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domingo, 4 de abril de 2010

Chico Xavier


Supere seus preconceitos


Daniel Filho costuma ser alvo de severas críticas por parte do meio cinéfilo nacional. A maioria delas se centra no fato de que seus longas possuem uma forte estética televisiva e passam a sensação de estarmos assistindo a mais um programa da TV Globo. Há uma certa verdade nisso, mas a reação que a crítica vem apresentando a “Chico Xavier”, filme que teve estreia no circuito nacional na última sexta-feira, 02 de abril, atribuindo-lhe apenas cotações medianas, parece ser fruto de um preconceito arraigado contra a obra do referido cineasta. É verdade que, se o longa possui tiques televisivos, ele consegue envolver bastante o espectador e consegue traçar um belo panorama da vida do biografado.

Chico Xavier teria comemorado 100 anos caso fosse vivo na data de estreia do longa e, sem dúvida, é uma figura que desperta polêmica, admiração ou mesmo rejeição. Ele foi o grande responsável pela popularização da doutrina espírita no Brasil, demonstrando poderes que desafiam a lógica racional e colocam em dúvida até mesmo o ateu mais convicto. Acusado de charlatanismo por alguns, a verdade é que o médium jamais recebeu um centavo pela sua atividade de psicografia, seja prestando auxílio e consolo a pessoas que perderam entes queridos, seja escrevendo livros atribuídos a espíritos (como o de seu mentor Emmanuel), doando todos os direitos autorais para instituições espíritas ou de caridade.

Tamanho era o burburinho que sua atividade vinha causando que Chico Xavier, no início dos anos 70, foi o entrevistado do programa Pinga Fogo, da extinta TV Tupi. O programa durava apenas 60 minutos, mas, no caso de Chico, o tempo extrapolou e estendeu-se por mais de 3 horas (houve ainda um segundo, que durou cerca de 4 horas). O médium foi sabatinado por jornalistas ávidos por encontrar contradições ou inconsistências em suas palavras. O que aconteceu, todavia, foi que ele saiu com uma popularidade multiplicada após as sabatinas, conquistando cada vez mais admiradores em todas as classes sociais. E foi a partir da participação de Chico Xavier neste mencionado programa televisivo que foi desenvolvido o roteiro do longa-metragem em questão. Escrito por Marcos Bernstein, a partir da biografia “As Vidas de Chico Xavier”, de Marcel Souto Maior, o roteiro mostra a infância de Xavier (interpretado neta fase por Matheus Costa), uma daquelas infâncias no estilo “Preciosa”, repleta de agruras e sofrimentos mil. Contudo, o garoto demonstrava desde logo a sua mediunidade, o que causava a ira da madrinha que o criava (Chico perdeu a mãe logo cedo). Vários são os momentos da vida, a partir daí, que vão sendo abordados e, embora de uma forma um tanto quanto episódica (pois que através de flashbacks relacionados com as falas do personagem no programa Pinga Fogo), é fato que os momentos escolhidos são felizes em mostrar o amadurecimento do biografado. Por outro lado, também é certo que o longa não teria sucesso não fossem as presenças de Ângelo Antônio (que utilizou até algodões e perfumes para ficar mais parecido com o personagem) e Nélson Xavier, intérpretes de Chico em sua juventude e velhice, respectivamente. Nélson, até pela sua semelhança física, parece mesmo, para utilizar o linguajar da doutrina espírita, ter “encarnado” Chico Xavier, tamanha a excelência de sua composição.

Por outro lado, também é verdade que Daniel Filho (que é ateu) soube conduzir muito bem o material que tinha em mãos. A edição mostra-se precisa como em poucas oportunidades se viu na sua obra cinematográfica, além de utilizar recursos muito interessantes nas transições entre os diversos momentos da narrativa. Uma outra boa ideia, que deve ter partido dele em parceria com o roteirista, foi a inserção de momentos cômicos no desenrolar da trama, momentos estes que vêm de causos contados pelo próprio Chico que, ao contrário do que muitos podem pensar, era uma pessoa extremamente bem humorada, cheia de anedotas. Tais inserções cômicas tornam-se bem-vindas, até mesmo para aliviar o clima pesado de diversas passagens.

É verdade que longa acaba sendo parcial em seu fim. O personagem mais questionador, interpretado por Tony Ramos (que está competente como sempre), acaba meio que “se convertendo” no desfecho (muito embora a trajetória do seu personagem também seja verídica). Contudo, pode-se alegar em defesa do diretor que todos têm o direito de possuir a visão que sua consciência lhe permite e externar sua posição através de uma obra artística. E, sendo sincero, a despeito da empatia ou antipatia que cada um possa ter com relação ao personagem, o filme se sustenta enquanto cinema e deixo a recomendação para que seja visto. Assim, afirmo que se você tem preconceitos com relação à temática espírita, supere-o, pois o longa-metragem é bom e a mensagem do seu personagem supera qualquer diferença religiosa, seja você seguidor de outros credos ou ateu. Da mesma forma, se você tem preconceito com a obra de Daniel Filho, supere-o, pois ele, aqui, mostrou que pode fazer cinema de qualidade, mesmo que sempre voltado para as massas.


Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0

Obs. Eu não sou espírita.

domingo, 21 de março de 2010

Um Sonho Possível



Filme de "mensagem" funciona

Há alguns anos, na década de 90, Julia Roberts, então uma das queridinhas de Hollywood, levou o prêmio da Academia por sua atuação em “Erin Brokovitch”, um daqueles casos em que o prêmio é dado não pelo grande desempenho de uma atriz, mas por sua importância para a indústria. Agora em 2010, tivemos Sandra Bullock ganhando o Oscar por este “Um Sonho Possível”, em outra premiação que teve como critério a importância que a atriz tem para os businnes. Afinal, “The Blind Side” tornou-se um grande sucesso de bilheteria (mesmo que provavelmente apenas pelo fato de que o público USA adora o esporte que é um dos motes do longa), o maior da carreira da atriz, que ainda em 2009 emplacou outro sucesso, a comédia romântica “A Proposta”. Todavia, é possível afirmar que Bulllock, se não tem um desempenho excepcional, atua de forma competente no longa (diferentemente de Roberts, no citado “Erin Brocovitch”, em que apenas repetiu o papel que já vinha fazendo há um certo tempo).

Ela interpreta Leigh Anne Tuohy, socialite conservadora (ela faz parte do partido republicano e afirma que anda com uma arma na bolsa) que acaba acolhendo em seu lar o jovem negro Michael Oher, um adolescente sob tutela do Estado que já havia passado por vários lares e possuidor de um triste histórico (ele não conheceu o pai e a mãe era viciada em drogas). Baseada em fatos reais, a trama nos mostra que Michael, após se sentir acolhido em uma família, descobre sua vocação, decorrente também de seu porte físico, para o futebol americano, esporte que até hoje, para a grande maioria dos brasileiros, mostra-se esquisito e truculento, mas que desperta uma paixão enorme nos EUA. Contudo, mesmo tendo por base um material verídico, resta claro que o diretor John Lee Hancock, que também foi o roteirista, optou por apresentar uma versão maquiada e trabalhada para as grandes massas.

Primeiramente, Oher é apresentado como um grandalhão manso, forma estereotipada com que os negros muitas vezes são mostrados no cinema americano (desde os tempos de “...E O Vento Levou”), especialmente quando as tramas são ambientadas em regiões marcadamente racistas (aqui, a história se passa em Memphis). Leigh Anne nos é mostrada como a branca caridosa, que vive na riqueza, mas se preocupa com os desfavorecidos. Não quero entrar no mérito das atitudes da verdadeira Leigh Anne, mas há um trecho jogado no roteiro em que seu marido comenta que a protagonista “só pensa nos outros e em como ajudar os outros”, o que acaba se tornando cínico quando no lembramos do luxo em que vivem (há um sofá na sala que custa 10.000 dólares).Indiretamente, parece que a personagem acaba buscando na caridade uma forma de redimir a culpa por ser rica. Também parece haver jogo para a plateia quando o longa mostra que Oher só se torna um bom jogador quando passa a entender que seu time é uma família que precisa proteger. Não soa verídico, além de apelar para ideias típicas da vertente conservadora americana (“pátria e família”). Aliás, parece notável que o Oscar deste ano prestou homenagens póstumas à era Bush (basta lembrar de “Guerra ao Terror”, o grande premiado da noite). Há também muito jogo para a torcida na relação estabelecida entre Oher e seu irmão postiço S.J. (Jae Head), muito embora não seja improvável.

Por outro lado, apesar dos citados artificialismos, não se pode negar que o filme passa redondo e que não é desagradável vê-lo. Bullock, como dito acima, vai além do que já tinha feito até agora em sua carreira (além de estar especialmente bela), 90% pautada em comédias românticas. Quinton Aaron, como o grandalhão Michael também convence. E é verdade que o caráter conservador que possa ser apontado na produção não é em si um demérito. Como já apontei em outras oportunidades, cada cineasta coloca em sua produção uma visão de mundo e uma obra não se torna menor que outra por ser de “direita” ou de “esquerda”, “conservadora” ou “progressista”. “O Nascimento de Uma Nação” é tão importante quanto “O Encouraçado Potenkim” também é para a história da sétima arte. E isso vai mesmo como uma patada em certos críticos de cinema que, com uma sociologia de botequim, querem desmerecer uma obra apenas por não concordarem com o ideário nela presente. Além disso, por mais que não se tenha simpatia pelo Partido Republicano dos EUA (eu não tenho), não se pode negar que Leigh Anne Tuohy realizou um ato de coragem e humanidade ao acolher Oher em sua casa. O hoje ídolo da NFL (a liga profissional do futebol americano) realmente deve muito à sua protetora (ela, de fato, se tornou guardiã legal do rapaz). E não deixa de ser curioso que o filme, apesar de certo conservadorismo, transmita uma ideia que quebra o conceito do self-made man estadunidense: ninguém se faz sozinho, todos nós precisamos de ajuda em algum momento de nossas vidas, “mensagem” já presente no título em inglês (1).


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5

(1) O tal “lado cego” do título diz respeito às características do futebol americano. Quando o quarterback, que é o lançador, se prepara para fazer o passe, é necessário que outro jogador o proteja contra os ataques adversários, o chamado Left Tackle, função que é hoje desempenhada por Michael Oher em seu time.

quinta-feira, 18 de março de 2010

"À Prova de Morte" finalmente no Brasil


Imagino que ninguém esperava mais assistir a "À Prova de Morte" (Death Proof), o filme de Quentin Tarantino que fez parte do projeto "Grindhouse", em parceria com Robert Rodriguez (pelo menos no cinema ou de forma legal, é bom dizer...). Os dois filmes que compõem "Grindhouse", "Planeta Terror" e "À Prova de Morte", foram exibidos no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, ainda em 2007. Contudo, a distribuidora Europa Filmes adiou ano após ano o lançamento do filme de Tarantino no circuito comercial brasileiro. Agora "À Prova de Morte" finalmente vai sair - só que por outra distribuidora.

Os direitos que estavam com a Europa expiraram - na época, a distribuidora teve receio de lançar "À Prova de Morte" devido ao retorno abaixo do esperado que teve com "Planeta Terror" - e a PlayArte se antecipou agora para comprá-los. E já marcou a estreia para o dia 23 de julho.

Exibidos nos EUA na sessão dupla Grind House, os filmes de Robert Rodriguez e Tarantino foram separados e reeditados para o lançamento no resto do mundo e, se é que serve de consolação, devemos ver o longa com alguns minutos a mais do que a versão exibida para os americanos. Antes tarde do que nunca...

domingo, 14 de março de 2010

Ilha do Medo

Um filme de Martin Scorsese!

Creio que é dispensável realizar um apanhado da importância de Martin Scorsese para o cinema. Ele é um dos grandes gênios ainda em atividade no cinema norte-americano atual, provavelmente sendo igualado apenas por Clint Eastwood e Steven Spielberg (alguns poderiam citar Francis Ford Copolla, mas a verdade é que este há muito tempo não realiza uma grande obra). Scorsese é como um vinho de qualidade: o tempo passa e só refina as suas nuances. Não concordo com aqueles que afirmam que Scorsese teve a sua melhor fase nos idos dos anos 70 e 80. É verdade que “Taxi Driver” e “Touro Indomável” são obras-primas viscerais e essenciais. Entretanto, são filmes que não dialogam com o grande público, requerendo um paladar mais apurado para que sejam devidamente apreciados. Talvez uma das características adquiridas por Scorsese, nos tempos em que se dedicou a ganhar um Oscar, tenha sido justamente uma maior facilidade de atingir as massas. E não acredito que isto trouxe malefícios à sua carreira. Pelo contrário. Realizar filmes autorais admirados por milhões deve ser o sonho de ouro de qualquer cineasta.

Este “A Ilha do Medo” é um perfeito exemplar do que se pode chamar de um filme autoral com apelo popular. Estão lá presentes vários dos motes que marcaram a trajetória do diretor: a solidão do indivíduo diante de uma realidade inóspita; as dúvidas sobre sua própria sanidade; as suas convicções que desafiam as convenções postas. Todos os personagens de Scorsese, antes de tudo, são grandes solitários. Basta lembrar de alguns de seus longas mais conhecidos para constatar essa assertiva (seja nos já citados “Taxi Driver” e “Touro Indomável”, seja nos longas mais recentes com Di Caprio, como “O Aviador” e “Os Infiltrados”). E solidão é um dos elementos identificadores de Teddy Daniels (Leonardo Di Caprio, cada vez melhor), policial federal que, procurando solucionar um crime, acaba indo à ilha Shutter, na qual se localiza um sanatório para doentes mentais criminosos. Acompanhado do parceiro policial Chuck Aule (Mark Ruffallo, sempre eficiente), ele também está buscando explicações para fatos que envolvem sua vida pessoal, especialmente a morte de sua esposa, Dolores (Michelle Williams). Teddy mergulha então num emaranhado de estranhos acontecimentos que vão levá-lo a dúvidas sobre a veracidade do que está acontecendo. Será tudo verdade ou obra de sua mente, que parece, em várias ocasiões, vacilante?

Engenhosamente, o roteiro, baseado no livro de Dennis Lehane e adaptado por Laeta Kalogridis, mergulha o espectador também nessa dúvida. Há várias passagens na projeção em que não sabemos se estão ou não acontecendo realmente na trama. E essa dúvida, bem como a tensão constante do filme, são realçadas com a direção magistral de Scorsese, o qual, desde o princípio, já estabelece o clima desejado através de uma trilha sonora sinistra e marcante. Este início, por sinal, remete bastante ao princípio de “O Iluminado”, de Kubrick, e as referências são uma constante no trabalho. É sabido que Scorsese é um dos mais profundos conhecedores do cinema mundial e que suas obras sempre possuem vários elementos pesquisados com afinco na história da 7ª arte. E, além das auto-referências, é possível encontrar ecos do cinema noir neste “Ilha do Medo”, com especiais momentos de Jacques Tourneur. Interessante notar, ademais, como cada sequência, cada quadro, parece ter sido milimetricamente pensado para gerar alguma reação no espectador e nunca neguei que a força do cinema imagético causa especial impressão em mim. Várias são aquelas cenas que remetem a pesadelos, mesmo quando o personagem de Teddy não está sonhando. A atmosfera lúgubre é complementada por uma fotografia adequada e a edição sempre precisa de Thelma Schoomaker, a velha colaboradora de Scorsese.

Por outro lado, se em seus últimos trabalhos o diretor havia se dedicado a traçar as linhas de formação de sua nação, os Estados Unidos, aqui sua grande preocupação parece ser as angústias e tormentos de um homem, muito embora também esteja latente a insinuação de que tais angústias podem ser fruto de um sistema (comparações com campos de concentração acabam se tornando claras). O personagem de Teddy empreende uma busca para saber se os fatos que redundam em suas desventuras na ilha do título são fruto de sua imaginação, consequência de seus atos ou uma elaboração daqueles que detêm o poder na ilha. Tal busca/investigação, que é o cerne da trama, é mais interessante do que as possíveis conclusões.

Alguém já disse que a formulação de uma pergunta é mais importante do que sua resposta e a verdade é que, diante das muitas perguntas com as quais se pode sair da sessão, somente uma merece realmente ser respondida: “Ilha do Medo” é um ótimo filme, trazendo um Scorsese em sua melhor forma, um suspense que via além do mero susto para trazer questões pertinentes. Creio que você não permanecerá indiferente a essa bela experiência.


Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0

quarta-feira, 3 de março de 2010

Cadê os filmes do Oscar?

(Poster da nova comédia romântica com Jennifer Aniston, mas... onde estão os filmes do Oscar?)



Hoje, acessei os sites das duas redes de multiplexes que possuem 14 salas em Natal. Pra que? Eu tinha a esperança de que pelo menos um dos indicados ao Oscar, que tiveram sua estreia recentemente em circuito nacional, estivesse entre os filmes a serem exibidos neste próximo fim de semana. Mas a expectativa foi em vão. Os exibidores locais simplesmente vão aumentar o número de filmes em cartaz com a palavra "amor" no título (dois deles com a Jennifer Aniston), mas nada dos longas indicados pela Academia como "Preciosa" ou "Educação" darem o ar da graça em terras natalenses. Parece até que já estamos na semana do dia dos namorados, tamanha a profusão de comédias românticas. Eu sou daqueles que defendem a ida do espectador às salas de cinema. Mas, diante de tanta falta de neurônios entre os exibidores locais, vou acabar por aderir ao download ilegal como forma de ver os filmes que são esquecidos nesta Cidade do Sol. E depois reclamam da pirataria...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um Olhar do Paraíso


No plano intermediário


É interessante como filmes que abordam a espiritualidade não costumam ser bem recebidos pela crítica. Não sei exatamente o que motiva este tipo de comportamento, mas a impressão que tenho é que críticos se consideram muito racionais, quase cientistas, e pouco se interessam por filmes que tragam elementos que digam respeito ao mundo etéreo. Não sendo filmes de terror, a grande maioria das obras que abordam temáticas espíritas acaba sendo rejeitada pela crítica.

Creio que somente esta constatação para justificar a rejeição do meio crítico a “Um Olhar do Paraíso”, o novo filme de Peter Jackson, o genial diretor da saga “O Senhor dos Anéis”. Trata-se um retorno de Jackson aos filmes “pequenos”, após a conclusão da citada saga dos anéis e do também majestoso “King Kong” (“Almas Gêmeas”, com a Kate Winslet, é seu filme de menor porte mais lembrado). Aqui ele adapta os livro de Alice Sebold em que uma garota, após ser assassinada, se esforça por fazer com que a família descubra o assassino. Não sei se Jackson foi fiel ao livro em sua adaptação, mas posso afirmar que, embora não seja excepcional, esse é um longa-metragem que passa longe de ser ruim.

A primeira metade do filme é, inclusive, bastante envolvente. A mão segura de Jackson nos traz uma empatia imediata pela personagem central, Susie Salmon (Saoirse Ronan, ótima), uma menina de 14 anos vivendo as descobertas da adolescência. Não há spoiler em dizer que ela será assassinada já que este é o mote da trama já revelado nos trailers e, desde o início da projeção, temos uma narrativa em off pela própria Susie que esclarece que a mesma foi assassinada. Tal fato acontece por obra do vizinho Harvey (Stanley Tucci, em boa atuação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar como coadjuvante), típico serial killer norte-americano que se passa por homem comum para esconder sua perversidade (aqui no Brasil os assassinos seriais costumam se tornar traficantes). A sequência em que Susie é assassinada é extremamente sombria e a forma que Jackson encontrou para compreendermos que ela morreu é criativa, muito bem executada e de arrepiar. O clima de tensão, envolto em elementos da doutrina espírita muito bem desenvolvidos (como o tal mundo intermediário, onde permaneceriam os espíritos ainda muito ligados ao plano terreno), é algo que permanece ao longo de toda a projeção, possuindo poucos alívios.

Talvez seja nestes “alívios” que Jackson começa a cometer alguns equívocos. Para contrabalançar não só a tensão característica de um thriller, como o drama pesado vivido por seus pais (interpretados por Mark Wahlberg e Rachel Weiz), o roteiro(adaptado pelo próprio Jackson ao lado de Fran Walsh e Philippa Boyens) se vale de alguns momentos cômicos que soam deslocados, principalmente através da personagem se Susan Sarandon (no piloto automático), a avó. Há ainda uma estranheza com relação à esfera etérea em que Susie passa a existir, já que ela soa um tanto artificial em alguns momentos. Todavia, tendo em vista que Jackson tem à sua disposição a melhor casa de efeitos especiais do mundo (a Weta, responsável por nada mais nada menos que os efeitos visuais de “Avatar”), só posso acreditar que tenha sido realmente sua intenção estabelecer este clima de estranheza para com o mundo espiritual, como uma forma de delimitar claramente as linhas diferenciais entre os dois mundos. Não sei se essa foi a melhor opção. Creio que deixar mais tênues tais linhas trouxesse uma maior riqueza à narrativa.

Entretanto, o maior problema enfrentado pelo longa talvez esteja em sua resolução. Há momentos de muita artificialidade nas soluções encontradas, inclusive com momento “Ghost” plantado para resolver o romance de Susie, além de outras ideias mambembes para confortar a plateia (não vou dizer exatamente o que acontece, mas você vai perceber tais momentos equivocados quando assistir ao longa). Essa queda nos clichês não é bem vinda e acaba prejudicando o impacto da narrativa no espectador.

Por outro lado, ao pesarmos em uma balança os prós e contras a serem observados neste filme, posso afirmar que ele se situa, tal como a personagem central, em um plano intermediário. Não está no “céu” em que se encontra outras obras de Jackson, mas tampouco pode-se dizer que ela esteja em alguma espécie de limbo destinado ao ostracismo. Acredito ademais, que deve fazer boa carreira nos cinemas do Brasil, já que o público brasileiro é muito chegado a temas ligados à espiritualidade (não é à toa que o Brasil é o lar maior da doutrina de Allan Kardec). Um suspense-drama-espiritual que está longe de lhe trazer prejuízo e com direito a alguns momentos de forte arrepio.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5

Obs. Há uma ponta de Peter Jackson no filme, numa aparição no melhor estilo do velho Hitchcock.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror


Guerra Real


Percebo que as mulheres são vítimas de um certo preconceito quando assumem a direção de um projeto cinematográfico. Frequentemente, são vistas apenas como diretoras de filmes femininos (caso emblemático de Nora Ephron), não possuindo talento e/ou desprendimento para criar obras de arte em uma perspectiva masculina ou sobre temas masculinos e mesmo sociais. Essa perspectiva atinge até mesmo as premiações, sendo notório que o Oscar jamais premiou uma mulher na categoria de melhor direção. Aliás, é sabido que Hollywood é um poço de machismo, indústria onde até hoje atores ganham mais do que atrizes. Pois bem, buscando quebrar tais paradigmas eis que surge Kathryn Bigelow, por muito tempo mais conhecida como a ex-esposa de James Cameron, com um filme pancada, exalando testosterona, sobre um tema caro e complicado para os norte-americanos: a guerra no Iraque.

Nada em “Guerra ao Terror” lembra um filme feminino. Aliás, raras são as mulheres que aparecem ao longo da projeção (que eu lembre, elas se limitam a uma árabe e à esposa do personagem central). O que sobra são cenas fortes, impactantes, algumas mesmo de embrulhar o estômago. Uma forma sincera, realista e coerente para tratar dos 39 últimos dias de um grupo de soldados em território iraquiano. Apesar de parecer um tempo relativamente curto, a verdade é que cada um dos militares não sabe se estará vivo até o dia seguinte. E essa circunstância vai se mostrando de forma horrendamente cruel a cada morte de um companheiro, geralmente vítimas de explosivos espalhados em Bagdá por grupos terroristas. E é exatamente desarmando bombas que opera o sargento William James (Jeremy Renner, ótimo e indicado ao Oscar), homem de personalidade forte, que tem no seu ofício uma verdadeira obsessão. Na verdade, não se sabe se é uma obsessão pela tarefa que executa ou uma oculta vontade de morrer. Suas ações são muitas vezes inconsequentes, expondo-se desnecessariamente a riscos que poderiam ser minorados. Um homem transformado em um autômato de vontade única, em decorrência da brutalidade do conflito? Talvez e, com certeza, esse é um dos questionamentos que Bigelow engendra (e que já havia sido elaborado por Stanley Kubrick em “Nascido Para Matar”).

Ao lado de James, também acompanhamos as vidas do sargento Sanborn (Anthony Mackie) e do soldado Eldridge (Brian Geraghty), ambos ansiosos pelo retorno ao lar. Este último, especialmente, parece ser o personagem escalado para representar as angústias mais comuns aos militares em área de conflito, principalmente através de seus diálogos com o coronel Cambridge, médico que funciona como psicólogo. Já Sanborn mantém uma relação conflituosa com James e, nesse ponto, o roteiro se escora um pouco na velha muleta de parceiros que se antipatizam de início para depois estabelecer uma relação de amizade, muito comum em filmes de duplas policiais. De qualquer forma, são personagens bem construídos e, antes de tudo, humanos. Uma das características interessantes, ademais, deste longa-metragem é que a empatia com os personagens não surge à primeira vista. Nos primeiros minutos, parece que não nos envolveremos com os dramas mostrados. Tudo parece seco e distante, um relato quase documental dos acontecimentos. Contudo, a força dos personagens e da narrativa se impõe e, aos poucos, à medida que o lado humano de cada um deles é evidenciado, passamos a torcer por seus destinos. Uma forma interessantíssima de aproximação com a narrativa resultado do roteiro bem escrito por Mark Boal e a direção segura de Bigelow.

Direção que, por sinal, se espraia de forma competente através de outros aspectos da produção. A fotografia é muito bem cuidada e as cenas mais fortes são filmadas com precisão, sem disfarçar o impacto no público que possam gerar. É verdade que em alguns momentos ela se mostra uma tanto sensacionalista (como em algumas sequências em câmera lenta apenas para mostrar um cartucho de fuzil caindo no solo), mas, no geral, tudo soa muito eficiente e orgânico, com um tom de realidade enorme até mesmo como resultado das locações realizadas nos Oriente Médio (Jordani e Kuwait). A sensação de insegurança acaba sendo transportada para cada espectador, gerando, por vezes, a impressão de que estamos no campo de batalha.

O filme teve uma trajetória curiosa no Brasil, onde foi lançado direto em DVD, pois que não havia muitas perspectivas de mercado para o mesmo. Agora, depois de se tornar um querido da crítica e um dos favoritos ao Oscar, ganhará chance nos cinemas a partir desta sexta-feira, dia 05. Recomendável ver no sala escura. O impacto deve ser ainda maior. E imagino que a Academia não vai perder a oportunidade de premiar uma mulher como melhor diretora nesta ocasião. Não será nenhuma injustiça se ela vier a ganhar a briga conjugal com o ex-marido James Cameron.

Obs. As participações de Ralph Fiennes e Guy Pierce são bem pequenas.


Cotação: * * * * ½ (quatro estrelas e meia)
Nota: 9,5.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Amor Sem Escalas


Não é uma comédia romântica


O grande objetivo de Jason Reitman, diretor deste “Amor Sem Escalas”, em sua carreira parece ser o de tratar temas sérios e pesados com leveza. O caso mais emblemático é “Juno”, longa-metragem de 2007 em que se mostrava uma adolescente às voltas com uma gravidez precoce, mas que decide não abortar, escolhendo o caminho mais difícil (mas também de muito maior integridade) de continuar a gravidez e entregar a criança para adoção. Um verdadeiro libelo anti-aborto construído de forma especial a tocar seu público-alvo: os adolescentes. Com humor e inteligência (além de uma grande interpretação de Ellen Page), Juno McGuffin tornou-se uma personagem memorável e o longa-metragem recebeu, com justiça, o Oscar de melhor roteiro original.

Aqui, Reitman busca tratar de outras temáticas difíceis com uma abordagem leve, bem-humorada, mas seu sucesso não é tão grande quanto no citado longa-metragem. A narrativa mostra Ryan Bingham, personagem de George Clooney, um profissional encarregado de comunicar demissões aos funcionários de diversas empresas. Um momento doloroso que os patrões se recusam a fazer e deixam a batata-quente para “especialistas”. Para tanto, Ryan desenvolve técnicas para tornar o momento o mais humano possível, sem, contudo, se envolver emocionalmente com as situações. Em decorrência de sua atividade, Ryan percorre todo o território americano e desenvolve o hobby de acumular milhas de viagem (seu objetivo é atingir 10 milhões de milhas, coisa que poucos alcançaram). Ele, ainda, ministra palestras onde afirma que, para obter sucesso, as pessoas devem se livrar de seus vínculos afetivos, pois que esses seriam “pesos” que cada um levaria permanentemente em seus ombros. Assim, por esta síntese, já fica claro que este é um daqueles longas de “transformação”, tipo do filme onde o protagonista passará por situações que mudarão sua forma de enxergar a vida. No caso, isso realmente acontece quando ele encontra duas mulheres. Uma delas, Alex (Vera Farmiga, bonita, mas em uma atuação sem brilho especial e que me fez questionar o motivo de suas recentes indicações a prêmios como coadjuvante por este trabalho) é como uma versão de feminina de Ryan, enquanto Natalie (Anna Kendrick, esta sim com um ótimo desempenho) é uma novata na função, cheia de novas ideias como a de realizar as demissões por videoconferência, trazendo desta forma um grande corte em gastos com viagens.

Claro que não existe problema em se fazer um filme sobre as mudanças na personalidade de um personagem. Grandes e memoráveis clássicos do cinema tratam destas transformações, como é o caso de “...E o Vento Levou” ou mesmo “A Felicidade Não Se Compra”. E nesta linha, Reitman realiza um bom trabalho. As mudanças por que passa Bingham não soam artificiais e a competente atuação de Clooney (que fará as mulheres se derreterem ainda mais que de costume) nos fazem acreditar que elas já estavam de fato latentes no personagem, esperando apenas que algo as despertasse. A sua atitude perante Natalie parece ser a de um irmão mais velho que está ensinando para a caçula o caminho das pedras, talvez procurando compensar a ausência na vida de suas irmãs, especialmente daquela que está para casar (e, em uma certa sequência, percebemos o quanto ele se sente culpado pos esse distanciamento). Em verdade, pode-se afirmar que Ryan tem, tal como aqueles que dispensa de seus empregos, um grande medo de ser “demitido” e por isso evita estabelecer relações afetivas fortes e constantes. Claro, isso traz como conseqüência uma inevitável solidão, a qual ele procura esconder de si mesmo (e ministrar palestras dizendo exatamente o contrário é uma boa forma de convencer a si mesmo).

Entretanto, alguns problemas surgem no roteiro (escrito pelo próprio Reitman em parceria com Sheldon Turner, em adaptação do livro de Walter Kim) ao tentar estabelecer nuances cômicas em alguns momentos, ou seja, a leveza salientada acima que Reitman busca imprimir em temas mais sérios. Alguns destes momentos surgem forçados, colocados ali apenas como forma de “jogar para a galera” e garantir algumas risadas fáceis (a piada sobre masturbação ainda no início do filme é um bom exemplo). O riso não soa orgânico como em “Juno”, personagem naturalmente talhada para ótimas situações cômicas. Ademais, o desenrolar da narrativa acaba por trazer algumas incongruências, principalmente para a personagem de Vera Farmiga (e prefiro não comentar mais sobre este aspecto, sob pena de revelar spoilers gigantes). Talvez tenha faltado a mão de uma Diablo Cody (roteirista de “Juno”) para que tais falhas da narrativa fossem supridas ou, ao menos, minoradas. De qualquer forma, me pareceu estranho o prêmio de melhor roteiro no Globo Ouro em detrimento de “Bastardos Inglórios” (pelo menos não irão bater de frente no Oscar, já que um é adaptado e o outro é original). Por outro lado, a direção de Reitman continua segura, com um ritmo ditado por uma edição competente, além de sempre criar belas cenas pontuadas por canções pop perfeitamente adequadas.

Alguns podem apontar que o filme seria datado por ter como um dos seus motores a crise econômica que resultou em demissões em massa, o que logo o tornaria “envelhecido” em pouco tempo. Discordo deste posicionamento. “Amor Sem Escalas” (título em português infeliz, pois traz logo a impressão de tratar-se de uma comédia romântica) é, antes de tudo, uma obra sobre a solidão e incomunicabilidade dos dias de hoje. E, embora não atinja o mesmo padrão de qualidade de seu longa anterior, Reitman ainda assim nos entrega um bom filme que talvez faça você refletir sobre como está enxergando a sua própria vida. Para aqueles dispostos a mudar.


Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes


Um novo super-herói


Desde já, advirto que nunca li qualquer obra de Arthur Conan Doyle, o que já faz perceber que não sou especialista no seu mais famoso personagem, o detetive Sherlock Holmes. A imagem que tenho do mesmo é aquela tradicional, do homem cerebral que fuma cachimbo, toca um violino Stradivarius e conta sempre com a ajuda do seu assistente Watson para resolver os mais enigmáticos mistérios, parceiro este para quem sempre profere a frase “elementar, meu caro Watson”. Portanto, dá para concluir que a ideia que sempre faço do famoso investigador é aquela perpetuada com a grife de Steven Spielberg (ele foi o produtor) em “O Enigma da Pirâmide”, divertida fantasia oitentista que tem o personagem ainda jovem como protagonista. Contudo, sei que Holmes possui outras características não muito mostradas ou exploradas comumente, características estas que lhe foram atribuídas pelo próprio Conan Doyle.

Alguns desses elementos foram utilizados pelo diretor Guy Ritchie nessa nova adaptação cinematográfica. Um exemplo é o fato de Holmes lutar (em uma forma primitiva de boxe). Todavia, alguns outros aspectos parecem jogados para lhe imprimir um caráter modernoso, apto a agradar o público atual. Holmes é, desta forma, quase transformado em uma espécie de super-herói, cujo poder especial seria o extremo raciocínio lógico. Tanto isso é verdade, que em determinada sequência ele utiliza este “poder” para vencer uma das tais lutas de que participa, ocorrendo tudo da forma como deduzira em poucos segundos. Adicione-se a isso o ritmo sempre acelerado de Ritchie e temos um Holmes que muitas vezes mais lembra um Jason Bourne misturado com “Homem de Ferro”. Ainda mais com a presença de Robert Downey Jr. no papel principal. Por sinal, o tal ritmo acelerado, característico desse diretor, mostra-se um tanto inadequado para uma trama cheia de minúcias e detalhes (como é peculiar nas tramas do detetive). A narrativa, por sinal, mostra Holmes buscando evitar que Sir Blackwood, um nobre integrante da Câmara dos Lordes, leve a efeito um plano para dominar a Inglaterra e, por conseguinte, boa parte do mundo através de expedientes de magia negra. Contudo, nem nos momentos “Scooby-Doo”, quando toda a trama vai sendo revelada em detalhes, conseguimos compreender bem o desenrolar dos acontecimentos. Não consegui, por exemplo, até o fim da trama, entender exatamente quais os objetivos da personagem de Rachel McAdams (lindinha como sempre), Irene Adler. Fica óbvio que ela é mais um dos elementos engendrados para agradar ao grande público, uma vez que funciona não só como uma antagonista cerebral de Sherlock, mas como o seu ponto fraco emocional (e o público feminino também precisa ser cativado).

Entretanto, algumas nuances contemporâneas foram muito bem-vindas. A relação entre Holmes e o Dr. Watson (Jude Law) está interessantíssima, sendo que este último está longe de ser apenas um “assistente” do detetive. As tiradas cômicas entre os dois estão ótimas e mostra-se que, antes de tudo, a amizade é o elemento que une fortemente aqueles homens, tudo isso tendo como alicerce (e como era de se esperar) as ótimas atuações de Downey Jr. e Law, os maiores sustentáculos do longa-metragem. Em outra vertente, as cenas de ação são muito bem realizadas, trazendo criatividade e momentos lúdicos que agradam em cheio ao grande público. A sequência no cais do porto, em que um navio é “atirado” em direção a Sherlock já está entre as melhores cenas de ação concebidas nos últimos anos. Ademais, outra virtude do longa é a sua reconstituição da era vitoriana, precisa, com uma direção de arte impecável.

O balanço final é de que temos um longa-metragem perfeitamente palatável para divertir o grande público, contando com um diretor de marcas próprias (mesmo que, como mencionado, talvez inadequado para este tipo de narrativa detetivesca) e atores de primeiro escalão que conferem uma veracidade inédita no cinema a estes personagens. Entretanto, aqueles mais afeitos à versão clássica de Sherlock irão torcer um pouco o nariz (como eu). Não sei se seriam necessárias tantas modificações para que o personagem pareça atualizado. Talvez o Holmes ideal seja uma mistura dessa nova versão com aquele citado acima de “O Enigma da Pirâmide”. Vá ao cinema e tire suas próprias conclusões.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lula - O Filho do Brasil


Dona Lindu, uma brasileira


Ao observarmos o pôster promocional de “Lula – O Filho do Brasil” é possível perceber que a figura de Glória Pires, a qual interpreta Dona Lindu, mãe do atual presidente da República, domina a imagem, estando em maior destaque que o ator Ruy Ricardo, que interpreta, na fase adulta, o ex-retirante que alcançou o posto de mandatário máximo da Nação. Talvez inadvertidamente, o referido pôster acaba representando o resultado do longa-metragem dirigido por Fábio Barreto (atualmente hospitalizado após um grave acidente de carro). Parece que estamos a observar na tela não a história de Lula, mas a de sua genitora e de como esta, através de sua “teimosia”, conseguiu manter uma família mesmo diante das situações mais adversas e de como sua personalidade moldou a face do Lula que conhecemos hoje.

Talvez esta seja uma opção dos realizadores para afastar a acusação de que o longa, estreando em ano eleitoral, possua um caráter “eleitoreiro”. Como vocês que leem este texto devem saber, há meses a polêmica sobre este projeto foi instaurada pela oposição, tendo como alto-falante uma mídia ligada aos seus interesses, mas predominantemente destituída de bom-senso (chegando até ser capa de famosos periódicos semanais, numa espécie de publicidade involuntária). Realizado com financiamento inteiramente privado (alardeado logo no início da projeção, para evitar que o público venha a pensar de forma diferente), o roteiro não adentra na vida política de Lula, sequer mencionando a fundação do PT e apenas colocando em legendas a sua chegada à presidência. Esta atitude, por outro lado, levou muitos dos petistas e simpatizantes de esquerda a criticar o filme. Afinal, como poderia um longa-metragem sobre Lula não mencionar nada a respeito do partido que o próprio criou? Como dito acima, talvez isso seja o resultado da ideia dos realizadores de, no fundo, não contarem a história do presidente, mas de sua genitora. E a verdade é que a imagem e o carisma do presidente (com cerca de 80% de popularidade, segundo as últimas pesquisas) estão já há algum tempo desatreladas do partido que fundou. Aliás, ligar a imagem de Lula ao PT, neste momento, poderia até trazer um efeito anti-eleitoreiro, tendo em vista a imagem queimada do Partido dos Trabalhadores pós-escândalo do mensalão.

Assim, se você está na expectativa de assistir a um panorama completo da saga de um retirante nordestino até sua vitória máxima, devo dizer quê sairá frustrado(a) da sala de cinema. Mas, todavia, o maior demérito do longa de Fábio Barreto não se constitui nas referidas omissões, mas na forma um tanto canhestra com que desenvolve a narrativa. Com um roteiro baseado no livro homônimo, escrito por Denise Paraná (a partir de sua tese de doutorado), os altos e baixos da narrativa são tamanhos que provocam um distanciamento do espectador, algo que se torna um tanto estranho se pensarmos no conteúdo com potencial altamente emocional que é inerente a uma história como essa. Se compararmos a outro exemplo cinematográfico bastante próximo, está muito aquém da ligação estabelecida com o público por “2 Filhos de Francisco”, o qual se tornou um dos filmes de maior bilheteria no país desde a retomada e que também alcançou sucesso entre os críticos.

Tal distanciamento se deve bastante ao caráter episódico que domina o desenvolvimento do roteiro (adaptado pela própria Denise ao lado do diretor, além de Daniel Tendler e Fernando Bonassi). Passa-se rapidamente pela vida na família Silva no interior de Pernambuco, na seca que flagela, mas que o longa está longe de mostrar sua real dimensão, limitando-se ao lugar-comum de imagens de gado morto e vegetação ressecada. Com a mudança para Santos, o caráter ameno das vicissitudes dos protagonistas continua, aqui se resumindo a mostrar a estupidez e alcoolismo de Aristides, pai de Lula, mas maquiando a situação de miséria em que viviam. Até mesmo a sequência da inundação que leva a família a perder tudo e que foi uma das mais caras deste projeto que custou ao todo R$ 16 milhões (o mais caro filme brasileiro até hoje produzido), é mostrada de forma repentina e sem muito impacto, possuindo, ademais, uma curta duração. Além disso, há uma descuido da produção com relação à ambientação e mesmo trilhas utilizadas em certos momentos da projeção. Ouvir um certo sucesso de Tim Maia em um baile ainda nos anos 60 é imperdoável, um anacronismo que vai chamar a atenção de muitos dos presentes. Além disso, alguns vão lembrar de alguns fatos omitidos, como a primeira filha, nascida de seu relacionamento com Miriam Cordeiro, tendo deixado esta com 6 meses de gravidez, fatos estes que os realizadores procuraram evitar para diminuir o “peso” do longa.

Contudo, nem tudo é fracasso no longa. O relacionamento de Lula com suas duas esposas é sempre bem desenvolvido (afinal, é necessário agradar o público acostumado com novelas). Um dos melhores momentos, inclusive (e este é um dos poucos que realmente surgem comoventes), mostra o falecimento de sua primeira mulher, Jennifer (Cleo Pires), durante o parto, quando o bebê também morreu. Outro momento muito bem dirigido e recriado é o famoso discurso de Lula no estádio da Vila Euclides, onde cerca de 100.000 metalúrgicos presentes repassavam uns aos outros suas palavras, para que todos ouvissem, devido à ausência de sistema de som. Aliás, algumas das cenas de discurso só não são melhores devido à limitação do ator Ruy Ricardo, fraco na caracterização do líder, chegando a mudar a voz do personagem no decorrer da projeção. A princípio com uma interpretação mais natural, de repente ele começa a imitar a voz de Lula, com sua língua presa peculiar, trazendo um resultado muito mais cômico do que realista. Porém, Glória Pires, como de costume, realiza mais uma interpretação competente, o que reforça ainda mais a afirmação de que este acaba sendo um filme sobre Dona Lindu. Não é à toa que o filme termina com sua morte e a afirmação de que Lula, no seu discurso de posse, prestou os maiores agradecimentos à sua mãe. Ou será que Fábio Barreto pretendeu realizar um estudo sobre o complexo de Édipo ao narrar a história desta família Silva? Ou, ainda, mostrar a história de uma família brasileira, como afirmou em algumas entrevistas? Pode ser qualquer uma das hipóteses. A menos provável é a de que ele quis realizar uma obra sobre Lula.

Obs. Afirmar que um filme vai influenciar em uma eleição no Brasil é um tanto ingênuo. Esse filme deve ser visto, numa boa perspectiva, por cerca de 5 milhões de pessoas, boa parte delas já simpatizantes do presidente e, mesmo que outras tantas não o sejam, trata-se de uma parcela do eleitorado menos sujeito a influências (muito embora uma boa parcela se deixe influenciar por publicações duvidosas). É bom lembrar que o Brasil conta com cerca de 130 milhões de eleitores. Como diz uma certa canção da Legião Urbana, há pessoas que “falam demais por não ter nada a dizer”.

Cotação: * * ½ (duas estrelas e meia)
Nota: 6,5

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sempre ao Seu Lado



Bela história lacrimejante

Você quer assistir a um filme pra chorar em bicas? Pois então vá ao cinema conferir este “Sempre ao Seu Lado”. O filme é uma adaptação nos moldes americanos para uma emocionante história real japonesa, a do cão Hachiko. O canino da raça Akita acompanhava o seu dono, um professor, todos os dias à estação de trem de Shibuya, além de esperá-lo todos os dias no horário em que voltava. Depois da morte do professor, contudo, Hachiko continuou a realizar os mesmos hábitos diariamente, esperando o dono que nunca retornou. Tal fato começou a ganhar repercussão na imprensa e após a morte de Hachiko este tornou-se estátua na referida cidade, além de despertar uma verdadeira mania de criação de akitas no Japão, uma vez que a história se tornou uma verdadeira lenda no país. Só com esta breve sinopse, já dá pra imaginar que será difícil você conter as lágrimas durante a projeção.

Nesta versão hollywoodiana, o professor universitário é interpretado por Richard Gere, o qual encontra o pequeno Hachi na estação de trem da cidade. Em princípio, ele reluta em adotar o cãozinho, principalmente devido à resistência de sua esposa (Joan Allen), um tanto avessa à ideia de um cão em casa. Contudo, como diz o amigo de Parker Wilson, o japonês Ken (em um filme americano sempre há um japonês para explicar a cultura oriental), não foi ele que escolheu Hachi, mas Hachi que escolheu Parker para ser seu dono. Ele tem uma vida tranqüila e feliz até o infarto que o vitima quando dava uma aula na faculdade. Esta tranquilidade da vida de Parker poderia tornar “Sempre ao Seu Lado” uma banalidade, não fosse a direção segura e suave que caracterizam a obra de Lasse Hallström, cineasta sueco responsável por outras obras com o mesmo teor, podendo-se citar aqui como um exemplo próximo em sua filmografia o longa “Minha Vida de Cachorro” (filme que o projetou para o mercado internacional). É ele o responsável pelo longa não ganhar ares de “sessão da tarde”. Apesar da vida feliz de Parker, há uma certa tristeza presente em toda a narrativa, o que já prenuncia e faz o espectador, mesmo que desconheça a história de Hachiko, perceber que algo de ruim irá acontecer.

Hallström também utiliza recursos elegantes e mesmo inusitados para desenvolver a narrativa. A utilização da visão do cão em alguns momentos, com a paleta em cores muito reduzidas, quase em p&b (tal como os cientistas afirmam ser a visão dos cachorros), é interessante e não me lembro de ter visto essa ideia em algum outro filme sobre caninos. Da mesma forma, o uso de uma árvore para demonstrar a passagem do tempo é algo inteligente e clássico. O diretor parece saber, ademais, que não é necessário super-valorizar a trama com toques excessivamente melodramáticos. Ela já possui os ingredientes necessários para fazer o público chorar. Desta forma, temos uma trilha sonora adequada, com um certo tom de melancolia, mas que não procura guiar os sentimentos do espectador.

“Sempre ao Seu Lado” é um filme pequeno, sem grandes ambições, a não ser a de emocionar o espectador e este objetivo é plenamente alcançado sem que seja necessário um espetáculo melodramático. Talvez porque a obra fale de um amor incondicional, apego este incapaz de ser reproduzido por qualquer ser humano. Aqueles que possuem cães, obviamente, irão se emocionar em dobro. Durante a sessão, uma das espectadoras chorava aos soluços, provavelmente lembrando de algum cãozinho de estimação. Se está preparado para enxugar os olhos, o programa certo para você é, decididamente, “Sempre ao Seu Lado” (por sinal, o título em português é bem melhor que o original “Hachiko: a Dog’s Story”).

Cotação: * * * ½ (três estrelas e meia)
Nota: 8,0

domingo, 20 de dezembro de 2009

Avatar


Será mesmo uma revolução?

Decididamente, este é um dos filmes mais aguardados de todos o tempos. Há aproximadamente dez anos, James Cameron, um dos cineastas mais bem sucedidos da história, o homem responsável pelo sucesso gigantesco e avassalador de “Titanic”, começou a levar a efeito a concepção de um longa-metragem que há muito tempo habitava sua mente. Segundo o próprio Cameron, desde sua infância, quando lia gibis de ação, super-heróis e ficção científica. O longo caminho percorrido deve-se a um fator de fácil compreensão, mas fundamental: Cameron teve que desenvolver a tecnologia necessária para rodar o seu projeto. O mundo que imaginara jamais seria crível e impactante com a tecnologia de 10 anos atrás. Assim, Cameron terminou por incorrer em um hiato enorme nas salas de cinema, com muita gente acreditando que isso se devia ao fato do diretor ter medo de encarar um novo lançamento após aquele fenômeno que foi o mencionado “Titanic”.

Mas esse termo, “medo”, não é algo que combina com James Cameron. Ele sempre foi ousado o suficiente para desafiar os estúdios, estourando seus orçamentos, mas sempre trazendo retornos espetaculares. Talvez seja por isso que ele não tenha tido muita dificuldade em encontrar quem bancasse este seu novo devaneio, o qual, segundo números divulgados recentemente, beiram a cifra de US$ 500 milhões (isso mesmo!). Não fosse conhecido o potencial brilhante deste cineasta, iríamos pensar que tudo isso iria resultar em um enorme constrangimento, um fracasso de proporções tão grandes quanto seu custo. Mas todos sabíamos do que Cameron é capaz. E este fato só ajudava a aumentar a expectativa. Segundo enormemente divulgado, uma revolução estava por vir nas telas cinema.

E eis que agora temos o resultado. E ele atende a tanta expectativa? Para responder a esta pergunta, faz-se necessário entender a concepção que o diretor tem de cinema e, também, aquela que você próprio, leitor(a), tem sobre a 7ª arte. Diretores como Cameron partem do pressuposto de que o cinema, antes de tudo, é a arte da imagem. Para este cineastas, a trama deve ser narrada, antes de tudo, pela forma imagética. Diálogos são necessários? Sim. Mas, antes de tudo, é necessário mostrar o que acontece. Não se deve confundir cinema com teatro. Eu mesmo me coaduno com esta forma de pensar, muito embora reconheça que existem ótimos filmes bastante verborrágicos (adoro Woody Allen e nos seus filmes o que não falta são diálogos enormes). Vale dizer que Cameron não está sozinho na sua concepção. Gênios absolutos como Alfred Hitchcock e Charles Chaplin (que durante muito tempo relutou em deixar o cinema mudo) também faziam da imagem a sua grande arte. E este é o ponto que fará você saber que o longa atende ou não ao que esperava.

Confesso que, pelo menos a mim, atendeu apenas em parte. De fato, o filme leva a arte gráfica do cinema para outros patamares e a grande ambição de vários outros realizadores de agora em diante será atingir esse nível de excelência. Tudo para narrar uma trama em que o planeta Pandora, dotado de uma natureza exuberante, tem seu equilíbrio ameaçado pela chegada dos humanos, os quais já esgotaram tudo que a Terra tinha a oferecer e descobriram no planeta um mineral capaz de produzir uma enorme energia, o unobtnanium (um único quilo deste minério pode custar 20 milhões de dólares). Contudo, os humanos terão de enfrentar a resistência dos Na’Vi, humanóides locais azuis com cerca de três metros de altura. Um povo que vive em perfeita integração com a natureza, a quem denominam de “Eywa”, inclusive possuindo formas físicas de se conectarem a outros seres vivos (tentáculos existentes em suas longas tranças). Os cientistas, liderados pela Dra. Grace (Sigourney Weaver, voltando a trabalhar com Cameron depois de “Aliens”), que estudam a natureza de Pandora, buscam também entender a cultura dos Na’Vi, buscando evitar que a violência e a brutalidade sejam usadas para avançar na exploração do minério. Para tanto, eles desenvolveram os avatares, reproduções dos corpos dos Na’Vi que misturam DNA alienígena e humano e podem ser controlados pelo cérebro (numa forma de integração que lembra bastante as experiências virtuais de “Matrix”). Entre os integrantes do grupo de mercenários contratados pelas empresas exploradoras está Jake Sully (Sam Worthington, competente), um ex-fuzileiro naval, agora paraplégico, que vê uma nova oportunidade nesse projeto dos avatares. Na pele de um avatar, ele conhece e se apaixona por Neyriti (Zöe Saldana), uma guerreira Na’Vi, passando a entrar em contato com a cultura e forma de enxergar a vida desse povo.

Com se vê, a trama não tem nada de muito original. Trata-se de uma mistura de “Dança com Lobos”, "Pocahontas" e “Matrix” ambientada em um planeta distante. Mas esse não é o principal problema. Afinal, críticas ao imperialismo e arrogância das grandes potências são sempre bem-vindas. Ademais, o filme possui um óbvio contexto ecológico que, nesses tempos de total fracasso de conferências sobre o clima, como esta de Copenhague, torna-se bastante pertinente. Entretanto, ele se faz tão repleto de clichês que acaba tudo resultando numa previsibilidade que redunda numa perda de força do conjunto. Em vários momentos da projeção, já imaginamos como será o seu final e a confirmação do que imaginamos antecipadamente é decepcionante, principalmente ao percebermos que em alguns momentos Cameron tem a oportunidade de fugir desses esquematismos, mas não o faz. Claro que se pode realizar uma trama com clichês e ainda assim render um filme excelente. O próprio Cameron deu provas disso com o seu “Titanic”. Contudo, o filme do naufrágio mais famoso de todos os tempos contava com dois grandes atores como protagonistas e isso já faz uma sensível diferença em um texto limitado. É importante mencionar ainda que “Titanic”possuía uma tragédia inevitável que só aumentava a angústia da plateia com relação ao destino dos protagonistas. Aqui, por mais que a tecnologia tenha conferido aos Na’Vi proporções de realidade nunca dantes vistas, mesmo que você veja numa sala 3D (que foi o meu caso, sendo a minha primeira oportunidade com essa tecnologia), ainda assim temos a sensação de estar observando algo que não é real. E a verdade é que isso pode causar um certo distanciamento e falta de identificação com os personagens.

Mas há elementos que realmente impressionam. Se os personagens ainda precisam evoluir mais para fazer o espectador esquecer que eles não são reais, a natureza criada por Cameron em parceria com a Weta de Peter Jackson é algo de arrepiar. Eles conseguiram simplesmente conceber todo um belíssimo ecossistema e muitas vezes é possível acreditar que estamos vendo árvores e insetos de verdade. Um deslumbre tecnológico que possivelmente, quando se tornar mais acessível financeiramente, será utilizado para substituir externas e viagens desgastantes para locações complicadas em florestas reais. Mostra-se que, realmente, tudo é possível de se fazer através da sétima arte. E a demonstração de que não há limites para o cinema é o grande feito de Cameron neste longa. Ele demonstra, ademais, que o cinema vai conseguir se recuperar do baque provocado pela pirataria e downloads ilegais ao conceber filmes que só podem ser apreciados em sua inteireza dentro de uma sala de projeção.

Por outro lado, Cameron volta a dar demonstrações de que é, possivelmente, o melhor diretor de cenas de ação em atividade no cinema. E ver longas sequências repletas de elementos, mas em que ao mesmo tempo conseguimos vislumbrar tudo o que acontece na tela, é um alívio diante dos lixos visuais de um Michael Bay.

Assim, num balanço entre deslumbre técnico e problemas de roteiro, posso afirmar que vejo em “Avatar” um ótimo filme, mas ainda aquém de todas as expectativas que foram criadas em torno dele. Todavia, imagino que Cameron poderá superá-lo em uma próxima investida, levando os espectadores a, além de se deslumbrarem com as imagens, se emocionarem com a narrativa mostrada, tal como aconteceu em “Titanic”. Só espero que ele não leve mais 10 anos para fazer isso. E se o filme é ou não é uma revolução, creio que só o tempo poderá afirmar.

Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Princesa e o Sapo

Reciclagem Divertida


Quando os estúdios Pixar lançaram, em 1995, a animação “Toy Story”, uma polêmica começou a tomar conta das rodas de discussão voltadas para a arte e o entretenimento. Os mais puristas torciam o nariz para a nova forma de confeccionar animações trazidas pelos estúdios de John Lasseter. Nela, o emprego da tecnologia digital era completo, sendo todo o processo de elaboração realizado por computadores, e não apenas algumas etapas de finalização, como acontecia com as animações da Disney. Alegavam os puristas que isso diminuía o valor artístico da obra, já que a elaboração artesanal da mesma, por si só, já agregaria um valor que não estaria presente nos desenhos criados por meio de pixels. Os adeptos da nova tecnologia argumentavam com as novas e quase infinitas possibilidades que se vislumbravam, principalmente com o maior realismo que cada cena poderia ter, além de efeitos especiais nunca dantes vistos.

Com o passar do tempo, a discussão mostrou-se estéril. Se a companhia de Lasseter conseguia cada vez mais aumentar suas bilheterias e o respaldo da crítica com tramas divertidas e inteligentes, além de cativar o público com a emoção, o japonês Hayo Miyasaki continuava deslumbrando o mundo com suas obras de arte geradas no modelo artesanal de animação (um exemplo já clássico é “A Viagem de Chihiro”). O que estava ficando claro é que a Disney estava passando por uma crise criativa, incapaz de produzir longas que acertassem no humor característico das novas gerações ou atingissem aquele status de arte tão característico dos filmes de Miyasaki. Com os sucessivos tombos, a Casa do Mickey adotou o procedimento mais típico do capitalismo moderno: se não pode vencer o inimigo, compre-o. E assim, colocou a Pixar como mais uma subsidiária do seu enorme conglomerado, assumindo John Lasseter a função de diretor criativo não apenas do estúdio que criou, mas de toda a divisão de animações da Disney.

E Lasseter mostra, com este a “A Princesa e o Sapo” (em que atua como produtor executivo), que, realmente, o mais importante não é a forma, mas o conteúdo da obra levada às telas. Trata-se da primeira produção da Disney em anos no formato artesanal e, ademais, retoma ainda um dos seus temas mais gratos: o conto de fadas envolvendo príncipe e princesa. Todos conhecemos as mais clássicas animações do estúdio que, aproveitando contos já famosos, passaram a fazer, de forma irremediável, parte do inconsciente coletivo. Afinal, qual a menina que nunca se encantou com a estória de “Cinderela” ou de “A Branca de Neve”? Mesmo nos tempos modernos, com a toda revolução feminina, estes mitos continuam poderosíssimos, mesmo que muitas mulheres não percebam e até neguem isso. Contudo, o que torna “A Princesa e o Sapo” uma animação a ser vista é atualização empreendida por seus mentores a este mito do príncipe-princesa-que-vivem-felizes-para-sempre.

Antes de mais nada, Tiana, a tal princesa do título, não faz o padrão de garota que tem como grande objetivo na vida encontrar o “príncipe encantado”. Seu grande objetivo é realizar o sonho de seu pai e abrir um restaurante de fina gastronomia. Para tanto, trabalha arduamente, de sol a sol, nunca saindo com os amigos para se divertir, nem muito menos namorar. Por seu turno, Naveen, o príncipe que foi transformado em sapo, encontra-se também um pouco distante dos príncipes das antigas lendas, sempre virtuosos e destemidos. Ele faz o estilo playboy, que nunca trabalhou para sobreviver, preocupado apenas com festas e namoradas. Entretanto, seu pai lhe corta a mesada e, para não ser forçado a trabalhar, ele tem de encontrar uma rica solteira para se casar. Outro fator de inovação é a ambientação. Saem os castelos e vielas medievais de outras eras e entram as ruas de Nova Orleans, a boêmia cidade americana onde surgiu o jazz, a única onde se comemora o carnaval (muito embora de uma forma um tanto distinta da brasileira). A própria cultura da cidade serve de mote para o desenrolar da trama, uma vez que é um feiticeiro vodu o responsável por transformar Naveen em um sapo, feitiço que só poderá ser quebrado se ele for beijado por uma princesa. Tiana acaba beijando o príncipe anfíbio, só que, como não é princesa, ela acaba também se transformando em um anfíbio. É a partir disso que os dois vão, juntos, tentar desfazer o encantamento.

Os diretores John Musker e Ron Clements tiveram, a partir de então, a sacada de utilizar o velho artifício das comédias românticas, o casal que se detesta e depois acaba se amando, para desenvolver a trama (que teve roteiro dos próprios diretores juntamente com Rob Edwards). E isso, dentro de um contexto de conto de fadas, soa inusitado e não apenas repetitivo, como no acima mencionado gênero. O uso de coadjuvantes saídos da cultura e ambiente de Nova Orleans, como o crocodilo trompetista Louis (numa clara homenagem a Louis Armstrong), também é uma boa ideia, ajudando no clima leve e divertido do longa. A utilização de uma trilha sonora de tom bastante jazzístico é uma ótima sacada, distanciando esta animação do clima choroso e meloso das trilhas sonoras de filmes anteriores da Disney.

O resultado final aparece como uma renovação para uma ideia já batida e, principalmente, mostra que o essencial não está na forma, mas na essência do que é mostrado. Não foram as animações de estilo clássico e artesanal que se tornaram ultrapassadas, mas a ideias da Disney que estavam distantes de um novo público. Aqui, tal como acontece nos longas característicos da Pixar, não apenas os pequenos, mas também os mais velhos poderão ser fisgados. E o conto de fadas de princesas e príncipes mostra-se perfeitamente reciclado e divertido. Não há história que ainda não tenha sido contada. O que existe são formas batidas de se contar essas histórias. Felizmente, aqui os estúdios Disney não voltaram a incorrer neste erro.


Cotação: * * * ½ (três estrelas e meia)
Nota: 8,5

domingo, 6 de dezembro de 2009

Atividade Paranormal

Mais um do cine-youtube

Na minha resenha sobre “Distrito 9”, mencionei que esta produção de ficção-científica tinha seu estilo inspirado em algumas obras recentes do gênero terror, as quais usavam um fórmula similar a um documentário para envolver o espectador e trazer novos ares para o susto. O precursor desta tendência foi “A Bruxa de Blair”, tendo continuidade em filmes como “[Rec]” e, agora, este “Atividade Paranormal”. O que se pode constatar, contudo, é que a fórmula já está se tornando desgastada e cada vez mais não me agrada.

Não agrada porque acredito ser essencial a um filme de horror todo aquele clima macabro que nos é dado não apenas por efeitos especiais competentes, mas também por uma direção segura que sabe utilizar os vários outros elementos da arte cinematográfica em prol deste intento. A trilha sonora, por sinal, é um destes elementos fundamentais e que se torna ausente nestes filmes “vídeo-verdade”. Alguns podem afirmar que isso é questão de gosto. Talvez seja, mas garanto que quem assim pensa não deve ter visto “O Iluminado”, o clássico de Stanley Kubrick que possivelmente é o filme mais assustador de todos os tempos.

Outro aspecto verdadeiro é que os filmes vídeo-verdade se escoram muito em campanhas massivas de marketing para se tornarem grandes bilheterias e “Atividade Paranormal” se tornou o grande exemplo disso. Dirigido e roterizado pelo amador Oren Peli, que se baseou em experiências próprias ao se mudar para uma casa em que eventos estranhos aconteciam, o longa custou a quantia ínfima de 15 mil dólares e já arrecadou cerca de 120 milhões de verdinhas apenas nos Estados Unidos, tornando-se provavelmente o filme mais lucrativo da história. Mas, provavelmente, isso nunca teria acontecido não fosse a participação de um padrinho muito forte na jogada. O longa vinha sendo exibido dentro do circuito alternativo, em festivais de cinema independente ou voltados especificamente ao gênero, quando caiu nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg. Obviamente, Spielberg percebeu todo o potencial pop do que tinha em mãos e logo se encarregou de promover uma ampla distribuição no circuito comercial. De antemão, encarregou-se de proferir comentários que deixariam qualquer um curioso, pois afirmou que tinha começado a ver o filme à noite em casa, teve muito medo e só concluiu na manhã seguinte. Também se encarregou de dar seus pitacos ao sugerir que o final fosse alterado e que a ordem de algumas seqüências fosse trocada (o que, por sinal, já deixa entrever que o orçamento da versão final que está nos cinemas deve ser bem maior que os tais 15 mil dólares). E o estúdio Paramount realizou um muito bem bolado trailer que se tornou sucesso no mundo virtual.

Entretanto, mesmo o melhor marketing não é capaz de produzir medo ou grandes sustos. A narrativa dos malassombros vividos por Katie e Micah (vividos pelos atores homônimos Katie Featherston e Micah Sloat, amigos do diretor, sendo ela especialmente boa atriz) assusta em alguns momentos, é verdade. Contudo, possui uma primeira metade bastante aborrecida, onde sobram conversas e faltam assombrações. A espera do público para que aconteça algo de realmente relevante é longa e isso complica o envolvimento do espectador. Ademais, algumas das ideias usadas no longa são tão claramente retiradas de outras produções que nos faz sempre ficar com a sensação de “dejá vu”. A encenação totalmente baseada na perspectiva da câmera usada por um dos protagonistas é o fio condutor do mencionado “[Rec]” (posteriormente refilmado em Hollywood com o título de “Quarentena”), só que este último tinha a justificativa plausível de toda narrativa mostrada estar sendo exibida em um programa de TV. Em “Atividade”, tal perspectiva soa falsa, já que a partir de determinado momento não haveria mais motivo para Micah continuar filmando e carregando sua câmera o tempo todo pra cima e pra baixo (a personagem de Katie em alguns momentos reclama disso e eu concordo: que cara chato!).

Recentemente, tivemos nas telas uma amostra de terror em sua versão mais clássica, o longa “Arraste-me Para o Inferno”, o retorno de Sam Raimi à suas origens com resultados muito mais assustadores do que este cine-youtube em questão. Lamentavelmente, com resultados em bilheteria muito mais modestos. O que demonstra que, para as grandes massas, até o medo agora é resultado de campanhas de marketing bem realizadas. Não há mesmo nada mais irritante que o capitalismo...

Cotação: * * ½ (duas estrelas e meia)
Nota: 6,5

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Lua Nova" bate recorde


E "Lua Nova", a continuação de "Crepúsculo", bateu um recorde importante. O longa destronou "O Caveleiro das Trevas" como o filme que mais arrecadou no primeiro dia de exibição, atingindo a marca de US$ 72,7 mihões nos U.S.A (contra US$ 67,2 milhões do filme do Batman). Claro que a menor duração do longa dos vampiros, com suas 2h10min., contribui para tanto, já que as 2h40min. do "Caveleiro" redundavam em um menor número de sessões. Somado todo o primeiro final de semana, entretanto, "Lua Nova" arrecadou US$ 140,7 milhões, perdendo tanto para "O Cavaleiro...", que arrecadou US$ 158 milhões, como para "Homem-Aranha 3", o segundo colocado, com US$ 151 milhões.

Ao que tudo indica, o filme também deve arrebentar a boca do balão na Terra Brasilis. Na sexta-feira eu passei em frente à entrada de um cinema aqui de Natal e as filas de adolescentes com hormônios a mil não eram nem um pouco pequenas... Ah, e não me perguntem nada sobre o filme. Não dá para encarar sessões onde seus tímpanos acabam sofrendo tanto quanto se estivessem próximos a uma turbina de avião...

domingo, 15 de novembro de 2009

2012


O juízo final de Roland Emmerich


Roland Emmerich já destruiu o mundo em pelo menos duas oportunidades. A primeira delas em “Independence Day”, quando o planeta Terra se via invadido por seres extraterrestres violentos que destruíam o Empire State Building numa cena realmente memorável que, posteriormente, com os eventos de 11 de setembro de 2001, tornou-se estranhamente real e familiar. Alguns anos depois, Emmerich resolveu dar sua espetada nas questões climáticas e promoveu a destruição do planeta por meio de eventos climáticos que acontecem em decorrência da irresponsabilidade humana e, se no primeiro filme mencionado ele deixava transparecer um sentimento ufanista made in U.S.A, neste último o espírito crítico domina e vemos ianques procurando abrigo em países mais ao Sul, menos afetados pelos tais eventos naturais.

A questão é que o diretor não se deu por satisfeito e, inspirado por uma tal profecia maia que foi bastante divulgada na internet há algum tempo, resolveu promover a maior destruição em massa já vista nas telas de cinema. O tal prognóstico dos maias afirma que, em 21/12/2012, a Terra vai inverter seus polos e isso provocará o maior evento sísmico de todos os tempos. E é exatamente isso que é mostrado nas telas. E talvez seja exatamente isso o que o povo quer ver nas telas! Pude chegar a essa constatação durante uma sessão completamente lotada, como acho que não via desde os tempos de “O Senhor dos Anéis” ou da trilogia “Homem-Aranha”. Ainda não temos os números globais da estreia de “2012”, mas, com absoluta certeza, pelo menos no Brasil o filme foi um sucesso retumbante (teve até promoção na capa de um certo periódico de qualidade duvidosa, mas que tem, ainda, grande influência sobre a classe média dita “esclarecida”).

Como sempre, a hecatombe é mostrada ao espectador pelo filtro de um homem comum, aqui interpretado por John Cusack, o qual interpreta um escritor fracassado, separado da sua esposa porque esta afirma que ele dava mais atenção ao que escrevia do que à família. Por vias meio tortuosas, ele acaba descobrindo o que está para acontecer e dos planos dos governantes de sobreviver em uma espécie de arca de Noé tecnológica, juntamente com uma “elite” humana. Literalmente, já que eles enchem a tal nave também de bichos, procurando salvar pelo menos uma parte das espécies existentes. Obviamente, isso não inclui a maior parte da humanidade, a qual irá sucumbir num mar de terremotos gigantes e tsunamis mais gigantes ainda. É bom lembrar que o tal link familiar, que serve para ligar o espectador aos eventos apresentados, não é exclusividade de Emmerich, sendo usado em praticamente todos os filmes catástrofe (vide o exemplo recente de “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg).

Há ainda o contexto político. Agora, temos Danny Glover como presidente dos EUA, numa mais do que clara alusão a Barack Obama. Sintomático também que o presidente toma a decisão heróica e altruísta de aguardar os acontecimentos juntamente com a população, recusando-se a embarcar na tal nave-arca. Talvez isso denote a nova perspectiva que os americanos estão passando a ter de si mesmos e de seu líder. Os EUA agora não mais oprimem a humanidade, eles se solidarizam com ela (até onde isso é verdade, ainda estamos por saber). Mas é verdade que Emmerich (ele próprio autor do roteiro em parceria com Harald Kloser) também dá seu recado crítico, ao tocar no ponto da exclusão social, mostrando que aqueles que sobrevivem são os de alguma importância “política” ou que possuem dinheiro suficiente para comprar sua sobrevivência.

Obviamente, toda essa catástrofe é mostrada com a característica competência Hollywoodiana de sempre. Os efeitos visuais são mesmo impressionantes e o longa está correndo o sério risco de ser premiado com o Oscar da respectiva categoria. Não deixa de ser curioso, ademais, ver a imagem do Cristo Redentor se desintegrando e isso me leva a pensar que realmente o Brasil está adquirindo um outro status aos olhos da população global (e também fiquei me perguntando o quanto a Globo pagou para inserir um merchandising na dita cena). Entretanto, confesso que uma cena me doeu em especial: a da destruição do Vaticano. Ver as obras de Michelangelo se despedaçando foi realmente de uma tristeza profunda... Ainda bem que era apenas ficção...

O resultado das longas 2:30h de projeção é bastante oscilante. Algumas sequências realmente empolgam (afinal os filmes de fim do mundo de Emmerich sempre se tornam melhores se os enxergarmos como filmes de ação), mas algumas machadadas roteirísticas, nitidamente colocadas para gerar um final-família típico de blockbusters incomodam em excesso, assim como a punição para os gananciosos e aquelas que, de alguma forma, se prostituem. Ou seja, Emmerich promove mais uma vez o seu juízo final e, colocando-se na condição de Cristo julgador, escolhe quem deve viver e quem deve morrer. E também escolhe o continente que escapará a todo esse cataclismo. Não vou dizer aqui para não colocar um spoiler, mas vai a dica: é algo politicamente bem correto. Todavia, ao sair da sala de exibição, pude perceber o quanto filmes assim ainda agradam às massas. Uma garota que estava ao meu lado exclama: “nossa, eu tava até chorando...”. Eu e minha namorada olhamos um para o outro e começamos a rir e exclamar: “menos, por favor, menos...”. ;=)

Cotação: * * ½ (duas estrelas e meia)
Nota: 6,5

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os Fantasmas de Scrooge

Relendo um clássico

“A Christmas Carol”, obra escrita por Charles Dickens em 1843, é um dos textos mais adaptados para as telas na história do cinema. Existe até uma versão com os personagens clássicos de Walt Disney, como o Tio Patinhas na pele do velho Ebenezer Scrooge, um homem ranzinza e extremamente mesquinho, avarento, incapaz de compreender o espírito do Natal. Um belo dia, no entanto, ele é visitado por três espíritos que lhe mostram o passado, o presente e o futuro, tanto do próprio Scrooge quanto daqueles que o cercam, fazendo com que o velho avarento passe a enxergar a vida com outros olhos. E eis que mais uma vez temos a mesma história sendo levada aos cinemas, desta vez pelas mãos do papa do cinema 3D, Robert Zemeckis (mais conhecido do grande público como “o diretor de Forrest Gump”), responsável por experiências anteriores em novas tecnologias, como a utilização da técnica da captura de movimentos de atores em “O Expresso Polar” e do emprego do 3D, aliado à mencionada técnica, em “A Lenda de Beowulf”.

A utilização destas modernas técnicas também é o mote desta nova versão do conto de Dickens. Zemeckis vem aprimorando a tecnologia de captura, que está cada vez mais realista. Em novos espectadores, ainda não acostumados com esse padrão, é comum expressões de admiração como “nossa, parecem atores de verdade” (muito embora seja importante lembrar que, em certos momentos, os olhos dos personagens ainda apareçam de um forma um tanto sem vida). Pena que o recurso 3D ainda esteja restrito a um pequeno número de salas em solo brasileiro. Aqui em Natal não há sequer uma sala com este tipo de projeção o que me impossibilitou avaliar o emprego da tecnologia. Entretanto, é possível afirmar que algumas seqüências são de um acabamento gráfico e criatividade visual excelentes, como os planos aéreos sobre a Londres vitoriana, lindamente realizados, muito embora algumas seqüências tenham sido perceptivelmente orquestradas para gerar maiores efeitos 3D.

Contudo, não é a questão gráfica o que mais desponta aos olhos do espectador nesta nova adaptação, mas sim o tom sombrio conferido à animação. O produto, tal como resultou, talvez seja até mesmo pouco recomendável para os pequenos. Algumas cenas chegam a ser dignas de filmes de terror [SPOILER] como aquela em que vemos a cidade repleta de almas penadas, todas arrastando as correntes de uma vida repleta de erros [FIM de SPOILER]. As concepções visuais, neste ponto, mostraram-se ainda mais felizes, traduzindo perfeitamente o mundo espiritual em que Srooge vivia e o destino que se lhe reservava caso sua conduta não sofresse modificações. Também importante destacar que Jim Carrey foi o responsável pela caracterização e vozes não só de Scrooge como de três dos fantasmas que o assombram. Pena que as versões legendadas do longa sejam restritas e a grande maioria do público não poderá acompanhar o seu trabalho de voz (além dele, também participam Gary Oldman e Collin Firth).

Alguns podem afirmar que Zemeckis apenas choveu no molhado com mais essa adaptação do conto de Dickens para a película. Mas isso não é verdade. Na música, por exemplo, muitas vezes uma canção é exaustivamente executada, ganha inúmeras versões, mas também é verdade que alguns artistas conseguem dar uma nova cara para uma melodia já manjada. Aqui, esse me pareceu o caso. Ademais, a trama pode até ser amplamente conhecida no países de cultura anglo-saxã, mas não o é nos países de cultura latina, ainda mais em locais em que a população, historicamente, teve pouco acesso à cultura, como o Brasil. O que é bom deve sempre ser perpetuado e a iniciativa de Zemeckis já seria louvada apenas por esse motivo. Ou será que devemos criticar alguma orquestra por executar, pela bilionésima oportunidade, a 9ª Sinfonia de Beethoven? Nunca é demais reler um clássico, mesmo que essa releitura seja feita através de um filme.


Classificação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Besouro


Ação Made In Brazil

O cinema brasileiro costuma receber fortes críticas pela enorme dificuldade que apresenta em lidar com o cinema de gênero. Nossas produções praticamente, e principalmente depois da chamada “retomada”, se limitam a apresentar comédias e filmes de caráter histórico e/ou crítica social, neste último caso com uma forte ênfase na violência urbana (vide “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”). A investida eu outras vertentes do cinema se limitam a espasmos como os longas de terror de um Zé do Caixão ou mesmo produções de caráter biográfico-popular como “2 Filhos de Francisco”. Parece faltar coragem aos produtores e diretores de se aventurarem em gêneros como aventura, ação ou suspense. E foi procurando suprir esta lacuna que diretor estreante João Daniel Tikhomiroff, egresso do ramo publicitário (já ganhou inúmeros prêmios no festival de publicidade de Cannes) realizou seu primeiro longa-metragem.

“Besouro” nos apresenta a história de um lendário capoeirista (interpretado no filme pelo novato Aílton Carmo, escolhido entre praticantes da arte) responsável por liderar uma revolta de negros durante os anos 20, quando estes ainda viviam em condições análogas a de escravos, sem direitos respeitados e com sua cultura ainda totalmente reprimida. A capoeira, por exemplo, era uma prática proibida por lei e reprimida com violência pelos coronéis, os quais meio que faziam a função da polícia nos rincões do país. Aqui, na versão romanceada levada à tela, o roteiro (escrito pelo próprio Tikhomiroff ao lado de Patrícia Andrade e baseado no livro “Feijoada no Paraíso”, de Marcos Carvalho) utiliza a velha ferramenta, normalmente presente nos filmes de artes-marciais, do “mestre” que ensina ao discípulo não apenas a luta em questão, mas também lições de honra, respeito, disciplina e coragem. E assim, no início, temos o pequeno protagonista ao lado de seu mentor, o mestre Alípio, o qual lhe diz que todo capoeirista deve escolher um nome pelo qual deverá ser lembrado. O pequeno não titubeia e escolhe “Besouro”. Logo em seguida com um corte que revela uma longa passagem no tempo, vemos que mestre Alípio é assassinado, o que levará o personagem-título a iniciar uma revolta contra a opressão em que ainda vivem os negros da região.

Todavia, talvez a inexperiência leve os autores a conduzir um filme que se pretende de ação/aventura de forma um tanto titubeante. Besouro mostra-se muito mais um personagem em dúvida com relação à sua “missão” do que um verdadeiro líder capaz de aglomerar seu povo em torno de um objetivo comum. Um herói que se mostra reflexivo demais, contemplativo em excesso. Suas divagações acabam sendo mais presentes que as sequências de ação. E o foco da trama ainda é desviado para um triângulo amoroso entre Besouro e seus amigos de infância Dinorá (Jéssica Barbosa) e Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus) que pouco contribui para o desenrolar dos acontecimentos. Tikhomiroff já chegou a afirmar que um herói precisa de um amor, o que é uma assertiva boba e que talvez mostre o quanto o diretor poderia estar apegado a clichês na concepção de sua obra. Porque é isso que muitas vezes “Besouro” parece, uma sucessão de clichês aventureiros levados para um ambiente tupiniquim.

Entretanto, há aspectos muito positivos a serem ressaltados. O principal deles é a abordagem da cultura e mitologia afro-brasileiras. Estamos habituados a ver este tipo de abordagem em relação a culturas e elementos mitológicos estrangeiros, como nos casos clássicos de “O Senhor dos Anéis” e de vários filmes de artes-marciais como “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”. Assim, torna-se desde logo interessante vermos a representação de divindades do candomblé como Exu, Ogum e Iansã, trabalho que é realizado de forma fluida e sem forçação de barra, de maneira perfeitamente natural. A questão técnica também é outro ponto a ser elogiado. Filmado em Igatu (BA), na Chapada Diamantina, a fotografia é primorosa, e a utilização de atores em sua maioria desconhecidos, alguns deles escolhidos entre capoeiristas locais, contribuem para a imersão do espectador na trama, emprestando-lhe maior veracidade. Os efeitos especiais também são competentes, principalmente se levarmos em conta a pouca familiaridade de nossos cineastas com esses recursos. E a vinda do coreógrafo Huen Chiu Ku, o mesmo de “Kill Bill” e “O Tigre e o Dragão”, para elaborar as cenas de luta foi extremamente bem-vinda. Essa importação de especialistas, muito frequente em Hollywood, deveria ser mais praticada pelos produtores nacionais, que não costumam fazê-lo não se sabe muito bem o porquê (nem mesmo os custos me parecem uma justificativa muito plausível). Também vale destaque a trilha sonora, com canção tema “Besouro, Cordão de Ouro” interpreta pela Nação Zumbi.

O resultado de “Besouro”, que antes de ser lançado teve uma boa divulgação na internet, com vídeos pipocando no Youtube (o que deve lhe garantir uma boa bilheteria) é uma obra irregular, mas que merece ser conferida pelo gostinho diferente que traz para o cinema nacional. Afinal, você lembra de ter visto algum filme de ação brasileiro nos últimos anos? A iniciativa é interessante e sair do marasmo é sempre uma boa ideia.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,0

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Michael Jackson's This Is It


Belo Epitáfio

Em 25 de junho do corrente ano, qualquer ser humano vivo e pensante sabe o que sucedeu neste planeta Terra. Michael Joseph Jackson, o denominado “Rei do Pop”, faleceu vítima de uma overdose de medicamentos. Nomes como Propofol e Demerol caíram na boca do povo enquanto a necropsia era realizada e, mais importante, uma comoção tomou conta do mundo inteiro, que finalmente parecia esquecer as esquisitices do ídolo do pop para enxergá-lo como o grande artista que sempre foi e, principalmente, como um ser humano, não apenas uma espécie de “ET” que servia de chacota em programas humorísticos e tabloides sensacionalistas.

Quando de seu falecimento, MJ havia finalizado os ensaios para o início de sua nova temporada de shows, após anos fora dos palcos. Seriam 50 apresentações em Londres, todas com ingressos esgotados com meses de antecedência. Tristemente, o astro não chegou a realizar sequer uma apresentação. Felizmente, a sequência enorme de ensaios, os quais, segundo a mídia, teriam levado o astro a uma estafa e a sentir fortes dores (consequência do ritmo forte da preparação aliado a problemas reumáticos), foi registrada em mais de 80 horas de gravações, um tesouro que, obviamente, poderia ser lapidado e levado aos fãs como um presente. Obviamente, tal iniciativa não substituiria os shows que a estrela faria e que foram cancelados pelo destino. Entretanto, a ideia era boa e foi exatamente isso que aconteceu. Alguns podem afirmar que “This Is It”, o documentário resultado da edição das mencionadas 80 horas de gravações, seja oportunista e caça-níquel. É uma afirmação que tem seu teor de verdade, principalmente se levarmos em consideração o caráter da família Jackson, mercenária até a raiz da alma. Mas também é verdade que o material merecia mesmo ser levado ao público, tal o conteúdo emocional e verdadeiro que se percebe ao longo de toda exibição do longa.

Dirigido com muita competência por Kenny Ortega, as escolhas das cenas levadas à projeção não poderiam ser mais felizes. Inicia-se com os depoimentos de vários daqueles que integraram a produção do show. Diretores, assistentes, dançarinos, todos vão falando sobre a experiência que era trabalhar com o mega-astro. E não há como negar a sinceridade das palavras e emoção. Afinal, quando das declarações, Michael ainda estava vivo e, é preciso dizer, num momento de grande baixa na carreira, gerado pelo processo judicial em que foi acusado de abuso sexual contra menores e o fracasso comercial do seu último trabalho, o álbum “Invincible”. O depoimento de alguns dançarinos, ao afirmarem que MJ foi a razão deles trilharem essa profissão, realmente atinge o coração do público. Em seguida, vemos o desenvolvimento dos ensaios como se fosse o próprio show. Vamos passando por vários clássicos do artista, como “You Make Me Feel”, “They Don’t Care About Us”, ‘I’ll Be There”, entre outros. Mas alguns merecem ser destacados. A execução de “Thriller” ganha novos ares com a exibição do vídeo em 3D que estava sendo elaborado para o espetáculo. Já “Beat It” tem sua coreografia minuciosamente detalhada e, mais ainda, conta com uma grande participação da loura-gata e guitarrista Orianthi Panagaris, que rouba mesmo a cena em várias sequências (tenho a impressão que essa menina vai receber uma profusão de propostas de trabalho a partir de agora). Um grande momento é a execução de “Smooth Criminal”, com MJ inserido nas imagens de “Gilda” (bom ver a Rita Hayworth)e contracenando com Humphrey Bogart. Outro ponto marcante é a apresentação solo da coreografia de Michael para Billie Jean, aplaudida entusiasmadamente por toda a equipe presente. Aliás, a ideia concebida por Ortega foi justamente a de elaborar o documentário como se fosse realmente o show que os fãs não tiveram oportunidade de assistir. Em determinado ponto, são mostrados até mesmo os efeitos especiais que seriam vistos apenas em Londres, quando alguns dançarinos têm suas imagens multiplicadas centenas de vezes. Uma das grandes curiosidades, ademais, é ver o Michael dos bastidores, com seu jeito extremamente exigente, mas sempre educado (ao contrário de muitas estrelas pop por aí que, com bem menos talento, são grosseiros e estúpidos com aqueles que os cercam).

É impressionante também notar algumas coincidências. No documentário, percebemos que os ensaios já haviam sido concluídos e que Michael morreu exatamente entre o fim dos preparativos e a estreia da série de shows. A despedida e agradecimentos ao fim soam estranhamente como um adeus do ídolo, e a conclusão se torna extremamente triste quando nos damos conta que todo aquele esforço foi despendido por um show que nunca aconteceu (vale ressaltar inclusive a boa forma de Michael, que nunca denotaria um estado de saúde comprometido).

A experiência se tornou ainda melhor ao pegar uma das primeiras sessões de exibição, repleta de fãs. Ao término, vários dos presentes aplaudiram de maneira empolgada o que viram e, se agradou desta forma aos muito exigentes fãs do astro, o longa deve ter mesmo atingido o pleno objetivo de tentar eternizar o momento que acabou se tornando o epitáfio de um gênio da cultura popular. E o seu título, “É isso” em português, também soa como o resumo de uma ópera que foi acompanhada pelo mundo inteiro desde a infância de Michael Jackson. Mesmo que você não seja fã, vale muito à pena conferir. Não será sem méritos se o filme vier a receber o Oscar na categoria melhor documentário ano que vem (e o trabalho se torna ainda mais impressionante se lembrarmos o pouco tempo que levou para ser realizado). Parabéns, Michael, pelo imenso talento que teve e pelo ser humano que foi. E, mesmo que sua família procure apenas os bônus financeiros do tesouro é que seu legado, se ao menos continuar entregando aos cuidados de gente competente como no caso deste “This Is It”, sua memória estará bem protegida.

Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Distrito 9


Apartheid alienígena

Na última década, vem ganhando força uma forma de se fazer cinema surgida a partir de alguns filmes de horror. Trata-se de narrar uma trama ficcional de uma forma semelhante a documentários ou programas jornalísticos. São os casos de filmes como o famoso “A Bruxa de Blair” e a recente produção espanhola “[Rec]”, onde a apresentadora de um programa jornalístico, juntamente com seu cinegrafista, mostra os acontecimentos em uma madrugada em um prédio residencial, tudo dentro de um estilo vídeo-verdade que procura transmitir aos espectadores a sensação de que tudo aquilo realmente está acontecendo. Essa fórmula vem encontrando êxito junto ao grande público e trazendo uma enorme rentabilidade, já que tais produções costumam ter baixo orçamento, fazendo a alegria dos estúdios.

Agora, este “Distrito 9” traz esse formato vídeo-verdade para o terreno de outro gênero cinematográfico, a ficção-científica. E não apenas isso. Insere um contexto de crítica social que poucas vezes se vê no gênero, o qual se tornou terreno fértil para os diretores explorarem questões existenciais e até mesmo teológicas (vide o clássico absoluto “2001 – Uma Odisséia no Espaço”), mas que pouco é utilizado como ambiente para tratar de discussões de caráter mais sociológico.

Dirigido pelo novato Neill Blomkamp e ostentando como produtora a grife de Peter Jackson, o longa foi desenvolvido a partir de uma curta-metragem que acabou caindo nas graças do famoso diretor de “O Senhor dos Anéis”. Na trama, alienígenas vivem em guetos-favelas na cidade de Johanesburgo, África do Sul, uma vez que sua nave não possui mais combustível para retornar e flutua há 20 anos sobre a metrópole. Os aliens são semelhantes a crustáceos gigantes e por isso são apelidados pejorativamente pelos humanos de “camarões”, sofrendo todo tipo de discriminações e humilhações. Uma clara alegoria do regime do apartheid sul-africano e também das várias formas de marginalização de grupos étnicos ou sócio-econômicos existentes no mais diversos agrupamentos humanos. Tudo isso mostrado de forma realista em uma estrutura documental, onde especialistas falam sobre os fatos mostrados na tela, além de repórteres e câmeras de TV noticiarem os fatos. A ausência de atores conhecidos só reforça a sensação de realidade, aliada a uma fotografia que lembra muito as imagens televisivas e, em outros momentos, remetem às técnicas usadas por Fernando Meirelles para filmar as favelas gigantes em “O Jardineiro Fiel”. Uma certa estranheza domina a primeira metade de projeção, jogando o espectador num amontoado de sensações atípicas.

Contudo, é necessário estabelecer links emocionais entre a plateia e a narrativa (afinal, apesar da estrutura documental, é bom lembrar que não se trata de um documentário). E é nesse ponto que o roteiro (escrito pelo próprio Blomkamp em parceria com Terri Tatchell) começa a apresentar suas oscilações. Busca-se estabelecer a ligação com o espectador através do personagem de Wikus Van De Merwe, um funcionário da MNU (uma espécie de ONU deste mundo fictício), incumbido de realizar o remanejamento da população de aliens das favelas onde eles vivem para um assentamento mais afastado do centro de Johanesburgo, num toque que lembra bastante as origens da Cidade de Deus no Rio de Janeiro (e, obviamente, isso não é mera coincidência). Durante sua missão, Wikus entra em contato com uma substância alienígena que afeta seu DNA, o que o leva a se aliar inevitavelmente com os aliens para obter sua possível cura (esse é um ponto em que “A Mosca”, de David Cronnenberg, vem logo à mente). A figura do mocinho que antes era meio-vilão, mas que passa a enxergar as coisas de uma outra forma após se sentir como aqueles a quem perseguia já se tornou um tanto clichê, muito embora o intérprete de Wikus, Sharlto Copley (amigo de longa data do diretor), seja bastante convincente em sua atuação.

A segunda metade do filme, desta forma, acaba se tornando um tanto previsível em várias nuances, principalmente porque parece esquecer a crítica social e mergulhar no cinema de ação de forma irrefreável e, assim, os furos de roteiro vão se tornando cada vez mais aparentes (afinal, se as armas dos aliens funcionavam, porque eles não as usavam contra os humanos?). O longa só não cai na pasmaceira total porque várias seqüências são mesmo bem realizadas e os efeitos especiais (obviamente vindos da Weta de Peter Jackson) são extremamente eficientes (mesmo com um alardeado baixo orçamento de US$ 30 milhões), muito embora caiba destacar aqui um certo excesso de violência desnecessária (sangueira e corpos partidos são freqüentes). Outro fator que depõe contra “Distrito 9” é sua trilha sonora, a qual também bebe da fonte de filmes como “O Jardineiro Fiel” e “Diamante de Sangue”, mas que aqui soa deslocada, querendo dar a impressão de estarmos vendo um filme denúncia e não uma ficção científica (o que para alguns pode ser considerado um mérito, tendo em vista as pretensões do diretor).

De qualquer forma, trata-se de um bom começo para Blomkamp, mostrando que Peter Jackson parece ter faro para encontrar novos talentos. E, dentro do quadro atual de Hollywood, alguém que tenha novas ideias, com a de trazer a crítica social mais direta para o terreno da ficção científica, é sempre bem-vindo. Confesso, além disso, que gostei mais do estilo ficção-documentário neste gênero do que no terror, o qual sempre perde em envolvimento ao assumir esta forma. Uma mistureba interessante que vale uma passadinha no cinema mais próximo.

Obs. As legendas estão um lixo. Em alguns momentos os aliens falam e simplesmente não aparece a tradução na tela (só as legendas originais em inglês). Pra completar, o(a) tradutor(a) parece ser fã de “Tropa de Elite”, já que coloca termos como “BOPE” e “Caveirão” na tradução, em uma mediocridade escandalosa (e mesmo idiota).

Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5