segunda-feira, 5 de julho de 2010

Coco Antes de Chanel




Novela das 8


Um dos gêneros mais complicados para a arte cinematográfica, sem dúvida, é a biografia. Em verdade, o gênero já apresenta muitas complexidades na literatura devido ao fato notório de que é muito difícil sintetizar a vida de um ser humano em algumas páginas (mesmo que este “algumas” se transforme em centenas). E mais: procurar abordar todas as nuances da personalidade do biografado é algo praticamente impossível. Até porque somente cada indivíduo conhece realmente todos os meandros que habitam sua consciência, o que torna automaticamente toda tentativa de elucidá-la apenas uma cópia borrada da mesma. E, se na literatura a tarefa já não é das mais simples, quem dirá no cinema, onde a limitação de tempo gera ainda maiores obstáculos para que se atinja esse objetivo.

Para tornar a tarefa menos árdua, é comum que diretores e roteiristas optem por abordar apenas alguns ou mesmo apenas um dos vários aspetos que compõem a vida de um biografado. E a diretora Anne Fontaine, responsável por este “Coco Antes de Chanel”, não foge a este padrão. Afinal, ao longo dos 110 minutos de duração da película, praticamente só vemos a vida amorosa de Gabrielle Chanel, mais conhecida como “Coco”, a referência máxima de todos (as) os (as) estilistas que povoam o mundo da moda. Aliás, o próprio nome “Chanel” tornou-se sinônimo de moda e estilo. E talvez seja exatamente por isso que esta cinebiografia se torne tão frustrante. Quando imaginamos uma biografia de Coco Chanel logo nos vem à mente a figura de uma mulher forte, desafiando seu tempo e respectivas convenções. Claro que ela teve vida amorosa, mas não é por seus amores que nos interessamos. E este é o grande erro de Fontaine.

O roteiro (escrito pela própria diretora juntamente com Camille Fontaine) se arrasta contando as venturas e desventuras românticas de Coco (Audrey Tautou). Desde seu caso com Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde), o qual serviu de pontapé para sua inserção na alta sociedade francesa, até seu outro romance com Boy Capel (Alessandro Nivola), que o filme dá entender ser uma espécie de “grande amor de sua vida”, um inglês sedutor de quem foi a “outra” durante muito tempo. E vamos assistindo a essa novela das 8 insossa, sendo que seu desenvolvimento profissional, suas inovações estilísticas, suas atitudes estranhas à sua época, são mostrados apenas circunstancialmente, meio que servindo tão somente, e estranhamente, de “pano de fundo” para os relacionamentos da protagonista. Ademais, alguns aspectos mais polêmicos da persona de Chanel são suavizados ou mesmo ignorados pelo longa, como sua ligação com o nazismo (que lhe rendeu o exílio e o ódio dos franceses). A Chanel que fica externada parece até mesmo uma marionete do destino ao afirmar que sempre soube que jamais casaria, meio que retirando essa circunstância do âmbito de sua vontade para atribuí-la àquela entidade abstrata (o que deve deixar muitas feministas de cabelos em pé).

Mesmo Audrey Tautou não parece especialmente interessante em sua interpretação. Falta alguma coisa, um brilho mais intenso, que torne o seu desempenho memorável. O que me faz lembrar imediatamente de Marion Cotillard e sua “Piaf”. Nesta não faltou intensidade, garra, vibração. Alguns podem afirmar que a personagem de Edith Piaf naturalmente dava margem a uma atuação mais intensa, pelo próprio fato de Piaf ser uma mulher bastante passional. Pode haver verdade nisso, mas também é verdade que se Chanel era uma pessoa tal como Tautou a representou, pode-se dizer que a mesma era uma mulher bem menos interessante do que se imagina.

Enfim, “Coco Antes de Chanel” resta bastante insatisfatório. Claro que tem uma perfeita reconstituição de época; figurinos (indicados ao Oscar) impecáveis (e tinha que ser mesmo, né?). Mas a excelência destes aspectos técnicos, dentro do cinema contemporâneo, nada mais é do que obrigatória. Ninguém mais vai ao cinema apenas para ver uma reconstituição caprichada ou uma boa trilha sonora (no caso, de Alexander Desplat). Ainda utilizando como comparação “Piaf – Um Hino ao Amor”, filme sobre outra grande mulher francesa, é interessante como o longa sobre a diva da música consegue emocionar e capturar a essência da personagem (mesmo que também seja omisso com relação a alguns aspectos mais polêmicos de sua vida), resultando em uma película diferenciada. Já este “Coco” consegue apenas igualar aquele tipo de dramaturgia que costumamos ver nas telenovelas. E telenovelas atuais, pois as velhas e ótimas telenovelas (parece que a rede dos Marinho esqueceu como fazê-las) estavam pelo menos um degrau acima desta pálida biografia.


Cotação:

Nota: 5,5

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cartão vermelho!


Mas como o Mick Jagger é pé-frio, hein?

Agora, só em 2014...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lembrando Katharine Hepburn

Hoje, 29 de junho, se completam 7 anos do falecimento de uma das maiores estrelas da história do cinema: Katharine Hepburn. Recordista de oscars, vencendo 4 ao todo, Hepburn foi eleita pela pela revista Entertainment Weekly como a "a" grande estrela da 7ª arte, deixando Audrey Hepburn em segundo (elas não eram parentes). Abaixo, em homenagem a esta grande atriz, você pode ver uma sequência de "Adivinhe Quem Vem Para o Jantar" (Guess Who's Coming To Dinner, 1967), divertida e inteligente comédia de costumes, onde dois professores universitários, interpretados por Hepburn e Spencer Tracy (o qual foi seu amante durante muitos anos e com quem fez parceria ao longo de 12 filmes), que se dizem liberais e anti-racistas, se surpreendem com a descoberta do namorado da filha, um rapaz negro (Sidney Poitier, ótimo). A atuação rendeu a Hepburn o segundo dos mecionados quatro prêmios da Academia. Se não viu, procure ver. Vale muito à pena!


domingo, 27 de junho de 2010

Até o Andy!

Matéria interessante exibida ontem no Jornal Hoje, da famigerada Rede Globo. Confira abaixo e veja que até Andy, o garoto dono dos bonecos da série "Toy Story", torce pela seleção brasileira! Em uma cena de "Toy Story 3" lá está ele com a camisa da seleção canarinho! Está na hora dos selecionados de Dunga mostrarem realmente a que vieram nesta competição! Pra frente, Brasil!


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Oscar 2011 pode mudar de data


Previsto para ser realizada no dia 27/02/2011, a próxima cerimônia do Oscar pode ter esta data alterada. Está em discussão, nos bastidores da Academia, a possibilidade de mudança da cerimônia para o fim de janeiro, segundo informações do site "Deadline Hollywood".

Se a informação se confirmar, a premiação poderá acontecer apenas uma ou duas semanas após o Globo de Ouro. Ademais, a alteração pode forçar os estúdios a anteciparem seus lançamentos para serem elegíveis na competição. A notícia chegou poucas horas depois do anúncio de que os produtores Bruce Cohen e Don Mischer serão os responsáveisa pela organização das próximas cerimônias da Academia, substituindo Adam Shankman e Bill Mechanic.

Não sei se a cerimônia já ocorreu em janeiro em alguma outra oportunidade, mas, ao menos desde quando este blogueiro acompanha o Oscar, será a primeira oportunidade em que acontecerá no primeiro mês do ano. A conferir.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Toy Story 3

Filmar como criança


O gênio Pablo Picasso é autor de uma frase célebre, afirmando que o grande objetivo de sua vida era o de “pintar como uma criança”. Ao assistir ao terceiro episódio da série “Toy Story” chego à conclusão que este deve ser o lema da Pixar Animation Studios, substituindo apenas o “pintar” por “filmar”. É impressionante como a equipe comandada por John Lasseter parece ter uma criatividade infinita, somente comparável à dos pequenos. E também é de cair o queixo a capacidade da Pixar em gerar emoções em uma película somente comparáveis àquelas que sentimos na “aurora da vida”.

Toda a estrutura de “Toy Story 3” lembra a de uma grande brincadeira. É como se a trama, de fato, tivesse sido elaborada por uma criança ao brincar com seus bonecos. A sequência inicial, a qual mostra uma fantasia do menino Andy com seus antigos brinquedos (os nossos velhos conhecidos Woody, o cowboy, e Buzz Lightyear, o astronauta) entre outros, é uma perfeita síntese do que será todo o filme. Ao mesmo tempo, o longa toca num tema muito caro para todos nós: o fim da infância, a chegada da idade adulta e a necessidade de crescer, por mais dolorido que seja esse processo. No roteiro, escrito por Michael Arndt (o mesmo de “Pequena Miss Sunshine”, outro filme ótimo), vemos que Andy já é uma rapaz de 17 anos, prestes a entrar na faculdade e que, por intimação de sua mãe, precisa dar um destino aos antigos brinquedos que enfeitam seu quarto. Há 3 opções: o lixo, o sótão ou doá-los para uma creche. Devido a alguns equívocos, a velha turma acaba na creche Sunnyside, ficando na ala das crianças menores, na faixa de 2 a 4 anos, que possuem aquela peculiar forma de brincar: despedaçando e babando os brinquedos. Quem pode salvá-los é Woody, o único que escapou desse trágico destino, mas que jamais abandonará seus amigos à própria sorte.

A verdade é que a narrativa se desenvolve da mesma maneira redonda a que a Pixar nos acostumou. E, na minha apreciação, talvez este seja o episódio em que o humor está mais afiado e bem encaixado. Nenhuma tirada soa gratuita ou deslocada e as referências ao próprio cinema, tão comuns nos longas do estúdio, além de menos óbvias, jamais se apresentam forçadas. É bom ressaltar que todos os longas da Pixar possuem diversos clichês. Mas também é importante dizer que sempre esses clichês aparecem reformulados. Afinal, todas as estórias já foram contadas. O que vai torná-las especiais é a forma de contá-las. E, neste aspecto, a Pixar parece se superar a cada novo longa de animação que estreia nos cinemas.

Este, inclusive, é o primeiro episódio da série em 3D. Mas vou logo alertando: vi em 2D, pois creio que a tecnologia 3D nada tem a acrescentar aos filmes, a não ser distração. E devo, assim, dizer que este novo “Toy Story” me tocou e impressionou muito mais do que outros longas a que assisti usando aqueles óculos desconfortáveis (inclua-se nessa lista o tão badalado “Avatar”). O que importa, primordialmente, é a trama que lhe envolve, as técnicas de direção usadas para potencializar a narrativa, a identificação que o filme pode alcançar com o espectador. E, pelo menos no cinema contemporâneo, não há qualquer outra equipe que atinja tanto sucesso nestes aspectos, de forma tão reiterada, quanto aquela comandada por Lasseter. Não importa se você assistirá ao longa em 2D ou 3D. Pode ter certeza que você se emocionará da mesma forma.

Falando em direção, Lee Unkrich não brinca em serviço. Ele mostra uma enorme competência, comandando uma trupe que constroi a trilha adequada, as tomadas engenhosas , a inserção de subtramas que tornam ainda mais dinâmica a narrativa.

Bem, diante de tantas trilogias por aí, devo dizer que esta possui em seu terceiro episódio o melhor de todos. E talvez isto seja inédito na história do cinema. Basta lembramos que mesmo a trilogia “O Poderoso Chefão” possui na terceira e última parte o seu elo mais fraco. Pois bem, a Pixar quebra este paradigma (quebrar paradigmas parece ser sua especialidade) e nos presenteia com um belíssimo filme capaz de fazer escorrer a lágrima no mais duro dos corações. E o mais interessante de tudo é que tais lágrimas provavelmente rolarão com maior abundância no rosto dos crescidos e não dos pequenos.

Ao final, deixando a sala de projeção, saímos com o forte desejo de que as mentes que fazem a Pixar continuem assim: sempre buscando filmar como crianças...


Cotação:

Nota: 10,0


Obs. Chegue cedo para conferir o curta “Dia e Noite”. Vale à pena!

Obs. 2. Mesmo que você não tenha conferido os outros dois episódios, poderá assistir a este terceiro sem o menor problema.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Uma coisa sem nome, essa coisa é o que somos"


Poucos obras literárias me impressionaram tanto quanto "Ensaio Sobre a Cegueira". Um livro de força ímpar, impactante e, ao mesmo tempo, de uma reflexão poderosa sobre a condição humana poucas vezes igualada. E hoje tivemos a notícia que seu genial autor, José Saramago, faleceu na ilha de Lanzarote. Em sua homenagem, segue abaixo um video com a reação de Saramago ao fim da sessão da adaptação da obra, realizada para o cinema pelo diretor Fernando Meirelles. Aliás, Meirelles foi muito feliz ao afirmar que, sem Saramago, "o mundo ficou mais burro e mais cego". Clique aqui para ler a resenha do Cinema Com Pimenta para "Ensaio Sobre a Cegueira" (o filme).


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Copa do Mundo


Em plantão extraordinário, o Cinema Com Pimenta informa que o blog está padecendo de atualizações devido à realização da Copa do Mundo FIFA 2010. Afinal, este blogueiro, um grande admirador do esporte bretão, não pode deixar de lado um evento que só acontece a cada 4 anos. Na medida do possível, o espaço voltará a ser atualizado. Obrigado!

sábado, 12 de junho de 2010

Quero Ver Novamente # 4

"Diário de Uma Paixão" (The Notebok) é, provavelmente, um dos filmes mais subestimados de todos os tempos. Ele é desavergonhadamente meloso, mas extremamente eficiente nesse romantismo assumido. Prova disso é a cena abaixo, perfeitamente adequada para o dia dos namorados. Para curtir a dois! ;)



domingo, 6 de junho de 2010

Príncipe da Pérsia - As Areias do Tempo



Sessão da tarde


Dentro da atual crise de criatividade do cinema americano, uma das saídas encontradas pelos produtores tem sido a de adaptar games para o cinema. Até porque a indústria dos jogos eletrônicos já se tornou uma das mais importantes do mundo, com alguns de seus principais fabricantes alcançando dimensões ainda maiores que os grandes estúdios de cinema. Talvez não maiores que a Disney, que é um dos principais conglomerados do globo (até a ESPN pertence à Disney, caso você não saiba). Entretanto, não é por isso que ela vai ignorar a força deste novo ramo bilionário do entretenimento e do potencial de bilheteria que uma adaptação de um destes jogos possui, uma vez que muitos adeptos vão acabar deixando seu dinheiro nas salas de projeção para assistir a um filme baseado em seus games preferidos.

E é dentro desta perspectiva de negócios que é lançado mais este novo produto da Disney e do produtor Jerry Bruckheimer, os responsáveis pelo mega-sucesso da trilogia “Piratas do Caribe”, a qual, por sinal, foi baseada em um brinquedo do parque de diversões da Casa do Mickey. E “Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo” tem a nítida intenção de repetir o mesmo sucesso, possuindo, inclusive, uma premissa mais rica em mãos. “Príncipe da Pérsia” é um jogo inteligente, um dos primeiros games a ter uma trama mais desenvolvida e a exigir mais dos jogadores do que uma mera habilidade nos comandos do joystick (eu mesmo joguei algumas vezes, muito embora não fosse um fã do jogo). O resultado, contudo, não deve entusiasmar o público como o fez a série dos piratas.

Não que seja um filme ruim. É, inclusive, superior à média dos longas realizados até agora com base em games, normalmente fraquíssimos (vide os dois “Tomb Raiders”, que nem a presença de Angelina Jolie consegue salvar), a começar pela direção segura de Mike Newell, um diretor tarimbado, responsável por “Harry Potter e o Cálice de Fogol” e “O Amor Nos Tempos do Cólera”. Ele concebe ótimas cenas de ação, muito bem coreografadas, e que remetem de forma clara ao modo de ação do game, o que deve satisfazer os fãs. Também a fotografia se destaca, com belas tomadas do deserto (filmagens no Marrocos) e enquadramentos bem realizados. Entretanto, o roteiro (de Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard) acaba comprometendo muito do longa. A trama começa até bem. Dastan (Jake Gyllenhaal) é o tal príncipe do título, que não possui sangue real, mas foi adotado pelo rei Sharman, da Pérsia, ainda criança. Ele e seus irmãos comandam a invasão persa ao vizinho reino de Alamut, o qual sofre a acusação de desenvolver armas perigosas em suas forjas e de estar planejando um ataque. Qualquer semelhança com a realidade do Oriente Médio atual não é mera coincidência. Trata-se de uma nítida crítica à política externa ianque, que já está inventando outra guerra contra o Irã. Afinal, a Disney não é boba e sabe que ganhar a simpatia do mercado internacional hoje é primordial, já que muito dos lucros agora vêm de fora do mercado USA. Na realidade, o que existe é uma adaga mística capaz de fazer aquele que a empunha voltar no tempo. Adaga esta que está sob a guarda da princesa de Alamut, Tamina (Gemma Arterton), e tal adaga é que é o verdadeiro McGuffin* do filme. Por outro lado, se a trama começa bem, ela acaba se perdendo em uma série de idas e vindas que muitas vezes confundem o espectador. Há a impressão que ficou um excesso de cenas ação em detrimento de algumas explicações necessárias, as quais são mostradas às carreiras.

Outro fator que contribui contra o sucesso do longa-metragem é o carisma. Afinal, “Piratas do Caribe” contava com a estrela Johnny Depp em sua inesquecível caracterização do capitão Jack Sparrow, um personagem que já faz parte da história do cinema. Não se pode negar que muito do sucesso da trilogia se deveu a Depp e o que percebemos neste “Príncipe da Pérsia” é justamente a ausência de um personagem que conquiste o espectador. Gyllenhaal até vai bem, mas não possui a mesma força e carisma. Gemma Arterton é muito bonita, mas não convence muito como atriz. E os coadjuvantes nem de longe têm a mesma competência do sucesso anterior da franquia Bruckheimer (Ben Kingsley está completamente apático como o tio Nizan).

Contudo, como dito acima, o filme não é ruim. Diverte, tem boas cenas de ação e belas tomadas, além de um romance bem encaixado entre Dastan e a princesa Tamina, mas a ausência de um roteiro redondo e de personagens mais carismáticos compromete o todo. Nos EUA, teve uma estreia abaixo das expectativas, mas é verdade que teve concorrência pesada. Vamos ver como vai se sair no mercado internacional. De qualquer forma, serve de alerta para os estúdios de que essa ideia de adaptar jogos para as telas talvez não tenha mesmo muito futuro. São duas linguagens diferentes que possivelmente não se conciliem. No mais, indico para quem estiver querendo ver uma boa “sessão da tarde”.


Cotação:

Nota: 7,0

* termo usado por Alfred Hitchcock que serve para designar um elemento responsável por movimentar e direcionar as ações dos personagens, mas que, na realidade, não tem grande relevância.

Obs. As cópias em português estão com legendas mal trabalhadas, muito rápidas e que terminam antes mesmo do personagem acabar de falar a frase.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Aconteceu Naquela Noite
(It Happened One Night)


O Cravo e a Rosa


Frank Capra foi um dos primeiros diretores a conseguir o feito de colocar seu nome em destaque junto ao título do filme nos cartazes promocionais (ao lado de Alfred Hitchcock, o qual, por sua vez, teria o nome muitas vezes colocado com destaque ainda maior do que o título do longa-metragem). Capra foi um dos diretores mais queridos da Hollywood da década de 30, quando seus filmes, cheios de bom-humor e otimismo ofereciam alento para uma população que sofria duramente com uma enorme crise econômica. Dentro desta perspectiva cinematográfica, Capra se tornou um dos artífices do gênero comédia romântica, hoje já muito maltratado e exaurido por diretores e produtores medíocres. E, possivelmente, seu melhor trabalho dentro de tal gênero foi “Aconteceu Naquela Noite” (It Happened One Night), longa de 1934 que se tornou o primeiro a abocanhar os 5 prêmios principais da Academia de Hollywood: filme, diretor, roteiro, ator e atriz.

É importante frisar que, mesmo em gêneros distintos, como no drama e obra-prima “A Felicidade Não Se Compra” e nesta comédia, existe um ponto muito caro à obra de Frank Capra: a crença no caráter do homem-médio americano, a qual em “A Felicidade...” é representada à perfeição por James Stewart e seu George Bailey. Já neste “Aconteceu...”, o homem médio ianque é representado por Peter Warne, personagem do lendário Clark Gable, um jornalista que acaba de perder o emprego (como muitos da plateia dos cinemas naquela década), mas que, debaixo da couraça de durão, possui um coração solidário e romântico. Capra foi um diretor sempre preocupado com a caracterização dos personagens. Eles deviam parecer reais. As atitudes de seus protagonistas não raras vezes eram até reprováveis, mas sua essência era boa, sabendo reconhecer seus erros e procurando corrigi-los ao longo da trama. O mencionado personagem de Peter Warne não fugirá a essa regra.

Suas peripécias começam quando ele encontra, em uma viagem de ônibus, Ellie Andrews, filha de um milionário que está fugindo de casa por este ser contrário ao seu casamento com o playboy King Westley. Ellie quer chegar ao Nova York para alcançar seu objetivo, na realidade muito mais um capricho para contrariar o pai do que um ato de paixão. Óbvio que, deste encontro entre o jornalista proletário e a menina rica e mimada irá surgir uma relação entre tapas e beijos, com cada um procurando esconder os reais sentimentos que estão nutrindo pelo outro. A ideia é surrada, afinal já em Shakespeare, com “A Megera Domada”, temos uma trama em que homem e mulher que se odeiam acabam se amando depois. Mas, como se sabe, o que importa na arte não é se uma trama é reprisada, mas a forma como ela é contada. Afinal, não existe uma estória que já não tenha sido contada antes. O importante é narrá-la de forma competente. E não se pode duvidar que “Aconteceu Naquela Noite” atinge este objetivo.

O roteiro, escrito por Robert Riskin e Samule Hopkins Adams, é, por exigência do diretor, sempre atento aos pormenores, extremamente feliz no desenvolvimento dos personagens, bem como nos diálogos, espirituosos e dotados daquela guerra entre os gêneros que foi reduzida, no cinema atual, a bobagens de mau gosto que soam muito mais como sexismo (quando há, já que boa parte das comédias atualmente em cartaz nos cinemas resumem suas situações cômicas a imagens grosseiras de gosto extremamente duvidoso). E assim surgem diversas sequências que seriam muito imitadas na dramaturgia ao longo das décadas posteriores, como aquela em que Ellie exibe suas pernas para conseguir uma carona. Interessante que, mesmo tão repisadas, ditas cenas não perdem sua força no filme, que sempre se mostra orgânico e inteligente.



Claro que, para a fluidez do texto, seriam necessárias ótimas interpretações e é exatamente isso que vemos ao longo dos 105 minutos de duração do longa. Não só Gable está ótimo, como Claudette Colbert, uma atriz hoje pouco lembrada, mas muitíssimo talentosa, encontra-se excelente. A química entre os dois é perfeita, além da boa presença dos coadjuvantes. Walter Connolly, como o velho Andrews, e Roscoe Karns, como o vigarista Shapeley, dão um tempero especial à trajetória do casal rumo a Nova York.

E é assim, com a direção talentosa de Capra, um roteiro primoroso e atuações memoráveis que se fez este clássico que jamais perdeu o frescor. Um filme que consegue traduzir com bom-humor e através da imagem de um lençol que separa a dupla quando vai dormir (para que não se vejam trocando de roupa) a tênue linha que separa e atrai homens e mulheres. A guerra e o amor entre os sexos poucas vezes foram tão bem representados nas telas.

Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Quero Ver Novamente # 3

Em homenagem a Clint Eastwood, um dois maiores ícones da 7ª arte (e um dos meus diretores preferidos), que hoje completa 80 anos, segue abaixo a sequência do duelo final em "Três Homens em Conflito" (ou "O Bom, O Mau e O Feio"). De arrepiar! Sergio Leone junto com o Clint só poderia render algo fantástico mesmo! Sem mais comentários... Simplesmente veja! E que trilha é essa de Ennio Morricone? Caramba...




domingo, 30 de maio de 2010

Eu quero esse pôster # 7


Este é o mais fraco dos seis episódios da série "Guerra nas Estrelas". Contudo, esse poster é de uma eficácia impressionante. Cosengue resumir, em uma única imagem, toda a trama que vai se desenrolar dali em diante. Perfeito!

Dennis Hopper: 1936 - 2010


O ator americano Dennis Hopper, que se tornou ícone ao dirigir e estrelar o clássico de 1969 "Sem destino" ("Easy Rider"), morreu às 12h15m (horário de Brasília) deste sábado, em decorrência de um câncer de próstata. Hopper tinha 74 anos e faleceu em casa, em Los Angeles, cercado por familiares e amigos.

Em uma carreira de mais de 50 anos, Hopper apareceu ao lado de seu amigo e mentor James Dean em "Juventude transviada", ainda na década de 50, e parecia ter predileção por interpretar desequilibrados como em "Apocalipse now", "Veludo azul" e "Velocidade máxima". O ator foi indicado duas vezes ao Oscar: pelo roteiro de "Sem destino" (junto com Peter Fonda e Terry Southern) e pela interpretação de um professor de basquete de uma escola de ensino médio no drama "Momentos decisivos", de 1986.

"Sem destino", filme que, confesso, nunca assisti, fez parte do movimento "Nova Hollywood", o qual revelou jovens e grandes talentos como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma e Steven Spielberg, entre outros. De baixo orçamento, "Sem destino" levou às telas dos cinemas o consumo de maconha, cocaína e popularizou os motoqueiros cabeludos com suas motos Harley-Davidson. "Nós tínhamos atravessado a década de 60 e ninguém tinha feito um filme sobre fumar maconha sem matar um monte de enfermeiras", disse Hopper è revista "Entertainment Weekly" em 2005. "Eu queria que 'Sem destino' fosse como uma cápsula do tempo sobre aquele período", completou. Na realidade, ele próprio foi um consumidor voraz de drogas, o que resultou em várias internações para reabilitação.

Dennis Hopper e Peter Fonda se juntaram na tela com um até então desconhecido Jack Nicholson como um advogado alcoólatra, mas o ambiente de filmagens não foi nada harmonioso. Hopper tratou a todos com brutalidade e Fonda o descreveu mais tarde como um "pequeno fascista louco". A amizade dos dois acabaria ali.


(Hopper ao receber, recentemente, a sua estrela na Calçada da Fama)

Hopper descobriu a doença em setembro do ano passado, mas continuou trabalhando até o fim. Interpretava o personagem Ben Cendars na série de TV "Crash" e estava se dedicando a um livro de suas fotografias. Os últimos meses do ator foram consumidos por um tumultuado divórcio com sua quinta mulher, Victoria Duffy (os muitos divórcios são mais um indício de seu temperamento difícil). Seus vários casamentos incluem uma união de apenas oito dias com Michelle Phillips, do grupo The Mamas and The Papas, na década de 70. Dennis Hopper deixou quatro filhos.

Como promessa que faço a mim mesmo, vou procurar assistir a "Sem Destino" em breve.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A chatice do 3D!


Nestes últimos tempos cinematográficos, temos visto a ascensão de um novo* formato de captação e projeção de imagens: a tecnologia 3D. Principalmente depois do estrondo bilionário de “Avatar”, a exibição de filmes em 3D tornou-se a epidemia que parece ter mais força que a gripe H1N1. Mesmo longas que não foram concebidos neste formato, como “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton, acabam passando por processos de “conversão”, ansioso por abocanhar bilheterias maiores, afinal, mesmo que o público pagante não supere aquele que seria alcançado caso o filme fosse exibido no formato convencional, a renda obtida acaba sendo mais expressiva, pois que os ingressos das salas 3D são significativamente mais caros (para não dizer extorsivos).

Neste último fim de semana, tivemos a estreia no Brasil de “Fúria de Titãs”. Ainda não conferi esta nova versão para o clássico da Sessão da Tarde (que vi repetidas vezes, claro), mas, pelo que se percebe das críticas que já tive a oportunidade de ler, o seu 3D é tosco, de péssima qualidade, o que me leva a pensar até onde irá essa nova onda.

Eu, por duas vezes, paguei o estapafúrdio preço de uma sala 3D. O citados “Avatar” e “Alice” foram os filmes assistidos. E, sendo bem sincero, a experiência “tridimensional” resultou bem menos impactante do que o esperado. Em nenhum dos dois casos o filme pareceu melhor por ser em 3D. No que diz respeito ao longa de James Cameron, afirmo com toda convicção que o formato se presta muito mais a disfarçar a fraqueza de seu roteiro, uma espécie de “Dança Com Lobos Alien”, do que a qualquer outra coisa. Afinal, quanto mais distrações na tela, menor a atenção ao texto. Isso me faz lembrar de “Titanic”, o filme anterior de Cameron, o qual, sem precisar desta muleta tecnológica, me causou muito mais impacto e emoção na sala escura (talvez porque tivesse atores talentosíssimos como protagonistas e não pixels azuis atuando).

E deixo aqui a pergunta: será mesmo que o 3D trará de volta aos cinemas o público perdido para os DVDs e Blu-Rays em TVs de alta resolução, além dos downloads e canais por assinatura? Ou será que, quando a novidade passar, a moda vai esfriar? Pelo menos pra mim, já esfriou. Provavelmente, nem tão cedo voltarei a pagar um ingresso caríssimo apenas para conferir um longa no tal formato “revolucionário”.

Bem, nesses tempos de Copa do Mundo já estão anunciando a transmissão dos jogos em 3D. Fico imaginando como deve ser chato ver um jogo de futebol com aqueles óculos no rosto... Ou será que o chato sou eu?


* Não é tão novo assim. Para se ter ideia, Alfred Hitchcock utilizou o recurso em “Disque M Para Matar”, nos já distantes anos 50...

domingo, 23 de maio de 2010

Cannes 2010 - Premiados


Saiu a premiação de Cannes!
"Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul (dá para pronunciar isso?), foi o grande vencedor da Palma de Ouro do 63º Festival de Cannes, anunciada agora há pouco (na imagem acima, uma cena do filme). No longa com tons fantásticos, um homem à beira da morte procura se cercar das pessoas queridas, inclusive das mortas, para se despedir da vida em sua fazenda no interior da Tailândia. Elementos como espíritos, inclusive na forma de animais (macacos mais precisamente), fazem parte do longa-metragem. “Este é como outro mundo para mim, é meio surreal”, disse o diretor. “Acho que é um momento importante para o cinema tailandês. O prêmio é para vocês. Gostaria de beijar todos vocês do júri, principalmente Tim Burton porque gosto de seu corte de cabelo.”


O francês "Des Hommes Et des Dieux", dirigido por Xavier Beauvois, recebeu o Grad Prix, uma espécie de segundo lugar. Ele agradeceu a cada um dos frades e atores que o interpretaram no filme. O cineasta levou uma plaquinha pedindo a liberade do cineasta iraniano Jafar Panahi. Já o prêmio do júri ficou com "Un Homme qui Crie", de Mahamat-Saleh Haroun, do Chade.

O cineasta e ator francês Mathieu Amalric foi eleito o melhor diretor, por "Tournée". Dois atores dividiram o prêmio de melhor ator. O espanhol Javier Bardem levou o troféu pelo filme "Biutiful", de Alejandro González Iñárritu. Ele agradeceu à mãe e aos irmãos e todos os atores do elenco. “Eu não ganharia esse prêmio se não fosse por Alejandro. Ele é um diretor que melhora o trabalho de um ator. Sou agradecido por sua confiança.” Ele ainda causou comoção ao dedicar a Penélope Cruz, em espanhol: “Compartilho essa alegria com minha amiga, minha companheira, meu amor”.



O italiano Elio Germano, de "La Nostra Vita", também foi premiado na mesma categoria. Ele encontrou Javier Bardem e fez uma saudação. “Quero agradecer de coração o diretor Daniele Luchetti”, disse. “Quero dedicar esse prêmio a Itália e aos italianos que fazem de tudo para fazer da Itália um país melhor, não obstante nossa classe dirigente”, referindo-se, de forma clara, a Silvio Berlusconi.

A francesa Juliette Binoche ganhou o prêmio de melhor atriz por seu trabalho no longa-metragem "Copie Conforme", do iraniano Abbas Kiarostami. “Que alegria, que alegria, que alegria trabalhar com você, Abbas”, disse Juliette, bastante emocionada. “Agradeço à minha mãe que me criou sozinha e a meu pai que perdoei. Eu amo vocês. E agradeço do fundo do coração aos homens que me amaram e me suportaram. Um dia, eu vou me casar”, completou. E puxou uma plaquinha com o nome de Jafar Panahi e pediu a libertação do cineasta iraniano. Não é por nada não, mas a ficou um gosto de "marmelada", pois Binoche já estava até no poster promocional do evento este ano... Por fim, o prêmio de roteiro foi para o sul-coreano Poetry, de Lee Chang-dong.



O júri da competição oficial do 63º Festival de Cannes foi presidido pelo cineasta norte-americano Tim Burton e formado pela atriz inglesa Kate Beckinsale, pela atriz italiana Giovanna Mezzogiorno, pelo diretor do Museu Nacional de Cinema na Itália Alberto Barbera, pelo roteirista e diretor francês Emmanuel Carrere, pelo ator porto-riquenho Benicio Del Toro, pelo diretor espanhol Victor Erice, pelo diretor, ator e produtor indiano Shekhar Kapur e pelo compositor francês Alexander Desplat.

A comédia "Ha Ha Ha", de Hong Sangsoo, foi a grande vencedora da mostra Un Certain Regard. Entregue ainda ontem, sábado (22/5), pela cineasta francesa Claire Denis, presidente do júri da mostra.

O diretor Michael Rowe, do México, levou a Caméra D’Or, dada ao melhor estreante entre todas as mostras oficiais e paralelas em Cannes, pelo filme "Año Bisiesto", exibido na Quinzena dos Realizadores. O júri era presidido pelo ator e diretor mexicano Gael García Bernal.

A Palma de Ouro de melhor curta-metragem foi para o francês "Chienne D’Histoire", de Serge Avédikian. O brasileiro "Estação", de Márcia Faria, concorria nesta categoria. O curta-metragem Micky Bader, de Frida Kempf, levou um prêmio do júri em sua categoria. O júri foi presidido pelo cineasta canadense Atom Egoyan e formado pelo diretor brasileiro Cacá Diegues, a atriz francesa Emmanuelle Devos, a atriz russa Dinara Droukarova e o diretor espanhol Marc Recha.

É isso aí! Ano que vem tem mais!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Cannes - Uma bela vinheta

Enquanto ainda está rolando o Festival de Cannes 2010, que chega ao seu término no próximo domingo, posto aqui uma curiosidade: a bela e interessante vinheta exibida antes dos filmes que fazem parte da "Quinzena dos Realizadores". Segundo o crítico e cineasta Kléber Mendonça Filho, que todo ano realiza a cobertura de vários eventos deste porte, a mais bela vinheta existente no circuito dos festivais. Realmente, muito bonita!


terça-feira, 18 de maio de 2010

Trilha Sonora #11

Foi lançado há poucos dias, no Brasil, a versão em DVD de "Música e Lágrimas" (The Glenn Miller Story), cinebiografia do genial músico Glenn Miller, bandleader da mais popular das big bands norte-americanas dos anos 40. Interpretado no filme por James Stewart, um dos atores mais carismáticos que já passaram pelas telas, Miller acabou falecendo em um misterioso desastre aéreo na Segunda Guerra Mundial, durante uma missão na Europa (só recentemente o acidente foi definitivamente esclarecido). Contudo, e felizmente, os gênios não morrem. Miller estará para sempre na memória dos casais de namorados (de qualquer época) por músicas como "Moolight Serenade", que você pode ouvir abaixo.



"Não Verás Lula Nenhum"


Pausa no cinema para uma reflexão política, a qual faço através do brilhante texto de Leandro Fortes publicado no seu blog "Brasília, Eu Vi".


"Não Verás Lula Nenhum

Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.

A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar o força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira. O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponibilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.

Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzí-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, a apagar a memória nacional sobre o presidente, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.

Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.

Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual."

domingo, 16 de maio de 2010

Robin Hood



Gladiador 2

Este é mais um episódio da parceria entre o diretor Ridley Scott e o ator oscarizado Russel Crowe (o quinto, para ser mais preciso). O problema de algumas dessas extensas parcerias é que, em alguns casos, as ideias começam a se repetir, trazendo para o público a reprodução de uma fórmula que alcançou grande sucesso em algum momento. O momento em questão, que diretor e ator procuram alcançar novamente, é “Gladiador”, filme realizado em 2000 que alcançou enorme popularidade e arrebatou cinco estatuetas da Academia de Hollywood (hoje em dia, reprisado à exaustão na TV).

Desde os trailers deste “Robin Hood”, percebe-se a nítida intenção de repetir o conceito do sucesso protagonizado pelo general romano Maximus Decimus Meridius. Robin Hood, um personagem lendário (não se sabe ao certo se ele existiu), é inserido em um contexto histórico verídico, no caso o da elaboração da Magna Carta, considerada a primeira norma a garantir limitações ao monarca e direitos aos seus súditos, ou seja, a primeira constituição da História. Em uma espécie de “reboot” (algo que está se tornando comum nos filmes de super-heróis e aparentemente está se alastrando para outros gêneros), o roteiro de Brian Helgeland, Ethan Reiff e Cyrus Voris, dentro deste contexto, narra como Robin Longstride torna-se um fora-da-lei amado pela população. Até aí, tudo bem. É interessante ver um Robin Hood mais realista, um pouco distante daquela figura folclórica exibida nos longas anteriores em que o personagem aparece (mesmo a versão garapa com Kevin Costner deixa a desejar no quesito realidade). Entretanto, algumas inserções pouco verossímeis acabam por quebrar esta sensação de verossimilhança que permeia o início do longa. Uma delas, por exemplo, o fato de Lady Marion (Cate Blachett, com boa presença em tela) saber lutar e partir para a batalha a certa altura da trama. Sabe-se que, na Idade Média, mulheres não podiam guerrear e que Joana D’arc teve que se disfarçar de homem para entrar nas frentes de batalha francesas (sendo posteriormente morta na fogueira). Fica aquela sensação de que a personagem foi “atualizada” para o público feminino moderno, ansioso por ver mulheres independentes e fortes na tela. Também se percebe a mão pesada do roteirista ao colocar Robin em praticamente todas as cenas de batalha e ainda na justificativa para que o mesmo, de uma hora para a outra, comece a proferir discursos de liderança que entusiasmam as massas (numa solução bastante artificial e mesmo clichê). Parece que a qualquer momento ele vai dizer “meu nome é Maximus Decimus Meridius” e isso, obviamente, incomoda um bocado.

Por outro lado, não se pode negar que em muitos momentos o filme funciona como longa de ação e que o visual impressiona. A fotografia é competente como em todos os longas de Scott e a utilização da edição acelerada, mas que ao mesmo tempo permite entender o que está acontecendo na tela, como já feito em “Gladiador”, é bem-vinda, pois que realmente é uma das melhores formas de se mostrar lutas no cinema. A reconstituição de época também é de encher os olhos e não será estranho se vier a arrebatar prêmios neste quesito. Os créditos finais, vale dizer, são belíssimos, transformando algumas das cenas de ação em pinturas animadas.

O que é triste de perceber é a acomodação de um diretor que já foi brilhante. Não custa lembrar que são de Scott obras como “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, obras seminais que influenciaram as gerações posteriores e estão entre as mais cultuadas pelo público. Também da mesma forma, Crowe, um ator excelente, parece estar preguiçoso como nunca, repetindo sempre um papel que lhe rendeu um Oscar, mas que já está cansado. É sempre triste ver esse tipo de acomodação, que não é inédita no cinema, infelizmente (basta lembrar o estágio atual das carreiras de Pacino, Nicholson e De Niro, os quais parecem, há algum tempo, estar interpretando sempre o mesmo papel). O resultado da inércia, neste Robin Hood, é que parece estarmos vendo uma espécie de “Gladiador 2”(mesmo assim, ainda consegue ser melhor que o chatíssimo “Cruzada”). Muito pouco para talentos que já mostraram que podem ir muito além da mesmice.

Cotação:

Nota: 7,0