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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eu Quero Esse Pôster #11


Descobri este poster sensacional de "Os Pássaros", um dos grandes filmes do velho Hitch!

domingo, 14 de novembro de 2010

Para Ver em Um Dia de Chuva



Um Dia de Cão
(Dog Day Afternoon)


Tensão e crítica social com Sidney Lumet

Se você quer imaginar um diretor que deveria ser mais reconhecido do que de fato o é, este diretor sem dúvida é Sidney Lumet. Este cineasta é o responsável por filmaços inesquecíveis desde sua estreia, em 1957, com “12 Homens e Uma Sentença”, um trhiller que se passa inteiramente dentro de uma sala onde 12 jurados estão confinados para decidir o destino de um acusado em certo julgamento. E o que parece impossível acontece. Mesmo com esta limitação de espaço, Lumet consegue manter o ritmo do início ao fim, unindo um roteiro com diálogos afiados a uma edição primorosa (e também contando com ótimos atores, como o astro Henry Fonda).

Lumet parece mesmo se dar muito bem com microcosmos estabelecidos em pequenos ambientes onde a tensão reina e os personagens parecem ser levados a confrontar os seus limites. Este também é o mote explorado por ele no intenso “Um Dia de Cão”, o qual também se insere entre seus filmes “nova-iorquinos” (afinal, não são apenas Woody Allen e Martin Scorsese que usam continuamente Nova York para retratarem seus dramas). Baseado numa reportagem publicada pela revista “Life” (muito embora o roteiro, escrito por Frank Pierson, tenha levado o prêmio de melhor roteiro original da Academia de Hollywood) sobre um assalto a banco realizado por um certo John Wojtowicz, o longa metragem de 1975 se passa quase que inteiramente dentro de uma agência bancária, onde assaltantes e reféns são cercados pela polícia ao longo de um dia quente de verão. Os assaltantes, totalmente inexperientes no “ramo”, chamam-se Sonny (Al Pacino) e Sal (John Cazale, ator talentosíssimo que faleceu aos 42 anos, vítima de câncer). Sonny é um ex-combatente do Vietnã e ex-bancário, sendo que sua motivação para o crime é bastante peculiar: conseguir dinheiro para que seu namorado Leon (Chris Sarandon) realize uma operação de mudança de sexo.

Pode-se afirmar, antes de tudo, que “Um Dia de Cão” é um dos típicos produtos do que se convencionou chamar como “Nova Hollywood”, movimento surgido na segunda metade dos anos 60 e que foi responsável pela projeção da figura do diretor no cinema americano em contraposição ao studio system, o qual teve seu auge até o fim dos anos 50. Contraditoriamente, foi essa nova forma de enxergar a maneira de se fazer cinema que tirou os estúdios da bancarrota (“O Poderoso Chefão”, por exemplo, salvou a Paramount da falência). Devido ao seu perfil autoral (adotando o pensamento difundido pela Nouvelle Vague francesa), estes jovens diretores inseriam em seus filmes temas polêmicos e visões heterodoxas sobre os mesmos, algo que, até então, era realizado de forma mais tênue devido à ingerência dos produtores no resultado final. Outro fator que também contribuiu foi o abrandamento das normas de classificação etária nos EUA, com o fim do código de normas que as produções eram obrigadas a seguir.

A temática abordada pelo longa de Lumet só poderia mesmo surgir e ser bem aceita em um ambiente de contestação do establishment, onde falsos pudores foram jogados pela janela, substituídos por um retrato mais fiel da sociedade. Sociedade esta atônita com o horror da guerra do Vietnã e com a corrupção na política, representada de forma lapidar com o escândalo de Watergate. A cinematografia dos anos 70 tornou-se, desta forma, a mais contestadora da história do cinema americano, expondo a sujeira escondida debaixo do tapete do moralismo ianque. Com um público ávido por enfrentar as situações postas, a história de Sonny acabou se tornando um sucesso de bilheteria. Afinal, Sonny era um desempregado que, num ato de amor e desespero, resolve fugir às regras sociais para realizar o sonho daquele que amava. Uma inadequação do indivíduo ao meio ainda mais potencializada por sua homossexualidade, poucas vezes mostrada de forma tão aberta até então.

O inconformismo e a crítica para com o status quo vigente são ainda representados pela menção ao massacre de Attica, uma prisão onde poucos anos antes havia acontecido um massacre de detentos promovido pela polícia de Nova York (uma espécie de “Carandiru” local), muito embora este seja um aspecto que torna o longa datado e, principalmente, causa estranheza àqueles que não conhecem o evento mencionado.

Outro aspecto importante levantado por Lumet na projeção é a espetacularização realizada pela mídia e o surgimento das celebridades instantâneas. É nítido que vários dos personagens, seja os reféns, seja a população que acompanha de perto os acontecimentos, se satisfazem com a ideia de se tornarem conhecidos a partir de então. “Vou aparecer na TV” ou “sou um astro”, são falas que sublinham a narrativa e, de certa forma, antecipam os dias atuais onde a previsão dos 15 minutos de fama feita por Andy Warhol parece cada vez mais factível.


Toda esta abordagem densa e crítica, entretanto, é conduzida por Lumet de forma extremamente envolvente. Com uma edição brilhante (indicada ao Oscar), o ritmo do longa jamais cai e a sensação de tensão acompanha cada fotograma exibido. O clima tenso, por outro lado, não teria sucesso não fosse a contribuição extraordinária do elenco. Pacino (que cogitou abandonar o projeto antes começarem as filmagens) está brilhante na pele do protagonista, repetindo aqui a parceria de sucesso com Lumet iniciada dois anos antes em “Serpico” (outro dos filmes nova-iorquinos do diretor). Com uma atuação visceral, o ator transformou Sonny em um personagem inesquecível, tendo recebido elogios do próprio John Wojtowicz. Cazale também leva brilhantismo ao seu desequilibrado Sal, personagem dos mais instigantes (memorável a cena em Sonny lhe pergunta para que país ele gostaria de fugir e o mesmo responde “Wyoming”). Ademais, buscando maior realismo, Lumet determinou que todo o elenco deveria utilizar roupas próprias nas gravações, substituindo as tradicionais roupas de estúdio. Aliando esses detalhes a uma improvisação nas falas dos atores, o resultado se mostra bastante naturalista, algo ainda mais necessário em história que se baseia em fatos reais.

“Dog Day Afternoon”, com seu senso de urgência, mostra-se, desta maneira, como um filme bastante contemporâneo, apto a agradar o público impaciente dos dias atuais (mesmo considerando alguns elementos datados, como mencionado mais acima). Por outro lado, revela um olhar contundente acerca da moral e valores do meio social estadunidense, capaz de levar à reflexão o espectador mais exigente, longe da infantilidade que parece dominar as salas de cinema nos dias de hoje. Além disso, é, antes de tudo, um belo exemplo das capacidades técnicas e artísticas de Sidney Lumet, um diretor que, decididamente, merece ser mais conhecido e, principalmente, reconhecido por seus pares e amantes do cinema.

Cotação:

Nota:9,5

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quero Ver Novamente #8

A morte de Dino De Laurentiis se tornou fato noticiado até no Jornal Nacional desta última quinta-feira, 11/11/2010. À parte seu envolvimento com a máfia italiana, Laurentiis produziu grandes obras-primas da 7ª arte e também algumas bombas... Mas vamos lembrar dele por filmes como "A Estrada da Vida", dirigido pelo gênio Federico Fellini. Uma obra pungente com interpretações soberbas de Anthony Quinn e Giulietta Masina (esposa de Fellini). Confira abaixo algumas cenas com a bela trilha do mestre Nino Rota!


sábado, 6 de novembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer



O Homem que Matou o Facínora
(The Man Who Shot Liberty Valance)



Os fatos e as lendas



Em certa oportunidade, Jean-Luc Godard, ainda um crítico da revista Cahiérs du Cinema, foi levado às lágrimas em uma sala de cinema. Ele estava sensibilizado pela forte interpretação de John Wayne e a tragédia vivida pelo personagem deste em “Rastros de Ódio”, um dos mais importantes e amargos westerns de todos os tempos, dirigido por ninguém menos que John Ford, um dos grandes gênios da história do cinema.

Muitos afirmam que o Oeste mítico foi criado por Ford com seus personagens durões e sua bela fotografia das imponentes regiões desérticas norte-americanas, principalmente do Monument Valley. Esta é uma verdade apenas parcial. Não se pode negar que Ford, auxiliado pela presença de John Wayne, seu parceiro em muitos filmes, transmitiu a milhões de espectadores a ideia consagrada da formação da sociedade americana. Contudo, apesar de se valer de mitos e arquétipos, Ford os utiliza não como uma elegia à América, mas principalmente como uma maneira de dissecá-la, mostrando o outro lado, muito menos louvável, desta mesma sociedade. O citado “Rastros de Ódio”, por exemplo, mostra que a formação dos EUA está calcada no racismo, o qual foi responsável pela dizimação indígena e, posteriormente, a segregação dos negros nos estados sulistas.

Já em “O Homem Que Matou o Facínora”, Ford vai ainda mais longe neste processo de desmistificação. Em um olhar mais atento, parece querer afirmar que toda a construção da nação estadunidense, tal como a conhecemos, na realidade pode ser uma grande farsa criada para que não enxerguemos uma realidade não muito bonita ou meritória. Afinal, é mais fácil respeitar a História quando ela nos revela lances de heroísmo e retidão, ingredientes que podem transformá-la em uma autêntica lenda. Mas a História é, antes de tudo, construída por seres humanos, demasiadamente humanos, com circunstâncias humanas que fogem em muito de situações míticas.

O longa-metragem de 1962 (com roteiro escrito por James Warner Bella e Willis Goldbeck, a partir de uma obra de Dorothy M. Johnson) se inicia com a chegada do senador Ransom Stoddard (personagem de James Stewart, um dos melhores e mais carismáticos atores hollywoodianos) à cidade de Shinbone, acompanhado de sua esposa Hallie (Vera Miles), após muitos anos sem retornar, para o funeral de um cidadão local, um certo Tom Doniphon (John Wayne, fazendo sua caracterização típica), homem praticamente desconhecido pelas novas gerações do vilarejo. Instado por jornalistas e o prefeito locais, Stoddard passa a narrar os motivos de sua deferência ao falecido, na realidade o verdadeiro responsável pela eliminação de um bandido que assolava a região anos antes (o Liberty Valance do título original, interpretado por Lee Marvin), feito que acabou sendo atribuído ao agora senador devido às circunstâncias de como ocorreu. Na verdade, Stoddard, à época, era um recém formado em Direito, um homem vindo dos meios mais civilizados do Leste. Um estranho no ninho diante da lei do mais forte que imperava na região selvagem para a qual migrou. Entretanto, vai, aos poucos, descobrindo que as leis são insuficientes para garantir a sobrevivência naquele meio inóspito. Trava-se, desta maneira, de forma alegórica, um embate entre a civilização e o meio selvagem, entre o homem “esclarecido” e o homem “rude” (representado tanto por Liberty Valance quanto por Tom Doniphon). Tal antagonismo é ainda personificado pela personagem de Hallie, que se vê dividida entre o gentil e educado Ransom e o vigoroso e viril Doniphon.


A resolução levada ao conhecimento do público pelos meios comunicação (bastante criticados por Ford no longa) parece sugerir uma conciliação destes dois opostos. O homem civilizado representado por Stoddard usa de métodos embrutecidos quando necessário, no caso para defender sua própria vida. Uma síntese da ideia corriqueira que os próprios norte-americanos fazem de si mesmos: pessoas civilizadas que recorrem à violência quando não resta outra alternativa (pensamento usado para justificar até mesmo a bomba em Hiroshima). No entanto, trata-se de uma grande ilusão vendida através dos séculos. Na trama, Stoddard jamais venceria Valance com suas próprias forças. Apesar de sua coragem, Liberty é morto por Doniphon, com um tiro às escondidas. E, mesmo depois de saber a verdade, Stoddard aceita os louros da fama. Enfim: o senador simboliza uma América que exclui a verdade quando lhe é conveniente. A frase emblemática do longa sintetiza o conceito de forma perfeita: “quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”.

Ou seja, Ford dá um tapa cruel no rosto da sociedade ianque, desconstruindo os mitos e realizando uma auto-crítica como poucas vezes se observa no cenário de Hollywood. Não é à toa que seu estilo clássico, mas ao mesmo tempo incisivo, se tornou referência para várias gerações de cineastas, desde o referido Godard da Nouvelle Vague até nomes como Clint Eastwood (que considero o seu mais talentoso e fiel discípulo direto). Eis um gênio que merece ser mais conhecido pelas novas gerações. No caso dele, sua genialidade é muito mais fato do que lenda.


Cotação:

Nota: 10,0

domingo, 31 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Hiroshima, Meu Amor
(Hiroshima, Mon Amour)



Nós somos nossa memória



É difícil escrever sobre um filme como “Hiroshima, Meu Amor”, não só pela sua complexidade, mas também pela enormidade de textos já escritos sobre o mesmo. O filme de Alain Resnais, que pegou carona na Nouvelle Vague (muito embora o próprio Resnais não fizesse exatamente parte do movimento), é um dos mais debatidos de toda a história do cinema, muito devido ao potencial inovador que trouxe para a sétima arte. O longa é uma mistura de drama e documentário e sua primeira parte, sé é que podemos dizer assim, é uma das mais famosas e impactantes já vistas.

Resnais era documentarista antes deste trabalho, sendo famoso o seu “Noite e Neblina” (de 1955), sobre os campos de concentração nazistas, e havia começado “Hiroshima” não como uma ficção, mas como documentário. É daí que surgiram as imagens inesquecíveis de Hiroshima destruída, dos corpos carbonizados, dos sobreviventes miseráveis, do bebê ferido e em prantos, do memorial da bomba na cidade, cenas estas sublinhadas pela memorável frase “você não viu nada em Hiroshima”, pronunciada pelo ator japonês Eiji Okada, talvez querendo dizer que o pior ainda estaria por vir (Curiosidade: Okada não falava francês e teve que aprender o texto foneticamente). Em contraponto a esta fala, lançam-se as frases ditas pela personagem da atriz francesa Emmanuelle Riva, afirmando que “viu tudo em Hiroshima”. Esta rica contraposição foi levada a cabo pelo belo texto de Marguerite Duras, escritora francesa que faria aqui sua primeira incursão no cinema (ela posteriormente também se tornaria diretora), elaborando um roteiro baseado em experiências pessoais que já haviam sido tema de livros de sua autoria.

Este aspecto literário do longa é ainda mais realçado em sua “segunda parte”. Os personagens de Riva e Okada são amantes que se encontram em Hiroshima. Ele é um arquiteto; ela, uma atriz que está na cidade para realização de filmagens. Aos poucos, ela vai revelando fatos marcantes do seu passado na França, mais precisamente em Nevers, cidade da Bretanha ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Aos poucos, vamos descobrindo que a mesma teve um romance com um soldado alemão, o qual acaba sendo morto no dia em que iriam fugir para viverem livremente seu amor. A família descobre a relação e a jovem sofre duríssimas consequências. Este passado da atriz em Nevers é mostrado através da reconstrução de memórias. Não sabemos como de fato os eventos aconteceram, mas somente como eles se processaram na memória da narradora. A memória, frise-se, é fugidia, escorregadia, pregando-nos peças e recriando os fatos de uma forma que, em muitas ocasiões, pode ser a mais confortável para a nossa consciência. E assim, a atriz vai narrando ao arquiteto (os personagens não possuem nomes), de maneira similar a uma sessão psicanalítica, as suas vicissitudes em Nevers, dando-nos uma visão da formação de sua personalidade, das motivações do seu comportamento. A memória, parece dizer Resnais, é a principal responsável por sermos o que somos.


Essa perspectiva pessoal também dialoga diretamente com o coletivo. Se a humanidade, como um todo, possui em sua História a memória dos fatos que delimitaram seus rumos, cada ser humano possui em si também eventos que marcaram/marcarão para sempre o seu destino. A Nevers da protagonista funciona para ela como Hiroshima funciona para o povo japonês, ou seja, um marco divisor que influencia seu comportamento mesmo após muitos anos dos eventos ocorridos. Cada ser humano possui uma Hiroshima que, no caso da personagem, é sua Nevers, como fica bem delimitado na “terceira parte” longa.

Vale salientar que, para uma narrativa calcada em memórias, a estrutura usada por Resnais foi necessariamente inovadora para o seu tempo. As palavras em off, no mencionado início, a sobreposição às imagens da guerra, o uso de flashbacks constantes, levando a uma projeção não linear, causaram um grande impacto na época, impacto hoje bastante diluído devido ao uso constante dos artifícios usados pelo diretor, os quais se tornaram comuns até mesmo na televisão. Resnais, ademais, radicalizaria esta proposta no seu filme seguinte, “O Ano Passado em Marienbad”, tornando-se quase inacessível ao grande público tal a dificuldade existente em sua compreensão.

Essa forma difícil, bem como a banalização de suas inovações, faz com que boa parte do público das novas gerações possua um certo desdém para com a obra do diretor francês. Uma pena. Resnais é um dos cineastas responsáveis pelo cinema tal como o vemos hoje. E “Hiroshima, Meu Amor”, sem dúvida, é uma obra seminal que ajudou a elevar a arte cinematográfica. Bem, no fim das contas, creio que não fui original, mas acabei escrevendo um texto sobre este grande filme! ;=)


Cotação e Nota: Obra-prima

domingo, 24 de outubro de 2010

"Metrópolis" em São Paulo


Reproduzo abaixo matéria do UOL:



"Metrópolis" com 30 minutos a mais é atração da Mostra de SP, no Parque do Ibirapuera


A versão original de "Metrópolis", de Fritz Lang, está de volta, numa histórica sessão ao ar livre no Auditório Ibirapuera, a primeira na América Latina. A exibição será acompanhada pela Orquestra Jazz Sinfônica e será regida por João Mauricio Galindo, executando a trilha original de Gottfried Huppertz. O horário marcado para o início é 18h30.

Em 1927, o clássico do cinema mudo recebeu sua première mundial no cinema berlinense UFA-Palast am Zoo, em 10 de janeiro. A versão restaurada pela Fundação Murnau foi exibida no 60º Festival de Berlim, em fevereiro, no portão de Brandemburgo. Agora, o público da Mostra terá a sua vez.

A mutilação desta obra monumental começou não muito depois de sua estreia. A produtora UFA retirou a cópia original após uma temporada mal-sucedida de quatro meses no cinema, lançando mais tarde, no verão daquele ano, uma versão reduzida em meia hora. Por décadas, acreditava-se que partes importantes do filme estavam irremediavelmente perdidas. Acreditava-se que um único negativo original e várias cópias da versão menor existiam.

Após a descoberta, em 2008, de um negativo em 16 mm, na Cinemateca de Buenos Aires, e a restauração de uma versão 30 minutos mais longa do que sua antecessora, "Metrópolis" pode agora ser apresentado em uma forma que reflete quase que completamente o seu original.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quero Ver Novamente #7

Acredito que todos que frequentam espaços como o "Cinema Com Pimenta" tomaram conhecimento da morte de Tony Curtis no último dia 30 de setembro. Pois bem, para corrigir a falha de ter deixado passar em branco o registro do fato aqui no blog, segue abaixo o trailer de "Quanto Mais Quente Melhor", sem dúvida um dos filmes mais engraçados de todos os tempos! Um verdadeira obra-prima do mestre Billy Wilder! Em raras oportunidades ri tanto ao ver um filme! Confira!


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Eu Quero Esse Pôster #10


Na imagem acima, um belo poster de um filme mais belo ainda, "A Aventura", clássico atemporal do mestre Michelangelo Antonioni!

domingo, 22 de agosto de 2010

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tudo Que O Céu Permite
(All That Heaven Allows)



Hipocrisia atemporal


É sempre interessante constatar como alguns filmes, apesar de produzidos há algumas décadas, não envelhecem. A despeito de alguns elementos que aparecem datados, suas temáticas centrais permanecem firmes e atuais, talvez como um perfeito registro de que a humanidade tem mesmo enorme dificuldade em superar certas limitações. É o caso de “Tudo Que O Céu Permite”, longa-metragem de 1956 dirigido por Douglas Sirk e por muitos considerado seu melhor trabalho.

Egresso do teatro, Sirk (cujo nome verdadeiro era Detlef Sierk) fez parte da onda de artistas europeus que emigraram para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial (tal como Fritz Lang, ficando apenas em um outro exemplo mais famoso), fugindo do nazismo, pois que sua esposa era judia. Dono de uma veia emotiva forte, sua obra foi por muito tempo considerada excessivamente melodramática, feita para o público feminino mais sensível se acabar em lágrimas. Apenas em meados da década de 70, ela começou a passar por uma revisão e pela percepção de que estava recheada de crítica social, talvez com o melodrama sendo usado apenas para fazer do filme um produto mais vendável.

“Tudo Que O Céu Permite” parece se inserir perfeitamente nesta afirmação. A trama mostra Cary Scott, uma simpática e bonita viúva de classe média alta, interpretada por Jane Wyman (a qual já trabalhara com Sirk anteriormente), com dois filhos já em idade universitária que costumam visitá-la nos fins de semana. Ned (William Reynolds), o mais velho, parece um esboço do que seria mais tarde conhecido como um “yuppie”, enquanto Kay (Gloria Talbott), a filha mais adolescente, tem uma aura de intelectual afeita às teorias psicanalíticas de Freud, inclusive incentivando a mãe a casar-se novamente. Apesar de cortejada por homens “bem estabelecidos” socialmente, Cary acaba se apaixonando por seu jardineiro, Ron Kirby (Rock Hudson), 15 anos mais jovem.

É aí que sobe o tom crítico às hipocrisias do “american way of life”, tão presentes nestes meios tipicamente ianques. Cary sofre o preconceito e maledicência de uma comunidade que não aceita uma mulher casar-se com um homem de classe social inferior e, de quebra, ainda bem mais jovem. Até mesmo seus filhos se colocam contra o matrimônio tão logo descobrem quem é o pretendente, havendo um enfoque especial na filha adepta de teorias elaboradas sobre o comportamento humano, mas que acaba apresentando grande dificuldade em colocá-las em prática.

Interpretado com muita competência tanto por Wyman quanto por Hudson (bom lembrar a origem teatral de Sirk, o que logicamente lhe dava uma ótima direção de atores), o casal de protagonistas fisga o público, que passa a torcer pelo amor entre os dois. Contudo, não de pode negar que há um certo tom de novela das 6 na trama, cujas cenas finais chegam mesmo a descambar para o kitsch. Claro que o culpado pela banalização de determinadas soluções não está no longa, mas em toda a profusão de telenovelas que este tipo de projeto inspirou ao longo dos anos. Mas não se pode negar que tais circunstâncias acabam deixando o filme datado em alguns aspectos. Tais aspectos datados, vale destacar, não se limitam a pontos do roteiro. O deslumbre com o Technicolor, por exemplo, transborda em algumas imagens e cenários, especialmente concebidos para agradar a um público que ainda se impressionava com o uso de cores vivas na tela (algumas cenas parecem remeter a paisagens dignas de quadros impressionistas). Por outro lado, não se pode negar que Sirk foi feliz em contrapor o meio rural onde vive Ron, representando os verdadeiros desejos de Cary, ao meio urbano representativo dos artificialismos que a oprimem.

Inspirando vários diretores posteriores, como o alemão Reiner Werner Fassbinder, este longa encontrou ecos até mesmo em obras já do século XXI, como “Longe do Paraíso”, de Todd Haynes, ou até mesmo “Foi Apenas Um Sonho”, de Sam Mendes, muito embora este último possua uma visão menos otimista (inclusive “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn, traz alguns traços que remetem, mesmo que de forma tênue, a este clássico). E é exatamente pela sua essência atemporal que ele merece ser visto. Os 89 minutos de sua exibição (filme bastante enxuto, portanto) já são suficientes para percebermos que, no fundo, a sociedade pouco mudou ao longo destas décadas.


Cotação:

Nota: 9,0

sábado, 17 de julho de 2010

Cinema Com Pimenta - 2 anos

No último domingo, 11 de julho, o Cinema Com Pimenta completou 2 anos e, por motivos de ordem pessoal (não foi apenas a Copa do Mundo, hehhehehe!), acabei deixando a data passar em branco. Minha pretensão era escrever um texto sobre "... E o Vento Levou", um dos meus filmes favoritos (está entre os 5 mais na minha lista). Entretanto, além do tempo que foi escasso, tenho grande dificuldade em escrever sobre estes filmes "maiores do que a vida". Talvez porque muito já tenha sido dito sobre os mesmos e fica aquele receio de cair no lugar-comum. Contudo, estava vasculhando a net e acabei encontrando esta matéria exibida na Bandnews quando do aniversário de 70 anos do longa. Creio que ela resume muito bem a importância e a razão de, depois de tanto tempo, "... E O Vento Levou" continuar fascinando multidões. Abaixo, como uma forma de lembrar e agradecer a todos pelos dois anos do blog, segue a matéria. Espero que todos aqueles que gostam do Cinema Com Pimenta, e também aqueles que não gostam tanto assim, continuem visitando este espaço, que foi criado devido à minha paixão pela sétima arte, desafiando os contratempos do dia a dia para continuar de pé. Um grande abraço e muito obrigado!



terça-feira, 29 de junho de 2010

Lembrando Katharine Hepburn

Hoje, 29 de junho, se completam 7 anos do falecimento de uma das maiores estrelas da história do cinema: Katharine Hepburn. Recordista de oscars, vencendo 4 ao todo, Hepburn foi eleita pela pela revista Entertainment Weekly como a "a" grande estrela da 7ª arte, deixando Audrey Hepburn em segundo (elas não eram parentes). Abaixo, em homenagem a esta grande atriz, você pode ver uma sequência de "Adivinhe Quem Vem Para o Jantar" (Guess Who's Coming To Dinner, 1967), divertida e inteligente comédia de costumes, onde dois professores universitários, interpretados por Hepburn e Spencer Tracy (o qual foi seu amante durante muitos anos e com quem fez parceria ao longo de 12 filmes), que se dizem liberais e anti-racistas, se surpreendem com a descoberta do namorado da filha, um rapaz negro (Sidney Poitier, ótimo). A atuação rendeu a Hepburn o segundo dos mecionados quatro prêmios da Academia. Se não viu, procure ver. Vale muito à pena!


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Aconteceu Naquela Noite
(It Happened One Night)


O Cravo e a Rosa


Frank Capra foi um dos primeiros diretores a conseguir o feito de colocar seu nome em destaque junto ao título do filme nos cartazes promocionais (ao lado de Alfred Hitchcock, o qual, por sua vez, teria o nome muitas vezes colocado com destaque ainda maior do que o título do longa-metragem). Capra foi um dos diretores mais queridos da Hollywood da década de 30, quando seus filmes, cheios de bom-humor e otimismo ofereciam alento para uma população que sofria duramente com uma enorme crise econômica. Dentro desta perspectiva cinematográfica, Capra se tornou um dos artífices do gênero comédia romântica, hoje já muito maltratado e exaurido por diretores e produtores medíocres. E, possivelmente, seu melhor trabalho dentro de tal gênero foi “Aconteceu Naquela Noite” (It Happened One Night), longa de 1934 que se tornou o primeiro a abocanhar os 5 prêmios principais da Academia de Hollywood: filme, diretor, roteiro, ator e atriz.

É importante frisar que, mesmo em gêneros distintos, como no drama e obra-prima “A Felicidade Não Se Compra” e nesta comédia, existe um ponto muito caro à obra de Frank Capra: a crença no caráter do homem-médio americano, a qual em “A Felicidade...” é representada à perfeição por James Stewart e seu George Bailey. Já neste “Aconteceu...”, o homem médio ianque é representado por Peter Warne, personagem do lendário Clark Gable, um jornalista que acaba de perder o emprego (como muitos da plateia dos cinemas naquela década), mas que, debaixo da couraça de durão, possui um coração solidário e romântico. Capra foi um diretor sempre preocupado com a caracterização dos personagens. Eles deviam parecer reais. As atitudes de seus protagonistas não raras vezes eram até reprováveis, mas sua essência era boa, sabendo reconhecer seus erros e procurando corrigi-los ao longo da trama. O mencionado personagem de Peter Warne não fugirá a essa regra.

Suas peripécias começam quando ele encontra, em uma viagem de ônibus, Ellie Andrews, filha de um milionário que está fugindo de casa por este ser contrário ao seu casamento com o playboy King Westley. Ellie quer chegar ao Nova York para alcançar seu objetivo, na realidade muito mais um capricho para contrariar o pai do que um ato de paixão. Óbvio que, deste encontro entre o jornalista proletário e a menina rica e mimada irá surgir uma relação entre tapas e beijos, com cada um procurando esconder os reais sentimentos que estão nutrindo pelo outro. A ideia é surrada, afinal já em Shakespeare, com “A Megera Domada”, temos uma trama em que homem e mulher que se odeiam acabam se amando depois. Mas, como se sabe, o que importa na arte não é se uma trama é reprisada, mas a forma como ela é contada. Afinal, não existe uma estória que já não tenha sido contada antes. O importante é narrá-la de forma competente. E não se pode duvidar que “Aconteceu Naquela Noite” atinge este objetivo.

O roteiro, escrito por Robert Riskin e Samule Hopkins Adams, é, por exigência do diretor, sempre atento aos pormenores, extremamente feliz no desenvolvimento dos personagens, bem como nos diálogos, espirituosos e dotados daquela guerra entre os gêneros que foi reduzida, no cinema atual, a bobagens de mau gosto que soam muito mais como sexismo (quando há, já que boa parte das comédias atualmente em cartaz nos cinemas resumem suas situações cômicas a imagens grosseiras de gosto extremamente duvidoso). E assim surgem diversas sequências que seriam muito imitadas na dramaturgia ao longo das décadas posteriores, como aquela em que Ellie exibe suas pernas para conseguir uma carona. Interessante que, mesmo tão repisadas, ditas cenas não perdem sua força no filme, que sempre se mostra orgânico e inteligente.



Claro que, para a fluidez do texto, seriam necessárias ótimas interpretações e é exatamente isso que vemos ao longo dos 105 minutos de duração do longa. Não só Gable está ótimo, como Claudette Colbert, uma atriz hoje pouco lembrada, mas muitíssimo talentosa, encontra-se excelente. A química entre os dois é perfeita, além da boa presença dos coadjuvantes. Walter Connolly, como o velho Andrews, e Roscoe Karns, como o vigarista Shapeley, dão um tempero especial à trajetória do casal rumo a Nova York.

E é assim, com a direção talentosa de Capra, um roteiro primoroso e atuações memoráveis que se fez este clássico que jamais perdeu o frescor. Um filme que consegue traduzir com bom-humor e através da imagem de um lençol que separa a dupla quando vai dormir (para que não se vejam trocando de roupa) a tênue linha que separa e atrai homens e mulheres. A guerra e o amor entre os sexos poucas vezes foram tão bem representados nas telas.

Cotação:

Nota: 10,0

sábado, 15 de maio de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Steven Spielberg – Sete filmes essenciais

O nome de Steven Spielberg se tornou sinônimo de grandes bilheterias cinematográficas, uma verdadeira grife do mercado que costuma render milhões aos cofres dos estúdios (hoje em dia, principalmente da “Dreamworks”, empresa da qual é um dos acionistas). É comum, entretanto, até devido a essa associação com o sucesso, muitos lembrarem de seus filmes como apenas entretenimento, o que está longe de ser verdade. Spielberg é um dos principais criadores, juntamente com seus companheiros da chamada “Nova Hollywood”, de uma nova linguagem cinematográfica que impera nos cinemas até hoje. Foi ele o responsável pelo surgimento do chamado “blockbuster”, aqueles filmes lançados normalmente no verão norte-americano que costumam atrair públicos gigantescos para as salas de projeção. Hoje em dia, muitos se irritam com a fórmula previsível destes filmes. Mas isso não diminui a força deste diretor seminal, o qual não pode ser responsabilizado pela falta de criatividade de seus pares. Um verdadeiro “nerd” do cinema (ele cresceu assistindo a todo tipo de filmes na TV e nos cinemas), abaixo relaciono sete filmes essenciais de sua prolífica carreira, como uma forma de dar um norte para aqueles que estão ainda iniciando. Prepare a pipoca, mas não deixe de prestar atenção também nas entrelinhas de cada película. Os filmes estão dispostos apenas em ordem cronológica, sem seguir uma preferência pessoal.

Tubarão (Jaws, 1975) – Spielberg se baseou, aqui, na premissa do seu primeiro filme, feito para a TV alguns anos antes, o peculiar e inteligente “Encurralado”. Neste, um homem comum, em viagem pelas estradas americanas, é perseguido, sem qualquer motivo aparente, por um caminhão negro e enorme. Ao longo da trama, jamais vemos quem é o motorista e as possíveis motivações jamais são elucidadas. A verdade é que o jovem diretor, então com apenas 24 anos, conseguiu criar um enorme clima de tensão e mistério, fazendo um caminhão transformar-se em um verdadeiro monstro de filme de terror. Trabalhando com esse conceito, Spielberg leva as circunstâncias para o mar, em vez da estrada, e consegue um efeito ainda mais poderoso. Na maior parte da projeção, o tubarão assassino e gigantesco não é mostrado, mexendo com o nosso inconsciente temor do que não podemos ver. As cenas em que as pessoas são devoradas causam ainda maior impacto devido à trilha macabra de John Williams, o qual se inspirou na famosa trilha de violinos que Bernard Hermann elaborou para “Psicose”, de Hitchcock. O filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria (inclusive no Brasil) e foi a partir dele que se cunhou o mencionado termo “blockbuster”.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders Of The Lost Ark, 1981) – É aqui que surge “Indiana Jones”, o mais do que famoso personagem encarnado à perfeição por Harrison Ford (que não foi o primeiro cotado para o papel, que seria de Tom Selleck), um professor universitário de Arqueologia que, nas “horas vagas”, se aventura pelo mundo em busca de artefatos históricos esquecidos/perdidos. É sabido que Spielberg, juntamente com o amigo George Lucas (que foi o produtor), tentava resgatar o clima das aventuras dos filmes “B” que eram exibidos em matinês dos cinemas em outros tempos, com seus heróis intrépidos e quase indestrutíveis que passavam por aventuras mirabolantes. E o fato é que ele conseguiu atingir plenamente seu objetivo. Ou melhor, superou. Sucesso estrondoso, o filme teria mais duas continuações, “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada”, transformando o personagem de Indy e a famosa trilha de John Williams em ícones culturais. Recentemente, tivemos mais outro exemplar da série, intitulado “O Reino da Caveira de Cristal”, o qual, todavia, não atingiu o brilho da trilogia original.


E.T. – O Extraterrestre (E.T. – The Extra-Terrestrial, 1982) – Este possui um valor especial para mim, pois foi um dos primeiros filmes que vi em uma sala de cinema. Eu tinha apenas 5 anos então e chorei muito com a partida final do famoso e pequeno extra-terrestre para o seu planeta natal. É interessante como neste longa ,que parece tão infantil, Spielberg é capaz de incutir uma das mais fortes mensagens contra qualquer tipo de preconceito (vale lembrar que o próprio diretor é judeu). Afinal, o E.T. do título, que é esquecido pela tripulação de sua nave aqui na Terra, é nanico e feinho, possuindo uma aparência que assusta em um primeiro momento. Contudo, quando se passa mais um tempo ao seu lado, ele se mostra a mais dócil de todas as criaturas, com seus olhos grandes e carentes, cheios de sentimento. Poucas cenas representam tanto a magia do cinema como aquela em que a bicicleta do menino Elliott alça vôo juntamente com o amigo de outro planeta e cruza a lua. Inesquecível para qualquer retina. Muitas vezes acho que foi essa cena que me transformou em um apaixonado pelo cinema. Obrigado, Steven Spielberg!

Obs. Prestem atenção em Drew Barrymore ainda pequenininha!


A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) – Este foi o longa que gerou toda uma onda de filmes sobre o Holocausto que se estende até hoje. Há tempos Spilberg procurava ser respeitado não apenas como realizador de filmes pipoca, mas também como um cineasta “sério”, capaz de realizar obras voltadas para um público mais “maduro”. Foi assim com “A Cor Púrpura” e “Império do Sol”, os quais não foram muito bem recebidos por público e crítica (muito embora eu considere “Império do Sol” um ótimo filme). Com “A Lista de Schidler”, entretanto, Spielberg atingiu um nível de maturidade artística ímpar, mostrando um grupo de judeus salvos da morte certa em campos de concentração por um integrante do partido nazista (interpretado por Liam Neeson em seu melhor desempenho em um filme). Fotografado com preto e branco deslumbrante, o filme causou enorme impacto por mostrar a violência nazista de uma forma nunca antes vista, com toda a sua crueza e barbárie. Vencedor de 7 Oscars, pode-se até acusá-lo de ser uma obra manipuladora, inserindo elementos não verídicos para aumentar o potencial de lágrimas na plateia, mas isso não diminui sua relevância artística e mesmo histórica. O filme transformou-se em um verdadeiro “evento” quando foi lançado (até hoje lembro da fila que enfrentei para vê-lo) e influenciou várias obras posteriores, como o igualmente ótimo “O Pianista”, de Roman Polanski.

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan. 1998) - Este não é um filme perfeito. Existe melodrama e um patriotismo meio barato em sua conclusão, mas é inegável o impacto de sua primeira meia hora de projeção. Jamais tínhamos visto tamanho realismo em cenas de guerra na sala escura. O desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante o famoso “Dia D”, ganhava cores ineditamente verídicas. Muitos críticos afirmam que a tal meia hora inicial deste longa era a melhor sequência de abertura da história da 7ª arte. Exagero ou não, a verdade é que mais uma vez Spielberg arrebentava a boca do balão e ganhou seu segundo Oscar de direção pelo feito. É deste longa que surgiu o interesse por séries como “Band Of Brothers”, produzida pelo próprio Spielberg juntamente com Tom Hanks, o protagonista deste “Soldado Ryan”, que atinge grande intensidade interpretando um capitão que comanda um grupo de soldados destacados para encontrar o tal Ryan do título (Matt Damon), o qual, por sua vez, é o último sobrevivente de quatro irmãos, todos mortos na guerra. Se você ainda não viu a mencionada sequência inicial, assista o quanto antes.




Prenda-me Se For Capaz – (Catc
h Me If You Can, 2002) – Um dos meus favoritos de Spielberg, aqui o diretor inicia um novo tipo de abordagem, mais ameno e menos espetacular ou grandioso, para contar a história real do falsário Frank Abagnale, o qual ludibriou a companhias aéreas durante anos a fio, falsificando passagens e até mesmo fazendo-se passar por piloto. Era ainda um especialista em falsificar cheques e, depois de um período na prisão, acabou se tornando um especialista do FBI na área. Divertido e despretensioso, nesta obra Spielberg realiza o seu filme de atores, com ótimas atuações de Tom Hanks (que hoje em dia parece que esqueceu de atuar) e, principalmente, Leonardo DiCaprio, o qual dá um show como o protagonista. A trilha de John Williams também está particularmente inspirada (observem bem na sequência dos créditos iniciais, que é ótima). Spielberg repetiria a fórmula do longa, em estilo e acabamento, com “O Terminal”, também com Hanks, mas o resultado não foi tão especial quanto aqui.





Munique (Munich, 2005) – Talvez o mais “frio” longa do cineasta. De forma seca e objetiva (e violenta), sem apelar para aspectos emocionais, ele mete o bedelho no conflito entre árabes e israelenses na Palestina. Seu ponto de partida é o atentado terrorista durante a Olimpíada de Munique, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses, ao qual se seguiu uma reação do Mossad, o serviço secreto de Israel, no mesmo patamar de violência. Eric Bana faz um desses agentes judeus e representa as reflexões e dilemas vividos por seu povo. Aplaudido pela crítica, o filme acabou não indo bem de bilheteria, talvez porque o público não esperasse um filme tão político vindo do cineasta (o que com certeza influenciou para que fosse esquecido pela Academia). Contudo, talvez Spielberg nunca tenha se mostrado tão maduro quanto neste trabalho.

Obs. Vejam lá o Daniel Craig, como um dos agentes do Mossad, antes de se tornar o famoso agente 007.


Ah, e bons spielbergs pra você!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

"Metropolis" - Versão restaurada e extendida tem trailer na web

"Metropolis" é um dos grandes marcos não só do gênero ficção-científica, mas do cinema como um todo. Uma das obras-primas de Fritz Lang, mestre do expressionimo alemão, o longa (mudo) constrói uma perfeita alegoria de um futuro não muito promissor, traçando uma crítica direta à sociedade de classes. Recentemente, um novo rolo do filme, com 25 minutos de imagens que estavam perdidas (o longa sofreu muito durante o domínio nazista na Alemanha e no transcorrer da Segunda Guerra), foi encontrado na Argentina, passando por um processo de restauração. O resultado foi exibido no último Festival de Berlim em frente ao Portão de Brandemburgo e agora teve um trailer realizado pela Kino International. Esta versão será exibida dia 14/05 nos EUA e deverá ser lançada em DVD e Blu-Ray. Mas não esperem que seja exibida nos cinemas brasileiros. Acho que é pedir demais... Confiram abaixo.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Quero Ver Novamente # 2

Há exatos 30 anos morreu Alfred Hitchcock, provavelmente o mais famoso diretor de cinema de todos os tempos*. Um gênio absoluto! Mesmo quem não tem muita intimidade com assuntos cinematográficos já ouviu falar no diretor e provavelmente já assistiu a pelo menos um dos filmes de sua extensa obra. Abaixo, segue uma das mais famosas sequências da história, lembrada até mesmo por quem nunca viu o filme – e é bom recordar que, em 2010, “Psicose” também está completando uma data redonda: 50 anos. As imagens falam por si só. Se você quiser dicas sobre 7 obras essenciais do mestre do suspense, clique aqui e terá acesso a uma lista elaborada pelo Cinema com Pimenta há algum tempo. A sétima arte em estado puro!




* Chaplin talvez seja mais famoso, mas também era ator o que contribuiu para a sua imagem mítica.

domingo, 18 de abril de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Um Lugar Ao Sol
(A Place In The Sun)


Obra-prima trágica sobre a sociedade americana

Sabe aquele filme adorado pela crítica que você imaginava que era muito bom e, depois de vê-lo, você chega à conclusão de que é mesmo tudo que falavam dele? Pois bem, esse é o caso de “Um Lugar Ao Sol”, um dos clássicos absolutos da era de ouro de Hollywood. Dirigido brilhantemente por George Stevens, um dos grandes diretores deste período, trata-se de uma adaptação para as telas do livro “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser, o qual, por sua vez, havia se inspirado em um caso real bastante conhecido nos EUA do início do século XX.

É sabido que o romance possuía contornos de crítica social ainda mais fortes do que a versão cinematográfica. Stevens teve que realizar adaptações para deixar o material mais palatável ao público (e também fugir da censura cada vez mais castradora dos EUA no início dos anos 50). Entretanto, talvez tais concessões sejam justamente as responsáveis pelo longa ter resultado repleto de tanto brilho, apto a cativar plateias de qualquer época. Para tanto, Stevens investiu no lado romântico do trágico personagem de George Eastman (Montgomery Clift, então com 29 anos) um rapaz de família pobre que busca a ajuda do tio empresário e milionário para conseguir um trabalho decente. É interessante como Clift consegue, muitas vezes através apenas de pequenas nuances de expressão, mostrar como George se sente deslocado e ao mesmo tempo deslumbrado diante do mundo fausto dos seus parentes ricos. Sua inadequação ao novo meio é tão grande que, logo de início, infringe uma das regras básicas das indústrias Eastman, envolvendo-se com uma de suas empregadas, Alice Tripp, interpretada pela ótima Shelley Winters. Curioso que Winters era conhecida por encarnar papéis de mulheres sensuais e a sua personagem aqui é quase o oposto, uma trabalhadora braçal cansada e sem glamour. Todavia, hoje percebe-se o quanto a opção de Stevens foi realmente acertada, assim como foi perfeita a escolha da então adolescente Elizabeth Taylor (com apenas 17 anos) para o papel de Ângela Vickers, a integrante da alta sociedade por quem George acaba perdidamente apaixonado. Liz Taylor se assemelha a uma deusa andando por entre os simples mortais, e fica difícil censurar o jovem Eastman pelo seu rápido desencanto com Alice e total envolvimento com Ângela, tamanha a beleza desta (e ainda caindo de amores pelo rapaz...). Além disso, Ângela representa não apenas o seu ideal de beleza, mas também o mundo do qual gostaria de participar.


Tal contraposição entre o mundo real de George e a sua vida de sonho é exemplificada de forma bastante perspicaz pelo roteiro ao abordar o dia de aniversário do protagonista. Alice havia preparado uma pequena comemoração no quarto de pensão onde mora. George, entretanto, é convidado por seu tio para uma festa em sua casa. Em tal festa, George tem o primeiro contato mais próximo com Ângela, inclusive dançando com a mesma. Depois de horas de atraso, chega ao quarto de Alice. Não é necessário ser qualquer expert em cinema para notar a diferença de sedução que os dois ambientes exercem. O quarto de Alice é tudo aquilo que George quer afastar definitivamente de sua vida, muito embora busque esconder tal desejo até de si mesmo.


Bom ressaltar que vários são os outros momentos geniais de Stevens na condução do longa-metragem. Em vários momentos, marcadamente os que mostram a relação de Eastman com Alice, a fotografia lembra a do cinema noir, utilizando-se do famoso chiaroescuro, enquanto outros são dotados de uma luminosidade belíssima, usada quando das vivências do personagem na alta sociedade. Alguns dos enquadramentos utilizados por Stevens foram mesmo revolucionários, colocando a câmera sobre os ombros dos personagens e realizando um super-close, quase desfocado, recurso que seria muito imitado a partir daí. Bom lembrar que Stevens começou sua carreira no cinema exatamente como fotógrafo e que serviu às forças armadas dos EUA durante a Segunda Guerra realizando documentários das ações americanas na Europa (filmou o desembarque na Normandia e a chegada das tropas ao campo de concentração de Dachau, por exemplo). Natural então que suas obras possuam uma fotografia destacada e não nego o especial apreço que possuo por tramas muito bem desenvolvidas imageticamente (afinal, cinema é imagem).

Por outro lado, o filme nos mostra George com extrema compaixão e é assim como percebemos que o sistema acaba sendo muito mais responsável pelo fim trágico que se anuncia. Alice fica grávida ao mesmo tempo em que George pensava em deixá-la e ele não sabe mais como resolver o problema, levando-o a cogitar sobre atitudes extremas. Todavia, Eastman é apenas uma rapaz ingênuo que é seduzido por um mundo do qual não faz parte e que não está preparado para enfrentar. De forma irônica, entretanto, a culpa pelo fim trágico recai apenas sobre os seus ombros, na realidade muito mais uma vítima das circunstâncias do que um algoz indiferente. Engenhosamente, ademais, o julgamento final é dado pelo espectador, já que algumas informações cruciais são sonegadas para que este não saiba o que de fato aconteceu no desenrolar dos eventos.

O filme acabou levando 6 estatuetas no Oscar de 1952, incluindo melhor direção e roteiro (escrito impecavelmente por Michael Wilson e Harry Brown) e é o primeiro da trilogia de Stevens sobre a formação dos Estados Unidos da América (os outros dois seguintes são “Os Brutos Também Amam” e “Assim Caminha a Humanidade”). Contudo, talvez esta seja mesmo sua grande obra-prima, dona de um impacto ímpar na história do cinema. Reza a lenda que, ao terminar de assistir ao longa, Charles Chaplin teria dito que este era o melhor filme que ele tinha visto em toda sua vida. Preciso dizer mais alguma coisa?


Cotação e nota: Obra-prima.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Musas do Escurinho #14


Na realidade, esta é uma "edição especial" da série para lembrar uma data marcante: há exatos 20 anos, no dia 15 de abril de 1990, faleceu Greta Luvisa Gustafson, mais conhecida pelo seu nome artístico: Greta Garbo. Abaixo a sequência de "Grande Hotel" onde ela profere a famosa frase que se transformaria no epitáfio da sua vida: "I want to be alone" (eu quero estar sozinha). E Garbo (seu sobrenome tornou-se até nome de loja no Brasil, no auge de sua fama) realmente terminou como queria: sozinha, mas jamais esquecida.


terça-feira, 6 de abril de 2010

Quero Ver Novamente # 1

Inauguro aqui uma nova série, destinada a vermos e revermos aquilo que é a essência do cinema: cenas inesquecíveis! Para abrir a série, escolhi uma cena especial com a incrível, única e inesquecível Audrey Hepburn. Trata-se de Holly Golightly, sua personagem em "Bonequinha de Luxo" ("Breakfast at Tiffany's"), cantando "Moon River", canção memorável composta por Henry Mancini. Você vai querer ver novamente! Isso é cinema! ;=)


segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu quero esse pôster # 6


Um belo poster para uma poesia em forma de cinema: "Luzes da Cidade". Obrigado, Charles Chaplin! Gênio Eterno!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

No Carnaval 2010

Como sempre, o período do carnaval é proveitoso para apreciar muitos filmes, realizando uma boa atualização no repertório cinematográfico. Neste ano, não está sendo diferente e, abaixo, seguem comentários sobre cada um dos filmes que vi nestes dias de Momo e lindas seminuas na TV. Já que não pude ir a Berlim, vou realizando meu próprio festival em casa.


A Sombra de Uma Dúvida (Shadow Of a Doubt, 1943) – Mais um clássico de Alfred Hitchcock. Na famosa entrevista que o mesmo concedeu a François Truffaut, o velho Hitch afirmou que esse era seu filme preferido, sua melhor realização dentro de sua prolífica carreira. A trama mostra o cotidiano de uma família típica americana que tem sua rotina transformada pela chegada do tio Charlie (Joseph Cotton, ótimo). Ele é uma espécie de ídolo da jovem sobrinha homônima Charlie (Teresa Wright), a qual aos poucos vai descobrindo que seu tio não é um homem tão espetacular quanto imaginava e que, ademais, pode ser um assassino de viúvas ricas procurado pela polícia. Um estudo psicológico extremamente interessante, “Shadow Of a Doubt” serve de amálgama de todas a experiências cotidianas do conhecer aquele que está a seu lado. Afinal, construção e destruição de imagens acontecem a todo momento em nossas vidas. E descobrir as facetas ocultas e desagradáveis daqueles de quem nos aproximamos é sempre doloroso. Destaque ainda para trilha sonora perfeita de Dimitri Tiomkin (aliás, como é o hábito nos filmes de Hitchcock, a trilha sonora mereceria um texto à parte). Vou apenas discordar do velho mestre e afirmar que esse não é seu melhor trabalho, muito embora seja realmente ótimo. O problema é que, em uma carreira com várias obras-primas, o ótimo acaba sendo abaixo do seu potencial.

Nota: 9,5


A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953) – Um daqueles filmes que descobrimos porque é considerado um clássico. Este foi o longa-metragem que elevou Audrey Hepburn, até então uma atriz que nunca tinha assumido um papel de protagonista, à condição de estrela, levando um Oscar por esta atuação e assumindo um lugar entre as mais memoráveis atrizes de Hollywood. Ao lado de Gregory Peck, ela protagoniza essa divertida e inteligente comédia romântica, cujo roteiro de Dalton Trumbo (que só assumiu o crédito depois de décadas, uma vez que fazia parte da lista negra do macarthismo) mostra uma princesa cansada de sua vida cheia de regras e compromissos, jamais tendo oportunidade de fazer o que realmente quer. Em uma visita a Roma, ela acaba escapando de seus assessores e seguranças para viver um dia como uma mulher comum na capital italiana. Ela acaba esbarrando com o jornalista Joe Bradley (Peck), o qual inicialmente vê na situação a oportunidade de realizar a matéria de sua vida. Entretanto, aos poucos ele percebe que está se apaixonando pela princesa e se sente mal por abusar de sua inocência em proveito próprio. Muito embora alguns possam acusar o filme de um certo excesso romântico, afinal eles se apaixonam no curto período de 24 horas, também é verdade que tal relação não é de todo inverossímil, principalmente pelo lado da princesa, que jamais havia tido qualquer relação mais próxima com um homem. O longa foi rodado inteiramente em Roma, sob a direção sempre competente de William Wyler, um ótimo diretor de atores (vale lembrar que ele é o diretor de “Ben-Hur”) e ainda conta com a ótima presença de Eddie Albert como o fotógrafo que ajuda Bradley na tentativa do “furo”. Filme para ter na coleção.

Nota: 9,5


Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) – Paul Thomas Anderson é, seguramente, um dos mais talentosos cineastas em atividade (ele é o diretor de “Magnólia”, filme que, se você ainda viu, não sabe o que está perdendo) e demonstra tal afirmação por meio deste soberbo filme que levou Daniel Day-Lewis ao seu segundo Oscar de melhor ator. De forma enérgica, adaptando o livro “Oil”, de Upton Sinclair, ele constrói uma perfeita alegoria da marcha do capitalismo na formação dos Estados Unidos. Para tanto, utiliza-se do personagem Daniel Plainview (Day-Lewis perfeito), a representação em carne e osso do capital e força individualista que levaram os EUA à sua pujança econômica, mas que ao mesmo tempo selaram o destino de instituições como a família e a religião, elementos que Plainview utiliza da forma que lhe convém através das figuras de seu filho adotivo H.W. e do pastor Elli. A força do filme não se limita ao roteiro excepcional, mas ainda à fotografia brilhante e à trilha sonora inovadora de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Contudo, é bom advertir que este não é um longa de fácil degustação, não agradando a todos os gostos, até mesmo porque trata de um protagonista que está longe de ser um modelo de caráter. Um trabalho que permite múltiplas leituras, sendo possível escrever mais de um texto analítico sobre o mesmo. Talvez algum dia eu me debruce sobre esta tarefa complicada, mas necessária.

Nota: 10,0

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009) – Esse eu vi na sala de cinema, em sessão de arte. Vencedor do Festival de Berlim 2009, o longa é dirigido por Claudia Llosa (neta do Mario Vargas) que mostra um futuro extremamente promissor na carreira. A trama trata de temas caros aos peruanos ao mostrar a realidade de mulheres herdeiras de traumas advindos dos tempos da atuação forte de grupos como o Sendero Luminoso, que os peruanos denominam de época do “terrorismo”. A crença popular diz que as mulheres vítimas dos freqüentes estupros deste período transmitiam às filhas, através do leite, uma doença conhecida como a “teta assustada”. Uma das vítimas de tal doença seria Fausta (a novata Magaly Solier, ótima), que tem uma batata colocada na vagina como forma de evitar possíveis estupros, providência tomada por sua mãe, estuprada durante o período do terrorismo. A genitora acabou lhe transmitindo também um medo atávico a homens, os quais vê sempre como potenciais estupradores. O filme desenvolve, de forma sóbria, uma metáfora para mostrar que o Peru precisa se libertar do passado, principalmente através da simbologia da mãe que precisa ser sepultada na terra de seus antepassados. Interessante, ainda, observar alguns aspectos da cultura peruana como seus cafonas, mas também alegres e divertidos casamentos. O filme peca, apenas, por apresentar algumas excessivas elipses narrativas que deixam o espectador sem saber realmente o que aconteceu em algumas passagens, um tique de alguns diretores do cinema denominado de “arte”, que adotam a teoria besta desenvolvida por alguns críticos de que o “espectador é inteligente” e não é necessário que se mostre tudo. Alfred Hitchcock deve se remexer no túmulo ao ouvir tamanhas sandices. De qualquer forma, um bom filme que merece a indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Vamos ver se ele derruba “A Fita Branca”, de Michael Haneke.

Nota: 9,0