis Ford Coppola é um dos mais importantes diretores da história do cinema. Apenas a trilogia “O Poderoso Chefão” já lhe renderia o status de gênio, mas, além disso, ele ainda nos brindou com obras como “Apocalypse Now” (considerado por muitos como o melhor filme de guerra já realizado) e “Drácula de Bram Stoker”. Contudo, Coppola costuma alternar momentos de puro brilhantismo com outros mais apagados, resultando numa obra bastante irregular. “O Homem Que Fazia Chover”, seu filme de 1997, parece se situar em um nível intermediário. Não é memorável como os longas acima citados, mas também não configura um desastre como “Jack” (1994), filme totalmente esquecível e esquecido.

Não posso negar que, no caso deste “The Rainmaker”, há uma identificação pessoal com a trama apresentada pelo roteiro, que é uma adaptação do próprio Coppola para a obra de John Grisham, o rei dos best-sellers de tribunal. Afinal, eu sou formado em Direito, trabalho em um tribunal e advoguei durante 5 anos. Nada mais natural, então, que sinta uma imediata empatia pelo personagem do advogado Rudy Baylor (Matt Damon, ainda um garoto), um jovem idealista e recém-formado que acaba de ser aprovado no exame da Ordem e tem como um de seus primeiros casos uma ação contra uma seguradora de saúde. Sua cliente é uma família que busca que o seguro cubra o transplante de medula que poderá salvar a vida do filho, portador de leucemia. Rudy conta apenas com a ajuda de Deck Schifflet (Danny DeVito, ótimo), um bacharel que jamais passou no exame de ordem.

Essa posição quixotesca, do homem comum e de caráter contra o podre sistema, já foi, em inúmeras oportunidades, levada para as telas. Por outro lado, em poucas ocasiões temos a oportunidade de vê-la conduzida por mãos talentosas como as de Coppola, um diretor (e roteirista) que não deixa a plateia perder o interesse pelo que está assistindo. A trama segue sempre redonda, sem barrigas cansativas e contando com uma ótima direção de atores (uma das características do velho Francis). Damon já mostra porque se tornaria uma dos principais astros do cinema atual, mas é Danny DeVito (como ele anda sumido!) quem rouba a cena como o divertido e ao mesmo tempo realista Deck. Aliás, a contraposição dos dois lembra bastante a famosa e imortal obra de Miguel Cervantes, tanto nas características psicológicas como físicas dos personagens. Rudy é o idealista, enquanto Deck é o baixinho pragmático e esperto. A fórmula de sucesso é aqui mais uma vez utilizada para fisgar o espectador e não se pode negar que há sucesso na empreitada. Há ainda a personagem de Claire Danes, interesse romântico de Rudy, que a princípio parece um tanto deslocada na trama, mas que ao fim se encaixa como motivo relevante para algumas escolhas do jovem causídico (não vou revelar quais, obviamente).

O ponto fraco do longa, e isso se torna ainda mais problemático quando lembramos que o diretor é o mesmo de “O Poderoso Chefão”, é o maniqueísmo embotado nos personagens. Desde o início percebemos que Rudy é aquele herói incorruptível, enquanto outros, como o Leo Drummond (John Voight, o pai de Angelina Jolie), chefe da banca de advogados que defende a seguradora, são os “maus” pelos quais teremos que torcer contra e esse esquema preto-e-branco sempre enfraquece uma obra (a não ser que se trate de uma aventura-diversão, o que está longe de ser o caso). Talvez o único personagem que se situa entre um extremo e outro é justamente o de Danny DeVito já que, mesmo buscando ao máximo ajudar Rudy, ele algumas vezes se vale, digamos assim, de métodos pouco ortodoxos.

Contudo, o longa ainda assim funciona como filme-denúncia. A questão dos sistemas de saúde, principalmente aqueles dominados por seguros/planos privados, é algo que preocupa as sociedades de vários países e é absurdo como boa parte da sociedade americana parece ainda não ter se convencido disso, vide a resistência recente que Barack Obama enfrentou na última reforma do sistema ianque não só no congresso, mas também por parte da população (a qual, segundo pesquisas, se dividiu com relação à reforma). Não é à toa que a questão mereceu recentemente um documentário do sempre barulhento Michael Moore (o interessante “Sicko”), o que nos leva à conclusão que “O Homem Que Fazia Chover” é um longa-metragem de 1997, mas ainda muito atual, mesmo 13 anos depois.


Cotação:

Nota: 8,5

sábado, 24 de julho de 2010

Musas do Escurinho #15


A inesquecível Shophia Loren no auge de sua beleza! É interessante como nos lembramos dela apenas como uma grande diva, mas a verdade é que ela também é uma grande atriz. Inesquecível sua interpretação em "Um Dia Muito Especial"!

domingo, 18 de julho de 2010

Encontro Explosivo


Feliz encontro


Desde “Uma Aventura Na África”, clássico de 1951 protagonizado pelos ícones Humphrey Bogart e Katharine Hepburn, Hollywood consagrou um gênero que é a fusão do cinema de ação com a comédia romântica. Nada mais natural, já que, com uma cajadada só, consegue agradar tanto ao público feminino quanto ao masculino. Não que mulheres não possam gostar de filmes de ação, ou homens de filmes românticos. Afinal, nada mais pobre do que estereótipos. Mas não resta dúvida de que essas aventuras românticas, quando bem realizadas, acabam sendo tiros certeiros, capazes de agradar a gregos e troianos. Foi assim com o citado clássico, passando por outros exemplares como “Tudo Por Uma Esmeralda” (com Michael Douglas e Kathleen Turner) e o mais recente “Sr. e Sra. Smith” (estrelado pelo casal Branjolie).

“Encontro Explosivo”, que teve estreia nesta sexta-feira no circuito nacional, é mais um dos exemplares das aventuras românticas. Protagonizado por duas das grandes estrelas do cinema atual, Tom Cruise e Cameron Diaz, o longa é uma agradável surpresa e se mostra muito eficiente em suas pretensões. Possui, com sua ação inverossímil, mas ao mesmo tempo muito agradável, um tom bastante semelhante ao do citado “Sr. e Sra. Smith”, muito embora algumas diferenças sejam cruciais e até bem-vindas. No primeiro, Angelina Jolie encarna a figura que já está lhe sendo característica, a da mulher super-poderosa, capaz de enfrentar qualquer homem no mano a mano, conhecedora de técnicas de luta, que sabe atirar como ninguém, cheia de conhecimentos especiais relativos à espionagem, entre outras proezas. Se, por um lado, isso se coaduna com uma visão moderna da mulher, por outro lado esta super-heroína está distante da realidade de quase 100% das mulheres e, normalmente, estas sentem necessidade de se identificar com as personagens para que apreciem uma película (na realidade, super-heroínas nas telas acabam agradando muito mais aos homens do que às mulheres, isso é fato). Já neste “Encontro Explosivo” (título nacional genérico, bem inferior ao original “Knight and Day”), a personagem de Cameron Diaz, June Havens, é uma mulher comum (e a pouca maquiagem usada pela atriz em cena acaba acentuando ainda mais essa percepção), com preocupações de mulheres comuns. Ela está viajando para participar da cerimônia de casamento da irmã mais nova, o que lhe causa aquela angústia natural de estar “ficando pra titia”. Marca, contudo, via internet, um encontro com Roy Miller (Tom Cruise) no avião onde irão viajar. Ela apenas não sabe que Roy é um agente secreto da CIA e que está sendo perseguido pela própria corporação.

É a partir daí que as ótimas seqüências de ação se desenrolam. E também as boas sequências de humor e romance. A trama se desenrola redonda, apesar de algumas eventuais falhas de roteiro (comuns em filmes de ação, por sinal), deixando muito espaço para que os atores brinquem com os personagens. Diaz, que já havia trabalhado em filmes de ação com a nova versão de “As Panteras”, mas que é ainda mais conhecida por suas CRs, aqui consegue personificar um perfeito misto de mulher independente e romântica. Já Cruise está mais Tom Cruise do que nunca, se auto-parodiando com seu super-ultra-seguro-de-si Roy Miller, capaz de dar cabo de toda a tripulação de um avião enquanto June está no banheiro e depois ainda lhe oferecer um drinque. Antes de tudo, os dois parecem estar se divertindo muito e a química flui perfeita, talvez ainda melhor na tela do que a do casal Branjolie em “Sr. e Sra. Smith” e olha que esse foi o longa responsável pela união do casal fora das telas. Várias são as cenas que farão a plateia dar boas risadas, nunca forçadas.

Para tanto sucesso, a direção de James Mangold também é primordial. A edição é muito bem realizada e qualquer aresta no roteiro parece ter sido podada, vez que a duração do longa mostra-se a ideal. Mangold parece mesmo ter uma boa mão na direção de atores, principalmente casais (ele dirigiu anteriormente a interessante biografia “Johnny & June”). É bom lembrar que trabalhar com grandes astros sempre é difícil, principalmente um como Tom Cruise. Entretanto, à parte algumas crises de desequilíbrios, sabe-se que Cruise é extremamente profissional e também tem experiência suficiente para ajudar um diretor na condução de um filme (bom lembrar que até dublês ele dispensa em 90% das cenas de perigo).

Com tantas peças boas juntas e fórmula de sucesso, o projeto não poderia mesmo dar errado, resultando em um ótimo programa para casais no fim de semana (e a recepção fria da crítica americana só mostra o quanto ela costuma se equivocar). Em outros tempos do cinema, a parceria ente Cruise e Diaz iria render vários outros rebentos (algo comum na Hollywood da era dos estúdios), já que o encontro foi verdadeiramente feliz. Quem sabe eles não virão?


Cotação:

Nota: 8,0

sábado, 17 de julho de 2010

Cinema Com Pimenta - 2 anos

No último domingo, 11 de julho, o Cinema Com Pimenta completou 2 anos e, por motivos de ordem pessoal (não foi apenas a Copa do Mundo, hehhehehe!), acabei deixando a data passar em branco. Minha pretensão era escrever um texto sobre "... E o Vento Levou", um dos meus filmes favoritos (está entre os 5 mais na minha lista). Entretanto, além do tempo que foi escasso, tenho grande dificuldade em escrever sobre estes filmes "maiores do que a vida". Talvez porque muito já tenha sido dito sobre os mesmos e fica aquele receio de cair no lugar-comum. Contudo, estava vasculhando a net e acabei encontrando esta matéria exibida na Bandnews quando do aniversário de 70 anos do longa. Creio que ela resume muito bem a importância e a razão de, depois de tanto tempo, "... E O Vento Levou" continuar fascinando multidões. Abaixo, como uma forma de lembrar e agradecer a todos pelos dois anos do blog, segue a matéria. Espero que todos aqueles que gostam do Cinema Com Pimenta, e também aqueles que não gostam tanto assim, continuem visitando este espaço, que foi criado devido à minha paixão pela sétima arte, desafiando os contratempos do dia a dia para continuar de pé. Um grande abraço e muito obrigado!



quinta-feira, 15 de julho de 2010

"O Beijo da Mulher Aranha": obra de arte à venda


A versão restaurada de "O Beijo da Mulher Aranha" foi exibida agora há pouco na abertura do 3º Festival Paulínia de Cinema. Considero "O Beijo..." como o grande filme de Hector Babenco (quem diria que, anos depois, ele faria bobagens como "Carandiru"). Estrelado por William Hurt, Raul Julia e Sonia Braga (que trabalharam em troca de percentuais na arrecadação), o longa já completou 25 anos e venceu diversas premiações internacionais – incluindo os prêmios Oscar, BAFTA e Cannes de Melhor Ator para William Hurt (que está realmente soberbo). O "Beijo da Mulher Aranha" foi o único representante da América Latina na mostra Cannes Classics, realizada durante o Festival de Cannes 2010.

Interessante que este será o primeiro filme a ser vendido como obra/objeto de arte. Ideia inédita no mundo até hoje, contando com a anuência de todos os produtores e envolvidos, os direitos do filme serão vendidos, inclusive de refilmagem, para aqueles que apresentarem a melhor oferta, seja um estúdio, uma pessoa, um museu, ou qualquer outro que se comprometa a proteger, divulgar e preservar o longa e seu material. Embora a iniciativa seja inovadora, não deixa de ser um risco. Vamos torcer para que não caia em mãos erradas...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Shrek Para Sempre


Síndrome de Toy Story


Em 2001, a Dreamworks criava uma nova fórmula para as animações. Dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson, “Shrek” era uma divertidíssima e inteligente paródia do gênero do conto de fadas, criando um universo todo especial com aqueles personagens conhecidos de todos, como a princesa presa na torre, Pinóquio, o burro falante, além de outras figuras presentes em tais estórias. Tudo se tornava ainda mais interessante e divertido com a sacada do protagonista: um ogro mau-humorado que fazia as vezes do príncipe encantado, salvando a princesa da torre onde estava confinada. O longa foi um sucesso gigantesco de público e crítica e, inevitavelmente, gerou mais duas continuações - com um ótimo segundo episódio e uma fraca terceira parte. E eis que surge agora um quarto episódio da franquia (que prometem ser o último). Eu mesmo fui ao cinema não acreditando muito no que veria, esperando o mais do mesmo em que já tinha se transformado a série. Contudo, tive uma boa surpresa.

Não que “Shrek Para Sempre” (dirigido por Mike Mitchell, que saiu dos filmes live action para as animações) tenha aquela centelha de brilhantismo do início da série, mas com certeza conseguiu recuperar uma boa parte do seu humor afiado. Várias foram as seqüências que me arrancaram risadas e, de fato, a premissa é interessante. O roteiro, de Josh Klausner e Darren Lemke, mostra o nosso conhecido ogro na sua feliz vida em família no reino de Tão Tão Distante, com sua amada Fiona e os rebentos ogrinhos. O problema é que Shrek está tendo dificuldades de se adaptar à rotina de pai de família, sentindo uma enorme falta de seu tempo de ogro mau-comportado. No dia do primeiro aniversário de seus filhos, Shrek se descontrola e fala besteira para Fiona. O maior problema, contudo, é que o duende trapaceiro Rumpelstiltskin vê o ocorrido e traça um plano ardiloso: ele faz uma proposta “vantajosa”, pela qual Shrek voltará a ser o ogro de outros tempos durante 24 horas. Em troca, Rumpelstiltskin terá o direito de apagar um dia da vida do Shrek. E esse dia acaba sendo justamente o do nascimento do ogro. Ou seja, depois das 24h, Shrek se vê em um mundo em que ele nunca existiu.

Acredito que qualquer semelhança com o clássico “A Felicidade Não Se Compra” não é mera coincidência. Há muitos pontos de identidade com o filme de Frank Capra, restando clara a fonte de onde beberam os roteiristas. Afinal, Shrek vê as consequências do simples fato de nunca ter existido e, tal como na citada obra-prima, elas não são nada positivas. A diferença é que, em vez de um anjo temos Rumpelstiltskin como responsável por essa viagem a um mundo alternativo, além de, obviamente, termos um texto recheado de humor, desta vez muitíssimo eficiente. Diz o ditado que piada velha não tem graça, mas é interessante como algumas tiradas da série, principalmente envolvendo o Burro e o Gato de Botas, ainda se mostram muito eficientes. Ademais, a trama aventureira se resolve muito bem. Alguns críticos têm apontado a ideia dos mundos alternativos como confusa demais para crianças, o que não é verdade. Eu mesmo, quando garoto, lia as HQs da DC Comics, com toda a sua profusão de dimensões paralelas, sem muita dificuldade. Não vejo porque agora, quando as crianças estão ainda mais espertas que em outros tempos, isso seria um problema.

Talvez o grande problema deste “Shrek Para Sempre” seja o fato de ser lançado nos cinemas logo após “Toy Story 3”, uma espécie de obra-prima definitiva da Pixar. Quando comparamos as duas animações, vemos que “Shrek”, por maior que seja sua eficiência no quesito diversão, fica pálido e comum diante de mais este triunfo dos estúdios Pixar (pra mim, até o momento, o melhor filme do ano). Entretanto, acho que a comparação é válida entre todos os filmes de ambos os estúdios. Parece que todos os filmes da Dreamworks se conformam em apenas trazer algumas horas de entretenimento para o grande público. Os longas da Pixar, por seu turno, sempre trazem um lado artístico mais trabalhado e capaz de emocionar a plateia, fugindo de apenas ministrar algumas doses de humor no dia do espectador, tornando-se, desta forma, memoráveis.

De qualquer forma, mesmo que vítima desta síndrome de Toy Story, “Shrek Para Sempre” vale a ida ao cinema, nem que seja para sair da sala falando “é divertido, mas Toy Story 3 é melhor”.

Obs. Não vi o filme em 3D, portanto não posso opinar sobre este aspecto técnico.


Cotação:

Nota: 8,0